Origins
38 Não-encontro
Charlote Walsh
Alexandria
Olhei a comida esfriando na mesa e caminhei pela extensão da sala novamente, espiei pela janela pela décima vez. Daryl estava atrasado.
Sabia que mandar aquele bilhete pelo garotinho chamado Sam não tinha sido a minha melhor ideia.
Na verdade, de repente tudo aquilo me pareceu totalmente inoportuno e ridículo. Isto é, eu tinha encontrado aquela casa em Alexandria, era discreta, não tão grande quanto as outras e não tinha um monte de vizinhos...
Era um sobrado de dois quartos com uma pequena varanda. No primeiro andar tinha uma sala média, conjugada com a cozinha americana e um banheiro. Era um ambiente aconchegante, as paredes claras davam um contraste bonito com os moveis escuros, dá mesma forma que o tapete felpudo quase branco na frente do sofá, contrastava com o piso de madeira.
O lugar não era tão grande como os outros de Alexandria, mas eu tinha certeza que aquela mobilha era cara.
No segundo andar estavam os dois quartos e mais um banheiro. Um deles era mobilhado para um casal, com uma enorme casa e uma quantidade exagerada de travesseiros, imaginei se ninguém de Alexandria tinha passado por ali e decidido distribuir aquilo, mas presumi que todas as casas tinham, então não fazia diferença.
Por ali o padrão seguia o oposto do piso inferior, as paredes eram suavemente mais escuras, enquanto as mobilhas eram mais claras. Por algum motivo eu gostava. O outro quarto tinha duas camas de solteiro, não parecia ter sido decorado para crianças ou adolescentes, então presumi que fosse um quarto de hóspedes.
Na hora pareceu uma boa ideia, era só um jantar em uma casa diferente, não devia ter nada de mais, devia?
Mas naquele instante, aquela casa toda mobilhada e eu ali parada de pés descalços, cabelo molhado, usando aquele vestido preto ridículo, com aquela mesa posta com pizza assada e vinho... Meu Deus!
Eu estava no fim do mundo. O que eu estava fazendo era ridículo e sem sentido. Era bem infantil...
Comecei a entrar em desespero, ele não viria, o bilhete dizia que ele tinha que me encontrar ali quando anoitecesse, e isso já tinha acontecido há pelo menos meia hora.
Talvez isso fosse uma coisa boa. Afinal o que eu diria quando ele chegasse? O que ele diria vendo aquele circo?
Tirei as pizzas da mesa e guardei de volta no forno. Eu estava me sentindo muito estúpida e quando vi já estava chorando.
Por que diabos eu estava chorando? Merda!
Abri a garrafa de vinho e enchi uma taça. Acabei rindo sem nenhum humor enquanto olhava o objeto nas minhas mãos. Eu tinha trazido copos de casa, mas quando vi as malditas taças ali achei que seria uma boa ideia. Idiota.
Limpei as malditas lágrimas que ainda escoriam. Era irônico que eu tivesse passado por tanta coisa e justo naquele momento estivesse perdendo o controle, era só um cara e uma merda de encontro que nem era um encontro de verdade.
Eu sempre quis que as coisas fossem perfeitas quando programava cada passo da minha vida antes, mas isso era por mim, pra criar boas lembranças e experiências pra mim. Mas naquele momento eu estava surtando porque queria que fosse perfeito pra outra pessoa. Eu queria criar boas lembranças pra ele. Eu queria ser boa pra ele. Para o Daryl.
Era sufocante e aterrorizante, porque eu soube naquele momento que nada do que eu fizesse seria o bastante pra provar o que eu sentia. Eu tinha passado minha vida toda tentando controlar tudo e então encontrei algo que eu nunca seria capaz de controlar. Era grande e poderoso e ao mesmo tempo era indescritível.
Encostei na bancada e suspirei. Talvez naquele momento eu finalmente tenha entendido a motivação por trás de tantas coisas na vida. Arte, dança, música, talvez até religião. As pessoas faziam coisas pra demonstrar amor, porque guardar amor pra si mesmo era como morrer mil vezes em um segundo. Era uma agonia sem fim.
