Origins

9 Adeus acampamento


Daryl Dixon
Acampamento na Pedreira

A vida já era uma grande merda antes, mas eu nunca pensei que pudesse ficar pior, eu estava muito enganado, o amontoado de corpos jogados pelo acampamento provava isso.

Ninguém dormiu, exceto as crianças, quatro pobres crianças no meio daquela porra toda. Isso só podia ser brincadeira.

Quatro? Não... Cinco crianças, minha mente fez questão de me lembrar. Sim a garota das íris caramelo era só uma criança, embora eu tivesse que me lembrar constantemente disso, principalmente quando meus olhos eram atraídos para ela como um imã. Charlotte Walsh, a irmã do xerife, do xerife babaca quer dizer, afinal agora tínhamos dois xerifes...

O tal Rick era menos insuportável, embora tivesse deixado meu irmão preso na porra do telhado e mesmo que eu quisesse socar a cara dele, não dava pra negar que ele era mais sensato, menos mala... Não importava.

Deixei a picareta cair sobre a cabeça de um morto qualquer, devia ser um dos nossos. Quer dizer, "nossos" não, eu não fazia parte daquele grupo, outra coisa da qual eu tinha que me lembrar constantemente.

Eu nunca teria escolhido ficar no meio daquela gente, mas Merle teve a brilhante ideia de atraí-los para esse lugar onde já havíamos acampado uma ou duas vezes antes de tudo.

A ideia era roubá-los na primeira chance, não que eu concordasse com isso. A porcaria do mundo tinha acabado, não precisávamos roubar a única chance de sobrevivência desses idiotas... E talvez já estivéssemos bem longe dali se eu não tivesse visto um imprevisto em todas as chances que meu irmão identificou. Talvez eu não precisasse estar estourando as cabeças de conhecidos naquele instante.

O acampamento estava dizimado, dava pra contar os sobreviventes nos dedos, e teriam sobrado menos ainda se não tivéssemos chegado bem na hora com as armas do xerife novato.

Alguns me ajudavam na tarefa de impedir que os mortos se levantassem, enquanto outros discutiam o que fazer com as duas irmãs loiras.

A mais nova estava morta, sabíamos que logo ela se transformaria e a mais velha não deixava a gente terminar o serviço, eu sugeri que um tiro dali mesmo resolveria. Mas os reis do pedaço resolveram dar mais um tempo pra elas.

Tempo pra uma se levantar e morder a outra. Pensei comigo mesmo.

E aconteceu de novo, eu fui atraído para os olhos cor de caramelo como um imã. Isso era irritante.

Charlotte estava parada de pé, afastada dos outros, o rosto ainda tinha vestígios de sangue da coisa que eu matei em cima dela, os cabelos desgrenhados e os olhos melancólicos, mesmo que eu soubesse com toda a convicção que ela não havia derramado uma única lagrima.

Era engraçado, que mesmo aquela aparência caótica não conseguia deixá-la menos bonita... Criança. Criança. Minha cabeça apitou como um alerta e eu desviei os olhos.

Tentei me concentrar na tarefa. Queimar corpos, mas não os da "nossa" gente — O japonês/coreano deixou claro. — Os nossos seriam enterrados. Perda de tempo, na minha opinião, afinal já estavam todos mortos mesmo.

Em um momento qualquer eu disse que eles haviam merecido aquilo, por terem deixado meu irmão para morrer. Não era verdade. Ninguém merecia aquilo.

Pouco depois descobrimos que o cara chamado Jim tinha sido mordido e mais uma discussão se formou sobre o que faríamos com ele. Pelo que parecia sempre caiamos em alguma discussão inútil e sempre ignoravam a minha opinião. Eu queria dar cabo daquilo. O homem morreria de todo jeito e podia acabar sendo um perigo para os outros. Mas, segundo o xerife novato, nós não mataríamos os vivos. Besteira!

E outra discussão inútil se formou sobre buscar ajuda para o moribundo no CCD, Rick achava que havia algo lá, Shane achava que tínhamos que ir para Fort Benning. Era impressionante que os dois caras que tinham sido parceiros discordassem tanto. Contudo eles não discordavam que eu não devia acabar com a vida miserável do Jim.

Idiotas.

Me afastei e voltei a fazer algo realmente útil, acabar com aquelas coisas mortas antes que elas se levantassem e tornassem a situação pior. Ficar discutindo sobre possibilidades e probabilidades não ia manter ninguém vivo.

