Origins
34 Sentimentos em conflito
Notas iniciais
Daryl Dixon
Proximidades de Washington
"Nós somos os mortos que caminham", foi o que Rick disse enquanto estávamos reunidos ao redor de uma fogueira improvisada, dentro do celeiro que eu encontrara.
Eu não concordei com ele. Foi provavelmente a primeira vez desde que ficáramos amigos...
Talvez, se ele tivesse dito aquilo no começo do dia, eu não poderia ter concordado mais. Pois era exatamente assim que eu me sentia: apenas um morto que ainda caminhava.
Todavia, depois de tudo que acontecera no decorrer daquela tarde... Não sei se era assim que eu me sentia, não mais.
Comecei aquele dia da mesma forma que comecei todos os outros dias nas últimas três semanas. Não. Na verdade, eu ia começando cada dia um pouco pior que o anterior. Como se aos poucos eu estivesse afundando em areia movediça.
Não sei, mas talvez, na última semana eu apenas tivesse desistido de tentar me libertar daquilo, apenas deixei que me tomasse por completo.
Acho que, antes dessas três semanas, eu estava apenas me agarrando a raiva pra continuar. Mas depois daquela missão que fiz com Charlotte e Alex, eu não tinha nem mais a raiva pra se manter na superfície de toda aquela dor. Então eu me afoguei...
Foi impossível continuar sentindo raiva dos dois depois daquele dia. No começo eu criei todas as desculpas pra odiar Alex e Charlotte. Ele era um cretino, idiota. Ela uma traidora. Para mim era inaceitável aquela relação dos dois.
Mas depois daquela missão, depois que Alex salvou a minha vida, depois que eu vi os dois trabalhando juntos. Algo mudou. Percebi que inaceitável mesmo seria se os dois tivessem passado tanto tempo juntos e não tivessem se apaixonado.
Porque eu não conseguia imaginar nenhum cara passando tanto tempo com Charlotte e não caindo de amores por ela. Cada pedacinho dela era apaixonante demais para que um homem não percebesse.
Eu podia entender perfeitamente porque ele se apaixonara. Pelo modo como ela tombava a cabeça para o lado enquanto falava, fazendo o cabelo castanho deslizar pelo seu ombro. Pelos olhos cor de caramelo que podiam sem esforço fazer o mundo parar quando brilhavam, seria impossível não desejar vê-los brilhar mais uma vez, e fazer disso a missão da sua vida. Seria impossível pra qualquer um, e eu não podia culpar o Alex por não ter resistido a isso. Não podia culpá-lo por ver o sorriso dela e desejar que ela sorrisse a cada momento.
E ele era bem sucedido nessa missão, Alex a fazia sorrir mais do que qualquer pessoa. Toda vez que os dois estavam juntos ela sorria, isso era muito mais do que eu a vi sorrir nos tempos da pedreira e da fazenda.
O sorriso que Charlotte entregava a ele era diferente de qualquer outro, era diferente do sorriso que ela dava a Judith, por exemplo.
Acho que no fundo eu tinha inveja dele, mas não raiva. Eu até queria, porque isso me manteria vivo de alguma forma, mas eu não conseguia. Não dava pra ter raiva de um cara de salvou minha vida e que ainda por cima se mostrava tão cuidadoso com alguém que eu amava.
Sim. Eu amava Charlotte. Tinha admitido isso pra mim mesmo há muito tempo. Ela estava morta e negar esse sentimento não era mais necessário. Amar alguém morto era fácil, eu sabia amar pessoas mortas. Mas então ela voltou e aquela certeza ferrou minha cabeça de todas as formas.
Amar alguém vivo era uma merda.
Então cheguei a um momento da vida em que percebi que amava uma garota que estava viva, e por mais que eu a amasse eu não podia simplesmente lutar por aquilo. Pois se eu lutasse por ela isso significaria estar lutando para tirá-la dos braços do Alex.
E quando se ama alguém, queremos sempre o melhor para essa pessoa. Olhando os dois lados da balança eu podia ver perfeitamente qual era o melhor pra ela.
Alex e Charlotte seriam perfeitos em qualquer realidade. Já eu e Charlotte, talvez não déssemos certo em nenhuma.
