Origins

37 Constrangimentos


Charlotte Walsh
Alexandria

O meu coração estava aos saltos, minhas pernas tremiam e eu sentia uma vontade imensa de rir à toa. Eu estava feliz, idiotamente feliz. Totalmente diferente de como eu tinha me sentido durante toda a tarde, eu até esqueci momentaneamente qual era a minha preocupação.

Eu ainda podia sentir os lábios de Daryl nos meus, minha boca e queixo latejavam por causa do atrito com a barba dele. Era totalmente insano e ficava ainda mais quando eu pensava que Carol quase nos pegou no flagra. Não que fosse errado o que fazíamos, mas com certeza seria constrangedor, principalmente para o Daryl.

Ele estava praticamente na minha frente, encostado no corrimão, uma perna no degrau de baixo e uma no de cima, em uma posição aparentemente muito desconfortável.

Levei meio segundo pra entender o que Daryl tentava disfarçar com tanto afinco, e senti meu rosto esquentar loucamente quando percebi que ele não estava tendo sucesso na tarefa, porque eu podia ver perfeitamente o que ele estava tentando esconder delineado em sua calça.

Dei graças pela Carol estar de costas, ela tinha levado umas travessas que trouxera direto pra cozinha, perdida demais nos próprios pensamentos para dar atenção para nós dois, embora estivesse tentando manter uma conversa normal.

Ela estava escondendo alguma coisa também.

Mas não dei muita atenção pra isso naquele momento, afinal meus olhos estavam presos exatamente onde não deviam estar e Daryl me pegou no pulo...

Foi o momento mais constrangedor da minha vida. Apenas abaixei a cabeça e lutei pra não rir, afinal eu estava ridiculamente nervosa e rir como uma louca seria a coisa mais estúpida a se fazer no momento.

Menos de um minuto depois, Alex chegou com Judy no colo, Rick e Carl atrás dele e logo depois Michonne que não parecia tão bem humorada quanto os primeiros.

Ela murmurou um "boa noite" pra todo mundo e pra ninguém em especial e subiu as escadas. Soube que algo tinha acontecido na festa e a realidade me atingiu.

Eu tinha saído porque não estava suportando mais Rick de educação exagerada pra cima da mulher do médico. Pelo visto Michonne também não estava contente com isso.

Alex me encarou por um instante, depois encarou Daryl e riu como o cretino perceptivo que era, voltando a falar com Judy e fingindo que as risadas eram pra ela.

— ...mentira, você é cheirosa como uma flor, afinal se eu disser que a sua fraldinha está espalhando fedor, seu papai vai atirar em mim com a phyton dele e sabemos que eu sou muito novo e muito lindo pra morrer. — Falou com uma voz infantil e Rick revirou os olhos, estendendo o braço e pegando a bebê para ir trocá-la.

Rick sumiu com Carl e Judy, Carol foi logo depois, o clima estava muito estranho e eu sabia que isso tinha tudo a ver com o sumiço dela no meio da festa.

Alex ficou parado no pé da escada olhando de mim para o Daryl por alguns segundos, tentando sem muito sucesso conter um riso.

— Seu batom está borrado. — Apontou cínico, parando entre mim e Daryl, no meio do degrau. — E a sua barba está cheia de batom. — Virou pra Daryl. — Mas eu tenho certeza que isso é só coincidência. — Riu fazendo um gesto banal com as mãos e subindo a escada.

— Cretino. — Murmurei, revirando os olhos.

— Eu ouvi isso. — Ele retrucou do topo da escada.

— Era pra ouvir mesmo. — Fiz careta.

Alex deu de ombros como se não se importasse e encarou Daryl por um momento, e, espera! Daryl estava meio que fazendo um gesto discreto de agradecimento com a cabeça? Arrancar uma coisa daquela de Daryl Dixon era um grande feito.

Olhei de um para o outro ainda confusa, Alex sorriu cinicamente, e a parte mais chocante foi que Daryl esboçou algo como um sorriso também, um meio sorriso na verdade, um sorriso muito sacana pra que eu conseguisse manter minha sanidade.

— Acho que eu estou sobrando. — Alex declarou, sumindo no andar superior segundos depois.

