Orlög
21 A Ponte do Arco Íris
Notas iniciais
— Heimdall! — Loki sorriu com deboche, ciente de que o deus da luz era capaz de perceber cada porção do escárnio que se alastrava em seus menores traços, ainda que estivesse a reinos de distância — Agora.
No mesmo segundo, Laura e todos ao seu redor sentiram a forte propulsão que impeliu seus corpos, tirando-os daquele terreno a uma velocidade incrível. Arfou, sem querer aumentando o aperto de suas mãos entrelaçadas à de Clint e Banner.
Um mar de cores dinâmicas os envolveu ao longo da inusitada viagem, conduzindo-os sempre em linha reta durante todo o trajeto deslumbrante, e a Pistoleira nem ao menos conseguiu disfarçar o fascínio. A impulsão invisível que seus corpos sofriam parecia superar a velocidade da luz, porém ainda era perfeitamente possível admirar-se com o envoltório luminescente que, de alguma forma, aparentava protegê-los do espaço externo. Tão concentrada estava em captar as maravilhas daquele cenário que não chegou a se dar conta quando o peso do Gavião Arqueiro pendeu com mais força sobre si.
— CLINT, NÃO! — Natasha berrou, e apenas naquele instante Laura percebeu o caos que se instaurara entre o grupo. De alguma forma o arqueiro havia se soltado da mão do Capitão América, e agora apenas se apoiava na amiga de longa data.
— Segura firme, porra! — Ela gritou conforme começou a senti-lo escorregar do alcance de seus dedos, e soube de imediato que não seria capaz de sustentar seu peso se ele perdesse um pouco mais de espaço em sua mão.
— Não vai dar, Laura. Me solta! — contestou, percebendo que logo a amiga também entraria em maus lençóis se mantivesse aquela atitude de priorizá-lo.
— Teu cu! — replicou raivosa, no mesmo instante desvencilhando-se de Banner e se jogando na direção do amigo para ajudá-lo, quase sincronizada com o momento em que Barton caiu para fora da bela circunferência de luzes.
De dentro da passagem a midgardiana conseguiu ouvir o grito unificado de seu nome, e imaginou se Loki também teria dado voz ao coro a despeito de sua postura sempre contida.
Deixou aquele pensamento sumir em sua mente, ciente de que não importava. Conseguiu alcançar Clint com mais firmeza, porém era ela quem agora se desprendia do grupo. Quando julgou não haver mais esperanças para si e o arqueiro, percebendo todo o seu tronco pender para além da faixa luminescente, sentiu a extremidade da canela ser presa firmemente por dois tornozelos, e sua queda cessou, tão brusca quanto se iniciara.
Expirando apenas alívio, encarou o amigo precariamente pendurado em si.
— Aonde pensa que vai, Tiro ao Alvo? — aumentou a força com que o segurava, incapaz de imaginar perdê-lo — Nossa Liga da Justiça não seria nada sem seu Aquaman — zombou, provocando o companheiro ao insinuar que, dentre todos, Clint era uma espécie de figurante.
— Aerolito! Cuidado! — ele alertou, urgente. Laura olhou de relance para cima, vendo um enorme meteoro passar rente ao feixe de luz, bem onde seus corpos pendiam. Impulsionou-os com força para dentro da barreira luminosa, sentindo o suor descer por sua testa.
— Numa hora dessas você vem e me grita aerolito? Sério? — questionou-o, incrédula. Obrigou-se a ganhar mais espaço ao longo do braço do arqueiro, garantindo que não haveria a mínima chance de ele escorregar para longe de seu alcance.
Ela permaneceu mirando o amigo entre a descrença e a diversão, disposta a dar-lhe uns cascudos metafóricos e literais quando já estivessem em segurança. Desde que Cristina se suicidara na sua frente, aquela foi a primeira vez que Laura de fato sentiu-se apta a um riso genuíno.
— A culpa é sua que me viciou em séries mexicanas de humor duvidoso! — Sorriu repleto de afeto, parecendo em nada abalado com tudo o que acabara de acontecer naqueles míseros e conturbados segundos.
— Da próxima vez te deixo cair, seu ridículo! — ralhou, apesar de querer rir. Olhou de esguelha para o resto grupo, vendo que seu salvador era Bruce Banner, o companheiro que estava mais próximo de si naquela conformação. Só então se deu conta de que a armadura de Tony que se encaixava em sua mão e antebraço direitos não mais o vestiam, agora circundando o tornozelo livre da Pistoleira para dividir com Bruce o peso dos dois agentes dependurados. Sem querer a sua atenção foi atraída para o asgardiano, percebendo-o exalar fúria em sua feição quase sempre dissimulativa. Não a encarou de volta por um único momento sequer, como se fizesse questão de ignorá-la.
