Origins
13 Na floresta
Notas iniciais
Charlotte Walsh
Margens da Rodovia
A busca foi um fiasco, nenhuma trilha, nenhuma pista, nada. Apenas uma grande quantidade de decepção, e uma mãe cada vez mais desesperada.
Eu pressentira que seria um dia ruim quando acordei, ou talvez tenha sido quando tive que entregar minha arma a Shane antes de sairmos, para que Andrea não armasse um showzinho, porque eu tinha uma e ela não. Não, espera, acho que na verdade foi quando Rick e Lori resolveram trazer Carl junto na busca. Uma criança, atrás de outra criança na mata.
Metade de nós não tinha utilidade alguma ali, apenas bagunçando possíveis rastros e andando por quilômetros inutilmente. Uma garotinha tão pequena nunca caminharia pra tão longe.
Chegamos a pensar que os sinos ecoando pela mata pudessem ser um bom sinal, mas era apenas um dispositivo eletrônico pré-programado para tocar na hora certa. Nem sequer havia um campanário ou um sino de verdade naquela pequena paróquia que encontramos no meio do nada.
Pelo menos Rick, Shane e Daryl descontaram suas frustrações em três errantes lá dentro. O estojo de armas brancas, que Carl havia achado em um dos carros no dia anterior, acabou sendo muito útil. Não que eu realmente soubesse, ou pretendesse, usar aquele machadinho, foice, ou seja lá o que aquele treco fosse.
Percebi que entendia Andrea perfeitamente, ficar sem minha arma era um saco. Mesmo que eu nunca tivesse disparado desde que a ganhei de Shane, ela me fazia sentir muito mais segura.
Quando perceberam que a igreja era outro monte de nada na nossa busca o grupo meio que se dispersou por ali.
Carol pediu um momento pra rezar, e eu achei que seria quase uma invasão ficar lá ouvindo. Mas Shane e Lori estavam do lado de fora conversando quase aos sussurros e eu acabei ficando.
Rick e Carl estavam encostados em uma das paredes e eu fui pra perto deles. Eu sabia que se o Grimes mais velho quisesse sair e pegasse os dois traidores lá fora naquele clima tenso não seria bom. Então eu fiquei por lá, para iniciar uma conversa qualquer caso fosse necessário.
Eu era tão culpada quanto Shane no fim das contas, escondendo e mentindo pra manter aquela paz fictícia.
Felizmente eu não tive que me preocupar com isso por muito tempo, Lori logo voltou e se sentou lá na frente perto de Carol.
Eu nunca havia visto alguém rezar com tanta culpa, Carol abriu o coração; tudo que ela queria era a filha de volta. E ouvi-la dizer aos prantos que desejar a morte de Ed fora um pecado, que Deus podia puni-la por isso, mas que não fizesse o mesmo com a Sophia, foi de partir o coração...
Momentos depois, Rick e Carl saíram da igreja pouco antes de Lori, que deu um último abraço em Carol e se foi depois. Me aproximei então, me sentando ao lado dela em silêncio. Não conversávamos direito desde o episódio com Rick.
— Ainda está chateada comigo por causa das coisas que eu disse para o Rick? — Carol perguntou, olhando as próprias mãos.
— Eu nunca disse que estava. — Respondi, não fazendo ideia de como ela havia percebido.
— Não precisou. Eu vi nos seus olhos. — Carol explicou. — Tem razão, não foi justo.
— Você estava nervosa. Eu nem imagino o quão devastador isso tudo é pra você. — Segurei a mão dela. — Eu não te culpo. Me desculpe se passei essa impressão.
Uma lágrima solitária terminou de escorrer pelo seu rosto enquanto ela o levantava para me encarar com um sorriso triste.
— Você tem coragem... Abrir seu coração assim. Eu não conseguiria, me sentiria exposta. — Comentei com sinceridade.
— Às vezes é bom abrir o coração, lava a alma. Talvez Deus perdoe meus pecados e traga minha filha de volta. — Sua voz saiu quase um lamento.
— Nós vamos trazer sua filha de volta. — Devolvi com convicção, apertando um pouco mais sua mão para lhe passar força.
— Você não acredita Nele. — Carol constatou, olhando para a cruz por um momento.
