Orgulho e Preconceito
6 Química, expectativa e momento
Notas iniciais
Capítulo dedicado à Naya Yukida e CiçaDF.
CAPÍTULO SEIS – QUÍMICA, EXPECTATIVA E MOMENTO
Hyoga encarou seu celular por alguns minutos, pensando se deveria ou não atender a ligação de Ikki. Surpreendido durante o intervalo da faculdade, ele rapidamente se afastou de seus colegas e procurou um lugar mais tranquilo onde pudesse falar a vontade; entretanto, quando se viu sozinho e com o telefone em mãos, hesitou consideravelmente em atender ao chamado do Amamiya mais velho.
Ele não falava com Ikki há dois dias. Não por falta de oportunidade, estas foram muitas, mas o barman simplesmente vinha ignorando seu chefe, ou melhor, fugindo do homem. Depois do beijo acordado entre eles, Hyoga se viu bastante perdido e, sem saber direito como agir perante o Amamiya, ele preferiu não agir de modo algum, permanecendo distante o máximo que lhe fosse possível.
O loiro detestava agir assim, mas esse era seu mecanismo de defesa. Quanto mais acuado, mais distante e arredio se tornava, adquirindo uma postura altamente fria e impassível. A ideia do beijo lhe irritava e excitava; incapaz de distinguir qual dessas sensações predominava, Hyoga se viu cada vez mais confuso e encurralado. Assim, ele ignorou as ligações de Ikki nos últimos dois dias e, ainda, aproveitou sua folga para não ser obrigado a ter qualquer contato com seu chefe.
O barman tinha receio, essa era a verdade. A atração que sentia pelo Amamiya mais velho era um fato assumido por ele, pelo menos para si mesmo. Não sabia até onde essa atração iria e temia que toda a química sexual que parecia haver entre os dois pudesse se tornar algo mais, a partir de um toque íntimo como um beijo. Sim, pela primeira vez Hyoga estava com medo de se apaixonar por seu chefe.
Havia pensado bastante sobre a possibilidade de se apaixonar; em alguns momentos, chegou a se questionar se admitir a ideia já não significava que estava, de fato, apaixonado. De qualquer forma, Ikki vinha habilidosamente quebrando aquela barreira de gelo que o loiro havia imposto, fazendo com que ele acendesse de imediato um sinal de alerta.
Desde que ouviu falar do grande empresário que queria tomar a Stonehenge de Afrodite, Hyoga criou uma imagem daquele homem em sua cabeça e, com alguns ajustes, acabou por adaptar Ikki a essa figura asquerosa. Claro que a má primeira impressão causada pelo moreno ajudou, já que o momento em que se conheceram não foi dos mais agradáveis.
Entretanto, agora que eles estavam mais próximos, Hyoga via a imagem que tinha de Ikki se estilhaçar e, aos poucos, dar lugar a um Ikki Amamiya bastante diferente do que havia imaginado. Claro que esse novo homem não era um príncipe encantado; o dono da Stonehenge tinha seus defeitos e atitudes profundamente irritantes. Porém, passava muito longe do homem inescrupuloso que o loiro aprendeu a associar a ele.
Por essa mudança brusca e pela atração inegável que sentia por Ikki, o barman se via bastante ameaçado. Sentia que estava se aproximando de uma encruzilhada, prestes a ser obrigado a tomar uma decisão difícil que, de uma forma ou de outra, magoaria alguém. Ele queria Stonehenge, precisava devolvê-la à Afrodite, prometeu isso a si mesmo. Por outro lado, começava a desejar o Amamiya; lamentava a existência de uma aposta entre eles e detestava o fato de ter que escolher.
O pouco que conheceu de Ikki o deixou curioso, desejoso de saber mais, ávido por descobrir mais do moreno sedutor. Infelizmente, Hyoga jamais poderia assumir essa curiosidade, pois a aposta não permitia. Essa limitação lhe dava a sensação de ter algo preso em sua garganta; sentia-se sufocar com algo que não sabia ao certo o que era; um sentimento, talvez? Ele não tinha certeza e, a essa altura, o máximo que conseguia fazer era admitir, apenas em seus pensamentos, que Ikki era um homem apaixonante.
Se ainda restavam dúvidas, elas caíram por terra no dia anterior, quando o Amamiya fez algo totalmente inesperado e meigo, deixando o loiro ainda mais confuso. Ikki ligou, Hyoga não atendeu. O moreno insistiu por duas vezes e acabou recebendo uma mensagem de texto como resposta, em que o barman dizia estar consertando um problema no encanamento de sua cozinha e, portanto, impossibilitado de sair, conversar ou o que fosse. Não era totalmente mentira, pois o encanamento do loiro estava realmente com problemas, mas não era nada que não pudesse ser interrompido para um rápido papo ao telefone.
Cerca de quarenta minutos mais tarde, Hyoga se surpreendeu com o toque de sua campainha. Quando abriu a porta, viu um funcionário do grupo Fênix, vestindo o uniforme da empresa e portando uma maleta de ferramentas.
O homem fora enviado por Ikki e, atendendo à ordem de seu patrão, pôs-se a consertar o encanamento da cozinha do loiro, sem esperar por uma autorização explícita do dono do apartamento. Antes de partir para a cozinha, porém, ele entregou uma encomenda endereçada a Hyoga: Um raro botão de rosa de pétalas azuis e um envelope branco com bordados dourados, que continha o seguinte cartão:
“Loiro,
As rosas azuis não surgem de forma natural, pois não são uma criação da natureza e sim do homem. Isso não faz com que sejam menos belas e especiais, faz? Não, é exatamente essa singularidade que as torna tão lindas, impressionantes e cativantes.
Elas me fazem lembrar você.
Não apenas pela beleza; na verdade, nesse quesito as rosas azuis e qualquer outra flor não conseguem chegar aos seus pés, se é que seja possível comparar qualquer coisa ou pessoa nesse mundo com a sua beleza.
Elas fazem com que me lebre você porque são como nossa estranha relação. Não surgiu naturalmente; nasceu de forma forçada, artificial e, ainda assim, pode ser até mais bela do que as outras.
