Origins
33 Dor, empatia e algo mais
Charlotte Walsh
Proximidades de Washington
Três semanas desde que saímos de Atlanta.
Vinte e um dias, desde que eu e Alex nos juntamos ao grupo de Rick.
Quase um mês vendo aquelas pessoas definharem dia após dia...
Enquanto ainda havia a esperança de encontrar algo na comunidade em Virginia, eles se mantinham tentando, aguentando com o máximo que podiam. Mas depois que essa esperança se esvaiu, depois que Rick voltou sem nada, a não ser o cadáver de Tyresse, eles foram esmorecendo pouco a pouco.
Cada um tinha seu motivo. Cada um tinha se isolado na própria dor de alguma forma, mesmo que tentasse parecer forte.
E a última semana acabara com o pouco que sobrara de qualquer coisa dentro deles. A comida foi se esgotando, as rondas sempre acabavam em nada. Estávamos há dois sem comer, eu quase três, pois guardei minha última refeição para dar a Judith depois. Não havia mais quase nada de água.
Eu já tinha percebido que não tínhamos rumo. Mas não ter rumo com aquele grupo, não era como ficar sem rumo com Alex... Estávamos literalmente no meio do nada. E ninguém parecia ter forças pra qualquer coisa.
Rick continuava. Tentava se manter firme. Mas eu podia ver o quanto estava quebrado, não ter um lugar para manter os filhos em segurança acabava com ele, ver as pessoas pelas quais ele era responsável morrerem, colocava um peso grande demais em suas costas.
Aquelas pessoas não sabiam viver sem um porto seguro, sabiam sobrevier, isso sem dúvida, mas não seria o bastante. Eles precisavam de esperança, e não encontrariam isso na estrada.
Alex estava certo, como sempre: eles precisavam de nós, porque não eram como a gente.
Abraham e Rosita eram os que podiam estar melhores com aquilo, mas, pelo que eu tinha entendido, tinham perdido a missão que os movera até ali, estavam sem rumo, sem objetivo e isso os colocava no mesmo patamar dos outros.
Talvez eu e Alex já tivéramos muito tempo pra nos acostumar a viver um dia de cada vez, sem planos e sem pretensões, sem esperar demais do futuro ou se preocupar com ele. Sobrevivendo como se fosse o primeiro dia, vivendo como se fosse o último.
Obviamente aquele grupo tirava a primeira parte de letra, eles eram fortes, tinha estratégia. Eram sobreviventes. Mas eles não entendiam a segunda parte: nenhum deles vivia, apenas se afogava dia a dia.
Sobreviver apenas, se tornaria um fardo pesado demais pra eles, se não vivessem, se não encontrassem pelo menos uma faísca de vida de vez em quando... Eles definhariam, e cedo ou tarde desistiriam. Porque só sobrevivemos por termos pelo que viver.
Rick pediu para que Maggie, Sasha e Daryl dessem uma volta pelos arredores em busca de água ou qualquer coisa comestível. Eles eram os três mais abalados e eu entendia que Rick os queria ocupar de alguma forma.
Sasha perdera o irmão, e antes disso perdera o namorado. Maggie perdera o pai e logo depois a irmã, uma perda que Daryl compartilhava com ela, mas sofria a própria dor calado.
A última missão que fizemos juntos, eu ele e o Alex, servira para acalmar os ânimos entre nós. Daryl não mais nos olhava como se quisesse nos matar, falava conosco como falava com qualquer um, embora isso só acontecesse raramente. Na verdade, eu mal tivera duas ou três conversas com ele, cada uma delas de duas palavras, quando muito.
Ele estava sofrendo, possivelmente se culpando pela morte da garota Greene, isso estava bem claro.
E se nos primeiros dias tudo que eu conseguia era sentir raiva daquela relação, daquela menina e do próprio Daryl, porém, conforme o tempo foi passando e eu vi o quanto ele estava sofrendo, a raiva foi se dissipando.
Não era racional eu ter raiva da Beth, eu nem a conhecia, ela estava morta e nunca me fez qualquer mal. E Alex estava certo, também não era racional e nem maduro, eu ter raiva da relação dos dois, eu não tinha um contrato de exclusividade com Daryl Dixon e no fim das contas eu mesma havia partido. Eu não tentei procurar o rastro do grupo.
