Origins

36 Quem eu sou e quem você quer ser


Notas iniciais
Hello, Hello minhas lindezas *--* Quero começar dizendo que não tenho palavras pra agradecer todo mundo que comentou no cap anterior, vcs são lindas demais e assim dá vontade de não acabar essa fic nunquinha s2 Esse cap demorou mais que o esperado pq eu o escrevi pelo ponto de vista da Char, mas percebi que não era bem isso, apaguei e escrevi narrado pelo Daryl, tinha que ser ele não teve jeito kkkkkkk Espero que gostem tanto quanto gostaram do outro. Boa leitura.

Daryl Dixon
Alexandria

Eu estava em choque. Um cara não devia entrar em choque, mas acho que era exatamente assim que eu estava depois das palavras de Alex. Ele tinha acabado de falar que...

Não era possível. Eu devia ter entendido errado. Abri a boca umas duas vezes, mas nada saiu. Eu estava literalmente sem palavras.

— Ethan era meu namorado. — Alex explicou, depois que eu fiquei mais tempo do que o aceitável calado. — A tatuagem no meu braço e no da Charmy é pra lembrar uma promessa que fizemos enquanto ele morria nos meus braços. Prometemos nunca desistir, nunca parar de nos impor como leões, lutar como tigres e sermos espertos como raposas.

— Sinto muito. — Quase respirei aliviado quando algo coerente e apropriado saiu da minha boca.

Aquela era com certeza a situação mais louca de toda a minha vida.

Alex não respondeu, como se compartilhar aquela lembrança comigo fosse doloroso demais.

— Perder alguém que amamos é uma dor que nunca acaba, e acho que você sabe disso. Então só... Aproveite todas as oportunidades de dizer tudo que você quer, antes que seja muito tarde pra isso... — Deixou a frase no ar e ficamos nos encarando por um momento, até que eu sentisse o silêncio ficar desconfortável entre nós. — É isso aí. — Voltou ao tom bem humorado que usava habitualmente. — Vai que é tua Daryl Dixon, depois você me agradece.

Apenas deu meia volta e acenou antes de sumir entre as árvores.

Fiquei parado no mesmo lugar, minha cabeça montando todas as peças e eu vendo aquela situação como um todo pela primeira vez. Talvez ele estivesse certo... Eu tinha mesmo complicado as coisas. Eu sabia que Charlotte pensava que eu e Beth estivemos juntos e não desmenti isso. Eu percebi que a relação dela com Alex era "diferente" e me recusei de enxergar a verdade.

O certo seria eu ter voltado imediatamente, ter corrido até Charlotte e ter resolvido aquilo. Mas eu não o fiz. Apenas continuei andando pela floresta.

Pela primeira vez em toda a minha vida eu estava com medo...

Pois pra resolver as coisas com a Charlotte eu teria que conversar com ela realmente, e eu não sabia se podia fazer isso. Não sabia se podia me abrir daquela forma.

Resolver as coisas e depois o quê?

Eu nunca seria como Maggie e Glenn. Eu não era esse tipo de cara.

E acima de tudo, mesmo que Alex tivesse dito que Charlotte gostava de mim também, eu não acreditava realmente. O que uma garota daquelas veria em mim? Eu não tinha nada pra oferecer, principalmente quando já estávamos seguros dentro daqueles muros...

Eu não fazia ideia do que fazer. Eu estava perdido. Novamente eu era aquele garotinho na floresta. Sozinho. Assustado...

Alguns minutos depois outra pessoa estava me seguindo. Aaron, o cara que tinha nos trazido a Alexandria.

Aquele era outro que gostava de ficar falando sem parar, assim como Alex, a diferença é que Aaron não levava muito jeito com o humor, ele até tentava, mas acabava sempre com piadas sem graça.

Não sei bem como, quando vi já o estava ajudando a capturar um cavalo negro. Enquanto seguíamos o rastro do animal, Aaron pareceu saber exatamente o que eu estava vivendo, o dilema de não me encaixar em Alexandria.

Fiquei pensando se eu era tão transparente, ou se os caras gays tinham esse dom natural de ler as pessoas. Eu não tinha contato com esse outro lado do mundo, Merle era um cara preconceituoso que afastava, humilhava e detonava qualquer ser vivo diferente pelo caminho. Negros eram inferiores, homossexuais eram inferiores, mulheres também e, na verdade, até outros homens, que não compartilhavam da filosofia de Merle, eram inferiores. Eu mesmo era inferior.

