Orlög

20 The Hammer Of The Gods Will Drive Our Ships To New Lands


Notas iniciais
Eu não quero me alongar aqui, então hoje minha conversa cocêis vai ser lá nas Notas Finais ^^

Banner acordou poucos segundos antes de se iniciar o estardalhaço, porém ainda assim se sentiu sobressaltar com a propagação do estrondoso alarme. Quase como se o próprio Hulk intuísse o perigo e se manifestasse a seu favor, vindo alertá-lo. Vindo, acima de tudo, domesticá-lo aos seus próprios impulsos ferozes. Percebeu, cheio de apreensão, as veias saltarem naquele conhecido tom esverdeado, prometendo arrastar sua consciência para o vazio e dar vazão à besta irascível, indomável pelas próprias urgências destrutivas.

Respirou fundo, disposto a lutar contra sua outra personalidade, esta tão oposta à índole pacífica do cientista.

Ou, ao menos, costumava ser.

Por mais que quisesse se enganar quanto à própria condição, a presença do Hulk o modificava constantemente, desde que se tornou uma parte importante de si no momento em que fora exposto à elevada quantidade de raios gama. Por mais que sua presença de espírito transmitisse um caráter centrado e calmo, ficava cada vez mais claro para o homem que, a cada novo dia, Hulk conseguia mesclar-se um pouco mais à sua psique, ganhando em si um terreno perigoso.

Cada avanço do outro cara representando a Bruce os seus retrocessos mais fracassados.

Constantemente se percebia dominado por sentimentos como raiva e frustração extremas, algo que para ele parecia até mesmo irônico, já que era a gravidade dessas mesmas sensações que alimentava a besta dentro de seu corpo e mente, aprisionando-o ainda mais intimamente a ela.

Arfou, desesperançado ao vislumbrar o avanço daquele verde que tanto aprendera a odiar.

Com todas as suas forças. Aquelas que eram reais, inatas a Bruce Banner, e não ao acidente de laboratório que coexistia consigo. Sentia tanta raiva, o tempo todo, que controlar-se uma vez que aquela infecção começava a se espalhar tornava-se um feito quase impossível.

Quase.

Porque, em meio a todo o caos interno que precisava suportar, havia um único tom esverdeado apto a serenar suas crises, numa eficácia sem igual. O brilho forte de íris glaucas capaz de exalar toda a tranquilidade que Hulk lhe tirava.

“Os olhos dela...” — atestou em pensamento, a fúria provinda de Hulk tornando-se progressivamente menos perturbadora em sua intensidade. Mais brando e quase fácil de lidar. Mentalizou o rosto de Natasha pelo que lhe pareceu um minuto inteiro, direcionando um foco proposital aos orbes de todo expressivos, e dando o seu melhor para controlar a respiração que já pesava em seus pulmões. Percebeu o embaçar da própria visão regredir, e não tardou até que sua pele retomasse a coloração original e suas íris não mais se traduzissem em fúria destrutiva, e sim alguma melancolia entremeada à inquietação por expor a jovem mulher àquele perigo iminente de seus sentimentos.

Não se lembrava do momento exato em que havia levantado da cama, mas no mesmo instante percebeu-se apoiado junto à parede, ofegando como um efeito colateral daquela sua companhia indesejada e constante.

O alarme ainda explodia em ondas insuportáveis pela extensão da S.H.I.E.L.D., parecendo disposto a testar o autocontrole já precário do cientista.

— Bruce! — Natasha entrou em seu aposento de forma brusca, temendo justamente encontrá-lo sob o domínio da fera que habitava seu corpo, e quando o percebeu em seu estado natural não controlou o suspiro de alívio, só então notando os piores receios lhe abandonarem. Temia, mais do que tudo, pela saúde do homem a cada vez que ele se entregava aos instintos de Hulk, por mais que aquela espécie antropomórfica de animal protegesse a vida do físico nuclear nas situações de perigo — Ainda é você! Achei que não viria a tempo...

A ruiva correu ao seu encontro, e o toque suave e analítico de seus dedos acompanhando o retesar dos últimos resquícios esverdeados teve um efeito ainda mais potente em livrá-lo daquela presença. Apesar de desejar cada vez mais a companhia da mulher, não podia evitar que a culpa e preocupação o arrastassem para cenários menos agradáveis.