Não era uma questão de idade ou de beleza, embora Alex com certeza ganhasse de mim nesses dois sentidos também. Era questão da pessoa dele como um todo. Alex era descomplicado, era fácil.
Ela nunca escolheria a mim, eu mesmo não escolheria. Eu era o cara complicado, cheio de cicatrizes e traumas, eu nunca diria coisas bonitas e nem saberia como fazê-la rir, eu sempre teria ressalvas quanto a tocá-la ou demonstrar qualquer carinho em público.
Quando estávamos na fazenda eu pensava que, pelo menos, podia protegê-la. Mas a verdade é que Alex fez isso muito melhor que eu, ele a ensinou a fazer isso sozinha, ele a fez forte.
E quando Charlotte falou sobre lar naquela manhã, eu soube que Alex era o lar dela e ela era o lar dele. Ao mesmo tempo percebi que não compartilhava aquele tipo de conexão com ninguém, eu nunca tinha compartilhado.
Era verdade que eu tinha mudado muito na prisão, Rick e os outros se tornaram minha família, eu me abri mais com Carol do que com qualquer outra pessoa. Eles eram meus amigos, minha família, eu daria minha vida por eles, mas de alguma forma não sentia que compartilhávamos uma conexão daquele tipo.
Acho que na verdade eu sentia falta da outra parte da conexão, afinal por mais que eu até chegasse a considerá-los meu lar, eu não os via precisando realmente de mim...
Naquele momento o problema não foi não ter um lar, o problema foi não ser um lar para ninguém. Talvez eu só quisesse ser importante o suficiente pra alguém.
Eu me sentia inútil e insignificante, e acho que foi isso que me fez fugir pra floresta.
Eu estava morto quando me sentei no chão e encostei na árvore. Não fisicamente, mesmo levando em consideração toda a merda que a gente estava vivendo. Meu problema era outro, uma tristeza e uma angústia que me matavam por dentro.
Queria saber o que era exatamente. Talvez a carga acumulada... Charlotte e Alex. A prisão perdida. A morte de Hershel. A morte de Bob. A morte da Beth. A morte do Tyresse. Estar sem rumo. Era tudo isso e ao mesmo tempo não era nada.
Doía como o inferno.
Eu pensei por um segundo que talvez qualquer dor física fosse melhor que aquela dor interna. Foi quando apaguei o cigarro na mão.
Tudo já doía tanto que aquilo não doeu nada.
Então eu desabei, coloquei tudo pra fora, talvez até coisas que eu pensei que tinha superado, como a morte da minha mãe ou do Merle, ou os anos de abuso por causa de um pai de merda.
Eu chorava por quem eu era, por quem a vida tinha feito de mim e por quem eu nunca poderia ser. Eu chorava porque eu já estava no limite e a situação com a Charlotte tinha sido a gota d'água.
No fim talvez eu fosse mesmo apenas o maricas que o Merle sempre disse que eu era.
E foi quando eu dei de cara com a Charlotte lá. Minha primeira reação foi raiva, eu não queria que ela tivesse dó de mim.
Mas quando ela me segurou e olhou nos meus olhos, eu percebi que não havia dó, ela estava sofrendo, era como se estivesse sofrendo a minha dor. De alguma forma aquilo, aquele simples olhar, mudou meu mundo.
Então ela citou a Beth e eu fiquei confuso, levei um segundo pra perceber que Charlotte realmente achava que eu estava sofrendo pela Beth. E quando ela afirmou com todas as letras que Beth era meu lar, entendi que, de alguma forma, ela realmente acreditava que eu e Beth Greene tínhamos algo mais que amizade.
Quis rir, quis negar, quis dizer que nunca poderia me envolver com outra pessoa, porque era ela que eu amava e mesmo quando achei que ela estava morta eu continuei amando. Que não podia permitir que ninguém tirasse o pouco dela que ainda havia em mim.
Mas não seria justo dizer aquilo. Não seria justo com ela, e nem comigo.
E mesmo assim, de alguma forma, Charlotte estar ali do meu lado, me oferecendo apoio, era uma faísca de esperança. Ela disse que eu já tinha sido o porto-seguro dela e isso por si só já fez minha vida valer a pena. E quando ela disse que queria ser meu porto-seguro, eu senti que estava vivo outra vez. Não era algo que eu podia explicar. Dentro daquele minuto ela foi capaz de fazer toda a dor ir embora...