Rosas azuis significam mistério, a busca pelo impossível e inalcançável. São perfeitas para representar meus sentimentos por você.
Nós podemos ser incríveis juntos, basta que você me dê uma chance para te provar isso.
Com carinho,
Ikki Amamiya
P.S: Eu entendo que queria fugir de mim, mas liguei apenas para dizer oi e saber como você estava. Não quero te pressionar, então ligue pra mim quando se sentir à vontade”.
Estava bem claro que a rosa e o cartão foram idéia de Shun, mas isso não tornou a atitude de Ikki menos adorável. Hyoga não conteve um sorriso ao terminar de ler aquelas linhas, tampouco impediu um suspiro ao olhar a flor. Contudo, reprimiu o ímpeto de ligar para o moreno. Ele não podia demonstrar que estava cedendo e, caso ligasse naquele momento, era exatamente isso que pareceria.
O dia passou e Ikki também não havia ligado, até aquele momento; provavelmente, estava esperando pela ligação de Hyoga, que não veio. Possivelmente cansado de esperar e não mais assessorado pelo irmão, o Amamiya mais velho acabou ligando para o loiro durante o intervalo da faculdade e agora o barman estava ali, encarando o telefone e decidindo se deveriam conversar ou não.
Ele se sentiu mal com a ideia de ignorar o chefe mais uma vez e, resoluto, atendeu a ligação.
– Alô.
– Oi, loiro. Achei que iria me ignorar pra sempre.
– Eu estava ocupado.
Ikki ficou em silêncio e isso incomodou o barman.
– Obrigado pela flor e pela ajuda com o encanamento. – Hyoga apressou-se em dizer, um tanto sem graça.
– Não foi nada. Eu teria ido pessoalmente te ajudar, mas tive a impressão de que você não queria me ver… – o Amamiya o alfinetou. – Então, você gostou mesmo da flor?
– É linda! Foi ideia sua?
– Eu ganho pontos se disser a verdade? – Ikki riu.
– Talvez… Pensarei a respeito.
– O Shun sugeriu que eu fizesse algo realmente delicado, que fosse capaz de te surpreender. Mas quem escolheu a flor e elaborou a mensagem fui eu. Claro que não costumo ser tão piegas, mas a situação exigia uma dose maior de romantismo…
Surpreso com a revelação, Hyoga ficou sem jeito e agradeceu aos céus pelo outro não conseguir ver o quanto estava corado.
– A mensagem é linda… Realmente, muito linda. – admitiu com a voz baixa.
– Quer sair comigo esta noite? – o moreno foi direto.
– Eu preciso estudar, Ikki.
Seguiu-se um momento de silêncio e um longo suspiro do moreno.
– Você é de longe a pessoa mais difícil que já conheci, Hyoga.
– Faz parte do meu charme. – o pequeno flerte saiu antes que ele pudesse evitar. Em sua cabeça, a frase soou muito menos insinuante do que ao ser pronunciada.
– Sim, faz. – o Amamiya riu. – Mas nem por isso deixa de ser frustrante.
Houve outro momento de silêncio, até que Ikki voltou a se pronunciar:
– Bom, acho que não me resta alternativa além de te desejar um bom estudo e dizer até logo, certo?
Hyoga ponderou por um momento, tentando impedir a si mesmo de correr um risco maior do que deveria apenas para parecer simpático. Se ele estava sendo duro com Ikki, havia uma razão bastante plausível para tal, seria idiotice baixar a guarda agora.
Entretanto, ele não foi capaz de permanecer impassível por tanto tempo. Fora vencido pelo cansaço, pensou, embora não acreditasse totalmente nisso.
– Chefe, eu posso tentar organizar melhor meu horário. Minha prova não será tão difícil assim, estou em dia com a matéria e terei algum tempo sobrando, então… Se quiser sair, acho que não será tão prejudicial.
O loiro se esforçou para soar o mais desinteressado possível, já que essa era a única defesa que ainda lhe restava.
– Posso te buscar na faculdade, então? – Ikki não escondeu sua afobação. – Quero te levar a um lugar que sei que você vai amar.
– Eu gostaria de passar em casa antes, você se importa de me encontrar lá?
– Não vejo problema algum. Seis e meia está bom pra você?
Hyoga calculou mentalmente de quanto tempo precisaria para chegar a sua casa e se arrumar um pouco mais. Nem mesmo sob tortura ele admitiria isso, mas não queria ser visto pelo Amamiya da forma desleixada com que se via agora.
– Seis e meia está perfeito. – disse ele com um sorriso contido.
Despediram-se rapidamente e, durante as duas aulas seguintes, Hyoga não foi capaz de pensar em qualquer outra coisa que não fosse o beijo que daria em Ikki Amamiya. O professor passou a ser apenas um objeto decorativo à frente da sala e em sua mente ocorreu um verdadeiro desfile de situações e gostos. O loiro imaginou mil e uma situações em que seria beijado e incontáveis sabores para a boca de seu chefe.
Sabendo que sua dúvida só seria sanada quando o temido fato ocorresse, ele listou alguns parâmetros a serem seguidos durante o beijo, intentando manter o contato íntimo o menos íntimo possível.
Primeiro de tudo, ele não fecharia os olhos. Estranho, claro, mas justificável. Hyoga não poderia se deixar levar e, com os olhos abertos, conseguiria se concentrar em sua missão de recuperar a Stonehenge.
O segundo parâmetro estabelecido por ele foi o de não tocar o corpo de Ikki. Hyoga deixaria seus braços imóveis, não se permitiria explorar o corpo másculo, pelo menos não assim. Abriria uma exceção para as caronas de moto e apenas para elas.
O terceiro e último parâmetro era bastante simples: não gostar. Ou, ao menos, não demonstrar qualquer agrado. Isso era importante e havia grandes chances de ser uma tarefa impossível; tudo dependeria do beijo de Ikki.
