Orlög
17 I've Never Been To Me
Notas iniciais
O sol se escondia por detrás de densas nuvens quando o avião finalmente pousou em seu destino final, sobre o solo de Cancún. Quase não era possível perceber seu halo distorcido no céu nublado, dotando o dia de uma sensação pouco agradável por sua luminosidade apagada.
Ainda resoluta em seus próprios dilemas, Laura apenas dirigiu comentários estritamente essenciais a Loki durante o trajeto feito ao longo do aeroporto, parecendo esforçar-se para manter uma postura que evidenciasse alguma força extraordinária de sua parte. Contudo, o deus da trapaça abrangia com clareza o quanto a midgardiana parecia abalada com a proximidade de seu passado.
Mais do que conseguir captar aquela percepção, ele a compreendia, junto de cada nota velada de seu desespero.
Ele mesmo ainda experimentava um forte desejo de vingança pelas mentiras e manipulações que regeram sua infância nos domínios idílicos de Asgard, e nem mesmo seu profundo repúdio pelas sensações que vinha desenvolvendo pela humana era capaz de nublar o forte entendimento que detinha sobre seus anseios. Ele, mais do que ninguém, era capaz de se identificar com a necessidade de compensar o passado.
Laura sentiu o celular vibrando energicamente pela sexta vez dentro da mochila cinza que carregava às costas, alertando-a a respeito de uma nova ligação que ela não tinha a menor intenção de atender.
Ao menos não antes de conseguir resolver de uma vez por todas suas próprias questões pendentes.
O autor da chamada novamente desistiu, contudo perpetrou-se um tremor mais rápido no aparelho, anunciando o recebimento de uma mensagem. A Pistoleira deu um suspiro rendido, procurando pelo celular entre os bolsos da mochila.
Quatro ligações eram de Clint, uma de Tony e a última de Natasha. A mensagem veio com o número da mulher ruiva, porém antes mesmo de abri-la, Laura teve certeza de que pertencia ao seu amigo mais antigo.
A sombra de um sorriso quis nascer por entre a tensão disseminada em seu rosto ao ler o rápido questionamento, e por mais do que um segundo ficou tentada a mandar uma resposta sincera ao Gavião Arqueiro.
“Pqp, miúda, aonde vc se meteu?”
Chegou a começar a digitar uma resposta direcionada ao verdadeiro número do amigo, porém no mesmo instante mudou de ideia e apagou o texto recém formado, ciente de que aquela não era uma boa hora para manter esse tipo de contato, mesmo se tratando do homem que considerava o último membro de sua família. Não podia permitir que nenhuma distração desviasse sua mente do foco que traçara para si naquela viagem.
Mataria Ramirez, e só então estaria novamente disponível para o resto do mundo.
O telefone vibrou em sua mão uma segunda vez, como se contestasse aquela decisão, a nova mensagem dessa vez chegando com o número de Barton. Laura arqueou uma sobrancelha, sem nada dizer ou escrever em resposta.
“VC FOI ATRÁS DAQUELE FDP, NÃO FOI?”
Imediatamente em seguida um terceiro texto surgiu em sua tela, que a fez soltar um riso em meio à respiração acelerada, já sentindo falta do amigo e suas besteiras. Gostaria, mais do que tudo, que ele também estivesse ao seu lado naquele momento.
“Mals, não queria gritar contigo, coloquei em caixa alta sem querer... Dê notícias, pequena! Tô entediado sem suas escrotices, e o Rogers não cala a boca...”
Sabendo que não resistiria por muito mais tempo ao impulso de respondê-lo, a Pistoleira desligou o aparelho e o jogou de volta em sua mochila, sentindo-se mal por ignorar a preocupação de seu amigo mais antigo e querido. Mas era preciso. Sabia que qualquer dica que desse a Clint a respeito de seu paradeiro o encorajaria a tomar aquele mesmo avião para encontrá-la.
Sua primeira precaução antes de deixar o aeroporto foi alugar um carro que não chamasse tanta atenção. Sentia que Loki observava cada um de seus movimentos e reações, e um enorme alívio a percorreu quando enfim pôde despistar sua análise ao se focar nas explicações de como aquele dia deveria transcorrer.
Entraram no Honda ainda em silêncio, este se estendendo por alguns segundos além do que Laura gostaria. Ela se virou em sua direção, abrindo no meio dos dois um mapa bem detalhado da cidade.
— É o seguinte... Nós estamos aqui. — Apontou para a indicação evidente do aeroporto, em seguida desviando o dedo vários centímetros acima no mapa, parando apenas quando alcançou a inscrição “Los Corales”, próxima ao porto da cidade. O mesmo porto pelo qual ela e tantas outras mulheres haviam sido traficadas. Sentiu um breve tremor nos dedos ao apontar o destino, porém ignorou aquela breve demonstração do quanto se sentia covarde, sabendo que Loki ainda a analisava — E o desgraçado hijo de puta* ao que tudo indica está aqui. — Bateu com o dedo no destino, esperando que o deus não fosse capaz de perceber o tom mais pesado de sua respiração. Repreendeu-se mentalmente pelo breve uso de sua língua natal que há tanto tempo fora abolida de seu linguajar, parecendo de alguma forma induzida pelo lugar — Se dermos sorte, chegamos lá em meia hora, fazemos o que temos que fazer e ainda hoje pegamos um voo de volta ‘pra Nova York.
