Orlög

16 Imprinting


Notas iniciais
Antes de mais nada, só quero deixar claro que o título do capítulo não tem qualquer relação com aquela série de livros em que vampiros brilham no sol (nada contra, só comentando mesmo :P). Nas notas finais eu explico o porquê desse título! Capítulo dedicado à leitora Urgind0, que não só comentou em vááários capítulos (mesmo me dizendo que não gostava de comentar) como recomendou a história! *-* Então seja bem-vinda, sua delícia, e muito obrigada mesmo por todo o carinho que deu a esta autora babaca que tanto ama interagir com vocês! Esse capítulo é seu! Como diriam os minions: "Tó para tu" xP Também uso esse espaço para desejar as melhoras a uma leitora MUITO querida minha de outra fic, a Anánke, que começou 2017 internada num hospital. Espero que fique bem logo, ma belle, ficarei mandando minhas boas vibrações hippies pra você! ♥ E no mais, feliz ano novo a todos! Eu sempre fico meio paranoica querendo postar o primeiro capítulo do ano e hoje finalmente consegui e -caguei- (explico isso nas notas finais, preste atenção =P) aqui está o 16º capítulo da história, ainda paradinho, mas super importante porque destrincha mais uma parcela do passado da PistoLaura, essa guria marota que tanto venho aprendendo a amar, hehehe. É isso, espero que gostem, e boa leitura!

Nick Fury. Era esse o seu nome.

O diretor da S.H.I.E.L.D. forçou aquele pensamento pelo corpo que não mais o obedecia, tentando a todo custo reaver o comando de seus músculos e ações, agora de todo servil às vontades de Laura e do forasteiro de outros mundos.

Não é mais. Nick Fury já se perdeu no passado e na distância!

A voz que o dominava naquela prisão corpórea replicou, tentando calar seus anseios em retomar as rédeas de sua própria existência. A luta, porém, apenas se intensificou dentro do homem, que não aceitava dar-se por vencido sob nenhuma conjuntura.

Tais embates tinham o poder de exaurir cada aspecto do pouco que sobrara de Fury, ao final destas sempre sendo jogado para os recantos mais inóspitos de sua consciência afetada.

Percebia, contudo, que era capaz de sustentar por cada vez mais tempo aquelas rápidas aparições de si. Algo que não tardou a ser percebido pelo deus que invadiu sua corporação e, desde então, instaurara a desordem no quartel general. O tipo mais perigoso de caos, aquele insidioso que se travestia no comodismo rotineiro. Camuflado em detalhes insignificantes, que fugiam à percepção de todos.

— O humano é mais forte do que pensei. — Nick reparou naquela voz polida chegando ao seu conhecimento, todas as suas sensações parecendo incomodamente dopadas e inertes. Apenas era capaz de perceber o que Loki dizia, sem jamais conseguir reagir ao seu discurso — Se deixarmos, em breve ele será capaz de retomar a própria consciência.

— Também percebi! — Laura se pôs no campo de visão do diretor, estudando-o com preocupação à medida que reconhecia uma fração do brilho vívido no único olho funcional. Fury ainda foi capaz de se sentir invadir pelo pior sentimento de traição quando a viu condescendente com tudo aquilo, tentando exteriorizar aquela emoção para a Pistoleira, porém sem sucesso. Seu corpo ainda estava todo anestesiado às suas vontades, por mais que se esforçasse em mostrá-las. Estava amordaçado e completamente atado dentro de sua própria existência — Tem como, sei lá... Reinstalar ou restaurar a função zumbi aí?

Loki sequer se manifestou diante daquele comentário, que apenas soou a si como mais uma explanação incompreensível ao seu entendimento um tanto limitado à cultura daquele povo. Apenas manteve-se atento ao homem, não gostando de perceber tão cedo no mortal aquele princípio de luta, que denunciava sua autenticidade querendo se manifestar. Nick tentou se impor uma vez mais, porém nenhum de seus músculos o obedeceu. O máximo que obteve daquele esforço excruciante foi conseguir propagar um leve tremor por seu corpo tão incomodamente inerte às suas vontades. Uma mera casca, que não mais o obedecia.

Que não mais o pertencia.

— Teremos que nos manter em estado de alerta. Nesse ritmo o midgardiano logo retornará à sua própria cognição. — O invasor de outros mundos alertou, mirando Fury com inegável desprezo em seus orbes verdes — Devemos potencializar os efeitos do cetro nele, antes que seja tarde. Da mesma forma que fizemos da primeira vez... Juntos. — Loki lembrou, agora incapaz de camuflar qualquer faísca de seu desagrado, detestando o fato de depender daquela mulher para levar adiante uma parcela importante de seus planos. Como haviam intervindo na consciência de Nick Fury juntos ao manusear o cetro, o poder da joia do infinito apenas responderia aos mesmos termos.

Eram os dois, afinal, os mestres daquele servo que eles mesmos criaram.

Laura logo entendeu o que Loki queria dizer, e sem qualquer palavra para atrasá-los naquele intuito — ou mesmo tripudiar da situação ao seu modo jocoso —, ela segurou o elaborado bastão em conjunto com o jotun, e ambos avançaram o ápice do objeto em direção ao peito do diretor da S.H.I.E.L.D., que apenas respondeu àquele momento tentando lançar um olhar desesperado à mulher que outrora confiara.

