Origins
12 Longa noite
Notas iniciais
Charlotte Walsh
Rodovia Interestadual
Eu nunca fui o tipo de criança que tinha medo do escuro, muito por causa de Shane que sempre deixou claro que não havia nada lá para temer. Não haviam monstros nas sombras. Mas era engraçado que o fim do mundo tivesse o poder de transformar a verdade em mentira; passara a haver monstros nas sombras.
Abracei meu próprio corpo e esfreguei os braços para espantar a sensação que o ar gelado trazia.
Eu estava no lugar de Rick há quase uma hora e a cada minuto me sentia mais culpada, omitir coisas dele e fazer vista grossa para os erros do meu irmão parecia estar me consumindo. O sumiço de Sophia, o fim do mundo, os mortos, a fome, a incerteza, Shane se transformando em algo que eu não conhecia, ter que olhar nos olhos de Rick e saber que eu era quase cúmplice de uma traição, ter que aguentar Lori, saber que Carl estava bem no meio disso e, ainda por cima, o meu "problema" com Daryl Dixon. A lista de preocupações era longa, eu sentia falta da época em que eu apenas queria ter minha própria vida...
E quem diria que eu estava prestes a abrir mão desse sonho caindo na estrada justo com Shane e deixando o grupo pra trás. Talvez laços de sangue não pudessem ser quebrados.
Ouvi passos atrás de mim e não me preocupei em checar quem era, afinal errantes tinham um arrastar de pés característico e a pessoa que se aproximava de mim se movia como um felino.
Eu podia sentir o olhar de Daryl nas minhas costas desde que assumi a vigia, achei que seria isso a noite toda, e admito que fiquei realmente surpresa quando ele de repente parou do meu lado por vontade própria, afinal ele vinha evitando qualquer contato comigo desde o CCD.
Ficou ali parado em silêncio absoluto, o polegar nos lábios, ele estava inquieto, eu podia sentir isso...
— Quando pretendem partir? — Perguntou finalmente, apontando o carro que Shane preparara com a cabeça.
Eu o olhei surpresa. Como ele sabia daquilo?
— Seu irmão consertou um carro, levou suas coisas pra lá. Ele foi discreto, mas... — Começou a explicar, ao ver minha expressão confusa.
— Mas você é um caçador muito perspicaz, e mesmo em meio a busca de uma garotinha reparou. — Fui sutilmente sarcástica.
Daryl respirou fundo, fazendo um movimento de negação com a cabeça e caminhando de mau-humor até o carro mais próximo. Se encostou no capô pegando uma das suas flechas e revirando entre os dedos.
— Comentou isso com alguém? — Perguntei a contragosto.
— Eu tenho cara de fofoqueiro por acaso? — Retrucou de imediato.
Revirei os olhos, me afastando alguns passos. Quanto menos gente soubesse melhor, mas parecia quase impossível manter a porcaria de um segredo ali naquele grupo.
Mais algum tempo de silêncio passou, até que Daryl se levantou e caminhou para perto de mim novamente, parando há alguns passos. Segurou a alça daquele arco esquisito, que estava jogado sobre o ombro dele, e encarou o chão por um momento.
— Você não devia ir. Não é seguro. — Falou quase baixo demais, se afastando.
O parei quase no mesmo instante, ficando um passo à frente dele e colocando a mão espalmada no seu peito.
— Qual é a sua? — Perdi toda a paciência, possivelmente jogando nele toda a frustração dos últimos dias. — Você me dá um fora, me trata como lixo, nem olha na minha cara por três dias e agora quer dar uma de preocupado comigo? O que você quer de mim?
Daryl tirou a minha mão do seu peito bruscamente, se afastando, visivelmente nervoso e apontando o dedo praticamente no meu rosto.
— O que você quer de mim? Hãn? — Perguntou alterado, indo e voltando. — Queria que eu tivesse te fodido naquele maldito chão enquanto você estava bêbada?
Isso era mais ou menos o que eu queria naquele dia... Pensei quase instantaneamente, porém não respondi. Só quando Daryl colocou em palavras tão cruas foi que eu me dei conta de que meu desejo naquela noite era bastante inconsequente. Quem sabe eu tivesse até me arrependido depois.
— Você pode não aceitar minha atitude. Pode se achar muito madura e pode ficar brava o quanto quiser. Mas você continua tendo só dezoito anos. Mal deixou de ser crime, sabia? — Terminou, chutando qualquer coisa no chão.