Foi nesse momento que a porta se abriu e Daryl passou por ela. Estava sujo de graxa, levemente descabelado e ofegante. E mesmo sendo a imagem do caos ele estava lindo.
Percebi que eu o amava tanto que nada nunca seria o suficiente...
Cravou os olhos em mim por um momento e então olhou em volta parecendo bastante surpreso.
— Sinto muito... Eu.... — Apontou pra porta aberta e gaguejou um pouco. — Abraham me pediu ajuda com o trator que parou do nada, e eu fiquei lá até agora pouco, só quando eu estava voltando eu encontrei com o Sam e ele disse que já estava me procurando faz tempo...
Percebi que o bilhete estava na outra mão dele. E era tão adorável que ele se esforçasse tanto pra explicar que todo o restante parou de importar.
— ... Eu teria passado em casa primeiro pra me lavar, mas não queria te deixar esperando e... Desculpa, parece algo especial e eu...
Eu fiz um gesto com a mão e o interrompi enquanto negava calmamente como se não fosse nada. Atravessei o tapete perfeitamente branco e me aproximei dele que ainda estava parado na porta, segurando a maçaneta, com se a qualquer momento eu fosse mandá-lo embora.
E esse era o homem que eu amava, sempre disposto a ajudar alguém, nunca querendo decepcionar ninguém, e acima de tudo ele sempre acharia que seria rejeitado, mesmo que não houvesse razão nenhuma pra isso.
— Eu te amo. — Falei naturalmente parada a menos de três passos dele.
Daryl ficou estático, era como se estivesse pregado no chão, mas seus olhos tinham vida própria. Ele estava assustado, surpreso, emocionado, e, eu acho, que aquilo era o máximo de emoções misturadas que ele já tinha sentido na vida, mas acima de tudo ele me amava também, eu tive certeza disso, mesmo que ele nunca dissesse, ele me amava.
— Eu... — Ele tentou falar, mas nada saiu.
— Eu sei. — Assenti.
Eu não precisava que ele dissesse nada, eu só precisava que ele soubesse.
— Bom, é só comida. — Sorri apontando pra cozinha. — Ela não vai a lugar nenhum, pode ir pra casa, você fez uma porção de coisas hoje, deve estar cansado. Eu vou guardar tudo e podemos fazer isso outra hora.
— Não... Na verdade estou faminto. Acho que só preciso de um banho. Deve ter um chuveiro aqui, certo? — Apontou meu cabelo ainda molhado. — Mas se estiver cansada de esperar eu entendo, quer dizer, se não quiser mais... Mas se você ainda quiser...
Assenti e dei passagem pra ele.
— Andar de cima, eu trouxe algumas coisas de casa pra mim, e no quarto de cima tem algumas peças de roupa. Aparentemente o povo daqui não se preocupa em recolher tudo que é útil.
— Eles não precisam. — Comentou, enquanto deixava as botas na entrada. — Eu já desço, você espera?
— Sempre. — Respondi com uma calma que em nada lembrava o meu desespero de minutos atrás.
Estranhamente eu estava em paz, muito otimista e mesmo sabendo que tudo podia desmoronar a qualquer momento, mesmo sabendo que Rick podia fazer algo impensado, naquele instante eu não me importei com nada.
Uns vinte minutos depois ele estava de volta, cabelos molhados e vestindo nada mais que uma calça de moletom cinza clara e uma camiseta branca. Daryl Dixon era uma visão, provavelmente o homem mais atraente que eu tinha visto em toda a minha vida.
— Não tinha mais nada que servia. — Explicou meio sem jeito.
Não sei se agradeci a Deus, ou se desejei que nada tivesse servido, talvez as duas coisas. Eu não sou nenhuma santa afinal de contas.
— Entendi porque não se importaram em vir pegar as roupas, não tenho certeza que aqueles ternos caros são muito funcionais. — Continuou como se ainda precisasse explicar aquelas roupas tão confortáveis.
— Eu acho que você está muito bem, e eu espero que goste de pizza. — Falei tirando uma delas do forno.
— Onde você conseguiu pizza? — Pareceu realmente surpreso e isso o fez esquecer o que vestia.
— Eu fiz.
— Você fez pizza? Você quer dizer a massa e tudo mais? — Ainda parecia incrédulo.
