Orlög
13 Fell In Love With The Weakness Within Me
Notas iniciais
O que veio a seguir não foi um sonho comum para nenhum dos dois.
Seus corpos, próximos e ainda desnudados, jaziam inertes sobre o piso e revelavam o estado incônscio em que Laura e Loki se encontravam naquele instante, ambas as consciências varridas para bem longe de suas matérias.
Num tempo distante, como se a própria deusa norne do passado lhes sussurrasse em segredo as antigas verdades, que eram contadas separadamente a cada um.
Os dedos da Pistoleira tremelicavam de leve, em breves contrações musculares que estavam muito longe de sua percepção. No sonho, Laura via a versão criança de Loki — quem ela imediatamente reconheceu através dos olhos verdes, tão intensos e espertos já naquela idade — lidando com diversos tipos de frustrações.
Com várias formas de rejeições, algumas pequenas e quase imperceptíveis, porém todas repletas de significado.
Viu o menino na maioria do tempo acompanhado de uma robusta criança loira que já na infância parecia venerá-lo, sem reservas em seu sentimento infantil e inocente. Também teve vislumbres de Loki sozinho, estes últimos tecendo os piores cenários tamanha a tristeza que se percebia através da criança, aqueles sendo os principais momentos em que ela se permitia demonstrar seu abalo emocional. Sempre os olhos dizendo tudo aquilo que os lábios mantinham em silêncio.
Junto às crianças, em algumas situações havia também a presença de uma mulher esguia que prometia apenas gentilezas, seus orbes cobaltos reluzindo um amor infinito e igual por aquelas duas crianças. Laura, em contrapartida, percebeu ainda um homem que exalava rigidez, seus comentários sempre dispostos a deixar claro o favoritismo que dedicava ao menino que aparentava ser mais velho.
O lugar era todo revestido das mais diversas riquezas, estas se sobressaindo pela extensão do ambiente como donas da beleza mais singular já vista, incluídas com assertividade em meio ao conjunto de todo deslumbrante. O tipo de cenário que a Pistoleira sabia pertencer aos seus mais inspirados sonhos, muito distante de sua realidade.
Espectadora durante todo o tempo, Laura presenciou cenas diversas.
Loki em sua versão infantil inserido no imenso salão dourado, sofrendo reprimendas que nitidamente o magoavam, porém que não pareciam em nenhum momento surpreendê-lo.
Loki, ainda criança, acompanhado do outro menino e do homem mais idoso com seus ares intolerantes, os três defronte à maior e mais magnífica árvore que a mulher já testemunhara na vida, seus galhos grossos se unindo ao tronco robusto num espiral elegante. As folhas de um esverdeado sadio contrastando tonalidades dessa mesma cor com a vegetação rica que a envolvia.
Uma espécie de rio parecia nascer de suas raízes, e Laura, por um breve segundo, pôde jurar que viu uma menina, uma mulher e uma velha espiando de dentro da árvore, olhando diretamente para seu rosto com infinita compreensão. Laura piscou, atordoada, e logo a visão se desfez, tão subitamente quanto surgira.
O que antes lhe pareceram três pares de olhos agora não passavam de desenhos irregulares no tronco amarronzado da árvore, as grosseiras ranhuras em seus entornos parecendo pouco convincentes ao sumir com a intensidade tão viva daqueles olhares.
Naquele mesmo cenário estonteante, Laura viu o menino completamente só, os verdes orbes se transformando em algo mais rude quando matou um corvo por suas próprias mãos. Olhos que antes se banhavam numa amargura aberta, naquele milésimo de segundo se aproximando um pouco mais daquilo que se tornariam na idade adulta.
Foi extremamente fácil para Laura, naquele momento em específico, ver os traços mais maduros pedindo espaço por trás da feição infantil.
As visões prosseguiram para muito além, distante daquele mundo que sustentava seu corpo imerso em lembranças que não viveu. Da mesma forma, Loki também a via em sua inconsciência, resoluto ao cenário que se abria perante o jotun.
Muito menos disposto a se deslumbrar com o ambiente à volta que lhe era mostrado, o deus da trapaça apenas percebia Laura naquele contexto de sua imaturidade infantil. Aquela menina miúda chegando ao seu entendimento como um perfeito espectro da mulher que conhecera. Daquela que mais uma vez vinha a si em sonhos, dessa vez num contexto diferente, com ela exposta ao asgardiano, e não o contrário.
Loki, apesar de apreciar o conhecimento num grau que nunca seria plenamente compreendido pela maioria dos Æsires, preferia jamais ter tido acesso ao que o orlög agora lhe confidenciava...

Era uma criança vivaz, carregando nos olhos o mesmo brilho esperto que tão facilmente se via em sua versão adulta.
A inconfundível menina se esgueirava por vielas porcas de um ambiente irreconhecível ao jotun, correndo agilmente por esquinas tão mal cuidadas quanto os semblantes exauridos daqueles que passavam em menor velocidade, sem tanta disposição.
Levava por baixo da camisa surrada um volume extra que mantinha seguro ao rodear os dois braços sobre ele, como se protegesse com suas mirradas mãos o artefato mais poderoso do universo.
Suas pernas, apesar de magras, a conduziam num ritmo fantástico pelas ruas que parecia conhecer bem. Nem ao menos precisava olhar com atenção para se desvencilhar dos obstáculos e buracos que podiam, cedo ou tarde, levá-la a uma iminente queda. Loki instintivamente olhou ao redor, esperando que outras crianças viessem ao seu encalço numa típica brincadeira infantil...
...Percebendo tardiamente que a menina corria por necessidade, e não por diversão.
Intrigado por constatar que Laura era a única criança dali, Loki foi atrás da menina, levemente consciente de que se não tomasse aquela atitude por si mesmo, seria arrastado à força pelas vontades próprias daquele sonho tão diferente dos que estava habituado.