No segundo seguinte o grupo já se amontoava em solo firme, cambaleando sobre uma espécie de salão arredondado. Um homem negro, de memoráveis olhos áureos, arrancou uma espada de seu suporte assim que o grupo aterrissou, e de imediato assumiu uma postura ofensiva que alertou a todos.
As íris de uma intensidade profunda se instalaram furiosas em Loki, prometendo-lhe um fim.
— Nosso pacto acaba aqui, jotun! — empunhou a espada no intuito de dominar o deus recém chegado, porém um estrondo o impediu de completar o movimento almejado. Laura, ainda sentada pela aterrissagem abrupta, atirara na arma do asgardiano desconhecido. Mirou com perfeição no cume da lâmina, fazendo-a voar em giros para longe do vigilante, à mercê do poderoso impacto.
Apesar da violência do baque, a espada caiu intacta.
Só naquele instante a atenção de Heimdall recaiu sobre Laura, e seus olhos dinâmicos tornaram-se ainda mais complexos pela carga opressora de sentimentos que se instalaram ali.
— Eu não poderia estar mais de acordo, Heimdall — Loki reafirmou a última fala do deus da luz, num rápido movimento utilizando de seus poderes gélidos para freá-lo. O vigilante teve o corpo todo envolvido pelo gelo que provinha de Jotunheim. Estático, os olhos dourados mantiveram-se acusando o filho de Laufey, os orbes atuando como a única porção de seu corpo ainda apta ao movimento.
— É sempre bom se sentir bem vindo... — Tony constatou com ironia, caminhando pelo átrio circular como quem julga a instalação. Fez com que a armadura se retraísse na porção do rosto, dando-lhe maior liberdade para analisar o curioso centro do ambiente, onde existia um encaixe nítido para a espada largada ao chão, afastada de seu dono pela habilidade da Pistoleira. — Então é a Excalibur aí que ativa o sistema de transporte... O que me diz, doutor Banner, estaríamos diante do primeiro teletransportador quântico capaz de conduzir pessoas?
— Tudo indica que seja uma tecnologia semelhante... — o outro vingador aproximou-se, também interessado — Aquele feixe de luz que nos trouxe com certeza tinha estrutura para ser uma ponte Einstein Rosen*. Só resta descobrir como conseguiram driblar a alta exigência de matéria e violar a condição de energia nula...
— Crianças, vocês vão querer deixar esse episódio do Mundo de Beakman** ‘pra outra hora e vir dar uma olhada nisso — Natasha alertou, parecendo de fato vidrada na paisagem afastada que desembocava da saída do átrio.
Chamando a atenção dos demais Vingadores, todos foram de encontro à ruiva para contemplar a mesma visão que ela. Apenas Laura se manteve no mesmo local, intuindo que Loki esperava por aquela exata oportunidade para agir contra o deus congelado.
E não estava minimamente disposta a deixá-lo à vontade com seus planos ainda escusos a ela.
Quando os dois ficaram a sós, a Pistoleira se aproximou do asgardiano um pouco à contra gosto, ainda irritada com o que ele fizera antes de deixarem a sede da S.H.I.E.L.D. Não queria proximidade, tampouco conversas, e podia perceber que o sentimento era recíproco. Limitou-se a encará-lo com firmeza, seus dedos envolvendo o cetro bem abaixo de onde a mão de Loki também o amparava.
— Nós dois sabemos o que você pretende fazer agora que nenhum deles está de olho, então melhor terminar de uma vez com mais esse seu jogo. E já que eu acabei caindo no erro de me tornar sua cúmplice, não pense que vai fazer isso sem mim — Laura sabia que a raiva com que Loki a fitou devia estar estampada na própria face, direcionando a ele sentimento muito semelhante. Gostou de saber que aquela atitude o desagradou, tornando seu aperto sobre o artefato mágico ainda mais forte, como se reafirmasse o desafio.
Como quando o usaram em conjunto no diretor, a Pistoleira sabia que o controle àquele asgardiano também seria compartilhado, e não evitou sorrir quando Loki demonstrou toda sua irritação diante daquele fato.
Sem sequer uma palavra direcionada à humana, sem nem mesmo tornar a olhar para a mulher que o encurralara naquele movimento — novamente deixando-o dependente de sua parceria — Loki incitou o cetro em direção ao deus da luz, concentrado ao desespero que exalava de seus olhos.
Heimdall via o que lhe esperava.
O último olhar plenamente legítimo do vigilante de Asgard foi direcionado à Laura, a humana de uma descendência muito longínqua à sua linhagem. A mortal pertencente à genealogia que, apesar de distante e quase perdida pela diluição do sangue, vinha de sua antiga e única família. Singrid. Foi por aquela humana, de olhar tão semelhante ao da filha, que Heimdall se destituíra da honradez e lealdade que desde sempre oferecera ao Pai de Todos.
