Origins

25 O leão, a raposa e o tigre


Charlotte Walsh
Localização desconhecida

Tiros. Grunhidos. O cheiro da morte.

Eu senti que flutuava.

Estava frio.

— Daryl? — Tentei chamar, nem sei se minha voz saiu.

Tudo ficou escuro.

[...]

Árvores flutuavam.

Um coração batia praticamente no meu ouvido.

Tentei abrir os olhos. Um queixo bem desenhado pairava sobre mim, barba por fazer. Eu sabia que conhecia de algum lugar.

Talvez fosse de um sonho...

[...]

Dor. Alguém revirava as minhas entranhas.

Ouvi meu próprio grito cortar o ar.

Cheiro de álcool e madeira mofada.

— Me ajuda a te ajudar, colega. — Alguém disse. Uma voz que eu parecia ter ouvido há mil anos.

Tentei falar, mas mergulhei no vazio.

[...]

O salão estava enfeitado. Luzes aconchegantes e arranjos de flores. Fiquei olhando o lustre no teto, meio abobalhada. Era o maior lustre que eu já tinha visto.

Olhei escada a baixo e Shane estava lá, sorriu pra mim. Era minha festa de quinze anos e eu usava um vestido rosa de baile. O vestido mais bonito te todos.

Desci o primeiro degrau e vi Rick, ele estava do lado oposto, com um bonito terno preto.

Tive medo, como se algo terrível pudesse acontecer.

Shane sorriu pra Rick e se aproximou para cumprimentá-lo.

"Não vai" Tentei gritar. Nada saiu da minha garganta.

Aquela não era a lembrança, não era assim que acontecia. Meu irmão tinha que estar no pé da escada, esperando por mim.

Rick segurou a não de Shane, sorriu maléfico... Uma faca e muito sangue.

As pessoas riam, todos riam. Todos tinham os olhos mortos. Todos queriam a minha carne.

Tentei me livrar daquilo e me mexer, voltar a consciência.

Tinha algo gelado na minha testa. Estava muito frio. Meus ossos congelavam e eu estava molhada.

Uma voz muito calma me disse que ficaria tudo bem. E eu não vi mais nada.

[...]

Abri os olhos sentindo cada parte do meu corpo doer. Eu tinha levado uma surra?

Não reconheci o lugar, o teto era baixo, tudo parecia madeira, me lembrou abrigos subterrâneos de guerra, que eu via em filme.

— Até que enfim acordou, pensamos que ia dar uma de Bela Adormecida. — Uma voz afiada e grossa debochou.

Procurei a origem, tentando focar os olhos que ainda estavam embaçados.

Levei um momento, para reconhecer o homem que me encarava do lado direito do cômodo, estava encostado em um canto, uma arma em punho. Os mesmos olhos negros me encarando. Era o cara da estrada: Alex alguma coisa.

— Como se sente? — Uma voz calma e macia perguntou do meu lado esquerdo.

Me virei para encarar o outro cara da estrada: Eth. Não era um apelido que dava pra esquecer. Ele estava sentado em um banco velho ao meu lado. E eu parecia estar em um tipo de cama improvisada.

— Como é que eu vim parar aqui?

Eth passou a mão pelos cabelos castanhos, e trocou um olhar com Alex. Parecia um pouco constrangido.

— Eu atirei em você... Não de propósito é claro. — Revelou, erguendo as mãos imediatamente.

As lembranças foram chegando rápido, todas elas, todas dolorosas demais. Suspirei sentindo a fisgada na lateral da minha barriga.

Eu tinha uma porção de perguntas, mas eu me dei conta de que a horda, da qual eu estava fugindo, seguia em direção a fazenda, e eu tinha que avisar o grupo.

Tentei me levantar, mas tudo que eu consegui for arfar de dor antes mesmo de colocar o pé no chão.

— O que você está fazendo, louca? Deu a maior trabalheira remendar você. — Alex me impediu de continuar.

— Eu tenho que avisar os meus amigos. Vocês devem ter visto a horda... Não posso ficar aqui parada. — Continuei tentando me levantar, frustrada.

Os dois trocaram um olhar que eu não entendi de início e um arrepio percorreu a minha espinha. Afinal eu estava presa com dois caras desconhecidos e ainda por cima estava machucada.

— Você conta. — Alex se afastou um passo apontando para Ethan.

— Você apagou por três dias, moça...

— O exército de podres já fez tudo o que tinha que fazer. A maior parte está dispersa agora. — Alex completou.

Fiquei parada um instante, como se estivesse digerindo aquilo.

— Eu preciso ir até lá. — Joguei a manta que estava por cima de mim pra longe e tentei me colocar de pé novamente.

Percebi que tinha um curativo enorme na minha barriga e que minha blusa estava cortada, cobrindo o meu busto apenas.