— Como sabe que esta é a localidade atual do humano que procura? — O deus da trapaça questionou com desconfiança, incrédulo daquele conhecimento que parecia ter vindo a ela com facilidade. Foi incapaz de não relacionar Laura com a antiga descendência possuída com o deus da luz, e uma faísca interessada brilhou com mais força no verde de seus olhos.
“Poderia esta midgardiana ter herdado os dons de Heimdall? Ser capaz de ver para muito além do que os olhos normais alcançam?”
— Google... — Ela deu de ombros, dobrando o mapa e o jogando para o banco de trás, ciente de que não precisaria conferir nenhuma daquelas coordenadas por já ter estudado incansavelmente a rota durante o voo. Tinha-a gravada com perfeição em sua memória. Percebeu a confusão irritadiça no semblante do deus nórdico, e mesmo diante de sua apreensão pelo encontro cada vez mais próximo com Ramirez, conseguiu divertir-se um pouco com mais aquela evidente estranheza que Loki demonstrava aos hábitos humanos. Deu a partida no automóvel, percebendo o coração mais acelerado — Bom, quase isso... A S.H.I.E.L.D. tem tecnologia mais do que suficiente ‘pra rastrear los cojones** de quem quer que seja, mas a ideia é a mesma. — Provocou-o, certa de que o habilidoso deus não compreendia em nada a simples funcionalidade de um programa de busca da internet.
E, nas atuais circunstâncias, qualquer distração daquela era bem vinda ao coração atormentado da Pistoleira.
Antes mesmo de a estranha carruagem midgardiana parar à frente de um malcuidado estabelecimento, Loki entendeu que aquele desgarrado lugar era seu tão esperado ponto de chegada. Olhou de esguelha para a humana no mesmo segundo em que ela freou o automóvel com alguma selvageria, percebendo-a completamente tensa sobre o aperto irracional que dedicava ao volante. Seus olhos, tão negros quanto a pele, perdiam-se para além do horizonte, solitários num tempo amargo.
A respiração carregada enchia seu peito em arfares irregulares, e Loki chegou a duvidar se a Pistoleira seria capaz de dar o próximo passo...
...Aquele com o qual sonhara a vida inteira, mas que ao mesmo tempo agora travava seus pés. Como alguma sabedoria intrínseca, que tentava avisá-la dos riscos de revisitar o passado.
— Eu não acredito que cheguei mesmo até aqui... Puta Madre! — Ela murmurou num timbre tão baixo, tão íntimo, que Loki sentiu-se invasivo por testemunhar aquele momento que não lhe cabia assistir. Desviou o olhar quando a expressão da mulher começou a querer mudar de atormentada para o foco de sua missão, aquele mesmo semblante determinado que servia como uma extensão de sua verdadeira capacidade. O tipo de força que jamais se atribuiria a uma mulher de aparência tão frágil, quando na verdade se mostrava sua maior essência. O deus da trapaça engoliu em seco, raivoso, experimentando uma profunda repulsa de si mesmo por mais uma vez ser confrontado com aquela realidade; a de que se importava com o que aconteceria ali, no mesmo mundo mortal que ele tanto considerou imundo, indigno. Assim como todos os humanos que abrigava. Ou, como ainda lhe custava a admitir, quase todos. Loki ainda se desmerecia e punia mentalmente quando a midgardiana, num arroubo de fúria inesperado, socou com vontade o volante enquanto praguejava no idioma que um dia fora o seu — Mierda, todavía estoy hablando de este puto idioma***! — Fechou os olhos na tentativa de se acalmar, aprofundando cada ciclo respiratório. Após alguns instantes voltou o seu olhar para o deus, parecendo notá-lo apenas naquele momento — Você espera aqui, cabrón!
— Como disse? — O deus franziu as sobrancelhas diante daquela fala incoerente, notando com desgosto o corpo se enrijecer. “Humana estúpida! Suas tolices seriam assim tão incontroláveis? Seria tão sedutora a preferência para escolhas boçais?”
— Não posso correr o risco de você estragar tudo. Esa es mi mejor oportunidad... — Interrompeu-se, negando algo com a cabeça, forçando-se a se concentrar no idioma que a abrigara de todos os abusos da infância — Essa é a minha melhor chance de terminar todo esse monte de merda... Preciso fazer isso sozinha! Pensando bem, nem sei por que te trouxe... — Divagou, ameaçando sair do carro num impulso irrefletido.
Contudo, foi impedida pelos dedos firmes do deus nórdico, que agora a segurava com força determinada pelo braço.
— Entrar desacompanhada é um descuido injustificável. Uma sentença de morte, se tudo o que vi acerca deste humano for verdadeiro. — Sem perceber, os dedos se constringiram ainda mais sobre a pele escura, os dentes ameaçando trincar um contra o outro, tamanha a raiva que o envolvia — Não comprove minhas piores teorias a respeito dos midgardianos. Sei que são criaturas propensas a parvoíces, mas até mesmo isso superaria minhas expectativas mais pessimistas.