Traíra Asgard apenas para compartilhar com Laura um momento verdadeiro, e até isso Loki lhe tirara.
Percebeu o deus da trapaça, em conjunto com a midgardiana, avançar o ápice do bastão através do gelo que o imobilizava. Quando o objeto tocou o meio de seu peito, Heimdall também se perdeu no labirinto da própria mente.
Foi como se a midgardiana revivesse o momento em que Nick Fury fora atingido por aquele mesmo poder. Toda a individualidade da vítima perdendo-se em arrebatamento, ausência dos verdadeiros sentidos. Percebeu cada ponto de tensão abandonar o corpo do deus a quem Loki chamara de Heimdall, e de imediato sua lealdade voltou-se irrestrita ao deus da trapaça.
— Não alertará ninguém sobre nossa vinda — Loki ordenou, recriando o melhor que pôde do tom dourado dos olhos de seu novo escravo em mais uma de suas tantas ilusões. O gelo ao redor da divindade derreteu-se, libertando-o apenas da prisão física. — Agirá como um servo de Asgard, mas responderá a mim.
Heimdall anuiu, subserviente, apenas mais um criado a serviço de Loki...
...E Laura.
Já não vendo mais razões para ficar ali, a midgardiana saiu de perto do deus, pretendendo afastar-se o quanto pudesse de sua presença. Acabou se unindo aos demais Vingadores, sendo de súbito arrebatada pelo mesmo deslumbre que envolvia a todos numa contemplação silente.
— Caralho... — seus últimos passos até os companheiros tornaram-se mais lentos, irrelevantes diante da grandeza que suas íris captavam.
Se não visse tamanha beleza com seus próprios olhos, jamais saberia como descrevê-la por sua própria imaginação. No plano mais distante do cenário, inúmeras montanhas esverdeadas apontavam para o céu bem azul, apenas seus cumes salpicados no tom alvo que somente a neve é capaz de criar.
As construções que se projetavam à frente do cenário natural esbanjavam atrativos tão sedutores quanto, parecendo encaixar-se junto à natureza periférica em perfeita harmonia. Mesmo ao longe era possível perceber os edifícios transmitindo o tom dourado que se intensificava pelos raios solares, e era no exato centro daquele panorama que se reservava a visão mais bela. Um palácio, constituído de várias torres em estaturas diversas, formava uma distinta silhueta piramidal, brilhando em tamanha intensidade que pareceu à Laura que seria possível enxergar o reflexo das majestosas luzes no rio calmo que circundava a cidade.
Águas tão límpidas e serenas quanto o refletir de um espelho.
Apenas após contemplar todo o horizonte extasiante, do tom mais reluzente de dourado já visto por ela, Laura percebeu estar pisando numa espécie de ponte salpicada por diversas cores enérgicas, parecendo vivas ao correr por aquele trajeto retilíneo, quase como se os convidassem a prosseguir pelo caminho delineado.
Permitiu-se um novo suspiro atônito, questionando-se se o ambiente divino seria capaz de hipnotizar os meros mortais com tamanha majestade.
— ‘Cê vai querer construir um protótipo igual na Terra, Lata Velha, fala a verdade... — Laura apoiou-se na armadura de Tony, percebendo-o tão deslumbrado quanto ela mesma ainda se sentia.
— Nem que eu leve minha empresa à falência, Meio Quilo...
— Tenho certeza que a Pepper vai adorar ouvir isso — riu, em momento algum duvidando ou julgando que o bilionário exagerava em sua colocação.
— Eu não tenho escolha, hermana — principiou num tom brincalhão, passando um dos braços por cima dos ombros da mulher, embora seu olhar ainda estivesse por completo vidrado no horizonte — Acabei de testemunhar que nossa torre parece uma maquetezinha mal feita de jardim de infância. Como eu posso respeitar os Vingadores depois de ver com meus próprios olhos que nosso QG não passa de um muquifo?
— Quanto drama, Ferrugem... Mal chegou e já quer medir seu pênis com o de um deus megalomaníaco, que provavelmente tenta compensar um falo minúsculo com esse palácio enorme?
Tony sorriu, fitando-a com satisfação.
— Eu gosto do rumo dessa conversa, mas não seja ingênua, criança! A rola de ferro desbanca qualquer concorrência, seja ela divina ou não — alegou, fazendo a Pistoleira gargalhar com gosto. — Se chegássemos a medi-la com o tal rei desse lugar, aí sim ele veria motivo para iniciar uma guerra contra os humanos.
