Orlög

12 Mudança Nos Ventos


Notas iniciais
Capítulo dedicado à leitora The Girl, que além de ser nova na história ainda se deu ao trabalho de comentar em TODOS os capítulos postados! Sua linda, estou muito feliz de te ver acompanhando outra fic minha! Dado meu histórico de demoras, tem que ser muito guerreira pra isso, hahaha ♡♡♡ Dedico o capítulo a mim também, pois hoje (06/07) faço aniversário, hahaha! Sendo assim, podem se sentir à vontade para me presentear com reviews, recomendações, favoritações, tudo aquilo que seu coração mandar :P

Uma. Duas. Três. Quatro...

Laura contava as próprias respirações aceleradas, tentando a todo custo acalmá-las em puxadas longas de ar. Logo perdeu o interesse naquela distração quando a percebeu por completo infrutífera...

...Tão inútil quanto ela mesma quando se submeteu às orientações de Loki e o deixou completamente só com Tivan.

"Isso é ridículo! Não posso simplesmente fugir assim, como uma garotinha assustada..." — A Pistoleira conjecturou, irritada por aceitar abandonar o deus à presença daquele homem certamente poderoso e perigoso a julgar a pequena amostra que deu de suas habilidades. Reproduziu o impulso impensado de segurar o cabo de suas pistolas, recordando com irritação do momento em que elas foram pulverizadas assim que seus dedos tocaram apenas o vazio no coldre.

Ainda mais irritada do que antes, resmungando sílabas intratáveis que nem mesmo ela compreendeu, pegou o walkie tolkie preso em sua cintura e o contemplou por longos segundos amargos, desagradada com o que cogitava fazer. Com o que precisava fazer, independente de sua real vontade.

Arrependia-se amargamente de ter deixado o recinto, mas não era tola ao ponto de acreditar que podia medir forças com a criatura que atacara Loki e ela.

— Fury — A mulher chamou, fechando os olhos com certo pesar quando parou de apertar o botão que transmitiu sua mensagem. Sem volta.

— Na escuta... — O diretor respondeu quase imediatamente, seu timbre rígido parecendo não gostar do contato naquela hora imprópria.

— Eu preciso de você — A voz saiu baixa. Quase frágil, gerando um novo tremor de irritação em si.

— Algum problema com o prisioneiro? — Fury de pronto questionou, alarmado mas não surpreso. Quase como se esperasse por aquele momento desde a chegada imprevista de Loki — Precisa que eu mande reforços?

— Não, Loki não fez nada, mas... — Hesitou, querendo que houvesse outra maneira — Preciso de ajuda no Anexo III... — Contou, percebendo o aparelho sobre seus dedos reclamar alto com a resposta que seguiu, parecendo tremer sobre seus dedos com a potência indignada na voz do diretor.

— O que está fazendo aí, Laura? Por que deixou Loki sem supervisão? — Rugiu com irritação, e a Pistoleira escorou-se na parede, de repente sendo invadida por uma exaustão que parecia ter se acumulado por anos num único segundo.

— Eu não deixei. Loki está comigo.

Silêncio.

No lugar de uma resposta imediata, a mulher achou que ouvia ruídos de uma corrida apressada ao fundo dos chiados de interferência do aparelho, um som distante indicando que o homem já se punha em movimento. E a voz de Nick Fury veio logo em seguida, mais acusatória do que Laura jamais ouvira em toda sua longa convivência com o diretor da S.H.I.E.L.D.

— O prisioneiro está no Anexo? No Anexo III?

— Sim. É uma longa história, senhor, mas ouso dizer que se não fosse por Loki, a essa altura estaríamos...

— Suas histórias andam todas muito longas — Fury a interrompeu, ríspido, já perfeitamente controlado em sua rigidez — Se ainda tem algum apreço por minhas ordens, Laura, não faça nada até eu chegar.

— Sim, senhor... — Soou como um lamento, que não saberia dizer se chegou a ser ouvido por Fury.

Guardou mais uma vez o comunicador, esfregando com força os olhos ao passar a mão pela silhueta de seu rosto cansado. Abaixar as pálpebras imediatamente trouxe à frente de seus olhos a imagem de Loki, mas não naquele aspecto que ela conhecia tão bem. O que viu foi sua imagem totalmente tingida por um azul de tonalidade forte, que lembrava a cor do céu naquele momento específico, muito breve, em que o dia está prestes a acabar e a noite vem à espreita, trazendo o início de sua escuridão.

