Origins

35 Vamos falar a verdade


Alexander Pierce
Alexandria

Era verdade. Alexandria existia.

E eu não sabia como me sentia sobre isso...

De primeira, quando Aaron apareceu com aquela conversa, eu desconfiei, tinha todos os motivos pra isso. Queria apenas me livrar dele e seguir em frente e vi nos olhos de Charlotte que ela queria o mesmo. Ela não confiava. Não mais.

Mas éramos um grupo agora e em um grupo a maioria vence, eles queriam acreditar, eles precisavam de certa forma. Mesmo assim Rick não facilitou. Ele era o tipo de homem que estava sempre pronto, provavelmente tinha passado por muita coisa. Ele tinha muito a perder para simplesmente abaixar a guarda. Contudo apenas descartar aquilo, quando ele tinha duas crianças pra proteger, não era viável.

Eu o entendia perfeitamente. Rick não podia criar os filhos no meio da floresta, precisava de um futuro pra eles.

Talvez eu tenha passado a admirar o cara. Talvez...

A história de Aaron provou-se verdadeira e encontramos o namorado dele. Acho que ganharam um pouco da minha empatia por isso.

Foram momentos de tensão, com o grupo se separando por um tempo. Mas acabou tudo bem.

Foi durante a noite, pouco antes de entrarmos no trailer e seguirmos para Alexandria, que eu e Charlotte conversamos.

Ela estava em um dilema, ainda tínhamos uma regra: nada de sobreviventes. Mas o grupo de Rick não compartilhava disso com a gente então tínhamos uma escolha a fazer.

Da última vez que paramos em um lugar assim, eu perdi tudo que podia perder. Era uma dor que não curava nunca... Era uma saudade que só crescia.

Eu imagino que, mesmo que Charlotte não estivesse comigo e com Ethan, teríamos parado naquele inferno do mesmo jeito. Ethan tinha esperança demais e nunca deixaria uma oportunidade daquelas passar. Eu não sei o que teria acontecido lá sem a Charlotte, mas sei bem que eu só sobrevivi por causa dela.

Certas perdas são demais pra suportar e eu não suportaria o mundo sozinho, não depois de tê-lo descoberto com Ethan. Ele era o tipo único de pessoa que exalava vida. Perdê-lo seria definitivamente a minha morte.

Mas Charmy estava lá, ela não me deixou desistir, mesmo que ela diga que fui eu quem não a deixou desistir. Ela era mais forte que eu, nunca tive vergonha de admitir isso. Nós tornamos família, um tipo de parceria forte demais pra ser explicada ou entendida.

Estávamos ali um pelo outro, isso era tudo.

Mas eu não tinha muito mais o que perder, de certa forma meu único vinculo era Charlotte, e eu a amava, não como eu amava o Ethan, claro, não chegava nem perto. Eu nunca seria capaz de amar como amava aquele cara. Era uma coisa pra vida toda.

Mas eu amava a Charmy e sabia que ela me amava, se pedisse ela partiria comigo. Ela mesma me disse isso com todas as letras aquela noite, mesmo que eu praticamente pudesse ouvir o coração dela se partindo enquanto as palavras saiam de sua boa.

"Você salvou minha vida de todas as maneiras que alguém pode salvar a vida de uma pessoa. Não seria justo te obrigar a reviver certas lembranças por mim."

Acho que essa frase dela mostrou muito sobre a nossa lealdade.

Mas como eu podia pedir e permitir que Charlotte deixasse aquelas pessoas pra trás? Eles precisavam de nós, e ela os amava. E acima de tudo, Charlotte amava Daryl Dixon. Eu nunca seria um amigo de verdade se deixasse que ela simplesmente virasse as costas para aquele sentimento.

Eu sabia o que era perder alguém a quem dávamos esse tipo de amor.

Então eu fiz a única coisa que eu podia fazer, continuei ao lado dela.

Quando os portões de Alexandria se abriram, não era o lugar que eu esperava. Não era mesmo. O apocalipse parecia simplesmente não ter tocado nada ali ainda.

A líder era uma política, isso explicava muito sobre os métodos dela. Acredito que eu tenha sido um tanto rude na entrevista que ela fez. Mas eu costumava ser rude com as pessoas que eu não conhecia, o grupo de Rick foi apenas uma exceção por causa de Charlotte.