— Eu preferia morrer sem saber que você chama seu pinto de “rola de ferro”, mas nem sei por que isso me surpreende. Deuses ou humanos, pouco importa. É sempre a mesma coisa se tratando dos machos da espécie. Tudo gira em torno do pendurado... — ergueu uma única sobrancelha, sorrindo maliciosa para o bilionário.
— E você diz isso com sólido conhecimento de causa, eu imagino...? — O Homem de Ferro insinuou capciosamente, relanceando um olhar sugestivo para o deus que vinha ao encontro dos Vingadores, como se já conhecesse acerca da estranha relação entre a humana e o asgardiano.
Laura tentou parecer descontraída ao erguer-lhe o dedo médio em resposta, mas percebeu-se enrijecer. Praguejou mentalmente, imaginando se Tony apenas tentava provocá-la de modo aleatório, ou se de fato a Pistoleira e o jotun haviam dado algum tipo de indício sobre a natureza mais íntima de sua relação.
Ouvindo o deus parar alguns passos atrás do grupo, agradeceu por aquela interrupção subitamente bem vinda.
— Não é seguro permanecer nas cercanias do palácio — o deus anunciou. — Teremos que nos distanciar para um abrigo seguro.
Ao dizê-lo, todos se puseram a caminhar sem grandes protestos. Os últimos acontecimentos, afinal, levaram os Vingadores a confiar nas intenções daquela figura misteriosa, como o próprio Loki previra desde o início. Apenas não contara com a existência de Laura, a humana que se tornara comparsa de seus ludíbrios, e essa era uma questão que sempre o aborrecia no mais profundo de seu íntimo.
Conduziu-os num longo trajeto até os limites de Yggdrasil, notando a forma como os humanos calavam seus assuntos ordinários à medida que a Árvore da Vida se aproximava de seus campos visuais, espantando de suas mentes pequenas tudo o que era trivial. Sem permiti-los admirar um pouco mais daquela beleza rústica, de um misticismo sem igual, embrenharam-se para além dos limites da grande árvore, e Loki apenas satisfez-se quando a perderam de vista por completo.
— Estaremos protegidos aqui por ora — atestou sem direcionar-se a ninguém em especial, ainda evitando qualquer interação mais específica com a midgardiana de ébano, assim como ela também se afastava do deus.
Sem mais prestar atenção na divindade, a Pistoleira ocupou-se em ajudar os outros a levantar o acampamento, trabalhando sempre numa quietude meditativa dos últimos acontecimentos e, como já temia, incapaz de chegar a grandes conclusões. Esforçava-se para arrancar o deus de suas conjecturas, porém ele tomava sua mente com naturalidade, até mesmo aquela versão mental do asgardiano caçoando com prepotência dos esforços inúteis que a mortal empregava na tentativa de afastá-lo.
Quando todo o trabalho chegara ao fim, Laura sentou-se ao lado de Banner, ainda contemplando a vista magnífica daquele ambiente totalmente novo. Percebeu-o distraído, quase como se não notasse sua chegada.
— Valeu pela ajuda hoje, grandão... — ela o empurrou de leve com o próprio ombro, acima de tudo grata pela intervenção do cientista que salvara não só sua vida, mas também a de seu melhor e mais antigo amigo. Seu irmão acima de qualquer laço sanguíneo. — Katniss e eu estaríamos fodidos a uma hora dessa se não fosse por você. Te devemos nossos rabos.
A Pistoleira ofereceu ao companheiro uma maçã do par que trazia em mãos, em seguida mordendo a que ficou consigo. Ele aceitou, encarando a fruta com alguma tristeza em seus olhos exaustos.
— Não foi nada. Só tente avisar da próxima vez... o outro cara tem o péssimo hábito de sair esmagando o que estiver à frente quando se assusta — deu-lhe um sorriso conformado, finalmente a encarando. Sua expressão, no entanto, mudou com brusquidão quando a Viúva Negra passou diante deles, e novamente o cientista se fechou ao mesmo estado absorto de minutos atrás.
Laura sorriu, já há algum tempo notando a sugestiva tensão entre os dois.
— Então... Você e a Nat — mordeu novamente a fruta, encarando-o apenas de canto de olho. — Bacana. Vocês combinam — atestou, divertindo-se com os traços agora incrédulos do cientista — O quê, era pra ser segredo? Deu bem errado então, porque ‘tá na cara que vocês ‘tão muito a fim. Não querendo ser intrometida, mas na verdade querendo e muito... Já rolou alguma coisa? E se sim, o cara verde quis entrar na brincadeira?
— Não! É... complicado... — tentou desvencilhar-se, e Laura notou o quanto aquele assunto o entristecia. Franziu o cenho, de fato sem entender a reação adversa de Bruce — Não é como se eu pudesse estar num relacionamento sem esperar pelo pior. Sem saber que é só uma questão de tempo até algo realmente ruim acontecer.