— O que foi isso? — Perguntei, apontando o fim da escada.

Daryl deu de ombros, a sombra daquele sorriso ainda na face dele. Encantador demais pra que eu também não sorrisse como uma tonta apaixonada. Merda.

Ficamos parados ali um momento, era constrangedor que tivéssemos sido flagrados como dois adolescentes se pegando pelos cantos. Constrangedor e muito engraçado eu tinha que admitir.

Coloquei uma das mãos na boca tentando esconder um riso.

— Você acha engraçado? — Daryl perguntou acusatório.

— Você não? — Devolvi.

Ele não respondeu, olhou para o topo da escada e então para a porta por um momento, totalmente calado, acho que tremi levemente.

Talvez ele estivesse reconsiderando... Mas ele não estava, tive certeza disso quando deu um passo para frente e segurou meu rosto entre as mãos selando nossos lábios.

Não tenho ideia de como me mantive de pé, afinal eu mal sentia minhas pernas. Era quase ridículo que eu estivesse sempre pronta para enfrentar o fim do mundo, mas ali, naquele instante eu não passava de uma garota comum nos braços de um cara. Eu estava totalmente vulnerável e talvez isso me assustasse, mas não era algo no qual eu queria pensar naquele instante.

Nos afastamos por um momento, mas eu mantive minhas mãos espalmadas no peito dele.

— Melhor a gente... — Ele olhou para o topo da escada de novo. — É que o Glenn e a Maggie já devem... — Apontou a porta e eu entendi.

Daryl não queria ser flagrado de novo, bom na verdade eu também não.

— É você está certo. Melhor a gente... — Me afastei um passo e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Por que eu estava tão constrangida, que reação idiota.

— ...subir. — Daryl completou por fim e eu assenti.

Subimos calados, um de cada lado da escada. Encarei o longo corredor assim que chegamos no topo.

A casa tinha quatro quartos no andar de cima, e um escritório no andar de baixo, que também foi transformado em um dormitório, para Maggie e Glenn. O restante de nós se espalhou dividindo os cômodos restantes quando nos instalamos.

Carl e Judy ficaram com um, Carol e Mich com outro, eu e Alex dividíamos um e Daryl ficou com Rick, embora eu nunca o tenha visto no quarto uma única vez, e duvidava seriamente que ele já tivesse dormido lá. Era mais comum encontrá-lo dormindo na sala. Quer dizer, até isso era difícil, pois desde que tínhamos chegado em Alexandria, Daryl era o primeiro a levantar e o último a deitar.

Paramos na frente da minha porta, e aquele foi possivelmente um dos momentos mais constrangedores da minha vida. Talvez eu devesse começar a fazer uma lista...

— Boa noite. — Daryl disse muito baixo, passando por mim e seguindo o corredor em direção ao banheiro.

Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim, encostando nela e ficando estática por um momento, os pensamentos e sentimentos correndo muito depressa pra que eu pudesse distinguir apenas um deles.

— Você está com cara de tonta. — Alex me tirou do meu "transe". — Sem ofensas.

Ele estava deitado com um livro nas mãos, um sorriso totalmente cínico nos lábios.

— Eu estou bem. — Comentei sentando na minha cama, que ficava na parede oposta a dele.

Alex se sentou e me encarou como quem encara alguém que acabou de dizer que dois e dois são quatro.

— Isso é óbvio. — Riu debochado. — Se você não estivesse bem agora você seria problemática.

Acabei rindo, jogando uma das minhas almofadas nele.

O resto da noite passou muito rápido. Alex queria saber de tudo, e também queria me contar do restante da festa. Sasha dando um chilique, Rick perigosamente próximo de Jessie e Carol com uma atitude muito suspeita.

Era realmente muita coisa, mas permiti a mim mesma pensar naquilo no dia seguinte. Eu ainda estava naquele torpor gostoso de todo aquele sonho com Daryl. Sim, para mim aquilo era um sonho, todas as coisas que ele disse...

Talvez eu estivesse com medo de acordar e ver que não era verdade, mas não dava pra viver com medo...