Percebeu-a frear sua corrida, arfando diante de uma porta toda comida por cupins nas beiradas e ligeiramente torta em sua conformação. Laura espiou uma última vez os lados quietos da rua esburacada, demorando um pouco mais os olhos em Loki apesar de não parecer vê-lo. Entretanto, aquele milésimo de segundo em que a menina cravou os orbes certeiros em sua direção trouxeram a ele um arrepio pouco bem vindo, como se ela intuísse estar sendo espionada pelo deus que ainda surgiria em seus sonhos e, um pouco mais tarde, em sua vida.
Satisfeita com a solidão que acreditava engolfá-la, a pequena Laura fechou a porta com certa pressa, e Loki comprovou sua teoria ao ser transportado de imediato à presença da menina assim que ela sumiu do seu alcance visual.
Uma expressão enojada subiu ao rosto divino quando se deparou com a realidade deplorável das instalações, se é que podiam ser chamadas daquela forma. O lugar era sujo, desarrumado e carente. Os poucos móveis em petição de miséria prestes a ruir, as paredes avisando o perigo das rachaduras profundas que se encontravam em vários pontos do concreto, o cheiro desagradável de esgoto — em concomitância com outros odores que Loki não foi capaz de identificar — tão impregnado no ambiente que respirar tornou-se um verdadeiro suplício. Porém, apesar de todo o conjunto desfavorável, foi um choro potente que mais chamou sua atenção e o incomodou ao entrar naquele deplorável recinto.
Um bebê contorcia-se sobre um pano encardido ao chão, agitando braços e pernas ao ritmo de suas reclamações ávidas.
Laura foi até ele, tirando tudo o que havia escondido dentro da blusa grande demais para ela, por sinal, e pegando no colo a criança aos prantos. O som dos soluços se abrandou de leve à medida que o bebê apoiou a cabeça no ombro magro de Laura, que tentava niná-lo em movimentos suaves.
— Calma, maninha. Eu trouxe o café da manhã...— Avisou, não suportando aquele choro desesperado de sofrimento da pequena irmã. — Aguenta aí! — Colocou-a com delicadeza sobre uma mesa que rangia à menor pressão extra, abrindo a caixa de leite trazida e despejando o líquido branco até que enchesse a mamadeira que um dia pertenceu à Laura.
"Seria bom racionar a comida, mas foda-se" — Pensou com alguma fúria, fazendo questão de alimentar a irmã o melhor que fosse capaz. Sempre daria à pequena Luisa o máximo de si, mesmo que seu melhor muitas vezes fosse insuficiente.
Sentou a criança em seu colo, percebendo com um nó no peito o afã desesperado que a irmã demonstrou pelo bico da mamadeira, sua sede muito bem elucidada até mesmo pelo manifesto dos bracinhos curtos que se projetavam à frente, implorando pelo alimento. O choro se calou à medida que seus pequenos lábios se ocupavam em chupar o líquido, apenas alguns soluços fazendo seu desnutrido corpo sacolejar de vez em quando, como um lembrete precoce da fome que ainda voltaria a sentir.
Afinal, ela sempre retornava.
Um pensamento amargo se fez presente nas considerações da garota, a reflexão desagradável muito comum de surgir naquelas ocasiões não raras em que Laura se sentia muito mais mãe de Luisa do que simplesmente irmã.
"Como eu consegui sobreviver à nossa mãe, Lulu?"
A mamadeira se esvaziou em tempo recordista, e somente quando Laura conseguiu fazer com que a menina arrotasse, colocou-a de volta sobre o pano, prometendo que muito em breve estaria de volta. Recebeu como resposta um último resquício de choro antes que sua pequena irmã adormecesse, permitindo-se ser conduzida pelo torpor que vinha seguido à atípica sensação de saciedade.
Laura, também faminta, engoliu um pedaço de pão sem nem consentir a si mesma o luxo de mastigar, juntando as migalhas que se desprenderam de sua primeira mordida e devorando-as junto a um novo pedaço, que parecia grande demais para caber em sua boca. Metade do pão se foi em apenas duas bocadas, e a criança olhou desejosa para o resto enquanto engolia o pobre café da manhã, porém o ignorou sobre a mesa, considerando que a mãe também deveria estar com fome. Caminhou por um corredor estreito em busca da mulher, ainda sentindo a barriga roncar.
Loki inevitavelmente recordou-se com amargura dos banquetes servidos e desperdiçados em Asgard, e nem mesmo seu desprezo controverso por aquela humana foi capaz de envenenar esse pensamento quase envergonhado.
Indisposto a refletir muito sobre o assunto, o jotun limitou-se a segui-la, percebendo que logo o corpo da menina estancou, rígido.
Laura flagrou a mãe montando, já com destreza duvidosa em seus movimentos, uma carreira de um pó branco que a garota conhecia muito bem. Estava ao lado de um homem cuja presença naquela casa vinha sendo recorrente, ambos nus e se deixando levar por interesses distintos. A mulher completamente focada na cocaína que já aspirava com inegável paixão, como se aquele pó branco guardasse o último oxigênio disponível da Terra. O homem, em contrapartida, aproveitando-se da inércia do corpo feminino, usando-o para seu próprio prazer e deleite pessoal.
Completamente drogada, a mãe de Laura e Luisa não chegou a perceber, e tampouco se importou, com o momento em que o homem arrastou suas pernas obedientes, abrindo-as para que pudesse propelir seu membro rígido para dentro daquele corpo tomado por obediência, de todo indiferente a qualquer estímulo que não fosse o efeito do narcótico.
Laura soltou uma exclamação alta, incapaz de conter-se na presença daquela cena perturbadora. O homem percebeu a menina ali apenas naquele instante, virando um rosto sorridente e extasiado em sua direção, analisando-a de cima a baixo com um interesse doentio, apesar de seu corpo ainda infantil.
