Origins
31 Tentando não fazer um inimigo
Alexander Pierce
Rodovia interestadual
— Não dá pra acreditar que aquele cretino pegou a faca de volta... — Charlotte resmungou pela décima vez.
Ela estava sentada no banco do passageiro enquanto eu me mantinha no volante, lugar que eu só consegui depois de muito insistir, dizendo que ela não podia dirigir depois de não ter dormido nada.
Desde que saíramos de Atlanta, seguindo a van e o carro com o restante do grupo, há cerca de duas ou três horas, Charlotte tinha me contado a conversa dela com Daryl Dixon, não que realmente fosse possível chamar aquilo de conversa, é claro...
Charlotte não tinha um pingo de dom para lidar com o cara, e isso era estupidamente ridículo se levássemos em consideração que ela já tinha feito coisas muito mais complicadas.
— Não queria devolver a faca pra ele, certo? — Comentei neutro, mantendo os olhos na estrada e no veículo guiado por Rick Grimes que estava a minha frente.
— Claro que não. — Respondeu de mau-humor.
— Então por que devolveu? — Perguntei calmamente, como quem pergunta algo a uma criança.
Charmy me encarou como se fosse arrancar meu fígado e eu contive o impulso de rir.
— Você ouviu tudo que eu te contei? Daryl foi um cretino, ele... ele estragou tudo! — Retrucou cruzando os braços, totalmente contrariada.
— Isso ainda não responde por que você entregou a ele uma coisa que você não queria entregar... — Apontei superior.
— Você não entende... — Ela bufou, olhando para fora do carro.
— Eu entendo que você é uma cabeça dura, teimosa, que claramente não sabe lidar com o que sente por esse cara. Juntamos isso ao fato desse mesmo cara também não saber como lidar com o que sente por você e temos a combinação química para uma tragédia global. — Revirei os olhos.
— A culpa não foi minha. Ele que me recebeu com cinquenta pedras, quando eu só queria ter uma conversa pacifica. — Continuou resmungando.
Charlotte tinha uma personalidade muito forte, e se eu tivesse que citar um defeito dela, diria que era o tipo de garota que gosta de sempre estar com a razão. A parte boa é que eu tinha aprendido a meio que burlar essa característica dela, fazendo-a ver por outra perspectiva. Eu não podia falar que ela estava errada, isso causaria o armagedom, mas eu podia fazê-la perceber isso por si só.
— O que quer dizer com "me recebeu com cinquenta pedras"? — Comecei meu plano em um tom interessado, embora eu já soubesse a resposta, precisava que ela dissesse em voz alta.
— Eu te disse, ele me tratou como se eu fosse uma estranha, e depois disse que não sentia muito pelo meu irmão e que não gostava dele, não com todas as letras, mas foi o que ficou claro. — Explicou, se endireitando no banco.
— Bom... Tecnicamente você é uma estranha, não é? Quero dizer, você deixou bem claro que tinha mudado, que a garota que eles conheceram morreu... Você tratou todo mundo diferente e ainda ameaçou o líder deles. Acho que não dá pra culpá-lo por te tratar como uma estranha, quando você provou ser uma. — Dei de ombros, usando o tom que fazia parecer apenas um comentário solto.
Charlotte não respondeu. Ficou pensativa por um tempo absorvendo aquele ponto de vista. Eu sou foda mesmo.
— E sobre o seu irmão: Ele mentiu? — Continuei e ela me encarou sem entender bem a pergunta. — Isso é, pelo que você me disse o cara e o seu irmão não eram amigos, nem próximos. E seu irmão não estava na melhor época dele... Acho que a Daryl só disse a verdade. — Charlotte estreitou os olhos na minha direção, quase ofendida. — Claro que ele disse isso em uma hora ruim e de um modo muito rude. — Consertei rapidamente.
A postura dela se acalmou, mas ainda não parecia convencida, não totalmente.
— O cara não é muito simpático ou educado e nenhum pouco diplomático, nisso concordamos cem por cento. Senti isso na pele. Mas você tem que concordar comigo: você se apaixonou por um homem bruto, um típico caipira. Não espere que ele te diga coisas bonitas e te traga flores, é só olhar pra ver que ele não faz o tipo romântico. Conheço ele faz uma noite e já percebi que ele não é nada bom administrando sentimentos. Mas obviamente você já sabe disso, afinal você se apaixonou por ele... — Apontei, fazendo parecer que ela estava no controle.
— Está fazendo aquilo de novo. — Acusou, estreitando os olhos em minha direção. — Está me manipulando. Sempre faz isso quando eu acho que estou certa em alguma coisa e você acha que eu estou errada.