Fazendo uma análise mental, percebi o quanto estava sendo egoísta. Na verdade, notei que grande parte do tempo eu fora egoísta, não só com Daryl, mas com todos que me cercavam.
Eu era realmente uma adolescente mimada que sempre pensava em si mesmo primeiro. Que na maior parte das vezes não se preocupava com o que as pessoas ao redor estavam sentindo. Isso não era justo. E nem maduro.
Eu não queria ser assim. Então eu simplesmente não seria.
E novamente Alex estava certo. Estar com aquele grupo me fizera perceber meus defeitos, aqueles que eu não tinha enfrentado por ter escondido quando fugi da fazenda.
Porque eu tinha mudado muito, em muitas coisas, mas outras eu apenas mantive ocultas, eu não tive que lidar com elas.
Então, naquelas três semanas, eu tinha percebido algo em mim que eu precisava urgentemente mudar, ou pelo menos amenizar.
Obviamente que eu não deixaria de ser egoísta do dia para a noite. Nenhuma desconstrução é tão rápida. Eu teria que exercitar o altruísmo um pouco a cada dia, em cada pequena oportunidade.
Não seria fácil, eu sabia bem, mas por sorte eu tinha o melhor amigo de todos pra puxar minha orelha, ou socar minha fuça, caso eu saísse muito da linha.
Era quase como uma promessa de ano novo: ser mais empática e altruísta. Não que fosse ano novo, mas a vantagem de não ter mais que seguir um calendário era exatamente essa, eu podia fazer uma promessas de ano novo em qualquer época.
Foi exercitando a minha empatia que eu me coloquei um pouco no lugar do Daryl e percebi que não podia ter raiva dele por se apaixonar por outra pessoa. Afinal nós nem tínhamos como escolher esse tipo de coisa.
E o mais importante, ele estava sofrendo. Ele estava se afogando. Eu conhecia isso muito bem para que a dor dele não me machucasse também.
Sofrer a dor de outra pessoa era algo totalmente novo pra mim, pois eu já tinha compartilhado dor com alguém, por exemplo, quando minha mãe morreu eu compartilhei essa dor com Shane, porque ela nos afligia de forma parecida. Quando Ethan morreu eu compartilhei essa dor com o Alex, porque nós dois o amávamos, mesmo que Alex amarasse mais.
Mas eu sequer conhecia a Beth direito, não me importava com ela, ou seja, a morte dela não me afetava ou machucava de nenhuma forma, mesmo assim doía em mim o sofrimento do Daryl. Isso era algo que eu nunca tinha sentido por ninguém. Ouso dizer que era ainda mais forte e marcante do que sofrer a própria dor.
Era novo e assustador, mas ao mesmo tempo era poderoso. Eu não sabia como definir...
Continuamos, mesmo quando tivemos que deixar a van pra trás. Mesmo quando uma horda começou a nos seguir, seguimos em frente.
Daryl escapava pra floresta em qualquer oportunidade. Carol disse que tentou falar com ele, mas não adiantou.
Sasha estava surtando, a raiva dela transbordando. Maggie era a imagem da apatia, nem mesmo Glenn conseguia mudar isso.
Todos tentavam de alguma forma, mas a verdade é que cada um deles estava se arrastando também.
Encontramos alguns carros na estrada, mas nada de útil neles. Glenn passou por mim e me lançou um sorriso triste, ele estava preocupado com a Maggie.
Daryl voltou de mão vazias e tudo aquilo culminou no momento chocante em que Sasha atirou, a sangue frio, em três cães prestes a nos atacar. Suas carnes foram assadas em uma fogueira e eu não sabia se tinha como aquilo ficar pior, ou mais mórbido...
— Pense por esse lado: pelo menos carne de cachorro é menos bizarro que ovas de peixe. — Alex apontou de pé ao meu lado.
— Mas essa ova de peixe aí tem nome: caviar. E é era bem caro. — Respondi, mastigando sem vontade.
— Caro e ruim. — Continuou em um tom baixo. Aparentemente éramos os únicos com algum humor ali. — Em algum lugar do mundo deve ser costume comer carne de cachorro.
