Orlög
6 Em Domínios Mortais
Notas iniciais
Um urro desolador quebrou o silêncio das cercanias do palácio real, dissipando-se pela periferia de Asgard como um eco ferido, quase um apelo de seu autor. Loki, dominado por sentimentos de fúria e iludido por uma angústia que jamais se permitiria admitir, arremessou o capacete que era símbolo da elite asgardiana, a respiração indomada fazendo com que seu peito oscilasse num ritmo acelerado, repleto de rancor.
A força com que o objeto delineou sua trajetória — potencializada por magia — fez com que uma das árvores do extenso jardim do palácio fosse derrubada, arrancada de suas raízes com a mesma facilidade com que se retirava a vida de um mortal.
O deus passou os dedos por seus fios bem comportados, e quando seus olhos se fecharam em busca de controle ele novamente contemplou a tristeza nas gemas azuis de Frigga, encarando-o de uma forma completamente diferente do que percebera em Odin ou qualquer um de seus súditos, apenas ela dona de um sentimento que o Gigante de Gelo não seria capaz de suportar. Durante o espetáculo criado por si, a ilusão de sua forma jotun trouxe apenas asco e indignação aos deuses, porém foi apenas o olhar de Frigga que o chicoteou ao transmitir nada além de compreensão triste e esperança. Nos orbes celestes, Loki era intimamente observado com a inquebrável crença que a Deusa-Mãe depositava sobre seus ombros jotuns, sua expressão claramente disposta a compartilhar com ele aquele fardo de sua descendência.
Frigga o deixava mais fraco pela miscelânea de sentimentos que ainda era capaz de provocar em seu coração de gelo, e esse poderia ser o maior de seus erros em meio aos planos que sua ardilosa mente já traçava contra Odin, suas estratégias tomando forma desde quando ainda não passava de uma criança já desiludida pelas revelações de seu passado. E que agora, finalmente, seriam colocadas em prática.
"Não posso mais me permitir levar por tamanhas fraquezas! Devo me concentrar no destino que preparei para Odin, e fazê-lo arcar com a vida de mentiras que me ofertou", ponderou, conseguindo acalmar-se aos poucos apenas por mentalizar o sofrimento que ainda cercaria o Pai-de-Todos.
O deus da trapaça sorriu ao se recordar de seus intuitos, uma cruel satisfação dançando em sua feição determinada, potencializada pelas verdes íris que brilhavam num lampejo incrivelmente intenso.
Foi até a árvore vítima de sua momentânea fúria, segurando com firmeza o capacete de longos cornos e posicionando-o mais uma vez sobre a cabeça após fitá-lo demoradamente, mais disposto do que nunca a dar sequência aos seus desgarrados intuitos. Estava prestes a prosseguir na investida mais decisiva de sua jornada, e sabia que não poderia mais procrastinar o inevitável, como se uma força maior o impelisse por um caminho já escrito.
Loki adotou uma postura ereta, a solenidade acompanhando agora suas pretensões. Caminhou com confiança e tranquilidade até Bifrost, a ponte do arco íris que culminaria no posto de vigília ocupado por Heimdall, o guardião e vigilante das fronteiras de Asgard...
...O guerreiro da mais alta confiança de Odin, que logo seria corrompido por artifícios um tanto questionáveis.
Loki apressou o passo, seus orbes completamente focados no que estava por vir, o início de seu plano já colocado em prática não permitindo que o deus voltasse atrás em seus atos. A ilusão conjurada de sua forma jotun já desaparecera sob o toque de Frigga, e seu tempo agora seria curto até que iniciassem uma busca minuciosa pelo verdadeiro Loki.
Precisava agir rápido. Por mais desagradável que fosse aquilo que estava prestes a fazer, seria uma parte vital daquilo que armara, um único erro nesta etapa podendo desencadear sua ruína. E falhar certamente não fazia parte de suas intenções!
O deus da trapaça alcançou o posto de Heimdall, percebendo-o de costas em sua postura formal, tão ereta quanto possível. Notou que seus braços se cruzavam em frente ao corpo onde sua espada repousava, e o guerreiro permaneceu naquela mesma posição mesmo quando a presença de Loki já fora percebida.