— Uau! Você quer uma salva de aplausos pela sua índole intocável? — Bati palmas teatralmente, irritada demais para dar ouvidos à minha sensatez. — Ou será que está esperando que isso garanta o seu lugar no céu, e te livre do inferno? Bom você conseguiu. Mas adivinha só? Não faz diferença, porque a terra é o inferno agora. Não existe mais lei. Não existe salvação. Só o que resta é a nossa vida e o quanto aproveitaremos dela. — Dei dois passos pra trás e fiz um movimento de negação com a cabeça. — E eu não vou desperdiçar aqueles que podem ser meus últimos dias, deixando você ferrar com a minha mente!
— Eu estou ferrando a sua mente? — Ele devolveu quase no mesmo instante, a incredulidade em cada sílaba, a voz alterada e muito mais rouca que o normal, embora estivéssemos fazendo o possível para discutir baixo. Ele riu irônico, movendo a cabeça em negativa. — Você não faz ideia. E quer saber? Não importa.
Daryl não esperou uma resposta, caminhando entre os carros por um tempo e se mantendo longe de mim.
Subi em um veículo qualquer, tentando focar no que eu realmente estava fazendo ali, que era montar guarda. Não funcionou muito bem, minha mente cismava em voltar naquela discussão e me mostrar todas as outras coisas que eu podia ter dito ou não dito. Às vezes eu só queria poder desligar meus pensamentos por um tempo.
Um bom tempo se passou e Daryl ainda se mantinha distante, caminhando entre os carros onde o grupo dormia, provavelmente se certificando que tudo estava certo.
Foi mais um menos quando Shane acordou, trocou algumas palavras com Daryl e então veio na minha direção.
— O que está fazendo aqui? — Perguntou, parando do meu lado.
— Vigiando. — Respondi o óbvio, sem qualquer boa vontade para conversar.
— Você não precisava estar aqui, eu viria ficar no lugar do Rick. — Devolveu, trocando o peso de perna.
— Não foi nenhum sacrifício. — Dei de ombros.
— Pode ir agora, eu fico no seu lugar.
— Troca com o Daryl, ele está aqui há mais tempo. — Não saí do meu lugar.
— Glenn vai acordar pra ficar no lugar do Dixon daqui a pouco. Aproveite o tempo pra dormir. Não sei como será depois da busca de amanhã. — Explicou, se referindo a nossa partida.
— Está me mandando dormir, porque quer que eu descanse? Ou porque não quer correr o risco de eu dizer o que você não quer ouvir? — O encarei acusatória.
Shane não respondeu, ele até queria, mas eu não lhe dei tempo.
— Eu vou. Mas vê se aproveita esse tempo aqui pra colocar a mão na consciência. — Sugeri calmamente. — É o Rick, Shane. Lembra? Seu melhor amigo. Seu irmão. Ele sempre esteve lá; por você, por nós... Ele estava lá quando a nossa mãe morreu, ele estava lá quando o papai se foi. Quando você quis ser policial, ele estava lá também. Ele é família, Shane, mesmo que ele não tenha nosso sangue, ele é. Porque o que faz uma família não é o sangue é a lealdade. E Rick Grimes sempre foi leal a você.
— E por que acha que eu vou partir, Charlotte? — Perguntou abalado.
— Você não está partindo, Shane. Você está fugindo. Fugindo porque não consegue encarar Rick e ver seus erros. — Expus com o máximo de sutileza que eu conseguia. — E sejamos sinceros, seu erro não foi transar com a mulher dele enquanto achava que ele estava morto. Seu erro foi querer tudo que é dele. Seu erro foi tentar tomar pra si uma vida que não é sua. Vocês dois sempre conseguirão coisas diferentes pelo caminho, porque vocês são diferentes. Nem melhores, nem piores, apenas diferentes. Mas quando você libera o pior de si pra tentar ter o que é dele, eu temo que a vida te devolva o pior também. — Respirei fundo, sabendo que talvez eu estivesse sendo dura. — Não é isso que eu quero pra você. Não estou pronta pra ver sua ruína, irmão. Por que nós dias de hoje, sua ruína será a minha ruína também.
Shane ficou calado, como se digerisse cada uma das minhas palavras. Eu toquei seu braço com carinho.
— Rick sempre esteve lá por você, mas você sempre esteve lá por mim. Foi você quem se esforçou pra me dar uma vida. Eu não esqueci disso. Algumas vezes você foi um cretino superprotetor, mas você só queria o meu bem, e agora, sou eu quem quer seu bem. — Terminei, sendo o mais sincera que eu podia. — Pense nisso, irmão.