Hyoga repetiu suas três regras como um mantra durante todo o trajeto de retorno para sua casa, enquanto se arrumava e nos vinte e cinco minutos que precisou esperar pela chegada do Amamiya. Se depois disso não estivesse pronto para beijar Ikki e sair ileso, teria que desistir de tentar ser imune ao moreno.
oOo
Ikki chegou à casa de Hyoga as seis e quinze, mas não comunicou sua chegada de imediato. Ele estava tão nervoso que precisava de alguns minutos para acalmar seu coração. O moreno desceu da moto e removeu seu capacete, olhando fixamente para a porta do loiro. Como sempre, ele se via nervoso antes de um encontro com o rapaz, preocupado em dizer e fazer as coisas certas, com a intenção de parecer encantador para o exigente barman.
O beijo acordado entre eles só fez aumentar esse nervosismo, despertando em Ikki sensações que ele nunca se julgou capaz de sofrer; ele sentiu suas mãos começarem a suar com a expectativa desse beijo. Era uma situação tão estranha… Quantos primeiros beijos ele já havia dado na vida? Tantos, que até perdeu a conta. Na maioria dos encontros amorosos que teve ao longo de seus trinta e um anos, o Amamiya sequer sentiu qualquer vestígio de nervosismo pelo ato. Em alguns poucos – dois especificamente – ele sentiu certo frio na barriga, já que estava um pouco apreensivo; em um por ser o primeiro e no outro por ser a primeira vez que beijava um homem.
Agora, no entanto, todo aquele nervosismo e ansiedade que não viveu até o momento pareciam vir com tudo em seu ser. Sua boca estava seca, as mãos tremiam e suavam, as borboletas em seu estômago faziam uma festa tão grande que chegavam a lhe causar náuseas. Se Ikki não se conhecesse bem, diria que estava tendo um ataque de pânico.
Mas ele se conhecia e sabia muito bem que não estava com medo, estava apenas nervoso. Sua ansiedade vinha da responsabilidade de ser perfeito, encargo esse que ele mesmo colocou sobre seus ombros, sem qualquer hesitação.
Com Hyoga, não havia a incerteza se o beijo rolaria ou não, se seria aceito com prazer ou recusado veementemente. A carícia que ocorreria entre eles era parte de um acordo, como uma multa ou um serviço prestado por alguém que cometeu uma infração. Tecnicamente, não haveria ali nem metade da intimidade necessária para que o beijo fosse bom para o infrator. Hyoga o beijaria por obrigação e isso, por si só, já era um grande fator negativo.
Diante disso, Ikki sabia que precisaria ser muito envolvente, charmoso, interessante e atraente; fazer o barman rir também poderia ajudar, embora o moreno duvidasse que tivesse capacidade suficiente para tanto; mas o elemento principal era a paciência, se é que alguém conseguiria ser paciente estando prestes a beijar o homem de seus sonhos.
O fato é que, para ser perfeito, o beijo deles dependia de três coisas: Química, expectativa e momento.
Química era o mais fácil, já que eles a tinham de sobra, na opinião do moreno. Haja vista todas as brigas que o Amamiya atribuía a simples tensão sexual que havia entre os dois.
Expectativa e momento andavam, de certa forma, juntos. Diretamente ligados, um sem o outro poderia resultar num efeito satisfatório, mas certamente eram arrebatadores quando unidos. Hyoga precisava desejar Ikki, ansiar pelo beijo dele, cobiçar o sabor de seus lábios e querer incontrolavelmente ser beijado por ele. Mas de nada adiantaria se o Amamiya o beijasse num momento inoportuno, onde não houvesse nenhum clima propício para que a carícia acontecesse. Da mesma forma, o contrário também seria ruim, já que um clima romântico não adiantaria muito se Hyoga não quisesse ser beijado.
Assim, a ansiedade de Ikki se dava muito mais pela espera que enfrentaria, até ter todos os sinais de que poderia, enfim, cobrir os lábios do loiro com os seus. Ele deveria ser paciente e seria; com alguma dificuldade, é claro.
Ele olhou para o céu e o viu coberto por nuvens escuras; uma chuva torrencial ameaçava cair e Ikki temeu que seus planos fossem por água abaixo. Sua intenção era fazer uma espécie de piquenique com Hyoga, numa bela praia que gostava de visitar, mas diante da ameaça de chuva, precisaria escolher rapidamente um local coberto para irem.
O Amamiya subiu os degraus que levavam ao estúdio onde o loiro residia e tocou o interfone. Hyoga o atendeu em menos de um minuto, mas, nesse intervalo, o moreno sentiu um grosso pingo de chuva cair sobre sua testa. Vieram outros após esse e, pensando rápido, Ikki correu de volta à sua moto e recolheu a cesta de queijos e vinhos que estava presa ali.
Quando voltou à entrada da quitinete de Hyoga, a porta já estava aberta, o loiro se aproximava para recebê-lo e a chuva já caía furiosamente. Droga! Aparentemente, nem o clima estava disposto a ajudá-lo a preparar uma noite romântica com o jovem barman. O moreno praguejava baixinho quando avistou Hyoga o observando com uma expressão divertida.
– Oi, loiro. – sorriu ante a bela figura.
– Oi. Precisava trazer essa chuva toda com você? – Hyoga brincou sem sequer perceber, para a alegria de Ikki.
O moreno riu e se aproximou de modo súbito. Vê-lo tão próximo deixou Hyoga estático, certo de que era chegada a hora de colocar em prática cada uma de suas regras quanto ao beijo, mas Ikki simplesmente frustrou sua expectativa ao beijar-lhe o rosto e novamente se afastar.
– Eu tinha planejado uma noite romântica na praia, com direito a fogueira e tudo, mas parece que teremos que adiar…
– Bom, de certa forma, nós estamos ilhados. – disse o outro, fazendo uma clara referência à ideia do moreno. – Entre, fique a vontade.
Ikki seguiu o loiro até o sofá, onde havia alguns livros, cadernos e anotações espalhadas.
– Eu estava estudando um pouquinho enquanto você não chegava. – explicou o loiro.
– Quer ajuda pra estudar? – Ikki ofereceu.