— Eu não sei... — Me espantei um pouco com a minha própria sinceridade. — Fome, sofrimentos, crianças abandonadas, cegos, paraplégicos, desigualdade... São muitas coisas ruins num mundo com um Deus que dizem ser tão bom. Mas talvez eu já tenha acreditado nele também. Nas noites em que minha mãe me colocava pra dormir e rezava comigo. Antes da morte dela...
— Eu não sabia, sinto muito. — Carol tentou me consolar e eu apenas dei de ombros me esforçando para não sucumbir a tristeza da lembrança.
— Eu tinha uns quatro anos, talvez menos, meus pais foram ao cinema; minha mãe nunca voltou pra casa. Assalto. Ela levou um tiro, por causa de um colar de pérolas falso que usava. Deus não a protegeu. Deus não me impediu de crescer sem mãe. Ele também não impediu meu pai de surtar e simplesmente ir embora um ano depois. Eu até quero acreditar às vezes. Mas as circunstancias apontam contra Ele. — Contei, revivendo tudo aquilo, enquanto via nos olhos dela o quanto estava penalizada por mim. — Shane decidiu entrar na polícia depois disso, por causa disso... Uma coisa boa nascendo de um monte de merda. — Tentei rir, mas acho que o máximo que eu consegui foi uma careta. — Então o mundo acabou e eu acrescentei mais essa coisinha na lista de coisas que Deus não fez.
— Ele parece um carrasco quando você conta. — Carol tentou amenizar o clima.
Eu apenas assenti, incapaz de encontrar aquele humor duvidoso que eu às vezes ostentava. Apenas olhei para a cruz uma vez mais antes que deixássemos a igreja e caminhássemos pra junto do restante do grupo, todos esperando as próximas ordens de Rick e Shane.
Daryl estava encostado em uma árvore e eu mantive distância. Tinha resolvido isso na noite passada. Seria o melhor pra ele... E talvez pra mim também.
Meu irmão disse que ele e Rick não voltariam, deixou Daryl no comando e pediu que ele nos levasse de volta para o trailer, Dale e T-Dog tinham ficado por lá, um arrumando o veículo e o outro com o ferimento no braço deixando-o fraco demais pra caminhar.
Por algum motivo inexplicável Carl ficaria com a dupla o que o fez sorrir vitorioso.
Com o grupo se separando eu caminhei na mesma direção de Shane, não porque eu realmente quisesse estar no meio dele e do Rick, mas porque a outra opção era voltar com Daryl e isso não era o mais apropriado naquele momento.
— O que pensa que está fazendo? — Meu irmão perguntou autoritário.
— Ah, qual é? O herói nanico vai... — Protestei antes que Shane começasse o sermão e fiz uma careta para Carl ao meu lado. — Eu juro que se você não me deixar ir, eu vou dar um piti bem aqui. — Brinquei.
— Deus me livre! — Ele me empurrou na frente cedendo a minha chantagem. — E eu achei que você não desse "piti".
Carl passou ao nosso lado rindo da minha cara e deu um último aceno para o grupo.
Rick pediu um minuto e voltou à paróquia enquanto esperávamos do lado de fora.
— Eu vou encontrar a Sophia. — Carl afirmou para Shane.
— Claro que vai. — Meu irmão concordou bagunçando o cabelo do menino, mas eu pude ver em seus olhos que não havia nenhuma convicção naquela resposta.
Rick saiu alguns minutos depois, a face consternada e os olhos baixos. Tentou um sorriso que não veio de fato e logo saiu na frente com Carl.
— Você não acredita que podemos encontrá-la. — Sussurrei em afirmativa para o meu irmão, assim que ficamos um pouco pra trás.
— Uma garotinha sozinha na floresta cheia de mortos? Eu só não quero criar falsas expectativas. — Devolveu prático.
— Vocês vêm? — Rick chamou já alguns metros à frente e deixamos nossa conversa de lado para segui-lo.
Andamos mais algum tempo e não achamos rastro algum, até que algo alertou a atenção de Shane e Rick, os dois preparando as armas e trocando um sinal para que ficássemos quietos.
Algo se mexeu entre as folhagens e eu segurei Carl um passo atrás de mim por instinto.