— Senta aí. — Alex mandou com a arma apontada pra mim.

Os olhos negros e obstinados dele me causavam arrepios.

— Olha só, garota que não chama Sophia. A gente salvou a merda da sua vida, arriscando a nossa no processo, porque não foi fácil te carregar até aqui. Então seja um pouco grata.

— Vai me manter presa aqui, é isso? — Retruquei em desafio.

— Vou. — Ele devolveu prático. — Enquanto a sua saída arriscar a nossa vida, você não vai sair, é bem simples. Além do mais, eu não te costurei pra você se matar lá fora.

Fiquei onde estava, cruzando os braços e o encarando quanto eu podia. A merda da minha barriga latejava.

Depois de alguns minutos Ethan me estendeu uma garrafa de água e um comprimido. Resolvi aceitar, afinal se eu queria mesmo sair dali tinha que ficar inteira.

Reparei no lugar onde estávamos, era um tipo de abrigo, provavelmente subterrâneo, parecia algo feito para a guerra, mas eu não saberia dizer.

Me ajeitei na cama, pensando em um modo de sair dali, eu não confiava naqueles dois. Um deles tinha atirado em mim, poxa.

Mas ao mesmo tempo, ter que voltar para o grupo me assustava. Como eu encararia Rick? O que eu diria? Eles ainda estariam vivos depois de toda aquela horda?

Fechei os olhos e pensei em Daryl, sentindo o coração se apertar. Ou ele estava louco me procurando, ou ele pensava que eu estava morta. Talvez ele mesmo estivesse morto... esse pensamento me assombrou doloridamente. Mas em algum lugar lá dentro de mim, eu tinha praticamente certeza, que fosse o que fosse, Daryl Dixon era capaz de sobreviver.

Ethan se levantou por um momento e pegou algo em uma mochila e me estendeu, era uma camiseta. Eu a peguei e vesti com certa dificuldade. Alex tinha se afastado pra um canto, ele arrumava algumas armas e munições e eu percebi que o estoque deles era bem grande.

— Ele não é tão ruim quanto parece. — Ethan comentou se sentando novamente. — Você estava na fazenda Greene? — Eu assenti. — Enquanto corríamos pra cá vimos o celeiro deles pegar fogo.

Senti meu coração gelar. Mas eu não podia entrar em pânico. Tinha que me manter calma e me recuperar.

Ethan era o tipo que gostava de falar, ele contou que ele e Alex tinham desertado do resto do grupo militar deles e atravessado o estado, para que Ethan pudesse encontrar os pais. Infelizmente tudo que encontravam foi sangue.

Foi quando a horda apareceu por lá e eles fugiram pela floresta passando por três outras fazendas da região antes de Ethan me atingir por descuido. Ele parecia realmente culpado por isso, e de alguma forma gostei um pouco mais dele.

Mas segundo ele, Alex era quem salvara a minha vida, me carregando até ali e tratando do meu ferimento. A bala tinha atravessado e não acertara nenhum órgão, o que foi muita sorte minha.

Aos poucos fui sabendo mais sobre eles. Ethan era cabo, e Alex capitão. Era o moreno quem tinha mais experiência de campo e também conhecimento em primeiros socorros.

Dois dias passaram conosco presos no abrigo, pelo que pudemos perceber os errantes, ou podres, como os dois chamavam, tinham tomado o andar de cima e isso nos impedia de sair. Quer dizer, Alex achava que isso nos impedia de sair.

Ele não era realmente tão chato quanto eu previra. Na verdade, ele era o engraçado e Ethan o certinho. Eles confiavam um no outro de uma forma quase inacreditável, completavam seus pensamentos e se conheciam muito bem, mas discordavam de tudo e as brigas dos dois eram a parte mais divertida do meu dia.

Na maior parte do tempo, eu me sentia afundando em uma tristeza sem fim, pensar no corpo do meu irmão lá jogado, fazia meus olhos encherem de água.

Estávamos em uma fazenda vizinha a dos Greene, segundo Ethan, o senhor Turner, dono da fazenda, era um antigo coronel do exército, por isso aquele abrigo. E por sorte tinha suprimentos suficientes ali, além de algumas munições e armas. Eth descreveu o velho como "maluco", mas foi isso que acabou salvando a nossa vida.

Eu nunca tinha passado tanto tempo confinada em um lugar tão pequeno com estranhos, de modo que, eles acabaram deixando de ser estranhos, muito rápido. Mesmo assim, ainda era desconfortável usar o único banheiro do lugar com eles ali tão perto. A falta de privacidade era com certeza a pior parte.

No fim do terceiro dia, eu pude me levantar sem desconforto, me sentia fisicamente muito bem e Alex começou a preparar as coisas para deixarmos o abrigo, ou "a base" nas palavras dele.