Apontei pra mim mesmo com a maior cara de inocente que eu conseguia fazer, como se perguntasse "quem eu?" e depois neguei movendo as sobrancelhas no melhor estilo "imagina, você deve estar louca".
— Só estou tentando dizer que, por mais que ele seja um cretino, ele não sabe como agir, afinal é muita coisa ao mesmo tempo. Ele pensava que você estava morta, então você aparece do nada, totalmente diferente, e ainda por cima comigo a tira colo... Ele surtou. — Terminei e tive que virar meu rosto levemente para o lado oposto, pois não fui capaz de conter um sorriso superior. Ela já tinha aceitado a minha perspectiva.
Alex 01 x Charlotte 00.
— O que você tem a ver com isso? — Ela perguntou um pouco cética quanto à última parte.
— Ele está infartando de ciúmes de mim, isso não é obvio?
Charlotte me encarou como se aquilo não fizesse o menor sentido, e realmente não fazia pra nós dois, mas Daryl Dixon via as coisas do lado de fora, tudo era uma questão de ponto de vista.
— Qual é Charmy, a gente tem uma conexão; rimos, brincamos, isso deve ser mais intimidade do que aquele cara tá acostumado, além disso ele viu nossas tatoos iguais... E olha só pra mim, eu não sou de se jogar fora, eu sou lindão. — Me gabei com um sorriso e Charlotte riu em alto e bom som.
— Mesmo que você fosse o Jensen Ackles... Isso não tem nada a ver, somos só amigos.
— Mas o seu caipira bad boy não sabe disso... — Retruquei certeiro.
Charlotte ficou calada, um sorriso discreto brincando nos lábios dela. Obviamente saber que o cara se importava o suficiente pra ter ciúmes a deixava feliz.
— Mesmo assim, isso não tem sentido, ele não teria ciúmes de mim, afinal ele estava com a Beth. — Ela rebateu como se exteriorizasse uma dúvida.
— Primeiro: você não tem certeza disso. Segundo: Ele podia estar, afinal ele pensou que você estava morta, ele estava vivo e precisava seguir em frente, a tal Beth estava disponível, eles transaram, foi legal, ela morreu, você voltou, a velha chama reacendeu, bola pra frente que é hora de marcar o gol. — Fui prático.
— Mas ela ainda podia estar viva... — Charlotte e a mania irritante de colocar empecilhos.
— E eles podiam nem estar juntos... Vai viver de suposições ou de realidade?
— Você me faz parecer uma estúpida quando fala tudo isso. — Ela suspirou cansada.
— Estúpida não. Cabeça dura, teimosa e inexperiente, com certeza. — Debochei contendo uma risadinha.
Charlotte voltou a olhar pela janela de novo, ela finalmente pareceu relaxar, como se tivesse encontrado um ponto de equilíbrio dentro da cabeça dela.
— Não acredito que você percebeu tudo isso em uma noite e eu não vi nada. — Comentou derrotada.
— Você ficou cega, porque não sabe lidar com isso, vou te dar um desconto. E ficou claro que eu sou muito bem em ler pessoas. — Me gabei com um sorriso presunçoso.
— Principalmente caras. — Ela apontou certeira.
— Principalmente caras. — Repeti em concordância.
— Não acredito que estraguei tudo... — Passou a mão pelo rosto como se estivesse brava com ela mesmo.
— Não quero piorar o seu estado, mas a verdade é que se você tivesse chegado com menos palavras e mais ação nada disso teria acontecido. Não teriam tempo pra discutir com uma boca na outra.
Ela me encarou com uma pergunta muda do tipo "acha que isso daria certo?" e eu ri, apenas ergui as sobrancelhas como se soubesse das coisas:
— Vai por mim isso sempre dá certo...
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Dirigimos mais algumas horas sem contratempos, Charlotte finalmente tinha dormido, quando o carro e a van na minha frente pararam.
Conforme o grupo foi descendo e se reunindo ao redor de Rick decidi deixar Charmy descansar um pouco mais e me juntei a eles.
Senti os olhos de Daryl em mim, realmente se aquele cara pudesse pular no meu pescoço e me matar, ele o faria sem hesitar.
Talvez eu devesse me sentir estranho por isso. Afinal eu era o novato em um grupo que mais pareciam pitbull assassinos. E obviamente eles não tinham a mesma boa vontade comigo que tinham com a Charlotte, afinal ela era a família do líder, eu só o cara que tinha chegado junto e que o braço direito dele claramente não suportava. Mas eu nunca me intimidei por ser o novato, toda a minha vida aprendi a conquistar meu lugar no mundo com unhas e dentes, provando meu valor... E era isso que eu continuaria fazendo.
Me aproximei de Rick e ele me encarou por um momento, olhando ao meu redor como se esperasse ver a Charmy atrás de mim.