Pelo modo como fui criado eu devia odiar as minorias, mas de algum jeito eu não odiava. Eu não odiava T-Dog ou Michonne, eu não odiava Aaron ou Alex. Na verdade, eu gostava deles, de todos eles, mesmo dos dois últimos, o que era algo estranho pra se pensar.

Eu não sabia dizer se era um cara preconceituoso. Acho que pessoas preconceituosas não sabem que o são, até que alguém diga isso. Mas sinceramente não via diferença entre mim e Alex, Aaron, Michonne ou T-Dog.

Na verdade, se fossemos colocar na balança, eles provavelmente eram melhores que eu. Todos eles. Ou vai ver éramos só diferentes...

De repente me peguei pensando que seria engraçado ver Merle interagir com o Alex, os dois provavelmente seriam inimigos mortais, ou amigos. Era uma linha muito tênue. Mas eu sabia com certeza que Alex nunca abaixaria a cabeça para o meu irmão, e talvez ele até lhe ensinasse algumas coisas e abrisse os olhos daquele turrão para a realidade do mundo.

Alex certamente tinha aberto meus olhos, isso sem dúvida.

A tarde terminou, conosco sendo atacados por errantes e perdendo o cavalo definitivamente. Ver aquele bonito animal ser devorado me fez enxergar que não importava o quanto as coisas parecessem bem, elas podiam acabar mal em um piscar de olhos...

Quando entrei pelos portões, ao lado de um Aaron não tão conformado de perder o cavalo, as palavras dele ainda ecoavam na minha cabeça.

Eu só tinha que tentar.

Quando cheguei em casa não tinha ninguém. Presumi logo que todos estariam na tal festa que a líder do lugar daria em nossa homenagem.

"Nossa homenagem" talvez fosse abrangente demais, afinal a mulher tinha dado um trabalho para todo mundo, menos pra mim. Talvez ela não acreditasse que eu me encaixasse naquela utopia dela. Nem eu acreditava...

Apenas tentar. Repeti pra mim mesmo.

Decidi que pararia de me esconder e iria à merda da festa. Tomei um banho quente e entendi porque o grupo tinha gostado tanto daquilo.

Charlotte tinha gostado.

Talvez ela estivesse na festa. Eu achava que aquele era o tipo de lugar onde ela gostaria de estar. Uma vida normal.

Até tentei procurar uma roupa melhor, mas acabei com as de sempre, pelo menos estava limpa... Eu ainda era eu, isso não ia mudar. Será que tentar era inútil?

Mesmo cheio de perguntas sem resposta, eu caminhei até a casa da Deanna.

Porém quando olhei as pessoas nas janelas, conversando alegremente, socializando e sendo normais, eu travei. Aquilo não era pra mim. Nada daquilo. Eu não me encaixava ali.

Foi naquele momento que eu vi o quanto eu e Charlotte éramos diferentes, ela estava lá dentro, eu não a tinha visto, mas sabia que estava.

Ela merecia melhor, ela merecia alguém que tinha um lugar naquele mundo...

Voltei caminhando entre as ruas escuras, era como se todos estivessem na porcaria da festa. Mesmo Rick e Carol tinham ido. Eles tinham um plano, estavam se armando, se precavendo.

Eu estava com eles, mesmo que achasse aquele método de agir por debaixo dos panos errado...

Uma das luzes se acendeu e Aaron apareceu na varanda. O desgraçado não tinha ido à festa, Eric, o namorado dele ainda não estava com o tornozelo recuperado e não pôde ir. Coisa que o primeiro pareceu achar muito bom. Eu o achei um tanto hipócrita por me mandar tentar ir à festa quando ele mesmo não iria.

Quando ele me disse que o que valia era a intenção e me convidou pra jantar não sei bem por que fiquei. Mas foi um jantar agradável e graças a Eric, que não parou de falar um minuto, acabei descobrindo o porquê de Deanna não ter me dado um trabalho ainda.

Aaron me queria com ele do lado de fora recrutando pessoas, queria que eu consertasse uma moto que ele tinha na garagem e virasse um recrutador. Era uma proposta inusitada. De pronto pensei que ele apenas estava me usando por não querer arriscar a vida do namorado, mas percebi que ele tinha me escolhido porque me achava capaz. Ele confiava em mim...