— Oi?
— O outro cara. O Hulk — explicou-se num murmúrio ao notar a confusão permeando o rosto da agente, perguntando-se como aquela resposta, por si só, não soava óbvia a ela. — Existir com ele é como cuidar de uma granada sem pino. Você faz o seu melhor para evitar, mas sabe que a explosão é certa.
— Ah, Bruce, por isso que ela parece estar tão puta contigo... É isso que vem empatando a foda de vocês, ou você só criou essa desculpa como um pretexto ‘pra se afastar pagando de bom moço?
— Claro que não, Laura! — foi a vez do cientista soar indignado — Eu gosto da Nat, e por isso mesmo não posso ignorar o perigo que o Hulk representa.
— Desculpa, mas ‘cê falou um monte de merda agora. Todo mundo aqui já viu o Hulk em ação e tudo o que ele é capaz de fazer. O cara consegue destruir a porra de uma cidade em alguns minutos e nem sua no processo, sem mencionar que ele não tem qualquer capacidade ou interesse em distinguir os caras maus dos inocentes e sai quebrando geral, e ele é tão sem noção que só sente a consciência pesar quando é você que ‘tá no controle... — percebeu pelo leve vinco na testa do cientista que ele tentava entender aonde exatamente a mulher pretendia chegar com aquele discurso em nada animador. — Todo mundo já viu isso. E todo mundo também viu como ele se transforma numa princesa da Disney sempre que interage com a Viúva. Não faz diferença se você está na pele do cientista ou do Shrek, meu amigo. A questão que realmente importa é que nenhum dos dois é capaz de ferir a Nat, a não ser talvez por esse afastamento absurdo que você resolveu impor.
— Não é tão simples, Laura. Mesmo que eu conseguisse não me preocupar com a segurança dela ao meu lado, eu não tenho nada a oferecer, nenhum tipo de futuro. O acidente me afetou de muitas formas, eu sequer sou biologicamente capaz de ter filhos depois de me expor àquela quantidade de radiação gama.
— E você devia ser grato por isso, é a prova de que a natureza realmente sabe o que faz. Já imaginou se você engravida alguma garota e ela acaba parindo um Piccolo*** da vida? Ou mesmo se o bebê começa a chorar no meio da noite e o grandão aí se enfeza e decide usar toda sua psicologia infantil? Dá até ‘pra imaginar a manchete no dia seguinte: “Hulk atira criança pela janela após rugir por cinco minutos na sua cara”. — A Pistoleira o fitou com gentileza, reconhecendo que aquele era um assunto de extrema delicadeza ao cientista. — Mas falando sério, Bruce, você ‘tá se prendendo a problemas muito avançados. Duvido que a Nat tenha te proposto casamento ‘pra você estar pensando tão à frente assim, e mesmo que fosse o caso... Eu posso te garantir que engravidar não está nos planos da Viúva Negra.
— Pode não estar agora, mas quem garante que no futuro ela não vai se arrepender? Eu só não quero que depois, quando a intensidade do início se amenizar, ela sinta que perdeu tempo com alguém que está fadado a ficar estagnado.
— As armaduras do Stark têm mais chances de engravidar do que os úteros da equipe, camarada.
— O que você quer dizer com isso? — inquiriu, espantado.
— Talvez você devesse perguntar ‘pra ela. Conversar com a segunda parte interessada de igual pra igual, disposto a ouvir e não só a falar. A não ser que prefira continuar bancando o embuste que decide tudo por conta própria, tendo a arrogância de pensar que sabe o que é o melhor pra mocinha desmiolada e incapaz de calcular os riscos das próprias decisões. A Natasha é uma das mulheres mais bem resolvidas e fortes que eu já conheci, Bruce, e ela não merece que ninguém a nivele abaixo disso.
O cientista permaneceu por algum tempo em silêncio, parecendo refletir o eco desagradável que as últimas palavras da Pistoleira criaram em sua mente.
— Eu só me preocupo muito com ela, nunca quis passar essa impressão...
— A maioria dos homens não quer, mas também nunca hesitam em tomar a frente das questões que não cabem a eles decidir. Eu sei que esse não é o seu caso, mas você precisa deixar isso claro pra Natasha. Se for pra afastá-la, que seja porque você não tem interesse, e não por resolver isso pelos dois. Você é um dos bons, Bruce, e ela sabe, mas não pode deixar que o Hulk te feche ‘pra vida, por mais tentador que seja. É muito mais fácil se acomodar quando a gente vê a chance de se isolar atrás de uma armadura, mas quase nunca é o certo. Porra, nunca é.
Banner sorriu ao encará-la como se só então a conhecesse, seus traços sempre gentis na pele do cientista transmitindo parcelas de gratidão e respeito.
