Origins
21 Um motivo para ficar
Daryl Dixon
Fazenda Greene
Eu ainda podia sentir o corpo de Charlotte nos meus braços, ainda podia sentir o quanto ela estava frágil. E acima de tudo eu ainda podia sentir raiva de Shane, ódio. Eu devia ter batido mais nele. Devia ter matado aquele desgraçado!
Mas claro que depois ele tinha agido como um cão arrependido, se desculpou com o Rick e sei lá que história ele contou, não importava, na verdade, eu não acreditava. Pessoas como ele não se arrependiam. E se dependesse de mim, ele nunca se aproximaria dela.
Mas não dependia... Na verdade aquela situação toda não tinha nada a ver comigo. Não era da minha conta. E eu tive que me lembrar disso durante toda a noite, para impedir a mim mesmo de ficar no trailer com ela.
O Sol estava nascendo e eu decidi me levantar, mesmo não tendo dormido nada. A primeira coisa que fiz foi bater os olhos no trailer. Dale estava lá em cima vigiando e Carol sentada na escada da porta.
Caminhei até ela, eu precisava saber como Charlotte estava, mesmo que não fosse da minha conta, mesmo que eu devesse ficar longe...
Carol ergueu os olhos para mim e não esperou minha pergunta.
— Ela está dormindo, o Hershel medicou ela ontem e no meio da noite ela já estava melhor. Conversou comigo. — Se levantou e ficou próxima de mim, os olhos preocupados e cansados e eu soube que ela não dormira nada também e internamente eu agradeci por ela ter cuidado da Charlotte. — Ela está aos pedaços, Daryl, ela já estava antes, mas agora... Ela enfiou na cabeça que quer ir embora, ela disse que foi, mas voltou. Voltou porque não queria que ninguém se arriscasse por ela... Eu não sei o que fazer.
Cerrei os punhos, tentando não deixar transparecer no meu semblante nada do que estava se passando dentro de mim. Então era isso que ela estava fazendo ontem quando saiu de carro? Por que não imaginei? Por que não fui atrás dela como quis ir?
Ela mandou você se afastar. Minha mente lembrou, e as palavras da última conversa de Charlotte comigo, voltaram a me assombrar. Voltaram a me machucar exatamente como haviam me machucado naquele dia...
— E está me contando isso por que...? —Perguntei como se não me importasse.
— Você sabe que se ela for, ela vai morrer lá fora sozinha, não é?
— Isso não é responsabilidade minha. — Retruquei, virando as costas.
— Podemos parar de fingir por um minuto que você não se importa com ela. — Carol segurou meu braço. — Ela precisa de você. Você é a única pessoa que ela vai ouvir agora.
— Ela não me quer por perto. — Tirei meu braço da mão dela.
— Acredita mesmo nisso?
— Foi o que ela mesma disse. — Retruquei sem conseguir esconder o ressentimento na voz.
Carol abraçou o próprio corpo e suspirou negando algumas vezes.
— Ela está se afogando em uma depressão angustiante, Daryl. Não finja que não viu ela definhar nos últimos dias, ela quase não come, só chora, pensa que ninguém se importa com ela... Será que você não pode relevar a sua mágoa momentaneamente e lutar para terem uma oportunidade de resolver isso? — Ela perguntou e eu encarei o chão um momento e fiz menção de me virar. — Se você der as costas agora, você pode estar condenando a Char à morte. Beth Greene cortou os pulsos e tinha o triplo de apoio.
— Charlotte não é assim. — Respondi de pronto, assustado com a ideia.
— Não, não é. A Char é alguém que se agarra a vida, talvez ela não perceba isso, mas ela quer viver plenamente, é por isso que quer ir embora. Ela não quer toda essa dor... Você é a única pessoa que pode fazê-la ver, que pode ter tudo que quer, bem aqui. — Carol me olhou fundo e eu soube do que ela estava falando.
— Sabe o que está me pedindo? Sabe que ela é basicamente uma criança ainda? — Retruquei, mais rude do que gostaria. — Você sabe quantos anos eu tenho?
— O que eu sei, é que ela nunca vai chegar a se tornar a adulta que todo tanto quer, se você não tomar uma atitude agora. Ela não vai sobreviver muito mais se não tiver um motivo pra isso. — Carol ergueu as mãos e deu a conversa por encerrada. — A escolha é sua.
