Orgulho e Preconceito
7 Apaixonado?
CAPÍTULO SETE – APAIXONADO?
– Alexei Hyoga Yukida, o que diabos você está fazendo com Ikki Amamiya?
Por um minuto, ninguém proferiu qualquer palavra. Afrodite mais parecia uma miragem fantasmagórica, parado à porta em meio à penumbra, com suas vestes e cabelos molhados, além do horror evidente em seu rosto parcialmente iluminado pelas chamas trepidantes das velas.
A pequena mala que o tio de Hyoga trazia foi simplesmente largada ao chão, enquanto seu corpo retesado não se movia. Seus olhos estavam arregalados e seus lábios um pouco separados, demonstrando sua incredulidade com a cena que presenciou.
Ver seu sobrinho, o jovem que ele criou e amou como a um filho, se atracando com o homem responsável por uma das maiores tristezas de sua vida era algo aterrador e decepcionante demais. Por isso, seu grito saiu sem pensar e, agora, parecia que aquele questionamento praticamente retórico – era perfeitamente visível o que Hyoga estava fazendo com o Amamiya – havia lhe roubado toda a voz. Afrodite não conseguia encontrar o que dizer e o mesmo evento ocorreu com o casal flagrado num momento tão íntimo.
Com um trejeito delicado e uma bufada impaciente, Dite vasculhou nervosamente os bolsos de sua mala, até encontrar seu maço de cigarros. Retirou um deles e o acendeu com o isqueiro dourado, comprado em uma de suas viagens. A tragada pelo canto da boca, sensual e sempre reprovada por seu sobrinho, foi revigorante; devolveu-lhe a voz e, impressionantemente, o prumo.
– Então, Alexei, você vai se explicar e se vestir ou está esperando que eu os deixe a sós para que terminem isso, seja lá o que ‘isso’ for? – uma nova tragada foi dada, agora já com toda a desenvoltura característica de Afrodite, em que gestos expansivos e graciosos acompanhavam sua fala, enquanto o cigarro aceso em sua mão direita bailava no ar, dispersando sua fumaça tóxica e garantindo um charme hipnotizante ao loiro mais velho.
Chocado, ainda excitado e sentindo uma irritação incontrolável se apossar de seu corpo, Ikki ainda não podia acreditar no término repentino de sua maré de sorte. Em sua mente, ele praguejava contra a injustiça de ser interrompido no momento em que tinha Hyoga em seus braços, finalmente se entregando aos seus desejos. Ser obrigado a parar após ter ido tão longe só poderia ser descrito como uma crueldade do destino.
O moreno viu Afrodite transitar de uma tremenda crise nervosa para seu jeito espalhafatoso e soberano em questão de segundos, mas isso não aliviou o clima. Pelo contrário, ao deixar de lado a postura frágil que apresentou por alguns instantes, o tio de Hyoga retomou o seu habitual estado de homem influente e perspicaz, ou seja, Afrodite era agora o dono da situação e Ikki, bem, ele era apenas um soldado solitário surpreendido em território inimigo, prestes a ser ridicularizado, torturado e, por fim, aniquilado.
Crendo que era apenas uma questão de tempo até que fosse convidado a se retirar do apartamento, seja pelo loiro de seus sonhos ou pelo tio dele, Ikki sabia que precisava dizer ou fazer algo, marcar sua presença ali e, se possível, influenciar Hyoga ao menos um pouco.
– Afrodite, não fale assim com ele. O que está acontecendo aqui não é nada tão grave para que se faça uma tempestade em copo d’água e… – tentou se manifestar, mas foi rapidamente interrompido pelo loiro mais velho.
– Oh, não venha com esse papinho, Amamiya! – Afrodite enfim se aproximou, caminhando na direção de Ikki e Hyoga de modo altivo e cheio de trejeitos suaves. – Eu não estou falando com você. – apontou para o moreno irritadiço. – Não ainda. Primeiro, vou falar com o meu sobrinho e descobrir por que com tanto homem gostoso no mundo ele resolveu dar exatamente para você. Só então nós dois teremos uma conversa e finalmente você vai me dizer o que quer do meu bebê; além de sexo, é claro.