— Ela tem razão... — soltou aquela fala que nada mais era do que um pensamento que se projetou alto demais, arrancando apenas curiosidade de Laura.
— Em quê?
— Em ter tanto carinho por você...
A Pistoleira sorriu de volta, agradada.
— Se tem uma coisa que aquela cretina sabe fazer bem ‘pra caralho além de chutar umas bundas, é escolher de quem se aproximar — pousou uma mão amigável no ombro do vingador, quase acrescentando o desabafo posterior à sua fala. Precisou controlar-se muito para mantê-lo apenas nos limites de sua mente.
“...e eu invejo ‘pra cacete esse dom, você nem faz ideia!” — pensou no relacionamento no mínimo problemático que compartilhava com Loki, e por um instante imaginou como seria muito mais fácil ter alguém como Banner em sua vida, mesmo que precisasse conviver com a ameaça sempre iminente do Hulk.
Como se desvendasse suas conjecturas, o cientista encarou o horizonte, jogando a primeira fala da Pistoleira contra ela mesma.
— Então... Você e o Loki... — divertiu-se quando ela esboçou praticamente a mesma reação que ele, engasgando-se com a nova mordida dada em sua fruta e tentando em vão disfarçar a surpresa.
— Eu e quem? — tossiu, por alguma razão muito irritante não conseguindo encará-lo nos olhos.
— Se era para ser segredo, pelo visto você não é muito melhor do que eu em guardá-los... Ninguém se jogaria na frente de uma tempestade de raios se não quisesse proteger algo muito valioso — constatou com esperteza, e Laura sentiu-se ainda mais estúpida do que no momento em que a ilusão de Thor tentou atacá-la momentos antes de deixarem a S.H.I.E.L.D.
Ela, afinal, conhecia a verdade por trás do ato falso de heroísmo, incapaz de supor que até mesmo Loki fora pego de surpresa por aquela atitude.
“Foi só mais uma trapaça, verdão. Nada daquilo era real...”
— ...Sem mencionar o momento em que você se jogou para salvar o Barton — anunciou com descontração, sem perceber que Laura instantaneamente redobrou a vigilância ao que ele dizia, modificando toda sua postura. A Pistoleira sentiu-se tensa e alerta de imediato, pouco disposta a refletir sobre as razões de sua súbita ansiedade — Um dos motivos de meu instinto em te segurar ser tão imediato foi porque vi claramente que ele soltaria todo o grupo para ir atrás de você. Normalmente não é nada fácil decifrar o cara, mas o desespero que vi nos olhos dele não podia ser mais verdadeiro.
A mulher permaneceu encarando o cientista, sem saber o que responder. Não estava plenamente convencida do que ouvira, nem de longe, mas ao mesmo tempo não podia deixar de sentir certo apego por aquela informação.
— Você acha que mais alguém percebeu? — desistiu da dissimulação ao fazer o questionamento honesto, encarando profundamente a maçã que comera pela metade — Antes de você, só o Clint sabia... E talvez o Tony...
— Depois de hoje? Se todos viram o que eu vi, é provável que só o Capitão América não tenha pegado essa referência... — brincou, e Laura o acompanhou no riso, pegando a si mesma imaginando se a conclusão de Banner estava certa ou só não passava de mais um ardil do deus.
Sentiu-se exausta ao compreender que, provavelmente, jamais teria absoluta certeza sobre o que de fato acontecia entre os dois.
Apenas quando todo o acampamento já parecia recolhido pela escuridão, Laura tornou a ver Loki. O deus vinha em sua direção, e não tardou a puxá-la com raiva pelo pulso, arrastando-a para dentro de uma tenda vazia em busca de manter privada sua discussão.
Parecia ansioso pelo momento em que poderia abordá-la a sós, longe da atenção dos outros Vingadores.
— Que caralho você pensa que ‘tá fazendo? — ela reclamou, seguindo-o de má vontade, sem muita escolha. Após aquele isolamento precário dentro da barraca, o deus virou-se na direção da midgardiana e a encarou com profunda aspereza, pela primeira vez desde que chegaram, parecendo disposto a manter com a humana um contato visual duradouro.
— Em que, exatamente, estava pensando quando se jogou para fora do portal? — acusou, tão furioso como a Pistoleira jamais vira. — Se é que é possível lhe atribuir uma capacidade tão evoluída quanto esta.
— Em que eu estava pensando? — libertou um sussurro exaltado, o tom ainda baixo querendo beirar o descontrole — Não faço a mais puta ideia, seu babaca. Provavelmente eu pensava o mesmo que você quando tirou aquele Pikachu bombado da sua pokebola e fez ele me lançar o caralho de um choque do trovão — alardeou, fazendo questão de abusar de referências terrestres simplesmente pelo prazer de senti-lo desconcertado com a ignorância. Ele, contudo, apesar de não abranger o significado pleno de sua fala, compreendeu que a Pistoleira referia-se à sua última trapaça em Midgard, quando a ilusão que criara de Thor ameaçou atacá-la. — De repente decidiu pagar de preocupado? Pois então vá se foder, meu anjo!
