Orlög
5 Primeiro Grande Ato — O Gelo Revelado
Notas iniciais
Aquele estava longe de ser um dia simplório se comparado às rotinas normalmente regradas de Asgard.
Os tons cianóticos do céu banhavam-se da mesmice habitual, contudo, hoje guardavam em si infortúnios que prometiam estremecer a frágil estabilidade que sustentava o reino dos Æsires.
Thor segurou com firmeza o cabo de Mjölnir, erguendo o iluminado rosto em direção ao céu ensolarado de Asgard, um céu que brindava aquele histórico dia com luz e glória. O azul intenso de seus olhos relampejou num brilho ardente, sua expressão aberta compatível com sua personalidade exuberante, sempre chamativa em seus vários atrativos e tão estrondosa quanto os próprios trovões que controlava.
O braço musculoso alçou-se ereto, elevando o martelo que lhe fora confiado em direção às esparsas nuvens que cobriam o céu asgardiano, um enorme sorriso se abrindo em seu rosto radiante. Ao seu comando, um sonoro trovão veio de encontro ao Mjölnir ainda firmemente erguido, e Thor sentiu com plena satisfação a incalculável corrente elétrica que transpassava a extensão de seu corpo, recarregando de imediato sua energia já imensurável pelos poderes divinos que detinha.
O príncipe de Asgard soltou um longo brado, repleto de paixão e autenticidade, recusando-se a romper o contato com o respeitável raio que conjurara. Sua voz fez coro ao estrondo do relâmpago, parecendo quase pertencer à mesma fonte e fazendo aquela porção do chão tremer levemente.
Novos trovões vieram em direção ao poderoso e mortal martelo, várias rajadas de intensa luminescência se aglomerando no brilhante metal Uru do qual Mjölnir era feito. Uma película de suor se formou no alto da testa de Thor, contudo seu vibrante sorriso continuava intacto e repleto de perspectivas.
Sentiu seus dedos ficarem ainda mais constritos sobre o elaborado cabo que empunhava, o número de tortuosas riscas elétricas triplicando conforme sua vontade era manifestada por um simples pensamento de comando.
— Thor ainda vai apressar sua chegada à Valhalla se prosseguir com isso por muito mais tempo — Sif comentou, porém seu timbre não foi capaz de ocultar a intensa admiração que nutria pelo filho de Odin, uma espécie arrebatadora de entusiasmo que ia muito além de mera estima por suas capacidades em combate.
— Silêncio, Sif! — Volstagg a repreendeu, os olhos focados no príncipe que logo se tornaria rei — Não o desconcentre, estamos diante de um feito digno da Cidade da Onipotência*!
— Claro, tão digno como quando você, sozinho, devorou um javali da ceia real e engoliu o maior dos barris de hidromel... — Ela revirou os olhos pedantes, voltando a atenção para Thor, e suas íris instantaneamente se iluminaram um pouco mais ao vislumbrá-lo em toda sua majestade e beleza, ainda disputando poder com os relâmpagos que se acumulavam cada vez mais em seu martelo. Fandral explodiu numa satisfeita gargalhada, enquanto Hogun apenas enviesou os lábios num sorriso discreto ao memorável episódio recordado por Sif.
— Ainda aceitarão esta minha façanha como merecedora dos papiros decrépitos daquela maldita cidade, guarde minhas palavras, doce guerreira — Gargalhou escandalosamente ao notar o martelo de Thor agora completamente inundado em luz, indistinguível em meio ao clarão vibrante que o rodeava. Segurou a barriga protuberante em meio a um urro satisfeito, a barba tão ruiva quanto os sóis poentes acompanhando o oscilar obstinado de seu corpo robusto — Bravo, Thor! — Bradou, satisfeito — Bravo! Considere minha rendição, meu príncipe!
O sorriso do primogênito de Odin se alargou, e no instante seguinte o céu acobertou-se de completa calmaria, silenciando os relâmpagos que antes inundavam o azul celeste esbravejando em intensa balbúrdia. O braço que segurava o nobre martelo abaixou, parecendo levemente cansado, porém o semblante do deus mantinha a altivez de suas habilidades.
