Orgulho e Preconceito
2 Noivado
– Arya, comporte-se ou eu vou ser obrigado a prendê-la novamente na Torre.
Essas foram às palavras do rei. Não do seu pai amável e compreensivo, e sim do rei Eddard Stark. E embora a princesa estivesse furiosamente tentada a contrariá-lo e a calar boca dos membros pertencentes a Corte e todos aqueles condes, duques e reis babacas que sempre vinham a Inglaterra com o propósito de bajulá-lo, ela sabia que não poderia fazê-lo desta vez. Orgulhosamente, Arya conseguiu dar fim a uma centena de noivados antes com os mais diferentes babacas reais. Dessa vez algo lhe dizia que não seria assim tão bem sucedida, não importasse o quanto tentasse. Bufou, enquanto as aias lhe escovavam os cabelos, rabugenta como de costume. Geralmente Arya mandaria as garotas estúpidas fazerem algo de estúpido, como espiar seus irmãos ou pentear os cabelos dos cavalos, mas sua mãe estava presente no cômodo e dali não sairia tão facilmente, disso à garota tinha plena consciência.
O evento em questão tratava-se nada mais e nada menos do que seu noivado com o príncipe da França. Rhaegar Targaryen. Segundo sua irmã, era o príncipe mais lindo que ela já vira, além de extraordinariamente educado e cavalheiro. Isso não abalou em nada a vontade de Arya mediante a situação. Não estava nada interessada em cavalheiros, fossem extraordinariamente bem educados e bonitos. Ela só queria poder andar a cavalo, atirar pedras nos lagos e ajudar os pobres. Queria se envolver nos assuntos políticos, talvez participar do conselho do rei. Queria ser respeitada por ser mulher e queria não precisar de um marido.
– Prenda a respiração, princesa. – exclamou uma das aias, que com toda a certeza estava deleitando-se com a situação. Arya era odiada especialmente pelas aias, as garotas a invejavam e a princesa sabia disso. Elas queriam ser princesas, e Arya queria ser somente Arya, sem o sobrenome Stark pesando-lhe os ombros. E até isso iriam tirar dela em breve, era revoltante.
Arya reprimiu seus ímpetos de usar palavreados de baixo calão, justamente pela a presença da mãe no recinto. Catelyn normalmente não era tão severa, mas já foram muitos noivados rompidos. Mais um e o reino da Inglaterra seria ameaçado pela falta de tato da filha. Ela nunca entenderia o porquê da sua filha mais nova ser tão selvagem e indelicada, fizera de tudo ao longo da vida para domesticar Arya. E todas as suas tentativas foram ridiculamente em vão.
Ela esperava que o casamento entre ela e o príncipe fosse um sucesso, e principalmente que Rhaegar colocasse um pouco de juízo na cabeça de Arya, ensiná-la a ser uma dama de verdade.
– Arya, melhore essa expressão. – exigiu Catelyn.
Instintivamente Arya esboçou um de seus típicos sorrisinhos falsos, fazendo a mãe rolar os olhos e as aias rirem.
– Eu disse para melhorar e não forçar – avisou a Rainha, brandamente irritada. – Seu pai não estava brincando quando disse que irá colocá-la novamente na Torre. Esteja ciente disso.
Imediatamente Arya sorriu, internamente ela sabia que era outro sorriso falso, dessa vez porém, sua mãe pareceu não perceber.
– Ótimo. – Catelyn não se deixava enganar. – Agora lembre-se, Arya, uma dama tem que ter postura de dama, elegância e simpatia. Seja simpática, seja bela, seja mulher ao menos um momento, essa noite é importante para seu pai. Não estrague tudo.
“Não estrague tudo” ali estava outra coisa que Arya estava mais do que acostumada a ouvir. Era sempre a culpada por todas as coisas ruins que aconteciam no castelo. Surpreendiam-se os pais não a culparem pelas guerras lá fora. Obrigou-se a deixar tais pensamentos de lado e a reunir um pouco de coragem para a noite que estava começando. Seria uma noite longa.
O salão estava repleto de lordes, condes, duques e princesas. Arya não soube o que pensar a respeito, mas sabia que aquela música lenta estava torturando-lhe os nervos. Entrou no salão acompanhada pelo pai e pela mãe. “Já me sinto casada” pensava a garota, desejando poder gritar e tirar aquela roupa ridícula. Estava sentindo-se feia e patética, apesar de muitos rapazes – cavaleiros, vassalos, serviçais e guardas – alegarem plenamente que ela era a garota mais bonita de todos os Sete Reinos. Ela não era nenhuma tonta, sabia perfeitamente que esse título pertencia à irmã e isso somente a deixou mais irritada. Eram tantos bajuladores, tantos idiotas cercando-a.
– Você está belíssima minha filha. – elogiou-a o pai, sorrindo como se a encorajasse a sorrir de volta.
– Arya, sorria, estão olhando para você – cochichou Catelyn.
Mesmo que estivesse a tantos continentes de distância, Arya conseguiu visualizar um sorriso de zombaria no rosto perfeitamente esculpido de Sansa. Inspirou e então respirou fundo. Todos os olhares estavam sobre si, cada passo que dava era acompanhado pelos presentes.
– Rhaella, Aerys – cumprimentou-lhes o rei Eddard, fazendo uma reverência em sinal de respeito.
– Ned. – o rei Aerys sorriu-lhe e, sem cerimônias o abraçou fortemente, para logo se afastar e cumprimentar Arya e Catelyn. – Então essa é a garota lobo de quem tanto ouvi falar?
– Aerys. – Rhaella era uma mulher indiscutivelmente linda, com cabelos tão prateados quanto os do marido e incríveis olhos púrpuras. Seu tom de voz era repreensivo – Ela se chama Arya, não garota lobo.
– Oh, perdão, perdão. Eu a ofendi? – questionou o rei, olhando para a jovem morena aparentemente tímida.
Arya sorriu triunfante. Era reconfortante saber que tinha uma reputação. Uma péssima reputação pela a Europa.
– De maneira alguma majestade.
Quem ficara realmente ofendida fora Catelyn, Arya sabia disso e reprimiu a vontade de gargalhar.
– Arya tem o espírito indomável – exclamou Ned, parecendo não ver nada de maldoso nas palavras de Aerys. – É uma garota sonhadora.
– Mas não tão sonhadora – Catelyn apressou-se em dizer. – Ela tem idéias tolas e românticas, como todas as garotas...
“Tenho?” Arya mordeu a língua discretamente.
–...Contudo é obediente e fiel, como as esposas devem ser. É também uma garota muito inteligente, aprendeu a ler aos três anos...
– Então ela e Rhaegar têm coisas em comum, é bom saber. – a Rainha Francesa sorriu docemente. – Meu filho também é cheio de idéias tolas e românticas. Rhaegar – virou-se para chamar o filho, mas ele já estava atrás de si, o que fez a rainha rir. – Arya, esse é meu querido e inteligentíssimo filho Rhaegar, Rhaegar essa é Arya Stark, sua futura esposa.
Arya não podia negar o quão bonito era o príncipe. Bonito sequer fazia jus a sua beleza, ele era lindo. Perfeito. Involuntariamente, ela prendeu a respiração. Foi algo totalmente inconsciente, sem que ela mesma percebesse.
– Olá Arya, futura esposa – o príncipe sorriu de maneira divertida – Ou será que posso chamá-la de Garota Lobo?
A princesa não soube o que responder, aquele sorriso a consumiu por inteira.
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