Provavelmente todos nós percebemos o que era ao mesmo tempo e relaxamos, um cervo caminhava calmamente até ficar bem a nossa frente no descampado.
Shane preparou a mira, mas Rick o impediu quando viu que Carl estava maravilhado com o animal. Uma coisa daquelas era como um raio de esperança no meio de tanta morte andando pelo mundo.
Carl se aproximou mais alguns passos e o cervo não parecia incomodado.
E no segundo seguinte a paz momentânea havia virado um caos, com o som de um tiro ecoando pela floresta e o corpo de Carl caindo no chão logo após o do cervo.
O sangue empapando a camiseta camuflada na altura do abdômen assustadoramente rápido. Rick já estava ao lado do filho, Shane procurava a origem do tiro e eu levei ainda um segundo pra perceber que aquilo era realmente verdade e não um pesadelo bizarro.
No instante seguinte, assim que conseguir piscar para me obrigar a sair do choque, me ajoelhei ao lado de Rick para ajudar. Ele estava desesperado, os olhos marejados.
— Temos que conter o sangramento. — Lembrei de algumas aulas de primeiros socorros, que o corpo de bombeiros dera na escola. Rick só conseguia balbuciar coisas desconexas. — Rick! — Chamei mais firme e ele ergueu os olhos.
Tirei o lenço que havia colocado no cabelo aquela manhã e entreguei pra que ele pressionasse sobre o ferimento. Depois entreguei meu cinto pra fazer um torniquete. Rick estava praticamente no automático, mal ouvia o que eu falava, e eu acabei tendo que fazer tudo praticamente sozinha. Mesmo que eu não soubesse exatamente o que eu estava fazendo.
Podia ouvir Shane gritando com alguém que pedia perdão em tom desesperado. Não dava tempo de olhar.
O sangramento não parava, a bala parecia estar lá dentro e se tudo que eu assistia na TV estava certo, aquilo era ruim, muito ruim.
O estranho, que se chamava Otis, estava caçando o cervo e não viu o Carl, fora um acidente, não que Shane parecesse acreditar naquilo. Mas ele morava em uma fazenda, quatro ou cinco quilômetros à frente e havia alguém lá que podia ajudar.
Rick não pensou duas vezes antes de pegar o filho no colo e começar a correr, não havia tempo pra pensar.
Eu estava pronta para segui-los quando Shane me deteve.
— O grupo não deve estar longe, preciso que você volte, que ache a Lori e conte pra ela. Explique a direção da fazenda e traga ela aqui. Rick precisa de mim e não sabemos se as pessoas dessa tal fazenda são confiáveis, não tenho mais ninguém pra pedir. Pode fazer isso? — Shane perguntou segurando meus ombros. — Assim que der eu te alcanço.
Ele estava transtornado, o mesmo olhar que eu vira em seus olhos meses atrás quando Rick foi baleado. Eu não tinha como negar, então apenas assenti. Ele fez o mesmo movimento em concordância, beijando minha testa e me dando um último olhar antes de correr atrás de Rick que já estava bem à frente.
O próprio Shane não estava pensando direito, afinal se estivesse são, não teria me mandado ir... Mas um motivo pelo qual eu tinha que provar que podia.
Respirei fundo assim que eles saíram da minha visão, dando meia volta e correndo pelo mesmo caminho pelo qual havíamos vindo.
Eu estava com medo, apavorada na verdade, mas não podia parar. Minhas pernas protestavam e eu me condenei por fugir de grande parte das aulas de educação física.
Corri por mais algum tempo, até que tive que parar, nem tanto pelo cansaço que me fazia apoiar o corpo nas pernas e ofegar. E sim porque percebi que já devia estar na igreja, mas tudo que eu via era mato e mais mato...
Olhei ao redor sentindo o desespero me dominar. Tentei ser razoável e respirar fundo, mas tudo o que eu consegui foi me culpar por não ter um pingo de conhecimento sobre andar na mata, acampar ou qualquer coisa que envolvesse atividades ao ar livre.
Eu não podia acreditar que a primeira coisa importante que o Shane finalmente tinha pedido pra mim eu não conseguiria cumprir.
Tentei colocar a cabeça no lugar e pensar um pouco. Não era mais só sobre contar para Lori, era sobre não ficar perdida na floresta como a Sophia.