Seu olhar suplicante pareceu alcançar o tortuoso trajeto até Laura, que a meio caminho de seu intuito permitiu-se hesitar naquele propósito. Sem mais conseguir fitá-lo durante o processo, a Pistoleira baixou o olhar, mais uma vez avançando naquela lavagem cerebral que logo o jogou para um recanto ainda mais desabitado de sua consciência.

Até aquele ponto desesperador em que Fury sequer era capaz de perceber-se ali, dentro de seu corpo desleal.

Todos os pequenos indícios de que o homem vinha recobrando alguns sentidos se perderam no exato instante em que a joia do infinito mais uma vez nublou por completo a mente do diretor, e seu olhar retornou à plena submissão subserviente de antes.

Laura afastou os dedos do cetro o mais rápido que pôde, tão culpada quanto da primeira vez, embora ainda ciente de que não possuía nenhuma outra escolha após o ultimato de Fury, que quase a desvinculou para sempre da S.H.I.E.L.D.

Não podia partir dali. Aquilo estava absolutamente fora de questão, e se fosse necessário manter Nick naquele estado vegetativo pelo resto da vida, que assim fosse. E diante da percepção tão honesta do quão longe seria capaz de ir em prol de seu próprio benefício, sentiu-se um pouco mais desleal.

Ainda mais se tratando de Nick Fury, que tanto fizera para ajudá-la.

— Já acabou aqui, né? — A Pistoleira questionou, um tanto incomodada pelas próprias escolhas. Não necessariamente precisando receber alguma resposta, uma vez que percebia com clareza a renovação da apatia do diretor — Vamos logo ao que interessa então. Nossa viagem. Temos que fazer isso o mais rápido possível, até porque não sabemos quanto tempo ele ainda vai se manter fiel a nós dois... — Refletiu enquanto ainda mirava a indiferença do homem, sentindo crescer uma enorme mágoa de si mesma por permitir que o diretor fosse submetido àquilo. Por testemunhar um caráter tão raso como parte de sua personalidade.

— De acordo. — Loki anuiu, ele também preocupado que retornassem tarde demais à S.H.I.E.L.D., quando o líder já tivesse usado o período de sua ausência para recobrar seus sentidos e delatá-los aos demais membros — Quanto antes regressarmos, melhor poderemos manter o controle da situação. Seu líder é resistente para um mortal, nossa vigilância sobre seu progresso deve ser constante, ao menos enquanto permanecermos nos domínios de Midgard. — “Após nossa partida, contudo, nada mais poderá ser feito para frear meus intuitos.”, pensou, agradado com a forma como vinha conseguindo controlar tudo a seu favor.

— Que ótimo que finalmente concordamos com alguma merda, alce... — A humana replicou sem ao menos parecer ouvir o que o jotun dizia, totalmente compenetrada nos próprios estratagemas — Aqui, eu já peguei sua identidade falsa. E seu passaporte. — Ela passou a Loki os documentos falsificados de última hora, mal conseguindo esconder as palpitações em seu peito — Agora é só entrar no primeiro avião que der ‘pra pegar.

Loki ficou por alguns segundos em silêncio, contemplando sua identidade de forma a julgá-la. Deixou que a leitura se demorasse no nome gravado ali, não disfarçando sua insatisfação.

— Thomas William Hiddleston? — O deus da trapaça ergueu um olhar petulante em direção à humana, parecendo pouco agradado com aquele nome midgardiano tão indigno de si. Tão estupidamente longo e tolo.

— Ah, isso é o de menos, achei que o nome combinou até que bastante... — Laura deu de ombros, indiferente — Embora eu prefira te chamar de Tom. Parece mais impessoal. Tom Hiddleston. Soa como um nome que levaria uma legião de fangirls à loucura... — Lançou ao jotun um meio sorriso presunçoso, que sempre se abria instigado diante daquele comportamento arredio do deus.

Um sorriso que, naquele instante, não era capaz de esconder o nervosismo do que estava prestes a ser feito. Algo que jamais passaria despercebido a Loki. Por mais que não a compreendesse em seus termos específicos de Midgard e costumes que estavam além de seu pleno entendimento, o deus da trapaça podia lê-la perfeitamente bem.

E o que via em Laura agora era algo que certamente repudiaria em qualquer outro humano. Mas não nela. Não depois de presenciar com seus próprios olhos todos os seus tormentos e fantasmas da infância. Via, em Laura, um gasto dispendioso de energia para se mostrar forte, quando na verdade parecia tramitar no ápice de sua fraqueza.

Esperaram pela calada da noite para colocarem-se em ação, sem ousarem comunicar aos outros Vingadores a respeito de sua viagem. Fury esclareceria tudo, como fora instruído a fazer — e apenas se suas ausências se tornassem impossíveis de camuflar. A Pistoleira não pretendia se demorar naquela missão, até mesmo por um sentimento misericordioso a si...

...E também às suas capacidades, ainda desconhecidas ao se colocar revisitando traumas que, apesar de antigos, ainda eram dolorosos.

Quando chegaram ao aeroporto, a mulher nem mesmo se dedicou a observar as habituais estranhezas de Loki diante do ambiente desconhecido, como seria de seu agrado e diversão. Focou-se apenas em si, tentando canalizar a ansiedade para que esta potencializasse sua fúria na hora em que finalmente acertasse as contas com ele.

Ramirez.

