Orgulho e Preconceito
4 Selvagem
Notas iniciais
A viagem até o famoso castelo chamado de Winterfell, havia demorado cerca de duas semanas – ou algo parecido, a percepção de tempo de Gendry fora cruelmente abalada pelo frio e pela a fome – mas, enfim, eles chegaram ao destino aguardado. O castelo da família real localizava-se no campo mais distante de Londres.
A viagem foi agradável. Rhaegar apesar de seu nobre nascimento não era arrogante e passara boa parte da viagem explicando as coisas em tom amigável ao moreno. Não eram poucas as vezes que Rhaegar declarava “Gendry Waters, você é meu único e verdadeiro amigo, para onde eu for você irá de ir junto” ou coisas do gênero. Apesar de sentir imerecido de tanta generosidade, o vassalo não reclamava, já que tirava bons frutos daquela amizade. E tudo de que ele precisava era isso; generosidade, um teto sobre sua cabeça e comida quente. E de vez em quando, algumas cervejas amanteigadas – uma especiaria trazida de um reino distante, na Espanha.
– Enfim! – o Targaryen sorriu largamente, descendo da carruagem – Winterfell.
Como já era de se esperar, tradicionalmente, a comitiva do rei Ned e seus fieis serviçais aguardavam o nobre príncipe. Assim como boa parte das garotas do reino e sua família. Gendry foi o último a descer, por uma questão de respeito. Ele não era alguém simbolicamente importante, não podia dar-se ao luxo de ficar entre os reis... Embora Rhaegar tenha insistido bastante para que ele permanecesse ao seu lado. Gendry, como dito anteriormente, tinha total consciência de seus deveres e direitos, portanto limitou-se a observar de longe a cena que se desenrolava.
Rhaegar fora muito bem recepcionado pelo rei e pelos futuros cunhados; todos ruivos, exceto por um – que provavelmente deveria ser o bastardo de quem Rhaegar tanto falara – que sem sombra de duvidas era o mais parecido com o rei, tendo cabelos negros e um rosto frio sem muitas expressões, exatamente igual ao pai.
A rainha era uma mulher inacreditavelmente bonita para a idade dela, era ruiva e estava vestida perfeitamente elegante. Sua postura era admirável. Mas não foi ela quem despertara a atenção de Gendry e sim, a garota de cabelos negros.
Arya Stark. Aquele era o nome da futura rainha da frança. Uma coisinha magricela de cabelos tão negros quanto os do bastardo do pai. Ele não sabia dizer quanto tempo ficou observando-a, até ser chamado pelo Targaryen.
– Gendry Waters, venha, aproxime-se! – felizmente ou não, Rhaegar não ligava para posições, títulos e coisas do tipo e muita das vezes isso acabava comprometendo o vassalo. Sem outra alternativa, senão obedecê-lo, o moreno de profundos olhos azuis e cabelos pretos aproximou-se hesitante. Fez uma reverência formal.
– Vossa Majestade – exclamou, irredutivelmente sério. E então notou os olhos da garota sobre si.
A tal de Arya.
Os olhos dela eram de um tom de verde acastanhado que ele nunca tivera visto antes... Entretanto, a troca de olhares – aparentemente despercebida – fora quebrada pelo rei.
– Santo Deus! – rosnou Ned, subitamente empalidecido.
– Desculpe-me... – Gendry franziu o cenho. Há quanto tempo estava encarando a morena? Aquilo era um tanto desconcertante. A garota é noiva do seu rei! E sobretudo, do seu melhor amigo! Sua consciência gritou fervorosamente.
– Você parece com alguém que eu conheci no passado, meu rapaz. Desculpe-me, foi um breve devaneio – Ned ainda parecia incrédulo com a semelhança entre o rapaz e o tal conhecido, pois demorou longos minutos até responder a pergunta feita pelo príncipe Rhaegar – Oh sim, sim, isso é excelente. Novamente, quem deve desculpas sou eu, foi uma... Uma distração, uma montanha de nostalgias apenas isso.
– Gendry é meu grande amigo e meu servo mais leal – prosseguiu Rhaegar – Gostaria de acomodações descentes para ele.
Aquelas palavras não deveriam surpreendê-lo, contudo foi exatamente isso que acontecera.
– Vossa Majestade... Isso não é necessário, posso perfeitamente dormir nos estábulos. Não é certo que alguém de minhas condições, seja tão elevado a sua estima. Eu suplico para deixar-me dormir nos estábulos.
– Além de bem instruído, o rapaz tem bom senso – proferiu a rainha ruiva.
No instante em que ela abriu a boca para falar, Gendry decidiu que não gostava dela nem um pouco. E seu tom de voz lhe lembrou a maldita da Melisandre...!
Afastou tais pensamentos, ou provavelmente teria um de seus ataques de fúria. Limpou a garganta com uma série de tosses.
– Bom, quem somos nós para negar o seu pedido? – indagou Catelyn friamente – O rapaz dorme nos estábulos, conforme solicitou. Espero que não veja problemas nisso, vossa Majestade...
– De forma alguma – retrucou Rhaegar de cenho franzido. Definitivamente o príncipe não esperava ser contrariado na frente de seus futuros sogros, porém não disse nada a respeito, conversaria com Gendry em uma hora mais conveniente.
Seguiram todos para dentro do castelo, o rei, a rainha e a comitiva da Inglaterra á frente, enquanto o jovem casal ficava para trás e então vinha Gendry levemente desconcertado.
– Você me surpreendeu. – declarou Arya repentinamente, quebrando o silêncio aparentemente inquebrável que havia instalado-se entre eles de maneira sutil.
– Como? – indagou Rhaegar curioso.
Os passos de ambos eram lentos, quase hesitantes e isso estava fazendo Gendry querer chacoalhá-los fortemente e obrigá-los a andarem mais depressa. Limitou-se a suspirar fundo, remoendo a vontade de chutar as pedras que via pela frente.
Escutar a conversa entre o casal de noivos foi algo definitivamente inevitável, ele não tinha alternativa senão acompanhar o rei...
– Você tem coração – disparou Arya, sorrindo. – Não é nobre apenas no sangue, Rhaegar.
Isso fez o jovem príncipe sorrir de volta, encarando-a.
Gendry pigarreou.
– Desculpe-me por intervir, Vossa Majestade, mas preciso urgentemente mijar.
Rhaegar explodiu em risadas, ao passo que Arya arregalou os olhos, completamente surpresa com a... Honestidade dele.
– Pode ir, caro amigo. Encontro-o mais tarde – exclamou o príncipe, sorrindo mais abertamente.
– Fico agradecido, Vossa Majestade – e então Gendry apertou os passos, andando a frente deles. Sem embaraços ou algo do tipo.
Arya fitou, um tanto interessada, as costas do vassalo do seu futuro noivo. Ele era alto, moreno e incrivelmente bonito. E havia uma hostilidade natural vinda do jovem rapaz. Imediatamente ela decidiu que podia ser amiga dele.
– Ele é sempre assim tão sincero? – embora o termo que ela quisesse usar fosse na verdade selvagem.
– Sim. – Rhaegar riu. – Ele é bem educado, tem excelentes modos e uma postura adequada, porém não gosta de rodeios e sempre que é possível utiliza termos chulos. Pode-se instruir um homem,mas não pode mudar a natureza dele.
Arya assentiu, mas sua atenção era totalmente voltada para o vassalo. Definitivamente interessante. Ele poderia ser um ótimo aliado...
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