— Qualquer um pode fazer, não é difícil, aprendi na internet quando tinha quatorze anos. — Coloquei sobre a mesa.
— Por que aprender a fazer pizza, quando se pode apenas pedir a pizza? — Daryl se aproximou da mesa.
— Pedir pizza é fácil, mas fazer é mais divertido. — Dei de ombros enquanto servia. — Pode sentar.
Caminhei até a bancada pra pegar a garrafa de vinho enquanto Daryl se debruçava sobre a cadeira.
— Você está muito bonita. — Daryl tentou parecer natural, mas senti pela voz dele que tinha sido quase um parto falar aquilo.
Eu sabia que ele tinha gostado do vestido, por isso o coloquei de novo. Pareceu uma boa ideia no começo, depois uma idiotice, mas naquele momento eu sabia que não haveria nenhuma outra coisa que eu teria escolhido pra vestir.
— Obrigada. — Respondi enquanto me virava. Ele ainda estava de pé, me olhando apoiado na cadeira. — Você está muito bonito também. — Coloquei a garrafa na mesa.
— Acho que você bebeu vinho demais. — Retrucou sem tirar os olhos de mim.
Me perdi ali por um tempo enquanto ria da resposta e Daryl apenas me puxou pra perto e me beijou. Confesso que aquilo era tudo que eu queria que ele fizesse, porque eu precisava dele, como um peixe precisa de água ou como um falcão precisa do céu.
Mas assim como começou acabou, antes mesmo de eu ter a chance te tocar sua pele.
— Melhor a gente comer. — Ele sugeriu e eu concordei, mas acho que teria concordado com qualquer coisa naquele momento.
Eu me sentei primeiro antes que as minhas pernas me traíssem e Daryl serviu o vinho.
— É... melhor comermos antes que esfrie. — Comentei ainda meio fora do ar.
— Não tem como esfriar. — Devolveu muito baixo.
Queria dizer que não entendi, mas na verdade entendi perfeitamente. Aquilo fez meu estômago dar uma volta em torno dele mesmo, era como se eu tivesse acabado de engolir um cubo de gelo inteiro.
Daryl pegou os talheres e ficou ensaiando a melhor forma de cortar a pizza, eu sorri ao perceber que ele não era o tipo que come pizza com garfo e faca, porque na verdade eu também não era.
Peguei minha fatia na mão e dei uma mordida.
— Os cookies da Carol que me perdoem, mas eu sou foda pra caralho.
Por um minuto eu esqueci totalmente qualquer coisa, aquilo era a coisa mais gostosa que eu comia em muito, muito tempo. De repente Alexandria não parecia tão ruim.
Olhei para Daryl e ele parecia satisfeito em me copiar e pegar a fatia com a mão, mas ainda parecia um tanto receoso quando a morder.
— Está boa, eu prometo. Mas se não estiver você mente e eu finjo que acredito. — Brinquei.
Ele finalmente tirou um pedaço, e outro, e outro, e eu acho que ele acabou esquecendo que eu estava ali, porque ele comeu a fatia inteira sem dizer nada.
— Então? — Perguntei quando ele acabou.
— Pois é, dona pizzaiola, você está aprovada.
Acabei rindo, eu estava feliz, idiotamente feliz eu suponho, mas não me importava. Foi um ótimo "não-encontro".
Descobri que Daryl não era tão fã de doce quanto eu, porque eu praticamente devorei a pizza de chocolate e ele preferiu a salgada.
E sem perceber eu estava fazendo uma lista mental das coisas que ele gostava, memorizando cada detalhe, era como se ele tivesse se tornado o centro do meu universo.
Eu contei das noites da pizza em casa e ele me contou de quando decidiu ter um cachorro e de como o animal comeu uma pizza inteira em cinco minutos. E de como o deu a um casal de fazendeiros, porque Wally era um cão muito grande e quebrava todas as coisas com seu "rabo-chicote". Só pelo tom da sua voz percebi que se desfazer do cachorro não fora fácil e talvez nem tivesse sido escolha de Daryl realmente.
A imagem mental de um pequeno Daryl sofrendo uma infância difícil me fez amá-lo com ainda mais carinho.