Segurei a alça da crossbow e encarei o chão, tirando um tufo da grama com a ponta do pé. Quando é que a vida tinha se tornado tão complicada?
— Ela já acordou? — A voz de Shane despertou minha raiva instantaneamente.
— Mesmo que tivesse acordado, ela não ia querer te ver. — Cuspi de mal humor.
— Isso sou eu quem decido, não você, cara. — O babaca me peitou. — Eu sou o irmão dela, a família, e você é o que, hein?
Shane apontou um dedo pra minha cara que eu afastei com costas da minha mão. Dei outro passo pra frente e ficamos nariz com nariz. Rick vinha em passos rápidos lá no fundo.
— Eu sou o cara que te impediu de espancar uma garota indefesa, a mesma garota que você está aí enchendo a boca pra falar que é a sua família. — Retruquei, perdendo a calma que eu nunca tive.
Eu podia muito bem socar a cara dele de novo.
— Shane. — Rick chamou firme. Era uma advertência.
— Quer dizer que eu sou proibido de ver a minha própria irmã agora? — O idiota perguntou, se afastando alguns passos. — E desde quando é esse cara que decide isso? — Apontou pra mim e eu quis voar em seu pescoço, mas Rick me pediu calma com um gesto.
— Temos que agradecer ao Daryl por estar lá e te impedir de fazer uma besteira. — O xerife me acenou em agradecimento. — Você estava de cabeça quente e faria uma coisa da qual se arrependeria pra sempre, sabe disso. Vai poder explicar isso pra Char, mas quem decide quando e se quer te ouvir é ela mesma. Até lá, é melhor que ela repouse. Hershel disse que ela apresenta um quadro de depressão.
Shane apoiou o peso em uma só perna e passou a mão na cabeça raspada. Eu tinha nojo dele, de todas as formas possíveis.
— Enquanto isso, temos que resolver o problema do Randall. — Rick continuou, vendo que aparentemente tínhamos nos acalmado.
— Devíamos ter dado cabo do garoto lá, Rick, eu disse. Ele sabe onde é a fazenda, não pode ficar vivo... Eu posso fazer isso. — Shane sugeriu.
— Não. — Rick se opôs.
— Sabe onde me achar se mudar de ideia. — O outro falou se afastando, deixando claro que não contribuiria com nada que não fosse à vontade dele.
Rick ficou parado ali olhando o chão, eu conseguia ver a luta interna dele. Ele não queria ferir um inocente, mas também não podia correr o risco.
Eu ainda não tinha entendido por que ele havia assumido a liderança, mas percebi que não fora uma escolha, as coisas apenas foram impostas a ele.
— Ele conhece a Maggie, estudou com ela, sabe onde é a fazenda. E nós não sabemos se ele falou pra alguém, quantos têm no grupo e se são hostis ou não. — Comentou como se precisasse de apoio para a decisão, como se precisasse de mim e da minha opinião. E aquilo era novidade pra mim. — Acho que vou interrogar ele, ser mais duro...
Suspirou. Ele não queria fazer aquilo, ele não era esse tipo de cara.
— Eu vou. — Decidi. — Você já foi legal com ele duas vezes, ele não vai ter medo de você, e eu sei como socar umas caras. — Dei de ombros.
— Você não precisa fazer isso.
— Eu sei. — Concordei. — Mas eu vou fazer. Se sentir que precisa me recompensar, acho que tem uma coisa que pode fazer por mim.
— O que seria? — Rick perguntou franzindo as sobrancelhas.
— Charlotte quer ir embora, ela está decidida a isso. Talvez se você falasse com ela... — Encarei o chão, era um saco pedir coisas para os outros, mas não sabia se ela me ouviria, afinal tinha me mandado ficar longe. — Ela vai te ouvir.
— Ela te ouviria também. — O xerife argumentou calmo.
— E o Randall podia falar tudo pra você também, mas você é bom com o lance das palavras e eu sou bom com o outro lance. A gente faz o que tem que fazer. — Dei de ombros.
Rick balançou a cabeça sutilmente, as mãos na cintura e um sorriso meio torno nos lábios enquanto encarava o chão.
Mas de que diabos ele estava rindo?
— Ela acordou. — Carol falou, aparecendo na porta do trailer.
