Origins

32 Aprendendo a aceitar um amigo


Notas iniciais
Cheguei feliz da vida!! Origins recebeu a 4ª recomendação e eu estou dando pulinhos de alegria, to muito feliz de verdade. Obrigada mesmo DDixon, vc me fez ganhar o dia s2 O cap de hoje é narrado pelo nosso caçador favorito. E já aviso que ficou maior do que eu previa, não deu pra cortar pq seria sacanagem kkkkkk (vcs vão entender quando lerem) Boa leitura.

Daryl Dixon
Algum lugar da Virginia

Eu mal conseguia respirar. Era como se o ódio tivesse entupido todas as minhas vias respiratórias. Não bastava aqueles dois ficarem de romancezinho pra todo lado, eles ainda tinham que estar atrás de mim?

Inventei a porcaria da ronda atrás de suprimentos, só pra não ter que aturar os dois. Principalmente depois que os vi de mãos dadas na pousada, Charlotte encostada no ombro dele... O meu sangue ainda fervia com a lembrança.

Era uma raiva quase irracional. E doía.

Doía porque eu, mesmo pensando que ela estivesse morta, parei minha vida por ela, como se ainda esperasse por um regresso que, internamente, sabia que não aconteceria. Pois eu entendi que nunca seria capaz de dar a outro alguém o que eu dei a ela.

Eu queria que o gosto do beijo dela perdurasse na minha boca, não queria manchar isso com o gosto de mais ninguém.

Enquanto ela, por sua vez, seguiu em frente, mudou a vida toda, deixando uma impressão amarga de que simplesmente partiu sem olhar para trás, de que mesmo que pudesse não teria voltado.

E isso mostrava o quão certas eram aquelas palavras que, um dia, ela me disse na fazenda... "Nós nunca daríamos certo em qualquer outra realidade".

Ao mesmo tempo em que isso me matava por dentro, eu podia entender perfeitamente, afinal, por que motivo ela escolheria a mim? Eu era praticamente um ogro comparado ao amiguinho dela.

Talvez aquela fosse a minha maior raiva: um dia ter pensado que aquilo realmente podia dar certo...

Os dois riam de alguma coisa a minha direita, com Alex andando de costas, de frente pra ela, algo que, eu já tinha reparado, ele fazia muito.

Charlotte sorria, os olhos caramelo brilhando e a face mais leve, como se uma aura de felicidade a envolvesse quando ela estava perto do outro. E doeu novamente. Doeu que eu nunca a tivesse visto assim comigo.

Desde que eu a conhecera, Charlotte estivera triste, como se estivesse se afogando pouco a pouco em agonia... E eu sempre pensei que tudo isso era coisa do fim do mundo. Mas havia ficado claro naquele momento que, mesmo com os mortos tomando a terra, Alex ainda podia fazê-la feliz, ainda podia fazê-la rir como em um dia comum.

E isso mostrava o quanto os dois eram certos um para o outro, não só nessa realidade destruída em que vivíamos, mas em qualquer uma.

Respirei fundo e resolvi esquecer aquilo, seguindo alguns passos na frente. Tudo que eu queria era não ter que assistir a felicidade deles de camarote, porque isso doía como o inferno. Preferia que ela tivesse me apunhalado com a maldita faca que me devolvera na noite anterior.

Não fazia ideia, se ela sabia o quanto dar aquela faca pra ela tinha significado, talvez não soubesse, afinal não era um anel ou uma joia, era só uma maldita faca velha. Algo que ela tinha trocado facilmente pela tatuagem que exibia no braço.

Quando ela simplesmente me devolveu, eu percebi realmente que nada tinha restado de nós, e cheguei a duvidar realmente que um dia tivesse existido um "nós"...

Porque para mim nunca houve "nós", havia apenas "ela", pois eu faria qualquer coisa por ela; morreria por ela se fosse preciso, abriria mão de mim mesmo por ela, e eu realmente abri. Enquanto pra ela eu parecia ter sido só o desejo egoísta de uma adolescente mimada...

Eu devia ter jogado a merda da faca fora, mas não consegui. Acho que no fim eu era apenas o maricas que Merle sempre disse que eu era...

Dei graças quando um errante apareceu no meu caminho e eu pude descontar toda a minha frustração. Bati na coisa com a crossbow, e continuei chutando e pisando, mesmo depois que era só um corpo no chão, até que virou apenas uma massa disforme.