— É exatamente disso que eu ‘tô falando, burguesinho... — Laura apontou para o trapaceiro como um todo, descrente de que precisaria se explicar quando o próprio Loki já dera ótimos exemplos por si só do porquê não deveria acompanhá-la — Se um cara todo engomado e cheio dessas tuas esquisitices entra lá falando esse monte de mierda, meu plano de me aproximar do filho da puta já era... Vai querer se exibir com todo esse papo de “Midgard” e usar xingamentos como “parvoíce”, cara, pra começar, que porra é essa? A palavra é até que estilosa, eu vou entender como um elogio, mas não dá ‘pra levar isso adiante assim. Você chama uma atenção muito descarada, e sinceramente... nem precisa abrir a boca 'pra isso. — Alertou, seu tom de voz subindo algumas notas conforme falava. Não podia deixar que absolutamente nada desse errado a partir dali — Não sei por que caralho de repente você ‘tá tão interessado em me acompanhar nisso, mas você é um cara bem esperto. Vai entender quando eu disser que nem fodendo ia conseguir se misturar com as pessoas daqui sem causar uma puta suspeita. Eu sei por que te trouxe, Loki... — A Pistoleira o encarou com um misto de melancolia e vergonha, travando nas palavras seguintes. Apenas quando desviou o olhar do deus conseguiu dizê-las, embora baixo, relutante em vários níveis, lutando contra o espanhol que queria a todo custo deslizar para sua fala — Acho que não teria coragem de vir até aqui se estivesse sozinha... já ia ter desistido em algum momento da viagem... E só deus — Laura apontou para Loki com o polegar ao fazer menção ao seu título divino — sabe como eu vou ficar depois desse encontro. Porra, eu já ‘tô à flor da pele agora, tenho até medo da hora que eu encarar aquele filho da puta nos olhos de novo. Por isso não posso correr o risco de te expor ‘pra esse bando de marginal e assistir você estragar tudo. Eu não vou ter outra chance como essa.
Loki a encarou por alguns poucos segundos, ponderando aquele discurso embora não ousasse afrouxar o aperto sobre o braço da humana. Ela parecia, de alguma forma, transitar entre dois estados de espíritos opostos; a derrota e a determinação. Sabia que, para o bem ou para o mal, aquele assunto se resolveria hoje.
— Entendo o seu ponto... — O deus por fim se manifestou, repreendendo-se por não considerar por si mesmo aquele breve impasse, que facilmente poderia ser contornado — Contudo, tenho algo em mente. Uso a joia do infinito para controlar um dos homens a serviço de Ramirez, coagindo-o a levá-la na presença do midgardiano. Eu tomarei a forma de outro assecla, e os seguirei durante o percurso como sendo um deles. Assim poderei acompanhar o confronto entre vocês apenas como observador, e intervir se for preciso.
— Você vai fazer o quê? — Laura ergueu uma sobrancelha acusadora, os olhos se fechando num semicerrar desafiador — Tomar a forma de alguém?
Loki praguejou em silêncio, odiando-se como nunca antes. Acabara de expor uma habilidade que até então Laura desconhecia — e que poderia lhe servir de trunfo mais tarde — apenas em prol daquela insana necessidade de estar por perto no momento do encontro.
— Possuo a habilidade de moldar meu físico ao de outra pessoa. — Admitiu aquilo que Laura já havia entendido, porém ainda esperava por uma confirmação direta — Esse fato não deveria surpreendê-la dada as provas que já dei de minhas inúmeras capacidades.
— Eu não acredito que você escondeu isso de mim! Tem noção de tudo o que eu podia ter feito com essa informação? Espera um pouco, só ‘pra ver se eu entendi o que acho que entendi... Você consegue tomar a forma de qualquer pessoa que quiser? Qualquer uma? — Questionou de forma repetitiva, incrédula.
O deus da trapaça anuiu com evidente desagrado num movimento quase imperceptível, apesar de tudo sabendo que sua prioridade era mantê-la à vista naquele momento delicado. Desprezou-se em maior grau quando entendeu que refaria aquela proposta quantas vezes fosse necessária em tais circunstâncias.
— Basta que eu a veja. — Complementou, sisudo.
— Um sonho que se realiza! Vou te mostrar uma foto do Khary Payton ‘pra próxima vez que a gente fizer sexo... Jeffrey Dean Morgan também não seria nada mau... Idris Elba... As opções são infinitas. Se prepara, Loki de Asgard, que a lista vai ser longa! — Abriu um sorriso descarado, sentindo alguma calma na arte de provocá-lo, cada vez mais se divertindo ao comprovar seu sucesso naquela tarefa. Os olhares faiscantes que ele lhe direcionava jamais seriam capazes de cansá-la.
— Compreendeu todas as implicações do que eu lhe explanei, humana?
— ‘Pera, eu ainda ‘tô tendo uma orgia mental muito foda com você, não estraga o momento! — Fitou-o com uma devassidão que sabia irritar e ao mesmo tempo instigar, incapaz de resistir às várias oportunidades que ele lhe dava. “Ou esse cara nunca vai aprender a lidar comigo, ou se faz de superior, mas no fundo se diverte tanto quanto eu...” — Tudo bem, já consegui processar sua ideia. Acho que pode dar certo. Mas você precisa me prometer uma coisa muito importante antes que a gente coloque isso em prática.
— O quê seria?
— Não abre a boca lá dentro, pelo amor de você.
Mantiveram-se dentro do automóvel por mais um tempo, observando a entrada principal do estabelecimento que claramente escondia algo de ilegal em seu interior, sob a fachada inocente de um bar. Laura retomara sua postura pensativa, tentando concentrar-se naquilo que precisaria fazer. Teve o ímpeto de buscar pelas armas que carregava em coldres, quando o espaço vazio ao redor de seu quadril a fez lembrar de que embarcara sem as pistolas, aquela percepção imediata aumentando em si um sentimento desolador.
“Merda!” — Xingou, por mais que soubesse que jamais a deixariam ver Ramirez sem antes revistá-la — “Vou ter que improvisar hoje...”
Pela primeira vez em longos minutos, Laura focou sua atenção no deus da trapaça ocupando o banco do copiloto, e em seguida apontou para o interior do degradado bar.