— Você tem razão... — Eu nem precisava levantar a cabeça pra saber quem era, mas levantei, surpreso por ouvir Charlotte dizer que eu tinha razão sobre qualquer coisa. Na maior parte do tempo ela parecia viver para me infernizar. — Sobre Amy e Jim. — Ela completou quando percebeu minha confusão. — Ela está morta, ele foi mordido, não tem mais salvação para eles. E se não fizermos o necessário não haverá salvação para nós também.

Assenti enquanto grunhia qualquer coisa em concordância, eu não era muito bom em falar com as pessoas. Achei que isso seria o suficiente e que ela iria embora, mas ela continuou lá parada, calada, eu podia sentir os olhos dela queimando minha nuca.

Ergui a cabeça encarando-a por um instante. É, ela não iria embora. Apoiei o braço sobre o cabo da picareta e respirei fundo.

Charlotte parecia ponderar sobre o que diria, exatamente como no lago, no dia anterior. As imagens daquele dia voltaram a minha mente mesmo eu tentando reprimi-las a todo o custo.

A pele clara exposta, as gotas de água descendo por ela como se me obrigassem a explorar cada lugar por onde passavam, a blusa colada ao corpo e... Criança! O alarme soou de novo alto e claro me deixando frustrado por não poder conter meus próprios pensamentos. Eu não era esse tipo de cara, talvez Merle fosse, mas eu não. Isso era errado, mesmo que eu não soubesse ao certo que nome dar ao "isso".

Quantos anos ela tinha afinal? O xerife idiota dissera quinze um dia desses, mas eu ouvira dezoito sair da boca dela em uma conversa com o xerife novato. Mas não fazia diferença. Não pra mim. Era uma criança e fim.

— Mais alguma coisa? — Perguntei grosso perdendo minha paciência.

— Não. Sim... — Vi seu peito subir e descer em uma respiração profunda. — Eu só... Obrigada por ontem.

Eu não esperava por aquilo, as poucas pessoas com as quais eu convivia não tinham o hábito de me agradecer por nada. E aquilo, aliado ao olhar que mostrava o quão sincera ela estava sendo, praticamente fizeram meus pés se moverem sozinhos um passo mais próximo dela. O que me fez desejar ardentemente que ela voltasse a ser a garota irritante e chata e não alguém que me despertava aquele instinto estranho e desconhecido.

O maldito alarme na minha cabeça me fez dar de ombros como se não fosse nada demais e me virar em um movimento brusco caminhando entre alguns corpos e chutando um deles.

Por que diabos ela não ia embora?

— Vamos diga! — Ela assumiu o tom irônico de sempre e eu quase agradeci por isso. — Diga o que todos devem estar pensando.

Fui obrigado a olhar pra ela de novo já que não tinha entendido bosta nenhuma.

— Eu sei que vocês estão pensando que o Shane estava certo. Que eu não estou pronta, que eu não sirvo pra esse mundo. — Ela completou, cruzando os braços, olhou para o chão um instante e respirou fundo novamente.

Lembrei da cena antes da busca, do xerife idiota expondo a garota como se ela fosse uma coisa qualquer. Ele podia ter impedido ela de ir de outro modo, algum que não envolvesse uma plateia. A lembrança me fez cerrar os punhos.

Me dar conta de que Charlotte estava se sentindo mal por constatar que o irmão estava certo, me fazia me sentir mal também, um maldito sentimento sem explicação nenhuma.

Era estranho estar em silêncio na presença dela, como se aquilo fosse muito mais íntimo do que deveria. Desejei poder dizer qualquer coisa, mas eu realmente não era bom naquilo.

Olhei o corpo no chão, eu conhecia o cara, um idiota do acampamento, cretino imundo que não parecia respeitar a própria mulher e filha. Eu conhecia alguém exatamente como ele o que me fazia sentir ainda mais raiva.

Ergui a picareta pronto para me certificar que aquele infeliz não feriria mais ninguém depois da morte, então a mulher dele, Carol, se aproximou de nós, me pediu calma com a mão esquerda e trocou um olhar com Charlotte. A mais nova fez um aceno mínimo com a cabeça, um tipo de incentivo ou algo assim.

— Eu faço isso, ele é meu marido. — A mais velha estendeu a mão pra mim e eu soube que ela realmente precisava daquilo, eu entendia de certa forma.