E os olhos vermelhos como sangue a encarando. Olhando diretamente para ela como se pudessem ver além da simples matéria.

Olhos que não a incomodaram pela cor inusitada, mas pela carga que traziam ao fitá-la.

Decepção. Ódio. Repulsa...

...Vergonha.

"O que quer que aquilo signifique, ele não queria mostrar" — Refletiu, sem saber se existia algum sentido lógico naquele pensamento especulativo. Tudo, aliás, nos últimos tempos, parecia ter perdido por completo o bom senso.

Laura se obrigou a desfazer sua postura derrotada, sentindo enorme falta do peso reconfortante de suas armas. Olhou na direção do recinto que acabara de abandonar, imaginando os rumos que poderiam ter se delineado após sua retirada covarde. O coração bateu mais forte ao imaginar Loki sendo ferido, e tal pensamento fez com que ela se aproximasse da porta quase sem perceber.

Segurou a maçaneta com força, apurando os ouvidos para tentar captar o menor ruído que fosse. Nada. Nem mesmo uma sugestão de batalha.

"Porra! Tem alguma coisa muito fodida acontencendo aqui."

Girou mais ou menos dois terços da maçaneta, naquele instante completamente disposta a adentrar mais uma vez no recinto e se manter ao lado de Loki, não importando se o deus conjurasse ali uma nevasca ou se surfasse em ondas quilométricas. Não importando se estava azul, verde ou coberto de bolinhas roxas. Precisava vê-lo... Precisava descobrir se o deus que visitava seus sonhos continuava vivo, se não era uma invenção febril de sua mente que de repente desaparecera sem deixar vestígios.

Estava prestes a abrir a porta e entrar, quando o eco audível dos passos apressados de Fury a fez recuar, mudando repentinamente de ideia.

Ela virou, pronta para encará-lo e enfrentrar mais um trago de sua desconfiança.

— Onde ele está? — Seu orbe escuro a fitou com firmeza, a decepção entremeada em vários níveis ao tom enegrecido da íris solitária, tornando aquele olhar incrivelmente doloroso. Laura sentiu-se mais uma vez desconsolada pela confiança abalada do diretor, que sequer parecia lhe dar o benefício da dúvida em toda aquela situação.

— Lá dentro. Mas não está sozinho! — Alertou, apressada, ao notar Fury se dirigir com rapidez ao local — Um cara muito fã do Justin Bieber invadiu a sede e veio direto pra cá enquanto todos vocês estavam ocupados cuidando da H.Y.D.R.A. Ele sabia exatamente o que estava procurando... — Disse, seguindo-o para dentro e sentindo o queixo cair quando vislumbrou o que antes era total caos.

Não havia mais qualquer indício de Tivan.

Loki estava de joelhos, se apoiando com alguma dificuldade no cetro que parecia o único impedimento para que o jotun não cedesse de vez seu equilíbrio. Os olhos, novamente verdes, se ergueram pesados na direção dos dois. Com algum esforço, Loki conseguiu retornar à posição ereta, e Laura teve que ignorar o forte instinto de ir ao seu encontro.

Não com Fury analisando cruelmente cada movimento seu.

Por mais que quisesse acima de tudo ampará-lo — como ele continuamente fazia consigo quando a visitava em sonhos —, não se atrevia a aumentar a desconfiança do diretor ao exteriorizar sua preocupação. Laura tinha plena consciência de que estava por um fio na S.H.I.E.L.D., e não podia se dar ao luxo de arriscar sua posição por mero sentimentalismo.

Nick Fury estancou ao ver que Loki tinha a posse do cetro de poderes desconhecidos. Olhou para Laura dessa vez não com decepção, mas com profunda ira contida.

— Foi o único jeito de impedir que o cetro fosse levado! — A Pistoleira defendeu-se, afobada por explicar — O invasor estava prestes a roubá-lo da sede quando chegamos...

— Aqui eu só vejo um invasor, Laura. E graças a você, ele tem exatamente o que queria.

— Não... Nick, você precisa acreditar em mim! Tinha outro homem! Ele se aproveitou da distração da batalha entre vocês e a H.Y.D.R.A. e conseguiu chegar aqui! Loki e eu viemos a tempo de impedir que ele levasse o objeto!