— ‘Tá vendo aqueles dois isolados na mesa do canto? — Inquiriu num sussurro incoerente, percebendo o olhar de Loki acompanhar o dedo em riste com precisão — Eu conheço tipos como esse. Ficam pagando de clientes, mas na verdade são mulas do Ramirez.
— O que quer dizer? — O deus fez a pergunta, ligeiramente aborrecido por não compreender o contexto. Jamais se acostumaria à sensação de ignorância que aquele Reino lhe proporcionava dia após dia.
— Mula é quem carrega e transporta drogas. São substâncias ilícitas, de consumo proibido... — Adiantou-se em explicar, prestando atenção em tudo que conseguisse absorver daquele lugar — Por todos esses anos Fury se manteve informado sobre as atividades desse escroto. Ele sempre esteve envolvido com tráfico, seja de drogas, de pessoas... — Fez uma pausa amarga, suas feições ganhando aspectos mais endurecidos — Esse filho da puta nunca soube fazer outra coisa. Estuprar garotinhas vinha como um bônus...
Loki sentiu a mesma onda de fúria de quando o abusador de sua midgardiana se mostrou através da memória compartilhada, quase como se o visse pela primeira vez. Ele estava perto agora. Ao alcance do acerto de contas, se é que fosse minimamente possível almejá-lo com alguma justiça.
— Devemos ir. Já estudamos o que podíamos por fora, e aqui estamos vulneráveis. — Loki anunciou, tirando tanto Laura quanto a si mesmo das mais sombrias elucubrações. Quanto antes terminassem com aquele assunto pendente de anos, tanto melhor. Não gostou nada da ansiedade que percebeu na própria voz, mas sequer podia freá-la.
— Yep... — Estalou os lábios como se tentasse esconder o tremor que se instalara neles, no mesmo instante sentindo-se enregelar. Imaginou se a sensação de Loki se transformando naquele ser de gelo seria semelhante com o que experimentava agora — Então bora lá, djow... — Laura, nitidamente nervosa, engrossou a voz e realizou um gingado estranho com o corpo, causando uma expressão de profundo estranhamento no deus da trapaça que logo murchou as feições da Pistoleira — Esquece, você não entende nem o jeito terráqueo normal de falar, foi pedir demais usar uma gíria. Minha culpa. Não vai se repetir. — Tagarelou, ciente de que provavelmente tentava procrastinar o momento inevitável.
Suas pernas, quando tentou sair do carro, penderam com o que pareceu ser o dobro do peso, denunciando cada aspecto de sua apreensão. Fechou os olhos, rememorando Cort, o falcão peregrino que treinara como um exercício terapêutico, e seus dias compartilhados. Tentou lembrar cada pormenor de suas caçadas, buscando cada fiapo de coragem na imagem da exuberante ave, que tanto lhe ensinara. A forma com que seu olhar astuto nunca abandonava o alvo, as íris tranquilas e bem conscientes do que faziam, sem jamais se permitir errar na pontaria perfeita. A postura em pleno voo tinha suas peculiaridades, porém sempre terminava cravada na direção mortífera de sua presa, que não dispunha de meios justos para defender-se do ataque mortal.
“Hoje sou eu quem caça, meu amigo. Obrigada por me mostrar como...” — Laura deu seus primeiros passos ao destino que a esperava, um pouco mais firme no rumo tomado. Loki a acompanhou com uma calma ligeiramente mais natural, e com a escuridão já querendo se anunciar, adentraram o estabelecimento.
Sentiram um odor rançoso que parecia misturar cerveja a vômito antes mesmo de pisarem no estabelecimento, e o deus da trapaça logo usou o poder da joia do infinito — o cetro ainda camuflado na forma de uma bengala — para discretamente dominar aqueles que Laura já havia indicado do lado de fora. Como o combinado, um deles foi coagido a conduzir a Pistoleira até a presença de Ramirez, enquanto o outro saiu de cena para que Loki pudesse ocupar sua forma e lugar. Somente no mesmo segundo em que o deus se transformou, a Pistoleira foi capaz de acreditar em mais aquela habilidade, comprovando-a perfeita.
“E ninguém me revistou...” — Laura percebeu, dando-se conta do seu erro tão básico. Algo que ela jamais cometeria se estivesse numa missão livre da intervenção dos próprios sentimentos — “Podia resolver essa merda em dois segundos se tivesse arranjado a porra de um revólver...”
O homem parrudo que indicava o caminho os levou até os fundos do bar, descendo cerca de dez degraus de uma madeira vagabunda que rangia ao menor peso imposto.
— Chefe... — O capanga abriu a porta isolada do resto do bar após duas batidas apressadas, todos os seus impulsos regidos pelos comandos da joia do infinito. Expondo parcialmente o interior do recinto aos olhos afoitos de Laura, que sentiu toda a extensão de seu corpo se arrepiar antes mesmo de conseguir ver quem tanto queria esquecer — Temos visita.
— De que caralho ‘cê ‘tá falando, Carlos? — O timbre que veio de dentro foi imediatamente reconhecido pela Pistoleira apesar de os anos tentarem modificá-lo. Sem se dar conta do que fazia, Laura segurou a ponta dos dedos de Loki antes de se recordar que ele não estava em sua forma física e do quanto pareceria suspeito a Ramirez presenciar aquela cena. Antes que o deus da trapaça pudesse esboçar qualquer reação a respeito daquele toque, Laura já o havia desfeito — Disse que não queria ninguém me enchendo a porra do saco até a próxima entrega.