Ikki bufou e olhou para Hyoga que, até o momento, não apresentou qualquer reação. O jovem barman permanecia impassível, sem demonstrar choque, irritação ou vergonha em seu olhar. Era impossível decifrar o que se passava naquela mente e isso deixou o Amamiya apreensivo, sem saber se deveria se sentir esperançoso ou desolado.
– Eu não sei se você reparou, mas o seu ‘bebê’ tem vinte e três anos e é completamente responsável por seus próprios atos. – Ikki retrucou ao ver que Hyoga ainda não se manifestava.
Afrodite riu, achando graça na forma quase desesperada com que o famoso empresário falava consigo. Ikki, tão bom em argumentos e barganhas, parecia agora um gatinho assustado diante de um imenso e temível cão. O sueco nunca imaginou que viveria para ver uma situação assim e, nesse momento, sentiu-se um pouco vingado por sua boate.
– Eu assisti ao parto deste garoto; troquei fraldas dele, dei banho, alimentei. Quando seus pais se foram, eu o criei sozinho. Para você, ele pode ter vinte e três anos, mas, para mim, é como se jamais tivesse passado dos dez. – dirigiu-se a Ikki, falando de modo suave, seguro e lúbrico. – Hyoga, se vista e me acompanhe, precisamos conversar. – Afrodite recolheu duas velas e indicou o banheiro ao sobrinho.
Aceitando que não tinha mais nada a fazer no momento, Ikki passou a abotoar sua camisa, enquanto via pelo canto dos olhos o loiro se levantar, recolher suas roupas e se vestir sem lhe dirigir a palavra, o que foi extremamente frustrante. Nem um ‘sinto muito’ ou, quem sabe, um ‘conversamos mais tarde’; Hyoga simplesmente se vestiu e seguiu o tio até o banheiro, como um dedicado filho obediente que acabara de se arrepender de uma travessura.
Enquanto caminhava atrás de Dite, Hyoga processava diversas questões em sua mente; deveria ser totalmente sincero? Ou seria melhor omitir algumas coisas? Se sim, o quê? Falaria da aposta ou deixaria que o tio acreditasse num relacionamento amoroso entre ele e Ikki? Havia um relacionamento amoroso entre ele e Ikki?
Sua cabeça era uma confusão no momento. As perguntas eram muitas, as respostas irritantemente escassas e o tempo curto. Como se explicar para Afrodite, a pessoa que mais respeitava no mundo, se ele mesmo não tinha ideia do que estava acontecendo naquela sala até a chegada repentina do sueco? Quer dizer, claro que de certa forma ele sabia bem o que estava ocorrendo: sexo. Possivelmente o melhor que já tivera até hoje, mas isso era apenas o aspecto físico da coisa, não o emocional. Emocionalmente, o barman não fazia ideia do que estava sentindo.
Hyoga entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, recostando-se na pia enquanto seu tio andava de um lado para o outro, fumando e espalhando cinzas e fumaça por todo o cômodo.
– Ikki Amamiya? Sério? Que merda é essa agora, Hyoga? – Afrodite esbravejou.
– É complicado, Dite.
– Complicado? Não, é muito simples! – o sueco se aproximou. – Esse seu dedinho podre voltou a atacar e fez com que você escolhesse a pior pessoa no mundo para se relacionar! Hyoga, esse cara estraçalha corações como quem parte um biscoitinho da sorte.
– Não é bem assim, tio. Eu e ele não temos um relacionamento. É diferente, a situação não é como você pensa. – o barman preferiu manter a história da aposta para si mesmo o quanto pudesse. – E o Ikki não é tão ruim quanto dizem…
Afrodite riu, apagou seu cigarro e jogou a bituca na lixeira.
– Henry foi um cafajeste. Ele foi um cafajeste, eu sei. Sei também que você gosta dele e provavelmente é por isso que resolveu se jogar nos braços do primeiro que apareceu.
– Dite, não coloque o Henry nessa história, ele não tem nada a ver com isso, é passado na minha vida.
– Totalmente passado?