– Não precisa. Você já tem outros planos, não é?
– Eu tinha, mas a chuva os arruinou.
Hyoga não disse nada, mas seu olhar foi direcionado para a cesta que o Amamiya tinha em mãos.
– Queijos e vinhos. Gosta? – Ikki respondeu sua pergunta silenciosa com um ar charmoso.
– Quando foi que você ficou tão…
– Tão… – olhou curioso para o outro.
– Diferente…
– Diferente? – Ikki deixou escapar uma risada. – Eu sempre fui assim, você que nunca parou pra notar. – viu o loiro desviar o olhar e se concentrar em reunir seu material de estudo. – De que é sua prova?
– Gestão e empreendedorismo.
– Então, eu definitivamente posso te ajudar! – entusiasmou-se o moreno.
– Não acha que isso seria entediante? – Hyoga riu. – Sem contar que não sei se é aconselhável estudar bebendo vinho.
– Isso não é um problema, na verdade. O vinho fica para depois.
Ikki falou de uma forma resoluta, sem deixar margem para que o barman novamente negasse. Agora, o Amamiya parecia ainda mais charmoso do que em qualquer outro momento e ele não sabia bem como agir, não conseguia pensar no que dizer ou fazer; então, simplesmente se deixou levar pela situação.
Seguro de si, Ikki pegou um dos livros e algumas anotações de Hyoga e passou a inquirir o outro sobre os assuntos que ali constavam. No início, o loiro ficou bastante desconcertado pela solicitude do moreno, mas aos poucos foi se soltando e tendo um proveitoso estudo. O Amamiya entendia bem do assunto e durante todo o tempo fez comentários realmente aproveitáveis; além de explicar certos tópicos tão bem quanto um experiente professor.
Estudavam há quase uma hora, quando as luzes se apagaram. Com a forte chuva, o lugar ficou sem energia elétrica e, consequentemente, às escuras. Hyoga olhou de relance para Ikki e logo notou o sorriso aberto do moreno.
– Eu vou buscar uma lanterna. – disse, levantando-se rapidamente.
– Hey! Não haja como se eu fosse te atacar, isso sequer passou pela minha cabeça.
– Tenho sérias dúvidas a respeito, chefe.
O tom ameno e divertido na voz do loiro fez com que as esperanças de Ikki aumentassem consideravelmente. Com sorte, ele beijaria aqueles lábios provocantes esta noite e, ao contrário do que poderia imaginar com tantas coisas saindo erradas, ele estava com sorte.
– Posso te ajudar? – Ikki viu, em meio à escuridão, o barman abrir várias gavetas de um armário que ficava próximo à porta de entrada e, pela forma bruta com que o fazia, aparentava certo nervosismo.
– Não, está tudo bem. Eu só não estou encontrando a maldita lanterna! – a visão de Hyoga ainda estava se acostumando com o breu do apartamento e ele não se lembrava de onde havia colocado a lanterna. Seu nervosismo se dava, basicamente, por causa de dois fatores: ele estava a sós com Ikki Amamiya numa completa escuridão e, como se não bastasse, sua única alternativa de iluminação além da lanterna eram pequenas velas aromáticas em formato de coração. Não importava o que fizesse, um clima romântico seria criado totalmente por acaso, a não ser que encontrasse a maldita lanterna.
– Você não tem velas? – Ikki finalmente perguntou e Hyoga se surpreendeu com o quão próximo ele estava.
– Eu… Acho que eu… A lanterna é melhor.
– Bom, pode até ser, mas você não a está achando, está? Onde estão as velas? – o moreno estranhou o nervosismo repentino do loiro, mas resolveu agir como se não o tivesse notado.
– Eu pego, pode deixar.
Hyoga sumiu em meio à escuridão e, alguns minutos depois, ele retornou trazendo um isqueiro e um grande pacote de velas vermelhas, cor de rosa e amarelas, todas em formato de coração.
Ikki riu ao ver aquilo. Sem que fizesse grande esforço, um clima muito mais romântico do que ele poderia organizar simplesmente se armava sozinho para eles. Chuva, luz de velas, vinho, os dois completamente sozinhos e ilhados naquele pequeno apartamento… Era perfeito; perfeito como só mesmo o destino poderia delinear.
O barman acendeu uma boa quantidade de velas e as espalhou, deixando um clima intimista no apartamento. Ele ficou de pé por algum tempo, observando o moreno desprezar o sofá, encher duas taças de vinho e praticamente deitar em seu felpudo tapete.
– Senta aqui. – disse Ikki, quando seus olhares se cruzaram em meio à penumbra.
Hyoga hesitou um pouco mais, mas finalmente foi. Ele queria ir, não podia negar isso; suas mãos tremendo, o frio na barriga e a garganta seca demonstravam o quanto estava nervoso, mas não exatamente de uma forma ruim, ou de uma forma esperada por estar com Ikki Amamiya. O loiro pegou a taça e se sentou ao lado do outro, mantendo certa distância.
Um silêncio ensurdecedor ocorreu, mas foi logo quebrado pelo Amamiya:
– E essas velas? Guardadas para alguma ocasião especial? – perguntou de modo displicente, disfarçando muito bem sua curiosidade e, por que não, um pouco de ciúme.
– Comprei para aquela surpresa que faria para o Henry, mas acabei não usando e você sabe bem a razão.
Ikki se irritou apenas com a menção daquele nome, mas não quis se aprofundar no assunto. A noite era dele e de Hyoga, ninguém mais. De todos os assuntos que poderiam discutir ali, Henry era o último deles, se é que o nome do ex-namorado do loiro pudesse realmente entrar nessa lista.
– Seu apartamento é lindo. – Ikki sorriu, enquanto oferecia alguns queijos ao barman.
– Obrigado. – Hyoga aceitou um queijo e retribuiu o sorriso. – O Dite usava esse lugar para fazer suas esculturas. Ele é um ótimo artista plástico, sabia? Foi ele quem me ajudou a decorar.