— Ainda julgas o alcance de minha capacidade, Volstagg?
— Não se ofenda, Thor! Um guerreiro deve se nutrir de alimento, bebida, guerras, belas mulheres e apostas! — Sorriu largamente, dando tapas brutos no ombro do príncipe, que mal foram sentidos em meio à rigidez de seus músculos bem definidos.
— Nem mesmo as mais ousadas ninfas o deixariam tão exausto como aparenta agora, Thor! — Fandral arqueou um sorriso trocista em seus lábios, atraindo um olhar irritadiço, embora discreto, de Sif, porém não o considerou — Quantos raios? — Perguntou, instigado diante do poder que resvalava do futuro rei.
O deus deu um sorriso convencido, encarando o guerreiro loiro de canto de olho.
— Perdi a conta quando cheguei aos cento e vinte. — Avisou, cheio de si.
— Pelas barbas de seu pai! — Volstagg exclamou ao seu modo peculiarmente enfático, um timbre risonho compatível com a expressão escandalosa — Isso merece uma generosa caneca da melhor cerveja de sua adega!
— Chega de suas tolices! — Sif interviu, as longas mexas negras e brilhantes esvoaçando conforme acompanhava o caminhar bruto dos companheiros — Thor ainda precisa se aprontar para a coroação, já devia estar no palácio ao invés de gastar seu dia se deixando desafiar por apostas infantis. — Ralhou, apesar do tom primariamente afetuoso.
— Um grande dia para Asgard! Está pronto para assumir o encargo de Odin?
— Não houve um único momento em que não estivesse, meu bom amigo! A propósito, alguém sabe por onde anda Loki? — Thor questionou, intrigado com a completa ausência do irmão justamente no tão esperado dia que marcaria a passagem do reinado de Asgard para suas mãos.
— Não o vi... — Sif comentou com olhos cautelosos e baixos, conhecendo a adoração que o filho mais velho de Odin alimentava por seu irmão caçula, porém chegando a duvidar em seu íntimo de que tal sentimento fosse recíproco.
— Sequer prestei atenção... — Volstagg usou uma voz desinteressada, não escondendo sua antipatia pelo trapaceiro deus, porém esta passou despercebida por Thor.
— Também não o vi... — Completou o guerreiro loiro, tão vago quanto os outros.
O deus do trovão espreitou Hogun com o vibrante olhar azul, esperando pela resposta do último guerreiro, que sutilmente deu de ombros, quase consternado.
— Não o vejo há várias luas.
Houve um desconfortável silêncio em seguida, compartilhado apenas pelos Três Guerreiros e Sif, que conheciam em parte a cobiça do mais novo de ocupar o lugar que fora destinado a Thor. Seus olhares se cruzaram com indiscutível preocupação, como se fossem capazes de prever a problemática de tal sumiço coincidindo justamente com o dia da coroação do irmão...
...Contudo, o futuro monarca sequer sentiu a tensão instalada entre seus companheiros, e continuou caminhando com avidez para mais perto de seu destino. Daquele palácio que, após o crepúsculo, já estaria sob o comando de seu reinado.
●•●•●
Mais tarde naquele mesmo dia, todo o reino de Asgard se aglomerava no esplendor do palacete real de Odin, o som de várias vozes clamando a chegada de Thor ao início da enorme passarela que, ao final, guardava o início de sua monarquia. O deus do trovão ergueu Mjölnir de forma exibicionista, arrancando inflamados uivos aprovadores de sua fascinada plateia, que logo mais se tornariam seus súditos.
Thor prosseguiu sua caminhada sobre o piso elaborado do palácio, jogando seu martelo em pleno ar durante o trajeto, com um sorriso deliberadamente convencido intensificando as chamas em seu rosto despreocupado e exultante. O deus, que logo ocuparia o posto de rei, girava o corpo ao redor dos espectadores em êxtase, que respondiam enchendo o salão de sonoros aplausos e felicitações indiscerníveis em meio ao urro disseminado. Seu pai, Odin, o esperava sentado em seu belo trono que jazia acima de vários degraus, estes ocupados pelos Três Guerreiros à esquerda e por Sif e Frigga à direita, havendo um espaço vazio no meio das duas que deveria ser preenchido por Loki.