— Quer provar um pirulito, boneca? — Questionou, expondo maldosamente o pênis endurecido e soltando uma gargalhada furiosa assim que a menina se pôs a correr em disparada, já com lágrimas banhando os olhos negros e fatigados demais para a idade tão tenra.
Loki sobressaltou-se ao perceber o espaço à sua volta se reconstruindo, levando-o para um tempo que julgou ser um pouco adiante nas lembranças de Laura.
●•●•●
Sua mãe, Cristina Delgado, nunca fora um exemplo de responsabilidade, muito menos de retidão. Em seus dez anos recém completados de vida, Laura sempre percebeu a si mesma como uma criança negligenciada, deixada à própria sorte por uma mãe que a vida inteira precisou concentrar todas as forças nas próprias necessidades e interesses.
Com o tempo, inclusive, Laura desistiu de perguntar sobre seu pai, percebendo que Cristina não fazia a mais remota ideia de quem poderia ser, diferente do pai de Luisa, que era quase certo se tratar de Ramirez. Por mais que a mulher tentasse inventar histórias mirabolantes a respeito da descendência paterna de Laura, o assunto sempre lhe trazia um ar confuso de quem não sabe o que diz, as histórias inventadas nunca batendo com a anterior.
Nos momentos de lucidez — que com o passar de cada ano se tornavam mais escassos — até demonstrava algum apreço pela menina que, desde muito cedo, teve que aprender a se virar pelas ruas cruéis de San Pedro Sula, Honduras, e passou a sustentar a casa com o alimento roubado ou, quando tinha sorte, dado por caridade.
Depois de alimentar a bebê que já dormia, a garota preparava uma sopa rala com os restos de carne de segunda que o açougueiro lhe deu por já ter passado vários dias do prazo de validade. Não trocara uma única palavra com a mãe desde que a vira sucumbir às drogas mesmo após tantas promessas de que, por ela e pela irmã, pararia. Em sua mente, fantasiava o dia em que reuniria toda a coragem necessária para pegar Luisa e fugir de vez daquela casa...
...Entretanto, sabia que quando esse momento chegasse, sua mãe não duraria mais do que alguns dias por sua própria conta. Apenas por isso ainda hesitava. E também por outra notícia, que chegou naquela noite e trouxe alguma expectativa à menina que ainda se permitia o erro de sonhar, mesmo em meio a tantas adversidades.
A futura Pistoleira se empertigou ao ouvir a voz mais sóbria da sua mãe enquanto servia a ela o jantar, resignada.
— Ramirez ampliou os negócios... — Cristina comentou com algum entusiasmo e hesitação, referindo-se ao homem nojento que Laura pegou transando com sua mãe dopada, o possível pai de sua meia irmã. A menina lutou contra a vontade de revirar os olhos, sabendo bem o tipo de negócios conduzidos por aquele traficante.
— Legal... — Respondeu com simplicidade resoluta, dando de ombros com notório desinteresse, agora ela se servindo de uma porção da sopa.
— Ele vai levar a gente com ele 'pros Estados Unidos. Lá a nossa vida vai melhorar, eu juro! — Fez mais uma das tantas promessas infundadas que adorava verbalizar, e as sobrancelhas de Laura se ergueram em direção à mãe, encarando-a nos olhos depois de um longo tempo seguido de silêncio.
"Como será que você pagou por essa viagem, mamãe?" — Lutou para que a pergunta retórica não ultrapassasse os limites do pensamento, e ao mesmo tempo não soube esconder o interesse que a invadiu ao se imaginar deixando aquele lugar. Sumindo de vez com Luisa num país desconhecido, onde sequer saberiam por onde começar a procurá-las.
A mãe percebeu esse interesse e um sorriso amplo, honesto como há tempos Laura não via, tomou conta de seu rosto.
— Vamos pegar alguns ônibus 'pra Cancún e de lá um barco de pesca que vai até o Texas... — Prosseguiu, animada, despejando suas expectativas ludibriadas na filha, que não mais se permitia enganar tão fácil. Ainda mais se tratando de palavras proferidas pela mãe, que normalmente se mostravam delírios — A viagem não vai ser das melhores, mas assim que a gente desembarcar temos uma chance de recomeçar em outro lugar.
— Recomeçar o quê? — Finalmente enfezou-se de um modo que não poderia mais ignorar, largando a refeição ainda inacabada daquela sopa aguada e sem sabor. Naquele único instante, o peso de todos os anos de indiferença pareceu dobrar sobre seus ombros — Uma chapada atrás da outra?
Acordou Luisa ao pegá-la no colo, enfurecida, e saiu de casa tendo por vislumbre o último olhar consciente de sua mãe. Um olhar afogado em mágoa, que até aquele minuto estava disposto a tentar melhorar pelas filhas. Mas que agora experimentava uma necessidade sôfrega de mais uma vez se embaçar com os efeitos de sua mais fiel companheira.
Aquela que nunca a julgaria. A única capaz de conviver consigo sem quaisquer entraves.
Uma última dose, talvez...
Loki foi contemplado com mais algumas visões aleatórias antes do momento da viagem combinada, e percebeu com fúria incontida o homem a quem chamavam de Ramirez frequentemente lançando olhares desejosos e sorrisos debochados à sua ninfa de ébano, que até então não passava de uma criança de curvas imaturas, nada atraentes para alguém de mente sadia. Uma criança que teve arrancada de si cada aspecto de sua inocência cedo demais.
Assim como ele mesmo teve, quando se percebeu soterrado por mentiras e farsantes.
Não houve qualquer contratempo, Loki percebeu, enquanto a viagem ocorria sobre as estranhas carruagens metálicas que atravessavam estradas de qualidade questionável. Os solavancos eram corriqueiros, mas todos ali já pareciam muito bem habituados àquela situação apesar do desconforto.