— Em algum lugar do mundo é costume comer cérebro de macaco, não significa que eu também queria fazer parte desse costume. — Devolvi sem encará-lo.
— Está preocupada. — Afirmou, vendo que eu observava o grupo sentado à nossa frente. Estavam todos no limite.
Eu e Alex estávamos encostados em uma árvore do lado oposto da estrada, éramos os únicos de pé.
— Você não está? — Perguntei, já sabendo a resposta.
— Estão definhando. Metade deles não vai aguentar mais dois meses aqui fora. E eu não estou dizendo que são fracos. Eles não são. Mas precisam de uma esperança em forma de teto, precisam de muros pra proteger. Eles precisam de um lar.
Eu assenti, enquanto observava Sasha ser rude com o garoto chamado Noah, ele não queria comer, aquilo era demais pra ele. Alex estava certo. Aquelas pessoas precisavam de um lar. E talvez também precisassem de alguém para mostrar a elas que lar nem sempre era um lugar...
Entreguei meu pedaço do carne para Alex e me aproximei de Noah, me abaixando ao seu lado.
— Você não precisa se sentir mal por isso. — Apontei a carne e ele estremeceu. — As coisas que fazemos pra sobreviver não nos definem. Nós fazemos o que temos que fazer pra seguir em frente. Somos sobreviventes, mas isso não é tudo que somos.
— Se o que fazemos pra sobreviver não nos define, o que é que define então? — Sasha perguntou em desafio, usando um tom nada amigável.
Percebi que metade do grupo, se não todo ele, tinha focado em nós três.
Me coloquei de pé, pra encarar Sasha na mesma altura, eu não gostava muito da atitude de desafio dela.
Empatia.
Respirei fundo contendo minha vontade de responder no mesmo tom. Assumindo a postura mais pacificadora que eu podia.
— É o que fazemos pra viver que nos define. — Declarei em um tom que todos pudessem ouvir. Mas Sasha não pareceu perceber a diferença. — As pessoas que ajudamos pelo caminho, as pessoas que protegemos, as que amamos, e todas as coisas que fazemos pra ver um sorriso em seus rostos, mesmo quando nós próprios não temos motivos pra sorrir... Como desfrutamos cada momento de alegria, mesmo que seja apenas um segundo, é isso que nos define. Cães mortos não podem dizer quem você é, mas os amigos que você alimentou podem.
Ela deu um passo pra trás, os olhos marejados. Apenas baixou a cabeça e se sentou de novo.
Percebi Maggie enxugar uma lágrima e Glenn apertar sua mão com carinho. Abraham deu um longo gole em uma bebida de teor alcoólico, a única coisa útil que tínhamos achado nos últimos dias. Daryl continuou encarando o chão.
— Olhem... — Dei um passo pra trás e me dirigi a todos eles. — Vocês são foda pra caralho. De verdade. São mesmo. Podem sobreviver a essa merda toda com a mão nas costas. Todos vocês podem. Mas se arrastar por essa estrada, apenas sobrevivendo, não vai funcionar. — Fui sincera. Eu podia ter empatia e ser sincera, não podia? — Eu sei que perderam muito. Perderam pessoas, um lugar seguro e acho até que perderam um pouco de si mesmos no caminho. E é uma merda, eu tenho certeza disso, porque já estive no mesmo lugar que vocês. Mas se não derem valor ao que ainda tem...
— Não acho que tenha sobrado mais nada pra dar valor, menina. — O padre me interrompeu em um tom melancólico.
— Estão certos disso? Não tem mais nada?! — Eu possivelmente me irritei um pouco. — Bom, deixa eu te contar uma coisa. Desde que eu me separei do Rick na fazenda, eu passei por só mais um lugar considerado seguro. Muros, armas, um sistema muito funcional. Parecia o paraíso. Era o inferno. Aquele lugar tirou coisas de mim, da gente... — Apontei Alex atrás de mim. Meus olhos ardiam, mas eu permaneci firme. — Tirou uma parte que...
— Charmy... — Alex tocou meu braço de leve. Era um pedido mudo pra que eu não revivesse aquilo. Assenti.