— Continua não sendo convidado para as cerimônias mais importantes do próprio reino, Heimdall? Após tão longa lealdade e servidão, seu rei nem mesmo se digna a convocá-lo para se curvar diante do novo monarca...
— Manter-me no meu posto é necessário para evitar que essas mesmas cerimônias possam ser detidas por algum invasor mal intencionado — Heimdall virou-se, a expressão endurecida chegando a Loki como um presságio pouco fortuito. Suas íris douradas se mantiveram focadas no deus, os tons rajados e dinâmicos de seus olhos parecendo viajar pelo infinito enquanto o analisava — Não é a minha ausência que causa alarme, mas a sua. O que o irmão do futuro rei faz nas fronteiras de Asgard?
Loki sorriu largamente, de um modo tão abjeto que Heimdall se viu segurando o cabo de sua espada com fervorosa força. Nunca foi capaz de confiar no brilho que emanava do par de olhos verdes e perigosamente astutos, e aquela expressão perturbadora que apenas se alargava no semblante de Loki fez Heimdall perceber que apenas agora o via com clareza. A risada baixa e requintada que ecoou em seguida fez o corpo negro e robusto se eriçar, alarmado.
— O alcance de sua visão é sem dúvida um dom notável, Heimdall, e é ainda mais impressionante que você possa ver tão longe através dos Reinos, mas que não consiga enxergar aquilo que se coloca diante de seus olhos, apenas esperando para ser visto...
— Que tipo de insinuação é essa, Loki?
— A essa altura o reino inteiro já sabe acerca de minhas... origens! — Comentou repleto de asco, o triunfo em sua expressão vacilando pelo veneno incutido naquele assunto que apenas o desagradava — Mas você sempre soube, não é mesmo, Heimdall? Desde que Odin fez a travessia comigo nos braços, você soube. Indo ainda mais fundo; você viu o exato instante em que ele me roubou do gelo de Jotunheim. — Heimdall empertigou-se, não fazendo qualquer declaração sobre o assunto, e seu silêncio sugeria apenas a reiteração das acusações de Loki — Então não ouse discursar sobre minha suposta obrigação de prestigiar a coroação de meu irmão, porque você sabe que eu nunca tive qualquer parentesco com Thor. Não sabe? — Questionou, o sorriso novamente se abrindo, astuto e presunçoso.
— Por que está aqui, Loki?
— Porque isso deve acabar. Este reino foi por muito tempo afundado pela tirania de Odin, e todos o conclamam ainda que seu reinado se erga sobre um longo histórico de derramamento de sangue asgardiano. Você foi espectador desses dias, sabe perfeitamente o que eu digo.
— Seu pai tem sido um rei próspero. Seu reinado conseguiu trazer a paz que Borr semeou no seu tempo em Asgard, e o Pai-de-Todos a tem mantido desde então.
— Odin não é meu pai! — Rugiu, seu tom intolerante tornando-se perigoso de imediato, as faíscas insidiosas em seus olhos instigando Heimdall a segurar sua espada com ainda mais vontade — Uma paz construída por cima de inúmeros assassínios. Ou já se esqueceu de que esses dias te tiraram aquela que você mais amava?
Heimdall deu um sutil passo para trás, como se houvesse sido dolorosamente estapeado no rosto. Dessa vez, a força com que segurou o cabo da própria espada foi proveniente da acidez de suas antigas lembranças, ofuscadas pela dor da perda. Suas mãos tornaram-se constritas sobre a arma, revelando veias protuberantes ao longo de seus antebraços.
— Como soube...? — Heimdall sussurrou a pergunta, fitando o deus com cuidado e passando a calcular com receio cada palavra que saía de seus lábios traiçoeiros.