Os problemas chegaram, um atrás do outro, quando se deu o embarque no suposto barco pesqueiro.
Mal tiveram tempo de se encantar com as belezas naturais de Cancún ao chegarem lá após dias enfurnados dentro de um ônibus. Estavam todos desgastados pela viagem, cientes em sua maioria de que o pior ainda estava por vir, essa certeza mais carregada nas expressões daqueles que se dedicavam a contabilizar, ainda que numa estimativa pouco precisa, o número de pessoas com quem dividiriam um espaço deveras pequeno.
Já era madrugada quando centenas de migrantes começaram a embarcar rumo à terra que lhes prometia tantas esperanças, ansiando por dias um pouco melhores. Mal sabiam que se entregavam de bom grado aos piores de suas vidas um tanto miseráveis. Boa parte dessas vidas, inclusive, predestinada a acabar ali mesmo.
Laura segurava Luisa em torno de braços protetores. Os olhos desconfiados, pouco condizentes com seus traços de menina, analisando cada passageiro. Percebeu que a esmagadora maioria era composta por mulheres e crianças, e o fato não chegou a surpreendê-la. De onde vinha, era comum que os homens abandonassem essas mesmas mulheres, renegando tanto as esposas quanto os filhos gerados para ir em busca de seus próprios caminhos solitários.
Ela fitou por um instante a mãe que tropeçava alguns passos ao seu lado, percebendo o olhar perdido que as drogas sempre lhe conferiam. A mulher andava trôpega com a ajuda de Ramirez, que por vezes deixava escapar um brilho pernicioso nas íris escuras ao contemplar sua inusitada tripulação. Desviou o olhar, não suportando mantê-lo naquele homem por muito tempo.
Sempre se lembraria da imagem atormentadora do pênis à mostra, sendo oferecido à ela em meio àquele sorriso sádico, nojento, de um deboche cruel.
Os músculos da menina já estavam exauridos pelo esforço de sustentar o peso de sua irmã por todo o tempo, todavia, em momento algum cogitou entregá-la à mãe. Não o faria nem se Cristina estivesse sóbria, que dirá chapada na intensidade com que aparentava.
Foram conduzidos por uma passagem bem camuflada no convés, e a partir de então os passageiros, aqueles que tentariam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, ficaram espremidos num porão escuro e malcheiroso durante todo o trajeto, sem lugar específico para aliviar suas necessidades ou respirar alguma sobra de ar puro.
Sem o mínimo de liberdade para, dali por diante, fazer suas próprias escolhas, ou mesmo se permitir ter alguma.
Assim que se distanciaram o suficiente de Cancún para atingir os limites do longínquo mar, a pequena portinhola escondida que levava ao porão se abriu, revelando a silhueta longa de Ramirez junto à explosão de luz que projetou a detestável sombra. Mesmo rodeada por ângulos intermináveis de escuridão, Laura percebeu com clareza a pistola que reluzia na mão do traficante.
— Bom dia a todos. Espero que estejam confortáveis em suas novas instalações! — O sorriso cheio de troça se ergueu, desafiando quem ousasse reclamar — Sei que o espaço está um pouco desconfortável, mas vim trazer boas notícias, que farão com que a maioria de vocês fique melhor acomodada. — Fez uma pausa, percebendo a ironia de seu comentário com um sorriso cruel — Eu assumo que não fui muito honesto com alguns de vocês, mas antes tarde do que nunca, não é mesmo? Essa embarcação é destinada apenas às mulheres. Os homens, sejam adultos ou crianças, queiram me acompanhar por favor.
— De que caralho 'cê 'tá falando, Ramirez? — Um rapaz com seus vinte e poucos anos ergueu-se de imediato, desafiador apesar de magricela — Pagamos por essa merda como qualquer vadia daqui!
Ramirez riu por dentro enquanto, calmamente, abastecia sua arma com algumas das balas que carregava no bolso frontal da camisa, seus movimentos lentos como se apenas acariciasse a pistola com afagos suaves e distraídos, já prevendo os urros inflamados que se seguiram àquele comentário.
"Não pagou, meu amigo. Pode apostar que não chegou nem perto disso."
Sem retrucar a afronta com palavras, Ramirez acertou um tiro bem entre os olhos do rapaz após uma mira rápida, cessando de imediato aquela balbúrdia que sequer deu chance de começar. O corpo magro bambeou algumas vezes antes de cair, deixando um rastro salpicado de sangue e massa cefálica ao longo do trajeto bem delineado pelo projétil.
Todos recuaram o quanto puderam, encarando com apreensão e surpresa o homem que até então viam como um nobre salvador. Ramirez só tornou a falar quando o silêncio sepulcral mais uma vez reinou.
— Como eu dizia, aqueles que não têm boceta devem me acompanhar, cabe a vocês escolher se por bem ou por mal. — Ergueu as sobrancelhas ao perceber os vários olhares assustados que o tinham por alvo, e fez um sinal de rendição com as mãos, o sorriso cheio de afabilidade indicando que tudo não passava de um mal entendido grotesco — Nós podemos resolver isso de forma bastante amigável, senhores. — Usou um tom de voz mais brando que pareceu deixar tanto homens quanto mulheres na dúvida — Em breve estarão todos novamente instalados, eu garanto. — Abriu passagem com o gesto cortês da mão, num convite para que o acompanhassem. Os homens adultos se decidiram por segui-lo ao refletir sobre o jovem que o desafiara, agora rodeado por uma piscina cada vez maior de seu próprio sangue, porém os mais novos se mantiveram assustados ao lado de suas mães — As crianças também... — Anunciou, já sem tanta paciência.
Quando percebeu que ninguém fez menção de obedecê-lo, mandou que alguns de seus homens tirasse todos à força.