— Na verdade não importa o que eu passei, ou o que eu perdi. Não importa o que vocês passaram os perderam. Não importa quem perdermos. Importa quem nós ainda temos. Porque vocês podem ter perdido cercas e um teto, mas vocês não perderam um lar, porque lar nem sempre é um lugar. Às vezes ele é as pessoas que nos cercam. E olhem ao redor, vocês ainda estão cercados de pessoas, pessoas que, mesmo não tendo forças pra se manter em pé, lutariam por vocês. Da mesma forma que vocês lutariam por essas pessoas, mesmo que não fossem capazes de lutar por si próprios. E isso é tudo que vocês precisam, porque podemos sobreviver sozinhos, podemos morrer sozinhos, mas só vamos conseguir viver se for juntos... — Respirei fundo, enquanto sentia tantos pares de olhos em mim que era como se sufocasse. — Ou sei lá... Eu tenho uma arma e sou muito boa com ameaças de morte, então vocês vão ter que seguir em frente de todo jeito, mesmo que eu tenha que obrigar.
Dei de ombros e me afastei de volta para o outro lado da pista.
— Parece que a pequena raposa aprendeu a se impor como um leão. — Alex comentou com um sorriso orgulhoso quando parou do meu lado.
Eu apenas revirei os olhos. Esse posto de diplomata e motivadora não era bem mais difícil do que parecia...
O meu discurso motivacional não foi a oitava maravilha do mundo, mas até que serviu de alguma coisa. O grupo passou a caminhar mais decidido, mesmo que ainda houvesse tristeza saindo por todos os poros.
Eu não esperava que eles ficassem felizes de uma hora pra outra, então considerava aquele progresso, mesmo que muito pequeno, alguma coisa.
— Você fez algo bom lá atrás. — Michonne comentou. caminhando ao meu lado.
Eu a olhei um tanto surpresa, a gente não era de conversar, ela não era minha fã e eu não era fã dela e assim a gente ia levando.
Eu apenas sorri e assenti e ela correspondeu da mesma forma, se afastando em direção ao Rick. Aquela era a nossa interação mais amigável desde... Bom, desde sempre.
Olhei pra Alex franzindo as sobrancelhas e ele apenas deu de ombros e ergueu as mãos, tão sem entender a situação quanto eu.
— Incentivar as pessoas dizendo que se elas não andarem você vai atirar nelas é sempre uma boa coisa. — Tara completou em tom de brincadeira, passando por mim e continuando a caminhar ao lado de Noah que também me sorriu.
— Missão número um: Fazer amigos. Concluído. — Alex me deu um cutucão na cintura e passou a andar de costas como sempre. — As pessoas gostam de você. Melhor se acostumar.
Ri meio sem graça, enquanto reparava Glenn usar parte do meu discurso "juntos a gente consegue" pra fazer Daryl beber um gole da última meia garrafa de água que tínhamos.
Obviamente Daryl não aceitou a água, agindo como o cabeça dura que era, e se mandou pra floresta outra vez.
Ele não estava bem, isso estava claro, e meio que sem perceber ou já tinha saído da estrada na intenção de segui-lo.
— Faz a coisa direito. Quero cantar aleluia quando você voltar. — Alex acenou do asfalto e eu apenas revirei os olhos.
Eu sabia que ajudar o Daryl, não significava nos tornarmos um casal. Na verdade aquilo de "casal" parecia muito longe da nossa realidade.
Porque eu podia não entender muito de relacionamentos, principalmente quando se tratava de relacionamentos maduros, mas eu sabia bem que se jogar nos braços de um homem, quando ele está claramente sofrendo por outra mulher, não era boa ideia. Não faria bem nem pra ele, nem pra mim.
Acho que na verdade eu nem queria me entender com ele naquele momento, eu só queria estar lá... Dizer que estaria ao lado dele e dar apoio de alguma forma. Eu só queria que ele parasse de sofrer, porque isso me machucava...
Eu não entendia bem a dinâmica daquilo, mas eu era nova nesse negócio de empatia, então devia ser assim mesmo.
Contudo, quando eu o encontrei na floresta, encostado em uma árvore, tão imerso na própria dor, que sequer me reparou chegando, enquanto apagava um cigarro na própria mão, eu travei. Tive que reprimir um grito, porque aquilo literalmente doía em mim.