– Eu tenho uma escultura feita por ele em minha casa. – comentou o moreno. – Seu tio é muito talentoso. Mas eu soube que sua mãe também era.
– Ah, sim! Ela era uma pintora maravilhosa! – Hyoga abriu um lindo sorriso e se empolgou com o tom da conversa. – Sabe, ela estava fazendo bastante sucesso quando faleceu, seus quadros começavam a ter algum destaque e as exposições eram cada vez mais constantes… Entrevistas, matérias especiais… Ela era incrível, é o que todos dizem. Ela e o meu pai estavam indo expor os quadros dela na Argentina, mas o avião teve alguns problemas técnicos e explodiu pouco depois da decolagem. – o loiro assumiu um ar triste. – Sabe o que é mais perturbador?
– Não, o quê?
– Ela queria muito me levar, mas meu pai não deixou. Ele disse que seria uma viagem cansativa para uma criança de quatro anos e que era melhor eu ficar aqui. Isso salvou minha vida… – sorriu tristemente, como se não soubesse como deveria se sentir com essa constatação. – Então eu fiquei aqui com o Dite, que sempre foi amigão do meu pai e fez faculdade com a minha mãe, já te falei isso?
– Não. – Ikki estava tão fascinado com o loiro em sua frente, que não conseguia falar muito. Na verdade, ele sabia de todas aquelas coisas que Hyoga estava dizendo, mas ouvir tudo aquilo da boca do loiro, vê-lo gesticulando, notar o brilho de seus olhos azuis em meio a pouca luz que os iluminava e saber-se importante o suficiente para merecer ouvir sua história era algo que vinha desejando a tempo demais. Então, ele não se preocupava em falar, apenas em ver, admirar aquela visão tão maravilhosa.
– Então, ele não é meu tio de sangue, apenas nos consideramos assim, tio e sobrinho. – Hyoga continuou. – Quando meus pais morreram, ele quase perdeu minha guarda, sabe? Ele enfrentou preconceito, humilhação, gastou muito dinheiro com advogados e mudou muitas coisas em sua vida, apenas para ser considerado capaz de cuidar de mim. Na época, ele tinha um namorado que foi assim… Como posso dizer… A maior paixão da vida dele, uma verdadeira obsessão, a pessoa que o Dite mais amou na vida! Ele era louco por esse cara e os dois tinham planos de se mudar do país, viverem juntos e tudo o mais… Só que esse namorado dele não tinha planos de ser pai, infelizmente. O tio Dite não pestanejou, terminou tudo e preferiu cuidar de mim. Eu devo muito a ele, muito mesmo.
Hyoga tomou mais de seu vinho e notou o quanto Ikki estava quieto.
– Desculpe, não queria te entediar com essa história.
– Não se desculpe, não estou entediado. Eu… – procurou a melhor forma de se explicar, pois temia que, ao notar o quanto estava mudado, Hyoga voltasse ao tratamento frio que lhe dirigia antes. – Olha só, é que você nunca me tratou assim e isso me desconcerta um pouco.
O barman parou para pensar, parecendo constatar que o moreno tinha razão. Não sabia o que o levou a relaxar assim, mas era verdade que estava usando um tom ameno e amigável com Ikki. Talvez fosse o assunto, já que realmente gostava de falar sobre o talento de sua mãe e de seu tio; ou poderia ser o clima aconchegante formado naquela sala, com o som da forte chuva lá fora, o vinho, a parca iluminação e o cheirinho gostoso que as velas emanavam que, por sinal, era afrodisíaco. Talvez fosse a junção de todas essas coisas… Não havia como ter certeza e, nesse momento, ele simplesmente não conseguia se importar tanto, para sua própria surpresa.
– Eu te deixo desconcertado? – Hyoga perguntou num tom incrédulo.
– Sempre. – Ikki se aproximou um pouco e se virou, de modo que ficasse bem de frente para o loiro. Seu braço direito apoiado no sofá se esticou e sua mão brincou com os cabelos macios e levemente ondulados do mais jovem, que demonstrou certo incômodo, mas não se esquivou do toque.
– Você teve muitos namoros sérios? – Hyoga se afastou para pegar outro queijo e tomou um gole de seu vinho, mas voltou à posição inicial e Ikki compreendeu essa atitude como um aval para que continuasse o cafuné, o que ele fez sem pestanejar.
– Não exatamente. – o moreno sorveu um pouco de sua taça. – Um namoro de três anos e quatro meses foi o meu recorde. – foi sincero.
– É um bom recorde. – Hyoga riu. – O que houve? Por que acabou?
– Nos conhecemos melhor. – respondeu ainda com sinceridade, arrancando uma risada do loiro.
– Isso não é um bom sinal. – retrucou ainda rindo.
– Moramos em cidades diferentes por cerca de três anos. – Ikki sorriu de lado e o loiro engoliu em seco ante a imagem encantadora. – Era ótimo, porque não convivíamos. Não tínhamos que lidar um com o outro. Até que ela resolveu se mudar para minha casa e ambos percebemos que não conhecíamos um ao outro. Ela estava muito mais preocupada com o fato de estar namorando do que com o namorado em si e, naquele momento, eu passava por uma fase em que o que mais precisava era alguém que me compreendesse e apoiasse.
– Está falando daquela ruiva que sempre aparece na boate, não é? A tal de Maya?
– É ela sim. Como você sabe, loiro?
– Ela fez questão de dizer, numa das primeiras vezes em que foi à Stonehenge.
– Sério? O que ela disse?
– Que tudo estava ótimo até você a trair com um cara. – apesar da acusação, Hyoga riu ao fazê-la, o que acabou arrancando risadas em Ikki também.
– Não foi exatamente assim que aconteceu, eu… Pra mim, não estávamos mais juntos.
– E como isso é possível?
– Eu pedi um tempo. – Ikki gargalhou. – Ela não compreendeu exatamente o que um tempo significava, então...
– Nossa, você realmente se atrapalha em relacionamentos. – o loiro constatou, ainda com um ar divertido.
– Está tão na cara assim?
– Está.
– Agora que você percebeu, pode ser menos duro comigo.