Me afastei alguns passos e Shane apenas assentiu enquanto eu virava e andava em direção ao carro que ele estivera dormindo. Antes que sumisse do meu campo de visão dei uma última olhada e ele caminhava para o sentido oposto, a cabeça baixa e as mãos na cintura. Desejei que ele realmente encontrasse um ponto de equilíbrio, para o bem dele e para o meu.
Eu estava no meio de dois carros quando Daryl apareceu na minha frente. Instintivamente desejei dar meia volta, mas seria hipocrisia fugir dele depois do discurso que eu acabara de recitar para meu irmão.
Ele, no entanto, não parecia disposto a desviar de mim. Na verdade, parecia convencido a falar comigo.
Puxei a maçaneta do carro e ele impediu a porta de abrir segurando-a com a mão direita. Encarou o chão por um momento, enquanto eu tentava entender o que ele estava fazendo.
Respirou fundo, cerrando os punhos e eu percebi que devia ser muito difícil pra ele ficar parado assim, quando ele devia mesmo era querer andar de um lado para o outro como fazia sempre.
— Eu realmente ia ficar na pedreira. Mas você me deu um bom conselho quando sugeriu que eu continuasse com o grupo. Eu só estou retribuindo o favor agora. Você não devia ir. — Falou tentado parecer calmo, mas a rouquidão em sua voz o denunciava.
Era irônico que ele dissesse isso, quando ele devia saber que eu queria que ele ficasse por minha causa.
— E aí está você, ferrando a minha mente. — Comentei neutra quando ele ergueu os olhos e encontrou os meus.
Assentiu minimamente, tirando a mão da porta e passando por mim ainda com as íris azuis presas nas minhas.
— Não se preocupe, não vai acontecer outra vez. — Declarou baixo, porém decidido.
Instintivamente segurei seu braço. Algo se quebrou dentro de mim, e eu me dei conta que nem tinha ideia de que algo havia se tornado forte o suficiente para que pudesse ser quebrado.
— Vai ser melhor assim... — Ele completou, quando viu que eu não o largava.
Eu não sei exatamente porque, mas me aproximei mais, encostando a cabeça em seu peito e envolvendo-o com os braços.
Levou alguns segundos até que Daryl retribuísse meu abraço, desajeitado de início, mas depois quando ele finalmente me amparou, eu senti que aquele sempre havia sido meu lugar.
Naquele minuto em que eu pude ficar em seus braços e me afogar no seu cheiro eu percebi que não estava bem; eu vinha amparando a todos que eu podia; eu vinha brigando pelo certo; eu estava preocupada com Shane e Rick; mas no fundo eu também precisava de atenção.
Foi no aconchego daquele abraço que eu percebi o quanto estava sozinha, eu estava desmoronando e não tinha ninguém lá pra me segurar...
— E aí está você, ferrando a minha mente. — Repetiu minha frase tão baixo que eu quase não ouvi.
Foi só então que me dei conta do meu egoísmo. Não era só sobre mim, era sobre aquele homem também, alguém com passado e feridas que eu desconhecia.
Daryl não queria fazer algo considerado errado, e eu percebi que não era pela lei em si, já que a lei não condenaria mais nada por causa da minha idade... Não tinha a ver com isso. As coisas estavam ali o tempo todo e eu não fui capaz de enxergar.
Ele não queria ser como o irmão, não queria ser como sabe-se lá quantas pessoas. Tudo que Daryl tinha eram as convicções dele e eu estava tentando fazer com que ele as deixasse de lado por mim.
Eu estava pedindo a alguém para abrir mão de quem era, e tudo isso por quê? Por uma noite? Um desejo? Eu sequer sabia o que eu sentia por ele de verdade. Não sabia se partiria com Shane no dia seguinte.
Eu queria que Daryl fizesse algo que ele julgava errado, enquanto eu própria queria que as pessoas ao meu redor fizessem o certo.
Mas não era só isso, eu estava pedindo que Daryl Dixon me desse tudo que ele ainda tinha, enquanto eu mesma não estava oferecendo nada em troca. Eu estava pedido que ele abrisse mão daquilo em que ele acreditava... E isso não era justo.
— Não se preocupe, não vai acontecer outra vez. — Repeti a frase dele dando um passo pra trás. — Vai ser melhor assim.
Nós olhamos uma última vez antes que ele se afastasse e eu pudesse entrar no carro.
Assim que sentei, deixei a cabeça cair pra trás, eu estava exausta, emocionalmente exausta. E aquela noite foi uma das mais difíceis de cumprir a minha promessa de não chorar...
Quanto tempo mais eu aguentaria?
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