Estendi-lhe o objeto e Carol se preparou tentando não chorar. Ela levou a picareta até a cabeça do que um dia foi o seu marido, o primeiro impacto abriu um rombo do lado direito do rosto, próximo à orelha. Estava acabado. Mas ela não parou, continuou batendo, liberando sua raiva enquanto chorava, talvez pra qualquer outra pessoa fosse só tristeza, mas eu sabia que não era...

Me assustava perceber o quanto eu conhecia a dor dela, compartilhava de certa forma... Afinal eu descarreguei uma arma toda naquele maldito que eu costumava chamar de pai, depois que ele tentou me atacar com os olhos opacos e mortos. Era quase engraçado que o comportamento dele era o mesmo antes e depois de transformado. Ele sempre foi um monstro.

Carol parou de bater, seu semblante era um misto de tantas emoções que me deixou desconfortável, como se eu estivesse invadindo seu espaço pessoal ou algo assim.

Charlotte se aproximou dela e pegou a picareta de sua mão, envolvendo-a em um abraço reconfortante.

— Acabou. — A garota sussurrou. — Vai ficar tudo bem agora. Acabou...

Por um segundo foi vergonhoso admitir que eu senti um pouco de inveja de Carol. Eu não tive ninguém pra me reconfortar daquela forma. Ninguém pra dizer que ficaria tudo bem. Só o meu irmão chegando no último instante e fazendo qualquer piada de mau-gosto.

Merle tinha razão eu era mesmo um maricas...

A manhã terminou com o som da arma de Andrea preenchendo o vale, provando que ela tinha feito o necessário pela irmã e trazendo a confirmação que a vida naquele acampamento tinha acabado....

A tarde foi uma merda, o clima literal de velório, Jim definhando no trailer e aquele debate de para onde iríamos a seguir. Por fim Shane cedeu e decidiam que o CCD era a melhor opção. Partiríamos ao amanhecer.

Aquela seria uma noite longa e fria, permaneceríamos nos carros, já havíamos desmontado tudo e ninguém quis acender fogueiras, era o mais sensato.

Me ofereci para a primeira vigia, eu sabia que não conseguiria dormir, meu irmão estava por aí e eu estavas prestes a sair do acampamento e ir pra um lugar onde ele não poderia me achar. Isso não era o certo...

Ouvi algo subindo no trailer e instintivamente armei a crossbow, a luz fraca da lua minguante não fornecia iluminação suficiente, mas foi o suficiente pra eu reconhecer os fios castanhos, os olhos caramelo, o corpo inapropriadamente convidativo.

— É a terceira vez que você aponta esse troço pra mim, já está virando um hábito. — Charlotte comentou enquanto se aproximava.

— Você não devia estar aqui. — Rebati de pronto.

— Não devia mesmo, mas eu não vou ficar no trailer com o Jim e também não vou aguentar os roncos do meu irmão no carro. — Falou no tom de sempre, se sentando ao meu lado. — Não consegui dormir. — Soou muito mais sincera.

Fiquei calado, um pouco porque não sabia o que dizer e um pouco porquê... Bom, na verdade, eu não sabia bem porquê.

Os minutos foram passando e eu comecei a perceber que eu estava estranhamente confortável com o silêncio entre nós. Era bom saber que ela estava ao meu lado, que estava sob minha vista caso algo acontecesse de novo... Uma coisa estranha pra sentir sobre uma pessoa que não era minha responsabilidade. Uma coisa estranha para sentir sobre uma garota de dezoito anos...

Roí o polegar direito, enquanto dizia pra mim mesmo que ir com aquelas pessoas não era boa ideia, não só por causa de Merle perdido por aí, mas também por causa de Charlotte Walsh. O correto era eu ficar o mais longe possível dela.

Lembrei de algo e levei a mão ao cós da calça, tirando de lá a arma que Charlotte me dera no dia anterior.

— Vai precisar disso. — Repeti a frase dela.

Baixou os olhos para minha mão por um momento, respirou fundo e me observou com atenção. Ficamos parados nessa posição por mais tempo do que eu achei apropriado. Eu com a arma estendida entre nós e com os olhos presos na íris dela. Nunca quis tanto saber o que alguém estava pensando como quis naquele momento.

Por fim Charlotte pegou a arma, fazendo sua mão roçar na minha. Mãos frias... Aquilo era o oposto do que eu pensava, pois sempre a imaginei com a pele quente. Acabei percebendo que pensava mais nela do que queria admitir, pensava mais nela que o aceitável. Por isso eu tinha que ir...