— Nenhum dos últimos acontecimentos em Midgard trouxe uma ameaça concreta a qualquer um de vocês — rebateu com crescente irritação, incapaz de pressupor o tamanho da estupidez daquela humana. — Estava ciente disso desde o início! Sabia que nada daquilo era real!
— Aí é que ‘tá o problema, Loki — o desamparo em seu rosto atenuou um pouco da raiva, demonstrando a amplitude de seu cansaço. Quase era possível identificar um sorriso fadigado no conjunto de sua expressão. — Com você eu nunca sei o que é real e o que é uma farsa... E isso é cansativo ‘pra cacete... — decretou, notando que também as expressões do deus se transtornaram brevemente — Eu costumava achar que eu era uma bagunça cheia de merda ‘pra lidar, mas até nisso você me supera. Sempre faz questão de se isolar acima de todos, subindo nesse pedestal inalcançável de superioridade só ‘pra que ninguém consiga ver de perto o quanto você é fodido — Laura segurou o rosto de Loki com ambas as mãos, a firmeza do contato dando mais intensidade à sua fala. — Mas eu vejo isso, você querendo ou não. Então desce daí. Desce só por um instante e se decide, porra. Você me quer por perto ou não?
— O que te parece, humana tola? — replicou repleto de raiva incontida. Raiva por sentir-se da maneira como se sentia. Raiva não só de si e de suas recém descobertas fraquezas, mas principalmente da humana que as despertara. E raiva, acima de tudo, pela fragilidade de sua musa de ébano, tão passageira, tão quebradiça ao mundo.
A mais efêmera das criaturas, ocupando um espaço dentro de si que não poderia ser mais indesejado.
— O que te parece? — repetiu com certa carga de amargura na voz, ainda vivenciando apenas sensações danosas ao provar a acusação de sua musa, assim como lidar com a irritante verdade na réplica que agora ele lhe confidenciava.
As mãos da mulher desfizeram aquele contato num afastar repentino, seu rosto dominado pela surpresa da resposta recebida e um tanto inesperada ao que ela imaginou ouvir. Por mais tentada que estivesse a acreditar que Loki de fato baixara um pouco sua guarda, a razão apenas lhe permitia crer que ele a conduzia a mais uma de suas tantas trapaças...
...Ao mesmo tempo em que a tentava, implorando para que a humana pagasse para ver.
— O seu romantismo é mesmo de tirar o fôlego... — ela por fim escarneceu, evitando ao máximo demonstrar o quanto se sentia envolvida pelos orbes do deus, sempre chamando-a por caminhos um tanto tortuosos, quase sempre nada fáceis de trilhar. Temeu o quanto se via propensa a acreditar neles, percebendo os riscos de depositar sua confiança no ser que já se provara um talentoso manipulador. Apesar da legitimidade de seus receios, deixou-se conduzir pela ambição que também parecia movê-lo num nível mais camuflado. Presa à magnitude que Loki lhe causava, a mulher apenas atestou os vários níveis da própria desvantagem, entregando-se à pequeneza que experimentava diante do ser mitológico. Laura encostou-se ao jotun, escorregando uma das mãos para dentro da calça humana que ainda o vestia, estudando cada uma de suas reações, como se buscasse por qualquer ilegitimidade que o incriminasse e comprovasse suas dúvidas. — ...ainda bem que conheço seus pontos fortes, porque o flerte é lamentável.
Ela avançou ainda mais, precisando elevar-se na ponta dos pés para alcançar seu desígnio, ainda testando-o, certa de que o desarmaria em mais farsas. Contra suas maiores convicções, o deus também foi de encontro à humana, correspondendo com brusquidão os lábios que o procuravam. O corpo inteiro da midgardiana tremeu ao notar que naquele momento era ele quem destruía suas defesas, e não o inverso. Afastando-se das próprias reservas, a mão de Laura deslizou com mais ousadia pela extensão do membro viril, sentindo-o enrijecer a cada movimento.
“Literalmente uma baita pica das galáxias” — ela chegou a sorrir com o pensamento malicioso, sentindo-o arfar à medida que o prazer se condensava.
Os dedos frios do deus adentraram por baixo de sua blusa sem qualquer mesura, erguendo o tecido para longe de sua humana. Contemplou brevemente o tronco todo revelado da mortal, tomando-a novamente contra si antes que fosse ela a se ocupar em despi-lo.
