Origins

27 Coisas que o tempo fez


Michonne
Atlanta

A tarde estava no fim, aquele momento entre o pôr do sol e o anoitecer de fato, e talvez isso contribuísse ainda mais para o clima doloroso que se infiltrara entre nós.

Havia uma parte boa e uma terrivelmente ruim em termos um padre no grupo. A boa era que, pela primeira vez, tínhamos um enterro digno, para alguém que, com certeza, merecia aquele tipo de homenagem. E a ruim era que aquilo parecia tornar tudo ainda mais triste.

Porque de tudo que havíamos perdido nas últimas semanas, a morte de Beth havia derrubado e atingido todos nós. Talvez porque ela fosse a única do grupo que ainda mantinha uma ponta de inocência.

E a forma como tinha morrido era de fato muito trágica. Ver o corpo dela sair de dentro daquele hospital, nos braços de Daryl, destruiu o pouco que ainda restava de nós.

Maggie estava devastada. Talvez pela forma como acontecera, afinal ela tinha se conformado que Beth sumira, mas havia esperanças que ela estivesse viva. E depois quando ela voltou para nos encontrar naquela igreja, a esperança cresceu ainda mais, apenas pra que a realidade a atingisse como um tiro, quando o corpo da irmã surgiu carregado.

Conseguimos uma van, e resolvemos passar a noite em um lugar que nos pareceu seguro.

Rick parecia uma fortaleza naquele momento, de pé, dando ordens, se negando a desistir, zelando pela segurança de todos, até pela dos novatos Noah, Abraham, Rosita, Eugene, Tara e, é claro, o padre Gabriel.

Ele não desistia, seguia em frente mesmo e apesar de tudo, e talvez essa fosse a coisa que eu mais admirasse nele...

Aquela família me trouxera de volta, porque sim, eu havia desistido. Aprendi muito com eles, e tinha aprendido a amá-los como amaria meu próprio sangue. Os seguiria até o inferno, se fosse preciso.

Carl estava sentado no chão com a irmã, os olhos perdidos em um ponto qualquer. Ele não parecia triste, só inerte, mergulhado nos próprios pensamentos. Comecei a caminhar até ele, mas Rick me chamou e eu dei meia volta.

Ele queria levar Noah pra casa, uma comunidade na Virginia com cerca de vinte pessoas, muros e alguma segurança. Ele queria fazer pelo garoto, por Beth, e eu sabia, por nós também. Rick era o tipo de homem que almejava segurança para todos; a estabilidade de um lar. Algo que tínhamos na prisão, mas que nos foi arrancado de maneira brusca.

— O que você decidir, eu estou com você. — Declarei firme e ele sorriu de leve. Um sorriso muito característico de Rick Grimes, algo que irradiava meu peito por dentro, como se fizesse a vida correr pelas minhas veias de novo.

— Precisaremos de alguns suprimentos, outro carro e gasolina. Mas nem todos estão bem pra sair em rondas. E a cidade é muito arriscada. — Os olhos dele seguiram para Daryl sentado no chão, uma flecha entre os dedos, afundado em uma tristeza que só de olhar dava angústia.

— Acha que ele vai ficar bem? — Perguntei baixo, para que só Rick ouvisse.

— Ele precisa de tempo para o luto. Ele se sentia responsável pela Beth, disse que foi culpa dele ela ter se perdido, então acredito que agora se culpe pela morte dela também.

— Acha que é só isso? — Insinuei.

— E o que mais seria? — Rick perguntou, franzindo as sobrancelhas.

O encarei mais incisiva, para que ele percebesse o tipo de insinuação que eu tinha feito. Rick era o tipo de homem um tanto lerdo para esse tipo de coisa, o que o tornava consideravelmente mais atraente.

— Ah isso... — Ele finalmente se tocou. — Não.

Tentei entender aquele "Não" tão categórico dele, afinal não era tão impossível assim que Daryl e Beth tivessem se conectado de outra forma no tempo em que passaram juntos sozinhos.

— Você veria as coisas de outra forma se estivesse com a gente desde o começo...

