Origins
26 Uma promessa marcada na pele
Notas iniciais
Charlotte Walsh
Muito Tempo Depois
Arredores de Atlanta
Tinha acabado de amanhecer, estávamos em um bairro adjacente de Atlanta, fazendo o de sempre, ou seja, vários nadas.
Andar pelas ruas de bairros como aqueles, tão perto da cidade, era sempre arriscado. Atlanta era o local com mais podres em todo o estado. Sim, já tínhamos caminhado por praticamente o estado todo, por isso sabíamos.
A quantidade daquelas coisas fedidas era o motivo de nos mantermos por perto. Quando mais podres um lugar tinha, menos sobreviventes corríamos o risco de encontrar. Sabíamos como lidar com os mortos, mas os vivos eram sempre um problema. Descobrimos da pior forma possível.
Devia fazer quase um ano... Os piores dias das nossas vidas, pagamos um preço alto demais por confiar. Uma marca que carregávamos guardada no corpo e na alma. Uma dor que decidimos nunca mais sofrer.
Eu ainda lembrava com perfeição, de como fomos recebidos, dos sorrisos e da boa vontade. Mas então, na primeira oportunidade, fomos enganados.
Era como se eu ainda sentisse as mãos imundas me segurando, três pares delas, Ethan e Alex no chão, rendidos por mais homens do que seriam capazes de abater.
Eles não queriam só as nossas armas e suprimentos, eles queriam tudo que tínhamos, eles queriam a nossa dignidade. E de mim queriam algo que eu nunca cedera a ninguém.
Ser mulher era um desafio e um risco naquele mundo, mas isso nada tinha a ver com a falta de uma necessidade masculina, porque tinham mulheres lá. Elas também seguravam armas elas também queriam ver aquilo...
Naquele dia, eu descobri que estupro nada tinha a ver com sexo, tinha a ver com o que uma pessoa achava que podia ou não tirar da outra. E de mim, eles e elas, queriam tirar tudo.
Mas eu morreria antes de ceder. E vi nos olhos de Alex e Ethan que morreríamos todos então. Não sei de onde veio a força, não sei onde enxergarmos a possibilidade.
Aquela noite, lutamos como tigres.
Aquela noite eu matei a primeira pessoa, e a segunda, e a terceira, e quantas delas eu pude, mesmo as que não me apresentavam mais perigo. Aquela noite, passamos de vítimas, para juízes, júri e carrasco.
Mas foi também naquela noite, que eu percebi que ganhar uma batalha, nem sempre significa vencer. E eu teria perdido mil batalhas apenas para não perder o que eu perdi... quem eu perdi.
Alex ficou na mira, mas nunca recebeu o tiro, Ethan não permitiria que ele caísse, porque ele amava Alex demais para viver em um mundo sem ele...
Quando aquela noite acabou, fomos embora deixando um rastro de destruição pra trás, cobertos com tanto sangue, que não sabíamos se era nosso ou dos nossos inimigos.
Carregamos Ethan para o primeiro lugar que encontramos, um estúdio de tatuagem fuleiro, em uma rua sem saída.
Foi uma longa, angustiante e triste despedida. A bala tinha atingido um órgão vital e Ethan não resistiu. Quando ele retornou eu tive que fazê-lo descansar. Eu não podia deixar que Alex vivesse com aquilo. Era o mínimo que eu podia fazer.
Foi um enterro simples e silencioso. Porque a dor era assim mesmo, ela nos matava pouco a pouco silenciosamente...
Mas havíamos prometido a Ethan nunca desistir. Havíamos prometido nos impor como leões, lutar como tigres e sermos espertos como raposas.
Alex fez questão de gravar essas promessas em nossas peles, usando a máquina de tatuagem do estúdio, ele escreveu em nossos braços "Promise". O termo em inglês para: "Prometo".
Não que ele precisasse de uma tatuagem para lembrar da promessa feita pra alguém que ele amava. Talvez a pessoa que ele mais tinha amado na vida.
Foi naquele dia também, que estabelecemos a nossa regra número um: ficar longe de outros sobreviventes.
Evitávamos os que conseguíamos e quando encontrávamos alguns, tentávamos só seguir o nosso caminho, mas se eles ficassem nesse nosso caminho... Bom, aquele seria o último dia deles como sobreviventes.
E assim fomos levando, superamos a perda, sobrevivemos e percebemos que isso só não bastava, nunca bastou, precisávamos viver.
