Origins

10 Álcool, erros e desejo


Charlotte Walsh
CCD de Atlanta

O CCD não era o que imaginávamos, mas felizmente não foi uma furada completa, lembro do alivio que senti quando a porta se abriu segundos antes de perdermos toda a esperança. E lembro também da angústia ao saber que o doutor Jenner era o único sobrevivente.

E então tudo o que tínhamos passado na estrada até ali foi momentaneamente esquecido quando a comida foi posta na mesa, ou será que foi por causa das taças cheias de vinho?

Mas por algum motivo, momentos de calmaria e de sorrisos, como aquele, me deixavam mais nervosa do que os momentos realmente ruins... No entanto, aparentemente, eu era a única desconfortável com aquilo, ninguém parecia se importar enquanto enchia os copos ou bebia direto da garrafa.

Encarei Daryl erguendo uma garrafa em homenagem ao Doutor Jenner durante um brinde de Rick. Até ele parecia mais relaxado do que o normal, ele até sorria, e eu acho que não tinha tido a chance de vê-lo sorrir antes. Era um sorriso bonito, ele parecia alguns anos mais novo. Apenas um caipira cafajeste, e me dei conta de que isso era bem sexy...

Eu queria saber o motivo pelo qual ele ficou, talvez no fundo eu quisesse que o motivo fosse eu, mas era presunção demais achar isso. No fim permanecer no grupo era mesmo apenas a opção mais lógica.

Bebi a minha taça de vinho, — uma oferta de paz oferecida pelo meu irmão, talvez para tentar melhorar as coisas entre nós, — enquanto tentava entender meu interesse em Daryl Dixon, não terminei a linha de raciocínio já que Shane resolveu acabar com a festa de todo mundo questionando sobre o que realmente acontecera com todo mundo do lugar.

Alguns haviam ido embora, tentar passar os últimos momentos com a família. Outros haviam simplesmente desistido. Jenner não foi, disse que estava tentando fazer algo de bom...

Preferi não pensar nisso. Mas minha mente se deu conta de que a simples esperança de haver de fato qualquer esperança estava acabada. E essa frase era bem irônica.

Jenner conseguiu tirar o foco da tragédia quando disse algo como: "banho quente". Aquelas simples palavras me fizeram esquecer qualquer preocupação.

A água morna me deixou verdadeiramente feliz por breves instantes. Eu sentia que podia ficar ali pra sempre, mas então me lembrei que o doutor havia dito para economizarmos a energia.

Aquilo despertou um alarme na minha mente, aquelas instalações deviam consumir muita força, e eu não me lembrava de ter lido nada sobre CCDs alimentados por geradores sustentáveis. Ou seja, a luz, água quente e todo o resto acabariam cedo ou tarde. E com todos os sistemas de segurança sendo controlados pela Vi, o computador tudo, podíamos ficar presos ali...

Claro que podíamos alimentar o lugar, encontrar recursos para que a energia não se acabasse. Não era definitivo... Tentei descartar aquela preocupação desnecessária. Mesmo assim desliguei o chuveiro sem me aproveitar demais da água quente. Talvez ser preocupada estivesse na minha natureza.

Enquanto me trocava, olhando entre as poucas roupas que eu tinha na mochila resolvi que talvez aquela noite eu pudesse dormir sem o desconforto do jeans. Eu sentia falta de usar shorts e andar descalça pela casa.

Coloquei o único shorts que eu havia trazido, uma peça preta quase folgada, eu geralmente usava só pra ficar em casa mesmo, mas ninguém ia se importar. A camiseta era tão velha quanto, as mangas cortadas pra que ela ficasse caída nos ombros, o algodão branco totalmente surrado, com a frase "I'm a Hunter" escrita, lembrando os dias em que eu só tinha que esperar pelo episódio novo da minha série preferida. Provavelmente ser uma caçadora de demônios, como os Winchester, ajudaria muito naquele momento. Sorri fazendo os paralelos.

Deixei meus pés caminharem livres pelos corredores, sentindo o chão gelado sob eles e apreciando a sensação.

Carol e Sophia vinham pelo lado oposto, com Carl logo atrás.