— Não devia entrar aqui assim, Nat, sabe disso. Podia ser o outro cara... — alarmou, detestando lidar com o fato de que representava um enorme risco a todos à sua volta.

Em especial à Natasha.

— Costuma ser mais fácil lidar com ele, acredite. — replicou com um traço indisfarçado de mágoa, levando ao olhar de Banner uma parcela daquela mesma amargura quando entendeu a que ela se referia. Por mais que viesse nutrindo um afeto cada vez maior pela russa, e soubesse ser recíproco, o cientista ia contra suas vontades e evitava enraizar os laços. Temeroso de que aprofundar tal relação pudesse machucá-la não apenas num nível metafórico. Aqueles olhos verdes, o único verde que ele amava, lançou-se a encará-lo com a mesma firmeza e intensidade que lhe eram tão típicas. Os orbes cravaram-se nele, acusadores e honestos — Ao menos ele não deixa dúvidas sobre o que sente.

Os músculos da mão de Banner sofreram um rápido espasmo, como se tencionasse ir de encontro à Viúva Negra e no mesmo instante rejeitasse o movimento inacabado. Um instinto que ele por pouco conteve, fazendo um esforço sobre-humano para novamente convencer-se do erro que seria deixar-se levar pelas verdadeiras vontades.

Porque uma vez que sucumbisse a elas, duvidava seriamente ser capaz de voltar atrás.

— Acho que devemos ir — desviou o olhar, sentindo a decepção da mulher fluir para si através do compenetrado encarar ainda mantido, porém não mútuo. — O diretor pode estar precisando de nós.

— De nós, acho difícil. Do grandão, talvez — deu um meio sorriso conformado, indo naquele passo inconscientemente sedutor em direção à saída. Ele a seguiu, infeliz.

— Algum palpite do que houve dessa vez?

— Nem ideia — alegou num timbre vago, dispersa à medida que se aproximavam do estardalhaço. A verdade é que já haviam passado por tantos momentos semelhantes àquele, que eles quase pareciam banais.

— Como vamos fazer isso? — Laura espreitou o deus da trapaça cheia de expectativa, mal percebendo que constringia exageradamente os cabos da dupla de Colt Python calibre .357 que segurava, sentindo falta do peso de suas antigas pistolas de cabo de sândalo.

Loki precisou conter um sorriso vitorioso ao perceber todos os sinais de ansiedade que trespassavam a midgardiana. Sequer precisara usar alguma de suas artimanhas para coagi-la a concordar com seus planos, como faria agora aos demais do grupo.

Seguiriam o deus de bom grado a Asgard, e lutariam ao seu lado pela própria vontade de suas mentes manipuláveis e tão impressionáveis quanto.

Foi ainda mais fácil do que ele presumira, embora os integrantes daquela instituição ainda guardassem algumas reservas em relação às intenções do invasor.

Mas a partir de hoje, tais receios não importariam mais. Qualquer dúvida a seu respeito, qualquer hesitação que ainda restasse, estava prestes a ceder lugar à total confiança. E aquela era a maior de todas as certezas do deus da mentira.

— Criarei uma ilusão de Thor projetando seus ensejos destrutivos — elucubrou, não gostando do olhar cheio de ressalvas que a humana fez incidir sobre ele num rápido lampejo duvidoso. Claramente não estava confortável com as pequenas trapaças que se colocariam em andamento, e por um segundo controverso, Loki imaginou até que ponto se estenderia a lealdade da mulher. Ela, contudo, passou por cima de suas questões mal resolvidas e deu seguimento ao planejado.

— Vou mandar aquela versão zumbi do Fury soar o alarme — ela o mirou com profundidade, desgostosa de toda a situação. — É bom que isso não seja a porra de uma armadilha, alce.

— Se bem me lembro, não fui eu quem expressou o desejo urgente de deixar Midgard... — Havia uma nota maldosa em seu timbre, e de imediato Loki execrou-se pelo efeito que o significado implícito daquela frase causou na midgardiana. Estava a par, de muito mais perto do que gostaria, dos motivos por trás da impulsividade daquela humana em fugir de um mundo que lhe fora tão pernicioso, tão abusivo nos mais variados níveis de sua existência.