— A humana diz a verdade! — Loki caminhou para junto de Laura, segurando o cetro com uma possessividade que não passou despercebida a Fury — Usei de minha magia para lhe mostrar os rumos que tomavam o conflito, e vimos Tivan, o Colecionador, se esgueirando para longe do embate e vindo diretamente para cá sem que nenhum de vocês se atentasse à sua presença.

— E onde está esse homem agora? — O diretor questionou, sem parecer acreditar numa única palavra.

— Eu o derrotei através do cetro. Quando se viu em desvantagem, o Colecionador retirou-se com o auxílio de sua própria magia. Tivan é uma das criaturas mais poderosas dos Nove Reinos, e se conseguisse a posse de mais esta relíquia do universo poderia tornar-se uma ameaça urgente a Midgard, caso se aliasse a Odin.

— Tinha mesmo alguém aqui, Nick! — Reforçou, a voz querendo tremer — Só por isso eu saí do meu posto e permiti que Loki viesse até aqui... Pra impedir uma catástrofe maior!

O diretor observou a mulher, peremptório em seu silêncio raivoso. A determinação dura que havia ali não agradou Laura nem um pouco. Os segundos que ele gastava apenas observando-a pareceram se arrastar por horas a fio antes que Fury finalmente decidisse se pronunciar.

— Eu jamais poderia esperar essa traição, Laura. — Decretou, já decidido sobre qual seria a melhor forma de lidar com aquilo, embora tomar aquela atitude fosse um tanto doloroso para o homem de meia idade — Infelizmente você não me deixa outra escolha.

— Que porra você esperava que eu fizesse? Devia deixar que roubassem? — Apontou sugestivamente para o objeto de propriedades mágicas, sentindo um súbito medo pelo significado daquelas palavras.

— Foi exatamente o que você fez. Deixou que o roubassem! — Fury proferiu com uma certeza dolorosa, relanceando um novo olhar aos dedos possessivos de Loki — Mas a culpa é minha. Eu fui condescendente com os sinais incessantes que você veio dando. Fui incrédulo demais para acreditar neles, mas não posso mais ignorá-los, por mais que quisesse.

— Do que você tá falando? — Perguntou, incapaz de evitar a voz embargada. Incapaz de não pensar no pior, que foi verbalizado pelo diretor logo em seguida.

— Você está fora, Laura. Sua irresponsabilidade nos trouxe a uma situação grave. Não dispomos de qualquer controle ou mesmo compreensão para lidar com ela. Quero que você parta da S.H.I.E.L.D. ainda hoje.

— Você sabe que eu não posso... — Lembrou, os olhos já afogados em lágrimas que se esforçava para não deixar cair.

— Sinto muito. — Disse apenas, convicto daquela decisão, aparentemente não se deixando abalar pelo descontrole que dominou o emocional da Pistoleira — Suas identificações. — Pediu, resoluto, ao abrir a palma da mão à espera dos documentos.

— Nick, por favor...! — Implorou baixinho, algumas lágrimas conseguindo libertar-se do cárcere, atraindo outras como um evento em cadeia.

— Se não puder me entregar agora, vá até minha sala quando estiver pronta para partir — Ignorou-a, fazendo menção de lhe dar as costas.

Laura, num movimento pouco refletido e tomado pelo desespero, levou as mãos até o coldre, procurando pelas suas pistolas, mas dessa vez não buscando pelo conforto que o contato lhe proporcionava. Dessa vez em busca do gatilho.

O desespero pareceu ainda maior quando novamente se lembrou que não possuía mais as armas. Olhou desesperada para os lados, em busca de qualquer auxílio. As íris que imploravam se cravaram no cetro, como se visse ali um oásis capaz de curar a sede intensa de uma peregrinação no deserto.

Com uma força e determinação que surpreenderam Loki, a midgardiana retirou o poderoso artefato de seus dedos finos, apontando-o diretamente para um Fury embasbacado. O deus da trapaça percebeu um leve tremor no cetro, ainda que Laura o segurasse com as duas mãos, não havia qualquer firmeza naquela ameaça.

Mas Loki era obrigado a admitir que havia coragem, embora fosse um ato um tanto precipitado.