Era interessante ver os papeis que cada um foi assumindo ali dentro. Carol mudou instantaneamente, para uma versão mais dócil e pacifica dela mesmo. Era uma tática maravilhosa para lidar com o inimigo. Entendi porque Charlotte gostava tanto dela.

Daryl ficou ainda mais arisco. Na verdade, toda a minha certeza de que ele e Charlotte haviam se entendido foi por água a baixo. Como é que o cara dorme do lado da menina e não se entende com ela? Exato! Não sei...

Mas que foi divertido deixá-lo constrangido com aquilo, isso foi. Eu vou para o inferno, tenho certeza.

Michonne tinha uma força de outro mundo, e a estava usando pra lutar pelo futuro daquelas crianças como se fossem dela. Eu não conseguia entender como Rick era incapaz de ver isso. Acho que todos ali tinham sérios problemas pra resolver suas questões amorosas.

Talvez por isso eu gostasse de Abraham, ele era descomplicado, um tanto despudorado também, mas isso não chegava a ser um defeito. Eu gostava daquele instinto de lealdade dele com Rosita e Eugene, mesmo que ele estivesse bravo com o último.

Alivio mesmo era olhar para Gleggie, eles estavam juntos e isso era tudo. Simples como todo amor tinha que ser. Os dois pareceram depositar tudo que tinham de esperança naquele lugar.

Charlotte se armou de todas as defesas que tinha, como eu já esperava. Ter que deixar a arma foi o fim da picada pra ela. E pedir pra que ela andasse por aí sem os facões quase a fez enfartar. De alguma forma estar ali acabou tirando o foco dela de Daryl. Segurança era mais importante do que se resolver com o caçador. Eu a conhecia bem pra entender que ela devia pensar que não poderia amá-lo se algum dos dois estivesse morto por causa de uma emboscada naquele lugar.

No primeiro dia Rick pediu que ficássemos todos juntos, todos na mesma casa, mesmo que tivéssemos duas a nossa disposição. Mais uma das atitudes dele que eu apoiei.

Passamos o dia conhecendo o lugar. Parecia seguro e todo mundo ali era irritantemente sociável. Não que eu não gostasse de gente sociável. Eu acho que apenas não confiava mais nesse tipo de pessoa.

Deanna estava distribuindo os trabalhos. Aparentemente todo mundo tinha que ter um. Eu e Charmy caímos juntos em um grupo de ronda que não estava em Alexandria no instante. Era liderado por um homem chamado Heath.

Vi Charlotte suspirar aliviada e acho que fiz o mesmo, eu podia prever a terceira guerra mundial se aquela mulher mandasse um de nós dois lá fora sem o outro.

— O que achou desse lugar? — Ela perguntou enquanto andava ao meu lado.

— Ainda estou com um pé atrás. Acho que sempre vou estar. — Fui sincero.

Charmy assentiu. Ficou claro que ela compartilhava da mesma opinião que eu.

— Parece um filme de terror. — Comentou colocando as mãos nos bolsos.

➷•➷•➷•➷•➷

A melhor parte de Alexandria com certeza foi o banho quente. Mas essa foi a pior parte também. Por que de alguma forma aquilo me lembrou Ethan mais do que qualquer outra coisa. Acho que foi só quando a água tocou meu corpo que eu realmente me dei conta que Eth amaria aquele lugar. Ele se encaixaria ali como ninguém mais.

Eu fechei os olhos e pude vê-lo perfeitamente. Eu ainda podia ouvir a voz dele dizendo que cair na minha lábia tinha sido a pior escolha da vida dele. Ethan tinha certeza que um dia eu simplesmente enjoaria dele e iria embora, então ele ficaria deitado no chão frio e molhado sentindo a minha falta. Eu teria roubado toda a inocência dele e ido embora e ele nunca mais seria o mesmo.

Ethan tinha uma veia dramática muito aflorada. Me peguei sorrindo com a lembrança. E, só pra constar, ele já não tinha inocência nenhuma quando eu o conheci, era só pose...

Era irônico que no fim Ethan tivesse me deixado e eu era quem nunca mais seria o mesmo.

Aaron me lembrava um pouco dele, com aquela fé quase cega nas pessoas, aquela coisa de pensar que todos podiam ser bons de alguma forma e aquela boa vontade com todo mundo. E talvez essa fosse uma das principais razões pra eu evitar o cara. A gente evita aquilo que nos machuca.