“Certa vez aprendi que toda forma de vida é valiosa...” — Repetiu uma antiga reflexão, de uma época que a fez ver as coisas sob outros ângulos — “...Mas a sua é um desserviço. A sua, e a de pessoas como você, é o que torna podre e decadente essa humanidade. Nos vemos em breve, seu filho da puta do caralho. Muito em breve.”

Laura, numa consciência rasa e muito longe dali, passou pelas burocracias do embarque sem realmente percebê-las, não carregando consigo qualquer arma a fim de evitar chamar atenção. Quando chegasse em Honduras resolveria esse breve contratempo. Loki, por sua vez, usou de seus poderes sobre-humanos para camuflar o cetro, dando-lhe a aparência de uma bengala para amparar o passo falsamente manco.

Uma bengala com uma bela pedra celeste cravada. O tipo de joia que levaria qualquer mortal a se desesperar em sua insignificância, caso soubesse do que se tratava aquela relíquia do universo e suas habilidades.

E, ainda mais, por estar na posse daquele deus, que tanto os repudiava.

Ele a imitou em todos os passos do embarque, de imediato conseguindo reproduzir com naturalidade aqueles estranhos costumes para se iniciar uma jornada. Era impressionante o quanto aqueles tolos humanos superestimavam os papeis, algo facilmente manipulável até mesmo para aquela raça menor — como suas identificações estavam prestes a comprovar. Chegou a desconfiar dos documentos falsos, mas eles passaram incólumes pela atenção dos funcionários, um a um permitindo seu avanço.

Para Loki, o momento mais estranho foi vislumbrar a enorme nave de longas asas metálicas que os levaria em viagem pelos territórios de Midgard. Os habitantes daquela devastada terra — apesar de inferiores tanto nos quesitos de habilidade física quanto na destreza da mente —, sabiam como driblar a falta de magia naquele mundo, algo que Loki era obrigado a admitir após o tempo que passara ali. A própria S.H.I.E.L.D. era a maior evidência daquele fato.

O deus acompanhou a Pistoleira, esta um tanto quieta e pensativa, provavelmente especulando em sua mente as possibilidades daquele encontro que se aproximava. Loki sentiu uma onda derradeira de repúdio ao perceber que empatizava — muito mais do que gostaria, aliás — com o estado de espírito da humana. Ele mesmo, quando se propôs a enfrentar Odin antes de partir para Midgard experimentou aquela mesma mescla confusa de sensações, que iam do êxtase à pontadas irritantes de receio e ansiedade.

E Laura, era preciso constar, estava prestes a afrontar tudo o que havia de mais aflitivo em seu passado. O deus da trapaça conhecia bem aquela angústia que precedia um momento como aquele. O tipo de momento que se gasta uma vida inteira em busca de alguma oportunidade.

Manteve-se tão silente quanto a midgardiana, não querendo destruir sua concentração. Ele mesmo tinha muito o que considerar, e por esta e outras razões aquela quietude era muito bem vinda. Por mais que o desagradasse aquela reflexão, Loki sabia que ser colocado à presença do homem que feriu Laura em tantos aspectos também o perturbaria em algum nível.

Até mesmo pensar em Ramirez fazia seu notável calculismo ser nublado por vontades mais vigentes, e sequer poderia mensurar o estrago que seria capaz de perpetrar tendo-o por perto, ao alcance de sua fúria. Sabia que aquela batalha pertencia à ninfa dos seus sonhos, mas retirar-se por completo do embate não seria nada fácil a ele.

Subiram alguns degraus que os conduziram à entrada do avião, e sem trocar qualquer palavra ocuparam os lugares demarcados em suas passagens. Laura sentou do lado de uma pequena janela circular, já se perdendo em pensamentos ao vislumbrar a paisagem escura.

Lembrou-se de algo que há anos estava latente em sua memória, vindo à tona com clareza agora que se punha a caminho de sua própria caça.

Os olhos de Cort.

Olhos astutos, que ora pareciam tender para uma tonalidade mel, ora chegavam próximos de um acinzentado dependendo da luminosidade que os tocava. Mas algo nunca mudava dentro deles. O instinto alerta. O amor à liberdade. A gana por deixar aflorar seus anseios mais selvagens.

Laura chegou a sorrir de leve com a lembrança, se deixando abarcar por ela de bom grado. Talvez aquela sendo a única recordação capaz de acalmá-la num momento como aquele.

Até mesmo sentiu os músculos relaxarem ao se dedicar à tarefa de mergulhar nas nuances daqueles olhos ariscos.

“Me desculpa, Nick...” — balbuciou em pensamento, antes que se deixasse fugir daquele presente.

Clint e Laura foram pegos pelas autoridades na mesma noite em que foram atrás de Ramirez, o rapaz já contando com uma ficha respeitável de infrações e crimes ao longo de sua breve vida, enquanto que a menina, por conta da situação ilegal no país, temia ser deportada.

Ambos estavam juntos à espera do que seria feito, acomodados num desconfortável assento de madeira com algemas prendendo seus pulsos por detrais dos móveis. Laura estava certa de que, se se esforçasse, conseguiria soltar ao menos um dos pulsos dali de tão mirrados que eram, mas a menina estava estática. Naquele instante, permitiu-se ser uma criança que não consegue disfarçar o medo. O ambiente fedia a mofo e era meticulosamente pouco iluminado, como se tivesse a intenção de subjugar e amedrontar quem ali aguardasse. A boa política norte americana tratando aquelas crianças como os criminosos que se tornaram após os eventos daquela noite.