— Não se atreva a me dispensar da S.H.I.E.L.D.! — Avisou, tentando deixar clara sua posição e intenções, surpreendendo a si mesma naquele decisivo instante ao constatar que estava disposta a tudo para se resguardar. Até mesmo se isso envolvesse se voltar contra o diretor que tanto admirou um dia. Não havia mais choro, hesitação ou o ato de implorar. Havia apenas o tremor atípico em suas mãos, de mira sempre tão certeira, como indício máximo de seu nervosismo — Eu não posso sair daqui!

— Não seja estúpida, Laura. Você nem sequer sabe como isso funciona.

— Ela pode não saber... — Loki afinal pronunciou-se, passando os dedos pelos braços em riste de Laura até que cobrisse as mãos femininas com uma única sua, dando imediata firmeza ao cetro que guardava em seu topo uma das joias do infinito — ...Mas eu sei! — Concluiu, avançando o ápice pontudo do objeto diretamente ao peito de Nick Fury, não lhe dando qualquer chance de revide.

De imediato o olhar do diretor se perdeu num emaranhado vazio, quase morto. A expressão se desfez no mesmo segundo, agora totalmente relaxada e sem qualquer significado aparente. A postura, assim como a feição, deixou de lado a versão ofensiva e rija, impondo-se de uma maneira inerte que não era absolutamente nada comum.

Laura se afastou um passo, olhando boquiaberta para o que acabara de acontecer. Ainda segurava o cetro com força descompassada, quase indiferente à proximidade evidente de Loki, algo que numa outra ocasião lhe causaria no mínimo uma onda de arrepios.

— Que merda fizemos com ele? — Abanou a mão livre, hesitante, na frente do rosto alheio do diretor, não conseguindo qualquer estímulo com a tentativa. As íris duvidosas se voltaram ao deus da trapaça, procurando por qualquer esclarecimento. Viu nele uma exultação mal controlada que a intrigou, mas obrigou-se a se concentrar apenas na resposta por aquele instante.

— Uma das propriedades deste artefato é turvar a mente da vítima. Deixá-la num estado adormecido, de torpor profundo, que permite ao dono do cetro controlá-la. Sem restrições. — A Pistoleira viu aquele brilho vitorioso sumir do entorno de suas íris, retornando àquela mesma expressão controlada de sempre. Mais uma vez suprimindo um dos raros momentos em que sua feição se tornava inteiramente verdadeira. Voltando a se portar como uma trapaça bem formulada.

Houve um silêncio contemplativo por parte de ambos, um momento em que a mulher gastou parecendo pesar todas as suas opções, tentando lidar com aquilo que fora feito.

— Tem alguma chance de ele voltar? — O murmúrio de Laura fez com que o deus tivesse sua atenção atraída à mulher, parecendo de leve intrigado. Sua pergunta simples carregava uma preocupação não direta ao homem que liderava aquela instituição ou sua saúde, mas algo sobretudo mais pessoal, tão íntimo que parecia errado perscrutar. Como se no fundo ela o quisesse naquela condição.

Os olhos grandes, fitando-o com a dúvida legítima que ali residia, criando no jotun um breve momento de afeição que foi instantaneamente rejeitado num complexo repúdio de negação aos seus próprios sentimentos. Sentimentos confusos, que estavam longe de agradá-lo, desde que constatara por si mesmo a existência da ninfa de ébano para além de seu plano onírico.

"Nem mesmo Thor seria tão estúpido ao ponto de se permitir afeiçoar por esta espécie menor" — Ralhou consigo, experimentando mais uma vez a típica dose de asco próprio que lhe era tão destrutiva.

Loki enrijeceu de leve, mais uma vez irritado pelo efeito que aquela mera midgardiana era capaz de causar em si sem demandar grandes esforços. A única parte de seus elaborados estratagemas que vinha fugindo por completo de seu controle. E, para um deus acostumado a ter cada detalhe de seus intuitos programados com maestria, ver os próprios passos o conduzirem num caminho em falso era no mínimo irritante.

— Não. — Respondeu enfim, frio como o gelo de Jotunheim — Ficará assim até que o comando do cetro sobre sua mente cesse. O que está sob o controle de quem o atingiu. — A humana estúpida e eu..., pensou, enraivecido. Não era para ser dessa forma! Deveria apenas ele ter o controle daquela situação!