— Dormindo. Ela precisava descansar, e isso a mantém longe de qualquer coisa que possa abrir os pontos na mão dela. — Respondi a pergunta muda.
Rick assentiu e voltou ao mapa que tinha sobre o capô do carro. O garoto chamado Noah falava algumas coisas e apontava para o pedaço de papel.
Reconheci a região quase que instantaneamente, embora eu não tivesse reconhecido a estrada logo de cara. Provavelmente porque eu, em todas as vezes que viera para aquelas bandas, usava as estradas adjacentes, onde a paisagem natural era muito mais bonita.
Lembrei da primeira vez que estivera ali perto com Ethan, de termos parado o carro na estrada e entrado na mata atrás de uma cachoeira que ele jurou de pé junto tinha por ali. Não achamos a cachoeira, mas uma pequena pousada com chalés e um lago pra pesca, além de um restaurante caseiro muito acolhedor. "Como um pedacinho do céu" era o que Ethan dizia. O lugar se tornou nossa parada preferida, acabávamos lá em toda a folga, mesmo que inicialmente esse não fosse o plano. O casal que administrava o lugar, um senhor e uma senhora afro-americanos com sorriso fácil e alma acolhedora, se tornaram como segundos pais para nós.
Eu, de fato, encontrei neles um apoio que eu nunca encontrei nem no meu próprio pai. O que tornou aquele lugar, muito mais lar que a minha própria casa...
Tive que conter a nostalgia e a pontada de dor que aquelas lembranças me trouxeram e focar na realidade. Passei a mão sobre o rosto e foquei em Rick que contava o seu plano.
Parte do grupo ficaria ali, e ele seguiria com uma quantidade menor de pessoal, iriam pela estrada principal e manteriam contato pelo rádio.
Não era um plano ruim, infelizmente a rota que ele marcara no mapa era longa e isso adicionaria cerca de uma hora e meia a mais de trajeto.
— Tem uma estrada adjacente, por aqui. — Apontei o local no mapa. — Isso vai te dar quase duas horas de vantagem.
Rick me encarou por um segundo, ponderando o que eu tinha dito e olhando o mapa.
— Não tem estrada nenhuma marcada no mapa. — Daryl retrucou rude.
— Só porque não está no mapa, não significa que não esteja lá. — Devolvi neutro, não que eu não quisesse respondê-lo a altura pelo tom que usava, mas isso só pioraria as coisas para Charlotte e não era justo com ela. — Eu usava essa rota pelo menos três vezes por mês. É uma estrada pequena de terra, mas corta um bom caminho. — Falei diretamente com Rick.
Ele chegou a abrir a boca para responder, mas Daryl o fez primeiro.
— E isso faz quanto tempo? Pode ter acontecido de tudo enquanto isso, ela pode estar infestada, e sendo uma estrada de terra pode ser um problema escapar de um imprevisto. Não tem porque trocar o certo pelo duvidoso, Rick. Se temos um mapa, devemos seguir a merda do mapa. — Apontou o papel, ainda mais colérico, e eu percebi que não se tratava da rota e sim de ser eu quem a tinha sugerido. O problema era comigo.
Ergui as mãos em sinal de rendição, a expressão bem clara de "vocês que sabem" no meu rosto quando eu me afastei alguns passos.
Normalmente eu não evitava um conflito, eu o enfrentava até o fim, mas bater de frente com Daryl Dixon podia piorar a situação. Era o mínimo que eu devia a Charlotte.
A garota chamada Tara se aproximou de mim e me entregou uma garrafa de água, que eu aceitei sem problemas, acenando um agradecimento.
Fiz a contagem de suprimentos mentalmente, se aquela cruzada para a comunidade de Noah não desse certo, e eu podia apostar que não daria, não teríamos suprimento suficiente para seguir em frente. A gasolina não duraria e logo, até mesmo água seria um problema.
Aquele grupo estava desesperado por esperança, mas a estava depositando no lugar errado. Porque, eu sabia bem, ir atrás de sobreviventes era sempre a escolha errada.
Daryl estava perto, dando uma olhada no motor do carro que seria usado, provavelmente fazendo uma revisão, quando Rick se aproximou de mim depois de algum tempo, ele parecia um tanto constrangido, provavelmente por ter percebido o clima de momentos atrás.
— Vamos pela estrada principal... Noah a conhece melhor e...
— Não precisa justificar, você é o líder, você decide, eu sei o que é hierarquia de comando. Isso não era uma batalha contra o seu caçador, era só uma opinião. E de toda forma sua escolha não me afeta diretamente, nem a mim, nem a quem eu vou proteger a todo o custo, afinal eu e a Charlotte não vamos com você. — Respondi prático.