Percebi que Charlotte e Alex tinha parado pra me encarar.

— Algum problema? — Perguntei rude.

Alex ergueu as duas mãos, como se não tivesse nada a ver com aquilo e saiu andando na frente, enquanto Charlotte ficou ali parada por mais um momento, me fitando muito calma, talvez eu tenha visto algo como uma ponta de preocupação no olhar dela, mas não tinha certeza.

Eu desviei os olhos primeiro, porque tinha prometido a mim mesmo não mais ficar preso naquelas íris caramelo. Se ela seguiu em frente, então eu tinha que seguir também.

Foi quase uma hora de caminhada até que avistamos a avenida de um pequeno centro comercial. Assim que coloquei meus olhos ali, percebi que tudo já fora saqueado, a bagunça nas ruas não deixava dúvidas disso.

Mas foi algo nas paredes o que realmente chamou a atenção, a maioria delas estava marcada com um "W" vermelho, possivelmente sangue de errante. Mórbido.

Alex e Charlotte pareceram perceber também, parando os passos e ficando muito quietos em uma troca de olhares preocupada, no que, mesmo sem querer, dei meia volta para encará-los.

— O lugar já foi saqueado. Devíamos voltar, os riscos são muito maiores que as vantagens. — Alex declarou em um tom baixo.

— Quer voltar? Pode voltar, moleque. Eu não pedi pra nenhum de vocês virem junto. Se estão com medinho, o caminho é ali, eu não vim até aqui pra nada. — Praticamente cuspi de volta.

— Só porque você não dá porra nenhuma pela sua vida, não significa que temos que te seguir em uma missão suicida. Será que você não pode parar de agir como o cavaleiro solitário e pensar em todo mundo aqui? — Ele lançou de volta, me peitando.

— "Pensar em todo mundo?" Que porra você sabe disso, cara? Você tava por aí fodendo com uma adolescente, enquanto eu sobrevivia com um grupo enorme de pessoas, é por essas pessoas que eu estou aqui, afinal essas pessoas precisam comer. Caso vocês dois não saibam, não dá pra viver de amorzinho e luz. — Joguei irado, enfrentando Alex de igual pra igual.

— Já chega! — Charlotte se colocou entre nós nos afastando com a mão.

Senti um choque quando me tocou na altura do peito para me afastar um pouco, mas mantendo os dedos ali. Ela ainda tinha a mão fria, mesmo por cima da minha camisa.

Mas ela também estava com a outra mão sobre o peitoral de Alex, e olhava pra ele, algo que me revoltou ainda mais, de modo que eu forcei meu corpo contra a mão dela. Talvez pra prolongar o toque, ou só pra que ela olhasse pra mim, coisa que ela realmente fez.

Nós encaramos por um momento, meu coração batendo sob a palma dela, totalmente desgovernado, me fazendo notar na pele, o quanto eu sentira falta daquela garota.

— Não viemos aqui pra isso. — A voz dela saiu calma, baixa, quase um pedido.

Obvio que ela protegeria o namoradinho.

Sem pensar muito afastei a mão dela de mim com um movimento brusco. Algo que a fez soltar uma exclamação baixa de dor, o que me lembrou que ela estava com as palmas enfaixadas. Tive o impulso de me desculpar imediatamente, pois em nenhum momento quis realmente machucá-la e me odiei por isso. Mas não tive tempo.

Alex teve uma reação tão violenta na minha direção que Charlotte teve que detê-lo com o peso do corpo. O braço segurando-o, as mãos fechadas em punho, segurando a camisa dele.

Se encararam por um momento, com ela dizendo que não fora nada e ele a encarando de cima por ser uns bons centímetros mais alto, e por ela estar levemente inclinada, usando a força das pernas para impedi-lo de avançar.

Alex tirou os olhos dela e os focou em mim, foi só então que eu percebi que todas as nossas encaradas até ali não haviam sido nada, só naquele momento ele estivera realmente com raiva de mim. Os olhos ainda mais negros, muito expressivos pra que conseguisse esconder o que sentia.

Mas ele se acalmou, olhando novamente para Charlotte e assentindo devagar para que ela o soltasse.

— Vamos fazer isso de uma vez, temos que voltar antes do Rick. — Ela declarou séria, como se aquilo fosse o veredito de que ficariam também.