– Totalmente. – Hyoga assentiu. – E posso garantir que o que está havendo entre mim e Ikki nada tem a ver com o Henry.
Tio e sobrinho se encararam por alguns segundos, sem nada dizer.
– Ok. Então, um belo dia você acordou e decidiu transar com o seu chefe? Mesmo ele sendo quem é? Eu não sei se te deixo de castigo, se te deserdo ou choro porque você não aprendeu nada do que te ensinei! – Afrodite voltou a caminhar pelo banheiro, demonstrando sua frustração.
– Dite, não foi assim que aconteceu. Tudo bem, foi de repente, eu sei. E sei também que foi errado não te contar. – o mais jovem usou um tom conciliatório e o sueco bufou. – Olha, o fato de você ter problemas com o Ikki não quer dizer que ele seja ruim como pensa.
– Como é que é?
– Tio, ele comprou a sua boate por um preço vergonhoso, você vive repetindo isso. Mas a Stonehenge estava fechando as portas, você iria falir… Se não fosse o Ikki, talvez não conseguisse sequer a quantia que ele ofereceu.
– Aquele idiota irritante influenciou todos os banqueiros da cidade a me negarem um empréstimo. Foi por culpa dele que eu não tive dinheiro em caixa e me vi obrigado a vender minha amada boate para a única oferta que tinha recebido, ou seja, a dele.
– É, foi isso o que nos disseram. Mas não há qualquer prova de que o Ikki realmente fez isso.
– Eu soube de uma fonte segura.
– Sei bem quem é sua fonte segura e tenho certeza de que naquela época ele diria qualquer coisa para te agradar, pois queria transar com você.
– Ah, é sério? Pois então faço minhas as suas palavras, porque tudo o que aquele cara lá fora quer é te levar para a cama dele. Ele é um sedutor, Hyoga. Ele seduz a tudo e a todos com o único intuito de usá-los a seu bel prazer.
Hyoga se calou por um momento, pois também conhecia todas essas histórias a respeito de Ikki. Ele se cansou de ouvir, de diversas fontes, o quanto o Amamiya era um empresário implacável e um amante fugaz. Contudo, essa imagem negativa já não se encaixava no homem que ele conhecia.
– O Ikki não é assim, Dite. Tudo bem, ele pode ser um empresário esperto e persistente, mas isso não significa que ele seja mal. Eu tive a oportunidade de conhecê-lo melhor durante as últimas semanas e posso dizer que…
– Ah, eu vi muito bem que vocês resolveram se conhecer no sentido bíblico, isso você não precisa explicar! – provocou o loiro mais velho.
– Dite, eu sei que está preocupado comigo e até chateado com a minha escolha, mas eu preciso que confie em mim, eu sei muito bem o que estou fazendo. – o barman não estava tão certo assim de seus atos, mas diante das circunstâncias precisava tranquilizar seu tio.
– Confiar em você? Do mesmo jeito que confiei em você quando me disse que não tinha nada com o Gabe Carlson? – Afrodite encarou seu jovem sobrinho, cruzando os braços e com um ar satisfeito por seu argumento inesperado.
– Você não pode ressuscitar o assunto Gabe Carlson. É injusto!
– Eu sou seu tio! Praticamente o seu pai! Posso desenterrar a história que eu quiser, se for para provar que estou certo.
– Não, você não pode! Isso aconteceu há sete anos, Dite! Eu era praticamente uma criança!
– Bom, você não está agindo muito diferente de um garoto de dezesseis anos agora, está? Enfim, retomando meu ponto… – o sueco jogou os cabelos, ignorando a feição emburrada de Hyoga. – Quantas vezes eu te avisei a respeito do Gabe? Inúmeras! Quantas vezes você me escutou? Zero, nada, nem uma única vez! Resultado? Você perdeu a virgindade com um dos caras mais escrotos que já vi, um playboyzinho interesseiro e drogado que apostou com os amigos que transaria com você.
– Isso foi golpe baixo, Dite. – Hyoga suspirou; um misto de tristeza com resignação. Tristeza por ser lembrado da triste história e resignação por entender que teria que revelar toda a verdade ao tio. – É uma aposta. É apenas uma maldita aposta. – declarou visivelmente sem a menor vontade.