— Não é porque vivi ao lado de Thor por todo esse tempo que alcancei a estupidez que lhe é tão peculiar — Loki aproximou-se alguns passos, em momento algum quebrando o contato visual partilhado — Eu conheço a história de todos os híbridos que foram forçados a abandonar Asgard, até mesmo daqueles que deram suas vidas pelo direito de viver no reino dos deuses! E a sua história, sem dúvida, é a mais... Instigante. — Sorriu, e o modo como o fez incomodou profundamente o guardião.
Um lampejo de suas memórias passadas, tão protegidas dentro de sua mente quanto o corpo revestido pela armadura, trouxe à tona uma vívida lembrança de dias mais difíceis. Dias que preferia apagar de seu conhecimento...
"— Você precisa partir o quanto antes, Singrid! Asgard não é mais segura aos semideuses — O guardião alertou, segurando gentilmente a jovem pelo braço enquanto a guiava com firmeza pela ponte Bifrost, sentindo a imediata resistência de seu corpo frear de súbito aquela caminhada.
— Não, pai! Já chega! — Desvencilhou-se com desenvoltura, o enorme capuz cinza deslizando para seus ombros de modo a revelar a dureza determinada de seu rosto, o mesmo brilho teimoso reluzindo como filigranas de ouro nos olhos que herdara de Heimdall — Borr concedeu este reino a todos os híbridos, nós aprendemos a ver Asgard como nosso lar, e eu estou disposta a lutar por ele.
— A segurança de vocês agora é o primordial! Talvez algum dia seja possível retornar de forma pacífica a Asgard, mas por ora o mais sensato é se afastar.
Singrid se distanciou uma passada, fitando Heimdall com uma única sobrancelha arqueada em seu rosto cético, banhado em obstinação.
— Ajude aqueles que quiserem deixar o reino em busca de paz, pai. Leve-os em segurança para Midgard, mas não entre no caminho de quem deseja lutar. Os híbridos confiam em mim para liderar essa rebelião, e o senhor já devia saber que não é de meu feitio fugir! — Singrid tocou no ventre levemente inchado, usando a outra mão para segurar os dedos de Heimdall entre os seus, um sorriso cheio de ternura brotando em seus grossos lábios — É o mínimo que posso fazer por essa criança que cresce em mim, e por todas as outras que ainda virão de ventres mestiços. Lutar pelos direitos de quem ainda não tem voz.
Heimdall baixou os olhos marejados, sentindo-se dominar por um profundo orgulho da maturidade que sua filha alcançara, contudo também experimentou o terrível medo por aquela decisão, ciente de que a permanência de Singrid em Asgard poderia significar um distanciamento ainda maior do que se ela simplesmente cruzasse os mundos que levariam até Midgard.
— Tome cuidado então, minha querida! — Pediu, passando os dedos com carinho pelo rosto de sua corajosa filha, experimentando uma parcela do fervor que movia os mortais a orar para as criaturas supremas, e invejou-os naquele momento por não ter um ser superior a quem depositar seus mais profundos temores e esperanças.
Selaram o caloroso momento com um apertado abraço, e Heimdall queria poder nunca soltá-la novamente...
...Contudo, separaram-se, e esse sem dúvida foi o pior erro cometido pelo guardião."
— Eu sei muito sobre seus feitos, Heimdall! Em uma de suas raras aparições a Midgard, você se envolveu com uma humana e gerou nela uma filha... — Loki constatou, retirando Heimdall dos grilhões que o prendiam àquelas dolorosas lembranças — Quando o alcance de seus olhos lhe mostrou que a midgardiana não sobreviveu ao parto, você trouxe a criança para viver em Asgard com as bênçãos de Borr. Contudo, a regalia dos híbridos de habitar as terras divinas foi retirada assim que Odin ocupou o trono. — Heimdall virou-se de costas, indisposto a escancarar ao deus da trapaça o quanto aquele assunto o afligia — Você ainda observa os frutos gerados da descendência de sua filha em Midgard, não estou certo?
— Aonde quer chegar com esta conversa, Loki? — Inquiriu, a raiva começando a dominá-lo pela troça que percebia nas palavras do jotun, seu tom cada vez mais demonstrando que a amargura do guardião soava divertida ao filho adotivo de Odin.