➷•➷•➷•➷•➷

Quando despertei estava sozinha, olhei pela janela tentando deduzir que horas eram, desacostumada demais com relógios pra me dar conta que havia um bem ali em cima da cômoda.

Era tarde, por volta das dez, eu havia dormido demais, porém não me senti culpada por isso. Algumas horas de sono não mudariam a minha vida, não naquele lugar, não naquele dia.

Michonne era a única em casa, estava com Judith na sala, a pequena brincava sentada no carpete e ela se mantinha de pé olhando pela janela.

— Onde está todo mundo? — Perguntei, me sentando com uma xicara de café nas mãos.

— Glenn foi levar a Maggie na Deanna, Alex está com Abe nos muros. Rick, Carol e Daryl disseram que iam lá fora e o Carl deve estar por aí com aquele garoto da idade dele ou com a menina.

— Lá fora? — Estranhei. — O que eles foram fazer lá?

Não fazia sentido os três juntos lá, não com o novo papel da Carol, ela se fazia de frágil e desprotegida para a comunidade, ir lá fora não fazia sentido algum.

— Não sei. — Mich pareceu contrariada. — Eles claramente não queriam que eu soubesse, Rick me deixou aqui com a Judy pra garantir que eu não fosse com eles, então...

Nos encaramos por um momento e percebi que ela também estava curiosa quanto àquela saída.

Eu podia simplesmente perguntar ao Daryl, mas tão logo aquele pensamento me ocorreu eu o descartei. Aquele possível problema não era algo que eu queria misturado com o nosso... lance?

Sabia que ainda teria que pisar em ovos com o Daryl e dar tempo para que as coisas acontecessem como tinham que acontecer, não era como se fossemos namorados ou algo assim, eu nem sabia se ele ia assumir a nossa "relação" na frente das pessoas. Na verdade, eu nem sabia como estaria o humor dele naquela manhã...

Me dei conta de que aquela nova situação seria um exercício para a minha paciência. Mas fosse como fosse eu estava otimista, um sentimento perigoso diante da realidade do mundo em que vivíamos, mesmo assim resolvi me permitir aquela liberdade, pelo menos em se tratando do Daryl.

Já com Rick a coisa me preocupava, aquele sentimento de déjà vu, causado tanto pelas atitudes dele, quanto pela minha reconciliação com Daryl, me fazia visualizar facilmente todo meu tempo na fazenda, que acabou da pior forma possível.

Mas eu não era mais a garota da fazenda, eu não cometeria os mesmos erros outra vez. Nem em se tratando do Daryl, nem do Rick.

E no que dizia respeito ao segundo, talvez eu tivesse que recrutar alguns aliados.

— Se eu pedisse pra me ajudar com uma coisa, você ajudaria? — Perguntei a Michonne.

Ela tirou os olhos de Judith por um minuto para me encarar um tanto desconfiada.

— Ajuda em quê?

— Rick. — Falei sem rodeios. — Eu estou preocupada com as atitudes dele. Estou com uma sensação de déjà vu que você não entenderia. Mas preciso saber que se as coisas saírem do controle, eu teria alguém do meu lado.

— Eu acho que sei sobre que sensação você está falando, conheço a história da fazenda, mas o Rick não é o Shane...

— Pois eu digo que você não conhecia o meu irmão como eu pra saber das similaridades, Rick é diferente em muitas coisas sim, mas não é preciso ser vidente pra saber aonde a correnteza está levando um barco. — Peguei Judy e a sentei no meu colo.

— Eu não vou ficar contra o Rick, e se pensou em me pedir isso, está na cara que você não me conhece bem. — Mich respondeu seca, cruzando os braços e desencostando da janela pra me encarar com uma postura desafiadora.

Eu ri pelo nariz, percebendo que Alex estava certo sobre o interesse da Michonne pelo Rick. Ele sempre estava certo...

— Se acha que eu pediria algo assim, é você quem não me conhece bem. — Declarei calma.

— Então o que exatamente você quer?