— Bom, então vamos lá. — Rick apontou o trailer e eu fiquei parado. — Ela vai se sentir mais confortável com você lá.
— Por quê? — Perguntei como se não me importasse.
— Porque ela gosta de você também. — Respondeu como se fosse obvio.
Como assim "ela gosta de você também"?
Entrei atrás dele ainda com a dúvida em mente, mas tudo sumiu quando eu vi Charlotte na cama.
Ela estava encostada em alguns travesseiros, a aparência frágil, pálida, os olhos inchados de tanto chorar e olheiras profundas e roxas. Mas o pior era o braço esquerdo cheio de hematomas, a marca negra da mão daquele filho da puta do Shane perfeitamente visível ali.
Assim que me viu ela abaixou a cabeça, e puxou a manga da blusa pra cobrir o braço. Cerrei os punhos o ódio me consumindo aos poucos. Ódio do Shane, por fazer aquilo com ela. Ódio dela, por ter me afastado. Ódio de mim, por não ter evitado aquilo. Eu devia ter visto o quanto ela estava mal.
— Oi, Char, como está se sentindo? — Rick perguntou em um tom de voz paterno.
— Bem. — Ela disse cutucando as unhas como se fossem a coisa mais interessante do mundo.
— Ela sentiu dor no tornozelo. Acho que pode ter torcido ou deslocado. — Carol falou preocupada mostrando a perna que estava pra fora da coberta, apoiada em uma almofada.
— Não é nada. — Charlotte se apressou em dizer. — Nem senti na hora.
— Esse não é o maldito tornozelo que estava quebrado quando você chegou na pedreira? — Não consegui ficar quieto e fui mais rude do que queria.
Charlotte assentiu abaixando mais ainda a cabeça, como se precisasse se esconder de mim.
Rick pediu para Carol ir pegar algo para a Charlotte e comer e chamar o Hershel para dar uma olhada nela. Então se agachou ao lado da cama.
— Fiquei sabendo que você quer ir embora. — Ele comentou em um tom carinhoso.
— Eu vou. — Ela respondeu decidida. — Hoje mesmo.
— Não é seguro lá fora pra uma garota sozinha. — Rick devolveu.
— Pelo que parece, não é seguro aqui também. — Charlotte deu de ombros e desviou o rosto, mordendo a bochecha como se quisesse conter as lágrimas.
Tive vontade de dizer que ia ser, que eu iria protegê-la de quem fosse, que ninguém nunca mais tocaria nela. Mas fiquei calado, me limitando a encostar em um canto qualquer.
— Shane perdeu a cabeça ontem, não foi sua culpa, foi minha, eu e ele brigamos, ele descontou em você. E a Lori não devia ter feito o que fez também, essa situação não devia ter chegado a esse ponto. — Rick segurou a mão dela.
— Não tente justificar os atos do Shane ou assumir uma culpa que não é sua. Você percebe que eu falei coisas horríveis sobre a sua mulher e, mesmo assim, você está aqui sendo legal comigo? Não tem que ser assim... — Ela fitou os olhos dele.
— Você estava nervosa e falou aquilo da boca pra fora. — O xerife contornou.
— Não falei. Realmente acho tudo aquilo dela. — Charlotte retrucou rancorosa. — Quer mesmo que sua mulher grávida conviva comigo?
— Você deve ter seus motivos... Isso não significa que você tenha que ir. Você não é perigosa pra segurança do meu bebê, provou isso quando não revidou — Ele continuou tentando e eu o admirei por isso.
Charlotte pegou a mão dele de volta e a acariciou um momento, um sorriso triste surgindo em seus lábios.
— Você é um dos melhores homens desse mundo, Rick. Por isso sei que vai respeitar a minha decisão. Eu quero ir... Quero mesmo. Eu não tenho nenhum motivo pra ficar pra aqui.
Quebrei uma das flechas na mão, a raiva me consumindo quando eu levantei. Eu estava cansado de bater na mesma tecla, se ela queria morrer lá fora que fosse. Foda-se.
— Vou cuidar do Randall — Falei, antes de sair pisando duro.
➷•➷•➷•➷•➷
O garoto não disse nada que já não suspeitássemos, mas colocar em palavras que havia um grupo de trinta homens armados e que não hesitariam em matar e estuprar, deixou todos muito mais tensos. Propensos a fazer o que precisava ser feito.