Para Charlotte a melhor parte também foi a água quente, não só porque ela era uma tomadora de banhos compulsiva e passou quase uma hora no banheiro, mas porque Rick finalmente tinha cortado a barba e isso a deixou em jubilo.

Contei pelo menos uns cinco beijos que ela deu na bochecha dele.

Rick Grimes era um novo homem sem aquela barba. Um novo homem muito bonito, diga-se de passagem.

E isso não passou despercebido, nem pra Michonne e nem pra ninguém. Até Deanna notou. Não tinha mesmo como não notar.

— Você devia cortar a barba também. — Carol apontou pra mim da cozinha. Ela fazia algo que eu adivinhei serem cookies.

— Eu preciso da barba, sem ela minha cara de mal já era. — Respondi de bom humor, me sentando do outro lado da bancada central da cozinha.

Ela apenas deu uma risada discreta enquanto continuava o que estava fazendo.

Encarei Daryl, ele estava na sala, sentando no beiral da janela, encarando a escuridão como se houvesse algo realmente interessante lá fora. Ele não pareceu empolgado com a água quente, ou com o banheiro, ou com nada ali. De alguma forma aquele lugar o deixava ainda mais distante e fechado em si mesmo. E o pior de tudo, pareceu afastá-lo ainda mais de Charlotte.

Eu odiava Daryl algumas vezes, por ele ser tão complicado. E estava começando a odiar a cabeçuda da Charlotte por estar indo no mesmo caminho. Mentira, eu nunca seria capaz de odiar aquela teimosa. Mas deu pra entender, não é?

No segundo dia as coisas meio que saíram do controle, uma briga entre Glenn e Aiden o filho petulante da Deanna, Daryl se atracou com outro cara chamado Nikolas e foi quando soubemos que Rick e Michonne seriam algo como policiais do lugar.

Era meio estranho que Deanna tivesse confiado tão facilmente na gente. Eu sentia que tudo estava indo bem demais pra simplesmente permanecer assim.

Foi depois disso que Rick decidiu que nós instalaríamos de vez e eu decidi que era hora de fazer alguma coisa. Se fosse realmente depender de Daryl Dixon e Charlotte Walsh os dois nunca se entenderiam, e como eu não sabia quanto tempo aquela calmaria ia durar, precisava que eles se entendessem logo. Não era uma chance que dava pra desperdiçar.

Sei lá. Eu sou um cara meio ansioso mesmo. Pode me culpar por isso. Por toda a vida eu sempre fui muito decidido, se eu queria uma coisa, ou alguém, eu apenas ia e pegava. Simples.

Eu já tinha feito muita coisa na vida, bancar o cupido não era uma delas, mas eu dava um jeito. Eu era foda pra caralho.

Quando desci as escadas Charlotte estava na cozinha, três facas pequenas sobre o balcão.

— Grandes demais pra minha bota. — Resmungou colocando-as de volta no faqueiro.

— Você pode pedir a sua de volta pro Daryl... — Comentei me aproximando e ela me encarou como se eu tivesse algum tipo de deficiência mental.

— Okay, não então. — Ergui as mãos. — E falando no diabo, onde ele está?

— Saiu com Rick e Carol. — Havia preocupação na voz dela e eu não levei meio segundo pra perceber isso. —Acho que estão planejando algo e eu não consigo decidir se isso é bom ou ruim.

— Eles estão se precavendo. Não é de todo ruim...

Charlotte assentiu. Ela estava tensa. Aquele lugar fazia isso com ela.

— Mas não quero que se preocupe com isso hoje. Vai ter uma festa e eu quero que vá e se divirta, talvez você até ganhe uma dança com um certo caipira.

Assim que eu terminei a frase Charlotte caiu na risada, mas era algo totalmente sem graça.

— Ele nem tomou banho ainda, duvido que vá a uma festa e duvido mais ainda que ele dance. Na verdade, eu acho que ele nunca dançou na vida. — Ela soltou todo o ar dos pulmões de uma só vez. — Às vezes eu penso que ele simplesmente vai colocar a crossbow nas costas e vai embora... Ele não se encaixa aqui, e eu nem sei se ele quer se encaixar.

— Ele nunca iria embora, por mais que se sinta deslocado aqui ele não vai abandonar o grupo. Ele não vai abandonar você. — Enfatizei a última palavra pra ser se Charmy se tocava.

