Orlög
14 Piano Man
Notas iniciais
Nos dias que se seguiram, Laura evitou ao máximo aproximar-se de Loki.
Sob o fraco pretexto de não mais possuir suas armas, foi postergando o quanto pôde os turnos para vigiar o deus, tomada por sentimentos um tanto contraditórios quando conheceu uma parte do passado daquele inusitado homem. Intuindo — com assertividade e algum desespero ao perceber o olhar mais reservado do jotun — que ele também fora apresentado a fragmentos de sua vida humana.
Lembranças que, a cada dia, ela mesma se esforçava na tentativa de ignorar.
Acabou por gastar boa parte daquele tempo solitário imaginando o porquê daquela ligação partilhada. Por mais que há algum tempo já se sentisse quase conformada a esse respeito, um pouco mais propensa a desistir de se perguntar por quais razões compartilhavam aquela conexão no mínimo mística, ainda assim foi incapaz de evitar que essas questões se recriassem em sua mente alarmada pelos últimos acontecimentos, chegando a temer as possíveis respostas.
Laura respirou fundo, dominada por diversas dúvidas e aflições, ciente de que, por mais que o evitasse, não poderia prorrogar por muito mais tempo o inevitável. Precisava agir, mais do que nunca. Antes que aquele arroubo de inesperada vantagem acabasse se voltando contra ela.
Decidida da forma como deveria proceder, tomou um rumo novo na sede, disposta a dar o primeiro passo de um trajeto que sempre almejou, mas que o conjunto de circunstâncias acabou por impeli-la a se manter distante. Ambições estas que jamais achou ser possível satisfazer, até o momento em que Fury perdeu de vez o livre arbítrio ao próprio bel prazer de Laura.
E também de Loki.
Caminhou apressada até a sala do diretor, sentindo um ar renovado entrar em seus pulmões. Experimentando uma liberdade plena pela primeira vez em anos, como jamais pensou ser novamente capaz.
A culpa ainda permeava seus olhos negros cada vez que se dedicava a analisar os traços de Nick Fury, aquele semblante naturalmente autoritário agora se mostrando sempre domado aos desejos da Pistoleira e do Jotun. Porém, hoje, quando o viu naqueles termos, precisou conter um sorriso exultado. Porque finamente sentiria as rédeas de sua vida nas próprias mãos, graças à recente apatia do homem que por pouco não a descartara da S.H.I.E.L.D.
E, agora, finalmente seria posta de frente às suas reais vontades, por tanto tempo reprimidas.
"Por muito pouco não rodei aqui dentro..." — Pensou, descrente do quão perto estivera de desgraçar ainda mais seu futuro. Aquela reflexão a ajudava um pouco a lidar com a traição que fizera recair sobre o diretor, e sempre que Laura se percebia com algum traço maior de culpa, se apegava aos rumos de seu destino caso não tivesse agido daquela forma.
Caso qualquer hesitar tivesse tomado conta de suas ações, provavelmente a esta altura estaria perdida.
Como nenhum dos Vingadores estava por perto, Laura sequer se importou de se anunciar antes de entrar na sala de Nick Fury, percebendo-o com um olhar vazio defronte ao computador. Assim que ela entrou ele pareceu empertigar-se, como se em silêncio reconhecesse na jovem mulher alguma espécie nata de autoridade sobre ele.
— E aí, Nick? Tudo certo? — Cumprimentou-o, um pouco sem jeito, ainda sem saber como agir na presença do homem dominado pelo poder daquele cetro.
— A senhora precisa de algo? — O homem de pronto questionou, parecendo até mesmo ansioso por obedecê-la.
"Senhora... Puta que pariu, Fury, você vai comer meu rabo no dia em que voltar a si!" — Quis rir, porém conteve-se, tentando manter o foco ao que importava.
— Preciso sim. Todas as senhas do seu computador, em especial daqueles arquivos que falam de mim ou que têm qualquer relação indireta comigo. — Pausou por um instante sua fala, reconsiderando — Pensando bem, já adianta meu lado e abre a porra toda aí pra eu não precisar perder tempo caçando esses documentos.
O diretor assentiu com aquele estranho ar subserviente que lhe caía tão mal, tão incongruente à sua verdadeira essência. Temeu que algum dos Vingadores acabasse percebendo aquela drástica mudança, porém tinha que admitir que Loki fizera um excelente trabalho na manipulação de sua mente. Na frente dos outros, aquele homem ainda parecia portar-se como Nick Fury — por mais neurótica que a mulher se sentisse ao vê-lo interagindo com os outros —, e até o momento não havia gerado qualquer tipo de desconfiança.
Apenas a coloração do olho de Nick Fury, que após o toque do cetro adquiriu um tom fosco de azul, pareceu um problema ao disfarce de sua nova condição submissa. Contudo, tal situação foi facilmente contornada por ambos. Por um breve período Loki usou seu desconcertante poder ilusionista para manter o olho do diretor na habitual tonalidade escura, até que Laura trouxe alguns pares de lentes de contato pretas, do tom mais escuro que foi capaz de encontrar.
E até então ninguém notara nada de minimamente estranho se tratando do diretor.
— A senhora quer que eu separe as informações que tenho do Loki também? — A voz inquisidora de Nick saiu casual, porém teve um efeito arrebatador em Laura.
A Pistoleira estancou de súbito, sentindo todo o corpo se arrepiar num manifesto inconsciente de tremor, e ela sequer conseguiu disfarçar o enorme interesse por qualquer explicação maior que pudesse ter daquele homem que se declarava deus.