— Preferia você com o humor duvidoso de sempre. — Falei, desviando o olhar.

Ela riu jogando a cabeça levemente para o lado e aquilo me fez apreciar e odiar o momento ao mesmo tempo.

— Você não planeja ir conosco, não é? — Comentou, guardando a arma.

— Como você sabe? — Perguntei.

— Devolveu a arma, seu irmão está por aí e você não é exatamente a pessoa mais sociável que eu conheço. — Explicou, dando de ombros.

Não respondi, não tinha mesmo o que responder, além do mais, eu sentia que já tinha falado o suficiente por uma noite.

— Eu não sei, mas acho que seria melhor se você fosse conosco... — Charlotte comentou depois de algum tempo.

— Por quê? Porque preciso do grupo e o melhor é ficarmos juntos? — Repeti parte do discurso de Shane mais cedo.

— Não. É porque na melhor das hipóteses podemos encontrar alguma ajuda no CCD, mas na pior delas o grupo é quem precisará de você. — Levei um segundo pra assimilar as palavras dela. — Você é bom nesse negócio de sobreviver, Daryl Dixon. — Sorriu pra mim por um momento.

— Eu não posso deixar meu irmão pra trás. — Falei, tentando afirmar aquilo pra mim mesmo.

— Eu sei... Eu não te pediria isso. E mesmo que eu pedisse não faria diferença, faria? — Levei um minuto tentando entender se tinha alguma ironia, sarcasmo ou coisa assim nas palavras dela. Preferi acreditar que sim, embora algo dentro de mim torcesse para que fosse sincero.

Terminei por não responder, examinando algumas flechas como se elas fossem a coisa mais interessante do mundo.

— Melhor eu ir, já enchi seu saco demais por uma noite. — Charlotte levantou.

— É, já encheu mesmo e eu não sou babá. — Devolvi cuspindo no chão, aliviado por encontrar algo que eu pudesse dizer que se parece com a "normalidade" das nossas brigas...

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O dia mal havia raiado e já estavam todos de pé. Eu quase não havia dormido, mesmo tendo passado o turno para Rick horas antes de amanhecer... Eu nunca desejei tanto algo muito alcoólico pra desligar a mente quanto naquelas últimas horas.

Rick falou com alguém no rádio, pregou um aviso no carro vermelho, falando pra um tal de Morgan onde o grupo iria.

Estávamos todos prontos para partir, e eu estava pronto para dizer que não iria, mas os Morales foram mais rápidos. Haviam decidido ir atrás da família. Isso deixava o grupo menor, e depois que deram uma arma e meia caixa de munição a eles, deixava com menos poder de fogo.

Tentei me convencer que não tinha nada a ver com aquilo, não era da minha conta.

O povo começou a se abraçar, algumas lágrimas, algumas precauções e instruções passadas por Rick. Charlotte se despediu de Miranda e das crianças, mas mesmo assim manteve os olhos em mim. Por um instante, enquanto os Morales se viravam para entrar no carro, eu me perguntei como eu seria tratado quando dissesse que também não iria com o grupo.

— O que te faz pensar que nossas chances são melhores que as deles? — Shane comentou com Rick, mas não havia nenhuma resposta para aquela pergunta.

Em seguida preparou todos para partirem e chamou Charlotte pra subir com ele no jipe que ele dirigiria. Foi quando ela olhou pra mim novamente...

Era hora de fazer uma escolha.

— Melhor seguirmos o trailer, se essa lata velha for por último é capaz que fique pra trás. — Resmunguei para ninguém em particular, enquanto subia na minha caminhonete.

Olhei para Charlotte da janela e pude jurar que a vi sorrir antes de subir no jipe com o irmão.

Eu não fiquei na pedreira então... Tinha um aviso lá, se Merle voltasse ele veria. Decidi que não pensaria no motivo de eu estar indo com o grupo, mas no fundo eu sabia exatamente qual era.

Quem era...

Notas finais
Nunca entendi porque o Daryl foi com o grupo, afinal o irmão dele estava vivo e por aí, e ele nem tentou ficar, rastrear, nada assim, tudo bem que Merle era um idiota, mas sempre achei estranho, esse cap dá um motivo pra isso kkkkk O conflito interno do Daryl diz muito sobre ele e explica bastante sua atitude no proximo cap. Até lá. Bjsss