— Eu quero saber que alguém mais, além de mim, vai estar lá por ele, não importa o que aconteça, não importa o quanto ele saia da linha eu preciso saber que mais alguém vai me ajudar a trazê-lo de volta. O que eu quero mesmo é saber se você vai ficar do lado dele e apoiá-lo, ajudá-lo e defendê-lo não importa o que ele faça ou o que aconteça. E quando eu digo defendê-lo quero dizer de outras pessoas e dele mesmo se for necessário. — Expliquei séria, beijando o topo da cabeça da Judy. — Eu não vou perder outro irmão Mich, não importa o que eu tenha que fazer, mesmo que eu tenha que nocauteá-lo com uma pancada na cabeça, eu não vou deixá-lo trilhar um caminho sem volta. Mas eu não posso contar só com a sorte, eu preciso de aliados, e nesse momento não conheço mais ninguém que ame tanto o Rick a ponto de pôr os próprios interesses de lado por ele, além de você. Você é a minha primeira e única escolha. Se você disser "não" eu vou fazer sozinha, mas eu tenho só metade de chances de acertar.

Michonne abriu e fechou a boca umas duas vezes, eu tinha acabado de dizer com todas as letras que sabia que ela amava o Rick, e esperava estar certa. Possivelmente aquilo a pegou de surpresa. Ela tentou começar com algo que me pareceu uma explicação, mas eu a cortei:

— Você não tem que explicar os seus sentimentos pra mim se não quiser, você só tem que dizer sim ou não.

— Sim.

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Com a situação do Rick sob controle eu me dei um descanso, seja lá o que fosse acontecer nos dias que se seguiriam eu tinha certeza de que eu e Mich daríamos conta.

Óbvio que ainda tinha muita coisa com as quais eu devia me preocupar dentro daqueles muros... Havia muito a ser feito para de fato tornar aquele lugar seguro e confiável, mas eu não estava sozinha. Sabia que mesmo que a maior parte do grupo parecesse acomodada, eles também estavam tomando precauções pra que aquilo desse certo. Era o bastante por enquanto...

Eu não tinha visto Daryl desde manhã. Eu queria vê-lo e ao mesmo tempo estava com receio de que algo tivesse mudado, um frio estúpido na barriga que misturava ansiedade e medo. Eu era uma sobrevivente, uma matadora de mortos e ainda assim, pelo visto, eu era apenas uma garota apaixonada, não importava que já tivesse passado dos meus dezoito há anos...

Certas coisas ainda eram como tinham que ser, mesmo com o mundo destruído.

Eu estava passando na frente da casa do Aaron, quando reparei na garagem aberta e me surpreendi com quem vi sozinho lá dentro, mexendo em uma moto. Ou no que parecia o projeto de uma.

Parei na calçada pra apreciar Daryl trabalhar, ele parecia muito concentrado, estava parcialmente de costas para a entrada da garagem por isso não me viu, mesmo quando me aproximei um pouco mais.

Encostei na entrada e fiquei apreciando o movimento que os músculos dos braços dele faziam enquanto girava a chave de roda... Me perdi ali por um momento, me perguntando internamente se eu devia falar com ele, ou apenas sair. Eu não fazia ideia de como agir. Foi quando Daryl ergueu os olhos.

— Oi. — Cumprimentei meio constrangida ter sido flagrada olhando pra ele, de novo, diga-se de passagem.

— Oi. — Respondeu neutro.

Uma parte de mim ficou um tanto decepcionada, acho que esperava que ele ficasse feliz ao me ver, mas afinal aquele era Daryl Dixon, eu devia me dar por satisfeita por ele não ter sido grosso, ou rude ou simplesmente não ter respondido.

Fiquei sem saber o que dizer, o que era totalmente ridículo, afinal eu não tinha problemas pra falar com as pessoas.

Por que diabos eu estava tão constrangida?

— Eu... Eu vou indo então. — Apontei pra fora com o polegar. — Não quero te atrapalhar.

— Pode pegar aquela chave pra mim? — Apontou uma das ferramentas.

Olhei dele para as coisas, Daryl podia pegar se quisesse, estavam a menos de um metro, tudo que ele tinha que fazer era esticar a mão, mas entendi que aquele era o jeito dele pedir pra eu ficar.

— Quer dizer, se tiver outra coisa pra fazer tudo bem. Você pode ir se...