— Você está melhor? — Perguntei, me referindo ao mal-estar causado pela claustrofobia que ela havia sentido mais cedo.

— Eu me acostumo. — Carol respondeu sorrindo. — Achei uns livros da biblioteca, bem melhores que aqueles que líamos no acampamento.

Ela apontou a direção e eu sorri em resposta, me despedindo dos três e desejando boa noite.

Assim que abri a primeira das duas portas de entrada do cômodo eu percebi que não era um bom momento para ter feito isso. Shane e Lori estavam lá, de início pensei que fosse um amasso e aquilo já foi suficiente pra revirar o meu estômago, mas a grito de "pare" da morena aliado ao seu desespero pra se livrar dos braços do meu irmão me provaram que era muito pior que aquilo...

Enquanto Shane se afastava, depois de levar uma unhada, eu percebi que segurava a maçaneta tão forte que machucava a minha própria mão. Ele saiu um tanto transtornado, pela segunda porta, e eu fui logo atrás, cuidando para não fazer barulho e ser notada por Lori.

Alcancei-o no meio do corredor, empurrando-o para uma sala qualquer.

— Que porra você pensa que estava fazendo? — Perguntei transtornada, as imagens se misturando na minha mente, mas eu era grandinha o suficiente pra reconhecer um abuso físico quando via um.

— Vo-você viu aquilo? — Ele gaguejou em resposta.

— É eu vi. Mas eu não estou acreditando! Quando foi que você virou o tipo de homem nojento que você trabalhava para colocar atrás das grades? — Tentei controlar minha voz.

— Não é o que você está pensando. Eu a amo. Eu só queria que ela entendesse... — Shane quis se explicar. Eu não conseguia identificar se ele estava arrependido ou se ele estava ficando louco.

— Você queria que ela entendesse seu amor abusando dela? — Acusei fria. —Olha, eu não gosto da Lori, Deus está de prova, mas isso não significa que eu vou passar a mão na sua cabeça.

— Eu sei. Você está certa. Eu passei dos limites. Estou bêbado, foi isso. — Ele ergueu as mãos em rendição. A garrafa pela metade que Shane ainda segurava mostrando que ele tinha passado do vinho para o uísque.

No fundo eu sabia que não era verdade, no fundo eu sabia que estar bêbado não justificava aquilo. Mas eu era fraca, apesar de tudo eu era fraca. Então eu aceitei, fechei os olhos e fingi não ver os sinais. Tentei me convencer que era um evento isolado, nunca tinha acontecido antes, não ia acontecer de novo.

Estendi a mão pedindo a garrafa e ele me entregou prontamente. Parecia verdadeiramente arrependido... Um homem apaixonado que tinha cometido um erro.

E eu quis acreditar nisso, mesmo sabendo que não era verdade.

Shane deixou a garrafa comigo e saiu pela porta dizendo que uma boa noite de sono resolveria tudo. E, enquanto meu coração buscava todas as formas de justificar os atos dele, minha cabeça sabia com certeza que foi naquele momento que Shane ficou um passo mais próximo do monstro que o Ed era...

Seria aquele o começo do fim?

➷•➷•➷•➷•➷

Olhei a garrafa percebendo que eu não tinha bebido nem metade do que a minha tontura dizia que eu tinha.

Fitei o teto por um tempo, colocando a garrafa entre as pernas no chão onde eu estava sentada.

Eu já estava com dor de cabeça de tanto pensar e na verdade não havia ajudado em nada. Então decidi não me preocupar com aquilo. Pelo menos até o amanhecer eu não me preocuparia com nada. Nem com Shane, nem com o nosso refúgio subterrâneo, nem com os mortos que tomavam a terra. Aquele fim de noite eu seria apenas uma garota de dezoito anos, fazendo algo que toda garota de dezoito anos fazia. Tomar um porre.

Ao amanhecer eu lidaria com o drama que minha vida havia se tornado...

Dei outro gole sentindo a sala girar e rindo sozinha por um momento. Era irônico, afinal se eu fosse mesmo uma garota de dezoito anos normal, eu estaria bebendo com os amigos, festejando, beijando na boca... Não sozinha em uma sala que eu nem sabia pra que servia.