E, para sua própria fúria, jogar essa verdade contra a Pistoleira não lhe trouxe qualquer sentimento de prazer ou satisfação, por mínimo que fosse.

Laura o fitou com o rancor bruto que não se deu ao trabalho de camuflar, incapaz de contradizer aquele fato. E, ainda pior, incapaz de eximir-se da culpa caso tudo desse errado para as pessoas que amava. Desde que tivera seu conflito tão esperado com Ramirez — e acabou vivenciando aquele trágico desfecho —, foi abrasada por uma espécie incontestável de necessidade em escapar daquele mundo. Talvez, na esperança de testemunhar ares um pouco mais gentis à sua condição desfavorável, afastando-se das piores lembranças e de toda a vivência traumática ao finalmente encará-las.

Sentia-se impelida a deixar absolutamente tudo para trás. Para que, quem sabe assim, de fato conseguisse seguir adiante naquele passado que apenas a impulsionava para baixo...

...Sempre para o pior de si.

A Pistoleira saiu em busca do diretor sem trocar nenhuma nova palavra com seu cúmplice, e assim se mantiveram, até que o sonoro ruído ecoasse por cada canto da S.H.I.E.L.D., despertando num único sobressalto todos os Vingadores.

— É sua deixa, gazela — Laura fez certo esforço para sobrepor sua voz ao alarme sonoro, conseguindo regozijar-se um pouco com o lapso de desentendimento irritado que roçou os traços do jotun. Atormentá-lo com referências terrestres e testemunhar o abalo de sua prepotência era o tipo de atividade que jamais cansaria a midgardiana. — Os outros não vão demorar, você tem uns vinte segundos, no máximo, se a gente considerar que o garoto propaganda do Tio Sam usa aquele collant escroto como pijama. Aliás, isso é algo que eu sempre quis descobrir... — lançou um olhar rápido ao relógio de pulso, de fato monitorando o transcorrer do tempo que possuíam.

Sem nada responder além de um olhar enregelado, Loki aprontou-se para acessar o cerne de sua magia, e foi sua vez de se comprazer ao reparar o vestígio de deslumbre que adornou os olhos negros da humana assim que as projeções se iniciaram.

A Pistoleira sentiu o próprio queixo descer, precisando esforçar-se muito para recompor a expressão embasbacada quando o deus da trapaça fez um rombo surgir no teto da instituição de segurança máxima. A estrutura superior, agora comprometida em integridade, permitia uma visão ampla de um céu inexistente, saturado de nuvens cinzas.

— Isso é... — “...real?”, não foi capaz de concluir a frase, mal dando-se conta de que verbalizara o início de sua dúvida.

— Apenas aos olhos — Loki respondeu com notória vaidade acerca de seus talentos, compreendendo a indagação ainda que inacabada. Os verdes orbes deslizaram na direção da mulher quando criou uma réplica idêntica de Thor erguendo o cobiçado Mjölnir, um raio atravessando a abertura aparentemente comprometida da S.H.I.E.L.D. para encontrar o centro do pesado martelo.

— Valha-me a puta que me pariu! — murmurou em evidente deslumbre, chegando mais perto da projeção do homem completamente formado por músculos protuberantes — E quem seria a Barbie versão mestre de obras...?

— Este é Thor. Meu falso irmão — declarou de forma áspera apesar de não compreender os termos utilizados pela midgardiana, sequer se afetando com aquele desentendimento que normalmente o aborrecia. Olhava fixamente para a projeção, não enrustindo os sentimentos amargurados que emergiam àquela visão. — Aquele que se aliou a Odin para me fazer crer numa existência proditória.

— Primeiro de tudo... Quê? — A Pistoleira passou a encará-lo com certo divertimento, zombando dos termos sempre sofisticados com que o deus se expressava mesmo em momentos de raiva — E segundo e mais importante... ‘Cê só pode ‘tá de sacanagem com a porra do caralho da minha cara, gazela! Você achou mesmo que esse... troço bombado podia ser seu irmão? É só comparar o seu bíceps com o dele, meu camarada. Nenhum Whey Protein faz isso! Só falta agora você me dizer que o resto da família segue esse estilo loiro dos olhos azuis... — troçou, cuspindo um riso irrefreável ao perceber a ira profunda do asgardiano que, sem a intenção, acabou comprovando a teoria zombeteira da mulher.