Frigga especulava o espaço com olhar aflito, ainda guardando esperanças de que seu filho mais novo aparecesse na cerimônia, porém ciente de que não era mais possível esperar por sua presença para dar início à coroação.
Thor finalmente chegou ao início da escadaria, seu sorriso vacilando rapidamente ao notar a ausência do irmão no local de honra que lhe fora incumbido. Trocou um olhar rápido e questionador à Frigga, contudo a Deusa-Mãe apenas meneou sutilmente a cabeça, encorajando o filho a prosseguir com um de seus sorrisos doces.
O deus do trovão ajoelhou-se humildemente sobre a borda do piso que dava início aos degraus, e abaixou solenemente a cabeça enquanto adotava uma postura respeitosa ao descansar Mjölnir no chão ricamente estampado. Após alguns segundos seu orgulhoso rosto novamente se ergueu, o sorriso ainda vivo nos lábios assim como nas profundezas das íris, direcionando à mãe uma piscada discreta e travessa, fazendo com que Frigga o repreendesse com diversão apenas pelo olhar. Sorriu em seguida para Sif e para os companheiros que o acompanharam em todas as batalhas de que era capaz de recordar-se, o cobalto em seus orbes reluzindo com extrema intensidade.
Odin levantou-se, batendo o cetro dourado no chão de seu palácio e mantendo o semblante sério em meio ao próprio esplendor. Quando falou, sua voz despontou com ainda mais solenidade do que o usual.
— Thor Odinson... Meu herdeiro... Meu primogênito. — Sua voz se dissolveu rapidamente em emoção, logo se recompondo — A quem há tanto tempo foi confiado o poderoso martelo Mjölnir, forjado no coração de uma estrela à beira da morte. Seu poder é incomparável, e a resiliência maleável de sua força ajusta-se tanto como uma arma de destruição quanto uma ferramenta para construção. — O rei assentiu levemente, mantendo o olho que lhe restara fixo no filho — É um companheiro adequado para um rei!
Num breve e confuso instante, Odin fitou o primogênito e, para seu completo horror, percebeu a pele de Thor azular-se num tom celeste que lhe era fartamente conhecido por todas as guerras já travadas em Jotunheim. Os olhos de Thor tornaram-se rubros por aquela desconcertante fração de segundo, e o peito de Odin palpitou numa dolorosa pontada.
O monarca piscou, atordoado, e após vislumbrar Thor novamente, percebeu que a pele de seu filho retornara ao tom alvo, e suas marcantes íris reluzentes mais uma vez coloradas pelo intenso azul que era tão parecido com o de Frigga. Uma película discreta de suor se formou na testa do rei, e Odin olhou em volta para se certificar se mais alguém havia notado a desconexa mudança de Thor, contudo os presentes mantinham exatamente a mesma expressão, agora de leve intrigada apenas pela estranha pausa que Odin fizera em seu discurso.
O Pai-de-Todos retomou a fala, disposto a descartar aquela incoerente visão de sua mente atribulada.
— Thor, filho de Odin. Eu defendi por todo o meu reinado aqueles que buscavam por proteção e justiça, e agora essa incumbência será passada a você. Jura defender os Nove Reinos?
— Eu juro.
— Jura preservar a paz?
— Eu juro.
— Jura deixar de lado ambições egoístas e se comprometer apenas ao bem dos reinos?
— Eu juro! — Thor disse com paixão inflamada, porém foi a voz de Loki que Odin ouviu sair dos lábios do filho mais velho. O rei novamente estancou, gastando algum tempo na tarefa de espreitar os semblantes que assistiam à cerimônia, contudo apenas a sua feição estava abalada. Odin segurou com mais força o cetro, sustentando nele grande parte do corpo que ameaçava tombar, e de repente o ar ficou incomodamente escasso ao seu redor. Thor agora o fitava com um olhar preocupado, assim como Frigga, a Deusa-Mãe já cogitando abandonar seu posto e socorrer seu consorte.
Odin obrigou-se a recompor seu abalado estado, dando continuidade ao discurso.