Ela moveu a cabeça em negativa algumas vezes, se apoiando na bancada e encarando o tampo de mármore como se houvesse alguma verdade universal nas manchas escuras da pedra.

— Eu estive pensando, na primeira vez que nos entendemos e no quanto ele abriu mão dele mesmo por mim... Tenho pensado nisso constantemente e percebi que eu não fui muito justa quando o deixei fazer isso, e fui menos justa ainda quando não reconheci a importância que tinha. — Ergueu a cabeça pra me encarar, ela estava um tanto pálida e trêmula. — Eu... Eu acho... Acho que ele... Me amava. — Pronunciou as palavras aos trancos, e havia tanta dor ali que era como se alguém estivesse enfiando uma faca no peito dela.

— Isso é ótimo, não é? — Respondi empolgado, fingindo não ter visto a dor dela com a descoberta.

— Eu o deixei, Lex, eu não o procurei, eu podia ter tentando e sei que o encontraríamos se eu quisesse. Mas eu não quis. Eu o abandonei e ele me amava. Por minha culpa ele sofreu a morte de alguém que amava. Você sabe exatamente como é isso, então não tente me acalmar dizendo que é pouca coisa.

Engoli em seco. Não era pouca coisa. Era a pior dor de todas. Era fazer planos em um dia e no outro descobrir que o futuro não existia. Era cruel e eu não podia fingir que não era.

— A diferença entre Daryl e eu, é que eu nunca vou ver a pessoa que eu amo voltar. Tudo que ele sofreu não importa agora, porque você não está morta, você está aqui, ao alcance das mãos dele. — Apontei fitando-a com todo o apoio que eu consegui reunir.

Charlotte abaixou a cabeça de novo.

— Talvez ele não me ame mais. Talvez seja um castigo de Deus, quando ele me amava, eu não sentia o mesmo, e agora que eu o amo, ele não sente o mesmo.

— Esse argumento é absurdo. Você nem acredita em Deus, lembra? — Brinquei, porque precisava ameninar aquele clima.

— Vai ver é um castigo duplo por eu não acreditar. — Deu de ombros sem rir.

Segurei a mão dela entre as minhas, fazendo-a olhar pra mim.

— Ele ainda te ama, Charmy, ouso dizer que ele ama ainda mais que naquela época. — Declarei com toda a convicção que eu tinha.

— Como você tem tanta certeza? — Perguntou mantendo os olhos em mim.

— Por que esse tipo de amor nunca morre...

Ela sorriu meio sem graça, daquele jeito que ela tinha quando ficava com vergonha de algo, o sorriso que ela dava pra Daryl às vezes.

— Eu ainda acho que você devia falar com ele. — Tentei de novo. Alguém devia me dar um prêmio por nunca desistir.

— Eu não faço ideia do que dizer... — Apoiou a cabeça nas mãos.

Charlotte estava na convergência entre "velha solteirona", "um porre de pessoa" e "rainha do drama". Às vezes eu realmente acreditava que os céus tinham me enviado pra ela, porque qualquer outra pessoa simplesmente já teria atirado na cabeça daquela menina.

Eu mesmo já quis fazer isso umas nove vezes desde que nos juntáramos ao grupo de Rick...

Me levantei e me afastei um pouco, olhando por cima dos armários e da pia.

— Me diz uma coisa, Charmy, quando você e o Daryl finalmente se entenderem, e as coisas começarem a esquentar, você também vai ficar nessa de "não sei o que fazer"? — Debochei enquanto encontrava uns dos cookies que Carol tinha assado.

— Não é engraçado. — Ela revirou os olhos e cruzou os braços.

— Na verdade é sim. — Eu ri e Charmy ameaçou jogar uma das facas na minha cara. Óbvio que eu ri mais ainda.

— Acho que sua única escolha é aproveitar as mordomias desse lugar e ficar linda e maravilhosa para essa festa. Vocês são péssimos nesse negócio de conversar, então vamos ter que torcer para o Daryl perder o controle quando te ver. — Dei de ombros como se não fosse nada demais.

Charlotte fez uma careta, mas percebi que ela realmente tinha ponderado aquilo.

Minutos depois, Michonne desceu as escadas com a sua nova roupa de policial, parecendo com problemas para amarrar uma longa fita que compunha a parte traseira da jaqueta.

— Eu amarro. — Charlotte ofereceu em um tom ameno.

As duas começaram uma conversa totalmente normal. Nada de alfinetadas, nada de educação forçada. Nada de nada. Pareciam, na verdade, amigas desde sempre.