Eu fiquei parada ali, como se fizesse parte da paisagem, uma lágrima grossa rolando pelo meu rosto. E quando ele começou a chorar, de forma tão dolorida e profunda, senti que eu desmoronava, era desesperador e agonizante. Uma parte minha queria correr pra longe, apenas me esconder em algum lugar e chorar até não ter mais lágrimas, como uma garotinha assustada e covarde. Mas outra parte queria correr até ele, envolvê-lo em meus braços e fazer qualquer coisa pra que aquilo passasse. Arrancar aquela dor do peito dele com as minhas próprias mãos. Mas eu continuei parada no mesmo lugar, como se estivesse colada no chão.
Eu estava assustada demais, me sentindo totalmente impotente, doía em mim, mesmo que aquela dor não fosse minha de nenhuma forma.
E de repente importava muito pouco que Daryl estivesse sofrendo por outra garota. O que realmente importava é que ele estava sofrendo e que eu não desejava isso pra ele. Eu simplesmente não podia deixar que isso acontecesse com ele, era uma necessidade tão urgente e avassaladora que eu não era capaz de entender.
Era como se todas aquelas sensações e sentimentos fossem uma avalanche se tornando uma bola de neve, se misturando e fazendo tudo rodar.
Não conseguia explicar. Eu só sabia que a intensidade daquilo me deixava apavorada, porque era como estar em alto mar com um pequeno barquinho no meio de uma tempestade.
Tentei convencer a mim mesma que o lance da empatia era assim mesmo. Ainda que eu não tivesse sentido nada daquilo com a Sasha mais cedo.
Acho que me mexi pra trocar o peso de perna, o que fez um ganho se quebrar sobre o meu pé e alertou Daryl.
Ele se colocou de pé no mesmo instante, passando o braço pelo rosto pra esconder as lágrimas.
— Há quanto tempo está aí? — A pergunta saiu rude.
— Se eu estivesse aqui há mais tempo você teria percebido, não teria? — Respondi sem pensar.
Não pude acreditar que tinha mesmo começado aquela conversa sendo evasiva.
Maldita mania de sempre ter uma resposta na ponta da língua.
— Você está me seguindo? — Daryl estreitou os olhos.
Não respondi. Eu não sabia o que responder na verdade.
— Não importa. Não achei nada. Vai chover logo, melhor voltar. — Continuou, tentando manter a normalidade.
Passou por mim, mas eu o detive. Paramos onde estávamos, ele virado para um lado e eu para o outro, minha mão segurando seu braço. Eu podia sentir a pulsação dele sob os meus dedos. Nossos olhos se encontraram e percebi que os batimentos dele aceleraram, assim como os meus.
Soltei minha mão levemente, fazendo-a escorregar pelo braço dele e parar no ponto exato entre o pulso e mão, muito perto de onde ele tinha acabado de queimar. Daryl acompanhou o movimento com os olhos.
— Eu estou aqui faz um tempo. Você estava distraído, não me viu chegar. — Confidenciei muito baixo.
Me encarou por um momento. Raiva, medo, confusão, vergonha, eu podia ver tudo aquilo nos olhos dele. Daryl nunca me pareceu tão transparente como naquele instante.
— Não quero conversar. — Declarou rude tentando se afastar, mas eu mantive seu pulso seguro de forma mais firme.
Eu não fazia ideia do que dizer. O que se falava pra uma pessoa naquela situação? Como começar uma conversa que a pessoa não quer ter?
Acabei soltando o pulso dele.
Daryl pareceu desapontado de alguma forma, ou talvez fosse só o meu próprio desapontamento refletindo nele.
— Eu queria saber o que te falar agora. Queria mesmo poder falar alguma coisa que acabasse com o que você está sentindo... Mas eu não sei o que dizer, nem o que fazer. Eu quero mesmo ajudar. Mas não sei como fazer isso. — Declarei e percebi o quanto de angustia tinha na minha voz. — Beth era uma boa menina, ela não gostaria de te ver assim...
De repente Daryl pareceu um tanto confuso, como se eu tivesse dito algo totalmente fora do contexto. Até que ele assentiu parecendo perceber algo importante.