Barton lançou um meio sorriso à garota, tentando soar tranquilizador embora ele mesmo se intimidasse com todo aquele clima hostil. Receava, dessa vez, não ser bom o bastante para escapar daquilo que viria como consequência aos seus atos.

De não conseguir proteger aquela criança, que já via como o último membro de sua família.

Esperaram ali por no mínimo uma hora inteira, as gargantas já ressecadas implorando por alguma água quando um robusto homem negro entrou. Seu olho esquerdo era coberto por um tapa-olho — tão intimidador quanto a expressão fechada —, a pele ao redor dele toda envolvida por cicatrizes antigas. Um cavanhaque se pronunciava naquele semblante de traços severos, o único olho capaz de fitá-los com uma intensidade atormentadora.

— Laura Delgado e Clint Barton, suponho. — O homem sentou defronte a eles, apoiando os cotovelos na mesa e descansando o queixo por cima das mãos enquanto se mantinha estudando-os com acuidade. A voz rígida condizia com todo o resto, aumentando ainda mais a apreensão da criança assustada.

— Talvez... Já você... Sagat*, suponho. — Clint rebateu, tentando camuflar com uma dose de zombaria o nervosismo de sentir-se totalmente preso e acuado por aquela presença.

— Os dois chamaram bastante atenção hoje. — Ele prosseguiu, inabalável, pousando o orbe sobre o rapaz atrevido — Sei pouco sobre a garota, mas você vem se mostrando um caso sério, senhor Barton. Há tempos estou de olho no senhor.

— Isso explica porque consegui fugir tão de boa de metade dos reformatórios! Péssima escolha de palavras, caolho... — O arqueiro gargalhou, fazendo uma referência ao campo visual reduzido à metade do homem austero. Laura ainda permanecia de todo séria, compenetrada naquela presença que apenas lhe prometia ainda mais prejuízos.

Não queria voltar à sua cidade natal, e daria o seu melhor para resistir àquele destino.

— ...Anos se provando mais apto do que os sistemas de segurança dos orfanatos e reformatórios, até que finalmente desistiram de você, e fui informado de que poderia vir a se tornar um problema maior. — Ele prosseguiu, sem jamais deixar de fitá-lo. Sem jamais demonstrar qualquer ofensa ou desagrado com o tom desrespeitoso do rapaz. Parecia sequer ouvi-lo, na verdade — Fiz vista grossa enquanto você se manteve o mais na linha que a situação permitia, mas não posso mais ignorar o que tenho aqui.

— Como você perdeu o olho? — Laura lançou a pergunta abrupta e insolente, obrigando-se a não demonstrar todo o medo que sentia daquela situação. Percebeu a mandíbula forçar-se num aperto de dentes doloroso, mas foi bom para aliviar um pouco da tensão.

— Eu não perdi. — Ele enunciou calmamente, erguendo o tapa-olho e deixando à mostra o caminho de várias cicatrizes que cruzavam com sua íris descorada, vazia. Uma das marcas era mais pronunciada e longa, tão repugnante quanto aquele olho doentio e cego. Como se não houvesse interrupção nenhuma, ele retomou o assunto anterior — Dessa vez passou de todos os limites aceitáveis, senhor Barton, e sequer a conheço, senhorita Delgado, mas creio que isso valha para os dois.

— O que vai fazer com a gente? — O rapaz tirou todo o tom zombeteiro da voz, fitando-o com uma seriedade quase adulta.

— Tentarei colocá-los num novo programa de reabilitação. Sou diretor de um quartel general, e estamos em processo de recrutar talentos como o de vocês. Somos o que há de mais requintado no que abrange a área de treinos militares, e nossa função, apesar de secreta e anônima, é vital para a segurança da humanidade. Compreende a confiança que está sendo depositada no senhor, mesmo após tantos deslizes? Esta será sua última chance de provar que ainda pode ser útil a seu país e à humanidade, senhor Barton. Se falhar, se sair da linha ou mesmo demonstrar qualquer tipo de insubordinação, estará fora do programa. E eu não aconselharia sair de uma instituição secreta da magnitude desta, que ofereço. Estou convicto de que a senhorita também possa ser uma adição valiosa ao nosso programa, e estou disposto a testá-la em suas capacidades.

— O que acontece se a gente se recusar? — Laura levantou a questão, atraindo um olhar ainda mais duro do misterioso diretor.

— O senhor Barton terá seus documentos alterados para que oficialmente seja visto como um homem que atingiu a maioridade, e então será conduzido a uma penitenciária de segurança máxima de uma jurisdição que permita a pena de morte, provavelmente, uma vez que já expus demais acerca da Strategic Homeland Intervention Enforcement Logistics Division, e dado o histórico do rapaz, ele poderia tentar incitar algum tipo de teoria da conspiração contra nós. Muito provavelmente passaria a impressão de ser um lunático, mas erros do tipo não serão tolerados. — Anunciou sem qualquer abalo na voz, simplesmente prático — Quanto à senhorita, será deportada ao país de origem. O que, de certa forma, também me parece uma sentença de morte dada as condições violentas do lugar.

— Strategic o quê? Que porra de nome é esse? — Clint contestou, parecendo mais indignado com o tamanho extenso daquela denominação do que com a própria possibilidade de ser condenado à morte por algo tão esdrúxulo quanto aquele misterioso lugar, ao qual era recrutado de forma tão coativa.

