Orgulho e Preconceito
9 Escolhas
Notas iniciais
CAPÍTULO NOVE – ESCOLHAS
O ronco da Harley-Davidson rompeu o silêncio da madrugada, enquanto Ikki se aproximava da casa de Hyoga. O sol já apontava no horizonte, embora ainda não fosse capaz de iluminar as ruas desertas do pacato bairro onde o loiro vivia. Na garupa da motocicleta, o moreno trazia o homem de seus sonhos, agarrado em sua cintura com força, como se assim pudesse impedir a moto de andar ou o tempo de correr. As mãos firmes e estáticas sobre sua barriga – diferente das atrevidas nas vezes anteriores – traziam o conforto e a certeza de que o que viveram fora real e, o mais importante, especial para ambos.
Prestes a estacionar em frente ao galpão que servia de apartamento para o barman, Ikki desejou ter sido mais lento no trajeto, ou até mesmo ter feito uma volta a mais pelo quarteirão, apenas para manter as mãos do outro sobre si. Era impressionante como sentia necessidade daquele contato, quase como um vício ou algo bem parecido. Naquela noite, Hyoga se tornou mais do que qualquer outra pessoa já significou para ele. O loiro ganhou definitivamente seu coração, entrou em sua pele e o marcou de uma forma inexplicável.
Ikki se sentia entregue e, exatamente por isso, apavorado. Ele não gostava de se abrir tanto, não estava acostumado a isso. Contudo, não conseguia evitar quando estava com o loiro. O jovem que o abraçava agora tinha a estranha habilidade de acabar com todas as suas reservas, o que lhe era inédito; totalmente inédito. Uma mão de Hyoga subiu até o seu peito – parando sobre o coração – e ele sorriu ao pensar que o rapaz tinha até mesmo a capacidade de ler seus pensamentos.
Ele parou diante do antigo estúdio de Afrodite e esperou que o sobrinho deste descesse da motocicleta. Imitando o gesto do barman, Ikki também desceu e removeu o capacete, sacudindo com a mão as madeixas escuras e, sem querer, desalinhando-as um pouco mais.
– Obrigado pela carona. – a voz do loiro soou trêmula, apesar de sua feição impenetrável não dizer muita coisa. Hyoga deixou o capacete sobre a moto e se aproximou do moreno, prendendo uma mecha loira atrás da orelha.
– Não agradeça, era o mínimo que eu poderia fazer depois de uma madrugada tão...
– Tão...
– Tão perfeita que me faltam palavras para descrever. – gracejou o moreno, enquanto fazia uma carícia no rosto alvo do mais jovem.
Hyoga não sorriu, mas demonstrou com um beijo suave que partilhava da opinião do outro.
– Eu te convidaria para entrar, mas meu hóspede não apreciaria tanto a ideia. – o barman indicou o apartamento com a cabeça, após partirem o breve beijo.
– Afrodite ainda está dormindo aí?
– Provavelmente. Ele me ligou mais cedo, perguntando a que horas eu chegaria e se podia ficar me esperando aqui.
– Por quê?
Sem perder a expressão fechada que mantinha em seu rosto desde que descera da moto, Hyoga pesou suas palavras, antes de responder:
– Segundo ele, ainda não matou as saudades de mim.
– Ah, eu compreendo essa sensação perfeitamente! Ainda nem nos despedimos e já estou com saudades. – Ikki fez charme novamente, buscando os lábios do barman para um novo beijo. – Por que você não vem comigo? Posso te oferecer um café da manhã inesquecível, o que me diz?
– É uma oferta tentadora, chefe, mas... Não posso. – o loiro vacilou um pouco em suas palavras. – Eu não quero deixar o Dite me esperando, sem contar que preciso conversar com ele.
– Assunto sério?
– Não exatamente, é só... – o barman fez nova pausa. – São besteirinhas de família, você não precisa se preocupar. – sorriu timidamente.
– Ok. Então eu acho que vou deixar você dormir, deve estar muito cansado e...
Ikki não terminou sua fala porque Hyoga atacou sua boca, enquanto agarrava sua cintura e colava seus corpos. Ele não entendeu absolutamente nada da atitude do loiro, porém jamais reclamaria ao ser surpreendido com algo tão gostoso. Assim, retribuiu o beijo, segurando o rosto do outro e tomando com gosto o que lhe era oferecido de bom grado.
Separaram-se minutos depois, ofegantes e excitados, os lábios molhados do beijo indecente. A noite perfeita ainda não perdera o encanto e Hyoga se sentiu ainda mais tentado a aceitar o convite feito pelo dono da Stonehenge. Mas o loiro não podia e sabia muito bem disso. Em meio a troca de olhares cheios de tesão e carinho, certa tensão quase imperceptível pairava no ar, alimentada pelas incertezas que os dois homens possuíam.
Pesaroso, Ikki não parava de pensar no dossiê. Ele sabia que precisava revelar a existência do documento de que tanto se envergonhava. Deveria contar a verdade ao loiro, antes que ele soubesse de um modo muito mais drástico e irremediável. Contudo, o Amamiya não era nenhuma criança e sabia muito bem que não importava a forma como Hyoga soubesse, pois em qualquer situação a sua reação não seria das melhores; era impossível que fosse.
Certo de que tudo estaria perdido quando dissesse algo, Ikki esperou. Entre a covardia de omitir uma falha e a insensatez de estragar uma noite linda, preferiu ser um covarde apaixonado e realizado.
Hyoga não chegou a perceber a hesitação do moreno, pois a atribuía somente a si. Entre a manhã com Afrodite e a noite com Ikki, ele viveu uma tarde turbulenta, pontuada por uma decisão impulsiva. Dite foi sua única família desde muito cedo, a única pessoa com quem realmente podia contar. A pequena discussão que tiveram naquela manhã fez com que o barman percebesse que, antes de qualquer outra coisa, deveria ser leal àquele que tanto se sacrificou para criá-lo.