— A vadia insistiu em te ver... — Deu espaço para mostrar Laura, que por mais tempo do que gostaria se focou nos traços familiares do homem. Sua pele morena, apesar de menos firme, ainda moldava um homem de proporções magras. Os olhos que ela tanto repudiou mantinham aceso o mesmo brilho idêntico que variava entre crueldade e escárnio. Algo mais profundo pareceu se iluminar nos orbes do traficante quando eles pousaram em Laura, e o sorriso que se abriu era uma réplica exata de tudo o que a menina mais temida na época de sua infância roubada — Eu ia ser a porra de um homem morto se deixasse passar uma gostosa dessa...
Ramirez, com os olhos ainda cravados na mulher, gargalhou, e Loki precisou refrear o impulso de calar aquele som desprezível com suas próprias mãos. Tentou relaxar os punhos cerrados, mas sabia que sua expressão talvez não se abrandasse com a mesma facilidade. Ao menos o traficante estava com toda a atenção voltada à humana, e não chegou a perceber a estranha reação do outro capanga que os acompanhava.
— Ciertamente... Eu não costumo dispensar as bocetas que se abrem de boa vontade ‘pra mim, querida. Nem as que eu mesmo preciso abrir... — Alargou ainda mais o sorriso, e uma náusea violenta se depositou no estômago da jovem mulher. Lidar com aquela presença seria muito mais difícil do que ela poderia imaginar. Ficou aterrorizada por cogitar não ser capaz de levar adiante suas pretensões — Vamos, entre. E me conte o que quer de mim, menina. Não me faça imaginar, eu sou criativo ‘pra caralho.
Laura pigarreou, tomando coragem ao embrenhar-se ainda mais na mal iluminada sala. Sentiu Loki bem atrás de si de uma forma quase afobada, e soube que aquilo não daria certo. Já era penoso concentrar-se em tudo que teria que fazer, e a situação apenas piorava por ficar imaginando se o deus seria capaz de manter seu disfarce. Reuniu o máximo de firmeza que sabia possuir antes de fitar os olhos que a devoravam sem ao menos dissimular sua cobiça.
— Tenho um assunto que pode ser do seu interesse...
— Eu aposto que sim! — Ramirez a interrompeu, encarando-a de cima a baixo com descaro, ampliando o sorriso já lascivo.
— Mas quero tratar desse assunto a sós. Só eu e você.
No mesmo instante em que verbalizou a frase, sentiu a tensão emanar de Loki, e soube que fizera a escolha certa. O deus certamente era capaz de dissimular tão bem quanto o possível naquelas circunstâncias adversas, mas a Pistoleira não podia deixar aquele encontro ser guiado pela dúvida. Aquele era o seu momento, e falhar não fazia parte de seus planos.
Ramirez soltou um novo riso exagerado, olhando com triunfo para os dois subordinados.
— A garota é tímida, e não é ‘pro bico de filhos da puta fodidos como vocês. Cai fora daqui, os dois.
Carlos, agora respondendo apenas aos comandos de Loki, permaneceu tão estático quanto o próprio deus da trapaça, embora apenas o jotun evidenciasse algum desgosto com o rumo que a situação tomara. A joia do infinito agora se camuflava sob a forma de um anel discreto, e Loki o rodeou sobre o dedo, tentado a usar seu poder uma segunda vez naquele dia.
— Não ouviu o que eu disse, Alejandro? Carlos? Não me façam repetir, porra! — O bom humor abandonou a expressão do traficante numa rapidez espantosa, seus traços agora perigosos não aceitando qualquer sinal de desobediência. Seus dedos tatearam a parte de trás do jeans surrado, pronto para sacar uma arma contra os próprios capangas.
Laura lançou um olhar sugestivo para Loki, o homem que Ramirez achava ser Alejandro. O deus retribuiu àquele olhar com uma fúria profunda, que não se camuflava atrás de nenhum outro sentimento falso. Um dos olhares mais honestos que o jotun já lhe lançara, e a Pistoleira pôde perceber claramente o brilho intenso que era tão comum aos seus olhos verdes — agora castanhos.
“Vai, Loki, se manda daqui, caralho... Eu consigo!”
Como se pudesse compreender aquele pensamento, Loki virou-se em direção à saída, dando o comando em silêncio para que o outro capanga sob seu domínio o seguisse, sabendo que não deveria pôr em risco seu disfarce por mais tentador que fosse.
“Humana tola! Acaba de descartar sua maior vantagem como se fosse dispensável. Se arrependerá disso.” — Concluiu com rancor, atingindo os níveis mais profundos de ódio ao perceber a preocupação rodear seu íntimo e aos poucos dominá-lo, como se aos poucos se tornasse uma criatura fraca em sintonia com aquele mundo que tanto aprendera a desprezar. Poderia usar o poder da joia do infinito contra Ramirez, ou até mesmo diretamente contra Laura, para reverter aquela situação estúpida a algo que lhe parecesse mais apropriado, mas sabia o quanto isso afetaria a vingança da Pistoleira, quase ao ponto de tirar-lhe o sabor.
Ao invés de agir na impulsão daquele instante, espreitaria tudo de fora. E quando se percebesse necessário, interviria, mostrando à Laura o tamanho de sua paspalhice por aquela decisão.
— E fecha a porta! — Ramirez ordenou antes que ficassem realmente sozinhos, mais uma vez conseguindo transparecer de um segundo a outro uma mudança abrupta de humor. Fitava-a da mesma forma de antes, como se nunca estivesse prestes a atirar nos próprios homens.