— Ela era uma boa garota mesmo, ela era forte, mas tinha esperança. — Comentou de forma saudosa, mas não havia nas palavras dele o sofrimento de momentos atrás.
Contudo eu não percebi isso naquela hora.
— Ela era seu lar... — Constatei neutra. A raiva que eu sentia da Greene mais nova indo embora pelo tanto que eu sabia que Daryl merecia aquilo.
Ainda doía, e muito, que Daryl pudesse nutrir por outra pessoa um sentimento daqueles. Mas percebi que doía apenas em mim, e contanto que ele não sentisse aquela dor, eu podia suportá-la.
— Isso é o que você acha? — Ele perguntou com mínimo sorriso triste, como se aquilo fosse uma ironia.
Eu assenti muito devagar.
— Eu nunca tive lar. — Revelou um tanto frio e aquilo partiu meu coração de todas as maneiras que um coração podia ser partido, a dor dele era minha dor de novo. — Eu tive lugares pra descansar as costas, e tive a prisão, lá era uma casa. Mas acho que nunca conheci essa sua definição de lar, principalmente essa parte de lar ser alguém. Talvez eu nem mereça um lar.
— Você merece sim. — Respondi de pronto, com tanta convicção que até me impressionei com meu próprio tom.
Eu estava segurando a mão de Daryl novamente, no que ele deu alguns passos na minha direção, os olhos presos nos meus.
— Eu não sou pretensiosa a ponto de achar que... que depois de tudo que aconteceu, eu possa ser seu lar. Mas um dia você foi meu porto seguro. Eram dias negros e você estava lá por mim... Então eu só quero que saiba que eu estou aqui por você também. Eu posso ser o seu porto seguro se precisar... se você quiser... mesmo que... —Mesmo que a gente não esteja mais junto. Ficou preso na minha garganta. — Mesmo que as coisas sejam como são agora...
Daryl me encarou de um jeito tão profundo e intenso que eu tremi. Ele simplesmente não respondeu e eu não sabia o que aquele silêncio significava.
Deu mais um passo na minha direção. Eu ainda podia sentir os dedos ásperos dele na minha palma. Acho que foi naquele exato momento, no segundo em que me dei conta que estávamos apenas os dois ali, sozinhos e tão próximos, que eu percebi que eu sentia falta do Daryl desesperadamente. Era como buscar o ar depois de ter ficado muito tempo submersa.
Era como se tudo estivesse fora do foco, só os meus olhos nos dele e nada mais. Como se estivesse presa, me aproximei mais. Eu já podia sentir o calor do corpo dele. Eu tinha apenas que fechar os meus olhos e... Me jogar nos braços de um homem que estava sofrendo por outra mulher.
Dei um passo pra trás no susto, quando a minha mente me acusou sem piedade. Aquilo era um limite, um limite que eu não queria ultrapassar. Um princípio.
Todo meu mundo virou de cabeça pra baixo. Foi como ter uma epifania, como se tudo ficasse claro. Era como se eu estivesse na fazenda de novo, como se eu revivesse tudo aquilo, mas por outro ponto de vista. Pelo ponto de vista do Daryl.
Senti a mão dele escorregar da minha, Daryl deu um passo pra trás, se afastou totalmente, provavelmente vendo a minha cara de assustada. Porque tenho certeza que os meus olhos estavam, no mínimo, arregalados.
— Vem, melhor a gente voltar. Devem estar preocupados. — Chamou com a voz calma.
Voltamos em silêncio, apenas o som de alguns trovões se misturando aos nossos passos. Quando fomos nos aproximando da estrada eu soube que tinha que dizer alguma coisa, ou minhas intenções e meu real motivo de estar atrás dele seriam apagados pela minha última atitude impensada.
— Eu falei sério lá atrás. Você pode mesmo contar comigo. — Reforcei, mantendo a voz o mais estável que pude.
Daryl me fitou uma última vez e assentiu, eu sabia que era o máximo que conseguiria dele. Teria que ser o suficiente...