Laura meneou a cabeça num gesto afirmativo tão frágil que mais parecia uma criança indefesa. Não demonstrou importar-se em momento algum com a grosseria no tom do deus, apenas sentia que se dividia entre um alívio imensurável e, ao mesmo tempo, alguma culpa. Aquela expressão ferida que encarava o diretor da S.H.I.E.L.D. fez crescer no deus da trapaça uma nova remessa de sentimentos ambíguos, que vagavam entre desprezo pela fragilidade humana e um forte instinto de querer protegê-la do que quer que a afligisse tanto.

— Você se feriu? — Ela perguntou, ainda naquele tom baixo e triste que, se prosseguisse por muito mais tempo, seria capaz de arruinar Loki por dentro, seja pela manifestação de sua auto depreciação sempre constante ou pelo incômodo de perceber aquela mulher, justamente aquela, num estado de fragilidade que não fazia jus a seu espírito.

Que sempre o mostrou, através da inconsciência do sono, que ele mesmo podia ser mais forte quando fraquejava em acreditar.

— Tivan é poderoso, mas não foi páreo para o cetro... — Respondeu de uma maneira que também desconversava, seu subconsciente já aceitando o fato de que manipular Laura era quase árduo — Não devemos chamar atenção para o estado de seu líder ou para o que ocorreu aqui. Melhor devolvermos ele a seu posto antes que os outros desconfiem e venham averiguar.

— Certo... — Laura pareceu despertar de algum lugar ou tempo distantes, fitando Loki com um brilho mais próximo da firmeza que seu olhar tinha naturalmente — Faça as honras então — Devolveu o cetro ao jotun, percebendo que o objeto mais parecia uma extensão de seu corpo com a desenvoltura imponente com que ele o erguia...

...Parecendo de fato um deus.

O asgardiano aceitou a posse do objeto de bom grado, mal conseguindo esconder sua ganância por ele. Mas Laura encontrava-se distante demais para notar.

— Volte a suas obrigações, humano, e aja como se ainda fosse dono de si — Ordenou, vendo sua orientação ser prontamente atendida sem qualquer hesitação ou mudança na expressão limpa de Fury. Um breve triunfo o percorreu, satisfeito por ter conseguido o controle do midgardiano tão intratável e menos propenso a crer em suas histórias. Aquele que liderava todos os outros, agora sob seu irrestrito comando.

Loki, envolvido pela distância longínqua de seus devaneios, sobressaltou-se quando percebeu Laura extremamente próxima, envolvendo-o num abraço honesto que nem chegou a ser anunciado.

— Obrigada. Você não sabe, mas realmente me salvou hoje! — Agradeceu com sinceridade, pressionando o corpo do deus com o seu numa gratidão que não poderia ser exemplificada em meras palavras. Sem desconfiar que todos os acontecimentos que a levaram até ali não passaram de uma engenhosa mentira do deus.

Loki estancou num primeiro momento, irritadiço não somente pela ação da humana, mas principalmente pelo fato de ser mais uma vez surpreendido por seus atos.

Após permitir que a midgardiana presenciasse sua verdadeira forma jotun, calculara que ela naturalmente se afastaria. Deixaria de irritá-lo com a proximidade e convivência que vinham compartilhando com cada vez mais frequência. Que enfim compreenderia a aberração que existia dentro de si e com isso se distanciasse, como era o padrão habitual.

Jamais esperou que Laura fosse representar uma das raras exceções àquela regra.

Que demonstrasse a mesma aceitação incondicional que apenas experimentara de Frigga.

Que se mantivesse perto sem nem ao menos se importar com as implicações sórdidas daquela aparência, sem a necessidade primórdia de buscar um significado para aquilo...

...E que, acima de tudo, era verdadeira em suas intenções.

Loki, nada à vontade com a situação, percebeu as mãos afoitas por ampará-la naquele abraço que até então não fora correspondido. Acabou cedendo ao seu próprio desejo, contribuindo com o enlace de maneira mais superficial e frouxa, porém não menos significativa vindo dele. Era penoso permitir que sua guarda baixasse após tanto tempo de sua vida dedicando-se a erguê-la...

...Contudo, às vezes, na presença da midgardiana, era ainda mais doloroso manter alta aquela guarda e não se desfazer das incontáveis defesas que criara com o intuito de afastar a todos.