Precisávamos roubar carros de luxo nas concessionárias. Passar um dia todo vestidos como ricaços. Invadir lugares chiques, e os piores muquifos também, apenas pra ficar contando piadas ruins sobre os antigos moradores.
Nosso humor era duvidoso, mas aprendemos a nos divertir com as coisas mórbidas do novo mundo. Aprendemos a viver um dia de cada vez, como se ele fosse o primeiro e o último. Afinal o mundo era nosso, só não sabíamos até quando...
Tomamos todos os porres que pudemos, matamos todos os podres que encontramos, pegamos tudo que queríamos.
Ethan e Alex haviam me ensinado mais coisas do que eu podia contar, e Alex continuou me ensinando, até que eu soubesse tanto quanto ele e então começamos a aprender coisas juntos.
Não era uma vida tão ruim assim. Eu havia aprendido a viver o presente, não me preocupar tanto. Mas ao mesmo tempo estava sempre alerta, nunca mais fomos pegos desprevenidos. Protegíamos um ao outro, porque não estávamos dispostos a perder mais nada e se tivéssemos que cair, então cairíamos juntos.
— Um chocolate pelos seus pensamentos, Charmy.
Alex caminhava de ré, olhando pra mim, algo que ele fazia muito, na verdade. Ele sabia que eu nunca deixaria nada atacá-lo por trás, esse era o tipo de confiança que a gente compartilhava.
— Se você tivesse um chocolate, eu te contaria até os meus maiores segredos. — Devolvi superior.
— Os seus maiores segredos eu já sei, não te daria um chocolate só pra você repetir. — Ele abriu os braços bancando o sabe-tudo e rindo.
— Temos companhia — Apontei com a cabeça alguns podres virando a rua.
Era com grupo médio, talvez pequeno pelo tanto deles já tínhamos visto juntos. Muito lentos pelo estado avançado da decomposição.
— Aposto que pego mais deles que você. Charmy.
— O que você tem pra apostar exatamente, Lex? — Pesei o desafio dele.
— Por enquanto nada, mas a próxima coisa gostosa que acharmos eu te dou, ao invés de comer sozinho. — Riu, mostrando os dentes muito brancos e perfeitamente alinhados.
Eu ergui uma sobrancelha. O grupinho já estava a menos de dez metros de nós.
— Feito.
Ele soltou a mochila que carregava e pegou o machado que mantinha sempre preso no cinto. Era um daqueles machados vermelhos, deixados dentro dos vidros "quebre em caso de incêndio". Ethan tinha achado pra ele, e eu entendia o motivo de Alex nunca largá-lo.
Eu peguei meu facão, carregava dois comigo, lâmina de dez polegadas. Era um bom tamanho, pois não me atrapalhava caminhar, e ainda sim, ela longo o suficiente pra eu não ter que chegar tão perto.
Soltei o facão contra a cabeça do primeiro. Não importava o quão podre o crânio estivesse, a lâmina sempre ficava presa lá, então eu ajudava chutando aquela coisa pra longe.
Se antes, enfrentar um ou dois podres dava receio e era uma tarefa complicada, naquele momento apenas hordas realmente grandes seriam um problema. Os mortos não davam mais medo. Acho que o tempo era mesmo capaz de nos fazer acostumar com qualquer coisa.
Alex e seu machado estavam fazendo um belo estrago, e eu resolvi dificultar um pouco pegando o outro facão. Aquilo era uma competição afinal, a intenção era vencer.
Quando acabamos, vários corpos estavam no chão, e havia sangue e massa encefálica por todo lado. Eu ri, passando as costas da mão pelo rosto achando que aquilo ia limpar alguma coisa, mas na verdade só piorou.
— E aí, quantos? — Perguntei.
— Oito. — Alex sorriu de volta caminhando até a mochila.
— Dez. — Informei triunfante.
— Saco! — Ele caminhou pra mim, molhando um lenço com uma garrafa de água e passando no meu rosto. — Então o que vamos fazer agora?
Pensei por um momento, pegando a garrafa de Alex e tomando um longo gole. Eu estava cansada de Atlanta, honestamente, eu ainda não sabia porquê continuávamos ali.
— Acho que devíamos dar o fora daqui... Sei lá, sair do estado... Umas férias na praia seria legal. — Dei de ombros.
— Nunca achei que queria sair daqui...
— Eu não tinha pensado nisso, até agora. Mas o que nos prende aqui? Nada.
Alex me olhou estranho por um instante, como se eu estivesse deixando um detalhe importante de lado. Contudo acabou assentindo minimamente.