Eu não sei bem quando resolveram se entender. Talvez quando Charlotte percebeu que a Michonne era a mulher certa pra Rick. Mas era um alivio que estivessem de boa, menos uma coisa pra eu ter que me preocupar.

Deixei as duas sozinhas e saí. Ainda tinha um plano pra colocar em prática.

Encontrei Spencer pelo caminho. Ele era o filho menos insuportável de Deanna. Ficou puxando conversa comigo por um tempo, me rodeando como se quisesse perguntar alguma coisa. Eu realmente não entendia a dificuldade que as pessoas tinham de ser diretas. Minha nossa a porra do mundo acabou, vá direto ao ponto.

— Então, você e a sua namorada vão a festa mais tarde, não é? — Ah claro, ele queria saber da Charmy, mistério resolvido.

Era aquela velha coisa de jogar verde pra colher maduro. Queria que Daryl tentasse uma coisa dessas, facilitaria muito o meu serviço.

— A Charlotte não é minha namorada. — Falei de uma vez e os olhos do cara até brilharam. — Ela é namorada do Daryl Dixon. — Já disse que eu vou para o inferno? Pois é, eu vou mesmo.

Spencer murchou como uma bexiga velha, confesso que eu tive que me controlar para não rir, eu era uma pessoa maléfica, mas ninguém precisava saber disso.

Ele ainda tentou falar mais algumas coisas, porém a conversa não durou muito. Spencer foi se afastando com os ombros lá em baixo e eu praticamente podia sentir o fogo do inferno me queimando. Mas eu estava muito alegre e isso era um grande consolo.

Dei de cara com Rick perto do portão, no momento em que ele se separava de Carol. Aquele homem ficava muito bem de farda.

— Tudo bem? — Perguntou meio desconfiado.

— Tudo sim, por quê?

— Você parece feliz...

— Eu estou, acho que acabo de fazer uma boa ação. — Respondi dando de ombros. — Você viu o Daryl?

— Ficou lá fora, acho que caçando.

Assenti e continuamos nossos caminhos, dois passos depois e dei meia volta.

— Rick? — Chamei e ele parou pra me encarar. — Eu estou com você.

— Desculpe, não entendi. — Colocou a mão na cintura, em uma pose que, eu já percebera, era a marca registrada dele.

— Entendeu sim.

Rick assentiu, sorrindo meio de lado e me provando que eu estava certo, eles tinham um plano preparado para caso as coisas não fossem só flores em Alexandria.

— Por quê? — Perguntou ainda no mesmo lugar

— A melhor defesa é o ataque, e eu não me arisco mais. — Respondi muito calmo.

— Bom saber. — Foi a única coisa que ele disse antes de se virar.

Estar preparado era importante. Eu podia curtir o lugar sem abaixar a guarda. Era quase como ser um agente duplo.

Cúpido e agente secreto. Acho que eu estou com muito tempo livre.

Saí da proteção de Alexandria, depois de pegar uma pistola no arsenal. Não foi tão fácil encontrar o rastro de Daryl, ele se movia discretamente na floresta. Era um bom caçador. Mas eu era bom também, então menos de meia hora depois eu o avistei ao longe.

Fiz barulho propositalmente e ele me notou. Ficou surpreso, mas tentou fingir que não.

— E aí? Coincidência, não? — Menti com um sorriso falso.

Daryl me encarou como se eu fosse tapado. E eu continuei seguindo-o pela floresta.

— Então, o que está fazendo? — Perguntei baixo, era bem óbvio que ele estava caçando.

— Caçando. — Respondeu de mau humor.

Algo sobre Daryl Dixon é que ele parecia estar sempre de mau-humor. Sempre me perguntei se ele era assim mesmo, ou se era só falta de sexo. Torcia pela segunda opção, assim o problema acabaria logo.

— O que está achando de Alexandria? — Indaguei, antes que ele me deixasse pra trás.

O caçador deu de ombros apenas. Ele não estava à vontade no lugar, isso era claro como água, não era uma coisa que se precisava perguntar.

— Tá legal. Chega. Não sei como você e a Charlotte conseguem fazer isso. É irritante. — Desabafei e Daryl finalmente me encarou intrigado. — Sabe, essa coisa de ficar comendo pelas beiradas, não falando o que quer falar logo... Foi mal não sirvo pra isso. Não é coincidência nos encontrarmos aqui. Eu te segui, preciso falar com você.