— A designação do quartel ainda está em pauta. Mas a questão não é essa. Apesar de esse meu discurso parecer coercitivo, vocês estão diante de uma grande oportunidade. A Strategic Homeland Intervention Enforcement Logistics Division está se compondo dos melhores em suas respectivas áreas, e vocês seguirão os protocolos de um treinamento de elite.

— Cara, você fica muito otário repetindo esse nome o tempo todo... — Clint o cortou, contudo o homem prosseguiu o seu discurso, ignorando-o totalmente.

— Acha que maneja um arco e flecha com perfeição, senhor Barton? Posso garantir que tem até mais do que o talento necessário, mas ainda está muito longe disso. E você, senhorita Delgado, também demonstrou notória habilidade na posse de uma arma, contudo tem pela frente um caminho longo de aprendizado se quiser se tornar realmente uma pistoleira. — Olhou-os por um segundo mais longo, realmente vendo um potencial infindável naqueles rostos carentes de orientação. Queria ajudá-los, acima de tudo por saber as circunstâncias que os trouxeram àquele ponto — Sem mencionar que nunca mais precisarão roubar qualquer coisa. As bonificações a quem se junta a nós são muito generosas, eu diria. É o tipo de oferta que só surge uma vez na vida.

— Até porque se você recusar, morre... — Clint arremedou com humor negro, ainda detestando aquelas circunstâncias. Mesmo que, não podia negar, lhe instigasse o fato de poder se aprimorar ao máximo no arco e flecha. Mesmo que fosse tranquilizante imaginar-se numa situação mais estável, sem se preocupar se teria o que comer no dia seguinte, ou se seria novamente pego.

— É uma forma de ver as coisas, não nego. Mas, particularmente, eu preferiria pensar nisso como a oportunidade que ambos estavam esperando. Como a reviravolta que vai alavancar a vida dos dois.

— Se eu aceitar... — Laura principiou, falando devagar como se cada palavra merecesse um cuidado extra — ...Posso ficar no país tipo... ‘pra sempre? Como uma de vocês?

— Isso dependerá apenas de você. Poderá continuar no país enquanto se mantiver fiel à Strategic Homeland Intervention Enforcement Logistics Division — Alertou, percebendo Clint revirar os olhos com alguma teatralidade temperando sua irritação — Sua permanência nos Estados Unidos estará intimamente correlacionada com os serviços prestados ao quartel general. A partir do momento que me der algum motivo para afastá-la da instituição, perderá de imediato o privilégio da cidadania americana. Os termos também se aplicam ao senhor Barton. Uma vez que seja afastado, voltamos ao princípio dessa negociação, porém sem o benefício da escolha. O que me dizem?

— Não pareceu que temos muita opção por aqui. — O arqueiro replicou num tom ensimesmado, detestando ser colocado contra a parede daquela forma. Porém, assim como Laura, não enxergando outra opção — Dizer não seria uma atitude quase tão burra quanto decidir mijar contra o vento. Feito. Fazer o quê...

O diretor pousou agora a atenção na futura Pistoleira, no aguardo de sua resposta. Ela trajava expressões ariscas, fitando-o com as pálpebras semicerradas de um desafio puro, pouco abalado pelo medo que ainda a permeava.

— Eu vou poder me vingar daquele homem? Depois de receber esse treinamento? — A menina questionou com frieza, chegando a causar algum arrepio no diretor pelo ódio tão arraigado em seus traços e palavras. Por mais que se tratasse de um homem rígido e pouco dado a demonstrar qualquer mínimo sinal de suas emoções, ainda se percebeu profundamente incomodado com a ira indômita da menina. Tal sentimento pernicioso jamais combinaria com uma criança.

Um sentimento que, se não fosse controlado com o passar do tempo, poderia ainda trazer-lhe problemas.

— Não. — Avisou, impassível, sem demonstrar nem mesmo um átimo de seu incômodo nas feições indiferentes, insensíveis perante o olhar severo que lançou à garota imediatamente após sua pergunta. Como se tentasse abrandar um pouco da própria rigidez, Fury suspirou, inclinando o tronco para um pouco mais perto da menina e se esforçando para atenuar sua negativa bruta. Apesar de tudo, não passava de uma criança que não fora instruída a nada. Nada que não fosse a sede por alimentar o próprio ódio — Entenda bem, Laura... Nossa instituição não é focada em bandidos comuns. Por mais condenáveis que essas pessoas sejam, não estamos interessados em ladrões, estupradores ou assassinos. Nosso foco são aqueles que realmente ameaçam a humanidade de alguma forma mais séria. Estamos acima do FBI, CIA, NSA, e todas essas organizações já consideradas de elite. O homem que vocês tentaram matar já foi deportado, e pagará pelos crimes que cometeu de acordo com as leis de seu país. Não podemos ter qualquer vínculo a mais com esse caso, não condiz com os nossos protocolos de combate. Essa situação já colocou os dois em maus lençóis, portanto sugiro que esqueçam esse assunto. Ramirez não será um alvo nosso, a menos que algum dia se mostre perigoso à altura. Algo que eu honestamente duvido, e muito.