— Por que você não me perguntou o que eu estava fazendo com Rick essa manhã? — Questionou momentos depois, enquanto eu tirava a mesa.
O encarei um minuto, eu podia desconversar e outras mil coisas, mas percebi que tudo que eu desejava fazer era ser sincera.
— Eu não queria que se sentisse obrigado a responder. E se Rick quisesse que eu soubesse, ele mesmo teria me dito. Eu não te perguntei nada porque não quero te colocar em uma posição desconfortável.
Me ajudou a colocar os pratos na pia e parou ao meu lado, me encarando por um momento.
— Carol roubou armas, Rick quer estar preparado para uma tomada de poder se for necessário. Eles me ofereceram uma, mas eu acho que, se estamos aqui, então temos que tentar. Eles não são pessoas ruins.
O fato dele me contar, mesmo que isso não fosse a vontade do Rick, significou mais do que eu podia descrever, não que eu já não estivesse desconfiando de algo assim, mas o fato de Daryl confiar em mim o suficiente pra contar falava muito mais sobre nós do que qualquer conversa que pudéssemos ter.
E de repente o que Rick tinha me dito mais cedo também fez sentido, ele estava se referindo ao Daryl não ter pego a arma.
— Acha que eu tomei uma decisão ruim? — Perguntou e percebi que a minha aprovação era importante pra ele.
— Não. Você está certo. Eu já estive em um lugar ruim e sei que você também já esteve. Mas essas pessoas não são ruins, elas são despreparadas. E nós estamos prontos, uma arma seria vantagem, mas no fim é só um revólver, o que está por trás dele é que conta realmente. Estamos juntos, isso é o que importa. — Declarei, tocando a mão dele.
Daryl me olhou por um momento e se afastou um tanto conturbado, se serviu de vinho e se sentou no sofá. Era como se estivesse lutando pra me dizer algo. De alguma forma aquilo me deixou apreensiva, talvez algo no modo como ele se afastou ou a expressão culpada.
Me aproximei um pouco e ele me encarou. Parei no começo do tapete, ainda de pé, Daryl estava tenso e isso me deixou tensa também.
— Eu recebi uma função. — Ele começou muito devagar e a minha primeira reação foi ficar feliz por ele, sabia que estava desconfortável por não ter sido designado a nada, mesmo que não tivesse dito isso. — Aaron quer que eu vá com ele nas buscas, quer que eu recrute com ele. Isso exige algum tempo fora dos muros.
Senti que o céu estava caindo, por algum motivo eu sequer conseguia respirar. A realidade me atingiu como um soco na cara...
Daryl tinha recebido um trabalho de risco, era bem óbvio que isso aconteceria, eu não devia estar surpresa. Mas de algum modo eu ainda tinha esperanças que ele ficasse no mesmo grupo que eu. Pensar nele fora dos muros, sem ninguém de confiança junto a ele, me deixou à beira de um ataque de nervos.
Aaron parecia legal, mas ele não era um de nós, eu nunca o tinha visto em ação de verdade. Ele facilmente foi pego pelo nosso grupo.
Minha mente foi tomada por praticamente todos os pensamentos ruins de uma vez só. Eu tinha noção que tremia, porém tudo mais pareceu meio borrado, era imaturo e irrealista reagir daquela forma, mas eu realmente cheguei a acreditar que ficaríamos juntos dentro daqueles muros, eu pensei que as coisas seriam diferentes.
E naquele momento a realidade batia na minha porta e arrancava Daryl de mim.
— Charlotte, fala comigo. — Senti a mão de Daryl no meu braço e me dei conta que ele estava na minha frente.
Então eu o encarei e percebi que ele queria aquilo, era o trabalho certo pra ele, ajudar pessoas, ser útil, sair dos muros, era algo essencial e ninguém ali faria melhor que ele.
Seria egoísta da minha parte fazer qualquer coisa que não fosse apoiá-lo.
Me aproximei o espaço restante e o abracei. Na verdade, me encaixei nos braços dele, deixei que ele me envolvesse, sorvi do seu perfume e eu soube que não tinha outro lugar no mundo onde eu me sentiria tão bem que não ali naquele abraço.