Rick assentiu, mas pareceu formular uma resposta, algo que ele não teve tempo de dizer, pois percebemos Charlote saindo da caminhonete e seguindo até nós, antes passando por Carl e tirando a menininha dos braços dele.
Era estranho ver Charmy com um bebê, principalmente porque eu sabia que ela não era a maior fã de crianças no mundo. Mas quando se tratava de Judith ela parecia totalmente rendida.
— Boa tarde, Bela Adormecida. — Cumprimentei quando ela se aproximou.
— Por que me deixou dormir tanto?
— Porque você precisava. — Respondi apenas. — Rick estava apenas passando o plano, ele vai com Noah e mais algumas pessoas até a comunidade, mas achei melhor ficarmos por aqui.
— Claro. O que você decidir. — Charmy sorriu. — Nossa regra "nada de sobreviventes" ainda vale.
Daryl bateu o capô com força desnecessária e se afastou pisando duro, enquanto Rick olhava de mim para Charlotte, possivelmente medindo o nosso nível de cumplicidade.
— Quem vai com você? — Ela perguntou trocando o peso do corpo de perna.
— Noah, Glenn, Tyresse e Michonne.
— Melhor eu não ir mesmo então. Eu e a sua samurai não somos as melhores amigas do mundo. — Charmy comentou e Rick apenas riu, negando levemente. — Tenha cuidado por lá. — Pediu mais séria e ele assentiu.
Pensei por um momento, e sabia que não podíamos ficar no meio da estrada, era perigoso, principalmente com um bebê e um padre que não sabia nem segurar uma arma.
— Tem uma pousada aqui perto, meia hora de carro no máximo, é mais seguro que ficar na estrada. — Sugeri antes que Rick se afastasse. — Não precisa dizer que foi ideia minha.
Felizmente aquela sugestão Rick adotou. A munição foi dividida e nos separamos ali mesmo, e embora toda aquela tensão pairasse entre nós, era bom ter as armas carregadas outra vez.
A pousada estava totalmente revirada, tudo por ali mostrando que fora invadida, por sobreviventes e também por uma horda.
Seria seguro por uma noite, talvez duas, mas ficar mais que isso era um risco que não era inteligente correr.
Mesmo com tudo destruído era como se cada parede exalasse lembranças.
— Você vinha aqui com o Ethan, não é? — Charlotte perguntou medindo a minha expressão e eu concordei.
Ela entrelaçou os dedos nos meus e encostou a cabeça no meu ombro. Ficamos encarando o nada por um momento.
— Sinto falta dele... — Comentou em um fio de voz.
— Todos os dias. — Completei no mesmo tom.
Ficamos naquela mesma atenção por um tempo, até que nossa atenção foi atraída por um burburinho vindo de onde todos estavam. Daryl estava com a crossbow nas costas, uma arma na cintura e uma mochila na mão, parecia pronto para sair, mesmo que Rick tivesse pedido para todos ficarem ali.
Carol queria impedi-lo, mas eu duvidava muito que qualquer pessoa pudesse impedir aquele cara de alguma coisa.
Ele disse que tinha um centro comercial a alguns quilômetros dali e que precisávamos de suprimentos, principalmente caso o plano de Rick desse errado.
Não dava pra negar que eu concordava com ele, mas não concordava com alguém fora de controle, andando por um local desconhecido, sozinho ainda por cima.
— Eu vou com ele. Pode cuidar disso? — Carol estendeu para Charlotte o rádio que Rick tinha deixado para que nos comunicássemos.
— Não. — Eu toquei o ombro dela muito levemente.
Carol ainda estava debilitada, ela era a última pessoa que devia sair andando por aí.
— Nós vamos, eu conheço o lugar onde ele quer explorar. — Falei decidido e encarei Charmy por um segundo.
As duas se fitaram por um momento e Charlotte assentiu.
— Nós vamos. Não se preocupe. — Afirmou apaziguadora.
Carol pareceu dar-se por vencida e voltou a se sentar, enquanto seguíamos Daryl para fora dos limites da pousada.
— O que estamos fazendo? — Charlotte perguntou, assim que ficamos sozinhos.
— A coisa certa, eu espero... — Respondi, avistando o caçador alguns metros à frente.
— Eu não convidei vocês. — Ele resmungou quando nos aproximamos.
— Não importa, afinal isso é uma missão, não um casamento, não precisamos de convite. — Retruquei assumindo a dianteira e caminhando de costas para encará-lo de frente. — Vamos com você, ou podemos só seguir o seu rastro. Você não é o único que sabe andar na floresta.
Daryl não respondeu, passando por mim e esbarrando brutalmente no meu ombro, um gesto claro de desafio. Eu e Charlotte trocamos um olhar e ela deu de ombros enquanto erguia as mãos.
Aquilo seria muito divertido... Só que não.
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