– O quê?
– Eu e Ikki fizemos uma aposta. Ele está interessado em mim e esse interesse não é recíproco. Estamos nos vendo há algumas semanas, eu analiso se ele seria um bom companheiro para mim e, ao término de um mês, se ainda não estiver apaixonado por ele, a vitória é minha.
Afrodite caiu na gargalhada.
– Que aposta ridícula é essa? O que ele ganha se você perder?
– Meu coração, eu acho. – respondeu bastante sem graça.
– E o que você ganha?
– Stonehenge.
O sueco não escondeu seu choque e se sentou na beirada da banheira, com a mão direita sobre o peito.
– A… Minha… Boate?
– Tecnicamente, ela pertence ao Ikki, mas… É, sim. – Hyoga abaixou a cabeça, envergonhado. Algo dentro dele não queria que tivesse contado ao seu tio; ele só não conseguia distinguir se era receio de ser repreendido por aceitar a aposta ou o surgimento de uma obrigação velada de sair vitorioso.
– Querido, você sabe que isso é arriscado e altamente reprovável, não sabe?
– Não me importo com o que os outros possam pensar de mim, meu único interesse nisso tudo é a boate. – retrucou de um modo automático, com aquele tom decorado de quem repetiu um discurso inúmeras vezes em sua mente.
Afrodite o analisou por um momento e Hyoga sentiu como se estivesse preso a um detector de mentiras, o que foi extremamente incômodo.
– Por que estava transando com ele? – o sueco não fez qualquer questão de meandros. – Isso também está incluído nessa aposta duvidosa?
– Tio, eu não quero falar disso. – Hyoga queria se desvencilhar de perguntas diretas para as quais ele não tinha resposta. Se ele mesmo estava em dúvida e qualquer coisa que dissesse fatalmente magoaria alguém, a melhor postura a assumir era simplesmente evitar questionamentos como esse, pensou.
– Você tem noção do quanto está sendo contraditório? Hyoga, você diz que só se interessa pela boate, mas eu te flagro transando com o Ikki… Eu só estou tentando encontrar um sentido nisso tudo.
Afrodite abaixou a tampa da privada e se sentou sobre ela, cruzando as pernas e olhando curiosamente para seu sobrinho. Ainda o analisava, talvez até mais do que antes; descobrir o que se passava na cabeça de Hyoga era sempre um desafio intrigante e, na maioria das vezes, sem sucesso.
Acuado, o barman pôs-se a caminhar pelo banheiro; precisava desviar aquele olhar inquisitório de si, pois não se sentia nem um pouco a vontade com ele. Não respondeu a pergunta de seu tio, sequer disse qualquer coisa.
– Hyoga, eu não acho essa aposta correta. Você deveria cancelá-la.
– Assinei um contrato e não posso rompê-lo. – retrucou o mais novo.
– E a única coisa que te mantém ligado ao Amamiya é esse contrato?
– Tio, eu realmente não quero falar sobre isso. Sim, eu estava transando com o Ikki e sim, eu aprecio a companhia dele, mas não tenho condições de dar as respostas que você espera. Não agora, pelo menos.
– Você não vê, não é?
– Não vejo o quê?
– Hyoga, você está se apaixonando. – Afrodite conhecia bem o sobrinho e não teve dúvidas de sua condição.
– Tio, eu quero a Stonehenge. – o barman foi mais enfático. – Eu tenho uma meta e pretendo cumpri-la, fui claro? Aquela boate voltará para as nossas mãos, pois não há como eu perder a maldita aposta, me entendeu? – ele não soube dizer de onde surgiu a raiva com que proferia essas palavras, mas continuou com a postura defensiva. – Então, se eu resolvo me divertir um pouco e aproveitar a companhia do Ikki, é um direito meu. Eu posso fazer isso porque vou cumprir a minha meta e mereço transar com um cara lindo e passar bons momentos com ele, já que me dispus a partir seu coração muito em breve.