Sendo assim, sua decisão já estava tomada. Já não se tratava apenas de orgulho, mas sim de lealdade. Ele escolheria Stonehenge, simplesmente porque seria a coisa certa a se fazer; aquela boate pertencia ao seu tio e se o loiro tinha a oportunidade de devolvê-la a Afrodite, deveria fazê-lo sem hesitar.
Não por coincidência, ver-se obrigado a preterir Ikki fez com que Hyoga finalmente assumisse a intensidade de seus sentimentos. Ele não saiu por aí pregando cartazes em que declarava seu amor em letras garrafais, tampouco pendurou uma placa em seu pescoço com o nome de seu chefe ladeado por um coração. No banheiro privativo da boate, enquanto lavava as mãos e encarava sua imagem refletida no espelho, o barman admitiu sua derrota na aposta. Ele não sabia quando havia acontecido, não conseguia se lembrar de um momento específico em que poderia ter se deixado levar, mas o fato é que havia se apaixonado.
Sozinho no banheiro, o loiro admitiu sentir muito mais do que atração. Alto e claro, ele disse ao seu eu invertido: “Eu estou apaixonado por Ikki Amamiya”. Provavelmente, essa seria a única vez que diria tal coisa; por amor ao seu tio, o barman se certificaria de que a confissão ecoada pelos azulejos do recinto úmido não fosse ouvida novamente.
Sua decisão já estava tomada. Contudo, ele e Ikki ainda possuíam alguns dias até o fim da aposta. Talvez fosse cruel de sua parte, ou até mesmo um ato de extremo egoísmo, mas o loiro quis viver o sentimento recém-desperto em seu peito, mesmo que por pouco tempo. Foi essa a razão de tanta entrega no escritório do Amamiya. Foi por isso que ele se abandonou nos braços fortes do moreno e se permitiu viver a perfeição de quando estavam juntos.
– Terra chamando Hyoga! – Ikki brincou com o distraído loiro.
– Sinto muito, eu... – sorriu de modo forçado. – Acho que estou com sono.
– Bom, então é agora que eu me retiro e deixo você descansar, certo? Eu te vejo na boate amanhã? Ou melhor, hoje! – o loiro assentiu e o Amamiya acariciou novamente a face alva, selando a despedida com um beijo plácido.
O coração de Hyoga batia rápido, enquanto uma sensação angustiante se apoderava de seu peito. Uma parte sua – a mais sensível, certamente – não queria que aquela noite tivesse fim. Ele poderia beijar e tocar Ikki por horas a fio, sem se cansar, reclamar ou se entediar. Na verdade, o loiro apreciaria caso isso fosse, de fato, possível.
Pensando que jamais obteria o suficiente daquele homem, Hyoga intensificou o contato dos lábios, aprofundando o beijo. Seu chefe correspondeu à altura, como sempre fazia, explorando sua boca com habilidade e o levando ao paraíso com isso.
Mais uma vez, exatamente como dois namoradinhos apaixonados, eles protagonizavam uma despedida demorada no portão, regada a beijos longos, abraços apertados, suspiros e longas trocas de olhares, como se não fossem se encontrar em pouco tempo.
Quando finalmente entrou em casa, vários minutos e beijos depois, Hyoga sentia muitas coisas, mas dentre elas não estava o menor resquício do sono que havia alegado a Ikki. Chateado, extasiado, enraivecido, maravilhado, envergonhado, apaixonado... Com essa abundância de sensações e pensamentos, talvez não fosse esperado que uma ideia genial surgisse em sua mente, mas foi exatamente o que aconteceu.
Porque eles precisavam da Stonehenge? Porque não erguer outra boate tão boa quanto a que Ikki possuía? Se ele e seu tio reunissem algum capital – o que não era difícil, com a quantidade de bens que Afrodite tinha – e trabalhassem juntos, poderiam fazer isso. Quem sabe, ao saber da boa causa pela qual ele estaria lutando, o próprio Amamiya não lhe oferecesse dicas de como administrar o negócio, mesmo sendo um amplo concorrente de sua querida boate?
Com esses pensamentos borbulhando em sua cabeça, Hyoga entrou em sua casa e encontrou seu tio dormindo pesadamente. Segurando-se para manter as novidades para si por pelo menos algumas horas, até que o sueco acordasse, o barman deitou-se ao lado dele e, com algum custo, adormeceu.
No dia seguinte, Hyoga novamente acordou com o cheiro das deliciosas panquecas de seu tio. “ótimo, ele está de bom humor”, pensou. Depois de fazer sua higiene matinal, seguiu para a cozinha, onde encontrou Dite preparando sua iguaria.
– Bom dia, tio. – aproximou-se do mais velho e beijou-lhe o rosto.
– Bom dia. A noite foi boa? – a pergunta do sueco foi carregada de malícia. – Oh, desculpe, estou sendo rude? Provavelmente você prefere me poupar dos detalhes sórdidos, certo?
Hyoga sorriu e deixou um suspiro escapar, enquanto pegava um pouco de café da cafeteira.
– Sim, eu tive uma noite incrível e sim, eu te pouparei dos detalhes sórdidos. – sentou-se na bancada responsável por separar a sala de estar da cozinha. – Podemos conversar, Dite?
– Conversar sobre o quê?
O loiro mais jovem soprou seu café e sorveu vários goles da bebida.
– Eu não sei bem por onde começar. Há tanta coisa que quero falar... Tenho medo de me atropelar e não me fazer entender como quero.
– Desembucha, Hyoga! – Afrodite apagou o fogo de suas panquecas e parou diante do sobrinho, no outro lado da bancada.
– Eu tive uma ideia, Dite. Pode soar louca a princípio e provavelmente é muito arriscada, mas também é genial! – o barman gesticulava e não escondia a empolgação em seu tom de voz. – O que você acha de esquecermos a Stonehenge e começarmos outra boate do zero?
– O quê?
– Esquecer Stonehenge e nos concentrarmos em abrir um negócio nosso; meu e seu!