Contudo a porta se abriu mostrando que eu não ficaria sozinha por muito tempo...

Daryl entrou meio cambaleante, uma garrafa totalmente vazia na mão. Seus olhos encontraram os meus e ficamos parados nos olhando por um instante. Mordi o canto da boca sentindo a ansiedade criar borboletas na minha barriga. Ele sorriu, algo sacana, involuntário. E eu soube naquele instante que: ou eu estava totalmente bêbada ou completamente apaixonada, nenhuma outra coisa faria meu corpo responder daquela forma a um maldito sorriso torto.

O Dixon balançou a cabeça por um momento, como alguém que percebe que algo não é uma boa ideia, então deu um passo pra trás.

— Eu não sabia que a sala estava ocupada. — Sua voz saiu bem mais rouca e cheia de sotaque do que eu estava acostumada e um arrepio percorreu minha espinha.

Ele se preparou pra fechar a porta.

— Sua garrafa está vazia, a minha não. — Balancei o liquido âmbar. — Vamos dar uma de facebook e compartilhar. — Ri da minha piada ruim e da cara que Daryl fez por não entender. — Ah, não me diga que você prefere o Orkut?

Ele não respondeu, continuou parado encostado no batente me olhando como se realmente não soubesse do que eu estava falando. É, pra ser honesta, Daryl Dixon não parecia ser um cara das redes sociais. Por fim, caminhou até mim escorregando as costas pela parede e sentando ao meu lado.

— Você só pode estar bêbada. — Tirou a garrafa da minha mão e deu um longo gole.

— Nem tanto na verdade. — Neguei, mas talvez fosse mentira.

Daryl encostou a cabeça na parede, a garrafa entre as mãos que estavam apoiadas no joelho erguido. Aproveitei o silêncio para apreciar sua silhueta. Ele era um homem bonito, não bonito tipo um modelo ou algo assim, uma beleza selvagem, muito mais homem do que os garotos que eu costumava gostar.

— Por que ficou? — Perguntei sem conseguir me conter.

Deu outro longo gole e me encarou, provavelmente o olhar mais profundo que ele já havia me dado em todo o tempo que nos conhecíamos. Sustentei esse olhar por algum tempo, mas de alguma forma ele me deixou desconcertada e eu baixei a cabeça.

— Por que acha que eu fiquei? — Rebatei com outra pergunta, voltando à posição inicial e bebendo outro gole.

— Acho que o mais lógico era ficar conosco. O mundo acabou mesmo. — Eu dei de ombros.

Daryl riu, algo um pouco cínico, negou algumas vezes e deu outro gole, era como se estivesse usando a bebida pra fugir de algo.

— Então você me acha um cara lógico? — Havia uma nota de sarcasmo na voz dele.

— Sendo honesta, eu não sei que tipo de cara você é... Eu pensei que soubesse quando nos conhecemos, mas a verdade é que eu não sei. — Falei tão baixo que não pensei que ele ouviria, mas sua risada irônica me provou que ele tinha escutado muito bem.

Daryl levantou com alguma dificuldade, se escorando na parede e se confundindo com as próprias pernas e eu soube que ele estava bem mais bêbado do que eu supunha de início.

Ele caminhou pela sala algum tempo aquela postura de um felino rodeando a vítima muito usual dele.

— Então se tinha a teoria perfeita, por que me perguntou, sabe-tudo? — Indagou quase com raiva.

Não respondi de imediato. Eu me sentia desconfortável com ele me olhando de cima, então me levantei também, muito mais facilmente que ele o tinha feito, o que me fez perceber que eu não estava tão bêbada quanto achava que estava.

Assim que dei o primeiro passo tive aquela tontura momentânea de quando levantamos muito depressa, a vista escurecendo por um rápido segundo, mas foi o suficiente pra eu me atrapalhar com meus próprios pés.

Eu não entendi bem o que aconteceu, talvez Daryl tenha tentando me amparar... Só sei que no segundo seguinte ambos estávamos no chão.

Provavelmente o tapete abaixo de nós amorteceu nossa queda, levei um segundo pra entender a cena: Daryl estava sobre mim, uma confusão de pernas e braços.