– Pois muito bem, senhor Yukida, faça tudo como quiser. Entretanto, deixe-me esclarecer duas coisas: primeiro, eu não te pedi que aceitasse aposta alguma. Não aja como se eu estivesse te pressionando, porque eu não estou; segundo, saiba que desaprovo sua atitude. Não que eu tenha mudado de ideia com relação àquele homem lá fora, ainda o considero um lobo faminto usando porcamente a pele de um cordeiro, mas acho que a convivência com ele te influenciou de uma forma muito, muito ruim.
Satisfeito com as respostas conseguidas e com a mania de ter sempre a última palavra, Afrodite se levantou e recolheu uma vela, adiantando-se para a porta do banheiro.
– Você não quer a Stonehenge? – Hyoga sussurrou, surpreso por não ver a reação empolgada que imaginava que veria em seu tio.
– Quero, sim. Quero aquela boate mais do que tudo no mundo. Eu só não acho que você irá consegui-la.
O barman não soube se as palavras de seu tio eram uma constatação verídica, uma tentativa de usar psicologia reversa ou uma forma verbal de puni-lo pelo flagra; contudo, mesmo sem saber a real intenção com que foram proferidas, aquelas palavras ficaram ecoando em sua mente, até muito tempo depois que Afrodite o deixou sozinho no banheiro.
Hyoga só saiu de seu estado entorpecido quando seu tio gritou da sala, avisando que a eletricidade havia voltado. Ele apagou a vela e acendeu a luz, mas permaneceu ali mais um pouco. O loiro queria ganhar tempo, pois ainda não se sentia pronto para encarar os dois ocupantes da sala, dois homens com quem se importava – sim, ele se importava – e esperavam atitudes totalmente opostas dele.
Forçando neutralidade com uma atuação digna de prêmios, Hyoga retornou à sala e se sentou entre Ikki e seu tio, ignorando a conversa aparentemente tensa que acontecia entre eles.
– Interrompo algo importante? – perguntou, mesmo já sabendo que interrompia a conversa que seu tio agendou com Ikki antes de convocá-lo para o banheiro.
– Não, querido sobrinho. Ikki e eu estávamos colocando a conversa em dia.
– Amamiya, a conversa está muito interessante, mas me dê licença que eu vou tomar um banho, sim? Não aguento mais essa roupa molhada… – Afrodite se levantou do sofá, lançou uma piscadela para o sobrinho e, demonstrando um estranho bom humor, entrou no banheiro.
Dois minutos depois, a sala ainda estava em silêncio, mesmo com Ikki e Hyoga sentados lado a lado.
– Ikki, eu… – o loiro pensou em algo que pudesse dizer sem ter que prestar quaisquer esclarecimentos, mas foi surpreendido quando o moreno se ergueu subitamente.
– Eu vou embora.
– O quê? Por quê? Ainda está chovendo, Ikki, você deveria esperar aqui e… – Hyoga segurou o braço de seu chefe e estremeceu ao ver a feição séria e o olhar cortante que o moreno ostentava. – O que há?
– Falou sobre a aposta com Afrodite? – a pergunta foi feita num tom acusatório e, porque não, muito magoado. Hyoga ficou sem reação por alguns instantes e Ikki voltou a questioná-lo. – Você contou tudo a ele, não é?
– Não tive escolha.
Os olhares se cruzaram e então o barman pôde ver que algo estava muito errado.
– Eu entendo. Bom, é melhor eu ir. – Ikki retirou a mão de Hyoga de seu braço e seguiu para a porta.
– O que o Dite disse pra te deixar assim, Ikki? – o loiro seguiu o moreno, preocupado com o que poderia ter acontecido em sua ausência.
– Nada demais, ele só me mostrou o quanto toda essa situação é ridícula; o quanto eu estou sendo ridículo.
– O que quer dizer? Você não está sendo ridículo! E pode ao menos parar e olhar pra mim? Não vou deixar que saia nessa chuva e obviamente precisamos conversar sobre o que quer que meu tio tenha dito a você.