— Não. Não tenho nada pra fazer. — Cortei rapidamente, me aproximando e entregando a chave enquanto puxava um caixote de madeira e me sentava entre Daryl e as ferramentas. — Tudo que eu faço ultimamente são vários nadas, parece até que eu tenho dezoito anos de novo.

— Fico feliz que você não tenha. — Daryl comentou, não sei se era algo que eu deveria ter escutado, mas eu escutei.

Ele me encarou um momento, talvez percebendo que tinha falado aquilo em voz alta. Acabei rindo e isso acabou com o clima tenso.

— Eu fui lá fora hoje, com a Carol e o Rick. — Ele revelou enquanto pedia outra ferramenta.

Assenti brevemente, eu não queria dizer que sabia, afinal isso podia soar estranho, e também não queria perguntar nada sobre aquilo, então apenas permaneci calada. Eu não falei, ele não falou, apenas continuamos com a moto.

— Então, vai me deixar dar uma volta nela quando estiver pronta? — Perguntei depois de um tempo.

— Sabe pilotar?

— Isso é um apocalipse, a gente acaba aprendendo uma porção de coisas. — Dei de ombros sorrindo. — Uma vez Alex e eu passamos por uma fazenda e tinha esse bimotor, um avião bem pequeno que deviam usar pra jogar pesticida na plantação, mas quando eu liguei a coisa nem se moveu, acho que estava sem combustível ou algo assim.

— Graças a Deus. — Murmurou enquanto apontava outra ferramenta.

— O que? Não acha que eu sou capaz de pilotar um aviãozinho? — Não deixei que ele pegasse o alicate da minha mão.

Me encarou um momento antes de responder.

— Acho que é melhor você ficar em terra firme. — Sorriu, pegando o alicate.

Espera. Daryl Dixon acabou de sorrir?

Perdi o ar e acabei soltando a ferramenta para que ele pegasse, enquanto permanecia estática, fitando-o como como um cego que viu cores pela primeira vez.

— O que? — Daryl perguntou um tanto confuso.

Neguei minimamente com a cabeça e abaixei os olhos, mas ele manteve os dele em mim por mais um momento, até que eu ergui a cabeça e simplesmente curvei meu corpo e o beijei.

Eu apenas precisava sentir os lábios dele nos meus, eu precisava me calar de alguma forma, porque eu o amei tanto naquele momento e com aquele sorriso tão simples que a única coisa que eu podia era expressar isso de algum jeito... Era como se as palavras estivessem presas na minha garganta, eu queria contar, mas talvez fosse um passo grande demais. Eu não queria assustá-lo. Então eu apenas o beijei.

— Desculpa. — Pedi quando me afastei um pouco.

Não sabia bem por que eu estava pedido desculpas, talvez por tê-lo beijado no ambiente praticamente público que era aquela garagem.

Dessa vez foi Daryl quem negou minimamente, me trazendo mais pra perto e selando nossos lábios outras vez.

Mas claro que não durou muito, fomos irrompidos pela porta lateral da garagem sendo aberta e quase flagrados por Aaron que trazia uma jarra de suco.

— Eu não sabia que estava aqui, Charlotte, vou buscar outro copo. — Declarou simpático e muito natural, ou ele não tinha visto nada ou era muito discreto.

— Não precisa se incomodar, eu já estava indo. — Me levantei meio sem jeito.

Precisávamos parar com essa coisa de sermos flagrados, era um saco e obviamente Daryl ficava muito incomodado com isso.

— Até mais. — Acenei para os dois.

Aaron retribuiu o aceno e Daryl apenas moveu a cabeça.

Saí dali praticamente correndo. "Fugindo" seria uma expressão mais certeira. Estava bem na cara que precisamos conversar sobre como agiríamos com as pessoas, porque eu não tinha problema que ninguém soubesse, mas não tinha certeza se Daryl pensava igual.

— Olha só quem o vento trouxe. — Alex exclamou subindo a rua. — O que houve?

— Nada. Por que teria acontecido alguma coisa?

— Porque você está vermelha feito um pimentão, e não é o tipo que fica vermelha à toa. — Ele riu.

Passamos a caminhar lado a lado, provavelmente Alex estava voltando para almoçar.

— Nós fomos flagrados. De novo. — Revirei os olhos.