– Oh, eu não acho que você precise de um desconto… Suas últimas ações deixam claro que está aprendendo. Sem contar que seu irmão é um guru e tanto. – Hyoga não conseguia se controlar e sorria o tempo todo. Ele até tentou se lembrar da Stonehenge e de seu tio, mas fazia tanto tempo que não passava momentos tão divertidos com alguém tão envolvente que acabou esvaziando sua mente e se deixando levar.
– Nisso você tem razão. – Ikki reabasteceu as duas taças de vinho.
– E a Esmeralda?
– O que tem ela?
– O que ela é? Ficante, ex-namorada, amiga colorida… Qual a importância dela pra sua vida?
– Está tentando descobrir algo sobre seus possíveis rivais?
– Ah, agora eu tenho rivais? Pensei que eu fosse a bola da vez…
– Você não é a bola da vez.
– Não?
– Não. Olha, eu sei que já tive uma fase volúvel, em que colecionava conquistas, mas você não é um brinquedo que eu desejo loucamente apenas até o momento em que eu ganhar, você é… – Ikki se calou.
– Eu sou…
– Diferente. Você é diferente. – o moreno baixou a cabeça, um tanto sem jeito. – A Esmeralda é apenas uma amiga.
– Não é o que ela pensa. – resmungou o loiro, logo em seguida bebendo vinho.
– Ela falou de mim pra você?
– Falou.
– E o que ela disse?
– Bom, deixe-me ver… – Hyoga se ajeitou e voltou a encarar o moreno. – Indisponível emocionalmente, viciado em trabalho, impaciente, muito sincero, absurdamente inteligente, quente como o inferno e o melhor sexo da vida dela. Acho que foi só isso… Eu não me recordo muito bem, a Stonehenge estava lotada naquela noite, acabei trabalhando muito.
Ikki permaneceu em silêncio por alguns instantes.
– Nós transamos algumas vezes. – confessou o Amamiya. – Mas nunca passou disso.
– Ok.
– Só ok? E toda aquela acusação de que eu dormi com ela para conseguir publicidade? – o moreno provocou.
– Foi o que você fez?
– Não.
– Então é só ok, mesmo. – o loiro riu.
– Você é impressionante, sabia? – o dono da Stonehenge voltou a acariciar as madeixas loiras.
– Sou? Por quê?
– Não importa o quanto eu te conheça, você sempre dá um jeito de fazer ou falar algo que me surpreenda e isso quase não acontece comigo. Eu gosto disso.
Hyoga não disse nada, apenas ficou encarando o moreno por alguns segundos.
– O que foi? – perguntou Ikki, um tanto desnorteado por olhar tão profundamente naqueles belos olhos azuis.
– Estou me perguntando o que te leva a crer que me conhece.
O Amamiya ficou em silêncio por um momento, considerando se deveria se abrir tanto assim a alguém que ele simplesmente não tinha certeza se correspondia aos seus sentimentos.
– Eu tenho te observado por um ano ou mais, Hyoga. E quando eu digo que tenho te observado eu não quero dizer que fico olhando o quanto você é bonito e desejando te levar para a minha cama. Eu vejo mais… Você consegue ser o mais doce dos mortais num momento e, no minuto seguinte, ser tão destemido que chega a assustar. Você é sensível o suficiente para chorar quando ouve uma música triste, mas é tão orgulhoso que corre para o banheiro só para que ninguém te veja assim. Você esconde sua insegurança por trás da arrogância, como se precisasse dizer em voz alta que é bom em algo para que você mesmo possa acreditar… Você morde o canto da boca quando está tenso, comprime os lábios quando quer pensar em algo que julga importante, brinca com os cabelos quando está entediado e sempre pisca quando fala um palavrão. Você balbucia o que está fazendo quando quer se desligar do mundo e veste cores alegres quando está triste. Você canta pra relaxar e sempre se esquece de onde deixou suas coisas. Você é a pessoa mais sexy que eu conheço, mas sequer nota isso, nem vê que seu sorriso é capaz de iluminar o mundo e que faz um biquinho tão adorável quando irritado que deveria ser ilegal. Eu vejo você, Hyoga; não a carcaça, eu vejo você.
O loiro não sabia o que dizer, não depois disso. Ikki ainda olhava profundamente em seus olhos e, sem que tivesse percebido, a mão do moreno havia abandonado seus cabelos e agora passeavam por sua face, numa carícia tão delicada que ele quase pediu por mais do calor daquela mão. Não se surpreendeu quando notou sua garganta seca, muito menos quando percebeu que tremia. Jamais ouvira algo assim e as palavras do Amamiya eram perturbadoras demais para qualquer um.
Desajeitado e tremendo muito, Hyoga derrubou sua taça no tapete, derramando vinho tinto num enorme pedaço dele. Aquela era a sua deixa para sair dali e tentar se recuperar. Levantou-se apressadamente e foi até a cozinha, pegou o primeiro pano que encontrou e o encharcou de água. Antes de retornar a sala, porém, o loiro tomou fôlego algumas vezes, tentando esquecer o que havia escutado e buscando algum resquício de autocontrole em si mesmo.
Quando retornou à sala, não olhou para Ikki. Agachou-se sobre o tapete e começou a esfregar alucinadamente o local manchado de vinho, tentando retirar uma marca que sabia muito bem que não sairia.
– Eu te compro outro depois. – ouviu o moreno dizer, mas não ergueu a cabeça.
– Não precisa… – sussurrou, ainda sentindo seu corpo inteiro tremer e mantendo a cabeça baixa.
Ikki nunca vira Hyoga daquele jeito, esforçando-se para demonstrar um controle que visivelmente não possuía. E então ele soube que havia chegado a hora de cobrar sua indenização. Química, expectativa e momento estavam reunidos, enfim. Ele finalmente conseguiria beijar o homem de seus sonhos. E essa ideia o apavorava tanto quanto ao loiro totalmente sem jeito em sua frente.
– Hyoga…
Ikki o chamou e, ao mesmo tempo, impediu-o de continuar a esfregar o tapete e ergueu seu rosto, forçando-o a olhá-lo.