— Eu não posso mentir e dizer que estou feliz, mas honestamente eu não imagino ninguém melhor pra esse trabalho do que você. — Falei tentando conter o choro. — Quando você vai?
— Amanhã. — Declarou e eu me apertei mais a ele.
De repente aquele "não-encontro" se tornou uma despedida e tudo ficou tão triste.
— Melhor a gente ir. Você precisa descansar. — Falei me afastando alguns passos.
Daryl assentiu muito devagar, como se estivesse decepcionado com algo.
— Eu te ajudo a pegar as coisas.
— Não precisa. — Respondi dando três passos em direção a porta. — Amanhã eu venho e arrumo tudo, essa casa está vazia, Olivia disse que ninguém vem aqui.
— Vocês está brava. — Ele afirmou com uma pontada de culpa na voz e eu neguei. — Então o quê? Você está triste? Chateada? Decepcionada? — Ele começou a andar de um lado para o outro e lá estava o mesmo Daryl Dixon de sempre. — Só fala comigo, porque eu falei com você mais do que eu já falei com qualquer pessoa na vida. Não é justo você sair assim!
Parei onde estava e Daryl acabou parando também, ele estava nervoso e aquilo foi mais uma prova de que aquela realidade de sonho, que eu tinha montado na minha cabeça, era um castelo de areia.
— Eu não estou "saindo assim". — Tentei manter a calma e acabei simplesmente deixando meu corpo cair sentado no sofá. — É só que... Eu venho falando pra mim mesma que estou pronta pra tudo e que não vou abaixar a guarda, mas a verdade é que: eu já baixei a guarda quando se trata de você, não tem barreiras, o pouco que tinha sobrado você destruiu ontem. Eu não tenho mais defesas quando se trata de você, talvez seja meio cedo, mas foda-se, eu não me importo, eu só não.... — Olhei pra ele que estava de pé bem na minha frente. — Eu não posso te perder Daryl. Quer dizer eu não quero perder ninguém, mas quando se trata de você... Eu só... Não, não dá, entende?
Daryl me olhou um tanto surpreso. Me dei conta que talvez tivesse despejado coisas demais sobre ele, mas eu tinha que falar, ou aquilo acabaria me sufocando. Ele acabou se sentando do meu lado no sofá e entrelaçou a mão na minha.
— Você não vai me perder. Eu vou voltar, é só uma missão de reconhecimento, talvez eu volte amanhã mesmo, é só a estrada e talvez alguns errantes, eu posso lidar com isso.
— Não são os errantes que me preocupam, são os sobreviventes, você está numa missão pra achar pessoas, e, a verdade é que não temos como saber o que esperar de pessoas, o ser humano é imprevisível e algumas vezes cruel. Essa é a nossa realidade agora, você não pode me prometer que vai voltar, e eu não posso controlar a minha preocupação quanto a isso. Não é sua culpa. Não é culpa de ninguém. — Falei mais calma, ficando de lado no sofá para que nossos olhares se encontrassem.
Deitei minha cabeça sobre meu braço que estava no encosto e Daryl tocou meu rosto muito de leve. Ficamos assim um tempo, apenas nos olhando. Ele ia passando as costas dos dedos muito lentamente pela minha bochecha e roía a unha da outra mão, eu já tinha percebido que roer unha era tipo uma mania dele.
— Desculpe por estragar o... — Franziu um pouco as sobrancelhas, mas não terminou a frase.
— Não era um encontro. — Declarei neutra. — Era um "não-encontro."
— Tem diferença? — Deu um daqueles sorrisos muito raros que me faziam perder o ar por um momento.
— Claro que tem. "Encontro". "Não-Encontro". A diferença é bem clara. — Apontei com humor.
Ele franziu os lábios e assentiu brevemente antes de declarar:
— Não importa o que foi. Eu gostei.
Sorri. Desejei que aquele momento durasse pra sempre. Desejei que não houvesse mais nada com que se preocupar depois. Mas eu sabia que sempre haveria alguma coisa, era uma vida incerta. Tudo se tratava de momentos.
Tudo se tratava de momentos. E no momento eu só queria que Daryl me beijasse muito...
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