Afrodite fez menção de falar algo, mas Hyoga o interrompeu.
– Eu já pensei em tudo, tio. Se nós vendêssemos um ou dois dos seus apartamentos, teríamos capital suficiente para isso. Você poderia ficar morando aqui comigo por um tempo, até que recuperasse o investimento. Eu não teria qualquer dificuldade em pedir algumas dicas de administração para o Ikki e tenho certeza de que ele me ajudaria nisso sem problemas... Mais do que tomar a Stonehenge de volta, nós poderíamos abrir um clube que fizesse concorrência direta à sua antiga boate. Você não se sentiria bem com isso?
Dite observou seu sobrinho com um ar estranho. O sueco lambeu os lábios e os crispou, sem demonstrar se estava prestes a ter um ataque de fúria ou a ponto de abrir um sorriso desconcertante.
– Tio?
– Por que o Ikki te ajudaria a administrar um concorrente direto dele? – perguntou com seriedade.
– O Ikki tem vários investimentos, Dite. Stonehenge é sua menina dos olhos, mas nem é sua principal fonte de faturamento, sabia?
– Mesmo assim, o que o Amamiya ganha com isso?
– Dite...
– Do que isso se trata, Hyoga? Seja sincero, desta vez. Corte a parte em que você tenta me vender uma ideia dessas como um negócio da China, está bem? Eu só quero saber o que te levou a ter tal ideia e em que tudo isso seria vantajoso para o Amamiya.
O loiro mais jovem mordeu o lábio inferior.
– Ele ganha a mim, Dite. Se nós esquecermos Stonehenge e nos concentrarmos em investir num novo negócio, eu me sentirei livre da obrigação de te devolver sua boate, porque finalmente você estaria superando tudo o que aconteceu e partindo para outra. – Hyoga viu um sorriso irônico nascer nos lábios de seu tio, mas não se intimidou. – Uma vez que eu esteja livre dessa obrigação, eu não hesitarei em escolher o Ikki. Eu... – engoliu em seco. – Eu perdi a aposta, Dite. Estou apaixonado por Ikki Amamiya. – confessou, mesmo tendo dito que não o faria novamente.
A revelação provocou uma intensa gargalhada no sueco, que por muitos segundos não fez absolutamente nada além de rir.
– Não posso dizer que não vi isso chegando! – o mais velho continuava rindo, embora seus olhos não demonstrassem tanto divertimento. – Quero dizer, você mal disfarçava o quanto estava se envolvendo, como eu poderia esperar que você fosse profissional o suficiente para ganhar a aposta sem cair na lábia daquele homem?
– Não é uma questão de profissionalismo, Dite. Eu tentei! Tentei de verdade, mas foi muito mais forte do que eu poderia sonhar em controlar, eu...
– Quer saber de uma coisa, Alexei? Em momento algum eu te pedi a Stonehenge. Eu não coloquei essa obrigação em seus ombros, então você não tem que se sacrificar por mim, ok? Você quer transar com o Amamiya? Transe com o Amamiya! Aproveite bastante enquanto ele não enjoa de seu novo brinquedo que, caso não tenha ficado claro, é você.
– Eu não sou apenas um brinquedo para ele! – o barman soou ofendido.
– Sério? Quem te disse isso? Ele falou que o que vocês dois têm é especial e você simplesmente acreditou? Meu Deus, Hyoga! Eu te criei para ser mais esperto do que isso!
– Não, Dite! O Ikki pode até ter dito algumas coisas, mas não foi apenas isso que me convenceu. Eu sei que ele se sente da mesma forma que eu.
– Você disse isso de todos os seus namorados e errou em todas as análises.
– Sim, eu disse isso de todos os outros e errei em todas as vezes, porque acreditei apenas em palavras vãs. Desta vez é diferente. Desta vez eu senti, tio; eu me senti amado eu... Olha, você me perguntou como foi a minha noite, não é? Pois bem, ela foi incrível. Foi inexplicável, Dite! Foi coisa de alma, do tipo que não dá pra ignorar, você compreende? Conexão como a que eu vivi não se escolhe, não se forja e muito menos se finge.
– Sendo assim, não considere que eu estou no caminho de vocês, Hyoga, porque eu não estou. Apenas me ignore, está bem? – Afrodite ergueu as mãos em sinal de rendição e ameaçou se afastar, mas seu sobrinho agarrou seu braço e o manteve próximo.
– Você é o meu pai. Eu te devo demais e te amo demais para te ignorar. Você possui minha gratidão e minha lealdade eterna, Dite! Eu sacrificaria qualquer coisa para te ver bem. Por isso, me ajudaria muito se você simplesmente aceitasse a minha ideia, porque eu gosto pra caramba daquele cara e se eu puder ter vocês dois na minha vida, eu... Seria maravilhoso, sabe?
O sueco tocou carinhosamente o rosto de seu sobrinho, sorrindo de modo triste.
– Eu gostaria de poder fazer isso, querido. Neste exato momento, mais do que qualquer outra coisa no mundo, eu gostaria de poder aceitar a sua ideia e te fazer feliz, mas eu não posso. Perdoe-me, mas eu não posso.
Hyoga ainda tentava processar o que acabara de ouvir, quando Afrodite deixou o apartamento. Por não ver o sueco portando sua mala ao sair, o barman pôde constatar que a saída não era definitiva, provavelmente Dite queria apenas espairecer um pouco. Feliz por ter a oportunidade de voltar a tratar do assunto mais tarde, quando os dois estivessem de cabeça fria, o Yukida terminou seu café, limpou a cozinha, se arrumou e, pouco tempo depois, partiu para sua corrida matinal.
oOo
Ikki não parava de encarar a volumosa pasta cinza que segurava. O dossiê de Hyoga agora representava uma ameaça tão grande que ele quase podia sentir o documento queimando a palma de suas mãos.