Mas quando chegamos à estrada o problema era outro. Alguém, que se autointitulou "amigo" tinha deixado várias garrafas de água para nós. Felizmente ninguém estava disposto a confiar naquilo, a não ser o Eugene, mas Abraham o impediu.
E como se fosse pra acalmar os ânimos a chuva caiu. Eu esqueci um pouco os meus dramas com o Daryl e percebi que o que eu tinha dito para o grupo fizera efeito, eles estavam vivendo o momento.
Alex riu, abrindo os braços e a boca em direção ao céu. Enquanto eu apenas fechei os olhos e deixei as gotas geladas caírem no meu rosto.
Quando percebemos que aquilo iria virar uma tempestade, Daryl falou do celeiro perto de onde eu o tinha encontrado. Era realmente um bom lugar pra se abrigar.
Mesmo depois que todo mundo se instalou, eu fiquei um pouco mais do lado de fora, sob o pretexto de usar as últimas horas do dia para captar a água da chuva.
Depois que coloquei as garrafas e alguns baldes que achei no celeiro, eu continuei ali, apenas deixando a chuva cair sobre mim, como se ela pudesse levar embora toda aquela confusão na minha cabeça e no meu coração.
Aquele negócio de empatia era muito complicado...
— Por favor, diga que está chovendo assim porque vocês se beijaram. — Alex surgiu do meu lado e ficou parado na mesma posição que eu.
— Que tipo de garota eu seria se me jogasse nos braços de um cara, sabendo que ele está sofrendo por outra? — Respondi apenas.
— Talvez o tipo de garota que não sabe se ele realmente está sofrendo por esse motivo. Ué...
— Você não o viu Alex. Aquele tipo de sofrimento não era só por perder o lugar em que eles viviam, ou por estar jogado na estrada sem rumo. Ele está sofrendo por alguém.
— Talvez esse alguém não seja a Beth. — Sugeriu, se balançando nos próprios pés.
— E quem mais seria? — Finalmente abri os olhos para encará-lo.
Alex me fez uma careta, me olhou como se eu fosse algum tipo de lesada.
— Meu Deus! Eu desisto. — Revirou os olhos e jogou as mãos pra cima.
Não respondi, acho que acabei me perdendo na bagunça que fora aquele dia todo, imersa demais naquilo pra querer argumentar com Alex.
— Mas tem algo mais, não é? Você não parece preocupada com "vocês dois". — Ele percebeu no meu jeito. Alex era bom em ler as pessoas e era melhor ainda em me ler.
— Acho que é essa coisa de empatia... Essa coisa de sofrer a dor de outra pessoa é como ligar um botão que não pode ser desligado. — Dei de ombros.
— Sofrer a dor de outra pessoa?
— É, sabe? Eu vejo Daryl sofrer, e é como se eu estivesse sofrendo também. Na verdade, é como se eu sofresse mais, porque não aguento vê-lo daquele jeito. — Tentei explicar. — Não faz muito sentido, faz?
Alex me olhou com um sorriso compreensivo. Como se eu tivesse descoberto algo que ele já sabia faz tempo.
— Na verdade faz todo o sentido. Acho que você só não está entendendo, porque está dando o nome errado pra esse sentimento. Empatia é quando você se compadece do sofrimento do outro, como você fez com a Sasha, entendeu que ela estava sofrendo, não fez nada que pudesse piorar aquilo e tentou dizer algo pra ajudar. Sofrer a dor de outra pessoa como se fosse sua, tem outro nome, Charmy... — Explicou calmamente.
A verdade da última frase me atingiu como um soco no estomago, antes mesmo que ele concluísse o pensamento.
Eu sabia o que era aquilo, aquele sentimento imenso e assustador que estava me consumindo... Na minha cabeça eu achava que sentia isso por Alex, por Rick, pela Judy... Mas naquela magnitude e daquele jeito meio insano, era totalmente novo pra mim.
Era como me afogar e querer continuar me afogando, era "querer" em todas as formas. Era a irracionalidade de sofrer a dor de outra pessoa. Era perdoar e respeitar. Era tanta coisa junto e isso explicava muito bem minha confusão.
Eu tinha acabado de perceber que entregara a Daryl Dixon uma arma carregada e estava rezando para que ele não atirasse bem no meu coração...
—... O nome disso é amor.
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