Sem obter uma resposta, Hyoga tomou a frente de Ikki e se posicionou entre o Amamiya e a saída. Suas mãos espalmaram o peito moreno enquanto seus olhos fitaram os dele em busca de uma resposta, que veio na forma de uma bufada e um soco na porta, ao lado de sua cabeça.
– Ikki, o que o meu tio disse a você?
– Não importa!
– Não quero que deixe a minha casa desse jeito.
– Até parece que você dá a mínima pra isso, Hyoga.
– Eu me importo, ok? Eu realmente me importo.
– Então por que não demonstra?
– Demonstrar?! Ikki, se o Dite não tivesse chegado, a essa altura estaríamos transando!
– Sim, estaríamos. Mas acontece que ele chegou e você sequer olhou pra mim depois disso.
– Ikki, o que aconteceu aqui não significa que eu esteja apaixonado, demonstra minha atração por você, é claro, mas não quer dizer que perdi a aposta ou que você possa cobrar algo de mim, porque eu…
– Não estou cobrando uma declaração de amor, Hyoga. Tampouco estou decretando um fim à nossa aposta, pois ela tem uma data certa para terminar e não é pra mim que você dirá se está apaixonado ou não.
– Então, o que você quer? – confuso, o barman continuou olhando fixamente nos olhos do moreno, sem saber exatamente o que pensar ou como controlar as batidas descompassadas de seu coração.
– Eu sou louco por você! – Ikki sussurrou, brincando com uma mecha dourada com carinho e olhando profundamente nos olhos do loiro. – Ouviu bem? Eu sou louco por você. – ele aproximou seu rosto e agora falava contra a orelha do trêmulo Hyoga. – Eu não sou o tipo de pessoa que admite essas coisas e não tenho a menor noção do que devo fazer a respeito, mas estou tentando. Eu realmente estou tentando, loiro, mesmo sabendo o quanto estou sendo ridículo ao praticamente mendigar o seu carinho e mesmo sabendo que você não se importa… É só que… Olha só, eu nunca senti por ninguém o que estou sentindo agora e realmente quero viver isso. Eu quero o que tivemos aqui hoje, Hyoga. Eu quero me deixar levar por essa sensação incrível que sinto quando estou com você e gostaria que fizesse o mesmo.
– Você devorou todas as páginas de um romance no café da manhã, não é? – o loiro o interrompeu, sorrindo.
– Junto com meia dúzia de filmes água com açúcar. – Ikki sorriu junto. – Nos dê uma chance. – pediu.
– Ikki…
– Só estou dizendo que quero que você se entregue e me dê o direito a uma disputa justa nesses dias que nos restam.
Hyoga nada respondeu, ficou encarando o homem diante de si por alguns segundos, ponderando seu pedido. Na verdade, o que Ikki lhe pedira não foi nada mais do que ele próprio havia declarado a Afrodite que faria, mas as palavras de seu tio ainda ecoavam em sua mente, como um aviso de que estava tomando o caminho errado.
– Eu ainda quero Stonehenge. – declarou, fechando os olhos e fugindo, mesmo que momentaneamente, daqueles olhos de um azul fulminante.
– Não estou pedindo que desista dela, não ainda. Só quero uma oportunidade para demonstrar o meu valor. No fim das contas, caberá a você decidir se eu valho ou não a pena, isso não muda.
Hyoga não descobriu o que Afrodite disse a Ikki, pois o moreno teve a decência de não dizer. Esse foi mais um fator a ser considerado, dentre tantos, pelo loiro. Neste momento, encurralado contra a porta e sendo obrigado a dar uma resposta, o barman pegou-se pensando nesse único fato, na hombridade de Ikki perante Afrodite; mesmo quando ele poderia fazer um pequeno show e jogar sobrinho contra tio, ele não fez. Pelo contrário, rebaixou-se novamente e mais uma vez pediu uma chance de um jeito adorável e irresistível.
E foi quando constatou isso que Hyoga se sentiu realmente mal. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele precisou de um esforço anormal para que não chorasse, pois naquele momento se viu um carrasco, um vilão implacável e maldoso, algo que ele não queria ser, mas não havia como fugir. De um jeito ou de outro, ele estava fadado a partir o coração de Ikki, não importava se dissesse um não agora ou negasse uma paixão diante de Shun.