A resposta de Loki, no entanto, limitou-se a uma expressão evasiva, perdendo-se quando os primeiros passos apressados ecoaram ao longo do estabelecimento, anunciando a proximidade dos outros Vingadores.

A mulher relanceou um novo olhar ao cronômetro que programara em seu relógio, meneando a cabeça como se já conhecesse o resultado.

— Sabia que ele não tirava aquela fantasia ridícula... Mais cem pratas que o Stark me deve! — dispersou, voltando o relógio à função original de mostrar as horas — Como isso vai funcionar? — Laura usou de um tom urgente, sentindo a gravidade de não poder mais voltar atrás em suas escolhas. — Vou ter que chutar essa bunda incrivelmente malhada e empinada?

— Não faça nada — alertou, ríspido. Quando o primeiro humano cruzou a porta até o recinto em que Loki criara o holograma de Thor, este já estava coberto pelas faíscas dos falsos trovões conjurados pelo poderoso martelo, cobrindo a S.H.I.E.L.D. de luz e estrondos.

Steve Rogers chegou apenas um átimo de segundo antes de Clint Barton, abrindo a passagem para os demais em sua pressa. Banner e Natasha foram os últimos, e em poucos segundos toda a equipe já vislumbrava, boquiaberta, a cena arrepiante do ser que controlava a ira nos céus.

A Pistoleira percebeu a intenção de ataque dos Vingadores, correndo até eles num impulso intuitivo, sua consciência experimentando uma dose cavalar de alerta. O Homem de Ferro, já a centímetros do chão, mirava o propulsor da palma na projeção criada por Loki, esperando apenas carregar sua energia para dar início ao ataque. O sereno cientista dava seus primeiros indícios de que libertaria a bestial criatura verde que coexistia em si, enquanto os outros também se posicionavam para a iminente luta.

Uma luta que não poderia, de modo algum, ocorrer.

Pelo bem daquela farsa ainda tão prematura.

— Tirem a porra do cu da reta, agora! Todos vocês! — ela se interpôs às intenções ofensivas dos companheiros de longa data, obrigando-se a espantar o remorso por ajudar a enganá-los daquela forma tão torpe. Era tarde demais para arrependimentos, mesmo que quisesse voltar atrás.

Tony Stark retornou ao piso, e todos os olhares que contemplavam a Pistoleira denotavam exatamente o mesmo indício de confusão, mesclada à pressa de agir.

— ‘Tá louca, Meio Quilo? — Clint baixou ligeiramente o arco num sussurro exasperado, usando um dos tantos apelidos que criara para zombar da baixa estatura da amiga, porém em seu tom não se percebia qualquer nota de descontração — Esse marombado vai destruir tudo!

— Nada pessoal, mas dessa vez nossa ave de rapina tem razão... — Stark emendou, incapaz de entender o controverso posicionamento da mulher. Há tempos, na realidade, não compreendia algumas atitudes da mulher — Olha a que ponto chegamos, você me fez concordar com o figurante do grupo...

Antes que a Pistoleira pudesse replicar, a voz potente de Thor retumbou pelo espaço, tão pujante quanto os trovões que ainda o circundavam.

Traiu tudo o que Asgard representa quando se aliou aos interesses de Midgard, irmão. Hoje venho apenas trazer um aviso de nosso reino — prosseguiu, e até mesmo Laura sentiu-se hipnotizada pelo magnetismo que aquela figura peculiar, apesar de falsa, naturalmente exalava no caos de sua aura repleta de faíscas. — Continue ajudando esta escória, e sobrará apenas destruição para você também, Loki.

— Mas que porra... — Natasha sequer soube terminar a frase, porém ergueu um dedo na direção de Steve enquanto ainda fixava o olhar abismado em Thor — E não me venha com seus “languages”, vovô.

— Era o que eu ‘tava tentando explicar... — Laura principiou, apressada por se fazer entender — Acreditem ou não, isso é uma discussão de família, é só outro caralho de deus lunático e egocêntrico. Já é fodido 'pra caralho nós termos que lidar com um, deixem isso pro alce ali resolver...