Eu estava preso nos olhos dela outra vez e eu vi algo ali que não esperava ver: ela estava presa nos meus também.
Era como se aquele momento tivesse durado uma eternidade, e ao mesmo tempo não tivesse durado nada.
Quando Charlotte fechou suavemente os olhos, eu praticamente pude sentir o gosto dela nos meus lábios, antevendo um beijo que eu senti que aconteceria...
Mas não aconteceu. Ela deu um passo pra trás e quando abriu os olhos estava tão assustada que eu entendi instantaneamente qual era o dilema dela: Charlotte sentia algo por mim, isso era óbvio como respirar, mas ela estava com Alex.
Foi isso que eu pensei.
Aqueles momentos finais, enquanto andávamos de volta, e ela me disse que estaria ao meu lado, me fizeram entender algo sobre nós dois, sobre tudo que tínhamos passado na fazenda, e sobre uma de nossas brigas: Ela me dissera, naquela época, que não me queria pela metade, que não queria migalhas de mim. E eu era capaz de entender isso naquele instante, afinal eu estava na mesma situação dela.
Eu a queria do meu lado mais que tudo, porém não a queria daquele modo, pela metade. Mas como eu a julgaria por isso, sendo que uma vez eu lhe ofereci praticamente a mesma coisa?
Acho que a vida tem sempre um jeito de esfregar as coisas na nossa cara...
A chuva continuava caindo sem piedade do lado de fora, enquanto eu apenas andava de um lado para o outro, pensando em tudo aquilo.
Foi quando uma horda começou a forçar a entrada, sem pensar muito joguei meu corpo contra a porta, mesmo sabendo que sozinho eu nunca conseguiria.
Aquela noite, eu vivi um daqueles momentos raros em que percebemos pelo que vale a pena lutar, um daqueles momentos que descobrimos realmente as pessoas que estão ao nosso lado.
Um a um tudo o grupo foi se colocando ao meu lado, cada um deles fazendo tudo que podiam para manter as portas fechadas. Ninguém chamou ninguém, ninguém disse nada. Não foi preciso, nós nos completávamos mesmo no silêncio.
E todo aquele dia terrível, toda aquela dor de semanas, tudo sumiu. Eu percebi que estava errado. Eles eram mais que minha família, eles eram meu lar e eu era o lar deles também.
Não teríamos conseguido uns sem os outros. Mesmo se um de nós apenas tivesse desistido não conseguiríamos. Todos foram necessários. Todos tinham um lugar ali.
Quando acabou, quando a chuva se encarregou de acabar com os corpos do lado de fora, nos espalhamos pelo celeiro sem dizer uma só palavra, cansados demais pra conversar, mas ainda sim com uma expressão de vitória em nossos rostos.
Rick passou por mim com Judith no colo e tocou meu ombro.
— Você estava certo, nós não estamos mortos.
Assenti. Era estranho, a situação ainda era a mesma de horas atrás, mesmo assim algo havia mudado e de alguma forma isso significava muito.
Menos de meia hora depois todos estavam dormindo. Exceto por mim e Charlotte. Eu estava em um lado do celeiro e ela no oposto, encostada na porta, Alex dormia a menos de meio metro dela.
Eu tinha nas mãos a caixinha de música que Carl tinha achado para Maggie, estava quebrada e eu a desmontei para limpar as engrenagens.
Percebi Charlotte se aproximar e tenho quase certeza que o meu coração disparou. Ela simplesmente se sentou do meu lado. Apenas ficou ali calada.
Não era um silêncio constrangedor, na verdade ele era reconfortante. Não trocamos uma só palavra durante todo o tempo em que eu trabalhava.
Por fim a caixinha ficou pronta e sua música calma preencheu o ambiente.
— É para a Maggie. — Falei finalmente e Charlotte sorriu enquanto assentia.
— Eu tinha uma dessas. Shane me deu no meu aniversário de quatorze anos. — Lembrou meio nostálgica. — Eu odiava. Odiava a cor. Odiava a bailarina. Odiava a música. Shane era péssimo em escolher presentes pra mim. Mas agora eu acho que é meio que uma boa lembrança e não uma ruim.