Uma mão forte apertou sua cintura, enquanto a outra voltou a lhe acariciar os fios loiros. Ele gostava daquele toque, não podia negar. O contato daquelas mãos queimou sua pele e fez com que ofegasse de tanto desejo. Então ele abriu os olhos e se perdeu no olhar amoroso do Amamiya, tragado pelo azul belo e profundo. Finalmente arrebatado pelas sensações que o outro causava em seu corpo, Hyoga já não conseguia raciocinar com clareza. Em sua mente, todas as considerações deram lugar a um único pensamento: mesmo que fosse algo com data certa para acabar, ele não mais reprimiria o desejo de estar com Ikki.
Pensando assim, entrelaçou seus dedos com os fios curtos e negros, segurando a cabeça do moreno. Fechou novamente os olhos e puxou Ikki contra si, unindo seus lábios. Não se fez de rogado e logo invadiu com a língua a boca desejada, buscando e reconhecendo o maravilhoso sabor que havia provado há pouco tempo.
As mãos de Hyoga enlaçaram a cintura do moreno, quando Ikki espalmou as duas mãos ao lado de sua cabeça e posicionou uma das pernas entre as suas. O beijo prosseguiu quente e delicioso, tão especial e incrível quanto os outros que trocaram. A sintonia era inegável, seus movimentos eram harmoniosos como o de dois amantes de longa data e, de algum modo inexplicável, o toque mais simples parecia ser capaz de despertar uma tara incontrolável.
Seria essa a famosa paixão que Hyoga tanto ouvira falar? O tremor que subia por sua espinha a cada vez que Ikki o olhava daquele modo quase obsceno era paixão? O calor despertado em seu âmago com um simples toque das mãos grandes e firmes significava que estava apaixonado? O fato é que o loiro se assustava com o quanto perdia o controle nos braços do moreno que lhe tomava a boca num beijo voraz e indecente, cheio de palavras não ditas – na maioria impublicáveis – escondidas sob o tesão com que as línguas se exploravam.
– Ah, meu Deus! – murmurou um Hyoga descabelado e ofegante contra o pescoço de um Ikki em igual situação.
– Eu sei, loiro. – o moreno beijou a nuca do outro e riu. – Eu sei.
A porta do banheiro foi destrancada e eles se afastaram um pouco.
– É melhor eu ir, Hyoga. A chuva diminuiu bastante e você deve matar as saudades do seu tio. Podemos nos falar depois, o que acha? – Ikki tocou o queixo alvo e fez um carinho ali.
O loiro sorriu e assentiu, ainda entorpecido por seu estado elevado de excitação.
– Liga pra mim quando chegar a sua casa? É perigoso e…
– Eu ligo, não se preocupa.
– Ok.
– Então, boa noite, Yukida.
– Boa noite, chefe.
Eles ficaram se olhando, enquanto sorriam um para o outro.
– Ah, beijem logo! Eu nem estou olhando! – Afrodite gritou ao abrir o guarda roupa.
Aos risos, Ikki e Hyoga se beijaram mais uma vez, demoradamente.
– Boa noite, Afrodite! – o moreno se despediu, recebendo um aceno por detrás do guarda roupa como resposta.
Quando acompanhou Ikki até o lado de fora, Hyoga analisou a rua vazia e estranhou a falta de carros estacionados. Ou melhor, ele estranhou a falta do carro de seu tio, que apesar de trocar de veículo com frequência, sempre primava pelos modelos importados, conversíveis e de cores vivas, o que facilitava o reconhecimento. Afrodite era um amante de carros e imaginar que ele chegou ali num táxi, ou pior, num ônibus, era inimaginável.
– Está tudo bem? – Ikki lhe chamou a atenção, olhando-o com curiosidade.
– Está, sim. Desculpe.
– Boa noite.
– Boa noite, vá com cuidado.
Hyoga entrou em casa sacudindo os cabelos molhados da chuva fina que ainda caía. Ele sorriu e suspirou algumas vezes, recostado contra a porta recém trancada, numa atitude típica dos apaixonados nas novelas, o que provocou gargalhadas em Afrodite, já deitado na cama.