– Sim? – o barman sussurrou, sentindo seu coração falhar uma batida ao encarar os olhos do moreno.
– Eu quero meu beijo agora. – sussurrou de volta, acariciando o queixo do outro.
Hyoga assentiu com um leve movimento de cabeça, largou o pano e se sentou de frente para Ikki no tapete. Seu coração estava disparado, mas ainda assim ele conseguiu se recordar de seus parâmetros.
“Mantenha os olhos abertos, não toque e não goste” – repetia em seus pensamentos.
Ikki umedeceu os lábios e se aproximou mais, tocou o rosto do loiro e, ainda segurando a face alva, colou sua boca na de Hyoga. Ele se afastou um pouco e logo em seguida voltou a cobrir os lábios carnudos com os seus, desta vez com mais desejo. Foi quando o moreno se afastou uma última vez e voltou insinuando a língua quente entre seus lábios que o loiro não apenas os entreabriu para recebê-la, como também deixou cair por terra sua primeira regra e fechou os olhos.
Foi mágico. Infinitamente melhor do que qualquer um dos dois poderia imaginar. E não apenas pelo perfeito encaixe de seus lábios ou pelo ritmo gostoso com que suas línguas bailaram; o que, por si só, já seria incrivelmente delicioso. Foi mais do que uma carícia íntima com lábios, línguas e saliva. Foi conexão, união, conhecimento. Foi provar o gosto do vinho tornando a saliva ainda mais adocicada e considerar o melhor sabor do mundo, foi sentir o cheiro das velas se misturando ao dos perfumes caros e pensar que um perfumista enlouqueceria ao descobrir tal essência, foi ouvir o som da chuva batendo na janela e confundi-lo com os estalos provocados por seus lábios unidos. Foi ouvir sinos tocando e, ao mesmo tempo, sentir algo queimando dentro do peito. Foi tormenta, bonança, paixão, doçura, perdição e conforto. Foi um momento extraordinário, único como só um beijo entre dois seres que se completam deveria ser.
Diante de toda essa singularidade, os corações martelaram furiosamente no peito, assustadoramente descompassados. Os corpos tremeram e os pelos se eriçaram, externando a afobação oprimida pelo beijo lento. Os minutos se passaram e os lábios não se desataram; as mãos de Ikki saíram de seu estado inerte e passaram a explorar o corpo magro e alvo do loiro. Foi quando sentiu o toque firme em sua cintura e os dedos se enroscando em seus cabelos que Hyoga quis mais, muito mais do que tinha agora. Seu segundo parâmetro foi suprimido quando suas mãos apertaram o peito largo do moreno e, ainda insatisfeitas, correram por todo aquele corpo, sentindo a firmeza dos músculos, a maciez dos cabelos ou o quanto Ikki se arrepiava com seu toque.
Quando suas bocas enfim se desuniram, não se afastaram de todo. As testas se colaram, em compensação, e os olhos se prenderam um no outro.
– Obrigado.
Ikki tinha os olhos cheios d’água e seu agradecimento foi apenas um sussurro praticamente inaudível, dito contra a boca de Hyoga que, quase colada a sua, desafiava-o a não resistir em novamente buscar aquele sabor viciante.
O barman nada disse, afinal, o que poderia ser dito? Não cabiam palavras ali, não agora. Nesse momento, ele tinha dificuldades até mesmo para respirar, como conseguiria pensar no que dizer? Impossível! Completamente impossível, principalmente com aquela boca deliciosa tão próxima da sua, implorando por um novo beijo.
Sem pestanejar, Hyoga aboliu sua terceira diretriz. Ele gostou, e muito. Tanto, que não havia qualquer possibilidade de disfarçar. Pensando melhor, ele não queria disfarçar. Por isso, foi sem hesitação que se sentou no colo de Ikki – com uma perna de cada lado do corpo do moreno – enlaçou o pescoço dele e voltou a beijá-lo, dando ainda mais vazão a todo o desejo que reprimiu desde que se conheceram.
O ritmo agora já não era tão lento e aumentava a cada segundo. Ikki mal podia acreditar no que estava acontecendo, era maravilhoso demais para ser verdade. Sonhou muitas vezes com esse momento, mas nenhum desses sonhos foi tão perfeito como a situação real. O Amamiya estava nas nuvens, foi ao paraíso e por lá ficou, por que era exatamente isso que os lábios de Hyoga representavam: o paraíso.
Já o loiro não pensava, apenas sentia. Ele era todo emoção agora, sem nenhum resquício de sua famigerada racionalidade. Hyoga simplesmente se deixou levar pelos beijos inebriantes e não escondeu a satisfação quando Ikki desceu mãos e lábios, atacando-lhe o pescoço com sensualidade e ousadamente agarrando sua bunda. Contudo, o barman não ficou para trás e distribuiu mordidas e chupões na orelha do mais velho, fazendo-o com mais ferocidade de acordo com os chupões que seu pescoço recebia.
Ofegantes, separaram-se apenas por um momento, mas logo recomeçaram tudo, atracando-se com ainda mais urgência.
– Nossa, loirinho. Quem diria que você gostaria tanto do meu beijo, hein? – provocou o moreno, mordiscando os lábios do barman.
Hyoga riu e mordeu o queixo de Ikki com um pouquinho mais de força do que o necessário.
– Pare de se gabar! – sussurrou na orelha do outro. – Eu odeio quando você faz isso! – reclamou o barman, apontando um dedo atrevido para o moreno. Ikki não se fez de rogado, segurou o dedo ante sua face e o sugou sugestivamente. – Oh, Deus! – o loiro estremeceu com a lasciva visão e, rindo, voltou a atacar os lábios do Amamiya.
A chuva ainda caía lá fora, tão ou mais torrencial do que quando começou. As velas, agora já bastante derretidas, quase não iluminavam o ambiente e uma das garrafas de vinho já estava vazia, abandonada em um canto qualquer. Nenhum dos dois saberia precisar quanto tempo havia se passado, pois realmente se perderam em meio a olhares cúmplices, palavras divertidas, beijos intensos e carinhos cada vez mais ousados.