— Eu sugiro firmarmos um pacto. Estou disposto a partir para Midgard e trazer sob minha custódia e proteção todos aqueles que ainda possuírem algum resquício divino em suas veias. Inclusive aquele que descende do ventre de Singrid.
— O que propõe seria da mais alta traição! — Heimdall mais uma vez virou-se para encará-lo, e Loki sorriu com triunfo ao perceber o tom de repulsa do guardião tentando inutilmente camuflar a cobiça visível que esbanjava de suas íris, tão douradas quanto a própria Asgard.
— Não tente dissimular o interesse que sente pela minha proposta, Heimdall. Nós dois sabemos que você deseja acima de tudo reviver os dias compartilhados com sua filha.
— Um pacto prevê que ambas as partes do acordo sejam beneficiadas. — O guardião comentou, receoso — Que tipo de proveito espera obter de mim?
— Apenas saber que posso contar com sua discrição.
— E posso perguntar o porquê disso? — Questionou munido de infindável desconfiança, sem muita paciência para os jogos fraudulentos do deus — Todos sabem que você não precisa se valer dos caminhos habituais para atravessar os reinos. Você conhece muitas passagens ocultas, então por que vir a mim?
— Qualquer um dos Nove Reinos está ao meu alcance com ou sem o auxílio da ponte do arco íris, de fato. — Anuiu, convencido de seus conhecimentos ocultos acerca das inúmeras passagens que se escondiam nas entranhas de Asgard — Contudo, de nada adiantaria atravessá-los em segredo se sua visão pode me alcançar qualquer que seja o meu destino. Depois de hoje, Odin incitará uma busca pelo meu paradeiro, e você certamente será o foco da minha procura.
— Você espera que eu oculte de meu rei o lugar em que se esconde? Espera que eu me coloque como cúmplice em suas trapaças?
Loki doou-lhe um sorriso largo e astuto, tornando a expressão em seu rosto mais uma vez perturbadora.
— Achei que nunca entenderia...
— E o que o faz pensar que eu vou agir de acordo com sua vontade? — A expressão ferina em seus traços negros foi tão indicadora de sua raiva quanto o ato repetitivo e ameaçador de novamente segurar o cabo de sua espada, contudo, ainda assim Loki respondeu em completa calmaria.
— Sua necessidade vigente de mais uma vez reunir a família que foi tirada de você. Basta me dizer como e onde encontrar o mortal que descende de sua filha, Heimdall, e antes que perceba estará com ele ao seu lado.
— Ela... — Corrigiu-o com voz enfraquecida, virando o rosto numa determinada direção a fim de mais uma vez vislumbrá-la como já fizera incontáveis vezes, no mesmo contemplar solitário que marcava sua existência desde que Singrid se fora. Loki sentiu a hesitação crepitar por seu rosto normalmente decidido e leal aos propósitos de Odin, porém agora prestes a se curvar diante do próprio desejo — O nome dela é Laura... — Completou num timbre quase inaudível, parecendo falar consigo mesmo.
O deus da trapaça nada disse, ciente de que palavras não eram mais necessárias e que naquele momento o silêncio seria seu melhor aliado. Podia ver e principalmente sentir a angústia que emanava de Heimdall, e soube que sua causa já estava ganha. Com total maestria na arte de dissimular, Loki conteve a intensidade de sua satisfação, esperando pacientemente que a próxima iniciativa fosse tomada pelo guardião, mesmo sabendo que a cada segundo transcorrido seu tempo se esgotava perigosamente.
— Você deve fazer um juramento de que a trará em segurança! — O vigilante por fim falou, sua voz soando ao mesmo tempo arrependida e esperançosa.
— Certamente — Sorriu, retirando de dentro da vestimenta um punhal elaborado de lâmina brilhante, arrancando um olhar desconfiado de Heimdall, olhos que no instante seguinte se encheram de compreensão quando o afiado gume perfurou a palma de Loki por toda sua extensão diagonal. De imediato uma grossa linha rubra verteu da mão esquerda do deus da trapaça, que em seguida ofereceu o punhal para o vigilante de Asgard — E para que não reste dúvidas quanto as nossas intenções, nosso acordo deve ser consumado por um pacto de sangue.