— Laura tem razão. Não devemos intervir — Nick Fury decretou, sob o domínio da joia da mente, arrancando de todos expressões abismadas diante da declaração.

O foco, contudo, logo retornou aos forasteiros asgardianos e suas desavenças no mínimo inusitadas.

— Deu-se ao trabalho de vir até aqui apenas para tecer ameaças, Thor? — Loki abriu um sorriso debochado, o olhar tão ferino e entregue àquele confronto tramado que quase convenceu a Pistoleira de que havia algum traço de realidade na encenação. Não pôde deixar de pensar que, para o deus da trapaça, parecia árduo lidar até mesmo com aquela falsa imagem. Em algum nível, aquilo realmente o afetava — Não deve retornar de mãos vazias, então! Leve de volta minha réplica a Asgard, irmão.

Provindo de sua mão destra, Loki criou o holograma de uma estaca de gelo, lançando-a contra o ardiloso truque que era aquela imagem conjurada de Thor. Fez com que o objeto se cravasse no ombro esquerdo do suposto invasor, e apesar de todo o ludíbrio envolvido naquela encenação, um espectro sutil de sorriso acabou vencendo seu esforço para contê-lo. Quase todos, porém, mantinham seu foco alarmado no deus loiro, que rugiu ao golpe.

Todos, com exceção de Laura, que de pronto identificou mais aquele indício indômito nos olhos astutos do cúmplice.

Loki umedeceu os lábios, fazendo esmorecer a leve ascensão incontida que se instalara neles, temendo não conseguir refrear aquele lapso evidente de satisfação. Por um rápido segundo permitiu-se deliciar com a implacável ingenuidade dos humanos, uma espécie tão previsível que eles se limitavam a esbanjar exatamente o mesmo estarrecimento diante do confronto.

Salvo Laura, fitando-o com aquela centelha perspicaz de compreensão, algo intimamente irritante para alguém que se julgava um exímio manipulador.

Seu corpo se retesou em contrariedade ao mais uma vez presenciar o conhecimento natural que a humana demonstrava à sua essência. Aquela parte de si que tencionava sonegar, até mesmo calar, mas que era percebida com habilidade pela mulher. Cada parte de seu contentamento transmutou-se à repulsa que habitualmente já o cercava. Aquele velho e conhecido desprezo de sua própria imagem, por permitir-se aproximar de modo tão íntimo daquela que há muito já reconhecia de seus sonhos.

Contemplando-a, descobriu que a abominava, quase tanto quanto a si mesmo.

Pagará por isso, Loki! Midgard cairá, e você também! — a projeção de Thor decretou, e diante do arroubo furioso de Loki, houve apenas o instinto de sua próxima ação, de todo impensada.

Sem que chegasse a mentalizar o próximo passo — de uma forma totalmente não idealizada na porção consciente de sua psique — o deus fez com que a versão tirana de seu irmão se voltasse aos humanos, as faíscas em torno do holograma apenas crescendo progressivamente à medida que a frustração do jotun se esvaía por aquela válvula de escape não programada.

O falso Thor direcionou o olhar à latina, carregando-o num ódio tão genuíno que trouxe um momento de atordoamento à Pistoleira. Quando o suposto deus do trovão alvejou uma tríade de raios no rumo preciso da mulher, Laura já não se sentia mais dentro de uma encenação. Por um indiscriminado segundo perdeu toda e qualquer convicção de sua própria segurança, chegando a crer que de algum modo aquele seria seu fim.

Surpreendido pelo próprio comando incitado em seu subconsciente, Loki também pareceu perder o senso de realidade. Incapaz de recordar-se do momento exato em que ordenara aquele obtuso ataque, foi como se sua projeção ganhasse consciência e passasse a agir por conta própria, e o medo que se apoderou em todos os níveis de seus sentidos sequer parecia passível de explicação.

Percebeu o temor profundo nos olhos da midgardiana de ébano invadir todo o seu corpo numa espécie de invalidez atônita. Permaneceu estática, incapaz de desvencilhar-se da ilusória teia que se formava ao seu redor. Tendo como única reação os dedos triscando os cabos de suas pistolas, como se ali, no conteúdo de seu coldre, residisse um poderoso amuleto.