Laura fugiu daquele olhar, caminhando até uma mesa de sinuca disposta num canto abarrotado do recinto e fingindo distrair-se com ela. Rodeou o objeto, deixando que seus dedos deslizassem por sobre a madeira de modo casual. Precisaria de mais do que sua própria força para continuar lidando com aquilo.
— Sozinhos, como pediu, garota... — Anunciou, instigado — Vamos ver se esse assunto é mesmo do meu interesse como eu acho que pode ser.
— Não vai me oferecer uma bebida antes? — Forçou um sorriso sedutor, incapaz de dizer se obteve sucesso ou não. Por dentro, sentia-se ruir, e bastaria um único tropeço para que extravasasse todas as suas piores apreensões. Precisava de alguma distração enquanto levava adiante aquele teatro doloroso, e sem refletir muito segurou um dos tacos de sinuca, calmamente passando giz em toda a extensão do objeto, preparando-o para uma partida.
— Eu esperava que você tivesse interesse por outro tipo de taco e bolas... — Riu do próprio trocadilho sujo, levando para ambos um copo de seu aguardente mais vagabundo — Eu com certeza ‘tô de olho em outra caçapa... — Sorriu largamente enquanto lhe entregava a bebida e engolia um longo gole da sua, terminando-a.
A Pistoleira, sem nada dizer, começou a arrumar a mesa para uma partida, só então voltando a encará-lo.
— Se conseguir ganhar de mim na sinuca, pode fazer o que quiser comigo. Se eu ganhar, faço o que quiser com você. — Propôs numa tentativa de soar indiferente, dando um tom libertino à própria voz, esforçando-se para conter o nojo que a todo custo queria se revelar.
Ramirez sorriu, um vinco se formando entre suas sobrancelhas franzidas à medida que estudava a mulher bem mais nova, intrigado com suas atitudes.
— Eu posso fazer o que quiser, querida, na hora que quiser.
— Está com tanto medo assim de perder? — Inquiriu, percebendo um lampejo de interesse e curiosidade cruzar os olhos de seu estuprador.
Como resposta, Ramirez pousou o copo vazio na margem elevada da mesa, pegando para si um taco e revestindo o objeto com pó de giz da mesma forma que a mulher fizera há pouco. Quando terminou aquela breve preliminar, deu início à sinuca com a primeira jogada, espalhando todas as bolas em direções diferentes sobre a mesa.
— Por que está aqui, garota? Pelas drogas?
Laura fingiu estar concentrada no jogo, posicionando-se da forma que melhor beneficiaria sua investida. Percebeu o olhar de Ramirez mais absorto em si quando curvou o corpo sobre a mesa para mirar, e num golpe certeiro encaçapou sua primeira bola sem qualquer dificuldade. O homem a fitou com algum espanto pela jogada perfeita, ainda esperando por aquela resposta. Não havia mais nenhum sorriso em seu rosto.
— Não, Ramirez. Não vim pelas drogas... — Avisou num tom falsamente distraído, focando sua atenção na bola amarela, já conseguindo prever com perfeição a trajetória que faria. Bateu o taco contra a bola branca e esta levou o alvo a cair na pequena abertura almejada. Sorriu, sentindo-se pela primeira vez mais confiante — Vim porque há muito tempo queria fazer essa visita. Talvez você não me reconheça, mas nós somos velhos conhecidos.
Ergueu os olhos para perscrutá-lo, satisfeita em ver o incômodo preencher cada traço de seu rosto abominável. Laura continuou jogando, jamais errando as bolas que acertava, enquanto ele apenas olhava-a não mais com desejo, mas com ceticismo.
A Pistoleira continuou, simulando indiferença, sem dúvida a encenação mais difícil de sua vida. Mas, apesar de tudo, parecia estar no caminho certo.
— Você já estragou a vida de tantas mulheres que é uma pretensão do caralho achar que você se lembra de mim, mas foda-se, vale a tentativa. Afinal, acho que não dá pra esquecer tão fácil a pessoa responsável por te fazer ser deportado.
— É você, sua putinha... — Sussurrou, o ódio brilhando vívido em seus olhos. Pela primeira vez no dia Laura sorriu com sinceridade, fria e cruel.
— Bom, já vi que lembra. Como anda a vida nesse buraco imundo, seu babaca filho da puta?
— Devia ter metido mais forte ‘pra te ensinar que não se provoca alguém como eu, menina. Mas nunca é tarde. Aposto que você ainda lembra bem do meu pau aí dentro, né? Até hoje bato umazinha quando lembro de como ele te rasgou...
Laura, demonstrando uma tranquilidade que jamais sentiria naquela presença, encaçapou outra bola como se conversassem sobre algo trivial e quase tedioso demais para manter por muito tempo a atenção desperta.
— Esse falatório não me assusta mais há um bom tempo, Ramirez, pode guardar 'pra próxima. Você sempre foi cheio dos discursos, esse é o único meio de controle que você conhece. O jeito de um covarde...
— Ah, putinha... Foi um erro ter vindo aqui hoje... — Alertou, tirando o revólver preso em seu jeans e apontando para Laura com fúria. Destravou a arma num movimento já decidido, apenas a serenidade da mulher o intrigando e de alguma forma o freando.
— Já que quer me matar, pelo menos espere acabar minha vez, ou então vou achar que você é um mau perdedor. Sem falar que eu não costumo deixar um jogo pela metade, acho uma puta falta de educação... — A Pistoleira viu a surpresa duvidosa renascer no rosto do homem, que hesitou tempo o bastante para que ela pudesse tirar proveito da situação.
