Origins
19 Vazio e expectativas
Charlotte Walsh
Fazenda Greene
Sentia os dias se arrastarem, não sabia quantos tinham se passado, pois já tinha parado de contar...
Eu estava definhando, vazia por dentro, chorando todos os dias as mesmas dores e me sentindo cada vez mais idiota por isso. As coisas pareciam estar mudando aos poucos, com Hershel nos aceitando e confiando muito mais em nós, pelo menos na maioria, quer dizer.
A ida dele a cidade há alguns dias, ou semanas, tinha feito com que Rick e Glenn fossem atrás dele, estreitando os laços dos três, quando foram atacados por um grupo hostil.
Não tinha me preocupado em descobrir muito da história, mas sabia que eles tinham salvado um garoto, Randall. Ele estava se recuperando, pois tinha ferido a perna... Não que eu me importasse.
Eu não me importava com mais nada. Nem com os dramas do acampamento, nem com os da casa grande. Como, por exemplo, o surto da Greene mais nova que tinha deixado todos preocupados.
Conforme os dias nasciam e morriam eu percebia que no fundo já estávamos todos mortos, mesmo que não soubéssemos disso. Mesmo que as coisas estivessem melhorando e o lugar tivesse se tornado um lar melhor que a pedreira, mesmo que o grupo estivesse tão imerso em suas novas tarefas que não percebesse a desgraça e o fim do mundo nos rodeando. Estávamos mortos, pois não vivíamos mais, apenas sobrevivíamos. E isso não era o bastante.
Eu não tinha mais esperanças, nem ilusões, eu não tinha mais nada. Me sentia vazia, sem vontade de nada. Na verdade, passava grande parte do dia dentro da barraca, a única coisa boa que tinha acontecido era que agora eu tinha a minha própria, e não tinha mais que dividir meu espaço com Shane. Ele mal falava comigo, era como se um abismo houvesse se aberto entre nós.
Pra ser honesta, era como se um abismo houvesse se aberto entre mim e todo o resto do acampamento. Eu não falava com praticamente ninguém. Eu estava cansada de pessoas, e elas pareciam muito atarefadas com seus próprios projetos de vida, pra gastarem seu tempo comigo.
A única com quem eu ainda falava, raramente, era com a Carol. Mas eu procurava me afastar, pois sabia que se ficasse distante ela e o Daryl se aproximariam e eu meio que sentia que devia isso a ele.
Nós não nos falamos mais, não trocamos olhares, nada. Na verdade, nas raras vezes em que nos encontrávamos pela fazenda ele dava meia volta.
E eu sabia que era culpa minha, eu o havia magoado, não tinha sido justo e nem certo, mas de algum modo eu ainda achava que foi o melhor. Aquela nossa coisa nunca daria em nada mesmo...
Mesmo tentando me convencer dessa ideia, eu ainda sentia que aquela insensatez de palavras ditas da forma errada me custara algumas feridas profundas. Cicatrizes em mim e, eu sabia, no Daryl também.
Não voltaríamos a ser o que éramos, não que eu quisesse voltar a ter as coisas daquele modo, não que eu quisesse voltar a aceitar migalhas... Mas sem as migalhas tudo que me restou foi o vazio e a angústia prolongada de quem não tem nada, e de quem se engana todos os dias pensando que ainda pode ser feliz.
E talvez eu merecesse, quer dizer, com certeza eu merecia. Eu tinha usado as palavras como uma arma e naquele momento estava pagando o preço. Daryl não merecia nada daquilo, mas eu sim.
— Charlotte, você está aí? — Ouvi a voz de Lori do lado de fora e revirei os olhos.
Conforme os dias iam passando a minha raiva por ela só crescia, era quase ódio naquele ponto, comigo atribuindo a ela toda a culpa, por todas as coisas ruins que aconteciam na minha vida. Mesmo que ela não fosse a culpada de fato, na minha cabeça ela era sim.
— Anda menina, você não pode dormir o dia inteiro. Você tem que ajudar um pouco. Não faz nada. — Ela continuou resmungando e eu coloquei a cabeça pra fora.
— O que você quer? — Perguntei de mau-humor.
— Que você faça alguma coisa pra ajudar o grupo, pra começar? — Disse superior. — Eu não vejo você colaborando com nada. A Andrea pelo menos ajuda a manter o lugar seguro, mesmo que tenhamos homens suficientes pra fazer isso, e eu e a Carol ficamos com todo o serviço, arrumar, cozinhar, lavar roupa... Eu estou indo fazer o almoço lá na casa, e ajudar a cuidar da Beth. Você sabia que ela está doente? Não, Claro que não sabia. Você só se importa com você mesma. — Revirei os olhos com a ironia do que ela estava dizendo, mas não respondi. — Você não é mais uma criança, Charlotte, devia ajudar um pouco, podia começar cuidando das coisas do seu irmão...