E foi assim que a merda do dia seguiu, com Dale tentando mudar a mente de todo mundo, dizendo que não podíamos matar um garoto.
Até comigo ele veio falar, argumentou que me ouviriam por causa do meu "novo papel no grupo". Eu disse que não me importava, porque não me importava mesmo. Queria mais é que todo mundo se explodisse. Aquele grupo estava rachado.
Ele veio com o papinho de que o Rick iria me ouvir, e eu devolvi que ele só ouvia o Shane. Por que era verdade mesmo, o canalha estava prestes surrar a irmã com a merda de uma cinta, e o xerife bonzinho estava lá assumindo a culpa. Idiotas todos eles.
Por último, ele disse que eu me importava sim. Que eu tinha me importado com a Sophia e com a Charlotte e eu quis mesmo socar ele, porque eu não queria falar dela, não queria pensar nela. Mas Dale era só um velho, por isso deixei quieto.
Ele disse que eu era um homem decente, diferente do Shane. E foi aí que eu soube que o Dale também sabia que o babaca tinha matado o Otis. Isso explicava a raiva do velho e eu pensando que era só por causa da Andrea...
Mas continuei com a mesma opinião, eu não podia fazer nada. O Rick não era cego. Teria que ver sozinho.
Aquele grupo estava mesmo rachado.
A tarde teve a porcaria da votação, Charlotte não foi. Dale só tinha a Andrea de apoio. Randall seria executado e o velho não queria participar daquilo. Saiu decepcionado com todos nós.
E no fim Rick não fez, não atirou. Ele não pôde, não quando o Carl apareceu e queria ver aquilo. Rick era um pai preocupado, como o meu nunca foi.
Foi logo depois disso que ele me disse que o máximo que tinha conseguido atrasar a ida de Charlotte era até o dia seguinte, ela estava decidida a partir ao amanhecer.
Mas o fim da noite nos revelava uma surpresa mórbida. O primeiro errante entrou na fazenda e levou de nós a única pessoa que ainda lutava por humanidade ali. Todos só lutávamos por sobrevivência, mas Dale não, ele queria ser bom. E aquela merda de mundo parecia querer tirar tudo que era bom de nós.
Dale estava agonizando, as tripas pra fora. A responsabilidade caiu sobre Rick de novo. Shane sempre queria dar uma de líder, mas nunca se pronunciava quando era algo difícil. Exatamente como ele fez quando abriu o celeiro e a Sophia saiu de lá. Ele deu pra trás. Rick fez o que era preciso.
E ele faria de novo pelo Dale. Mas aquele homem não podia carregar o mundo nas costas. Não era certo. Eu peguei a arma e dei o tiro de misericórdia.
Rick me agradeceu com o olhar e aquilo foi suficiente.
A gente fazia o que tinha que fazer...
Horas depois o acampamento estava completamente silencioso. Ainda era madrugada, o grupo estava quase todo na varanda de Hershel. Enterraríamos Dale ao amanhecer, mas ninguém parecia disposto a dormir, não com a ameaça de errantes por aí. Teríamos que reforçar as cercas.
Carol e T-Dog voltaram, eles tinham ido ao trailer ver a Charlotte e contar pra ela. Achei que iam trazê-la por que não era seguro ficar lá sozinha, mas ouvi Carol dizer que tentou de tudo e ela não quis vir.
Shane disse que ia ficar com ela e eu me levantei pronto para impedi-lo, mas Rick chegou primeiro.
— Talvez ela não tenha vindo justamente porque não quer ver você. — O xerife argumentou.
— Eu não sou um assassino e não vou deixar minha irmã lá sozinha. — Shane rebateu e eu odiava vê-lo fingir que se importava.
— Tenho certeza que alguém que não seja você pode ir lá ficar com ela. — Rick sugeriu e pousou os olhos em mim.
— Eu vou. — Falei e já saí andando sem esperar resposta. Nunca aceitei uma indireta tão rápido na vida.
Quando entrei no trailer Charlotte estava sentada na cama abraçando as pernas e olhando o vazio. Não disse nada, apenas me sentei no que era pra ser a "cozinha", tirei algumas flechas da crossbow e fiquei com elas entre os dedos.