Apesar da madrugada deliciosa e cansativa, o Amamiya dormiu pouco. A ideia de que perderia Hyoga por conta do maldito dossiê o atormentava, impedindo-o de esvaziar sua mente e se entregar ao cansaço. Ele provavelmente deveria queimar essa coisa e esquecer que um dia ela existiu, mas também não era grande fã da ideia de omitir algo assim do homem por quem estava apaixonado. O barman merecia saber a verdade, não importava se isso custaria um provável relacionamento entre eles.
Sem contar que, mesmo queimando o documento, ainda restava Afrodite. Sim, o tio de Hyoga e seu amplo conhecimento de certos hábitos corporativos de Ikki renderam ao moreno uma tremenda dor de cabeça, possivelmente a verdadeira razão de sua falta de sono. Olhando fixamente para o restante do líquido âmbar em seu copo de uísque, Ikki lembrou-se da batalha verbal travada com Afrodite, na noite em que o sueco apareceu de surpresa na casa de Hyoga.
– Então, o Hyoga é a conquista da vez, Amamiya? – Afrodite sentou-se ao seu lado no sofá, rindo da feição preocupada de Ikki.
– Não, ele não é a conquista da vez. Minhas intenções são as melhores possíveis. Meus sentimentos são sinceros.
– Boas intenções e sentimentos sinceros não combinam nada com você, Ikki. Se bem que, pensando melhor, fazer uma aposta tão desesperada também não é a melhor das suas ideias. O que houve? Perdeu o jeito pra negócios, é? – Dite acendeu um novo cigarro e riu, divertindo-se ainda mais com a expressão do outro ao descobrir que ele sabia da tal aposta.
– Hyoga não é um negócio, Afrodite. Não se trata da aposta. Como eu já disse, meus sentimentos são sinceros. – Ikki se mantinha o mais conciso possível, pois se lembrava muito bem dos seus embates anteriores com o tio de Hyoga e não queria revivê-los nem um pouco.
– Então, quando você diz que seus sentimentos são sinceros e que não se trata da aposta, está dizendo que já aceitou a ideia de ser publicamente humilhado? – Afrodite cruzou as pernas e tragou seu cigarro com um trejeito exagerado, enquanto via a confusão se fazer notar no semblante do moreno ao seu lado. – Eu criei aquele garoto, Amamiya. Eu conheço o Hyoga como a palma da minha mão e posso afirmar, sem dúvida alguma, que ele escolherá a boate. Stonehenge voltará a ser minha e, de quebra, você será rejeitado publicamente por aquele a quem dedica “sentimentos sinceros”. – Dite disse as últimas palavras em tom de zombaria. – Eu não poderia maquinar uma vingança melhor, acredita? – o sueco riu.
– O Hyoga gosta de mim! – Ikki soou irritado e claramente ofendido. – Ele está gostando cada vez mais de mim e posso afirmar que está se apaixonando. Você não sabe o que diz, Afrodite! Pelo visto, não conhece seu sobrinho tão bem assim...
– Sim, ele está se apaixonando por você; o que é até compreensível, pois nós dois sabemos que você não economiza armas quando cisma que quer algo. Mas é aí que está a beleza disso tudo, Amamiya! Ele se apaixonará por você e fará com que viva a expectativa da vitória, mas a verdade é que não importa o que ele sente ou venha a sentir por você, a lealdade que Hyoga tem por mim é muito maior do que qualquer outra coisa. Ele escolherá a boate, Ikki, e não há nada que você possa fazer quanto a isso.
– Chantagem emocional só fará com que ele se afaste mais de você, Hyoga não curte essas coisas.
Afrodite riu.
– Eu sei muito bem que ele não gosta de chantagem emocional e não se preocupe, eu não preciso de nada disso. Não pedi a ele que ganhe a aposta e nem o farei. Eu confio no amor que o meu sobrinho sente por mim, confio plenamente em sua lealdade. Não há necessidade de usar artifícios tão ridículos como chantagem. Além do mais, caso eu precise de um incentivo maior para que Hyoga te dispense, tenho algo muito melhor do que chantagem. O que você acha que ele diria se soubesse como você utiliza os serviços do seu detetive particular?
Ikki ficou lívido e sem fala.
– Foi o que pensei. – Afrodite sorriu vitoriosamente.
– Eu apenas queria conhecer melhor o seu sobrinho. O Hyoga vai entender que minhas intenções com aquele dossiê não eram tão ruins quanto parecem.
Foi a vez de Afrodite se surpreender.
– Do que está falando? Você... Eu estava me referindo à investigação que você fez para me encurralar e não me dar qualquer alternativa que não fosse vender minha boate para o Grupo Fênix. Você... Quer dizer que você investigou o Hyoga também?Mandou inclusive que fizessem um dossiê? Ikki Amamiya, você está me saindo melhor do que a encomenda! – Afrodite gargalhou.
A eletricidade voltou e o sueco gritou o sobrinho, avisando-o disso.
– Afrodite, não diga nada a ele ou eu vou...
– Fique tranquilo, eu não direi. Não agora. Será o nosso segredinho, pelo menos até o momento em que eu não tiver qualquer carta na manga e, infelizmente, seja obrigado a abrir os olhos do meu sobrinho quanto ao homem desprezível que você é.
O sorriso cínico com que Afrodite disse a última frase enfureceu Ikki, mas ele não pôde retrucar absolutamente nada, pois foi exatamente nesse momento que Hyoga voltou para a sala e se sentou entre eles.
Desde a conversa com Afrodite, o Amamiya vinha pensando na melhor forma de contar ao barman sobre o dossiê, mas não teve muita sorte nisso. Na noite anterior, quando foi surpreendido por Hyoga em seu escritório, o dono da Stonehenge estava relendo o documento e constatando que as informações contidas ali não eram nada se comparadas com o que ele havia descoberto do loiro apenas o observando.
Encomendar aquele dossiê não foi nada mais do que uma atitude desesperada. Infelizmente, não importava o quanto se arrependia agora, sua decisão impensada lhe traria uma consequência terrível.