O deus da trapaça foi arrebatado de tal modo, que seu peito comprimiu-se ante a visão de perigo à humana, não mais concebendo que ele era tão falso quanto o mais ardiloso de seus logros. Disposto apenas a proteger a estúpida mortal, colocou-se com extrema agilidade à sua frente apenas um milésimo de segundo antes que os raios encontrassem seu verdadeiro propósito.

Ela o fitou com perplexidade quando Loki absorveu o inesperado e fajuto golpe, entre a dúvida e a preocupação de que tudo aquilo pudesse, na verdade, ser tão real quanto seus olhos acusavam.

É mesmo uma criatura desprezível, irmão! — foi a voz de Thor que se difundiu com notório desprezo, porém aquele era um dos pensamentos mais legítimos de Loki.

A visão plena que detinha sobre si mesmo, ainda mais intensificada após o ato tão indigno de sua argúcia.

Sem mais conseguir levar adiante aquela farsa e desvinculando-se do olhar incisivo e questionador da Pistoleira, o jotun criou a ilusão de Thor partindo para o mundo ao qual pertencia. Notou o fracasso pesar sobre os ombros quando a percepção do que fizera recaiu sobre seu total entendimento.

“Tomei esta atitude apenas para preservar o cenário de minha própria farsa” — elucubrou, incapaz de compreender a irracionalidade que o movera. Odiou-se não apenas por colocar em risco aquele delicado momento de seu plano, mas principalmente por deixar-se corromper por trivialidades tão primitivas quanto aquele tipo barato de sentimentalismo — “Foi uma estratégia. Nada além disso! Para que os humanos pudessem me ter em mais alta conta!”

Tentou convencer-se do último pensamento, mal compreendendo aquilo que apenas Frigga abrangia com perfeição; trapaceava a si mesmo numa constância muito maior do que aos outros.

Um silêncio aterrador dominava o grupo de humanos, até que Tony Stark mostrou o rosto por trás da reluzente armadura, soltando um suspiro teatral. Vislumbrou o estrago que não passava de uma artimanha de Loki, e por fim cortou o silêncio.

— Eu não acredito que fui acordado no meio da noite só ‘pra ver essa medição de pênis asgardiana... — o Homem de Ferro zombou, fazendo pouco caso do que acabara de testemunhar.

— Pareceu uma ameaça legítima — Rogers afirmou, seu timbre denotando a profundidade de sua preocupação, tal qual o vinco no meio de sua testa — Não acho que devemos continuar ignorando o fato de que esse lugar, lar de deuses ou não, é uma ameaça para nossa existência. Até mesmo para o nosso planeta.

— Pode até ser... — Tony abanou a mão, desenhando no ar um gesto de completo desinteresse — Mas a real questão aqui é... Se vamos mesmo ‘pra essa tal de Asgard, temos que começar a nos certificar das questões mais pertinentes... — encarou a todos com propriedade, deixando que sua fala pausasse por um instante — Por exemplo... Esse lugar tem algum tipo de serviço de corte e costura, ou todos simplesmente jogam suas cortinas sobre os ombros? E por Deus, seja ele qual for, as relações por lá são todas shakespeareanas assim...? Nossas falas em batalhas teriam que seguir algum tipo de métrica...?

— Até que ponto esse perigo de ataque é real para nós? — o diretor cortou a fala do bilionário, questionando Loki de forma prática, já premeditada pelo controle da joia do infinito.

— O ataque a este reino é algo certo. Trata-se apenas de uma questão de tempo, que já se esgota rapidamente. Se não formos nós os primeiros a agir, Midgard será destruída pelos caprichos dos deuses.

— Como se chega até esse... lugar? — Natasha inquiriu, duvidosa sobre como se referir à morada divina, algo ainda árduo para que a mulher cética fosse capaz de processar. Contudo, apesar dos questionamentos ainda existentes, parecia convencida a levar adiante o confronto entre os mundos.

Assim como todos os demais humanos.

— Eu detenho os meios para levá-los — o jotun refreou o tom da própria voz, esforçando-se arduamente para que seu contentamento não transparecesse da forma como o sentia. — Podemos partir assim que estiverem aptos a deixar seu reino.