Eu aceitei. E ter um lugar ali dentro mudou um pouco minha forma de ver aquilo tudo. Ser útil e ter um trabalho, que tinha sido escolhido especialmente pra mim, não eram coisas que eu esperava de Alexandria.

Pela primeira vez percebi que talvez as pessoas não me vissem como eu me via. Talvez eu não fosse o que eu mesmo pensava de mim. Talvez eu fosse melhor...

— Então se você quiser vir mexer na moto amanhã... Fique à vontade. — Aaron comentou parado comigo na varanda. Eu estava me preparando para voltar pra casa. — Talvez em dois ou três dias possamos sair e dar uma volta aqui por perto, só pra... — Ele parou e acenou para alguém. — Olá, Charlotte, boa noite.

Eu tinha ouvido o barulho de algo como salto ecoando quando batia no asfalto, mas não me virei para ver quem se aproximava, não até ouvir o nome.

Quando o fiz meus olhos ficaram presos na silhueta feminina que descia pela rua. Eu tinha quase certeza que meu cérebro tinha virado geleia, talvez eu estivesse de queixo caído. Talvez eu estivesse até mesmo babando. Vergonhoso.

— Você estava muito bonita. — Aaron elogiou com naturalidade e eu me perguntei como ele tinha conseguido formular aquela frase, quando eu provavelmente tinha esquecido o meu próprio nome.

O elogio era uma verdade, mas também era uma mentira cruel, pois dizer que Charlotte estava "bonita" era uma injustiça. Não havia palavras pra descrevê-la. Ela estava... perfeita, como um anjo.

Seus olhos cor de caramelo pousaram em mim, um segundo antes que ela agradecesse, e o seu rosto delicado parecia uma obra de arte, com aquela maquiagem muito sutil, o cabelo meio preso, os fios soltos levemente cacheados desciam pelo pescoço e ombros. Usava um vestido preto com alças finas e um decote discreto que lhe emoldurava perfeitamente o busto. O tecido marcava sua cintura fina e descia rodado até metade das coxas, curto demais pra que eu conseguisse manter a minha sanidade.

Eu nunca a havia visto de vestido, de salto, ou qualquer uma daquelas coisas, e Charlotte não precisava delas pra ser linda. Mas naquele instante eu tinha que admitir que ela era a visão de todos os meus desejos, dos mais puros até os mais devassos.

— Então o que achou da festa? — Aaron perguntou amigavelmente.

— Quer que eu diga a verdade ou que eu minta? — Riu meio sem graça, colocando uma das mechas soltas atrás da orelha.

— Pode dizer a verdade. Prometo não contar pra ninguém. — Aaron piscou.

— Bizarra. Foi isso que eu achei da festa. — Ela deu de ombros e parecia um tanto cansada.

— Eu sei como é. — Ele riu divertido.

Charlotte voltou os olhos pra mim, e eu ainda estava exatamente na mesma posição a admirando. Ela baixou um pouco a cabeça e pareceu um tanto constrangida quando passou uma das mãos pelo braço.

— Bom... Nós nos vemos por aí então, boa noite. — Se despediu de Aaron e continuou seu caminho.

— Então, como eu estava dizendo... — Aaron comentou, mas eu o interrompi.

— Podemos terminar essa conversa amanhã? Eu vou... — Apontei Charlotte e Aaron assentiu como se entendesse, se despedindo de mim com um breve "boa noite".

Apressei meu passo, Charlotte seguia menos de meio metro na frente, o vestido balançando sinuosamente, me deixando perdido naquela visão por mais tempo do que o apropriado.

Assim que me percebeu alguns metros atrás dela, Charlotte se deslocou um pouco para direita, abrindo espaço pra mim ao seu lado e diminuindo a velocidade para que eu a alcançasse.

— Oi. — Cumprimentou quando eu estava a alguns passos dela.

Acenei com a cabeça, tinha perdido as palavras em algum lugar do meu cérebro em curto.

Não consegui tirar os olhos dela pelos próximos dez passos. Que tipo de babaca você é Dixon?

— O que? Tem alguma coisa na minha cara? — Perguntou, franzindo as sobrancelhas e passando a mão pelo rosto. Neguei apenas. — Ah... Estou ridícula, não é?