Massageando sua têmpora e só então se dando conta de que sentia uma incômoda dor de cabeça, Ikki guardou a pasta cinza em sua mochila cargo e se deitou no sofá, fechando os olhos para evitar os raios de sol que adentravam as janelas. O empresário acabou por pegar no sono, mas não dormiu mais que uma hora, pois foi acordado quando seu telefone soou estridente na mesinha de centro da sala de estar.
– Alô?! – atendeu sem antes ver quem o chamava.
– Oi, chefe! – a voz de Hyoga soou do outro lado da linha, despertando-o imediatamente.
– Loiro! Oi, como você está?
– Eu estou ótimo! E você? Está tudo bem?
– Tirando o fato de quase cair do sofá com a sua ligação, está tudo bem, sim! – Ikki abriu um grande sorriso, feliz por estar falando com Hyoga tão pouco tempo depois de se despedirem no portão do loiro.
– Oh, estou parecendo um “stalker”, não é? – o barman riu. – Desculpe, precisava te pedir um favor e nem pensei que isso poderia parecer grudento demais.
– Não se desculpe. De todo modo, eu fiquei feliz em saber que você é do tipo que liga no dia seguinte! – o Amamiya gracejou, esquecendo-se momentaneamente de sua dor de cabeça e, principalmente, a razão dela.
– Foi uma noite incrível. Noites incríveis merecem ligações no dia seguinte. – mesmo por telefone era possível perceber, pela voz risonha do loiro, que ele sorria do outro lado da linha.
– Mas de que favor você precisa?
– Seria pedir muito se eu dissesse que preciso de uma folga hoje à noite?
– Aconteceu alguma coisa?
– Não, eu só preciso de mais tempo para tratar daquele assunto com o Dite. – explicou o loiro.
– Eu posso ajudar em algo mais, além de te dar folga?
– Não, Ikki. Algum tempo livre é tudo de que preciso. Conheço bem o meu tio e quando ele precisa ser convencido de algo, é necessário muita paciência e tempo. Pensei em convidar o Dite para jantar, mas como não tenho tanta disponibilidade assim, precisei apelar para o meu bondoso chefe! – o barman riu.
– Bondoso? Gostei disso! Você acaba de ganhar a sua folga, loiro. Espero que consiga convencer o seu tio, mesmo eu não sabendo do que se trata.
– Obrigado, Ikki. E não é nada demais, é apenas uma coisa de família, não precisa se preocupar.
– De qualquer forma, boa sorte!
– Obrigado! A gente se vê amanhã?
– Claro!
– Ok, então! Beijo!
– Beijo!
Ikki desligou o telefone pensando no que poderia estar errado na relação entre sobrinho e tio. Provavelmente tinha a ver com ele, do contrário Hyoga diria sem problemas, certo? Será que o loiro estava se rendendo à paixão e Afrodite se negava a aceitar isso? Se assim fosse, o Amamiya precisava correr, pois não haveria muito tempo para revelar a verdade por si mesmo ao barman.
oOo
Hyoga olhou novamente seu relógio de pulso, no momento em que os retardatários do turno da noite começaram a adentrar a faculdade. Estava aguardando ali há um bom tempo, mas nada de seu tio chegar. A reserva que havia feito para que jantassem juntos ainda estava longe de vencer, mas o loiro já se perguntava se não teria sido melhor esperar por Afrodite no restaurante, onde poderia ter se sentado e se servido de alguns aperitivos até que o sueco resolvesse dar o ar da graça.
O convite para um jantar foi encarado com muita alegria por Dite, embora tenha ficado implícito que Hyoga o fizera apenas para conversar melhor sobre Ikki, Stonehenge e suas obrigações familiares. Mesmo o sueco tendo deixado claro que não havia qualquer necessidade de sacrifícios por ele, o barman simplesmente não conseguia se desligar da ideia de que era sua responsabilidade dar ao tio a boate de sucesso com a qual tanto sonhou.
A displicência do sueco com o assunto ficou evidente em seu atraso de mais de uma hora, coisa que Hyoga jamais havia presenciado. Afrodite é o tipo de pessoa que não admite desprezo pela pontualidade e vê-lo se atrasar dessa forma era, no mínimo, preocupante.
Felizmente, a preocupação do jovem para com seu tio se mostrou desnecessária quando, cerca de dez minutos depois, o sueco acenou para ele de dentro de um táxi. Os dois seguiram para um restaurante próximo dali, onde o loiro mais jovem havia feito reservas.
Mal chegaram ao local e Hyoga sentiu seu corpo inteiro gelar. A caminho de sua mesa, ao passar pelo bar, o loiro viu-se frente a frente com seu ex-namorado Henry. Ficou estático por alguns instantes e foi Afrodite quem tomou a iniciativa e cumprimentou o rapaz com um caloroso abraço que, é claro, levantou imediatamente as suspeitas do jovem Yukida.
Quando seu tio convidou Henry para jantar com eles, Hyoga teve certeza: Dite queria desesperadamente lançá-lo nos braços de outro homem, sem se importar se o escolhido era merecedor ou não de seu sobrinho.
– Então, Hyoga. Como tem passado esses dias? – já acomodados na mesa reservada, o loiro ouviu seu ex questioná-lo jovialmente, enquanto corria os olhos pelo menu do restaurante.
– Eu estou bem, obrigado. – limitou-se a dizer.
– Está tudo bem? Parece um pouco irritado. – Henry trocou um rápido olhar com Afrodite, mas essa busca por apoio não passou despercebida pelo loiro mais jovem.
Ignorando a pergunta do homem sentado ao seu lado, Hyoga dirigiu-se ao tio:
– Afrodite, eu preciso tratar de um assunto muito sério com você!
– Já tratamos desse assunto pela manhã, Alexei. – o sueco também o chamou pelo nome, usando o mesmo tom irritado que o barman dirigiu a ele. – E eu agradeceria se você pudesse demonstrar ao Henry os bons modos que venho te ensinando há dezenove anos.