— Também! — Replicou rápido, certeira como um de seus tiros — Tudo o que tiver sobre ele e sobre mim, por favor. E pelo amor de Roland*, pare de me chamar de senhora ou qualquer porra do gênero. Se alguém ouve isso vai começar a desconfiar.
— Entendi. Sem problemas... — Adiantou-se a atender o comando de Laura, gastando alguns minutos silenciosos naquela tarefa. Por algum tempo apenas se ouvia o bater rápido e ritmado de seus dedos sobre o teclado do computador, o único olho funcional de seu rosto totalmente focado na tela à medida que abria todos os vários arquivos solicitados. Com uma passividade tão serena que ainda tinha o poder de espantar Laura, e ao mesmo tempo culpá-la.
Sentia asco de si mesma por permitir aquela condição forçosamente subalterna do homem que tanto a ajudara no passado, contudo não era capaz de ver outra saída. Suas mãos estavam tão atadas quanto as do próprio Nick Fury.
Os minutos se arrastaram longos enquanto o diretor ainda buscava a demanda daquela que, sem quaisquer restrições, o controlava, enquanto Laura apenas tentava driblar os infinitos sentimentos controversos sobre tal situação.
"Parece que minha ficha corrida é longa..." — A mulher pensou com uma pontada de humor negro, a fim de se distrair do turbilhão desordenado de sentimentos que pareciam dispostos a fundir seu cérebro com tamanha intensidade. Obrigando-se a aguardar quieta o término da busca, mesmo sentindo-se o mais impaciente dos seres agora que se via prestes a, talvez, conhecer algo a mais de Loki.
Não que precisasse... Vira tanto de seu passado que acabou se sentindo um tanto íntima do deus.
Andava em círculos pela sala do diretor enquanto este ainda se ocupava cumprindo sua ordem, o coração dentro de seu peito ribombando cada vez mais forte e ansioso.
"O que será que Nick poderia saber a mais de Loki? E por que esse desgraçado sempre esconde tudo do caralho do grupo?" — Sentiu alguma raiva do diretor por jamais confiar por inteiro em sua equipe, contudo, não podia culpá-lo plenamente. Ela sempre compreendeu um pouco mais do que os outros o lado reservado de Fury, uma vez que ela também custava, e muito, a confiar em outras pessoas...
...E sem contar que ela mesma, uma das agentes mais bem consideradas dali antes da vinda de Loki, acabou por trair a confiança de Nick com o poder do cetro.
— Pronto. — A voz domada de Fury a despertou de seus devaneios, e logo Laura já estava ao seu lado, espiando por cima dos ombros do diretor as várias abas abertas que antes seriam estritamente confidenciais — As informações sobre Loki foram retiradas do meu e-mail... Caso queira conferir, o conteúdo original está bem aqui... — Apontou com a seta do mouse para várias conversas trocadas, e logo saiu de sua cadeira para deixá-la livre à Laura — Mais alguma coisa que eu deva fazer?
— Não... Ah sei lá, inventa alguma coisa, você nunca fica ocioso... — Pensou um pouco, não querendo o diretor como companhia em suas leituras, mas ao mesmo tempo ciente de que se o homem vagasse pela S.H.I.E.L.D. sem qualquer intuito aparente poderia parecer estranho — Vá falar com os outros sobre o cetro, já está na hora de resolver isso. Explique o melhor que puder sobre a invasão do Colecionador no dia da batalha contra a H.Y.D.R.A. e que toda essa merda te fez perceber que o melhor seria o cetro ficar na posse do Loki, já que foi ele quem conseguiu defender a base dos ataques do intruso com o auxílio do objeto. Diga que ele sabia como manejar a bodega e que, por usar esse poder ao nosso favor, ganhou o merecimento a um voto de confiança.
— Estou indo agora mesmo.
"Você fica me devendo essa, chifrudinho..." — Um meio sorriso quis surgir no rosto da Pistoleira à imagem de Loki, o carinho que vinha nutrindo pelo deus se tornando cada vez mais difícil de ignorar.
— Mas não fale com todos ao mesmo tempo. — Voltou a instruir o diretor, um pouco mais séria — Aborde grupos pequenos até que todos estejam cientes da sua decisão. Se você convocar uma reunião geral e eu não estiver lá, é mais um motivo pra gerar desconfianças desnecessárias. E agora eu preciso me focar nisso aqui o quanto antes. E claro, quando for dar essa notícia, faça o favor de parecer você...
— Assim farei — Determinou, saindo da própria sala como se esta não lhe pertencesse.
Laura ainda ficou observando a porta fechada por alguns segundos, considerando as várias possibilidades daquele movimento.
— Pode dar ruim... Talvez nem todos se convençam, mesmo com o próprio Fury dizendo... — Considerou, enrolando uma mecha do cabelo de forma pensativa enquanto se inclinava na cadeira confortável do diretor — Bom, de qualquer forma depois eu resolvo isso... Por enquanto tenho que limpar as merdas que estão fedendo há mais tempo, depois vejo as novas.
Laura ajeitou-se melhor na cadeira rotatória, sentindo o coração mais uma vez acelerado ao minimizar todas as abas que diziam a seu respeito e se dedicar, naquele primeiro momento, a Loki. Surpreendeu-se ao perceber que o diretor vinha trocando mensagens constantes com um professor acadêmico, ao que tudo indicava um especialista no campo da mitologia nórdica. Os e-mails do diretor eram extremamente sucintos e objetivos, normalmente compondo-se de uma única pergunta direta que ocupava não mais do que duas linhas, quando muito, porém as respostas eram amplas, carregadas de vários conhecimentos e interpretações.