Não terminamos a conversa, com o restante do grupo se aproximando e Rick passando as instruções de como prosseguiríamos ao amanhecer.

Ele achou melhor não nos separarmos demais, Glenn conhecia Atlanta, mas Maggie precisava dele. Eu me voluntariei pra ir. Abraham, Sasha e Rosita queriam ir também. Mas no fim, Rick não quis fragmentar o grupo, só eu e ele iríamos. Acharíamos o necessário e voltaríamos antes de escurecer.

— Eu vou com vocês. — Daryl declarou parado, segurando a alça da crossbow no ombro.

Olhando com atenção pra ele, era como se carregasse o mundo todo nas costas. Estava abatido e com olheiras fundas. Dizer que ele estava "acabado" era pegar bem leve.

— Prefiro que fique. Carol ainda não está cem por cento. Temos o pessoal novo e eu preciso de alguém de confiança por aqui. — Rick tocou o ombro dele de leve.

Claro que não era o motivo, afinal tínhamos Shasa, Tyresse, Glenn, Maggie e os novatos já haviam se provado de confiança. Mas Daryl não tinha condições de ir, e Rick sabia. Ele precisava de um tempo e não tínhamos porque sobrecarregá-lo naquele momento.

Com tudo resolvido, partiríamos pela manhã...

O dia amanheceu e nada havia mudado. Maggie tinha finalmente dormido, depois de tanto chorar, e Daryl estava parado no mesmo canto de antes, a mão na boca, roendo o polegar direito.

Carol estava acordada, parecia melhor. Rick trocou algumas palavras com ela. De todos ali ela parecia a mais forte, mesmo que fosse a mais debilitada no momento.

Partimos a pé. Parando onde podíamos e recolhendo tudo que encontrávamos. Era pouco, quase nada. Andamos pela cidade o dia todo, mas tudo por ali parecia revirado. Fora os malditos errantes que saiam de toda a parte como baratas.

Cada vez que nos encontrávamos com uma hora perdíamos tempo, a tarde foi chegando e nosso dia não havia rendido nada.

— Precisamos encontrar um carro e gasolina. Pegamos mais suprimentos na estrada. Não tem outro jeito. — Rick falou, limpando o rosto que estava sujo de sangue, pelo tanto de errantes que já havíamos matado.

Achar o veículo não foi um grande desafio, o duro seria encontrar combustível pra ele e pra van. A viagem era muito longa e não chegaríamos a Virginia nunca, se tivéssemos que fazer o trajeto a pé.

Nos afastamos um pouco do centro, percorrendo alguns bairros adjacentes e recolhendo combustível dos carros que encontrávamos.

— Olha. — Apontei o grande outdoor que anunciava um centro automotivo completo.

— Pode ser uma boa. — Rick respondeu, seguindo para aquela direção.

O lugar era realmente grande, havia um galpão fechado com portas típicas de comércio, mas tinha uma pequena entrada de emergência já aberta. Rick e eu nos encaramos e assentimos. Eu dei algumas batidas na porta e esperei por errantes. Nada. Rick entrou na frente. Arma em punho.

O local parecia vazio. Totalmente escuro. Os vidros que deviam deixar a luz passar cobertos com um maldito insulfilm tão negro, que tornava aquelas janelas, acima da porta, inúteis.

Achei uma lanterna e a liguei. Nos separamos entre as prateleiras que estavam atrás de um grande balcão. Não havia muito lá.

— Coloque as armas no chão, colega! — Uma voz masculina mandou.

Apontei a lanterna e um homem segurava uma pistola em nossa direção.

Rick manteve o rifle erguido o cara na mira dele, se encararam por um momento no escuro. Nada mais que a claridade da porta e a minha lanterna iluminando o lugar. Mal podíamos ver a face do homem. Mas pelo tom de voz que ele usou, não parecia estar com medo.

O barulho do rifle sendo engatilhado ecoou e talvez isso tenha alertado o homem, pois ele saiu da frente no mesmo momento em que Rick disparou.

Eu fui por um lado e ele por outro. A última coisa que precisávamos era mais confrontos com sobreviventes.