– Bons modos? Diga-me uma coisa: planejar armadilhas estava entre esses ensinamentos? Eu não me lembro de ter assistido essa lição. – Hyoga riu ironicamente. – E eu definitivamente gostaria de ter assistido uma lição tão... – olhou para Henry. – Tão comprovadamente perspicaz.
– Hyoga, o seu tio me contou sobre a aposta e sobre suas atitudes recentes. Fui eu quem me disponibilizei a vir até aqui para ajudá-lo a trazer a razão de volta a você. Não faça isso com ele, pois só estamos tentando te proteger. – Henry tentou tocar a mão do loiro mais jovem, mas não lhe foi permitido fazê-lo.
– O que aconteceria depois, Dite? – o barman ignorou o ex-namorado mais uma vez. – Você reclamaria de dor de cabeça e me deixaria aqui com o Henry? Em nome dos bons modos, eu devo ficar aqui e permitir que o meu ex-namorado dê em cima de mim a noite toda, mesmo quando eu já não sinto absolutamente nada por ele? Caramba! É tão difícil aceitar que o Ikki é, sim, um cara incrível? Poxa, tudo bem que ele é um empresário poderoso e muitas vezes precisa ser implacável, mas ele só está jogando o jogo, isso faz parte desse mundo e você sabe muito bem disso, tio. O Ikki não se alimenta de criancinhas, nem possui um calabouço onde ele prende jovens indefesos. Ele é um cara decente, é do bem e eu não preciso ser protegido dele.
– Hyoga, eu queria apenas expandir seus horizontes. – Afrodite falou como se não desse importância alguma à discussão, o que não era verdade.
– Isso não é expandir meus horizontes, Dite. Isso é me jogar nos braços do primeiro que surge na sua mente, apenas porque você não pode suportar a ideia de me ver feliz com alguém que você cismou que odeia. Isso é um golpe baixo e feito por puro desespero. – seu ex-namorado muxuxou ao seu lado e Hyoga se virou para ele. – Aliás, Henry, não que eu queira te ofender, até porque o perdoei por seus erros, mas você não acha que é muita cara de pau da sua parte dizer que está fazendo parte de um conluio para me proteger? Honestamente, eu gostaria é que alguém tivesse me protegido de você. – o barman se levantou, encarando seu tio. – Agora, se me dão licença, eu vou embora. Perdi completamente a fome.
Antes que se afastasse por completo da mesa, Hyoga ouviu Afrodite dizer em alto e bom tom:
– Ele não é quem você pensa. Ikki Amamiya usa os outros a seu bel prazer, faz o que bem entende e gosta de controlar a vida alheia como se fosse um Deus. Nunca se perguntou como ele sabe o que dizer e como agir durante todo o tempo? Acha mesmo que o irmão dele é um assessor tão bom assim? Pergunte a ele como sabia de todos os meus planos para salvar a minha boate. Pergunte ao Amamiya como ele sabia tudo de mim, antes mesmo de me conhecer. Se ele for honesto com você, saberá que toda a impressionante figura de Ikki Amamiya não passa de um truque barato!
Hyoga ouviu seu tio, mas, irritado como estava, não deu grande importância ao que lhe foi dito. Tomado pela raiva, o barman saiu do restaurante caminhando a esmo, sem pensar muito em seu lugar de destino. Provavelmente, ele deveria ir para casa, esperar por Afrodite e resolver tudo, mas, no momento, não tinha a menor vontade de fazer isso.
Ele parou um táxi e, sem pensar muito, passou ao motorista o primeiro endereço que lhe veio à mente. Quando se deu conta, estava parado à porta frontal da Stonehenge, considerando se deveria entrar ou não.
– Se bem me lembro, eu te dei folga hoje, Yukida. – a voz de Ikki soou divertida atrás dele e, quando se virou, deparou-se com o belo sorriso do moreno.
– Oi. – num primeiro momento, pensou em beijar seu chefe, mas, quando se lembrou de que estavam na porta da boate, cogitou a ideia de um abraço e, por fim, colocou as mãos nos bolsos da calça, um tanto sem jeito.
– Oi. – Ikki adiantou-se para o loiro e, sem sequer olhar a sua volta, cumprimentou-o com um rápido beijo nos lábios. – Aconteceu alguma coisa? O Afrodite não topou o jantar?
– O que te faz pensar isso?
– Eu sei quando você não está legal, Hyoga. – sorriu. – Você está mordendo o canto da boca; costuma fazer isso nos momentos em que está muito tenso, acho que nem percebe.
– Certo. Quer dizer então que você sabe o significado de cada uma das minhas manias? – o barman riu de forma contida.
– Eu as tenho mapeadas bem aqui. – o empresário tocou a própria têmpora. – Então, quer conversar sobre o que houve? Ou prefere que eu te leve para casa?
– Não precisa ter tanto trabalho, Ikki. Já que estou aqui, posso muito bem deixar de lado a folga que você me deu. – era uma verdadeira tentação estar ao lado do Amamiya, principalmente quando sua briga com Afrodite permitia, mesmo que temporariamente, que ele agisse como um tolo apaixonado.
– Nada disso; folga dada não pode ser devolvida. – o moreno riu. – Por que não entra e conversamos um pouco?
– Não sei se é uma boa ideia, os funcionários podem...
– Pare de se importar com isso, está bem? Os funcionários não têm absolutamente nada a ver com nossa vida particular.
– Eu sei, mas, mesmo assim, acho que deveríamos... Eu não sei, eu... – o loiro fechou os olhos e passou as mãos pelos cabelos, tentando controlar sua respiração. – Houve um jantar, ou quase isso, mas não foi... Eu...
– Hey, venha aqui! – Ikki enlaçou sua cintura e o puxou para seus braços, envolvendo-o num abraço apertado. – Tudo ficará bem. Não importa o caminho que as coisas sigam, pois, no final das contas, você ficará bem...