Uma pontada de remorso a atingiu com maior força, e o momento exato em que o olho negro do diretor passou de vívido e flamejante, para o azul apático e servil a atingiu com total força. Se qualquer aspecto desse errado na S.H.I.E.L.D. a partir de agora, seria sua exclusiva culpa.
— Cacete, Fury, você pensa em tudo...! — Comentou apenas para si, admirada com a liderança impecável do diretor que nada deixava passar em seus vários pontos de vista. Culpada, acima de tudo, por nunca ter se dado ao trabalho de pesquisar a fundo sobre as sandices ditas por Loki assim que o deus chegou com todas as promessas de guerras e extermínio.
"Estive bem ocupada desde que toda essa putaria começou, mas nada justifica esse vacilo..." — Repreendeu-se, percebendo o erro tão simples que podia ter sido facilmente evitado.
A Pistoleira pôs-se a ler todas as mensagens confidenciais, não evitando engolir em seco com algumas das coisas que via. Logo o primeiro e-mail já se mostrou um tanto esclarecedor à humana, e embora ela não chegasse a se surpreender com o que lia, seu coração ainda reclamava através de rápidas batidas. Nick Fury, afinal, tinha seus motivos para sempre demonstrar desconfiança com a chegada daquele provável deus...
Os mitos intrigantes que rodeiam este ser em específico da mitologia nórdica já se mostram incertos logo no que concerne às suas origens. Entre os pesquisadores existem divergências até mesmo sobre esse aspecto, e jamais se conseguiu buscar um consenso sobre tal questão. Sem dúvida, se trata da personalidade mais enigmática deste amplo universo. Não se sabe se Loki é um deus, um gigante ou mesmo um trickster, porém todos concordam que suas ações se movem com o intuito de criar logros e trapaças, independente de quais sejam as motivações existentes por trás de seus métodos ardis. Sua figura é extremamente ambígua, uma vez que o suposto deus pode surgir como o causador do caos que vem afligir os demais deuses e criaturas mitológicas, assim como também é capaz de trazer soluções requintadas aos problemas destes mesmos seres em momentos diversos. Em várias situações, inclusive, Loki se encaixa nessas duas versões, causando o caos e posteriormente ajudando a consertá-lo[...]
"Um tipo de deus da trapaça... Onde você foi se meter, Laura?" — Considerou, ainda mais preocupada do que antes ao se deparar com aquele começo ambíguo da leitura, relacionada ao peculiar homem que dizia vir de um reino distante chamado Asgard.
[...]um dos mitos mais associados a Loki é a morte de seu irmão, Baldur. Tratava-se do filho mais querido de Odin e Frigga, a quem todos os mortais derramavam orações, considerado o melhor dentre todos os deuses por sua sabedoria e piedade. Após ser contemplado por pesadelos (que a maioria dos especialistas discutem ter sido proféticos), Baldur passou a realizar más previsões que não tardaram a alarmar Odin. Este último foi em busca de uma vidente atrás de possíveis significados aos sonhos daquele deus tão puro que era amado por todos. Quase todos. Descobriu, assim, que seu filho morreria através de Hodr, também irmão de Baldur. Frigga, preocupada com essa terrível promessa trágica no destino de seu filho, resolveu se precaver como pôde, e tomou o juramento do fogo e da água, do ferro e de todos os outros metais, das pedras, da terra, das árvores, das doenças, dos animais selvagens, dos pássaros, dos venenos e das serpentes, de que não ofenderiam Baldur.
Tais juras tornaram o deus invulnerável, o que logo fez com que ele fosse visto como uma espécie de atração entre os outros deuses, que começaram a se divertir dessa condição tentando feri-lo e jamais obtendo sucesso. Loki, disfarçado de mulher, descobriu haver um visgo que Frigga não colhera o juramento, pois ainda se tratava de uma planta jovem e aparentava pureza, não lhe parecendo uma ameaça[...] Aproveitando-se dessa informação, Loki secretamente incitou Hodr, um de seus irmãos, a atacar Baldur com aquela planta específica, aproveitando-se da inocência daqueles jogos para manipular a situação como bem queria, culminando assim na morte do deus. Desse modo, sem intenção, Hodr matou o próprio irmão através dos atos trapaceiros de Loki.
[...]ainda, após sua morte, Frigga tentou trazer o filho de volta ao convocar algum dos guerreiros a implorar para a própria deusa Hela pela vida de Baldur. Hermodr, também filho de Odin, aceitou se colocar nessa empreitada e foi a Helheim interceder pelo irmão. Hela proclamou que Baldur apenas poderia voltar a viver se todos os seres chorassem sua morte[...] Loki, sob a forma de uma giganta, foi o único a se recusar a derramar lágrimas pelo deus injustamente abatido, e Baldur então jamais retornou.
Laura sentiu um calafrio ao terminar aquele primeiro conto, de fato surpresa com o conteúdo e até mesmo com a árvore genealógica daqueles deuses.
— É tudo irmão nessa porra! Já sei por que chamam esse tal rei de Pai-de-Todos... De repente o cara deve pensão até aqui na Terra... — Comentou para si mesma, posicionando-se melhor na cadeira enquanto corria os olhos por mais histórias que se relacionassem a Loki.
