Orgulho e Preconceito
3 Vassalo

Ele odiava ser um reles bastardo, um simplório vassalo. Mas isso não o fazia invejar a realeza, muito pelo contrário; por conta da classe monarca, ele passou a apreciar sua condição no mundo, como um insignificante, a escória. Normalmente ele não se queixava com ninguém a respeito – mesmo porque, não tinha ninguém com quem reclamar – mas aquela família Targaryen... Ah sim! Ela era responsável por fazê-lo odiar e ao mesmo tempo gostar de ser apenas um bastardo. De Rhaegar Targaryen, o futuro príncipe e seus pais ele não tinha uma sequer reclamação; eram todos muito gentis com ele, talvez mais gentis do que ele merecia, sendo quem era. Aerys e Rhaella eram inigualáveis, possuíam um afeto quase paternal por Gendry e constantemente o convidava a jantar entre eles. Ele é claro, rejeitava os pedidos. Era um vassalo. Um bastardo. Ele sabia exatamente qual era seu lugar.
Infelizmente nem todos os membros pertences a vasta família Targaryen eram assim, tão adoráveis ou remotamente agradáveis. Visenya era seu verdadeiro problema; a garota de natureza dissimulada e hipócrita insistia em fazer dos seus dias os piores possíveis, somente por não querer ter relações com ela! Gendry nunca se submeteria a tal situação, pois além de princípios indiscutivelmente nobres, ele alimentava um profundo desprezo pela jovem princesinha. Visenya era tudo e mais um pouco do que ele não suportava em uma mulher, por mais bela que esta fosse: cínica, mimada, substancialmente egoísta e fútil. E era exatamente por desprezá-la, que ele sofria. Dia e noite incansavelmente, sempre quando ela vinha visitar a família – já que felizmente ou não, ela morava com os tios em outro continente –.
– Vamos, querido vassalo – a loira estava sentada na carroça, com um olhar puramente nauseante. – Meu cavalo está cansado, pobrezinho.
Ele reprimiu o ímpeto de mandá-la se foder e, muito contrariado, rolou algumas vezes no feno, sob as risadas histéricas e malévolas de Visenya.
– Mais um pouco, vassalo, você não está fazendo direito. – acusou, dando um pulo da carroça e andando em direção a onde o moreno encontrava-se deitado.
Gendry levantou-se num pulo, embriagado de ódio.
– Quer saber? Por que você não vem rolar aqui? A porcaria do cavalo é sua!
Ela escancarou a boca, momentaneamente sem fala diante de tal grosseria, mas logo se recompusera dizendo:
– Porque eu sou a princesa, eu mando em você e isso não é jeito de falar com uma dama!
– Desculpe, Vossa Majestade – ele fez uma reverencia forçada, sorrindo com deboche – Não pretendia ofende-la. Quer que eu escove a sua crina, para mostrar arrependimento?
– Oh! – ela cobriu a boca com ambas as mãos – Está me chamando de égua?
– Não sei, Vossa Majestade... Estou? – ele arqueou a sobrancelha.
Visenya bufou.
– Meu irmão ficará sabendo dessa ofensa, querido vassalo.
– Oh, eu realmente espero que sim. – ele rebateu – Agora ande! Saia de perto de mim, estou ocupado... Vossa Alteza.
Ela escancarou a boca, mais do que suficientemente ofendida.
– Um dia, Gendry, você irá se arrepender disso. Irá se arrepender furiosamente dessa humilhação a qual me submete!
Ele rolou os olhos.
– O que está esperando, princesa? Saia daqui! – praticamente rosnou.
Visenya se foi, mas não sem antes atirar-lhe um pouco de feno, completamente desequilibrada, como de costume.
– Eu o odeio, Gendry, o odeio ardentemente!
– O sentimento é recíproco – rebateu, devidamente enfezado.
Rhaella algumas vezes, insinuava que Gendry poderia ter um bom casamento – não com sua filha, logicamente – com alguma filha de Lorde ou Conde, e ele sempre se esquivava do assunto, com artimanhas e respostas curtas. O fato é que ele queria mais distância possível daquela gente e sonhava no dia em que seu debito com o príncipe Rhaegar acabaria. Ele queria ser dono do próprio destino e, construir uma família decente. Mas a cada dia que passa, ele via esse sonho morrendo aos poucos até chegar ao ponto de simplesmente não existir. Não haveria espaços para sonhos e planos enquanto ele fosse vassalo da casa Targaryen. A família real mais louca que já tivera o desprazer em conhecer. Enquanto metade deles era agradável, a outra era simplesmente diabólica.
Inspirou fundo, andando em direção aos estábulos, completamente furioso com o episodio recente envolvendo Visenya.
– Gendry, Gendry! – exclamou alguém incessantemente através do moreno.
– O que é? – virou-se bruscamente para encarar Cara de Torta. Ou seria Torta de Limão? Não sabia, não se recordava no momento.
– O Rei exige sua presença na sala do Trono. – bradou o garoto, levemente assustado. Era normal que as pessoas tivessem medo do vassalo; Gendry era mais forte e mais alto que a maioria ali, e além do mais, possuía um humor vindo diretamente do inferno. Ninguém tinha coragem de desafiá-lo, ele sempre ganhava em justas e sempre voltava das guerras com umas histórias e cadáveres para contar. – Ele alega que é importante, e pede para que você se vista com... Com as roupas que ele o presenteou mês passado.
Gendry franziu o cenho. Deveria ser mesmo uma ocasião especial; apesar de sempre muito solicito e gentil, Rhaegar raramente exigia que o moreno fizesse uso das roupas que ganhava de presente... Com tais pensamentos rondando sua mente, Gendry considerou que era melhor ver logo do que se tratava.
– Gendry Waters! – o príncipe o aguardava, tal como havia sido anunciado pelo Cara de Torta.
– Vossa Alteza – ele fez uma reverencia formal, apesar da proximidade entre os dois, ele gostava de mostrar respeito e educação. Era um dos motivos para ser o vassalo preferido daquela família real tão abstrata. – Em que posso lhe ser útil?
Rhaegar sorriu, como se estivesse esperando pela pergunta.
– Eu irei me mudar, e você irá comigo.
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