Laura sentiu uma umidade incômoda preencher seus olhos, tanto ódio quanto tristeza dissolvidos junto às lágrimas que queriam correr por seu rosto. Para ela, Ramirez era o mais perigoso de todos os homens, e aquele discurso não fizera sentido algum. Para ela, Ramirez era o que havia de pior à toda existência humana. O que ele fizera à criança se não ameaçar e dizimar sua humanidade e a de tantas outras meninas e mulheres? Por que era considerado um bandido de segunda categoria, quando foi capaz de destruir tantos mundos à sua volta? Mundos que, de início, foram moldados pela esperança de uma vida digna, e que agora jaziam em túmulos — soterrados não por algo sólido como a terra, mas pelo derrotismo daquelas mulheres. Pela falta de perspectiva. Pelo medo.

E acima de tudo, pela necessidade.

— Você entendeu o que eu disse, senhorita Delgado? — O homem a questionou, perfeitamente sério, voltando ao modo rude de antes. Gentileza nunca fora algo inato a ele, e nem mesmo a paciência para fingi-la. A menina ainda se manteve estática por vários segundos, encarando-o com desprezo à medida que se esforçava para segurar o choro. Por fim, baixou o olhar e assentiu num movimento quase imperceptível de cabeça, mostrando-se rendida por cada uma de suas tantas limitações. — E está de acordo com esses termos? — Ergueu a sobrancelha do olho bom, estudando-a.

— Estou... — Concordou com simplicidade, ciente de que teria uma longa estrada para construir algum sentimento de confiança para com aquele homem. Uma confiança que precisaria surgir de ambas as vias.

Agarrando-se ao fato de que, se as palavras do tal diretor guardassem algum fundo de verdade, ao menos aprenderia a lutar com dignidade. A nunca mais permitir que acontecesse consigo, ou com alguém de sua estima, o mesmo que ocorrera no barco de pesca.

— Ótimo. Mandarei meus homens virem soltá-los, e imediatamente partiremos para nossa sede. Nick Fury, à propósito. — Apresentou-se antes de sair, deixando os dois novamente sozinhos no ambiente escuro e abafado.

Laura e Clint trocaram um olhar cúmplice, ambos parecendo especular o que os aguardava, e ao mesmo tempo prometendo um ao outro qualquer proteção que ainda fossem capazes de fornecer.

●•●•●

Tanto Clint quanto Laura logo admitiram entre si — com algum contragosto orgulhoso, é verdade — o quanto aquele lugar fazia bem não só aos seus corpos em constante treino como também às suas mentes, que recebiam o mesmo tipo de cuidado de seus músculos em formação. O trabalho pesado das sessões diárias de treinamento os eximiam de remoer seus passados em conjunto com a corriqueira sensação impotente, desgastando ainda mais suas resistências.

O diretor do quartel general que agora era chamada por todos através da sigla S.H.I.E.L.D. — para o alívio de Clint, que mesmo com o passar dos anos não chegou a memorizar o nome completo da instituição —, imediatamente colocou ambos em sessões terapêuticas, tanto para uma primeira análise psicológica quanto para que fossem acompanhados de perto pela profissional.

E foi uma das primeiras conversas entre a psicóloga e Fury, que permitiu com que Laura obtivesse avanços inegáveis em sua saúde mental.

— O rapaz é um tanto resistente às sessões. Nada inesperado a um adolescente no ápice da rebeldia. A menina, contudo, praticamente clama por ajuda em cada um de nossos encontros. Cheguei a me surpreender com a forma com que ela se demonstrou aberta às minhas intervenções. Essa conduta inicial é bem incomum no caso de abuso infantil — A mulher atestou a Nick, fornecendo ao diretor suas primeiras impressões sobre os casos — E até mesmo por esse comportamento, confesso que ela me preocupa bem mais do que Clint. Ela tem sido reservada, mas ao mesmo tempo muito disposta.

— A garota tem uma fibra que falta na maioria dos adultos... — Fury afirmou, aos poucos se percebendo cada vez mais responsável pelos dois — Mal posso imaginar pelo que ela passou nas mãos daquele traficante. Acha que pode ajudá-la?

— Com certeza posso, se todos nós tivermos paciência para que isso vá acontecendo aos poucos. É um trabalho de formiguinha, como dizem. Quando se trata de um tratamento psicoterapêutico, não adianta tentar apressar as condutas. Cada um tem o seu próprio tempo. Entretanto...

— Qual o problema?

— No caso específico da menina, eu já pude perceber logo nas primeiras sessões que ela apresenta uma raiva contida muito intensa e danosa... Violenta, eu diria, algo perigoso para as pessoas à sua volta e principalmente para ela mesma. É o tipo de problema que acaba culminando em crises de ansiedade e estresse que muitas vezes a leva à exaustão psíquica, e até mesmo física. Precisamos intervir o mais cedo possível nesse quadro, antes de dar início a qualquer outra abordagem. — Comunicou, passando os dedos pelos fios castanhos à frente de seu rosto, aconchegando-os atrás da orelha — Ainda mais se tratando de uma criança, a evolução desse quadro pode ser desastrosa.

— Tem algo em mente, doutora Cregan?