— Não está... — Foi o que consegui dizer.

Porra! Qual era a dificuldade de dizer que ela estava linda. Tão linda que eu queria entrar em uma daquelas casas vazias e arrancar aquele vestido dela.

Não se fala uma coisa assim pra uma garota, fala?

— Em minha defesa foi ideia do Alex. — Sorriu erguendo as mãos. — Ele achou que seria uma boa ideia: vestido, salto, festa... Parecia no começo, mas acho que percebi que não consigo voltar a ser a Charlotte sociável de antes. Eu não me encaixo mais.

Aquilo me pegou de surpresa, Charlotte era a última pessoa que eu pensaria que não conseguiria se encaixar ali.

— Eu sei como é... — Dei de ombros. — A diferença é que eu não me encaixava antes e continuo não me encaixando agora.

— Por isso você não foi? — Ela me fitou por um momento e eu me perdi nos olhos dela. — Senti sua falta...

As palavras dela fizeram tudo se revirar em mim, ferver. Tropecei nos próprios pés como o idiota que eu era, e Charlotte segurou o riso.

— Sabe o que dizem: Dois deslocados juntos não ficam realmente deslocados. Se você estivesse lá, eu não precisaria esperar o Alex ficar preso com a senhora da máquina de macarrão pra conseguir fugir.

Chegamos em casa e Charlotte subiu os poucos degraus da varanda na minha frente.

— As pessoas dizem isso? — Perguntei, por nunca ter ouvido nada parecido.

— Não. — Ela negou divertida, virando pra me encarar. — Eu acabei de inventar. — Riu e foi como se as estralas tivessem se apagado diante do brilho dela. — Está trancada. — Comentou depois de virar a maçaneta.

— Ah. Fui eu. — Lembrei tirando a chave do bolso e me aproximando. — Sabe, tínhamos uma porta e chave e tinha...

— A sua crossbow ficou lá dentro, não é? — Ela foi certeira e eu assenti meio sem jeito, incapaz de encontrar o buraco da fechadura.

Por que diabos eu estava tremendo tanto? Merda.

Charlotte colocou a mão sobre a minha e encaixou a chave no lugar. Ela estava tão próxima que eu praticamente me embriaguei do perfume dela. Tudo que eu queria era puxá-la pra mais perto e enterrar o nariz em seu pescoço.

— Você bebeu? — Indagou divertida, provavelmente por causa da minha incapacidade de acertar a fechadura.

— Eu comi macarrão. — Respondi, girando a maçaneta e empurrando a porta.

— Eu bebi. — Passou pela porta e parando uns passos depois ainda de costas pra mim. —Cerveja choca e horrorosa. Não serviu nem pra me deixar bêbada. Acho que certas coisas não mudam, eu continuo odiando cerveja.

Fechei a porta atrás de mim e fiquei ali parado sem saber bem o que fazer ou o que dizer.

— Eu morava em uma casa assim, sabe? Isso é, não tão chique e nem com tantos quartos. Mas tinha uma escada quase de frente pra porta também. No dia em que tudo começou pra mim, eu estava usando um vestido como esse, tropecei nos meus saltos e rolei escada a baixo com um namorado morto atrás de mim... Eu atirei nele. Na cabeça. Eu sabia que aquele meu aniversário seria memorável, eu só não imaginava que seria por algo assim.

Passei por Charlotte e ela ainda encarava a escada meio apática. Eu conhecia parte da história, mas com as palavras dela era algo bem diferente. Me fez compreender muito da garota que eu conheci na pedreira.

Me sentei nos braços de um dos sofás, a direita. Ela virou a cabeça pra me encarar e eu senti que estávamos longe demais.

— Foi o meu velho. Ele estava atrás de mim depois de devorar o gato do vizinho... Eu descarreguei uma arma nele. — Não contei o resto. Toda a coisa com o meu pai e a vida de antes era algo que eu queria esquecer.

— Não é engraçado? Eu já cheguei no fundo do poço e pensei que não veria amanhã. Mas aqui estamos, temos luz, cerveja gelada e banho quente. Ainda assim, o mundo continua acabado. É bizarro. — Deu de ombros ainda no mesmo lugar.

Fiquei em silêncio. Eu não sabia o que dizer e ao mesmo tempo queria dizer muita coisa. Charlotte ainda ficou parada no mesmo lugar por um minuto inteiro, depois foi até a cozinha e bebeu um copo de água.