— Sabe usar isso? — Ele perguntou me entregando a minha automática e a faca de Daryl, que eles haviam trazido junto comigo.

Acariciei as iniciais "D.D." no cabo e uma saudade quase angustiante apertou o meu peito.

— Ficaria surpreso. — Retruquei superior e Ethan riu.

— Vamos sair e tentar usar a caminhonete parada no quintal, mas não sabemos se ela tem combustível, nem se pega. Então vamos estar preparados para o pior. —Alex explicou e assentimos. — Ficaremos juntos e não correremos riscos desnecessários.

Ele e Ethan trocaram um longo olhar cúmplice do qual eu me senti completamente de fora.

— Então vamos lá, Pequena Raposa. Vamos ver se você é tão boa quando o Leão e o Tigre. — Alex falou abrindo o alçapão e subindo na frente.

Não entendi bem os apelidos, mas presumi que devia ser coisa de exercito ou algo assim, então deixei de lado.

Aos sairmos notamos que haviam errantes entre nós e a saída da casa. Os dois caras derrubaram todos como se não fossem nada. Eu tinha que admitir que eles eram muito bons naquilo...

Chegar até caminhonete foi fácil. Mas claro que nada podia ser tão fácil assim, e ela não pegou. Os tiros acabaram atraindo os que estavam dispersos e a situação começou a ficar preocupante.

Ethan apontou um atalho, se distraindo por um segundo, enquanto Alex estava ocupado com três ao redor dele. Ergui a arma e dei meu primeiro tiro. O errante que estava prestes a morder Ethan caiu no chão, com uma bala bem no meio da cabeça e eu sorri. Sentido que aquilo me colocava viva de alguma forma quase inexplicável.

Ajudamos Alex com os outros e corremos por um caminho lateral.

— Nada mal, Pequena Raposa. — Alex riu, piscando pra mim.

Depois de algum tempo de caminhada, tendo que dar cabo dos podres que encontramos, eu comecei a reconhecer a paisagem.

Alguns minutos depois, a fazenda se abriu a minha frente e meu coração disparou. Tudo ali só tinha uma definição: Destruição.

O celeiro estava totalmente em cinzas. Havia corpos podres no chão e uma centena de errantes inertes ocupavam o terreno. Eles não tinham nos visto e isso nos dava uma vantagem.

E eu soube que não havia mais ninguém ali, não tinha como, nem porque, terem ficado...

— Vamos olhar a casa. — Ethan sussurrou.

— Não precisamos. — Neguei, sabendo que não encontraríamos nada.

— Já viemos até aqui. Vamos até o fim. — Alex incentivou, preparando a arma. — Vamos derrubar todos no caminho.

Eu abaixei a mão dele, a minha tremia, eu sabia que não tinha ninguém lá, mas ele estava certo. Tínhamos que ir até o fim.

— Não precisamos atirar. Se formos por ali — apontei — eles não vão nos ver.

Ethan e Alex trocaram um olhar e concordaram. Chegamos à casa sem muitos problemas, tivemos que derrubar os que estavam na varanda, mas usamos as facas para não chamar atenção. Eles usaram, na verdade, eu derrubei um só.

Alex fechou as cortinas e barrou a porta com moveis. E eu fiquei parada lá no meio, olhando tudo do mesmo jeito que estava quando eu saí. Não havia ninguém. E de alguma forma eu já sabia que seria assim.

— Sinto muito. — Ethan segurou a minha mão de leve.

Respirei fundo e dei de ombros. Sentando em um lugar qualquer, incapaz de pensar no próximo passo.

Ethan e Alex foram para a cozinha e eu ainda podia ouvir a voz deles, Eth contava coisas sobre os Greene e a infância deles por ali.

Me levantei e caminhei até onde eu sabia que estavam as coisas do meu irmão. Peguei algo dentro da sua mochila e então arrumei a minha própria, pegando tudo de útil que eu encontrava pela casa.

Alex e Ethan se calaram quando eu entrei na cozinha, percebi os dois trocarem um olhar e então assentirem.

— Podemos procurar o seu grupo. — Alex ofereceu.

— Não me devem isso. — Eu neguei.

— Somos soldados, estávamos em uma missão pra achar meus pais, e agora podemos pegar outra. — Ethan deu de ombros, como se aquilo não fosse nenhum sacrifício.

Respirei fundo e olhei em volta. Pensando em tudo que eu tinha passado com aquele grupo e percebendo que, em todo aquele tempo, eu tinha me sentido deslocada. E com aqueles dois estranhos, matando errantes pelo caminho, eu tinha me sentido viva como há muito tempo não me sentia.

Pensei em Daryl e meu coração se apertou. Ele tinha aberto mão de tudo em que ele acreditava por mim... Seria mesmo justo deixá-lo?