Respirou fundo e assumiu alguns passos de dianteira.

— Que fiquei claro que, se algo acontecer aqui, qualquer coisa, será culpa sua. — Alex ameaçou muito seco quando passou por mim.

Não era algo que ele precisava ter dito, eu sabia disso. Afinal, se antes, eu podia dizer que eles vieram por vontade própria, naquele momento, ficou bem claro, que tinham permanecido ali por mim.

Charlotte tinha decido ficar por minha causa. E eu não sabia bem como me sentia sobre isso...

Nossa primeira parada foi um pequeno mercado cheirando a podre. Nos separamos entre as prateleiras, pisando em todo o arroz e outros tipos de grãos, que estavam espalhados pelo chão.

Todos os setores estavam vazios ou revirados, nada útil por parte alguma, a não ser, poucos pedaços de carne, já mais do que podre, esquecidos nas geladeiras expositoras desligadas.

Não encontraríamos nada ali, e internamente, comecei a me convencer que Alex estava certo, não devia ter nada naquela cidade. Não que eu fosse admitir aquilo para o cara. Jamais.

Virei por um corredor e encontrei com Charlotte entre as prateleiras. Ela parou onde estava assim que me viu.

Eu quis virar e me afastar, mas não consegui. Simplesmente caminhei até ela, como se algo magnético nos conectasse. Parei a alguns passos, percebendo o quanto aquilo era ridículo.

— Não tive a intenção de te machucar... — Falei baixo, pois independente de tudo, eu ainda tinha que pedir desculpas por antes.

— Eu sei... — Charlotte respondeu muito calma, um sorriso fraco nos lábios.

Ela deu dois passos na minha direção e eu senti que estava preso a ela de novo, preso em seus olhos caramelo. Eu nunca tinha me libertado realmente.

— Você não me machucou... — Completou no mesmo tom, muito perto pra que eu não desejasse tocá-la. — Nunca.

Eu dei outro passo, cheguei a erguer a mão no intuito de alcançar seu rosto, mas Alex praguejou alguma coisa e apareceu afoito no mesmo corredor. Idiota.

— Estamos bem ferrados. — Declarou sério.

Sem pensar muito seguimos para a saída. Errantes vinham de todos os lados da rua, como se fossem ratos saindo de bueiros.

— Deve ter uma saída pelos fundos. — Ele tocou o braço de Charlotte.

Não tínhamos tempo de discutir, isso podia nos matar. E seria minha culpa...

— As entradas de carga e descarga geralmente ficam no estoque. — Apontei deixando claro que concordava com eles.

Seguimos rapidamente, tínhamos a vantagem de não ter sido notados ainda, mas não sabíamos quanto isso duraria.

Assim que saímos pela porta dos fundos percebemos que fora um erro, o local também estava infestado. E por causa do barulho das portas eles nos perceberam.

Eram muitos para que pudéssemos derrubá-los sem chamar a atenção dos outros, e isso nos deixaria cercados.

Charlotte tirou os facões da calça, Alex já estava abrindo caminho com o machado.

Continuamos em movimento, derrubando os que podíamos pelo caminho. A situação cada vez pior, tanto que tivemos que sacar as armas, mas elas acabaram denunciando nossa posição.

Eram muitos. Como se alguém os tivesse atraído até ali, quase como se os tivesse juntando para usar posteriormente.

Corremos por uma rua lateral cheia de prédios, assim que viramos uma esquina, estávamos cercados outra vez.

Tudo que eu conseguia fazer era me culpar. Minhas decisões acabariam matando nós três. Tudo porque eu estava com raiva demais pra pensar com clareza.

Olhei para Charlotte e ela ofegava, as mãos sangrando, provando que seus pontos haviam aberto por causa do esforço com os facões, que ela manejava com exímio.

Eu a tinha condenado e isso me desesperou. Era como se eu não fosse capaz de proteger ninguém. Como se minhas ações só matassem as pessoas...

— Daryl! — Charlotte me puxou pra dentro de um dos edifícios segundos antes de um errante me agarrar.

Eu estava desfocado. Rick estava certo em não me levar. Eu não devia ter saído da pousada. Era tudo minha culpa.

O prédio em que estávamos era todo de vidro, Alex tinha quebrado uma das portas para que entrássemos. Mas isso não nos salvaria, talvez só nos desse mais tempo, afinal eles tinham que entrar aos poucos pelo vidro quebrado, mas o barulho com certeza atrairia mais deles.