— Sim, de fato tenho, e foi para falar a respeito disso que pedi essa conversa. O caso dela é um tanto severo, mas eu acredito que posso obter ótimos resultados iniciais se, em conjunto com as sessões, Laura começar a praticar algo como a falcoaria. — A psicóloga notou Fury a encarando com alguns traços de confusão em seu semblante normalmente contido, e pôs-se a explicar, não sem antes se permitir degustar aquela rara circunstância em que via o diretor da S.H.I.E.L.D. ser surpreendido. Sentiu-se foda, em termos mais gerais — Nesse momento, ela precisa de uma atividade para extravasar todos esses sentimentos nocivos de alguma forma. Eu acredito que os animais auxiliam muito no processo de terapia... isso, é claro, se soubermos usar a nosso favor cada tipo de personalidade animal de acordo com a fase do paciente. Veja, a falcoaria consiste em treinar falcões para a caça numa parceria com os humanos. Os animais estarão exercendo seu mais enraizado instinto, e ao colocarmos Laura em contato com esses impulsos mais ferozes da perseguição entre predador e presa, será uma maneira que ela terá de “colocar para fora”, por assim dizer, muito dessa raiva. Além do fato de que o vínculo que se cria com essas aves é outra adição um tanto bem vinda ao tratamento. Por ora é o tipo de animal que ela precisa. São incisivos, selvagens e impetuosos. Mas quando bem treinados, demonstram uma fidelidade admirável. Características que eu percebo na própria Laura.

— Compreendo. — Nick anuiu, vendo sentido naquela linha de raciocínio — Providenciarei isso o quanto antes. Mais alguma recomendação?

— Por enquanto é isso. Com o tempo vamos adaptando as coisas de forma condizente aos avanços do tratamento.

Despediram-se sob aquela nova perspectiva, e no mesmo dia Nick Fury pesquisou tudo o que havia para se saber a respeito do treinamento de falcões. O diretor, assim que ficou satisfeito com as informações colhidas, cuidou de toda burocracia e equipamentos necessários, providenciando por último um falcão-peregrino, aquele que era mais bem quisto dentre os falcoeiros. O animal, ainda filhote, chegou à Laura como uma surpresa um tanto desagradável.

Era uma coisinha feia, ainda sem penas, a cabeça parecendo desproporcional ao restante do corpo, e no geral um tanto desajeitada em sua imaturidade. Mas não foi a aparência estranha que a incomodou no animal.

Foi recordar Luisa, sua irmã, aquela a quem jurara proteger, e falhara. Indefesa como o filhote de falcão...

Contudo, Laura aceitou o presente sem reclamar, assim como as instruções de cuidados a serem tomados e mesmo a perspectiva da falcoaria quando o animal crescesse. Não tinha a menor intenção de contradizer qualquer vontade do diretor — e com isso acabar sendo mandada de volta ao seu país de origem, que só lhe trouxe experiências ruins.

O início daquela relação foi na base da obrigação. Laura jamais esquecia os momentos de alimentá-lo, levava-o consigo para todo tipo de lugar a fim de criar as marcas necessárias ao animal, que quanto mais contato tivesse com o mundo exterior, maior seria seu leque de competências quando adulto. Acariciava-lhe o corpo e regularmente pedia para que outros também o fizessem, de forma que o falcão se habituasse ao contato humano.

Porém, fazia tudo isso tentando não se apegar. Sequer chegou a lhe dar um nome no começo.

No início, sua estratégia de afastamento com o animal funcionou bem. Ou era no que ela acreditava. Porque, como tudo o que depende exclusivamente de você, o apego cedo ou tarde se torna inevitável.

E era o que Laura mais temia. Novamente se entregar ao mesmo tipo de amor que uma vez sentira por Luisa; aquele amor de quem sabe que é único na vida do outro, envolvendo todo o tipo de cuidado e proteção. Que, sem ela, tudo estaria perdido. Assim como a própria irmã, pequena e indefesa, aquele filhote foi conseguindo tomar um espaço enorme em seu coração tão molestado pelas perversidades do mundo.

Sem perceber os momentos exatos em que aquilo ia ocorrendo, a futura Pistoleira foi criando laços com o pequeno falcão. Quando percebeu, já queria sorrir ao ver o animal escancarar o bico num gesto afoito, sempre que a menina chegava com o alimento.

Os afagos rotineiros pelo corpo do filhote se tornaram menos mecânicos, paulatinamente ganhando algum afeto naquele contato cada vez mais suave.

Os olhos da ave passaram a fasciná-la naquela dicotomia dúbia entre o cinza e o caramelo, e Laura não conteve a felicidade quando suas primeiras penas começaram a surgir.

Nisso, a ave já tinha um nome. Cort. E nomear algo vivo, todos sabem, é o estágio final para que se instituam laços mais anunciados em profundidade. Aquele último passo irremediável e sem volta.

Quando as caçadas em conjunto começaram, Laura foi invadida por um sentimento único. Naqueles momentos, não existia apenas uma relação de cumplicidade com o falcão, como era de se esperar. Laura, não raras vezes, se confundia com o próprio Cort na busca pela carne fresca que logo seria dilacerada por seus bicos e garras fatais.

Corria atrás do animal a passadas velozes, percebendo o vento contra o rosto como se também estivesse esvoaçando em pleno ar, avistando de cima a paisagem em busca de sua presa. Podia prever, com um milésimo de segundo de vantagem, o instante em que a ave imbicaria, dando seu rasante mortal na direção da presa escolhida. Às vezes parecia também ter o seu espírito embaraçado ao dele no momento do ataque propriamente dito. Quando a carne de sua caça sofria a primeira mutilação e ela quase conseguia sentir o gosto de sangue na boca. Quando a vida deixava para sempre o corpo da presa, e algum instinto antigo compartilhado com o falcão a avisava de que estava pronta para ser consumida.