Hyoga se permitiu abraçar e acabou abraçando de volta, enfiando seus braços dentro do paletó escuro e recostando sua cabeça no ombro do moreno.
– Você se esforça demais. – o Amamiya continuou o confortando. – Não precisa fazer isso o tempo todo, sabe? Se você parar por um momento, se der uma pequena folga a si mesmo, se sentirá forte o suficiente para enfrentar o que quer que precise enfrentar. Existem problemas que não podem ser resolvidos de imediato, Hyoga, eles só necessitam de certa dose de paciência.
– Eu estou cansado.
– Eu sei. – Ikki beijou a cabeleira dourada. – Quer que eu te leve para casa?
– Na verdade, eu queria ficar aqui com você. Posso? – o loiro ergueu a cabeça e encarou o olhar amoroso do moreno.
– Ok, eis o que faremos: Nós vamos subir para o escritório, eu vou ligar para o meu irmão e vou pedir que ele tome conta da boate pra mim. Esperaremos por ele lá e, assim que ele chegar, tiraremos uma folga juntos. O que acha?
– Acho perfeito!
Os dois subiram juntos, seus corpos tão próximos um do outro que, por vezes, suas mãos se tocavam. Aos poucos funcionários que já haviam chegado, Ikki lançava acenos breves como cumprimento, tendo seu gesto repetido por Hyoga. Talvez alguém tenha percebido um clima entre eles, já que não se esforçavam tanto para disfarçar, mas não se importaram com essa possibilidade.
No escritório, Ikki ligou para Shun e conseguiu o que queria sem muito esforço. Enquanto Hyoga se sentava na poltrona e o observava fazer a ligação, o moreno passava algumas coordenadas básicas ao irmão.
– E então? – o loiro perguntou quando Ikki encerrou a ligação.
– Ele e o namorado chegam aqui em vinte minutos.
– Ótimo.
Antes de se sentar ao lado do barman, Ikki abriu um grande compartimento de sua mesa e de lá retirou uma garrafa de uísque e um copo.
– Pode me dar um pouco também? – Hyoga pediu.
Estranhando o pedido, o Amamiya pegou outro copo e serviu o loiro.
– Nossa, o jantar foi tão ruim assim? – o moreno questionou e, ao ver o olhar confuso que recebeu do outro, explicou: – Pensei que não gostasse de uísque.
– Não gosto, mas preciso desesperadamente beber algo.
– Devo colocar gelo?
– Bastante, por favor. – Hyoga riu de si mesmo.
– Ok.
Quando Ikki finalmente se sentou ao lado do loiro, este imediatamente jogou as pernas sobre as suas, enquanto esperava o gelo derreter um pouco para só então tomar o uísque.
– Quer que eu prepare um Scotch Manhattan pra você? – Hyoga ofereceu.
– Não é necessário. Hoje é o seu dia de folga, lembra?
– Peça pra alguém, então. Quem prepara o seu drink nos meus dias de folga?
– Ninguém. Eu não tomo Scotch Manhattan nos seus dias de folga.
– Sério? – o loiro riu.
– Sério.
– Por quê?
– Sei lá... Acho que já se tornou algo nosso, não me sinto a vontade ao pedir o meu drink preferido para outro barman. – Ikki ficou sem graça. – É estúpido, eu sei.
– Não é estúpido, é algo nosso! Mas você sabe que se um cliente pede, eu não posso negar, certo? É o meu trabalho. Entretanto... – aproximou-se e começou a sussurrar, como quem revela um segredo. – Eu sempre capricho mais no seu.
– Não venha com esse papinho, Yukida! Você só capricha porque eu sou o seu chefe! – provocou o moreno.
– Claro! Você ainda tem alguma dúvida? – o loiro provocou de volta e os dois começaram a rir. – Mas com um chefe desses, quem não capricharia, não é?
– Agora você só está tentando bancar o puxa saco, loiro!
– Quem disse?! – o barman brincou, bancando o ofendido. – Na verdade, eu estou é cantando você, ainda não percebeu? – o mais jovem aproximou seu rosto e roubou um selinho do moreno.
– Isso é pior ainda, sabia? Assédio sexual é proibido nesta boate! – Ikki declarou cheio de moral, mas não segurou o riso quando Hyoga caiu na gargalhada.
– Eu queria ter filmado essa declaração, chefe! É de uma cara de pau tão grande que eu fico até impressionado!
– Ah, qual é! Eu preciso bancar o chefe rígido e imponente, do tipo que causa medo em todo mundo. – o moreno acariciou a coxa de Hyoga, enquanto tomava outro gole de sua bebida.
– É tarde demais pra isso. – ainda rindo, o loiro tomou seu uísque já bastante diluído na água vinda das pedras de gelo. – Sabe aquela tática de imaginar os outros nus para perder o medo? Pois é, eu já te vi nu.
– Ah, é? E perdeu o respeito por mim desde então?
– Claro que não! Foi a partir daí que você se mostrou um exemplo de rigidez e imponência. – levou sua boca à orelha do Amamiya. – Hoje eu te respeito muito, muito mais, chefe. E posso garantir que o que você causa em mim está bem distante do medo...
– Eu...
– Ai, meu Deus, Ikki! Você está vermelho! Eu te deixei sem graça? Sério? Nossa! Isto sim merecia ser filmado!
– Eu não estou acostumado com elogios, ok? – o moreno se defendeu, ainda se sentindo sem graça pelas coisas que ouviu.
– Uau! Você realmente é uma incógnita. – Hyoga bebeu mais de seu uísque, mantendo contato visual com o moreno. – Agora eu estou realmente impressionado!
– Não fique tanto, eu não sou tão surpreendente assim; pelo menos não como você. – o Amamiya também tomou de sua bebida, ainda acariciando a coxa do outro. – Então, você vai contar como foi o tal jantar ou é ruim demais pra dizer? – Ikki não suportou mais a curiosidade.
– Ah, não tem nada demais... Quer dizer... Ok, foi horrível. – disse o barman, acariciando com o dedo a borda de seu copo. – Absolutamente nada do que eu esperava.