Tudo ali era muito claro, um amplo hall de piso branco, coisa de gente chique. Possivelmente um prédio de advogados ou algo assim.

Devia ter uma saída pelos fundos. Tinha que ter.

E realmente tinha, mas por lá a situação era ainda pior. E o barulho do vidro se partindo na entrada principal nos provou que se não fizéssemos algo logo seria nosso fim.

Subimos por uma escada ao lado do elevador, ficaríamos presos lá em cima, eu sabia disso, mas era nossa única escapatória no momento e talvez conseguíssemos pensar em alguma coisa.

Os lances, que percorremos correndo, nos deram uma dianteira. Cada um dos pisos não tinha nada com que pudéssemos bloquear a ampla passagem que dava acesso aos andares. Aquela merda de prédio não tinha uma única porta segura, apenas divisórias feitas de vidro e mesas chumbadas no chão. Merda.

Lá pelo décimo andar, encontramos uma das salas em reforma, tabuas, cordas, e todo tipo de material espalhado pelo chão, junto de alguns galões de tinta seca.

Eu podia ouvir os mortos nos seguindo pela escadaria, o eco de seus grunhidos preenchendo o prédio, como se tocassem a marcha fúnebre.

Havia uma sala privativa naquele andar, a única que tínhamos visto. Algum dos chefões devia ficar ali. Mas, mesmo tendo porta, ela ainda era feita de vidro e não duraria muito.

Charlotte estava dois passos a minha frente, olhando ao redor, a respiração falhando, suada, com o cabelo bagunçado e sangue de errante por toda a roupa e rosto. Mas mantinha uma expressão muito determinada, como se não fosse desistir por nada.

— Tem uma estante de livros no canto esquerdo. Pode segurar a porta por um tempo... — Alex apontou para a sala do chefão que eu já havia reparado.

— E depois o que? Não vai durar pra sempre. — Retruquei furioso, não com eles, comigo mesmo por nos ter colocado naquela situação.

— Só precisa durar o suficiente. — Charlotte declarou decidida.

Eu não a entendi, e pela cara que Alex fez, ele também não.

Charlotte correu até as coisas jogadas no chão e começou a recolher algumas. Corda, roldanas. Eu não consegui acompanhar o raciocínio, mas Alex pareceu ter finalmente percebido do que se tratava. Ele correu para a sala fechada em vidro e começou a empurrar a estante.

— Uma mãozinha aqui. — Pediu me chamando com um gesto.

Terminamos de empurrar a estante na frente da porta, assim que Charlotte passou com as coisas.

— Vamos descer até o outro prédio improvisando uma tirolesa. — Ela apontou o edifico da frente, onde um suporte de limpar janelas estava abandonado.

Eu não era adepto de esportes radicais, mas sabia bem o que era tirolesa, havia um camping perto da casa que eu morava que fornecia essa atividade. Eles prendiam um cabo de aço de uma montanha a outra ou pouco mais baixa, geralmente sobre um rio ou cachoeira, então a pessoa sobrevoava o lugar "escorregando" pelo cabo, usando roldanas e outros tantos sistemas de segurança.

Olhei para as coisas que Charlotte tinha trazido e não tinha nada de cabo de aço, muito menos de segurança ali. Ela queria fazer aquilo usando basicamente uma corda e algumas roldanas, que na verdade eram arames retorcidos.

— Sabe que uma tirolesa exige uma ponta fixa do outro lado, não sabe? — Alex falou como se fosse óbvio.

— Bom, sorte a nossa que temos um arqueiro. — Charlotte apontou pra mim, muito prática.

— Isso é loucura. — Alex riu. — Só uma pequena raposa pra ter uma ideia dessas mesmo.

Ele usara um tom leve, mas algo na sua expressão denunciou o quão preocupado estava. Como se, com um olhar, ele tivesse percebido muito mais daquele plano que eu. E realmente, eu não sabia ainda, mas ele compreendera uma parte crucial.

Charlotte amarrou uma das pontas da corda na armação da janela, em um nó muito firme, e me estendeu a outra. A encarei com a mão estendida pra mim, percebendo o quanto de força ela emanava apenas com o olhar.