— Obrigada! — Ela repetiu, reconfortada ao sentir as mãos de Loki sobre suas costas, ainda que os dedos hesitassem em tocá-la.

— O humano não vai mais incomodá-la. Não enquanto for de seu agrado — Disse, também baixo.

Laura afastou-se apenas o suficiente para encarar o deus, uma pequena sugestão de sorriso dançando por seu rosto novamente leve, presunçoso até. O tipo de semblante que parecia troçar abertamente daquela verdade que tanto enfurecia Loki; a de que ele se importava, em algum grau indefinido. A mesma expressão capaz de tirá-lo do sério toda vez que direcionada a si com a afronta tão habitual que emanava da humana. E não seria diferente dessa vez.

— Disse algo digno de risos, por acaso? — Seus olhos faiscaram, fixos nos orbes negros.

— Sempre... — Zombou, chegando perto o suficiente para que seus lábios atritassem muito de leve na mandíbula do asgardiano conforme falava — É sempre muito engraçado ver o tanto de energia que você gasta tentando mostrar que é indiferente... — Mordeu o pescoço pálido numa clara provocação, ela mesma totalmente envolvida por aquela relação conturbada — ...Mas que no fim das contas não consegue ignorar o fato de que sim, você se importa pra caralho comigo! — Concluiu, agora dispondo-se a beijar a pele que antes estava entre seus dentes, sentindo-o rugir quase como um rosnado.

O deus empurrou-a, prensando a Pistoleira contra a parede, seus braços criando uma contenção em torno da pequena mulher de olhos oblíquos, trocistas. Encarou as nuances de seus traços provocativos antes de lançar-se ávido sobre os lábios da mulher, que responderam na mesma intensidade sedenta e urgente.

O estampido do cetro ecoando ao cair no chão sequer foi percebido por nenhum dos dois.

Laura amassou ainda mais seu corpo contra o de Loki, sentindo os fios perfeitamente lisos quando passeou os dedos pela nuca do deus, chegando às mechas negras não mais alinhadas naquele padrão metódico. Impulsionou-se de leve na direção dele, aproveitando a sensação das mãos do jotun muito menos tímidas sobre si.

Um calafrio a dominou por toda a espinha quando a boca faminta de Loki abarcou a sua numa urgência sem precedentes, o beijo intensificando-se à medida que seus toques tinham maior necessidade de rudeza.

Foi extremamente fácil ao asgardiano sentir a abrupta mudança nos padrões fisiológicos da humana, evidenciando claramente a ele a amplitude de seu desejo. Algo capaz de confortá-lo em meio às suas próprias vontades indomadas.

Loki tocou asperamente a barriga feminina, caminhando até o seio esquerdo e sentindo o mamilo duro ao se embrenhar por baixo da roupagem humana, possuído pela vontade incontrolável de tê-la. A Pistoleira tateou o próprio quadril, desafivelando o coldre que pesava inútil ali, e imediatamente a mão divina que não brincava com seu seio pôs-se por dentro da calça legging, explorando a pele tomada por arrepios.

A Pistoleira arfou, coagida a avançar nas pretensões partilhadas. Às cegas, ainda dividindo a atenção com o beijo cada vez mais obsoleto no âmbito de seus desejos, suas mãos hábeis em pontaria trabalhavam agora em se livrar da calça humana que Loki usava, desabotoando, abrindo, puxando, empurrando.

O deus aproveitou para também lidar com a roupa inconveniente daquela que, antes mesmo de nascer, vinha vê-lo secretamente em sonhos quando Loki não passava de um menino perdido pelas revelações de sua vil origem.

Ainda podia se recordar claramente da primeira vez que vislumbrara aquele rosto na noite em que descobrira sua real identidade.

Terminaram de se despir às pressas, mal permitindo-se a curiosidade de contemplar a visão inédita do corpo exposto do outro, novamente se valendo do tato para tal. Laura avançou para seu deus sem pestanejar, usando lábios e língua para explorar o pescoço lívido do jotun, tendo que ficar na ponta dos pés para conseguir alcançá-lo.

Loki a conduziu com alguma brutalidade em direção à parede, baqueando e forçando seu corpo pálido contra o de ébano com uma luxúria grande o bastante para afastar todos os maiores conflitos internos que rodeavam sua mente normalmente perturbada. Tornou a beijá-la enquanto seus sexos se roçavam sem pudores, inflamados por mais.