Tive que aturar a risada daquele cretino que se dizia meu melhor amigo. Idiota.

— Olha, quer um conselho? — Perguntou ainda rindo.

— Não. — Respondi com um falso mau-humor.

— Ótimo, eu vou dar mesmo assim. — Retrucou. — Acho que vocês precisam de um pouco mais de privacidade, sabe? Sei lá um encontro em um locar onde ninguém vai abrir uma porta e dar de cara com vocês se pegando.

— Encontro? — Perguntei meio cética. — Isso e o fim do mundo, ninguém mais tem encontros. Fora que eu não penso no Daryl como um cara de encontros.

— Tudo bem, não chame de "encontro" então, já deu pra ver que vocês dois tem problemas com rótulos, mas também o que mais eu podia esperar do casal mais complicado do apocalipse? Apenas arrume um lugar legal uma gororoba comestível e pronto.

Pensei naquilo por um momento, não era tão ruim ao meu ver, mas o grande problema era como seria sob o ponto de vista de Daryl, será que era um passo grande ou precipitado demais?

— Mesmo que vocês só comam e conversem, vocês precisam desse tempo. Obviamente que eu espero que os dois desencalhem de vez e liberem essa tensão sexual que cerca vocês. Talvez isso melhore os seus humores, principalmente o do senhor Daryl Dixon, ele precisa urgentemente de sexo. — Alex riu meio de canto.

— Não tem graça, Lex. — Cruzei os braços e estreitei os olhos.

— Que bom, porque não é pra ter graça, isso é bem sério. — As palavras dele perderam um pouco o sentido, afinal aquele era o Alex Pierce e sério ou não, ele riu do mesmo jeito.

Mas eu não podia deixar de admitir que por alguma razão aquilo gelou o meu estômago, isso é, não como o gelo constante que eu senti durante toda a manhã, algo bem mais íntimo. A ideia de poder controlar e planejar cada detalhe de, pelo menos, aquela parte da minha vida, me pareceu tentadora demais pra apenas descartar...

➷•➷•➷•➷•➷

Eu não tinha me dado conta que sentia falta de cozinhar, não até de fato estar cozinhando comida de verdade em muito, muito tempo.

A quantidade de suprimento de Alexandria não podia ter me deixado mais feliz. Claro que ainda não era um jantar de restaurante, mas dava para o gasto. A garrafa de vinho, que Olivia me dera, acabaria salvando tudo.

Na verdade, ela ficou muito receptiva quando se deu conta que eu estava planejando um encontro. Não que eu tenha pronunciado a palavra "encontro" mas ela pensou assim e isso me rendeu carta branca na dispensa.

Não dá pra negar carta branca, mesmo que isso significasse fazer as pessoas pensarem que eu tinha mesmo um encontro.

O grande problema foi decidir o que preparar, digamos que cozinhar com ingredientes pouco usuais era mais a praia da Carol e não a minha.

Mas finalmente encontrei algo útil pra fazer: Pizza. Ou quase isso. Teria que dar.

Por outro lado, se estivesse péssimo, eu tinha certeza que a sobremesa estava ótima. Chocolate salvava tudo, e felizmente a barra que Olivia me dera era suficiente.

— Alguém está cozinhando, olha só. — Rick comentou enquanto olhava as coisas sobre o balcão.

— Quase isso. — Dei de ombros.

— Pensando em voltar com a noite da pizza? — Perguntou se referindo a antigamente.

Antes do fim do mundo, eu costumava fazer pizza as quintas, volta e meia Rick aparecia em casa com o Carl. Eram bons tempos, mas eu não queria me lembrar daquilo, ou eu também teria que lembrar das pessoas que perdi pelo caminho.

— Não. Eu precisava fazer uma coisa diferente e pizza foi minha única ideia na verdade. Eu sou boa na massa e dá pra rechear com praticamente qualquer coisa. — Ri meio de canto.

— Eu não vejo problemas. Comeremos pizza de quê, então? — Começou olhar as duas pizzas quase prontas em cima da mesa. — Você não vai assar?

Olhei pra ele meio sem graça e cobri as duas, colocando-as na cesta logo em seguida. Eu só as assaria quando chegasse ao meu destino.