Heimdall segurou a arma oferecida por Loki de modo incerto, vacilando por breves segundos. O pacto de sangue tornaria aquelas palavras definitivas e sem volta, contudo, vindo de Loki, tal precaução era no mínimo necessária para assegurar que as condições que Heimdall impusera seriam acatadas. O deus da luz por fim decidiu-se, afundando a lâmina em sua própria mão, um filete vermelho imediatamente tingindo sua pele escura.
Loki segurou a mão sangrenta de Heimdall entre a sua, entrelaçando seus braços de modo firme e constrito de modo que o sangue deles se misturasse. De imediato uma linha luminosa saiu de suas palmas unidas, rodeando os corpos dos dois e retornando à sua fonte. As implicações daquele ato tornavam seus juramentos definitivos, impossível de serem violados.
— Você primeiro! — Heimdall avisou, ainda cheio de desconfiança de que tudo não passasse de mais um truque elaborado pelo deus da trapaça.
— Heimdall, guerreiro de Odin e guardião do reino, eu juro pelo sangue que nos une que trarei Laura em segurança para os domínios de Asgard. — Prometeu com solenidade, e imediatamente o brilho que os rodeava aumentou de intensidade, e a mão ferida de Loki começou a formigar assim que a última palavra de seu juramento saiu de seus lábios.
— Loki, filho de Laufey, eu juro pelo sangue que nos une que seu paradeiro jamais será revelado até que retorne e cumpra sua parte no pacto. — Completou, arrancando um olhar furioso do deus da trapaça pelo tratamento que escolhera, contudo o verde em seus olhos foi ofuscado pelo intenso brilho que os prendia, a luminosidade tornando-se escarlate como o próprio sangue, em seguida retornando depressa às palmas unidas numa última explosão de luz, deixando sua marca nas mãos que formigavam com vontade.
Por fim conseguiram se soltar, o corte recém aberto completamente cicatrizado em suas palmas, as peles de diferentes tonalidades levando um sutil brilho avermelhado dentro de si como lembrete do poder que carregava aquele juramento.
— Quando Odin perguntar por você, só haverá uma forma de explicar por que minha visão não é capaz de enxergá-lo... — Heimdall avisou, um pouco incomodado pelo que fizera, mas não chegando a arrepender-se.
— Estou a par das consequências. Seus olhos não poderão me ver porque eu estarei morto! — Completou com satisfação, já contando em plantar aquela pequena mentira para explicar sua ausência pelo tempo que bem entendesse. O guardião anuiu, estudando-o com os profundos olhos — Como eu posso encontrar a sua herdeira?
— Laura se encontra numa base de operações secretas entre os mortais, denominada S.H.I.E.L.D. Eu o enviarei direto para lá.
— S.H.I.E.L.D.? Se trata por acaso de alguma espécie de bordel midgardiano? — Loki provocou-o, o sorriso escarnecedor ainda largo em seu rosto à menção do espanto irritado com que o deus da luz o encarou, mais uma vez ameaçando empunhar a espada contra o jotun — Quem sabe eu até possa pagar por seus serviços antes de trazê-la para Asgard...
— Cale-se, Loki, ou esquecerei que Odin e Frigga o consideram um filho! — Avisou, desembainhando a espada e posicionando sua afiada ponta na direção do pescoço do jotun como um primeiro aviso.
— ...Isso, é claro, se a fila para chegar à meretriz já não estiver muito abarrotada com outros clientes. Mas dependendo de suas técnicas, eu posso aguardar minha vez.
— Já basta! — Heimdall urrou, cego pela fúria que distorcia a capacidade de seu discernimento. Sem ao menos refletir sobre as intenções de Loki com tamanhos insultos, acertou o cabo da espada contra a lateral de seu rosto, vendo-o despencar no chão com a brutalidade do golpe.