Pensei em dizer que aquilo era loucura completa, que era ariscado e mil outras coisas, mas eu não tinha ideia melhor, e era eu mesmo quem nos tinha colocado naquela situação. Na verdade, estava esperando Alex jogar isso na minha cara... E ele estaria certo.

Peguei a corda e a amarrei na flecha, no mesmo instante em que os primeiros errantes invadiam o andar. Olhei a estante na frente da porta e soube que não resistiríamos por muito tempo.

Minha única chance era atingir a superfície de madeira que sustentava o suporte de limpar janelas. O tiro tinha que ser certeiro o suficiente para que a flecha fincasse. Uma chance em cem.

Respirei fundo e preparei a crossbow, o som dos mortos batendo no vidro deixando tudo mais urgente.

Eu não errei o tiro. Suspirei aliviado. Segurei a corda e puxei, parecia preso.

— Quem vai primeiro? — Perguntei.

Foi quando os dois trocaram outro daqueles olhares, no que Charlotte parecia muito determinada e Alex totalmente contrariado.

— Eu vou. Sou a mais leve. Existe um grande risco da flecha não aguentar do outro lado. Por isso tenho que passar primeiro. Se eu chegar do outro lado, posso amarrar a corda com mais firmeza. — Ela explicou devagar.

— "Se"?... — Repeti sentindo a dúvida naquela frase me assustar mais do que qualquer coisa.

— A corda ou a flecha podem não aguentar. — Alex colocou meus pesadelos em palavras.

— É a nossa melhor chance. Vai dar certo. — Charlotte declarou firme, provavelmente tentando soar otimista.

Eles assentiram um para o outro, depois se abraçaram, se afastando apenas um pouco para se fitarem outra vez, como um casal de namorados faria. Eu sabia que eles se beijariam, mas não consegui virar o rosto, tive que ficar olhando como um maldito masoquista que gosta de sofrer.

Mas o beijo não aconteceu, ou melhor, aconteceu de outra forma, com Alex tocou a testa de Charlotte com os lábios, um gesto cheio de carinho, como dois irmãos, não como dois namorados. O que me confundiu mais do que qualquer outra coisa na vida.

— Lute como um tigre. — Os dois falaram como um mantra, tocando as tatuagens.

Me senti um estranho ali por um momento.

Eles se separaram e ela olhou para a janela e depois para mim. Eu não queria que ela fosse. De repente eu me sentia em um impasse onde as minhas duas escolhas eram: vê-la morrer devorada por errantes, ou vê-la morrer depois de cair por dez andares.

Eu não era um cara otimista. Já passara por muita coisa pra ser. Mas não conseguia dizer nada, estava pregado no chão, algo que não tinha nada a ver comigo.

Charlotte percebeu a minha apreensão e sorriu, segurou minha mão muito de leve.

— Vai dar certo. — Me encorajou.

Segurei a mão dela de volta. A ideia de perdê-la outra vez me assombrando.

Então ela quebrou a última distância entre nós e me abraçou. Senti o corpo dela se encaixar ao meu, como se ele sempre tivesse pertencido aquele lugar, como se eu estivesse completo outra vez. A apertei forte, como se aquilo fosse mantê-la ali para sempre.

Mas não manteve, ela se afastou dois passos, olhou para nós dois, colocou a roldana na corda e pulou sem aviso.

O corpo dela seguia em alta velocidade para o outro prédio, cada vez mais rápido, naquele momento ela se chocar com o outro edifico parecia mais perigoso do que a corda se desprender.

Os errantes forçavam a porta atrás de nós, batiam no vidro, mas tudo que eu via era Charlotte se aproximando do outro lado.

Estava quase aliviado. Ela estava a menos de meio metro e foi quando tudo aconteceu, a flecha se desprendeu da madeira.

Senti meu coração parar. Um grito ficou preso na minha garganta, enquanto o de Alex ecoou se espalhando pelas ruas.

Foi por um segundo apenas. Charlotte conseguiu se segurar no suporte preso a janela. Uma única mão a separava de uma queda de, pelo menos, quatro metros. Se cair dois andares não a matasse, o mar de errantes bem embaixo dela mataria.

Era agoniante ficar vendo o corpo dela se balançar de um lado para o outro, tentando qualquer tipo de apoio.

— Joga de novo! — Alex exigiu puxando a corda de volta. — Vai logo Dixon, ela vai cair!