Eu apoiei minha cabeça na mão para observá-la. Tínhamos uma chance ali, podia durar ou podia acabar pela manhã, mas Alexandria era uma raridade e talvez não houvesse nada assim por muito tempo.

Então percebi que tinha uma escolha, eu podia apenas deixar as coisas acontecerem, esperar que a vida fosse legal e levasse as coisas pra onde eu queria, ou eu podia fazer algo sobre isso.

Eu sempre fui o tipo de cara que esperou a vida resolver. Por exemplo, eu odiava minha casa, era uma agonia constante viver com o meu pai, mas ainda assim eu não parti, eu fiquei e esperei que a vida resolvesse as coisas. E ela resolveu, mas não foi como eu queria, no fim tive que atirar no velho e teria que levar aquela lembrança pra sempre. Eu teria que viver com a dúvida: o que aconteceria se eu tivesse partido?

Talvez fosse o mesmo com Charlotte, se eu esperasse a vida resolver e as coisas acabassem mal, eu sempre me perguntaria: o que aconteceria se eu tivesse tentado?

Você só tem que tentar... Era algo assim que Aaron tinha dito mais cedo. E Alex tinha me deixado com todas as cartas, eu só tinha que falar. Não podia ser tão difícil, o cara falava pelos cotovelos, Aaron falava pelos cotovelos, a porra do Eugene falava pelos cotovelos...

— Boa noite, Daryl. — Charlotte falou com o pé no primeiro degrau, pronta para subir.

— Eu nunca amei a Beth. — Falei de uma vez.

Charlotte parou onde estava e se virou. Os olhos assustados e a postura rígida. Parada no primeiro degrau com a mão ainda no corrimão.

— Eu gostava dela como uma irmãzinha. Ela salvou minha vida, eu teria desistido se não fosse pela esperança dela e era minha responsabilidade protegê-la. Mas eu nunca a olhei de outra forma, nunca tive nada com ela, nem com ninguém depois de você... — Foi como tirar um peso das minhas costas. — Eu... eu não podia. Mesmo pensando que você estava morta, não podia permitir que nada apagasse a sua lembrança. Eu não queria que nada apagasse você de mim.

Me levantei e dei dois passos pra frente, coloquei as mãos nos bolsos e encarei o chão por um momento. Eu não fazia ideia do que eu estava fazendo. Mas foda-se, já que era pra falar, eu falaria tudo.

— Quando você voltou toda a minha vida virou de cabeça pra baixo, e eu agi como um cretino. Porque, olha só pra mim... — Ergui as mãos. — É isso que eu sou. Sou só um velho caipira, rude e bruto. Eu sou meio burro e péssimo com as palavras, eu nunca serei romântico e eu nem sei como se faz isso. — Dei de ombros. — Está na cara que eu não chego nem aos pés do que você merece... Olha só pra você: Você é um anjo.

Comecei a andar de um lado para o outro, meio sem saber o que fazer.

— Eu devia ficar longe, porque quero que você tenha o melhor, e eu não sou o melhor. Eu quero que você tenha uma vida perfeita e não posso te dar essa vida, nem aqui e nem em lugar nenhum. E eu nem devia te dizer tudo isso, mas tem vezes que você olha pra mim e meu mundo para, eu me sinto especial, me sinto seu de alguma forma, mesmo que eu nunca tenha desejado ser de ninguém... — Parei pra olhar pra ela. Estavamos mais perto agora. — E eu não consigo deixar de pensar que eu quero que você seja minha. Principalmente quando está usando esse vestido. Não sabe quantas vezes eu já me imaginei tirando ele de você só nesses últimos minutos... — Apontei meio sem jeito. — Mas eu entendo, entendo mesmo, se você não quiser algo assim na sua vida. Eu nem sei se o que eu estou de oferecendo é uma vida de fato, porque eu nunca conseguiria viver como Maggie e Glenn, nem como Aaron e Eric. Eu não sou esse tipo de cara, e a verdade é que eu nem sei que tipo de cara eu sou. Mesmo assim eu não posso deixar de perguntar, porque se eu tiver uma chance... qualquer chance, eu preciso saber...

Terminei e nunca me senti tão bem e tão idiota ao mesmo tempo. Era a coisa mais estranha e libertadora que eu já tinha feito na minha vida.