— Então nesse dia, eu, Odin, Pai-de-Todos, o proclamo... — a voz do monarca se perdeu em sua garganta ao novamente vislumbrar o nítido reflexo de um Gigante de Gelo nas feições robustas de Thor, esta visão tendo duração tão rápida quanto a primeira, porém igualmente arrasadora. Despertou apenas pelo som de passos pesados que encheram o salão, e uma voz familiar banhada em troça se espalhou como erva daninha pelo recinto.
— Confesso que estou decepcionado... — Loki disse, caminhando com calma pelo largo corredor, arrancando exclamações pasmas conforme passava com irreverência pelos súditos de Odin em sua forma jotun — Pretendiam mesmo prosseguir com a coroação na minha ausência? — sorriu maliciosamente em direção ao Pai-de-Todos, degustando de sua expressão completamente atordoada, ainda prestes a se tornar furiosa a julgar pela forma exagerada com que seus dedos comprimiam o cetro que segurava.
Frigga levou as mãos à boca, mal sabendo camuflar a exclamação ruidosa que escapou de seus lábios, e em seus belos olhos depositou-se uma profunda dor. Loki evitou encará-la, ciente de que aquele momento pertencia ao falso pai. Os Três Guerreiros, assim como Sif, tocaram instintivamente em suas armas, preparados para usá-las no momento em que fossem requisitadas. Thor, por sua vez, encarou o irmão de forma imatura, a confusão adornando seu rosto antes banhado em orgulho.
Loki agora notou o quanto o semblante de Thor remetia aos traços infantis de quando o deus era apenas um garoto tentando absorver lições difíceis de Odin. E perguntou-se, cheio de asco em seu íntimo, como alguém tão despreparado poderia ser cogitado a herdar o reinado de Asgard em toda sua maquinaria complexa, indigna da incapacidade de seu falso irmão.
— Que espécie de truque é esse, Loki? — Sif questionou de forma categórica, segurando com força o cabo de sua espada ainda embainhada nas costas.
— Não há qualquer vestígio de truques aqui, Lady Sif. Apenas decidi acompanhar a coroação de meu irmão envergando minha verdadeira forma. Isso os incomoda? — Abriu um largo sorriso, os rubros olhos completamente direcionados a Odin num claro desafio. O deus da guerra, mesmo vestido em toda a soberania majestosa de seu posto, por breves segundos pareceu indiscutivelmente frágil e abatido, seu solitário olho vidrado no filho mais novo, transmitindo pelo brilho azulado um farto amargor que apenas fez os lábios de Loki se escancararem ainda mais naquele malicioso sorriso.
E, por mais que o jotun desprezasse suas verdadeiras origens, por mais que evidenciá-las daquela forma escancarada aos asgardianos lhe fosse mais doloroso do que qualquer golpe físico, a satisfação de presenciar a breve súplica no olhar de Odin fora pagamento mais do que suficiente por expor a maior de todas as suas vergonhas. Sua desonra antes secreta agora serpeava, peçonhenta, ao conhecimento de todo o reino. Contudo, todo esse viés de seu plano fora compensado pela rápida expressão de terror que viu nascer e desfalecer na face do Pai-de-Todos.
— Não faça isso, Loki... — Odin murmurou, a cor já fugida de seu rosto de tal modo a dar ainda mais ênfase à expressão completamente transtornada pela descoberta de que o filho conhecia sua origem. O dia que tanto temera, que tanto protelara (embora soubesse ser inevitável), finalmente se desfiava à sua frente da pior maneira possível. “E há quanto tempo ele já detém essa informação? E pior, como foi capaz de guardá-la para si desta forma tão calculista?”, Odin refletiu, os pensamentos incoordenados dominando sua mente descomposta pelo momento.