Beijou o peito lívido do jotun, a mão que ainda provocava cada aspecto de sua libido agora ocupando-se em desabotoar a peça inconveniente. Sua própria roupa caiu de seu corpo sem que soubesse com exatidão como o tecido se desprendera, e Laura soltou a respiração com um pouco mais de força quando sentiu toda a extensão do corpo de Loki alojar-se íntimo contra o seu.
Passou mãos afoitas pelos glúteos da mortal, experimentando o desejo pulsante da midgardiana quando seus braços o enlaçaram com força, circundando-o ao redor dos ombros.
Loki se colocou acima dela por sobre o saco de dormir, puxando para si o quadril da humana num anseio quase bestial. Penetrou-a, estocando contra o sexo de Laura num ritmo semelhante ao de seu batimento cardíaco. Quando sua musa de ébano arqueou o pescoço em deleite, o deus da trapaça chegou a experimentar a plena satisfação de explorar nela cada nuance do mesmo prazer que também o corroia.
Arrepiou-se assim que o asgardiano ocupou-se em explorar com os lábios a lateral de seu pescoço, potencializando ainda mais as sensações de tê-lo dentro de si. Sem que o movimento parecesse voluntário, percebeu suas costas vergarem rumo ao deus, suas pálpebras bem fechadas como que tentando saborear ao máximo cada estímulo tão presente em seu corpo.
Gemeu, erguendo-se apenas o necessário para morder o lóbulo da orelha do parceiro, os fios normalmente alinhados agora desfeitos sob os dedos da Pistoleira. Prosseguiu seguindo a linha de sua mandíbula bem delineada, os dentes da mulher cravando-se no lábio inferior de seu jotun, saboreando cada uma das respirações que se cruzavam com as dele na mesma sincronia apressada.
Da cintura, os dedos do asgardiano prenderam-se na coxa feminina, deslizando ao longo da pele de ébano até reencontrar a maciez da barriga, mantendo o movimento ascendente até que a mão foi preenchida pelo seio esquerdo da mortal. Em segundo plano sentiu algumas de suas mechas serem apertadas pela humana que abria os lábios sem emitir som, provavelmente tentando conter-se.
A Pistoleira avançou as mãos pelas costas do deus, erguendo sua pélvis ao rodeá-lo com as próprias coxas tensionadas. A partir daquele novo ponto de apoio, impulsionou-se mais a fundo contra os lábios de Loki, não reprimindo o arfar quando encontrou o ápice e o revelou em gemidos. Desistiu de beijá-lo, necessitada a lutar pela busca do próprio ar, tão disponível à sua volta e ao mesmo tempo tão escasso em seus pulmões.
Em concomitância aos arquejos da mulher, o deus logo se deparou com a mesma intensidade avassaladora que já carregava sua humana, e naquele instante não haveria trapaça capaz de ocultar o quanto ele também se tornava, dia após dia, refém das sensações que outrora descartara de sua existência...
...Que julgara tão mundana e, portanto, inferior a si.
A Pistoleira percebeu-o desacelerar o ritmo, quase tão ofegante quanto ela mesma se percebia. Antes do fim, Laura mais uma vez alcançou os lábios finos que agora se roçavam aos seus, instigando-os. Beijaram-se longamente numa última investida dos sentimentos furiosos que compartilhavam, de todo entregues à urgência de suas demandas.
Quando o contato por fim cedeu, Laura sentou enquanto ainda tentava domar a própria respiração.
— Como foi que a gente acabou chegando nisso se eu ‘tava puta da vida com você? — Lançou o questionamento que na verdade se direcionava muito mais a si do que ao deus, fitando-o com aquela mesma diversão travessa que se tornara parte presente da nova rotina de Loki — Espero que o único bastão que você tenha usado em mim é esse que se pendura no meio das suas pernas... — zombou, fazendo uma referência clara ao poder do cetro que o jotun carregava.
Ele a brindou com um daqueles sorrisos nada confiáveis, a troça dançando no verde de seus olhos.
— Não é sábio me dar ideias do tipo.
Laura riu enquanto se vestia, pouco habituada aos momentos em que o asgardiano se permitia maior leveza na interação normalmente conturbada que partilhava com a humana. No segundo seguinte ela parou o que estava fazendo, a expressão de súbito confusa. Olhou ao redor com aquele mesmo vinco pensativo entre os olhos, não reconhecendo o ambiente.
— Espera um pouco, essa não é a minha tenda... — continuou perscrutando o local agora com interesse, por fim encontrando um objeto que a fez abrir um dos sorrisos mais iluminados que Loki já vira nas feições da midgardiana. Virou-se para o deus segurando uma espécie de miniatura da bandeira estadunidense, encantada com o que de súbito percebera — Acho que acabamos de batizar o saco de dormir do Rogers!

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