De repente todas as prateleiras começaram a cair, como um efeito dominó. Ficou claro que seja quem fosse não estava sozinho...

O impacto me jogou no chão, a lanterna para um lado e a arma pro outro. Uma bota claramente feminina apareceu no meu campo de visão e chutou a arma pra longe.

Eu podia ouvir o barulho da briga acontecendo do outro lado das prateleiras. Rick devia ter perdido a arma também, porque eles pareciam estar em um combate corpo a corpo. Claridade ajudaria muito naquele momento.

Chutei a garota e parti pra cima dela. Ela desviou de mim rolando pro lado, pouco antes de um chute meu atingi-la. Em um movimento rápido ela me derrubou também.

Estávamos no chão, uma sobre a outra, eu tinha que pegar a minha katana e acabar com aquilo. Senti o punho dela atingir meu rosto e prometi, pra mim mesma, que arrancaria a pele daquela vadia com as minhas próprias mãos.

Rolamos de novo, eu estava por cima. A luta se tornando muito mais complicada pelo tanto que eu estava preocupada com Rick, mas em compensação, ela parecia muito preocupada com o companheiro dela também.

Tive tempo de ver o rosto dela pela claridade da lanterna que rolava no chão. Era uma garota nova, mas tinha uma expressão selvagem no rosto. E eu soube com toda a certeza que ela me mataria se pudesse.

Alcancei a katana e desci a lâmina de uma vez só. Ela segurou com as duas mãos, o sangue que escorria de suas palmas pingando no seu rosto. A luta do outro lado das prateleiras pareceu se intensificar. Eu perdi o foco por um minuto e ela, de algum modo, se esquivou de mim. Me acertou um chute certeiro na barriga e eu caí, entre algumas prateleiras no chão. A kanata ficando pra trás.

Ela derrubou mais coisas sobre mim, pegou a espada e saiu em direção onde os dois estavam. Aparentemente ela podia lidar comigo depois, o cara era mais importante.

E isso deixava Rick em desvantagem. Tentei me soltar e percebi que minha perna estava presa. Levou dois minutos antes que eu saísse cambaleando e alcançasse minha arma no chão.

Corri na direção da luta e atirei nos vidros escuros acima da porta, isso clareou todo o lugar instantaneamente.

Finalmente passei as prateleiras. O homem desconhecido estava no chão, o braço sangrando e o rosto provando que Rick tinha acertado uns belos socos dele.

Ergui minha arma para a garota, que tinha minha espada bem no pescoço de Rick, como se tivesse parado o golpe na metade. Eles se olhavam de um modo muito estranho.

— Charlotte? — Rick praticamente sussurrou.

O rosto dele não estava muito melhor que o do rapaz. Eu apontei a arma, mas ele discretamente levantou a mão direita para que eu me acalmasse.

A garota continuou com a minha katana no pescoço dele, e eu juro que teria atirado se não fosse o nome que Rick pronunciou pouco antes. Eu conhecia parte da história dela, muito pouco pra confiar.

Ela abaixou a espada, a mão ainda pingando sangue pelo corte que eu havia lhe feito. Mas ergueu uma automática, apontou direto pra cabeça dele.

Eu não entendia por que Rick continuava ajoelhado aos pés dela, rendido. Se ele quisesse, já teria matado aquela vadiazinha. Mas estava claro que ele não queria.

— Fale pra sua amiga abaixar a arma. — Ela falou fria, cheia de autoridade e eu a odiei mais um pouco por isso.

Rick me encarou e eu neguei. Não ia me render pra ninguém. Não importa se ele a conhecia ou não. Naquele instante ela era o inimigo.

— Agora! — A voz dela ecoou pelo lugar.

Joguei a merda da arma no chão e a empurrei com o pé. O rapaz a pegou e a apontou pra mim, se levantando lentamente. Ele era o tipo alto e forte, os olhos negros tão cheios de determinação quanto os da garota. Mas ela parecia fria, como se a alma estivesse vazia e o coração congelado. Ele, por outro lado, tinha um olhar que queimava.

— Você está bem? — Perguntou encarando-a rapidamente.