O deus da trapaça, sem mais suportar sua própria necessidade, penetrou a midgardiana contra a parede fria, sem quaisquer floreios. Ela, numa resposta também urgente, rodeou o quadril do jotun com as coxas fartas, constringindo-o ao máximo dentro de si à medida que Loki oscilava num ritmo forte e bem marcado sobre a humana.

Laura gemeu em concomitância aos grunhidos de Loki, cravando as unhas em suas costas hirtas quando tentava apenas aprofundar aquele contato. Por mais que sentisse necessidade de arfar cada vez mais alto, silenciou-se ao buscar pela boca habilidosa de seu deus, necessitando de cada uma das maneiras que permitissem a ela sentir Loki de todas as formas possíveis ao seu alcance. Percebê-lo em totalidade dentro de cada um de seus sentidos humanos, e portanto falhos.

As línguas, assim como os próprios quadris, dançavam com afã ao ritmo do parceiro, acima de tudo sedentas em meio à sensação de que qualquer contato, por mais íntimo que fosse, não parecia suficiente. Que era necessário sempre mais, como um incêndio que não se contenta até consumir tudo aquilo que permeia seu alcance.

Até cumprir seu papel máximo de devastação.

Loki desceu os lábios pelo pescoço de sua humana, as mãos erguendo Laura de leve pelos glúteos permitindo ao deus alcançar seu desígnio. A língua brincou maldosamente com os mamilos escuros, nutrindo porções ainda mais excruciantes daquela necessidade irracional na mulher. Foi ela quem, dessa vez, dominou o ato sublime do sexo, determinando o ritmo que seu próprio corpo demandava ao lançar sua pélvis inquieta sobre o deus de muitas trapaças, ainda dentro de si.

O jotun retornou os lábios ao pescoço de Laura, mantendo nela os mais deliciosos arrepios enquanto se manteve ocupado em beijar sua lateral, o contato da pele com a língua úmida fazendo-a aumentar ainda mais a pressão de suas pernas ao redor da pélvis divina.

A boca da mulher foi roçando, entreaberta, o caminho da maçã do rosto de Loki, alcançando-o num novo beijo rápido, mordendo em seguida o lábio inferior de seu deus enquanto se aventurou a navegar pelas íris verdes.

Dentro dos olhos tão conhecidos do asgardiano, pôde reconhecer um toque animalesco se sobrepondo a qualquer polidez. Os orbes de Loki denunciavam num recanto profundo que ele parecia, em algum nível, sofrer com aquela união, mas sentimento algum se igualava à luxúria que desafiava a Pistoleira naquele mútuo encarar.

O ritmo foi amainando, os olhos ainda fixos se permitindo o deleite daqueles últimos instantes, tentando não se desvendar muito, com medo do que poderiam encontrar se o fizessem agora que pareciam completamente expostos um ao outro.

Por fim, já exaustos, recuaram, incapazes de manter mais um segundo sequer daquela união intensa. Deitaram no próprio chão frio, lado a lado, com tudo dito apenas pelo padrão ofegante de ambas as respirações, tanto a humana quanto a divina sentenciadas à mesma irregularidade.

Ainda nus sobre o piso, sem nada a dizer, chegaram a cochilar quase de imediato, seus corpos ainda irradiando um calor tão próprio que não houve nenhum incômodo pela frieza do chão descoberto. Era até mesmo reconfortante ter que lidar com a abrupta diferença de temperatura para abrandar a corpórea.

Porém, antes de se permitir levar pelo sono arrebatador, Laura ainda se pegou refletindo sobre como seria fácil se deixar viciar por aquela química absurda que experimentaram.

"A melhor pistola que eu já tive em mãos" — Sorriu de leve com a comparação absurdamente tosca antes de deixar que as pálpebras pesadas a vencessem pelo cansaço. Sem saber, embora suspeitasse, que aquilo que ela definiu como química era, na verdade, uma combinação muito mais complexa e destinada ao perfeito encaixe.

Como a sincronia perfeita do Yin Yang em toda sua sugestão de equilíbrio harmônico. Como uma consumação ansiosa daquilo que o próprio orlög, supremo tanto a humanos quanto a deuses, desejava para seus intuitos vindouros.

Notas finais
Espero que tenham gostado! ♡