— O tempo insignificante de vida dos mortais me faz ter dúvidas se ela será capaz de algum dia conseguir satisfazer um deus, mas imagino que a larga experiência que já deve ter adquirido com os midgardianos possa me valer de algum prazer. — Loki continuou de forma impassível, nem parecendo perceber o sangue que escorria volumoso pelos fios negros de seu cabelo, ignorando por completo o latejar incômodo em sua têmpora direita.
Heimdall o ergueu pelo colarinho de suas elegantes vestes, e Loki viu com satisfação a ira transbordar por seu semblante desprovido de qualquer resquício de tolerância. Sentiu a espada transpassar o abdômen do deus da trapaça, extravasando toda a raiva reprimida pela afronta ousada.
— Laura jamais se interessaria por um ser desprezível como você! — Retirou a lâmina de dentro de Loki, empurrando-o com brutalidade para o globo que o conduziria através dos mundos. Inseriu a espada ainda sangrenta no encaixe que servia de gatilho para as viagens entre os reinos, sabendo que se Loki ficasse um minuto a mais em Asgard provavelmente ganharia muito mais do que um ferimento no ventre e uma lesão na cabeça, e talvez o pacto de sangue que acabaram de firmar fosse quebrado pelo derramamento deste.
— Nos encontraremos em breve, Heimdall! — Loki disse em meio à respiração falhada e dificultada pelo recente ferimento, porém perfeitamente satisfeito com a forma com que tudo conspirara de acordo com seus planos. Sentiu-se ser lançado para fora dos domínios de Asgard, a rápida viagem tornando-se extremamente desagradável por conta de sua situação debilitada.
Loki segurou a ferida aberta, pressionando-a com o máximo de força que conseguiu reunir enquanto ainda era jogado em direção a Midgard, e por mais que o trajeto não durasse mais do que alguns segundos, pareceu ao deus a contagem de um milênio quando ele finalmente caiu sobre o chão mortal, com alguma dificuldade em manter-se em pé.
Sua visão, já embaçada e dupla, captou superficialmente o recinto estranhamente descolorido, completamente diferente do dourado vivo de Asgard em meio ao cinza predominante e tedioso. O lugar, contudo, parecia por completo revestido da mais alta tecnologia midgardiana.
Um alarme estrondoso soou firme pelo ambiente, indicando a invasão, e Loki caiu de joelhos, sem mais conseguir sustentar o peso do próprio corpo, sentindo que a inconsciência começava a cortejá-lo. Tentou dispensar maior força à pressão que destinava ao ferimento, contudo o esforço apenas fez com que seus dedos se tornassem ainda mais trêmulos e falhos.
Sabia que a qualquer hora seus sentidos perderiam o nexo por completo, e que talvez ainda não conseguisse fazer contato com os tolos humanos que logo o encontrariam sob o som estridente que ainda alarmava a invasão no território da S.H.I.E.L.D., e Loki se perguntou como um mundo sem magia podia se valer de tais artifícios.
"Sou obrigado a admitir que são engenhosos estes mortais...", pensou com certo desprezo, prestes a entregar-se à escuridão que já turvava grande parte de sua visão, a dor agora contribuindo para salientar a negritude do ambiente. Loki ainda chegou a ouvir o som de passos apressados se aproximando do local em que estava, e os olhos esverdeados logo captaram a imagem conhecida de uma mulher de intensos olhos negros e brilhantes, a pele acobertada pelo tom homogêneo do ébano reluzindo junto ao cabelo escuro e sedoso. Ela segurava à frente do rosto uma espécie estranha de canos retorcidos, algo que o deus da trapaça não soube identificar. Seus braços se abaixaram assim que viu o invasor, e nos olhos dela havia apenas o espanto, este compatível com a incredulidade em seus lábios abertos.
Loki respirou com alívio, contemplando por um último instante aquela que protagonizava a maioria de seus sonhos. E finalmente desmaiou, acreditando que a figura daquela mulher se tratava de mais uma das imagens criadas por seu universo onírico, mal desconfiando que a vira pela primeira vez em seu estado desperto antes de enfim render-se à inconsciência.
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