Os minutos foram passando e não havia nada mais que o silêncio entre nós, até que a voz dela cortou o ar:
— Sinto muito que tinha sido você.
Eu sabia que ela estava falando do tiro de misericórdia
— Qualquer um faria o mesmo. — Respondi ainda no mesmo lugar.
— Mas foi você quem fez.
Respondi com um grunhido e nada mais, voltando às flechas.
— Por que está aqui? — Ergui os olhos ao ouvir a pergunta e ela vinha mancando até se encostar no corredor, olhando pra mim.
A aparência ainda mais frágil que de manhã, como se qualquer coisa e ela fosse se quebrar. Mas na verdade ela já estava quebrada, aos pedaços. E eu odiava vê-la daquele jeito.
— Não era seguro você ficar sozinha, não sabemos ainda se mais daquelas coisas entraram. — Respondi prático, evitando o olhar dela.
Mais um longo minuto de silêncio se passou e eu podia sentir as íris caramelo sobre mim, como se Charlotte ensaiasse dizer algo.
— Obrigada... — A voz dela saiu fraca e eu a encarei.
— Eu não queria ficar lá no meio daquele monte de gente, de toda a forma. — Falei como se não fosse nada.
— Não é por isso que eu estou agradecendo... — Ela corrigiu. — É por ontem.
— Eu teria feito o mesmo por qualquer um. — Respondi sentindo algo entalar na garganta.
Ela sorriu triste baixando os olhos.
— Eu sei. Isso não é sobre mim, é sobre você. Você é um bom homem, Daryl Dixon.
— Você é uma boa garota também, Charlotte. — Rebati sem encontrar nada melhor para dizer.
— Não sou, e você veria isso se não fosse tão bom. Eu faço todas as escolhas erradas e machuco pessoas que eu gosto... — Confidenciou, enquanto tentava conter as lágrimas que escorriam.
Tudo que eu pude fazer foi prender a respiração por um momento. Eu realmente não sabia lidar com aquilo.
—... Eu fiz isso com você e fiz com o Dale também essa tarde. — Ela continuou. — Ele pediu minha ajuda e eu neguei, destratei ele... Talvez se eu tivesse ajudado as coisas pudessem ter sido diferentes, talvez ele não estivesse no lugar errado e na hora errada... — Charlotte soluçava, tentando conter o choro dolorido, esfregando as mangas da blusa no rosto.
— Não fui sua culpa. — Afirmei, vê-la chorar me quebrava por dentro.
Charlotte escondeu o rosto não mãos, tentando conter o choro e a respiração. A manga descendo o suficiente pra revelar a marca horrível em seu braço. Parecia ainda pior do que mais cedo.
E eu soube que não podia mais deixar que ninguém a machucasse. Que não podia permitir que ela fosse embora e ficasse sozinha. Que eu não ia suportar a incerteza de saber se ela estaria morta ou vida. Que não aguentaria vê-la partir através do portão definitivamente.
Eu percebi que o que ela tinha me dito me machucara sim, mas que não era nada comparado a dor que eu sentia ao vê-la daquele jeito...
Sem pensar muito, ou quem sabe depois de ter pesando até demais, eu acabei com a distância entre nós. Tirando as mãos dela do rosto e limpando suas lágrimas.
Charlotte me encarou surpresa, os olhos cor de caramelo, ainda mais brilhantes, refletindo a luz da lua que passava pela janela.
Então eu tomei seus lábios, segurando seu rosto com uma das mãos e envolvendo sua cintura. Trazendo-a para os meus braços, sentindo-a se aconchegar em mim e se entregar.
O gosto salgado das lágrimas, se misturando ao gosto doce que ela tinha quando toquei sua língua com a minha. Eu lhe beijava com tudo que eu tinha, com tudo que eu era. Abrindo mão de mim mesmo por ela. Porque ela precisava de mim e eu nunca poderia negar-lhe isso. Mesmo, e, apesar de tudo.
Senti suas mãos tocarem meu peito, mãos frias, mesmo sobre o tecido da minha camisa. Ela se afastou levemente, o corpo tremendo nos meus braços.
— O que você está fazendo? — Murmurou com o hálito no meu, nossas testas coladas.
— Estou te dando um motivo pra ficar. — Sussurrei olhando em seus olhos.
Eu tinha feito minha escolha...
Fale com o autor