As mulheres gritaram com verdadeiro desespero quando seus filhos foram arrancados de seus braços, clamando por uma misericórdia que sequer foi ouvida.
— PELO AMOR DE DEUS, ELE É SÓ UM BEBÊ! — Ouviu-se um grito mais histérico se sobrepor aos outros, o timbre derramando desespero em harmonia com o choro imaturo da criança que foi violentamente tirada de seu colo. Não houve qualquer resposta, apenas homens carregando os meninos de diversas idades para fora do porão, retornando apenas com o intuito de buscar mais.
A sinfonia criada mesclava todo tipo de lamento naquela investida.
Laura, já com olhos marejados, percebeu puxarem com força a perna de Luisa, arrastando o pequeno corpo sem qualquer cuidado.
— NÃO! ELA É UMA MENINA! — Berrou, soluçando sem o menor controle. — É UMA MENINA! — O homem a fitou por um instante, desconfiado. Sem qualquer momento de hesitação, abaixou a calça e fralda da criança, verificando. Ao constatar que a jovem garota dizia a verdade, largou o bebê, indo incitar outras separações, porém não sem antes sussurrar palavras que assombraram Laura por cada minuto da maldita viagem. Por cada dia de sua vida, na verdade.
— Azar o dela então...
Luisa chorava pelo susto de ser brutalmente arrastada assim como por toda a barulhenta confusão instaurada, e Laura a abraçou com ainda mais força, também aos prantos. "É uma menina...", pensou, sem saber se aquilo deveria reconfortá-la ou não.
Todos os homens, adultos ou não, foram conduzidos ao convés ainda que contra a sua vontade, coagidos pela arma que Ramirez apontava sem o menor remorso, ainda trajando expressões zombeteiras a todo o tormento que causava. As mulheres que continuavam trancafiadas no porão fizeram o possível, em sua maioria, para abafar o choro, aguçando os ouvidos para conseguir entender o que se passava no nível superior do barco.
Algumas outras, entendendo que a ignorância era sua melhor bênção, fecharam os olhos em fervorosa reza, numa tentativa falha de se desapegar da realidade.
Gritos exaltados logo começaram a vir de cima, e o terrível som de cargas caindo na imensidão das águas salgadas e profundas preencheu a audição até mesmo daquelas que relutavam em ouvir. Até que alguém verbalizou aquilo que se passava na cabeça de todas, e o sofrimento tornou-se inigualável.
— Estão jogando nossos filhos no mar! — Um urro desesperado de entendimento deu um fim melancólico à frase, e muitas das mulheres se aglomeraram na entrada pela qual viram suas crianças pela última vez, socando a madeira até que suas mãos tornaram-se carne viva.
— ME DEVOLVE MEU FILHO, DESGRAÇADO!
A cada novo ruído dos homens e meninos sendo jogados ao mar, os protestos tornavam-se menos inflamados e cercados pelos níveis mais profundos de desesperança, até que restasse apenas o choro, o lamento uníssono de várias almas repartidas. E a fé daquela vida melhor com que tantas daquelas mulheres um dia sonharam, em várias cores, agora não passava de um borrão cinza.
A contagem do tempo passou a perder qualquer sentido prático, e logo toda a tripulação traficada entrou num estado apático que foi sugando aos poucos uma força já deteriorada. Dias se tornaram semanas, e as semanas se perderam em incongruência.
Recebiam permissão para sair dali apenas em duas situações.
A primeira, para esquentar a cama de Ramirez por uma noite, unicamente naquele dia em que eram escolhidas recebendo luxos variados que iam de algo simples como um banho a regalias maiores como drogas, caso o sexo o agradasse.
A segunda forma de sair dali era enrolada em sua própria sepultura, quando tinham os corpos atirados ao mar com direito apenas a um peso acorrentado em seus calcanhares para que afundassem rapidamente. Sem nenhuma pompa, sem nenhum adeus por parte de quem amavam. Apenas descartadas à medida que as péssimas condições do lugar inevitavelmente faziam suas vítimas. Surpreendentemente, a segunda forma parecia às mulheres a opção mais atraente.
Na primeira semana, Luisa parou de respirar.
Laura sentiu o corpo inteiro tremer quando se deu conta do significado da apatia de sua irmã, que no início apenas lhe pareceu dormir por horas, mas que no fim do dia mostrou que fora liberta daquele cativeiro infernal. Era uma menininha sortuda, afinal.
— Maninha... — Laura murmurou, a voz vacilando de nervoso — Vamos, acorde. Você precisa comer...! — Balançava suavemente o ombro do bebê, as lágrimas fartas em seu rosto caindo sobre o corpo desfalecido da única família que amava.
Tentou tudo o que veio à mente para trazê-la de volta, ciente do quão egoísta isso era. Mas não importava o quanto a queria viva, sua pequena irmã estava muito longe dali.
Por fim desistiu de lutar contra o inevitável, dominada pela pior sensação de derrota que sabia, mesmo aos dez anos de idade, jamais se comparar a qualquer outra caso saísse com vida dali. Apesar de saber que não havia volta para Luisa, nunca permitiu que a tirassem de seus braços. Todo dia algum dos homens vistoriava o porão em busca de corpos quando vinha servir a única refeição que recebiam no dia, contudo foi extremamente fácil para a garota camuflar a morte de sua doce caçula. O lugar já era dominado por cheiros podres, e um bebê daquela idade nunca chama atenção se está quieto demais em alguns momentos.
Apenas se concentrava em aconchegar Luisa sobre seu colo e fingia niná-la quando um dos traficantes surgia, sempre tendo que lutar contra as lágrimas que se esforçavam para poder sair, e às vezes, quando sentia que era capaz de driblar o choro, cantava as canções que em sua breve vida mais a acalmaram. À noite, expulsava os ratos que eram atraídos por ela, querendo mordiscar sua pele e banquetear-se da carne morta ainda fresca, mesmo quando ela já não estava mais tão fresca assim.