– Se você pudesse se ver agora! – provocou o loiro de cabelos cacheados.
Hyoga rapidamente se recompôs e foi até seu guarda roupa.
– Não precisa ficar emburrado, Oga, estar apaixonado não é motivo para vergonha. – Dite riu um pouco mais, enquanto acendia outro cigarro.
– Eu não estou apaixonado, estou me divertindo com um cara interessante. – o barman recolheu um short e uma camiseta na gaveta. – E não fume no meu quarto, por favor.
– Com exceção do banheiro, o seu apartamento não tem divisórias; é tudo uma questão de ponto de vista. Para mim, por exemplo, não estou fumando no seu quarto, mas na sua sala.
– Se não quiser fumar lá fora, na chuva, apague o cigarro Dite!
– Ai, que chatice! Está bem, eu apago, mas não precisa ficar emburrado desse jeito só porque eu estou dizendo uma verdade. Vocês se beijaram por mais de cinco minutos, só pra se despedirem. Isso deve ser um recorde em algum lugar...
– Cadê o seu carro? – Hyoga mudou de assunto, enquanto trocava sua roupa.
– Eu vendi. Você não vai tomar um banho?
– E qual carro você vai comprar agora?
– Eu não sei, Hyoga, ainda estou escolhendo. Você não vai tomar um banho?
Geralmente, nesse momento Afrodite começaria um discurso citando vários modelos caríssimos e as vantagens e desvantagens de cada um deles, o que fez com que sua pressa para mudar o assunto fosse ainda mais estranhada do que o fato dele estar sem carro, mas o barman resolveu deixar passar, ao menos por enquanto.
– Tomei banho mais cedo, não acho que preciso de outro agora. – Hyoga seguiu para o banheiro e foi seguido por seu tio. Ele escovou os dentes enquanto Dite, escorado no batente da porta, o encarava com um sorrisinho irritante no rosto. – O que foi?
– A última vez que eu dei uns malhos num cara e não tomei banho depois, foi porque queria sentir o cheiro dele em mim o máximo de tempo possível. – provocou aos risos o mais velho, recebendo uma careta em troca. – Hey, vem aqui! – abriu os braços, chamando Hyoga para um abraço saudoso. – Foi tanta confusão quando cheguei que acabei nem te cumprimentando direito.
– Senti saudades, Dite. – disse o loiro mais jovem, ao se abraçar com o tio.
– Eu também, querido!
Os dois partilharam a cama e conversaram por mais de uma hora antes que o sono viesse. Claro que Afrodite não perdeu a oportunidade de novamente zoar o sobrinho, quando este recebeu uma ligação de Ikki para avisar que havia chegado bem. Fora isso, o papo dos dois fluiu divertido, íntimo como entre pais e filhos. Hyoga falou sobre sua vida, Dite comentou como foi seu tour pela Europa e assim ficaram conversando até que o mais velho, cansado da viagem, acabou por adormecer.
Antes de também se entregar ao sono, o barman ouviu o bip de seu celular, anunciando uma nova mensagem.
“Acho que finalmente o destino está sendo generoso comigo. Obrigado pela noite inesquecível.
Ass.: Ikki Amamiya
PS.: Desculpe, é que ainda sobrou romantismo do café da manhã.”
O loiro sorriu, suspirou e teve que concordar com Dite, pois realmente estava agindo como um bobo apaixonado. A grande pergunta é: Até quando?
Continua…
Notas finais
Como vão? Espero que todos bem!
Então, capítulo novo pra vocês! O que acharam? Eu confesso que as atitudes do Hyoga têm me surpreendido bastante, pois ele meio que age por livre e espontânea vontade, sabe? Eu só escrevo! Hahahaha É, eu sei que é estranho, mas é bem verdade! Os dois fogem do meu controle.
E o que é o Ikki carregado no romantismo? Adoro! E o Dite todo poderoso? O que acharam?
Enfim, eu realmente espero que tenham gostado, viu?
Beijos, amores!
Mamba Negra
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