Sua atenção estava completamente presa aos escritos, mal contendo a ansiedade de um para o outro ao atravessar todos os vários contos ali explicados, seus olhos se prendendo mais atentos a uma leitura dinâmica.
Impacientes, os orbes negros começaram a descer com mais pressa ao longo dos textos, sem saber exatamente se buscava por algo específico ou se apenas a curiosidade a dominava com maior ímpeto.
Iduna, a deusa da poesia, aquela que guardava as maçãs do rejuvenescimento[...] Raptada por Loki em acordo com uma grande águia[...] Loki levou a deusa para além dos limites de Asgard[...] A águia, que na verdade era um gigante disfarçado, levou Iduna consigo[...] Sem as maçãs do rejuvenescimento os deuses começaram a envelhecer[...]
●•●•●
Loki, durante uma reunião, insulta vários deuses, algo que ocorre por uma possível embriaguez deste (Na fala de Heimdall presenciada neste mesmo poema após várias citações desrespeitosas de Loki a outros deuses: "Bêbado estás, perdeste o senso. Por que não te acalmas, Loki? Muita bebida a um homem pode fazê-lo não parar de falar")[...], sendo condenado a uma severa punição[...] Disposto a escapar das reprimendas dos deuses, Loki refugiou-se longe de todos, e para evitar ser encontrado, se transformava em um salmão durante o dia e permanecia nadando na Cascata Fránag[...] Os deuses o encontraram e capturaram. Como punição, jogaram-no dentro de uma cova[...] Skadi se aproximou trazendo consigo uma serpente venenosa e a colocou sobre Loki[...] O veneno gotejava continuamente sobre sua face.
Laura continuou vagando pelos vários contos, tramitando de um e-mail a outro à medida que devorava todos aqueles parágrafos que se dedicavam a Loki pela visão do especialista, em incontáveis histórias.
Quando por fim concluiu a leitura, respirou fundo, massageando o pescoço já dolorido pela posição tensa em que ficara durante todo aquele tempo sem nem reparar. Era hora de tomar uma decisão. De, afinal, escolher seu verdadeiro lado...
...E Laura já estava atolada demais de todas as suas últimas escolhas para se permitir o luxo de duvidar.
Selecionou todos os e-mails trocados com o professor universitário, excluindo-os num único clique, sem espaço para novos remorsos, nem mesmo para os antigos. Abriu o ícone da lixeira do e-mail de Fury e novamente excluiu os rastros daquela conversa, ciente de que por ora era o que poderia fazer por Loki. Até mesmo por si.
— Espero que Fury já tenha te mandado o pagamento em troca dos seus conhecimentos, professor... Caso não, sinto muito... — Suspirou, tentando não refletir muito sobre o que acabara de fazer... Ou, mais precisamente, sobre tudo o que vinha fazendo de uma forma geral.
Finalmente começou a analisar os documentos que eram seu intuito inicial e a trouxeram até ali, a mente ainda atribulada pelas escolhas tomadas, imaginando se fizera o certo ou se não passava de mais um dos meios ardilosos do jotun para conseguir aquilo que queria. Porém, independente de qual fosse a resposta, sabia que acabaria agindo da mesma maneira.
Não mais importava.
Naquele momento, precisava zelar por sua própria integridade, qualquer que fosse o custo.
E via em Loki um meio para tal.

A noite já adentrava em seus mais profundos negrumes quando Laura enfim fez a visita que não poderia mais adiar.
Entrou no quarto que não mais era cárcere de Loki desde que Nick Fury estava sob o comando de ambos, e um agito tomou conta do estômago da mulher quando o viu desperto àquela hora, os olhos verdes intimamente cravados em si como se, mais do que nunca, pudessem lê-la.
O homem, ao ver-se diante de Laura, fechou o livro que usava para sua própria distração, encarando aquela outra que prometia ser melhor.
— Foi um estratagema arriscado esse de me conceder abertamente a posse do cetro. — Loki falou, a voz de leve repreensiva, contudo os olhos ainda mais vívidos naquele desconcertante brilho verde. Olhos que transmitiam um contentamento íntimo, tanto pelo objeto que licitamente estava a seu pleno dispor, como pela visão de Laura, que há dias o evitava.
O jotun mal foi capaz de se condenar pelas fraquezas que aquela mera garota lhe proporcionava, permitindo-se de fato se aprofundar ao delicioso deleite de ambas as sensações.
— De nada, seu escroto mal agradecido. Como se não fosse justamente isso que você queria desde o começo... — Bufou, percebendo-o de imediato um pouco mais resoluto, de leve mais rígido em suas expressões tão bem camufladas, como se Laura de fato chegasse ao cerne da questão. Deus da trapaça. Não posso nunca me esquecer desse detalhe... — Mas falamos disso depois. Vem, nós vamos sair.
— Tarde assim? — Arqueou as sobrancelhas numa expressão esperta, que tão bem a provocava.
— Preciso falar algo sério e particular com você, por isso o mais sensato é fazer isso o mais longe possível desse lugar. Porque, por mais que você tenha caído nas graças do Fury e não seja mais vigiado vinte e quatro horas por dia, ainda seria um puta risco desnecessário nos expor de algumas formas. Alguma objeção, majestade? — Inquiriu com um ar zombeteiro, as mãos pousadas na cintura com algum indício de desafio, parecendo quase desejar que ele a contestasse de alguma forma.
Loki a vislumbrou com certo cuidado, imerso nas próprias conjecturas sobre aquela súbita aproximação após dias de deliberado afastamento. Por mais que odiasse admitir, sentiu falta do par de olhos expressivos que sabiam muito bem como tirá-lo do sério, dos comentários cheios de afronta que sempre pareciam a ele escusos de sentido, dos gestos lascivos e... de algumas coisas mais.