Ele ergueu o corpo apoiando-o sobre o cotovelo, tirando um pouco do peso de cima de mim, mas não se levantou. Com a mão livre afastou o meu cabelo fazendo seus dedos roçarem da lateral da minha bochecha até o meu pescoço, descendo pelos meus ombros juntos com os fios que escorregavam por eles. Acompanhou o movimento com os olhos até os trazer de volta para os meus e parecer perdido ali por um instante.

Era como se eletricidade atravessasse o meu corpo, ele estava muito perto e eu sentia que estava me afogando nele. O cheiro de álcool se misturando ao cheiro dele, algo forte, másculo, selvagem... Eu queria aquele homem, mais do que eu quis qualquer outro.

Seus olhos desceram para minha boca e eu sorri por um momento.

— Eu perguntei porque queria que dissesse que ficou por mim. — Sussurrei com toda a coragem que consegui reunir.

E então o puxei pela gola da camisa, unindo nossos lábios enquanto sentia todo o meu corpo responder aquele contato.

Era selvagem, intenso e muito quente. Subi a mão direita pelo pescoço dele, enquanto a esquerda escorregava pelo seu braço, eu podia sentir cada músculo.

Sua mão escorregou pela lateral do meu corpo apertando minha coxa e a puxando para que ele pudesse se encaixar entre minhas pernas, então subiu novamente explorando minha cintura e me fazendo gemer entre seus lábios.

No segundo seguinte acabou, ele saiu de cima de mim tão rápido como alguém que foge do próprio demônio. Ficou ajoelhado no chão, os olhos mais escuros o desejo visível ali, mesmo pra mim que não entendia praticamente nada sobre isso.

Me coloquei sobre os joelhos também, sendo incapaz de entender a reação dele e me aproximando novamente.

— Para. — Daryl mandou me segurando pelos ombros, mantendo-me afastada. — Não vou fazer isso. É errado.

— Por que? — Perguntei ainda sem entender. — Não tem nada errado, eu quero, você quer...

— Você. É. Uma. Criança. — Ele rosnou pausadamente a raiva presente em cada silaba.

Joguei a cabeça para o lado um tanto entediada. Então Daryl Dixon era um cara moralista?

— Não sou não, eu tenho dezoito. — Neguei quase divertida. — O mundo acabou, estamos bêbados. Podemos só aproveitar o momento?

— Estarmos bêbados é sou outro motivo para não fazermos isso, além do que, a bebida não muda o que eu sou e eu não faço essas coisas. E não curto crianças. — Daryl declarou como se precisasse me convencer daquilo. — Eu não curto você. — Ele largou meus ombros e se levantou ainda cambaleante.

— Não foi o que pareceu agora a pouco. — Eu retruquei ofendida.

— Você se acha mesmo, não é? — Riu quase cruel. — Não importa o quanto se ofereça, nada vai mudar isso. Eu não sinto qualquer atração por você. Você não é nada pra mim. — Cuspiu as palavras como se tivesse a necessidade de me ferir.

Eu fiquei parada na mesma posição enquanto ele saía batendo a porta. Passei a mão pelo rosto sentindo cada palavra dele me machucar de um jeito que eu não podia descrever.

Deixei meu corpo cair no tapete enquanto sentia minha cabeça girar, trazendo de volta todas as preocupações que eu tentei empurrar para o fundo da mente.

Um paralelo se formando claramente sobre uma frase que Daryl dissera: "A bebida não muda o que eu sou". Isso podia dizer muito sobre Shane também. E eu decidi me preocupar com isso ao invés de me preocupar com a dor da rejeição e com Daryl Cretino Dixon.

Meu irmão era um problema mais urgente...

Notas finais
Tem uma critica declarada nesse cap sobre o que o Shane fez, nenhuma bebida justifica isso, e a atitude de Daryl só deixou mais claro o tipo de homem que ele é. Juro que a mão de escrever hot chegou a tremer aqui kkkkkkk mais não era hora ainda, os dois ainda tem um longo caminho a percorrer, Daryl tem que acertar o conflito dele e a Char não podia ter uma primeira vez bêbada. Tudo a seu tempo kkkkkk Nos vemos no próximo, isso se nenhuma de nos morrer assistindo a finale kkkkkk Bjsss