— Ou você pode cuidar. — Devolvi na lata. — Afinal, não foi você quem pediu pra ele ficar? — Cruzei os braços e apoiei o peso em uma perna. — Estaríamos bem longe daqui se não fosse por você. Mas claro que a rainha Lori precisa do cuidado de todos os homens possíveis. Todo mundo pajeando e defendendo a bonita. Não pode fazer nada sozinha... E então teve que manter meu irmão por perto, mesmo sabendo que isso o faz sofrer, mesmo sabendo que ele e o Rick podiam entrar em uma guerra por causa disso. Você se acha tão superior que fica abrindo as pernas por aí, e nem tem ideia de quem é essa criança, que você ostenta na barriga. — Fui cruel, dizendo coisas que já estavam entaladas na minha garganta há algum tempo. Se era justo ou certo, não me importava no momento...
— Olha aqui garota, não pense que você pode me faltar com o respeito não. Tenha um pouco mais de educação. Eu amo o meu marido e o respeito muito. Eu só não queria que o seu irmão e você ficassem jogados por aí na estrada, vocês podiam estar mortos agora. Você não tem o direito de me julgar desse jeito, sabe muito bem que eu cometi um erro com o Shane quando pensei que o meu marido estava morto. Não fale do que a sua cabecinha de criança não entende. — Lori devolveu erguendo um pouco o tom de voz.
— Talvez você esteja certa, talvez a minha mente de criança não entenda muita coisa mesmo. Tipo, eu realmente não entendo essa sua necessidade de precisar de um homem pra fazer as coisas pra você. Igual quando você foi procurar o Daryl, pra ir atrás do seu marido na cidade, lembra? Ele disse não e você foi sozinha e acabou batendo o carro... Se ele tivesse aceitado ser o seu cachorrinho, tipo o meu irmão, você teria aberto as pernas pra ele também? — Fui cínica e segundos depois senti a mão dela na minha cara, o tapa seco e estralado, mas sem muita força.
Lori estava realmente ofendida, os olhos faiscando de raiva quando ela me mandou calar a boca. Eu ri, colocando a mão no rosto e revirando os olhos.
— A verdade dói, não é? Você tem sorte de estar carregando esse bebê, ou eu te mostraria o que é um tapa de verdade. — Falei tombando a cabeça. — Não somos amigas, você não é minha mãe. Fica longe de mim. — Virei às costas e a deixei falando sozinha.
Não vou mentir, foi satisfatório sim, mas no fundo eu me arrependi depois... Lori era insuportável, mas talvez ela só estivesse tentando sobreviver como o restante de nós.
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Acabei descobrindo que Rick e Shane tinham ido levar o tal Randall embora. O que me mostrava que os dias tinham passado mais rápido do que eu pensei, afinal a perna dele já devia estar boa para resolverem mandá-lo ir.
Caminhei um pouco pela fazenda e percebi que me sentia mais deslocada a cada dia que passava. E por um lado eu sabia que Lori estava certa, eu não estava ajudando em praticamente nada, eu não fazia um único esforço para me encaixar e para colaborar. Eu me sentia uma estranha no próprio corpo e isso era um saco.
Acabei encontrando Carol ajudando Patrícia com algumas galinhas. Apenas acenei e me afastei, eu não estava no pique de conversar. Mas ela deixou o que estava fazendo e veio atrás de mim assim que me viu.
— Oi. — Cumprimentou andando ao meu lado. — Você anda sumida, nem parece que vivemos na mesma fazenda. — Ela comentou como se não fosse nada.
— Eu estou bem. — Respondi dando de ombros e então me toquei que ela não tinha perguntado nada que pedisse por essa resposta. — Quer dizer, a gente só está se desencontrando, ou sei lá.
— Eu não tenho visto você nas horas das refeições. Você tem se alimentado direito? Está tão mais magra. — Continuou e eu vi que ela estava preocupada.
— Acho que isso é bom, não é, eu precisava mesmo perder uns quilinhos extras. — Tentei soar divertida.
Carol me encarou por um segundo, compassiva, como se soubesse que tudo sobre mim era uma grande mentira.
— Daryl está mais calmo, devia tentar falar com ele. — Ela comentou, depois de alguns segundos em silêncio.