A cintura da mulher se afunilava mais pronunciada naquela pose escolhida por Laura, convidando-o ao olhar mais criterioso de suas curvas, acendendo no sangue gelado do jotun aquela irritante fagulha que apenas a Pistoleira parecia ter algum controle.
— Vamos então. — Disse por fim, os verdes orbes ainda fixos naquela que facilmente poderia passar por uma deusa de ébano — Creio que não seja apropriado os outros despertarem e não nos encontrarem aqui — Concluiu com esperteza, caminhando para junto da mulher com expressões intensas, cheias de vários significados. Um desses significados incomodou Laura, que aprendera a reconhecê-lo com uma facilidade ímpar ao longo de sua vida, e também a percebia agora, por mais bem camuflado que esse sentimento estivesse nos traços e olhar do deus.
"Esse porra sente pena de mim..." — Constatou, desagradada, e no mesmo instante recordou-se dos passados de Loki que também foram revelados a si — "Foda-se, essa merda é recíproca..."
Da forma mais silenciosa possível, saíram da sede no meio da madrugada, adentrando um dos jipes fechados que a S.H.I.E.L.D. dispunha para o uso de diversas missões. Por algumas horas, não fariam falta. Ao menos era com isso que Laura contava. Ela teve o ímpeto de ligar o rádio quando já haviam alcançado as ruas de Nova York, mas mudou de ideia, recordando-se com um sorriso fechado e discreto o primeiro contato do deus com aquela tecnologia.
— Aonde pretende ir? — Loki questionou, percebendo que boa parte das ruas por onde passavam tinham os estabelecimentos fechados.
— Vamos a um lugar que já devíamos ter ido logo que você chegou. Erro meu, camarada, desculpa aí... — Sorriu arteira ao deus da trapaça, jamais deixando de se instigar com os olhares afiados que ele direcionava a si — Eu sempre quis ter a honra de ver uma divindade caindo de bêbada. É hoje que mato essa velha vontade. Só é uma pena que você não seja o deus cristão... — Suspirou, pensativa — Se fosse podia rolar um open bar de vinho.
Loki soltou audivelmente o ar pelas narinas, fazendo pouco caso do comentário da humana por mais que não compreendesse a última sentença, contudo já perfeitamente habituado a ignorar aquilo que lhe parecesse sem sentido ou de alguma forma grotesco.
O jotun nunca fora tão ávido por bebida quanto Thor ou qualquer um de seus companheiros, que pareciam disputar para ver qual deles seria o primeiro a atingir um maior estado de ebriedade durante as ceias do palacete real, porém Loki sabia perfeitamente bem que nem mesmo o melhor álcool midgardiano sequer chegaria perto das concentrações puras atingidas nas adegas de Asgard.
Se alguém sairia trôpego daquela situação, certamente não seria o deus da trapaça.
Laura pareceu achar graça na breve reação zombeteira do companheiro, e não pôde deixar de sorrir à medida que o encarava melhor pelo retrovisor central. Estreitou os olhos negros ao reconhecer aquele ar prepotente de superioridade rondando até mesmo seus traços mais minúsculos, e imaginou se todos que vinham daquela terra distante que Loki dizia provir eram assim tão irritantes.
"Sua sorte é que você é gostoso, branquelo..." — Laura voltou o olhar para as ruas desertas, concentrando-se no destino cada vez mais próximo. Pensou se deveria tentar sondá-lo sobre tudo aquilo que lera a respeito do deus no computador de Nick Fury, mas acabou decidindo que aquela era a pior hora para tal.
Tudo o que menos precisava naquele instante era deixar Loki irritado ou desconfiado com alguma de suas perguntas. Ao menos não ainda. Não antes que conseguisse o que viera buscar dele.
Uma de suas dúvidas, porém, escapou de seus lábios antes que pudesse contê-la para mais tarde. Contudo, de todos os questionamentos que possuía, aquele era sem dúvida o mais inocente, por isso nem mesmo chegou a se arrepender quando o ouviu pela primeira vez em voz alta.
— Como é lá? — Relanceou olhares interessados ao deus, que apesar de se fazer de desentendido, demonstrava profunda compreensão à pergunta a julgar pela maior frieza que se agregou ao seu olhar já costumeiramente resoluto. De fato movida pela curiosidade, Laura complementou — Esse lugar distante que você disse ter vindo. Asgard, não é isso?
— Precisamente... — Concordou, evasivo da real pergunta, imaginando aonde a humana poderia querer chegar com aquilo — O topo de Yggdrasil.
Laura franziu a testa, fitando o copiloto por um instante mesmo que ainda dirigisse.
— Eu tenho que admitir, você só se supera na bizarrice... — Assoviou, capaz de perceber que ele tentara desviá-la do foco — Mas sério, como é esse lar divino? Talvez chegue o dia em que façam alguns filmes disso por aqui... — Fez uma breve pausa, parecendo analisar o próprio comentário — Eu, particularmente, espero que se algum dia chegue a esse nível cinematográfico, que eles sejam produzidos pela DC Comics, mas enquanto isso não acontece tenho que me contentar com os relatos de alguém que veio diretamente de lá, ou de alguém que só alucina mesmo. — Importunou, embora nem por um momento chegasse a duvidar da centelha divina que habitava aquele homem.