Em algum momento, Ikki agarrou o loiro pelas coxas e o deitou sobre o tapete; claro que Hyoga, todo instinto, imediatamente acomodou o moreno sobre seu corpo e entre suas pernas abertas, ofegando com a excitante nova posição. A camiseta do barman não durou muito em seu corpo e, buscando justiça, ele também abriu a de Ikki, deparando-se com o tórax másculo e com alguns pelos que tanto gostou de explorar no outro dia.
– Você tem certeza, loiro? – mesmo em meio a toda a excitação do momento, Ikki analisou a situação e se preocupou com o que estaria passando pela cabeça de Hyoga, ou melhor, com o que passaria por ela mais tarde.
– Não, eu não tenho certeza. Mas você não quer que eu pare pra pensar nisso agora, não é? – o loiro raramente se permitia tomar atitudes impensadas como essa, deixando-se levar sem antes pensar e repensar o assunto, até estar certo do que queria fazer. Não, ele não estava raciocinando direito e estava bem com isso, não precisava nem queria pesar seus atos agora.
Ikki sorriu e voltou a beijar o rapaz abaixo de si, enquanto o barman abria o zíper de sua calça e acariciava seu pênis sobre o fino tecido da cueca.
– Eu penso que seria bom se você fizesse isso, Hyoga. Não quero que faça nada sem pensar, porque depois as coisas podem facilmente se confundir na sua cabeça e nós não queremos que isso aconteça, certo?
Hyoga parou o que fazia e o olhou seriamente, mirando seus olhos e demonstrando ter algo de sumo importância a ser dito.
– Ikki, você é muito gostoso e eu estou com tesão demais para pensar sobre qualquer outra coisa agora. Então, ao invés de ficar analisando tudo, por que não me dá outro desses seus beijos incríveis e faz comigo tudo o que eu sei que você vem imaginando há um ano?
O moreno não precisou de nenhuma outra resposta para voltar a atacar aquela boca com furor; não se importaria com o que aconteceria mais tarde, o importante era que agora tinha Hyoga em seus braços, entregue aos seus carinhos e desejos, exatamente como vinha sonhando há algum tempo. Se posteriormente o loiro resolvesse culpar o efeito alcoólico do vinho ou o afrodisíaco das velas, ele pensaria numa forma de lidar com isso.
Hyoga abaixou a calça e a roupa íntima de Ikki e sorriu ao ver o grosso membro ereto, tocando-o e o masturbando em movimentos tão leves e delicados que o moreno mal podia senti-los. Eles se beijaram novamente e o Amamiya resolveu também entrar na brincadeira e libertou a ereção do outro, pondo-se a masturbá-la da mesma forma torturante com que a sua estava sendo.
A calça de Hyoga foi atirada a um canto, assim como sua cueca; totalmente nu e exposto a um Ikki de camisa aberta e calça arriada, o loiro se sentiu ainda mais excitado e desejoso de mais carinhos, muito mais daquelas sensações provocadas pelos toques e estímulos nos pontos corretos. O moreno beijou a boca do mais jovem, depois o pescoço, o peito, os mamilos, a barriga e continuou descendo, explorando-o com mãos, lábios e língua, provando e aprovando o seu sabor, a textura de sua pele e exatamente onde era o seu limite entre a dor e o prazer.
O dedo médio de Ikki brincava ao redor do ânus do loiro, provocando-o, excitando-o, gerando expectativa e uma sensação extremamente prazerosa. Suas bocas se colaram novamente, beijando-se de forma quase pornográfica numa confusão de línguas, ofegos e gemidos abafados, liderados por um desejo crescente e incontrolável.
– Eu quero você! – Ikki grunhiu ao morder o pescoço do barman. – Você me deixa louco, Hyoga, eu te quero tanto! – agarrou com força a cintura do mais jovem e novamente chupou e mordiscou o tronco alvo, deixando um rastro de vergões por onde sua boca passava.
O loiro mal continha sua expectativa, que já beirava o desespero. Sua gloriosa e pulsante ereção exigia atenção e ele não hesitou em pedir isso ao moreno, impulsionando o quadril para cima e fazendo com que o pênis se movesse contra o peito de Ikki, para que não fosse mais ignorado.
O dono da Stonehenge compreendeu o sinal e estava muito disposto a dar ao loiro o tratamento especial que ele tanto queria, mas a porta da frente foi destrancada e rapidamente aberta, revelando um distraído e ensopado Afrodite.
– Oga, você não acredita no temporal que está caindo lá fora. Eu… – o loiro de cabelos cacheados parou, observando seu sobrinho cobrindo sua virilha com uma almofada e o homem que o acompanhava erguer rapidamente as calças. – Oh, cheguei na hora errada, não é? Desculpe-me, eu… – seus olhos se acostumaram à penumbra e, ao ver as duas figuras assustadas se sentarem e olharem em sua direção, ele pôde, enfim, distinguir o acompanhante de seu sobrinho. – Alexei Hyoga Yukida, o que diabos você está fazendo com Ikki Amamiya? – gritou.
Continua…
Notas finais
Demorou, mas enfim esse capítulo saiu! Melhor dizendo, enfim esse beijo saiu! Hahaha
E então, foi como vocês imaginavam? Agradou? Decepcionou? Estou curiosa pra saber as reações que esse amasso básico despertou.
Bom, o Afrodite agora entra de vez na história; se é pra atrapalhar ou ajudar, vocês só saberão depois e depende do ponto de vista, né? Hahaha
Espero que tenham curtido o capítulo! Merece reviews?
Agradecimentos especiais: Alexia-Black, Kassiminha, klotus, Litha_chan, LaraAmamiya, Belle princesse, CiçaDF, Naya Yukida, Cristal_black, lucy_black, Samiha, Reiko, Iamini e Chakal_Maldito. Valeu galera, vocês são demais! \o/
Um grande beijo a todos que estão acompanhando e até o próximo!
Mamba Negra
Fale com o autor