— Minha aparência o constrange, Pai-de-Todos? — Questionou, fingindo uma inocência que de imediato era desmentida pelo sorriso ainda perdurado em seus traços tensos, ainda mais frígidos do que as intermináveis geadas da própria Jotunheim — Devo me retirar então! — Virou-se em direção à plateia, antes dominada pela exultação da cerimônia, porém agora com a pura alegria trocada por olhares arregalados de intensa surpresa e alguma revolta — Mas antes que eu parta, vejam por si mesmos, asgardianos, a justiça do soberano que os governa. Em épocas passadas, seu rei voltou-se contra muitos de vocês ao expulsar os semideuses de seu reino e exilá-los em Midgard, sem qualquer clemência. Sangue divino foi derramado pelos caprichos soberbos daquele que lhes exige obediência, porém esse mesmo rei não hesitou em secretamente trazer ao palácio de Asgard um exemplar daqueles que tanto desprezava, enquanto mantinha-se sentenciando sua própria espécie.
Um burburinho imediato se espalhou pelo local, a agitação de teor pouco identificável em meio à balbúrdia criada. Thor abriu a boca como se tencionasse falar, ainda ajoelhado inutilmente sobre os degraus que levavam ao trono real. Depois de parecer considerar suas opções, seus lábios se fecharam, as sobrancelhas encrespadas num franzir incrédulo.
Loki, sem resistir, deixou seu olhar pousar rapidamente em Frigga, seu belo corpo ereto estranhamente estático. As mãos, ainda firmes sobre os lábios, acolhendo uma solitária lágrima que desceu por sua face esquerda, os expressivos olhos afundados em angústia pelo conciso instante em que o contato visual foi firmado. Um aperto inconveniente se formou na garganta do jotun e, por mais que não demonstrasse, partilhou a dor da Deusa-Mãe por um instante, sentindo enorme raiva de si em seguida.
”Não seja tolo, Loki, este ofício compete a Thor! Frigga foi cúmplice nas mentiras de Odin. Ela significa tanto quanto ele!”, pensou, ciente de que aquele raciocínio fugia por completo da verdade. Apesar de tudo, amava Frigga. Deliciava-se com os momentos compartilhados que fizeram crescer entre eles uma sólida cumplicidade. Porém, no contexto geral de todo o seu relacionamento com a deusa, tais ocasiões não passavam de dolorosas inverdades. Farsas, que tinham por intuito sustentar os desígnios de Odin ao roubá-lo de seu verdadeiro lar.
E, ao perceber a profundidade da tristeza que emanava de Frigga, pela primeira vez o sorriso maldoso vacilou em seu rosto, incerto. O deus da trapaça crispou os lábios ao dar as costas à sua traiçoeira família, caminhando a uma velocidade calculada para longe. Ao alcançar a metade do corredor, porém, aquilo que previu aconteceu.
— Loki! — Odin chamou, a imperiosa voz agora tremulando numa fúria mal controlada, já recomposta da surpresa — Me encontre nos meus aposentos! — Ordenou friamente, erguendo-se do trono e se retirando do ritual arruinado. Frigga o seguiu com o olhar, ignorando a fisionomia indignada de Thor, que jamais poderia imaginar aquele desfecho para o tão almejado dia de sua coroação. O deus do trovão continuou ajoelhado, ainda inerte, mesmo após Loki sumir de vista logo em seguida à retirada de Odin, e o alvoroço na sala do trono se ergueu a proporções exorbitantes. Porém, o deus do trovão mal conseguia ouvir os brados tempestuosos que se exaltavam, apenas uma voz ganhando espaço em seus pensamentos.
“Meu irmão é...”, não pôde completar a frase nem mesmo no silêncio desordenado de sua cabeça, sentindo-se absurdamente atordoado por um dia que deveria apenas ter sido glorioso, mas que terminou naqueles termos levianos.
Baixou a cabeça, inconformado.
Não foi nem de longe a bruta interrupção do cerimonial de sua coroação que o incomodou com maior profundidade, e sim a infindável frieza nos olhos sanguinolentos de Loki... Um olhar que parecia destituído de qualquer sentimento benevolente, banhado apenas em discórdia...
“...O olhar de um Gigante de Gelo!”

Quando Loki — ainda ostentando sua aparência jotun — adentrou nos aposentos privados de Odin, percebeu-o de costas, escorando o largo corpo à varanda adornada dos mesmos tons dourados que imperavam por todo o reino de Asgard. Sua expressão parecia de alguma forma morta, absolutamente controlada em meio à fúria que adornava seu esmaltado olho safira.