Não após ser continuamente apresentada a seus talentos. À sua magia, que era extinta na terra dos mortais.
— É belo... — Rendeu-se, descontente, mais uma vez sem entender boa parte do que a mulher dissera, mesmo que se tratasse de um assunto que Loki por completo dominava. Parecia um dom a capacidade da midgardiana em tentar desconcertá-lo com tantas falas sem sentido — Muito diferente de Midgard em todos os aspectos. Cada detalhe em Asgard tem formas douradas e prósperas, todavia se afunda numa monarquia tirânica que ameaça toda a imperiosidade e sustento que lá existe, e até mesmo compromete a paz dos demais reinos. — Concluiu, vago e ainda disposto a destilar algumas trapaças em forma de verdades. Acima de tudo desconfiado, uma vez que o deus estava certo de que Laura vira Asgard naquela mesma noite em que ele vislumbrava o trágico passado da humana — Caso seu grupo se alie à minha causa, em breve poderão ver com os próprios olhos.
"Agora a causa é sua, não é... Pensei que tinha dito ser a causa dos semideuses... Se é que essas criaturas de fato existem." — Não pôde evitar o pensamento, e mais uma vez o título de deus da trapaça veio à mente de Laura, transbordando significado.
— Chegamos... — Ela avisou ao estacionar, disposta a fazer morrer aquele assunto tão breve que já parecia causar certas suspeitas no jotun e também nela própria. Antes de sair do veículo, a Pistoleira dispôs no colo uma pasta preta, que levou um ar intrigado ao semblante de Loki.
— O que seria isto? — Inquiriu, alerta a qualquer sinal.
— Negócios. Não viemos até aqui só por uma noitada de diversão, meu caro, embora eu admita ser o motivo mais interessante — Piscou para o deus enquanto abria um de seus sorrisos matreiros, tentando diminuir a guarda que ele erguera por aquela simples pergunta que a mulher não fora capaz de evitar — Vamos, não podemos demorar muito tempo aqui.
Saíram do jipe ao mesmo tempo, e em silêncio adentraram o pub ainda aberto que oferecia música ao vivo num ambiente charmoso e convidativo. Escolheram um lugar mais distante da banda a fim de conversarem com maior privacidade, e Laura logo se ausentou indo pedir as bebidas no próprio balcão do bar para agilizar o processo do atendimento.
Quando retornou, dispôs a pasta no centro da mesa, fitando Loki com alguma expectativa indomada quando se acomodou ao lado do deus no acolchoado embutido à parede.
— Serei direta, Loki. Você sabe sobre meu passado, certo? — Cravou as íris negras nas gemas verdes, que em momento algum vacilaram, apenas se estreitaram em mais desconfiança.
"O que se pretende com tal pergunta? Obrigar-me a admitir um fato que por si só já é incontestável, para em seguida questionar-me por algo que viu de suspeito em meu próprio passado? Algo que não serei capaz de negar?" — O deus cogitou, não gostando em nada do rumo daquela conversa.
Contudo, por mais que ser sincero naquela pergunta o desagradasse, não poderia encobrir a verdade se não quisesse soar ainda mais suspeito. Estava absolutamente clara para ambos a forte ligação que partilharam após o sexo. Diferente de Laura, Loki tinha maior conhecimento sobre os desígnios misteriosos do Orlög, porém não duvidava de que a força do destino — tão supremo quanto desgarrado — era igualmente arrebatadora nela, por mais que a humana não tivesse a mais remota ideia do que acontecera entre eles.
Afinal, um estado de ignorância jamais fora suficiente para camuflar a intensidade de certas sensações. E o próprio Loki não compreendia por completo aquela ligação.
— Acredito que possua a ciência desta resposta. — Replicou, não admitindo qualquer tipo de chantagem que pudesse vir em seguida — Sim, como estou certo de que já sabe, eu de fato fui apresentado ao seu passado.
— Ótimo. Fico feliz que tenha confirmado sem antes tentar mentir ou desconversar — Sorriu com cautela, entre a vergonha e o alívio por não prolongar mais do que o essencial aquele assunto tão proibido a ela, só então se permitindo abrir a pasta que trouxe consigo — Bom, como deve lembrar, minha infância foi uma merda, e eu cheguei a esse país por meios ilegais. O responsável por isso é esse filho da puta do Ramirez... — Retirou de dentro da pasta a ficha completa do homem após alguns segundos procurando. A ojeriza de encarar a pequena foto colada ao lado superior direito da folha não foi menor do que se o visse diante de si, em carne e osso, e seus dedos tremeram de leve quando deslizaram para longe dos papeis. Seu ódio foi tamanho que nem chegou a perceber o asco de reconhecimento também demonstrado por Loki — Esse desgraçado destruiu minha vida desde o momento em que apareceu nela, mas não preciso entrar nesses detalhes, você provavelmente viu tudo e mais um pouco. A questão é que por muito tempo eu quis dar o troco. Mas por mais que quisesse, não podia. Fury sempre me manteve sob rédeas muito curtas dentro da S.H.I.E.L.D.
Laura calou-se, trazendo a ficha do criminoso para junto de si quando uma garçonete sorridente, de ares simpáticos, trouxe as bebidas que a mulher pedira há alguns minutos. Duas canecas fartas de cerveja e dois copos diminutos de uma bebida entre o amarelado e o translúcido que o deus não reconheceu. A Pistoleira sorriu em agradecimento à atendente que já se retirava, parecendo estar atolada de mesas a servir, e no segundo seguinte a midgardiana despejava o conteúdo do pequeno copo na própria cerveja, repetindo o procedimento com a bebida de Loki.