Lançou de súbito o taco sobre a bola branca num ângulo bem enviesado, esta imediatamente perdendo o contato com a mesa e descrevendo uma trajetória certeira no ar, batendo com violência na mão armada de Ramirez. O homem berrou ao sentir alguns de seus dedos partirem, incapazes de segurar o revólver.
Antes que o traficante pudesse tentar recuperar a arma caída ao seu lado, Laura esmurrou com força o taco sobre a mesa, aquele único golpe suficiente para parti-lo em dois e formar ponteiras afiadas em seus novos cumes.
Arfando, a Pistoleira encostou a arma improvisada no olho esquerdo do homem, que não ousou desferir nenhum novo movimento. A mulher foi caminhando ao redor da mesa até ele, sem tirar o taco da mira.
— Parece que ganhei o jogo. Hora do meu prêmio. — Deslizou a ponta afiada até a pélvis de Ramirez, e antes que ele exteriorizasse qualquer reflexo de defesa, Laura enfiou num movimento rápido e consciente a ponteira contra seu pênis, ouvindo o sangue pingar no chão por trás do grito agoniado de seu estuprador. Foi mais a fundo, girando e rasgando cada tecido que se colocava em seu caminho, o sangue escapando cada vez mais profuso pelo membro dilacerado — Quero ver você conseguir usar isso de novo... — Rugiu, as lágrimas agora correndo soltas por um rosto que não transparecia mais calma, mas o exato oposto. Nele se revelavam todas as suas tormentas mais antigas.
— Vadia... — Ramirez xingou num rugido enfraquecido, cuspe saindo de sua boca conforme se esforçava em respirar — Eu vou matar você. Mas antes vou te fazer assistir a morte da sua mãe. Aquela vaca vai morrer bem diante dos seus olhos de vagabunda, e a culpa é sua.
— Minha mãe já morreu, seu escroto! — Rugiu, dispensando ainda mais ímpeto naquela ferida, nutrindo-se dos gritos de dor daquele homem — Por sua culpa não sobrou mais nada da porra da minha família.
Apesar da agonia, Ramirez ainda conseguiu sorrir com um traço irritante de deboche. Havia espaço para a crueldade naquele gesto mesmo diante de toda a dor.
— Parece que alguém andou contando umas mentiras ‘pra você, Laurinha... — A satisfação em seu sorriso cresceu um pouco quando percebeu a mulher trincar os dentes num ódio profuso — Sua mãe ainda é minha vadia. É impressionante tudo o que ela aceita fazer por uma picada, mesmo depois de tanto tempo. E quando eu meto nela, é em você que eu penso. No tesão que eu sentia enquanto você gritava, chorava, implorava, tudo junto...
— Seu filho da puta... — Rangeu os dentes, incapaz de discernir se havia alguma chance de aquilo ser verdade, mas não chegando a se importar — Não vai conseguir ganhar tempo contando algumas mentiras fodidas. Você é um homem morto.
— Porra, menina, é só olhar! — Suas íris foram momentaneamente em direção a um ponto atrás de Laura, e por mais que a Pistoleira soubesse que ele tentava distraí-la num possível blefe, não conseguiu evitar acompanhar aquele olhar.
Sentiu o queixo cair quando vislumbrou uma mulher de meia idade — desgastada pelo tempo e mais ainda pelas drogas consumidas ao longo de vários anos — apoiada sobre o batente de uma porta que até então não percebera ali, apontando um revólver trêmulo em sua direção. Sua pele negra e sem vida era estranhamente desbotada, e seus orbes vagos ganharam algum significado apenas quando encararam o rosto de Laura. Viu a mão doentiamente magra hesitar e tremer sobre o gatilho, como se de alguma forma pudesse reconhecê-la mesmo com todos os anos que as separaram.
— Lembra aquele dia, putinha, quando sua mãe escolheu as drogas ao invés de você? — Ramirez a provocou, agora pouco se importando com o sangue que perdia, o suor profuso ou a dor insuportável. Se pudesse viver tempo suficiente para ver Laura ser destruída, já se consideraria um homem de sorte — Aposto com você que ela faz de novo!
— Laura? — A mulher perguntou com um timbre rouco e pouco nítido, a arma ainda a postos aguardando sua decisão.
— Mãe...? — A Pistoleira arfou, ainda duvidosa daquele inesperado reencontro. A vitalidade da mulher que a criara parecia quase próxima de seus raros momentos sóbrios.
— Sua filha, Cristina. — Ramirez confirmou, e Laura percebeu com uma pontada de tristeza a dúvida novamente nublar as intenções da mulher — Não cresceu muito, mas encorpou. Gostava bem mais do que via quando ela era aquela criança birrenta e reclamona do caralho, confesso, mas ainda é uma visão que vale a pena. O que me diz, Cristina? Se atirar nela agora, nunca mais regulo suas agulhas. Porra, deixo até você morrer de overdose se quiser.
Cristina Delgado revezou, entre a filha e o traficante, o mesmo olhar incerto de quando se viu diante daquele impasse pela primeira vez, anos atrás, e diante daquela repetição, a Pistoleira não teve mais qualquer dúvida de quem era a mulher mais velha.
Sua mãe, que parecia ainda incapaz de se decidir entre as drogas e a única filha viva.
— Rápido. Não tenho o dia todo aqui... — Tentou apressá-la, preocupado com o súbito interesse no rosto da mulher acabada — Se me deixar morrer aqui, sua vaca, nunca mais vai ver agulha nenhuma.