Olhei para o céu e tentei me orientar pelo Sol, não era difícil encontrar os pontos cardeais, eu não era tão burra. O problema estava em saber para qual das direções a estrada estava.
Não entre em pânico. Não entre em pânico. Não entre em pânico. Repeti mentalmente.
Pensei que talvez voltar seria a escolha mais prudente, de lá eu podia decidir se encontrava a igreja ou se ia para a tal fazenda e pensava em outro jeito de avisar Lori e os outros. O importante era que eu não podia ser outra pessoa perdida na floresta.
Olhei para o chão e procurei por minhas próprias pegadas ou rastros. Funcionou por alguns metros, depois tudo não parecia mais que mato e terra.
Parei novamente e admiti para mim mesma que estava perdida. Aceitar que eu tinha um problema era, possivelmente, a melhor forma de resolvê-lo. Eu não fazia ideia de pra que direção seguir e também não seria inteligente ficar parada ali, então decidi que andar em linha reta era a coisa "menos pior" para eu fazer.
Se eu conseguisse encontrar uma trilha e depois chegar em qualquer estrada podia voltar para onde o grupo estava. Tudo que eu precisava era de um pouco de paciência e quem sabe alguma sorte.
Respirei fundo e recomecei a andar, dessa vez mais devagar, o calor do fim de tarde me lembrando da sede e do cansaço, e eu nem queria pensar na fome. Há quando tempo eu não comia mesmo?
Sei lá quanto tempo passou e nada de nada. Como aquela bosta de floresta podia ser tão grande?
Olhei pra trás e percebi que não fazia ideia se realmente estava em linha reta, ou se andava em círculos. Tentei pensar em uma solução.
Apertei o cabo da foice que eu carregava e rasguei a calça que eu usava fazendo dela um shorts curto, depois cortei o pano em varias tiras e voltei a andar. Passei a contar meus passos e amarrar uma tira em uma árvore a cada cem deles. Isso me impediria de ficar passando toda hora pelo mesmo lugar.
O Sol começou a se pôr e eu tentei não prestar atenção. Pensar que eu teria que passar a noite no meio da floresta não ajudaria em nada...
Foi nesse momento que ouvi os grunhidos que fizeram minha espinha gelar. Três deles vinham na minha direção.
Perdi mais de dez segundos paralisada de medo. Eu não podia morrer ali. Eles eram lentos, eu podia correr, certo?
Não pensei muito sobre isso, seguindo para uma direção qualquer, as fitas cortadas da minha calça caindo em algum lugar no meio disso.
Eu estava indo bem até que senti algo batendo nas minhas canelas enquanto eu corria. De relance pude ver o cadarço da porcaria do meu All Star desamarrado, mas não dava tempo de parar para amarrar.
Aquilo era tudo que faltava...
Sentia as pernas arderem e uma porcaria de dor do lado esquerdo do corpo, logo abaixo do pulmão. Eu não devia estar respirando direito.
Tentei me focar em inspirar e soltar o ar no ritmo em que eu corria, mas isso me distraiu dos outros dois que surgiram logo a minha frente. Me assustei a tempo de desviar a direção, mas tropecei no cadarço e rolei por um amontoado de terra.
Senti o tornozelo arder, aquele mesmo que eu quebrara no começo de tudo. Algo quente escorreu pelo meu rosto e eu percebi que havia batido a cabeça na queda, parecia ter aberto um corte no supercílio e pela dor eu tinha cortado o braço também.
Tentei me levantar, enquanto os cinco errantes vinham atrás de mim. Assim que apoiei o pé no chão soube que correr não era uma opção. Eu provavelmente tinha torcido o tornozelo...
A foice tinha caído alguns metros à frente, eu não podia fugir, então eu teria que enfrentá-los. Eu podia morrer fazendo isso, mas se eu não fizesse acabaria morrendo de todo o jeito.
Me joguei no chão atrás da lâmina, no mesmo instante em que um deles me alcançou. Eles estavam prestes a morder minha perna quando com um movimento só a foice de mão perfurou seu crânio.
Ótimo. Faltavam apenas quatro.
Ninguém ia me ajudar. Talvez nem Deus estivesse me vendo naquela hora. Eu teria que fazer tudo sozinha.
Eu não podia morrer ali.
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