Mas então eu percebi que ficar ir, o impediria de ter que abrir mão de ainda mais... Afinal, que futuro nós tínhamos? Eu viveria realmente no mesmo grupo de Rick, sabendo que ele matara o meu irmão? Olhando para Lori todos os dias e sabendo que ela era a culpada? Não. No fim eu acabaria fazendo Daryl escolher entre eles e eu. Quanto mais eu tiraria dele, sendo que eu não tinha nada para dar em troca?

Eu estava mesmo pronta fazer minha vida girar em torno do amor, quando sequer sabia se aquilo era mesmo amor?

Sim, por pior que parecesse, eu não tinha certeza se, o que eu sentia pelo Daryl, era mesmo amor. Afinal, eu era uma garota ainda, que tinha tido um só namorado em toda a vida. Eu nunca tinha realmente me apaixonado, quem dirá amado.

E se não fosse isso? E se eu pedisse demais dele, pra no fim não ser amor? E se eu sugasse tudo que ele podia me dar, mas nunca pudesse corresponder. Seria junto e certo?

Claro que eu gostava dele. Sem dúvida. Mas amar? Eu nem conseguia amar a mim mesma naquele momento.

— Mas eu não posso fazer isso. — Respondi por fim. — Eu não quero encontrá-los, eu quero seguir em frente.

E por incrível que pareça eu percebi que Ethan e Alex entendiam aquilo. Eu vi nos olhos deles.

Saímos da fazenda logo em seguida, usando um dos carros que haviam ficado pra trás. Levando tudo que podíamos. Reparei que a moto de Daryl não estava lá e desejei do fundo do meu coração que, onde quer que ele estivesse, ele ficasse bem.

Olhei a fazenda do vidro traseiro, eu tinha passado os piores momentos da minha vida ali e mesmo o beijo que Daryl me dera, parecia apagado pelo tanto de tristeza que aquele lugar representava.

Eu provavelmente me separaria de Alex e Ethan, assim que encontrássemos um lugar pra parar. Afinal, por mais que eu me sentisse bem com eles, eu não podia ficar de penetra.

Antes de escurecer, nós paramos e eu me afastei rumo a floresta, pois precisava fazer algo.

Abri a mochila e tirei de lá o antigo distintivo de Shane, abrindo um pequeno buraco na terra e o colocando o objeto lá dentro. Me doía não ter enterrado o corpo dele, então, pelo menos, algo simbólico eu tinha que fazer.

Mas não era apenas Shane que eu estava enterrando ali, eu estava deixando meu antigo "eu" para trás. Dizendo pra mim mesma que eu tinha que crescer e mudar. Eu nunca mais seria a mesma outra vez.

Em meu coração eu perdoei o meu irmão e apaguei todas as coisas horríveis que ele tinha feito. Eu queria me lembrar dele como o chato, superprotetor que ele foi durante minha vida toda. Eu queria lembrá-lo por todas as vezes que ele esteve ao meu lado.

Assim como alguém não quer lembrar de quem ama nos últimos momentos de uma doença terminal, eu não queria lembrar de Shane como o louco que ele se tornou em seus últimos dias.

Joguei terra sobre o distintivo e coloquei um ponto final em tudo, em Shane, Lori, Rick, Daryl. Todos eles estavam ficando ali e eu tinha que seguir em frente sozinha.

Me virei sem olhar pra trás, sabendo que tudo que eu precisava eu teria que encontrar pelo caminho e que voltar não era uma opção. O passado devia ficar onde pertencia.

— Pensamos que tinha se perdido na floresta, Pequena Raposa. — Alex comentou quando voltei.

Eu estava pronta pra dizer adeus para eles também e seguir o meu caminho dali.

— Sabe estávamos pensando aqui e acho que a nossa próxima missão, vai ser ensinar uma certa menina, que não chama Sophia, algumas coisas. Afinal você é muito boa de mira, mas segura essa faca aí muito errado, fora que você não sabe como usar os próprios pés... — Alex continuou com aquele sorriso debochado dele. — Você claramente precisa aprender a se impor como um Leão e a lutar como um Tigre.

Sorri, entendendo o convite por trás daquilo. Ethan piscou pra mim enquanto esquentava sopa na fogueira.

— Pode ser mesmo. Enquanto isso, acho que eu vou ter que ensinar vocês a serem espertos como uma Raposa. — Declarei me unindo a eles.

Pelo visto eu seguiria mesmo em frente, mas não sozinha...

Notas finais
E foi isso, sim eu separei o casal. Mas era necessário para a Char. Ouso dizer que é a primeira vez que escrevo uma fic onde a OC admite que ainda não ama o protagonista (isso é o que ela acha neh...) Esse enterro foi simbólico, mas teve significado real, essa foi a última vez que vimos essa Charlie. Teremos um salto grande no tempo agora, e a pergunta é, em que parte vocês acham que a gente vai voltar no próximo? kkkkk Bjss e até