Ergui meu olhar para encontrar o de Charlotte e ela estava... chorando? Uma lágrima escorria pelo seu rosto e ela não fez nenhuma questão de conter.

Ótimo eu tinha apavorado a garota e ela estava chorando... Grande merda de homem.

— Eu... Desculpa eu preciso de um minuto pra me dar conta de que isso não é nenhum tipo de sonho. — Ela sorriu de canto e baixou a cabeça. — Porque pra alguém que acabou de falar que não é nada romântico, isso foi a coisa mais romântica que eu já ouvi... E eu me sinto bem estúpida agora.

A encarei tentando entender o que aquilo significava. Mas eu estava nervoso como um adolescente e a merda das minhas pernas tremiam, era como se eu tivesse pregado no chão.

— Sinto que já podíamos ter resolvido isso se eu não fosse tão... Não importa. — Charlotte negou e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. — Você disse que acha que eu mereço mais e melhor. E a única coisa que eu posso dizer é: não importa o que ninguém pensa que eu mereço. A única coisa que importa é o que eu quero. E eu não quero ser Maggie e Glenn, eu não quero ser Aaron e Eric. Eu só quero ser eu mesma, e quero que você seja você mesmo e que juntos sejamos nós, sabe? Eu honestamente não pensei em como vai ser a vida depois disso, e não me importo, podemos descobrir juntos. Podemos ser só Charlotte e Daryl e tudo bem.

— Você está dizendo que... — Sim, eu precisava de mais confirmações. Eu sou um babaca mesmo.

— Sim. Você tem todas as chances, Daryl Dixon. Você sempre teve. — Ela sorriu e eu senti que se o mundo explodisse naquele momento, eu morreria feliz.

— Ah... — Que tipo de resposta escrota é "ah"? Atitude Dixon.

Obriguei minhas pernas a caminharem até ela, subi no mesmo degrau e fiquei a centímetros de distância, enquanto Charlotte me observava com a boca entreaberta.

Estávamos praticamente colados, embora eu não a tocasse e nem ela a mim. Meus olhos nos dela, fixos, presos.

Ela sorriu quando meu nariz tocou o dela e fechou os olhos em expectativa.

Toquei seu rosto com as costas da mão. As bochechas dela ficaram coradas quando a segurei pela nuca e a fiz erguer levemente a cabeça.

O hálito de Charlotte se misturou com o meu, quando ela soltou o ar e foi nesse instante que eu toquei os lábios dela com os meus. Muito lentamente.

Senti a sua mão no meu pescoço e arrepiei, exatamente como eu sentia a pele dela fazer quando subi os dedos pelo seu braço, que ainda estava apoiado no corrimão.

Nossas línguas se tocaram e foi como ir ao céu e depois cair de lá, como quem desce uma montanha-russa.

Envolvi sua cintura e a puxei pra mais perto fazendo nossos corpos se chocarem no mesmo instante em que o beijo virou algo mais voraz. Os dedos gelados estavam perdidos nos meus cabelos, me puxando pra mais perto e me fazendo perder a cabeça.

Eu a queria. Muito. Era um desejo terrível e maravilhoso, queimava como fogo, mas me fazia sentir vivo como nenhuma outra coisa.

Pressionei mais meu corpo contra o de Charlotte, fazendo-a soltar um gemido entre meus lábios, era como música para os meus ouvidos. Ela era macia; boca, língua, mãos. Tudo convidativo demais pra que eu não desejasse saber quais outras partes seriam tão macias.

Cessamos o beijo por um momento e Charlotte ofegava. Corada e linda.

— Nós devíamos sair daq...

A frase ficou no ar quando alguém mexeu na maçaneta e eu literalmente dei um pulo pra trás me apoiando no outro corrimão da escada.

Carol abriu a porta e franziu as sobrancelhas assim que nos viu. Felizmente ela não fez nenhuma pergunta constrangedora, mas estava mais do que claro que... a noite tinha acabado ali.

Notas finais
Podem soltar fogos, gritar aleluia e proclamar o dia de hoje feriado mundial, pq agora foi! kkkkkkkkkkk Acho que perceberam que a gente passa pra um novo nível da relação dos dois agora (cenas que vão justificar o +18 da fic, se é que me entendem kkkkkk) Nos vemos no próximo que vai ser narrado pela Char. Bjss