O falcão-peregrino era implacável.

Ele jamais errava. Impecável como a mira de Laura um dia se tornaria, sempre inspirada naqueles olhos focados, todo certos do que faziam.

Laura permaneceu cinco anos como tutora de Cort, cada momento que podia praticando com ele aquela caça mútua, que sempre a direcionava para a versão mais instintiva de si, despertando nela o animal que regia sua alma. Que aos poucos a ensinava a lidar com uma fúria grandiosa demais para que ela carregasse. A canalizá-la para aqueles momentos, e deixar que ela fluísse para fora de si.

Até que, no último dia em que saiu com Cort empoleirado no seu braço, ficou um tempo sem dar comando algum. Apenas estática, olhando o horizonte de céu limpo, tão propício para o que estava prestes a fazer. Os olhos bem cinzas naquela manhã a fitaram, atentos, quando ela finalmente falou.

E Laura não teve dúvidas de que a ave entendeu cada palavra.

— Obrigada por tudo, Cort! — Acariciou de leve sua asa esquerda, sentindo o gosto daquela despedida descer num sabor amargo, porém necessário — Você me ajudou com uma merda tão grande, que achei que nunca conseguiria. Sei que sozinha não. — A menina que a cada dia se tornava um pouco mais mulher o mirou fundo nos olhos, disposta a prorrogar aquele instante o quanto pudesse. Quando começou a cogitar desistir daquele intuito, retirou a correia que prendia a perna do falcão, libertando-o. Cort, contudo, se manteve com os olhos fixos na humana, ainda demonstrando desinteresse pela alforria — Sinto muito que, ‘pra que eu me sentisse melhor comigo mesma, sua vida tenha se tornado limitada do jeito que foi. Eu estava dependente demais de você ‘pra enxergar antes, e quando finalmente percebi, continuei sendo egoísta por um tempo... — Os olhos da ave, ainda soberanos, tinham-na por alvo, como uma de suas caças — Eu sei, fui uma vadia arrogante, pode dizer! Mas os humanos são assim mesmo, egocêntricos ‘pra caralho... Você está livre, Cort. Nada de caças a menos que você queira. Só que comigo elas acabaram, meu amigo. A missão da sua vida agora é justamente essa; sua vida. Já está mais do que na hora de eu aprender a lidar com as minhas merdas sozinha, e você de desencalhar. Encontre uma fêmea bem bacana por aí e tenha seus filhotes. Ou continue nessa saga de solteirão incorrigível, a escolha é sua, garoto! — Uma lágrima atravessou o rosto saudoso da adolescente, que agora ergueu o punho em que o falcão se empoleirava rumo ao céu, o mais alto que conseguiu — Vai, Cort. A partir de hoje é com você. Não vai mais me encontrar na volta! — Avisou, sentindo o peso da ave abandonar seu braço num impulso elegante.

Cort, agora com suas exuberantes penas castanhas, negras e brancas, alçou um voo livre, parecendo ainda mais imponente com as belas penas cintilando à mercê da luminosidade daquela manhã límpida. E as garras, que sempre apontavam para ela no momento de aterrissar, agora estavam bem recolhidas num voejo sem volta.

Deixando em Laura uma marca eterna. A primeira marca realmente boa de sua vida.

E mesmo agora, dez anos depois, ainda era capaz de sentir a força de Cort resvalando para si, numa caçada que finalmente era sua.

Notas finais
*Personagem da série de jogos Street Fighter. No próximo capítulo teremos o quê? Nada mais, nada menos do que o confronto com o escroto do Ramirez, com direito ao último flashback do passado da Laura (possivelmente), contando como foi essa primeira tentativa da criança de se vingar de seu abusador. Aqui eu perverti a ordem cronológica dos fatos pra ter o encaixe certo com a história, espero que não estejam putos por isso, hehehe. Um adendo que acho justo colocar (mas antes, pra você que leu o "caguei" lá nas notas iniciais e ficou "WTF?", explico: é um experimento que estou fazendo, pra ver quantos de vocês leem essas notas, porque às vezes tenho a impressão de estar falando sozinha por aqui =P então, se você leu o caguei lá em cima, e está lendo isso agora, escreva no campo 'o que deve ser melhorado' a seguinte frase "Então limpe-se, oras!", pra eu saber que você leu isso aqui. É um experimento sério, gente! Me ajuda, poxa, não custa nada xP): eu não acho legal nenhum tipo de esporte envolvendo animais, mas aqui não tem como não deixar claro o quanto esse convívio com o falcão foi bom para o próprio amadurecimento da personagem. Então, Cort (quero ver alguém entender essa referência =P), desculpa aí, e vai em paz, cai dentro da vida livre que é o que todos os animais merecem ♥ Aliás, falando em falcão, o título do capítulo é um termo usado na falcoaria que se refere às marcas deixadas no animal nesse momento em que ele precisa descobrir o ambiente à sua volta - quanto mais exposições ele tiver, maior será o imprinting e melhor treinado ele será. Aqui, contudo, esse título se refere muito mais às marcas que o falcão deixou na Laura, assim como as marcas que a joia do infinito está deixando no Fury. Acho que era só isso! Ótimo ano a todos, seus diliça x)