Eu havia contado para ela sobre nossa "conversa" e Carol ainda achava que podíamos nos resolver. Ela era o tipo de pessoa que ainda tinha esperanças, mesmo depois de ter sofrido uma perda como a que sofrera.
Eu apenas neguei com um sorriso triste, sabendo que falar com o Daryl não adiantaria, e talvez só piorasse tudo. Ou eu podia apenas estar com medo de remexer aquela ferida.
— Eu tenho que ir. — Menti. Estava começando a me sentir sufocada por algo invisível.
Deixei-a para trás, percebendo o quanto tínhamos mudado desde que nos conhecemos, Carol ficava mais forte a cada dia, mesmo depois de toda a tragédia que a cercava, e eu ficava mais fraca, mesmo tendo perdido tão pouco.
Talvez Shane, Lori e Daryl estivessem certos, eu era só uma adolescente mimada. Alguém que provavelmente não sabia viver nesse mundo...
Encontrei um dos carros estacionados próximo a casa e entrei, me sentando no banco do motorista e encarando o nada por um instante. Eu devia apenas ligar o motor e ir embora, a ideia ainda parecia sedutora, mesmo sendo apavorante ao mesmo tempo. Eu tinha medo de ficar sozinha, mas estava sozinha ali também.
Estava cansada de me sentir culpada por cada um dos meus atos e pensamentos, cansada de me sentir errada por cada palavra e ação. Tirei a arma da cintura e a coloquei no banco, armas não eram mais proibidas, mais uma prova da confiança de Hershel.
Girei a chave e o motor roncou. Sem pensar muito pisei no acelerador, eu me sentia sufocada ali, presa em mim mesma. Talvez eu pudesse pensar melhor em ou local neutro e, se não resolvesse, eu podia apenas partir de lá mesmo. Ir embora sem olhar pra trás...
Me assustava o quanto isso parecia impensado, egoísta e imaturo. Era errado e eu sabia. Mas era o meu erro, minha decisão. E eu queria me sentir no controle da minha vida pelo menos uma só vez. Avistei o portão da fazenda, e meu coração congelou por um momento. Não pela passagem fechada, mas sim, por quem estava tão perto dela.
Daryl Dixon.
Se eu quisesse sair eu teria que passar por ele, bem perto, já que teria que descer do carro e abrir o portão. Praguejei internamente, mas não desisti.
Parei o carro e desci, evitando olhar pra ele, mas percebendo o olhar de mar em fúria perfurar minha carne. Abri o portão sentindo que minhas pernas falhariam a qualquer momento.
Voltei para o carro e meu corpo todo tremia. Daryl deu dois passos para frente, mas se deteve ali, olhando para o outro lado. Quando acelerei o carro e passei por ele, percebi que seus punhos estavam cerrados tão forte que os nós dos dedos estavam brancos.
Parei o carro novamente e desci para fechar o portão. Daquela vez Daryl não desviou os olhos, me encarando por entre as ripas de madeira e dando mais um passo em minha direção como se fosse dizer algo.
Engoli em seco, e mordendo o interior da bochecha com força pra me manter calada, no fundo eu queria dizer alguma coisa, ou talvez só quisesse que ele dissesse alguma coisa.
Qualquer coisa me fizesse sentir que o me lugar era ali...
E por outro lado eu não queria que ele dissesse nada, porque eu não queria viver das migalhas dele de novo, eu o queria por inteiro, com tudo o que vinha compreendido dentro da palavra "querer". E eu sabia que ele não podia atender a esse meu desejo. Não era culpa dele, era minha, eu tinha criado muitas expectativas. E ele sempre deixou claro que não poderia correspondê-las.
Daryl tentou fazer o melhor por mim e eu parti o coração dele como se não me importasse, mas a verdade era que eu me importava demais e estava cansada de me importar. Estava cansada de machucar pra não sair machucada.
Eu encarei os olhos azuis pelo portão e respirei fundo, dando meia volta e entrando no carro.
Aos poucos fui vendo a fazenda sumir pelo retrovisor e uma estranha excitação tomou conta de mim. Eu sorria como uma idiota, respirando fora de ritmo e segurando o volante com força pra conter a intensa tremedeira que me assolava.
Eu não estava mais sufocada, não estava mais me sentindo presa. Eu não sabia o que eu estava sentindo, mas eu estava sentindo alguma coisa. E era algo poderoso e contagiante. Era muito melhor do que não sentir nada.
Se aquilo era liberdade, era muito melhor do que eu esperava...
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