Aquela frase pareceu despertá-la com um impacto único. Sem escolha, Laura foi transportada ao barco de pesca que a traficou junto com tantas outras mulheres, sentindo-se a mesma criança desamparada e impotente que foi rejeitada pelo amor incondicional da mãe aos narcóticos. Já estava preparada para a repetição daquela escolha, quando Cristina refez a mira e, com uma consciência que não experimentava há anos, acertou a mandíbula do homem que ajudara a destruir sua vida.
Ramirez arregalou os olhos ao ser atingido, surpreso. Tentou falar, mas a metade direita de sua mandíbula fora estourada, e a esquerda pendia num ângulo anormal, deslocada pela força do impacto. Sua língua, também afetada pelo tiro, decaía de forma grotesca para além dos poucos dentes restantes, emitindo sons incongruentes enquanto morria.
Quando os gemidos de Ramirez para sempre se calaram, Laura e Cristina ainda permaneceram se encarando por algum tempo, ambas desacreditadas à sua própria maneira.
— Minha criança... Eu sinto muito... — Fitou-a com olhos chorosos, parecendo temerosa de se aproximar — Por tudo que te fiz passar...
— Me disseram... que você tinha morrido... — A Pistoleira confessou, só então largando o taco que desfigurara a genitália de seu estuprador e dando alguns passos incertos em direção à mãe.
— Achei o mesmo de você, Laura... — Chorou, não se aguentando em pé e caindo sentada sobre o chão num baque leve, evidenciando ainda mais a caquexia avançada de seu corpo doente — Você passou por muita coisa por culpa minha. É bom ver que conseguiu sobreviver com dignidade a tudo aquilo.
— Você ficou esse tempo todo com ele... Mesmo... mesmo depois de tudo... Mesmo depois do que aconteceu comigo e com Luisa? Ainda consegue se lembrar desse nome, ou 'tô pedindo demais?
Cristina escorou a cabeça sobre o batente, aquele raro fiapo de sobriedade capaz de desgastá-la com uma eficácia muito superior à droga mais pesada. Um choro compulsivo adiou a resposta às perguntas incomodamente pertinentes da filha, e o peso já doloroso de seus anos pareceu ganhar ainda mais significado e potência sobre seus ombros encurvados.
— Você e sua irmã sempre mereceram coisa melhor... Quantas vezes você foi a mãe e eu a filha? — Meneou a cabeça, não suportando o olhar profundo que a julgava de uma maneira justa, difícil demais de se encarar — Eu não sei por que me perdi tanto na vida, Laura, mas aconteceu. Foi fácil. Ramirez me deu um jeito de fugir da nossa realidade escrota, e quando vi, já 'tava dependente das mentiras doces. Não queria te dar a vida que você teve, mas sempre fui fraca, filha. Por pouco não escolhi Ramirez de novo... — Confessou baixinho, imediatamente parecendo arrepender-se das palavras proferidas — Me desculpa... — Olhou-a fundo nos olhos que eram tão parecidos com os seus, vendo dentro do brilho escuro todas as acusações de sua vida desgarrada, indigna até mesmo a uma drogada sem valor como ela.
Sob a vigilância daquele olhar que amava, apesar de tudo, tomou uma decisão que deveria ter sido feita há tempos. Que deveria ter sido tomada no mesmo instante em que percebeu o quanto arruinara aquela pequena menina, tão forte, tão diferente de si. Tão melhor, em vários aspectos.
O que se seguiu passou diante dos olhos da Pistoleira de forma muito mais rápida do que a realidade permitia. A Pistoleira sentia-se quase fora de seu corpo, tempo e espaço, dominada por aquela mesma impotência antiga que regeu cada fase de sua infância. Esse sentimento latente ganhou voz quando a mãe segurou o revólver com mais firmeza, apertando o gatilho assim que o cano da arma se alojou no céu de sua boca. Sem hesitar naquela decisão...
...Talvez a única certa de sua vida.
Com uma nova mancha rubra borrifando a pintura encardida da parede, Cristina Delgado abandonou de vez aquele mundo que tanto a maltratou em vida, deixando para trás apenas um corpo que há muito tempo já se considerava vazio.
“Hey lady, you lady
cursing at your life
you're a discontented mother
and a regimented wife
I have no doubt
you dream about the things you never do
but I wish someone had to talk to me like I wanna talk to you
I've been to Georgia and California and anywhere I could run
Took the hand of a preacher man
and we made love in the sun
But I ran out of places and friendly faces
Because I had to be free
I've been to paradise but I've never been to me...
Please lady please lady
don't just walk away
Cause I have this need to tell you
why I'm alone today
I can see so much of me
still living in your eyes
won't you share a part
of a weary heart that has lived a million lives
Oh, I've been to Nice and the isle of Greece
when I sipped champagne on a yacht
I moved like Harlo in Monte Carlo
and showed them what I've got
I've been undressed by kings
and I've seen some things that a woman ain't suppose to see
I've been to paradise but I've never been to me...
Hey, you know what paradise is?
It's a lie
a fantasy recreated about people and places
as we like them to be
but you know what truth is?
it's that little baby you're holding
and it's that man you fought with this morning
the same one you are gonna make love to tonight
that's truth that's love
sometimes I've been to crying for unborn children
that might have made me complete
but I, I took the sweet life
I never knew I'd be bitter from the sweet
I spent my life exploring
the subtle whoring
that cost too much to be free
hey lady I've been to paradise
but I've never been to me...
I've been to paradise but I've never been to me...”
(I've Never Been To Me — Charlene)
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