— Claro, tem razão... O que nos prenderia aqui... — Ele usou um tom sarcástico e eu não entendi. — Pode me emprestar a sua faca? — Perguntou mudando totalmente de assunto. Estendi o facão pra ele. — Essa não a pequena que você mantém sempre escondida na bota.
Tirei a pequena faca de caça com o cabo de madeira da bota e lhe entreguei, ainda não entendendo o que ele queria com ela.
— Tem certeza que nada te prende aqui? — Alex perguntou sério, me mostrando o cabo com as inicias D.D gravadas.
— Ah qual é? — Eu joguei as mãos para o alto e dei alguns passos pra trás. — Faz o quê, dois anos? Três? Isso é passado.
— É passado, mas você ainda carrega a faca.
Passamos a caminhar juntos novamente, com Alex voltando a andar de costas e me encarar vitorioso.
— Claro que carrego, é uma arma. Não podemos nos dar ao luxo de nós desfazer de armas. — Respondi prática. — Eu ainda carrego a minha automática também.
— E ela te lembra alguém que você ama, assim como a faca. Qual é, Charmy? Sou eu, você não consegue mentir pra mim. Essa história sua com o seu namorado caçador, teve um final tão em aberto, quanto final de temporada de Supernatural. Vocês nem transaram, isso é frustrante.
Eu ri alto, realmente divertida com o comentário dele.
— Isso não é uma série, Lex. As coisas acabaram como acabaram. Não era pra ser. Eu não vou passar o resto da minha vida presa à lembrança de alguém que pode nem estar vivo. E ele não era meu namorado.
— Típico comentário de amor inacabado. — Debochou. — Mas quer ir pra praia, vamos pra praia.
Me devolveu a faca e passamos a falar dos preparativos. Precisávamos de suprimentos e de um carro. Conseguir isso em um lugar que já conhecíamos era mais fácil.
O resto da manhã, gastamos nessa missão, tivemos que nos aproximar um pouco mais de Atlanta pra isso. Já tínhamos um mapa mental daquela região, por isso não foi difícil encontrar os suprimentos. Nada de realmente animador, mas era mais que o suficiente.
Atlanta era um lugar onde tínhamos que saber procurar, principalmente porque tinha um grupo alojado no hospital perto do centro. Não sabíamos se eram pacíficos ou não, e isso nem importava, apenas mantínhamos distância. Nada de encontro com sobreviventes. Mas sabíamos que estavam lá, o aglomerado de podres por perto do hospital provava isso.
Era engraçado que, muitas vezes, os mortos acabavam ajudando mais que os vivos.
O carro também não foi complicado de encontrar, mas a gasolina seria um problema. Postos não eram de utilidade nenhuma. Garimpamos alguns carros na rua, mas ainda não era o suficiente.
Lembramos de um centro automotivo algumas ruas acima, seria um tiro no escuro, mas era melhor que nada. Deixamos o carro escondido, com os suprimentos e todo o resto e fomos até lá caminhando.
O local era todo fechado com portas de aço enroláveis, mas uma delas estava aberta na saída de emergência.
Entramos por ali, parando um momento para que nossos olhos se acostumassem com a escuridão lá dentro. A pouca luz que iluminava o ambiente vinha do local por onde tínhamos passado. Alex acendeu uma lanterna e começamos a vascular o ambiente, que aparentemente já fora revirado.
— Não vamos encontrar nada aqui. — Ele resmungou, chutando uma chave de fenda no chão e entrando atrás de um balcão.
Ali atrás, a oficina virava um tipo de loja, com várias estantes e prateleiras, todas praticamente vazias.
Vasculhei por ali, enquanto ele olhava no balcão. De repente um som do lado de fora chamou nossa atenção. Um carro tinha acabado de parar bem ali na frente.
— Saco! — Alex desligou a lanterna e caminhou abaixado até onde eu estava.
Ouvimos algumas vozes. Não dava pra saber quantas pessoas eram, porque falavam muito baixo.
Encarei Alex no escuro quando bateram nas portas, como se estivem esperando algo. Eles iam entrar e nós não tínhamos como sair. Ou seja, teríamos que lutar.
Respirei fundo e preparei os dois facões. Alex preparou o machado. Munição fazia muita falta naquelas horas.
Ele mostrou o braço da tatuagem pra mim e eu mostrei o meu pra ele. Entendíamos bem esse sinal. Era hora de lutarmos como tigres...
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