Esconder a morte de Luisa foi muito fácil na maioria do tempo, porém num dos dias Laura realmente pensou que a perderia para aqueles malditos homens, que saíram do México se proclamando indefesos "pescadores".
Naquela tarde, o próprio Ramirez adentrou o porão, e por mais que ele incutisse um profundo ódio em cada uma das mulheres, nenhuma tinha forças para tentar alguma das vinganças que brotavam nos solos férteis de suas imaginações. À sua presença intragável apenas viravam os olhos para longe, compartilhando aquele sentimento mais antigo de Laura ao não conseguir encará-lo por muito tempo.
Mesmo com o fedor terrível impregnado no ar, o sorriso cínico continuava lá, e Loki aprendeu a odiá-lo tanto quanto aquelas mulheres.
— Minhas flores que ainda não desabrocharam. Minhas meninas adoráveis... — Chamou pelas crianças num tom descontraído, quase galante se não fosse o brilho lascivo em seus orbes — Façam fila na frente do tio Ramirez! Quero examiná-las.
Laura sentiu o estômago se contorcer, ameaçando expulsar o pouco alimento que havia acabado de ingerir para durar o dia inteiro. Controlou-se, tentando agir friamente. Se pegassem Luisa morta, se apenas olhassem para ela e vissem seu estado, a criança seria tirada de si para sempre, e a garota não suportaria perdê-la para a imensidão do mar.
Ao menos não para aquele mar, de todo amaldiçoado.
Enquanto as outras crianças se erguiam sem muita força, Laura se ocupou em alargar uma abertura esburacada da madeira numa das quinas do porão, apesar da pouca força conseguindo arrancar um toco mais apodrecido, pagando o preço razoável de alguns cortes nas palmas de ambas as mãos. Não encontrou qualquer dificuldade em aconchegar o corpo no espaço também diminuto assim que terminou de abri-lo. Cobriu seus pequenos pés que ficaram do lado de fora com um pano, que antigamente servia para ajudá-la a dormir nos dias mais insones.
Secou um par de lágrimas em seus olhos derrotados, juntando-se velozmente às outras crianças com uma fúria grande demais para a pouca idade vivida. Dessa vez fez diferente, e não desviou o olhar de Ramirez por um único instante, memorizando cada pormenor daquela odiosa feição. Cada ínfimo detalhe das sombras que rodeavam os olhos atrozes.
Distraiu-se tanto na imagem de seu algoz que sequer percebeu o que o homem fazia com as outras garotas até que chegou sua vez, e Ramirez pareceu um pouco mais exultado.
— Venha cá, Laurinha... — Chamou, e nunca antes a garota sentiu tanta vontade de socar alguém. Pensou melhor sobre aquilo e decidiu que um soco só não chegaria nem perto de ser o bastante. Queria mesmo era matá-lo, de preferência com suas próprias mãos. — Tira a calça, meu bem, e deixa o titio ver o que você tem aí... — Os olhos já grandes de Laura se arregalaram ainda mais, de súbito temerosos.
— Por quê? — Questionou munida de alguma insolência, o que arrancou um riso perigoso de Ramirez.
— Porque eu quero. — Estreitou as pálpebras, ajoelhando-se para que ele mesmo tirasse as roupas imundas da menina e atestasse sua virgindade, como fizera com todas as outras antes de Laura.
Ela esquivou-se, sem pensar muito no que fazia quando mirou uma cusparada no único rosto masculino dali, tentando escapar. Toda a feição antes tranquila do homem se refez numa ameaça assustadora, que levou Laura a sentir o sabor do pânico ao ver todo aquele ódio direcionado a si. Ramirez segurou com firmeza o punho infantil, baqueando com força as costas da menina contra a madeira do barco pesqueiro que ameaçava apodrecer. Laura gritou com a pontada de dor, e a voz grave do homem veio mais uma vez assombrá-la, agora despida da toda a falsa cortesia que era uma de suas maiores especialidades.
— Menina estúpida! Quer mesmo que eu responda por quê? — Rugiu, seus rostos praticamente colados — Sabe quanto vão me pagar por uma puta mirim virgem como você? Tem ideia de quanto vale essa sua bocetinha pelada, minha pequena vadia?
Agora munido de alguma violência em seus gestos, Ramirez arrancou a calça surrada e a calcinha infantil da menina, já concentrado em explorar suas partes íntimas.
Ela, contudo, reuniu o pouco de força que ainda encontrou em si, debatendo-se com tanta intensidade que seu pé esquerdo foi de encontro ao rosto do homem ajoelhado, arrancando sangue das duas narinas.
— SUA PUTINHA! — Rugiu, descontrolado. Não podia admitir ser desafiado daquela forma por uma mísera criança na frente de toda sua mercadoria feminina. Cravou as unhas no pescoço da garota, levando-a seminua para fora do porão.
As mulheres se entreolharam com alguma preocupação compartilhada, imaginando se voltariam a ver a criança novamente...
...Perguntando-se, acima de tudo, se Laura viveria a primeira ou a segunda opção ao sair dali.
Ramirez a empurrava com a velocidade estúpida de seus apressados passos, pouco se importando se os músculos da menina se desacostumaram ao exercício, ou se seus olhos ardiam intensamente ao serem expostos novamente à claridade brusca do meio dia.
Tudo com o que Laura conseguia se preocupar, contudo, era com Luisa abandonada naquele buraco.
As pernas de Laura cederam, trêmulas, e passaram a ser arrastadas ao longo do chão conforme Ramirez quase corria, ocupado em limpar o sangue do rosto. Um prego mal aderido ao chão rasgou seu joelho direito com a bestialidade com que era levada, e por mais que não quisesse fazer escândalo de sua dor, um soluço alto escapou em meio ao choro desordenado.