— Saúde! — Ela ergueu a caneca transparente em direção ao deus, como se o saudasse com o gesto, e deu um primeiro longo gole, fitando-o com expectativa quando o jotun a imitou. O deus da trapaça não demonstrou grande reação ao pousar a bebida novamente na mesa, tornando a encarar a humana de pele de ébano sem qualquer palavra — E aí? O que achou?
— Já provei refrescos mais fortes — Debochou com um dos sorrisos enviesados que tanto instigavam Laura, arrancando um riso divertido da mulher.
— Ok, então da próxima vez você me leva pra beber... — O sorriso em seu rosto esmoreceu um pouco, voltando ao cerne do assunto ao expor novamente a foto de Ramirez sobre a mesa, vários sentimentos adversos parecendo ebulir dentro de si — Enfim, voltando a toda essa bosta... Fury sempre me impediu de ir atrás do meu acerto de contas, já que minha situação aqui nos Estados Unidos é precária em muitos sentidos, e por anos eu me contentei com esse comportamento, porque querendo ou não, era o único meio se quisesse continuar na S.H.I.E.L.D... Mas agora...
— Agora não é mais seu líder quem dita as regras. — Loki complementou, já entendendo o objetivo daquela conversa e chegando a sentir prazer com seus rumos.
— Não, não é... — Laura concordou, mais séria e pensativa do que o normal, incapaz de desviar as íris negras dos documentos acima da mesa. Da foto, na realidade — Agora que Nick não pode me impedir de seguir por esse caminho sem suas típicas ameaças, eu preciso aproveitar essa oportunidade — Finalmente ergueu os olhos em direção ao deus, analisando-o —, e já que por alguma sacanagem muito filha da puta do destino você conhece esse viés do meu passado, eu decidi pedir sua ajuda. Seus poderes podem vir a calhar na hora certa.
— O que tem em mente? — Loki questionou, tentando não deixar transparecer seu interesse, ele mesmo ansioso pela oportunidade de ter seu momento com Ramirez, por mais que não ousasse admitir as implicações daquela insana vontade nem mesmo para si.
— Fury nunca deixou de rastrear esse filho da puta e acompanhar seus passos. Acho que ele mesmo queria poder dar cabo do infeliz, mas a S.H.I.E.L.D. fica fora de situações que não coloquem em risco direto a segurança nacional, com casos tão... pequenos, por assim dizer... — Aquela frase fez uma onda de dor transbordar de Laura, algo que Loki facilmente percebeu. Para ela, afinal, as pequenezas criminosas de Ramirez surtiram um efeito grandioso demais — Mas mesmo não interferindo, usando de todos os recursos disponíveis da S.H.I.E.L.D., o diretor sempre o manteve por perto através das próprias investigações. — Segurou a grossa pilha de papeis, aproximando-a um pouco mais dos dois — Aqui tem tudo o que é preciso saber para encontrá-lo... Todos os detalhes que sempre me foram escondidos... Nick se preocupou até em se manter atualizado sobre o tipo de trabalho ilegal que Ramirez tem se envolvido ao longo dos anos. Minha ideia é simples; ir até ele e enfiar uma bala bem no meio do cu desse desgraçado. Os detalhes a gente vê depois... — Sorriu com alguma tristeza, a expectativa dançando em seus olhos negros que esperavam por uma resposta...
E Loki, mais do que tudo, queria confirmá-la. Queria partir naquele mesmo instante para encontrar o humano que, de todas as formas possíveis e imagináveis, abusara de sua ninfa ainda menina e imatura. Porém, sabia que não seria sensato expor-se de forma tão aberta.
— Meus assuntos em Midgard já se estenderam mais do que o esperado. Em breve devo partir, retornar o quanto antes a Asgard, com ou sem a ajuda de seu grupo, e destituir o trono de Odin.
Laura abaixou de leve o rosto, um riso anasalado fazendo suas narinas tremerem de leve. De certa forma, já esperava por aquilo.
— Entendi. Uma mão lava a outra. — Laura não pôde deixar de sorrir mais abertamente, fitando o jotun com troça e alguma maior compreensão. Deus da trapaça é pouco pra você, seu vagabundo..., pensou, divertida. Decidiu entrar em seu jogo, ciente de que as regras, até onde era capaz de perceber, também a favoreciam — Vamos fazer assim então, você me dá cobertura nessa e, como a nova tomadora de decisões da S.H.I.E.L.D., eu te garanto que os Vingadores te ajudam nesses seus barracos divinos... No fim das contas já era o que ia acontecer de uma forma ou de outra, e você sabe disso tão bem quanto eu, mas já que faz questão de ouvir, ok... Os Vingadores vão a Asgard com você depois que me ajudar. Parece um bom acordo?
Loki levou a caneca à boca, quase chegando a degustar aquele sabor fraco quando a bebida tocou sua língua. Não precisava da humana para dar continuidade aos seus planos, era fato, e nunca precisou. Podia simplesmente usar o poder do cetro em todos eles e obrigá-los a segui-lo como seu mais fiel exército. Contudo...
...Instigava-se cada vez mais com toda aquela situação, por mais que sempre fizesse questão de repudiar cada sentimento do gênero. Queria sua deusa de ébano como uma aliada, não uma marionete, e estava disposto a mudar um pouco seus planos para tal.
Tão importante quanto livrar-se de Odin, Thor e todos os que se pusessem em seu caminho, era também dispô-la a seu lado, como a deusa que nascera para ser.