Loki deu um meio sorriso indisfarçado, deliciando-se em silêncio ao perceber o quanto o atingira.
— Seu comportamento esta noite foi imperdoável. — Comentou num tom ainda controlado, recusando-se a encará-lo enquanto insistisse em se manter naquela perturbadora aparência. Sentia ondas revezadas de raiva e angústia, e embora tentasse não demonstrar nenhum dos sentimentos, eles se abriam em seu rosto, completamente decifráveis aos olhos vermelho-sangue do jotun. — Você se portou como um garoto mesquinho e inapropriado.
— A nível de mesquinhez, pai, acredito que minha capacidade não ouse sobrepujar a sua — Disse tranquilamente, usando o tratamento familiar com tamanho escárnio que fez com que o Pai-de-Todos por fim se virasse para fitá-lo. E fazê-lo foi incrivelmente doloroso. Quase não o reconheceu sob a máscara de frieza que dominava o rosto de seu filho mais novo. Avaliou com tristeza a uniforme cor azulada nas feições de Loki, demorando-se naquele vislumbrar quando alcançou os olhos escarlates...
...Os olhos de Laufey!
— Eu não vou aturar tamanha insubordinação! — Exaltou-se, incitado por aqueles orbes que tanto lembravam seu inimigo de longas datas — Suas ações ainda trarão enorme prejuízo à paz de Asgard, e isso eu não permito, nem mesmo vindo de uma criatura traiçoeira e problemática que decidiu rebelar-se contra o próprio reino e família.
Loki, contrariando todas as expectativas de Odin, dispensou-lhe um riso longo dotado de enorme satisfação, o vil repuxar de lábios ampliando-se ainda mais naquele rosto de traços jocosos e, acima de tudo, desafiadores.
— Deixei-o num impasse, Odin? — Perguntou, o tom risonho de alguém que alcança um escopo há muito cobiçado.
O Pai-de-Todos enrijeceu por pura surpresa ao presenciar uma parcela do perene ódio que resvalava do semblante daquele que um dia fora seu filho. Um pensamento perturbador lhe veio à mente, tão afiado quanto o corte certeiro de seu machado. "Está no sangue! Nem mesmo a minha criação poderia impedi-lo de tornar-se o Gigante de Gelo que ele nasceu para ser".
— Há quanto tempo sabe? — Limitou-se a perguntar, conciso.
— Isto realmente importa? — Retrucou num timbre ferino, o sorriso agora ausente, afogado pelo inevitável oceano de amargura que o trouxera até ali.
— Receio que não. — Fez uma pausa contemplativa, especulando em silêncio suas próprias possibilidades — Seus atos não ficarão impunes, Loki, ainda que você seja meu filho.
— EU NÃO SOU SEU FILHO! — Urrou, a voz carregada de onipotência soando como acordes indisciplinados, pela primeira vez perdendo o controle que normalmente vinha a ele de forma nata.
— Então devo supor que também não se considera mais meu filho, Loki? — Frigga perguntou, o tom profundamente ferido vindo da porta, acabando de adentrar o recinto. O jotun virou-se no mesmo instante em direção à Deusa-Mãe, ciente que de toda a família real, ela representava o mais próximo que se podia chegar de seu ponto fraco.
— Não... — Avisou, ainda que a voz estivesse baixa e abrandada pela própria tristeza — Não me considero.
Frigga cortou a distância até Loki, já tendo em mente os discursos mais eloquentes para fazê-lo compreender o quanto sua verdadeira origem era irrelevante para a família, o quanto o amavam na mesma proporção incalculável que amavam Thor, o quanto Loki era parte vital em suas vidas...
...Porém, quando segurou as mãos celestes do filho, de imediato sua imagem começou a se desfazer a partir do toque que nunca foi sentido, o nada alastrando-se irredutível pelo corpo azul que não passava de mera ilusão, apenas uma réplica perfeita de sua figura conjurada pelo próprio deus da trapaça. O processo desencadeado do desvanecimento atingiu por último o rosto, que ainda encarava a Deusa-Mãe com sincera angústia, antes que enfim também sumisse.
E palavra alguma saiu dos lábios trêmulos de Frigga, ao menos não naquele dia.
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