— Eu vou viver. — Respondeu, ainda mirando Rick. — Deixei minhas coisas caírem lá atrás.

Os dois trocaram um olhar, e pareceram ter uma conversa inteira só com aquele gesto, isso mostrava o quanto eles se conheciam.

Ela colocou a kanata em uma prateleira atrás dela e ele lhe entregou a arma, que em seguida ela apontou pra mim.

Ele se afastou, indo na direção em que estávamos brigando momentos atrás.

— Levanta. — A garota ordenou a Rick, dando um passo para trás.

— Char, isso não precisa ser assim. Eu não quero machucar você. — Rick devolveu como um aviso.

O garoto voltou, dois facões presos na calça, pegou um machado de algum lugar no chão, tirou uma arma do próprio cós e voltou a mirar em mim.

A tal Charlotte abaixou a arma que era nossa. Eu olhei o rifle de Rick jogado no chão, eu podia pegá-lo, só precisava de um segundo.

Ela colocou a arma junto com a minha espada. Cada movimento perfeitamente calculado. Rick estava tenso, o momento de dar uma chance a ela passando, e aquele olhar determinado voltando.

Charlotte se aproximou, a arma debaixo do queixo dele agora, fazendo-o erguer levemente o rosto

— "Não quero machucar você" significa que você vai me machucar se for preciso.

— Exatamente. — Rick respondeu firme, encarando-a levemente de cima, afinal aquela criaturinha irritante era cerca de dois palmos mais baixa.

Ela deu um passo para trás, os olhos nele, muito séria e determinada. A atitude não combinando em nada com a idade que ela aparentava.

— Não estou surpresa. — Ela abaixou a arma. — Vamos, Lex, não tem nada de útil aqui.

Ela pegou os facões e os colocou no próprio cinto, agindo como se não estivéssemos ali.

Corri até as armas, mas Rick apenas negou discretamente, ele não ia machucar a garota. Eu respeitei isso, embora ainda quisesse arrancar a pele dela, pelo tanto que meu corpo estava dolorido.

— Charlotte? — Rick chamou vendo que ela realmente estava partindo, sem nem olhar pra trás. — Daryl, Carol, Glenn, eles ainda estão vivos. Eles gostariam de te ver.

— Talvez eu não queira vê-los. — Respondeu, erguendo a cabeça, um tom frio que a fez pareceu cruel.

Percebi o quanto o cara estava preocupado em conter o sangramento da mão dela.

— Estamos em um galpão, perto do centro. Tem uma...

— Sabemos onde é. — O garoto interrompeu. — Só tem um galpão perto do centro que não está infestado.

Rick assentiu lentamente. Charlotte o encarou por um longo momento, aquela aparência fria dela sumindo momentaneamente.

— Ficaremos lá até o amanhecer. Sairemos do estado depois disso. Você ainda é bem-vinda lá. Você sempre foi... — Ele deu um passo para frente, como se aquilo pudesse diminuir o abismo que, estava claro, havia entre eles.

Ela não respondeu virando as costas e saindo pela passagem de emergência pela qual tínhamos entrado.

O rapaz ainda encarou Rick por um momento.

— A Charmy, vai estar lá antes do amanhecer, nem que seja pra dizer adeus. — Ele deixou a promessa no ar antes de segui-la porta afora.

Olhei para o rosto de Rick e ficou bem claro que aquele encontro o tinha abalado totalmente.

Mais essa agora...

Notas finais
Eu achei que nada melhor do que colocar a Char pra bater de frente com uma das personagens mais fodas, pra mostrar o nivel em que ela está. E eu quis pelo ponto de vista da Mich, pq nada melhor do que a primeira impressão de alguém que não conhecia a Char antes. Lexmy saiu ferido do confronto, mas saíram vivos. Ou seja os dois são fodas. Pra quem estava esperando um reencontro cheio de amor, acho que não ia rolar aqui neh, mas pelo menos ela apontou uma arma que não estava carregada pro Rick (as armas dela e do Alex não tem munição, lembram?) isso já é alguma coisa neh kkkkkk Bjss e até o proximo (acho bom o Alex fazer a parte dele e levar a Char lá kkkkk)