— É algo que não podemos mais adiar — Nick atestou o que fora obrigado a dizer, transmitindo a todos a mesma centelha típica de autoridade — Temos que resolver esse conflito o mais rápido possível, como ficou demonstrado através de hoje. Não poderei deixar a S.H.I.E.L.D. sem supervisão, mas os Vingadores devem partir o quanto antes para esse encargo. Quais são os procedimentos necessários para essa viagem? — direcionou a pergunta a Loki por seu próprio comando, e de pronto o deus respondeu.

— Possuo um... aliado... que está a postos para quando precisar nos transportar. Concerne a ele cuidar dos métodos para a nossa locomoção, e ela é praticamente instantânea.

— Compreendo. Peguem o que julgarem necessário, e partam assim que possível — decretou conciso, deixando o espaço.

— Parece que terei mais uma ligação desagradável para a senhorita Potts... — Stark reclamou, acompanhando o diretor para fora do local aparentemente destruído. Quando saiu, ainda foi possível escutar as primeiras instruções que deu a Jarvis.

Sem nenhum tipo de oposição, o grupo de humanos tratou de tomar as providências para uma partida imediata. Munindo-se de algumas provisões e armas, não tardou para que os midgardianos logo retornassem ao deus, esperando por suas orientações.

Dóceis e prestativos. Como Loki previra desde o início.

— É vital que todos se mantenham sustentando uns aos outros. E não importa o que haja, não deverão soltar-se até que o percurso tenha se concluído em segurança — instruiu, não deixando de perceber a Pistoleira cuidar para que ficasse o mais longe possível do deus naquela corrente que se firmava. O rosto da mulher permanecia ilegível, seu olhar disposto a não encontrar o de Loki nem sequer por um mísero relance. Ele também afastou a atenção da midgardiana, obrigando-se a ignorar o quanto aquilo o incomodou — Heimdall! — o jotun sorriu, ciente de que a divindade a mundos de distância via com perfeita nitidez o deboche em seus traços. — Agora.

De imediato, um feixe das mais diversas tonalidades envolveu-os, tragando Loki para o cerne de suas amarguras, e os humanos para o completo desconhecido.

Quando enfim partiram, a S.H.I.E.L.D. retomou seu antigo aspecto. Íntegro, como jamais deixara de ser.

We came from the land
Of the ice and snow
From the midnight sun
Where the hot springs blow

(Immigrant Song — Led Zeppelin)

Notas finais
Bom, vamos lá. Caso ainda exista alguma alma perdida por aí, vagando no limbo que se tornou essa fic, agradeço imensamente pela sua persistência em continuar acompanhando essa história! Apesar dos meus sumiços, vocês representam um grande motivo de inspiração para mim, não duvidem disso! Em relação a esses meses de ausência, eu só posso mais uma vez me desculpar pelo maior hiatus que Orlög já sofreu, e esperar que vocês entendam meu lado. O último semestre de 2017 foi extremamente corrido pra mim por causa da minha carga horária de estágios e prazo apertadíssimo de entrega/apresentação do TCC, a parada foi estilo Jogos Mortais mesmo, hesuhesueh. Mas apesar de toda a correria, desgaste mental e (admito) surtos nada bonitos de se ver, no final deu tudo certo, não houve danos permanentes xP Além de todo esse período estressante, também teve o fato de que esse foi o capítulo mais difícil de escrever nessa história, pqp. E não teve absolutamente nada no enredo que justificasse essa dificuldade, mas depois de tanto tempo ausente foi beeem complicado retomar esse universo, levei várias semanas pra conseguir terminar, e foi um período de muita frustração (abre word, escreve meia dúzia de palavras e percebe que o negócio não vai fluir de jeito nenhum), olha, não foi fácil. A boa notícia é que isso serve pra ressaltar aquilo que eu sempre digo por aqui; não tenho intenção de abandonar essa fic, e esse perrengue que eu passei (e venci, porra! o/) comprova isso. Só resta saber se ainda tem público pra ler, mas aí já é outro papo =P No mais, ótimo 2018 pra todos, e que o carnaval de vocês seja maravilhoso! Eu já podia me adiantar e desejar boa páscoa também, mas vamos ser otimistas de que eu consigo postar até lá e compensar todos os leitores sobreviventes por esse sumiço xD Muito obrigada por chegar até aqui, e espero vê-los nos comentários ♥