Uma nova canção teve início enquanto Laura e Loki ainda se encaravam com alguma reverência, dispostos a manter aquele contato visual o quanto fosse possível. Laura o imitou, bebendo mais um trago respeitável de sua cerveja misturada com tequila.
"It's nine o'clock on a Saturday
The regular crowd shuffles in
There's an old man sitting next to me
Making love to his tonic and gin"
— Temos um acordo. — O deus anuiu, o timbre honesto soando mais sedutor do que gostaria, novamente se deixando levar pelas incontáveis manifestações de desejo que aquela mulher tão facilmente lhe causava, fazendo do deus algo quase tão patético quanto aquela espécie menor. Uma espécie que ele tanto aprendera a execrar, para que agora se visse completamente envolvido por alguém pertencente a ela...
...Mas não eram também os Gigantes de Gelo, seu próprio sangue, dignos de seu repúdio?
O sorriso de Laura foi arrebatador, genuíno como o novo brilho em seus olhos, capaz de tirar o deus de suas conjecturas ácidas. De suas trapaças internas, tão enraizadas que já não sabia mais como driblá-las.
— Um brinde então, sócio! — Bateu com sua caneca na dele, comemorando àquela maneira universal que ultrapassava qualquer barreira entre os reinos, deliciando-se em seguida com um novo gole. Levou seu corpo para mais perto dele, sem prévio aviso enviesando o rosto a fim de beijar o pescoço pálido do deus, que de imediato emaranhou seus dedos ao cabelo escuro da mulher, permitindo-se inebriar por seu odor, tão cheio de convites a ele.
"He says, Son, can you play me a memory?
I'm not really sure how it goes
But it's sad and it's sweet and I knew it complete
When I wore younger man's clothes"
Quando a música atingiu o refrão, boa parte da plateia no pub se uniu ao coro animado, até mesmo Laura erguendo alto a caneca de cerveja e contribuindo ao clima agradável com a própria voz:
— Sing us a song, you're the piano man! Sing us a song tonight. Well, we're all in the mood for a melody... — Antes do último verso a humana levou os lábios ao pé do ouvido de Loki, a voz antes carregada de um entusiasmo vibrante agora se tornando um murmúrio com a nova versão daquilo que uma pequena multidão berrava, animada, numa versão de leve diferente — ...And you've got me feelin' alright!
A Pistoleira virou o último terço de cerveja que ainda jazia em sua caneca, sorrindo arteira para o deus antes de envolvê-lo num beijo longo, liberto de qualquer amarra, sentindo-se verdadeiramente livre como uma sensação que há anos não a consumia. Sucumbindo a uma vontade antiga. O gosto residual de cerveja circulava pelas línguas que se buscavam, saudosas daquele toque.
"Now John at the bar is a friend of mine
He gets me my drinks for free
And he's quick with a joke or to light up your smoke
But there's someplace that he'd rather be
He says, Bill, I believe this is killing me.
As a smile ran away from his face
Well I'm sure that I could be a movie star
If I could get out of this place"
O deus, sem qualquer falsa artimanha, prensou-a contra si, dedos afoitos correndo pelo vale de sua cintura, satisfeito com o fato de perceber a humana estremecer em seus braços, totalmente levada por seus toques. A Pistoleira afastou-se por um instante da boca do jotun, mordiscando o lóbulo da orelha esquerda do deus à medida que se ajeitava melhor ao seu lado.
"Now Paul is a real estate novelist
Who never had time for a wife
And he's talkin' with Davi who's still in the navy
And probably will be for life"
Laura ajoelhou-se no banco estofado, experimentando a estranha sensação de se sentir alguns poucos centímetros mais alta do que Loki, tornando a beijá-lo, incapaz de compreender como se manteve afastada por tantos dias tendo-o sempre tão perto. Numa sincronia que pareceu ensaiada, as mãos de ambos buscaram um pelo outro, diminuindo a distância de seus corpos ao se envolverem em mais aquela carícia necessitada.
Tão urgente quanto as pausadas inspirações.
"And the waitress is practicing politics
As a businessman slowly get stoned
Yes, they're sharing a drink they call loneliness
But it's better than drinkin' alone"
Loki ajeitou as coxas da mulher sobre seu colo, os dedos da mão pressionando a perna coberta pelo típico jeans enquanto a outra apertava a nuca da Pistoleira, trazendo-a o quanto pudesse para si. Disposto a lidar mais tarde com o fracasso e a ira de se perceber tão envolvido por uma mera humana, naquele instante desejoso demais para dar voz a tais pensamentos desgastantes. Mais uma vez envolvido por inteiro ao deleite de seus toques macios.
"It's a pretty good crowd for a Saturday
And the manager gives me a smile
'Cause he knows that it's me they've been comin' to see
To forget about life for a while
And the piano sounds like a carnival
And the microphone smells like a beer
And they sit at the bar and put bread in my jar
And say, Man, what are you doin' here?"
Tinha-a para si, envolvida de corpo e alma às volúpias de Loki, e no momento era apenas isso que bastava. Inflamou-se ainda mais ao recordar a última noite em que a tomou por completo, e seus dedos se fecharam com rudeza sobre a coxa da humana, sempre buscando-a.
Muito mais do que o álcool fraco que provara de Midgard, aquela mulher sim tinha os próprios meios para embriagá-lo.
"Sing us a song you're the piano man
Sing us a song tonight
Well, we're all in the mood for a melody
And you've got us feelin' alright!"
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