— Merle nunca me deu nada. Nenhum presente. Mas ele pagou meu primeiro porre e minha primeira garota. — Assim que as palavras saíram da minha boca percebi que tinha sido uma coisa constrangedora para se dizer.
Mas Charlotte riu, os dentes perfeitamente brancos a mostra enquanto os fios castanhos acompanhavam o movimento da cabeça dela. Era uma daquelas risadas que ela dava com Alex e eu senti que podia falar qualquer outra besteira apenas pra que ela sorrisse daquela forma outra vez. Ela estava linda.
— Merle era o melhor. — Comentou. — Eu gostava dele.
— Bom, você era a única. — Afirmei, colocando a caixinha ao meu lado.
— Você gostava dele também. — O tom dela ficou um pouco mais sério. — E veja que ironia, quase ninguém gostava do Merle, mas pelo que o Carl disse, ele morreu como um herói. Quase todo mundo gostava do Shane e ele morreu como um vilão.
— Ele não era um vilão. — Neguei e a encarei por um momento. — Ele era um cretino e dava vontade de quebrar aquele nariz torto dele, mas ele não era um vilão.
Charlotte sorriu e continuou olhando pra mim.
— Você devia ir descansar. — Sugeri. Não porque eu queria que ela fosse embora, mas tê-la tão perto era quase um tormento.
— Você também. — Respondeu dando de ombros.
— Estou sem sono.
— Eu estou morrendo de sono, acho que podia dormir por três dias se tivesse uma cama e um cobertor macio. — Charlotte tirou a jaqueta e ajeitou do meu lado como se fosse um travesseiro. Exatamente do meu lado.
Parte da roupa dela ainda estava molhada, pelo tempo que ela tinha passado lá fora na chuva com Alex. Eu podia ver o corpo dela perfeitamente delineado através da regata de algodão.
— Alex vai te procurar quando acordar...
Era muito errado ela ali do meu lado daquele jeito, com o namorado dormindo do outro lado. Eu podia ver o peito dela subir de descer em um ritmo calmo, e aquilo era... demais pra mim.
— Ele vai me ver aqui, o Lex tem um sério desgraçamento da cabeça, mas não é cego não. — Riu, como se fosse uma piada.
Tentei entender o que aquilo realmente significava, mas era como se minha mente tivesse entrado em curto. Tudo em que eu conseguia pensar era na respiração dela, no corpo tão perto do meu, no peito que subia e descia, deixando os seios em evidência, a pele arrepiada por causa do contato com o ar frio.
Merda. Me condenei assim que percebi onde aqueles pensamentos estavam me levando e o que eles tinham feito comigo. Me ajeitei de um modo que a calça não incomodasse tanto e simplesmente desviei os olhos, resistindo a vontade de simplesmente me deitar ao lado dela.
Uns minutos depois ela ressonava levemente e meus olhos ficaram presos nela outra vez. Charlotte era magnética, ela era como luz e eu uma simples libélula atraída pelo seu brilho, eu me sentia orbitando ao seu redor, mesmo sabendo que cedo ou tarde eu acabaria queimado.
Era tão insano assim querer me queimar?
Porque era tudo que eu queria. E já era bem ruim amar aquela garota, mas desejá-la daquela forma doía. Literalmente doía. Certas partes do meu corpo simplesmente não se acalmavam. Eu latejava.
Ótimo. Além de um maricas apaixonado eu também era um maníaco sexual. O que mais faltava?
Joguei meu colete por cima do corpo dela, mas fui incapaz de me afastar, como se eu fosse um drogado, ansioso por qualquer contato com o objeto do meu vício.
Eu queria tocá-la, mas não era o certo.
Era quase irônico que Charlotte fosse a coisa que eu mais queria e também a que eu mais lutava para manter afastada de mim...
Quando amanheceu eu ainda estava acordado, Maggie foi a primeira a se levantar e veio até mim, olhou o corpo de Charlotte do meu lado direito, mas não disse nada.
Ela se sentou do outro lado e trocamos algumas palavras, entreguei-lhe a caixinha de música e ela saiu pouco depois, acompanhada de Sasha.
Achei que o melhor fosse me levantar e me afastar de Charlotte, não que estivéssemos fazendo nada errado. Não estamos. Quer dizer, talvez eu não tivesse tanta certeza assim...