A ferida recém aberta queimou ainda mais intimamente quando Ramirez a jogou na direção de seu aposento privado, atraindo a atenção desolada da mulher que deveria ser sua acompanhante naquela noite. Como uma ironia bem formulada do destino, aquela mulher era Cristina Delgado.
— Não, Ramirez...! — A mãe de Laura tentou intervir quando percebeu as intenções alucinadas do homem sobre a menina que gerou em seu ventre. Segurou-o pelo ombro, virando com delicadeza o rosto masculino em sua direção e chegando a temer o que viu dentro de seus olhos — 'Dêxa' minha filha em paz, por favor! Faz o que quiser comigo, mas minha menina é só uma criança...
— Vaza daqui, Cristina. — Sua voz grave atestou, demonstrando não estar disposto a um segundo aviso — Se manda, se ainda quiser aquela coisinha que te prometi! — Alertou, referindo-se ao crack pelo qual a mulher já estava profunda e intimamente dependente, de corpo e alma, de coração e mente. Sentiu-se tremer diante daquele impasse absurdo, e a ferida que se abriu em Laura quando a mãe recuou com subserviência, agindo em prol da droga, foi ainda maior do que qualquer prego esfolando sua pele.
A menina lançou um olhar de acusação inconformada à mãe antes que o homem avançasse sobre ela mais uma vez, terminando de despi-la e já parecendo um pouco mais controlado em sua fúria assustadora. Analisou o corpo infantil de todos os ângulos permitidos, soltando o ar pelas narinas num som de escárnio que apenas fez crescer a humilhação da menina exposta.
— Magra 'pra cacete... — Reclamou enquanto a apalpava com seus dedos grossos e nojentos, os olhos cintilando apesar da expressão forçada de desagrado — Não ia valer grande coisa a cafetão nenhum, mesmo sendo virgem... — Comentou, como se tentasse convencer a si mesmo dos motivos para levar sua luxúria problemática adiante — E, apesar de tudo, é ainda mais gostosinha do que a mãe...
Ramirez sorriu cheio de malícia, desafivelando o cinto da calça jeans e prensando a menina contra a parede. Impeliu-se para dentro dela, uma missão dificultada pelo órgão sexual ainda imaturo da criança, se abrindo como uma rachadura ao ser forçada.
Ali, sob as bênçãos materna, sentia os últimos rastros de sua infância morrer. Ou, mais apropriado, sentia matarem-na.
Laura berrou ao ser tomada pela dor pungente que invadiu seu corpo tão castigado, um corpo ainda despreparado às implicações físicas e psicológicas daquele ato, violento em cada amplitude de seus aspectos. O homem estocou com ainda mais força e convicção, conseguindo inserir mais de si à criança que apenas se manifestava com gritos, aquela nova investida fazendo Laura perceber que a primeira dor sentida não passava de uma besteira superficial.
Aquela aflição se propagou retumbante por toda a extensão de sua pouca altura, e os minutos pareceram se alongar em horas incertas. Ainda chorava compulsivamente quando Ramirez retrocedeu de seu corpo, embora a dor ali permanecesse com o mesmo vigor do início. Notou um volume considerável de sangue escorrer por suas pernas, e mais do que tudo quis ocupar o lugar de sua doce Luisa.
— Pronto. Agora não precisa mais ser examinada, já que trouxe tanta oposição quando eu amigavelmente tentei. Satisfeita, Laurinha? — Deu mais um de seus sorrisos nauseantes, assobiando enquanto ajustava alegremente o cinto ao aperto adequado — Vamos, de volta ao porão. Não me satisfez, sendo assim não pode ganhar seu prêmio. Que pena. — Tagarelou com vivacidade antes de mais uma vez cravar as unhas em seu pescoço e conduzi-la, desta vez um pouco mais devagar, pelo mesmo caminho de alguns minutos atrás.
Antes de deixar o quarto, Laura fitou a mãe uma última vez, sem qualquer expressão significativa no olhar, apenas acusando-a de sua escolha. Cristina não se permitiu retribuir aquela breve contemplação, ciente de que se o fizesse seria sua ruína. Perguntava à sua própria consciência se ainda poderia perdoar-se depois daquilo que permitiu acontecer de modo tão passivo, porém aquela questão não foi respondida enquanto seu organismo ainda estava limpo. Mas ainda naquela noite esqueceu-se do que ajudou a proporcionar à filha...
...Afinal, o crack não tardou a vir em seu consolo, e nada mais importava quando era ele que detinha as rédeas de seus pensamentos.
A garota molestada foi atirada de volta à imundície do ambiente superlotado, soluçando à medida que as lágrimas corriam soltas, sem freio, por seu rosto encardido. Ramirez lançou à criança um último olhar raivoso que parecia dizer "Tente me desafiar de novo, fedelha..." antes de mais uma vez trancafiá-las ali dentro.
Laura se espremeu naquele mesmo cantinho em que não muito tempo atrás escondera Luisa, e imediatamente algumas mulheres tentaram vir em seu consolo ao perceberem o contexto cheio de significado da garota nua, sangrando e dominada por um pranto incontrolável. Laura se esquivou de todas, querendo apenas o conforto da companhia de sua irmã.
Sem nem tentar disfarçar na presença das outras, arrancou Luisa do buraco, e um choro horrendo fez com que sua feição se distorcesse ainda mais, em destroços. As mulheres ao seu redor se afastaram, visivelmente enojadas com aquele vislumbre.
Uma ratazana enorme se refestelava com o que antes havia sido a bochecha esquerda do bebê, fazendo seu banquete na única porção em que Luisa naturalmente tinha mais volume em comparação com as outras partes do corpo, que denunciavam sua desnutrição.