— Sobre? — Perguntou desconfiado, enquanto eu andava de frente pra ele.

— Sobre a única coisa que temos em comum, a Charmy, é claro. — Afirmei como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Nós não...

— É, vocês não têm nada, estou sabendo. — Ergui as mãos. — Esse é exatamente o problema! — Daryl praticamente deu um passo pra trás, totalmente surpreso. — Vocês dois são os protagonistas de uma novela mexicana muito ruim. Já assistiu novela mexicana? Só tem lenga-lenga, vai por mim, você não quer algo assim na sua vida. Não, não.

Daryl ficou parado, me encarando, provavelmente tentando entender se aquilo era uma piada.

— Olha só, eu vou ser direto, é assim que eu sou. De complicação já basta vocês dois. Ela gosta de você, você gosta dela. Ela não dá o primeiro passo porque acha que você não gosta mais dela por causa da Beth. — Eu despejei de uma vez e ele chegou a abrir a boca pra falar, mas eu o interrompi. — É eu sei, você e a irmã da Maggie não tiveram nada, provavelmente a Charlotte sabe disso também, mas ela não vai acreditar realmente a não ser que você fale. Não tenta entender, só aceita.

Encostei em uma das árvores. Não que eu esperasse por uma reação, mas era quase cômico ver Daryl digerir aquilo, e o melhor de tudo é que eu não tinha acabado ainda.

Eu não sabia se eu ia para o céu por estar bancando o cúpido, ou se eu ia para o inferno por estar me divertindo às custas do caipira mais tapado do fim do mundo.

— Agora vamos ao outro lado da história. Você não fala com ela, porque acha que ela e eu estamos juntos. Bom... Surpresa, surpresa: Não estamos. Nunca estivemos e nunca estaremos. O motivo é bem simples: É de você que ela gosta. — Fui enfático. E falar tudo aquilo foi libertador. Foi como tirar um peso das costas.

Claro que eu tinha tirado o momento glorioso da Charmy, porque ela ter falado tudo aquilo seria muito mais impactante e maravilhoso. Mas vamos ser sinceros aqui, okay? Ela nunca falaria. A menos que um deles estivesse no leito de morte, o outro nunca abriria a boca. Então eu abri. Não era o ideal, mas foda-se, o mundo tinha acabado, o "ideal" não acontecia com tanta frequência assim.

— Pronto acabou nosso papinho. Era só isso aí mesmo. Foi divertido. Devíamos fazer mais vezes. — Acenei me despedindo e caminhando de volta.

— Você não tem que fazer isso. — Daryl declarou, quando eu estava há uns dez passos de distância. — Eu sei que gosta da Charlotte, você não tem que abrir mão dela.

Acho que não foi muito educado, mas eu dei meia volta e ri da cara dele. Não foi educado e também não foi muito seguro, tenho quase certeza que Daryl quis atirar uma daquelas flechas na minha fuça. Se eu fosse parar no inferno por causa de uma flechada não seria divertido.

— Daryl Dixon você é muito idiota. Sem ofensas. — Me apressei em retificar. — Claro que eu gosto da Charmy, ela é minha amiga. Mas se está se referindo a algo mais que amizade, tenho que dizer que você está redondamente enganado, colega. — Coloquei as mãos nos bolsos e dei de ombros. — Eu gosto de caras, isto é, homens, com pênis e tudo o mais, sabe?

Uma pena eu não ter uma câmera pra tirar uma foto do caipira naquele momento...

Notas finais
Alex representando todo mundo aqui e esfregando a verdade na cara do Daryl literalmente, eu amo demais esse cara, ouso dizer que é o personagem de quem eu mais vou sentir falta. Agora, muitas de vocês já tinham percebido a sexualidade do Alex, a pergunta é, alguém foi pego de surpresa? Vamos ver se finalmente o Daryl toma uma atitude neh kkkkkkkkkk #VaiQueÉTuaDaryl Escrevendo esse cap, percebi que o Alex é o personagem mais shippavel dessa fic, pq eu facilmente shippei ele com o Rick, com a Carol, com o Abraham com o Aaron e até com o Spencer kkkkkkk acho que eu tenho desgraçamento da cabeça kkkkkkk E queria terminar essa nota dizendo: Alex eu te amo. Bjss e até o próximo (quem vcs acham que vai narrar?)