Mas antes que eu pudesse sair do lugar, Alex se levantou. Seria ainda mais suspeito me levantar naquele instante. Que merda eu estava fazendo, afinal?
Como previsto a primeira coisa que ele fez foi procurar pela Charlotte. Demorou dois segundos para que percebesse que ela estava praticamente do meu lado.
— Bom dia. — Cumprimentou normalmente.
Nenhum olhar torto. Nenhum sinal de ciúme ou incômodo. Nada. Ele estava agindo normalmente.
Me levantei e fiquei por ali sem saber bem pra onde ir. O grupo ia aos poucos levantando.
Alex não se aproximou de onde Charlotte dormia, sequer lançou um segundo olhar. Ou aquele cara era muito estranho, ou... Foda-se não é problema meu entender a relação estranha dos dois.
Esse era um dos motivos pra eu não gostar de pessoas e preferir manter todos longe. Essa coisa de viver em grupo era muito complicada.
Ele estava perto de um dos baldes, usando um pouco da água pra lavar o rosto, por algum motivo estúpido eu me aproximei, talvez eu apenas não quisesse que ficasse um clima estranho entre ele e Charlotte por minha causa.
— Estava meio frio ontem a noite então eu... — Mas que porra eu estava falando?
Alex ergueu a cabeça olhou de mim para Charlotte e pareceu perceber do que eu estava falando, ele apenas assentiu como se aquilo não tivesse nada a ver com ele. Na verdade, pude jurar que vi um sorriso quando ele jogou mais água na cara.
Meus olhos foram atraídos para Charlotte no mesmo instante em que ela acordou. A primeira coisa que fez foi reparar no colete sobre ela. Sorriu, e eu senti meu coração se aquecer com aquilo. Então pousou os olhos onde eu estivera noite passada, claramente procurando por mim. Ela procurou por mim primeiro.
Assim que seus olhos cruzaram com os meus ela abriu outro tipo de sorriso, era algo mais discreto, mas que chegava aos olhos e os fazia brilhar, mesmo que ela tivesse abaixado levemente a cabeça como se estivesse com vergonha.
Charlotte se levantou e caminhou na minha direção. Talvez eu pudesse até dizer que ela estava caminhando até o Alex, mas não tinha como, pois olhava diretamente pra mim.
— Oi. — Outro daqueles sorrisos. Eu senti que estava sem ar. Maricas.
— Oi. — Respondi.
— Obrigada. — Charlotte me estendeu o colete.
Assenti em reposta aceitando-o de volta, me lembrando que Alex estava dois passos atrás de mim. Foi quando ela finalmente pareceu reparar nele.
— E aí? — Acenou enquanto colocava a própria jaqueta.
— E ai, bela adormecida? Como se sente? — Ele perguntou no mesmo tom de sempre, nada fora do normal.
Achei que tinha que sair dali, mas os dois estavam literalmente no caminho e eu não tinha como passar sem interromper a conversa ou sem esbarrar em Charlotte.
— Imunda. — Ela debochou enquanto Alex empurrava o balde de água com o pé. — Meu cabelo está três quilos mais pesado de tanta sujeira e tenho certeza que tenho barro em lugares que não deveria ter.
— Pensa pelo lado positivo, dizem que barro é um ótimo produto de beleza... Você com certeza precisa de muito barro pra amenizar essa cara de bruxa. — Alex riu e Charlotte jogou água nele em resposta. — Não é verdade, Daryl? — Me deu um cutucão no ombro como se fossemos amigos de colégio e estivéssemos falando de qualquer besteira.
Eu fui pego totalmente de surpresa, não fazia ideia do que falar, na verdade eu nem sabia que estava naquela conversa, mas Charlotte me olhou naturalmente como se esperasse minha resposta.
Não houve tempo. Maggie e Sasha voltaram e tinha um cara com elas. Foi instantâneo, todos nós ficamos em posição de ataque no mesmo momento. Rodeando o cara como se ele fosse a pior ameaça de todas.
E depois disso, tudo girou em torno dele. Chamava-se Aaron e, pra nossa surpresa, disse que tinha um lugar, uma comunidade segura. Era tudo que queríamos. Mas era bom demais pra ser verdade...
Será que era real?
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