Entendi que ele queria fazer a travessia, para então puxar Charlotte, mas se a flecha não tinha aguentado uma garota de uns sessenta quilos, nunca ia aguentar um brutamontes feito ele.

Mas de novo, era a nossa melhor chance.

Os mortos estavam a um triz de derrubar tudo e entrar. Os grunhidos deles ficando cada vez mais alucinados atrás da gente.

Eu preparei a crossbow, mas a visão de Charlotte balançando suspensa no ar, me desestabilizava, me apavorava. Errei a flecha. Pela primeira vez eu errei.

Alex puxou a corda outra vez. Me entregou de novo, afoito, preocupado, contudo não havia uma só ponta de julgamento nos olhos dele. Ele não me culpava. Não me culpava por nos colocar naquela situação, nem por errar a merda do tiro... Percebi que tudo que envolvia aquele cara me deixava um tanto confuso.

Acertei a segunda flecha, bem no momento em que Charlotte conseguiu subir no suporte. Mas não teríamos a mesma sorte com os mortos atrás de nós.

— Vai. — Mandei, assim que vi Charlotte tinha amarrado a corda com segurança.

Em seguida corri para segurar a estante. Vi Alex colocar o pé pra fora e um segundo depois tudo desabou em cima de mim. Fiquei com metade do corpo preso sob o móvel. Os mortos invadindo tudo.

Mas as duas vidas que eu arisquei estavam salvas. Pelo menos eu não morreria com esse peso na consciência.

Não tive tempo de sentir qualquer alivio, nem de pensar se desistiria ou não. O som de tiros cortou o ar, e segundos depois a maldita estante não estava mais sobre mim.

Alex erguia o móvel com uma mão e atirava com a outra. Me arrastei dali e ele largou a coisa no chão, estendendo a mesma mão pra me auxiliar a levantar.

Lembrei de ter recusado a mão dele quando nos apresentaram. Dessa vez eu aceitei. Aquela não era uma mudança que eu esperava, mas eu também não esperava que o cara voltasse pra salvar minha vida, assim como também não tinha esperado o fim do mundo, no entanto tudo isso acontecera...

'Ta ouvindo esse som? É Deus rindo enquanto você faz planos.

Derrubamos mais alguns errantes antes de saltar da janela um após o outro.

Aquele dia tinha chegado ao fim, conosco correndo da cidade sem levar nada de útil. Me fazendo perceber que eu devia ter ouvido Alex e que o cara não era tão irritante.

Ele tinha salvado minha vida, outra coisa que eu não entendia. Mas percebi que era só mais uma coisa na lista.

Por exemplo, não entendi nada quando eles se jogaram no chão e riram sem parar, assim que saímos da cidade.

— Caramba isso foi divertido. — Alex exclamou animado tocando o meu ombro com uma liberdade que eu com certeza não tinha dado a ele. — Devíamos fazer mais vezes.

Em nenhum momento ele me olhou acusador. Agindo como se a culpa de tudo dar errado não fosse minha.

O cara era totalmente pirado, era só o que eu conseguia pensar, enquanto ele andava de costas revivendo os momentos mais tensos, como se tivéssemos acabado de ver um filme de ação e não escapado da morte por um triz.

Olhei pra Charlotte e ela sorriu dando de ombros, como se aquilo fosse o normal dele, tocando em mim para tirar alguns cacos da minha roupa. Muito natural e amigável pra que eu conseguisse odiar os dois como no começo daquela ronda.

Claro que a dinâmica deles ainda me machucava um tanto, mas eu não podia remoer esse sentimento pra sempre. Estávamos juntos nessa. E eu esperava que continuássemos assim. Mesmo que a Charlotte não pudesse ser minha.

Infelizmente nem tudo acabou bem...

Nossa missão tinha dado em nada. Assim como a de Rick. A diferença foi que voltamos para casa inteiros e ele voltou com o corpo de um de nós no carro.

Tyresse estava morto. Sasha desolada. Algo que me fez perceber que irmãos ou irmãs não conseguiam ficar juntos naquela merda de mundo destruído.

E o nosso grupo tinha diminuído de novo...

Notas finais
As coisas se acalmaram, porem não estão certas ainda. Capaz do Daryl se entender primeiro com o Alex do que com a Charlotte kkkkkkkk esse é o nosso casal problema kkkkk #RipTy Nos vemos no próximo Bjss