— Então... É que... Bom essas não são pra vocês. — Mordi o lábio enquanto falava. — Mas eu deixei mais três massas prontas, e o recheio está todo aqui arrumadinho, é só montar e colocar no forno por vinte minutos. — Emendei depressa.

— Oh... Entendi. Acho que um cara de sorte vai ter uma noite muito agradável hoje. — Presumiu, olhando todas as coisas que eu estava arrumando pra levar.

Eu com certeza não ia falar com Rick sobre aquilo. Senti minhas bochechas esquentarem.

— Desculpa, mas é que é meio...

— Eu sei. — Ele me interrompeu e eu suspirei de alivio.

Olhei a mochila e me lembrei se eu tinha mesmo colocado tudo nela e fiz o mesmo com a cesta, colocando copos extra, porque copos nunca eram demais.

— Mas acho que devia saber que você e o Alex não é segredo pra ninguém. Vocês dormem no mesmo quarto, Char. — Riu como se estivesse falando algo óbvio.

Por um segundo esqueci toda a tensão que estava rodeando aquele não-encontro e realmente me diverti com o que tinha acabado de ouvir.

— Como? — Acabei rindo abertamente. — Eu e o Alex? Não. Somos amigos. E mesmo que quiséssemos passar disso não daria. Digamos que eu e o Lex gostamos basicamente da mesma coisa. — Sorri insinuativa.

Rick parou um segundo e pareceu entender o que eu estava querendo dizer. Ficou balançando a cabeça em concordância várias vezes enquanto sua boca formava um "Ah" sem som.

— Eu não... Sabia. — Foi tudo que ele conseguiu pronunciar e eu tive que me controlar pra não rir.

— Não acho que muita gente saiba. Alex acha que não tem que sair falando, afinal você ou qualquer um dos outros caras não saem por aí falando que gostam de mulheres, não é?

— Sim, você está certa. — Rick sorriu parecendo totalmente refeito do choque inicial. — E isso não muda nada. Exceto que: se você não está arrumando tudo isso pra você e para o Alex, pra quem é então?

Coloquei as últimas coisas que eu precisava na cesta, enquanto aproveitava o momento pra pensar no que responder. Mas então Rick pareceu ter percebido algo muito importante, como se finalmente tivesse encontrado a resposta para uma pergunta que ele estava se fazendo há muito tempo.

— Ah sim, isso explica muita coisa... — Falou mais pra ele mesmo do que pra mim.

— Explica o quê? — Perguntei interessada.

— Daryl me disse uma coisa essa manhã, e eu não tinha entendido o porquê daquela mudança de atitude. Mas agora eu entendo, você e ele juntos muda algumas coisas. — Respondeu com uma expressão calma.

— Ele não... Nós não... Quer dizer... Que fique claro que não fui eu que te disse nada. — Me atrapalhei totalmente com as palavras e Rick riu mostrando uma fileira de dentes perfeitamente brancos e fazendo algumas marcas de expressão se formarem perto dos olhos.

Eu não sabia se podia sair contando aquilo, mas agora já era tarde demais.

— Espera. O que ele te disse? — Questionei desconfiada.

— Nada demais. Eu pedi algo pra ele, e não tinha entendido a resposta, mas agora eu entendo. Nada com o que você tenha que se preocupar. — Estava claro que Rick não queria me contar e decidi não insistir, talvez eu não quisesse realmente saber a resposta. Pelo menos não naquela hora. — Agora melhor você ir, não quero que se atrase para o seu encontro.

— Não é um encontro. — Neguei depressa. — É só comida. Todo mundo tem que comer uma hora ou outra.

Talvez eu tivesse que convencer Rick daquilo, porque eu mesma precisava me convencer, afinal se fosse um encontro seria... Assustador.

— Se você diz. — Ele sorriu meio de lado.

Assenti e me virei rumo a porta.

— Char? — Chamou e eu olhei. — Eu estou feliz por vocês.

— Eu também. — Respondi.

E aquilo era totalmente verdade, eu estava feliz. Estranhamente constrangida. Mais assustada do que no meio de uma horda, porém ainda assim, feliz.

Muito feliz...