Laura socou o animal para longe, a visão tão embaçada pelo choro que não compreendeu como acertou aquela mira de primeira. Uma nova porção do rosto já destruído de Luisa se desprendeu da menina quando os dentes afiados do roedor foram bruscamente afastados. Laura, ciente de que as ratazanas atacavam de volta e podiam causar verdadeiros estragos em suas vítimas, bateu repetidas vezes no animal com o mesmo toco de madeira que havia soltado da conformação daquele porão, a fim de ajeitar a irmã no improvisado esconderijo.
Não parou de golpeá-lo nem mesmo quando sentiu o pequeno crânio se partir em meio às investidas, dominada por tantos sentimentos errados que precisava extravasar de alguma forma.
Quando por fim largou a madeira no chão, dedicou-se a analisar o rosto desfigurado da irmã, sentindo o peso de sua própria culpa sufocar a garganta que ainda soluçava. Seus pequenos lábios estavam fechados, porém o novo buraco em seu rosto fornecia uma visão medonha da língua e gengiva, alguns pontos chegando até a expor o branco do osso, que contrastava de forma hedionda com a pele negra.
— Desculpa, Lulu... — Pediu, honesta, enquanto apertava o pequeno cadáver junto ao corpo injuriado, num abraço que mais do que tudo desejava que fosse correspondido por aquele jeitinho sempre meigo da irmã de se aconchegar em seu ombro. Tentou niná-la como antigamente, fantasiando o momento com o qual Luisa despertaria, ou emitiria algum ruído infantil...
...Mas não houve movimento algum gerado pela irmã, tampouco som. Ela apenas se mantinha gélida naquela última expressão, lembrando à Laura a inconveniência de sua inexorável morbidez.
Daquele único mal que jamais poderia ser remediado.
A menina violentada passou aquela noite em claro, assombrada por tantos fantasmas que não houve espaço para sentir medo do destino que a esperava. Na noite seguinte, quando conseguiu alguns lampejos de sono, teve seu primeiro vislumbre de Loki, e daquele dia em diante, ele sempre vinha a si como um alento quando os pesadelos se mostravam insuportáveis demais.
●•●•●
Loki enfim despertou daquele estado aflitivo em que fora lançado, sua respiração ofegante denunciando o quanto as imagens do passado de Laura o atormentaram. Limpou a testa tomada de suor, congelando o olhar na mortal que ainda dormia, por certo também tendo algumas revelações da vida mentirosa que o deus levara em Asgard.
Numa outra situação, aquela consciência de ter sua história revelada à midgardiana o irritaria profundamente, mas não hoje. Não depois de tudo o que testemunhara com seus próprios olhos.
A feição feminina se contorcia em breves espasmos desagradados, assim como os dedos, que de tão hábeis pareciam buscar pelo conforto do gatilho num movimento já familiar ao deus de tantas trapaças...
Loki nem mesmo deu voz aos episódios auto-depreciativos que normalmente se seguiam à breve noção do apego já criado com aquela humana, um sentimento que se construía muito antes que os dois chegassem a se conhecer de fato. Vislumbrou o corpo despido ao seu lado, dominado por ondas furiosas ao se recordar da versão tão imatura de si sendo violada daquele modo nauseante.
Sua atenção foi imediatamente atraída para a cicatriz desenhada em seu joelho direito, percebendo a marca com alguma aflição. Com o desalento de saber que todos os detalhes mais sórdidos que vira no sonho eram fatos, apenas por aquela peça que unia com perfeição o real e o onírico. Sem se conter, passou o indicador de leve sobre a linha mais clara em seu joelho, invadido por sensações que até então desconhecia.
Fitou novamente o semblante mais sereno da midgardiana, perdido em considerações.
Sempre acreditou que a ninfa de ébano que visitava com constância seus sonhos vinha a si com o intuito de abrandar no deus uma dor antiga e constante, que o rodeava em meio à falsidade plena existente em cada relação fraca que nutria com a família real de Asgard. Sempre acreditou que ela vinha por si, trazer-lhe um alento único que não era nada habitual em sua rotina.
Contudo...
...Agora começava a se questionar se não era ela, Laura, a chamada Pistoleira, que vinha procurá-lo em busca de ajuda.
I was raised from a broken seed, I grew up to be an unwanted weed.
Ever faster the time exceeds me, little harder again to remember...you.
Held a torch for you, when lightning stroke me, once again, hope I died for the last time.
Only one I have a thing greater than you, little light on the sky every night.
Morning dew on the field, where I met you.
I was frozen a year, couldn't get through.
Got a sign, not a scar, on my shoulder, I am not quite the man you take me for...
Fell in love with the weakness within me.
Tried to force me the Ring and own me.
Guess you found what you'd think would oblige me, little version of me to consume you...
I'd give my everything to you, follow you thru the garden of oblivion.
If only I could tell you everything, the little things you'll never dare to ask me...
Do you really know me? I might be a god.
Show me that you care and have a cry.
How do you see me?... as the one?
Can you see my blood when I'm bleeding.
How can you love this exile, and how could I desire you.
When my pain is my pain and yours is too...
On this deadwinter's night. Darkness becomes this child.
Bless this night with a tear. For I have none I fear...
Seven lifes of a man, passed before me.
Seven graves, one for every love I've had.
Only once I have broken my so called heart.
Only one made me see why they cry.
Will I learn how to be one of you someday?
Will I still feel the eyes that behold me.
Will I hear what you think, when you see me?
Will it tear me apart if you feel for me...
Little broken, always been, a part of you belongs to me.
You were never mine to love, but this all has made it easy for me...
Burning feathers, not an angel, Heaven's closed, Hell's sold out.
So I walk on the Earth, behind the curtains, hidden from everyone,
until I find a new life to ruin again
On this deadwinter's night. Darkness becomes this child.
Bless this night with a tear. For I have none I fear...
On this deadwinter's night. Darkness becomes this child.
Bless this night with a tear. For I have none I fear...
(Broken — Sonata Artica)
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