– E o que é que você esperava? – Ikki bebericou o uísque e prendeu uma mecha dos cabelos loiros atrás da orelha de Hyoga.
– Eu achei que conseguiria dobrar o Afrodite, pensei que ele ao menos ouviria o que eu tinha a dizer, mas... Ele não foi até lá disposto a isso. – Ikki acarinhou seu rosto e Hyoga retribuiu beijando-lhe a palma da mão. – Meu tio armou um esquema com o Henry e quando chegamos ao restaurante ele estava lá, esperando por nós. Provavelmente, em algum momento o Dite daria um jeito de pular fora e me deixaria a sós com o meu ex-namorado.
– E vocês chegaram a ficar a sós? – o moreno finalizou seu uísque, tentando disfarçar o ciúme e a imensa vontade que sentia de assassinar Afrodite Jansson.
– Não. E eu não vi o Henry por minha vontade, portanto não infringi nenhuma regra! – Hyoga mordeu o lábio. – Eu não lidei bem com a situação; fui mal educado, extremamente rude, dei um piti antes mesmo que o garçom viesse anotar nossos pedidos e vim correndo pra cá. – o loiro sorriu, sentindo-se sem graça agora. – Sei que parece a atitude de uma criança pirracenta, mas estava tão furioso naquele momento que não consegui pensar em mais nada, só queria sair de perto daqueles dois. Sequer me dei conta de que estava vindo pra cá; quando vi, estava aqui.
– Então, você brigou com eles e correu pra mim? Interessante.
– Não se gabe, chefe! Eu detesto quando você se gaba. – Hyoga bebeu seu último gole de uísque, recolheu a bebida das mãos de Ikki e colocou ambos os copos no chão, ao lado do braço do sofá. Sem aviso, sentou-se escarranchado no colo do moreno e, lambendo os lábios enquanto fitava maliciosamente a boca do outro, declarou: – Mas sim, inconscientemente eu corri pra você. – sorriu. – Diga-me uma coisa... Como era mesmo aquele seu código de conduta? – mordeu os lábios e fingiu pensar. – Ah, sim! Assédio sexual é proibido na Stonehenge. Quer dizer que, tecnicamente, eu não posso fazer isso?
Antes que Ikki pudesse processar o que acabara de ouvir, Hyoga atacou sua boca num beijo sensual, lento e excitante como só o barman seria capaz de dar.
– Tecnicamente, não. Mas, na prática, você pode fazer o que bem entender, loiro. – não saciado, o Amamiya buscou novamente os lábios doces, segundos após terem se separado.
Alguns minutos depois, os beijos se intensificaram; Hyoga parecia descontar todas as suas frustrações e buscar todas as respostas nos lábios de Ikki, tamanho era o ardor com que invadia a boca do outro. O loiro sentiu as grandes mãos do empresário deslizarem por suas costas até descansarem em seu quadril, onde apertaram o traseiro firme. Já ofegante, Hyoga livrou o moreno do paletó, da gravata e já começava a fazer o mesmo com a camisa, mas foi impedido por Ikki.
– Hey, o que houve com o “você pode fazer o que bem entender, loiro”? – reclamou imitando a voz grave do outro.
– Meu irmão deve estar chegando, Hyoga, e eu detesto a ideia de ter que parar isto na metade...
– Está bem, você tem razão. – concordou, mas continuou sentado sobre o colo de Ikki.
– Quer ir para a minha casa? – o moreno ofereceu enquanto roçava seus lábios nos do mais jovem.
O loiro comprimiu os lábios, pensando na proposta. Após alguns segundos, abriu um poderoso sorriso, ao dizer:
– Eu adoraria.
oOo
Meia hora mais tarde...
Hyoga se viu encantado com o charmoso apartamento de Ikki.
– Caramba, chefe! Que apartamento maravilhoso!
– Obrigado. – sorriu, jogando seu paletó nas costas do sofá.
O barman virou-se para o outro e viu que ele o observava com carinho. Tomado pelo desejo que o invadia sempre que estava perto do Amamiya, Hyoga se aproximou e pôs-se novamente a afrouxar e retirar a gravata do moreno.
– Então, onde havíamos parado? – disse sensualmente.
Abrindo a camisa do empresário, o loiro passou a beijar-lhe o pescoço, esfregando-se no corpo do outro de modo insinuante. Ikki queria – e muito – se deixar levar, mas o pensamento constante no dossiê o atormentava.
– Hyoga...
– Hmmm... – o mais jovem murmurou enquanto sua boca continuava a explorar o pescoço e as mãos apalpavam o tórax perfeito.
– Loiro... – não pôde evitar que seus olhos se fechassem ante a deliciosa sensação provocada pela boca do outro.
– Hmmm... – livrando o moreno de sua camisa e o empurrando para o sofá, o barman atacou com beijos e chupões o belo torso desnudo, sorrindo ao ver Ikki ofegar com sua atitude.
– Hyoga! – sua voz soou enrouquecida de desejo, embora possuísse toda a força de vontade que conseguira reunir naquela situação.
O desespero com que o chamou foi bastante eficaz, pois o loiro parou sua exploração e, ajoelhado diante do moreno, encarou-o um tanto preocupado.
– O que foi, chefe? Não está gostando?
Como ele, de todas as pessoas, poderia pensar algo assim? Será que não tinha ideia do quão difícil e doloroso foi impedi-lo de continuar?
– Ikki? ‘Tá tudo bem?
“Nós precisamos conversar”. Era isso que Ikki deveria dizer e era exatamente o que estava na ponta de sua língua agora, mas ao encarar o rosto afogueado do loiro e se ver dentro dos olhos tão azuis, acovardou-se uma vez mais.
– Vem aqui!
O moreno agarrou os cabelos dourados e, com brutalidade, puxou o mais jovem para cima, jogando-o sobre o sofá e o prendendo sob seu corpo. Ao ver um sorriso lascivo brotar no rosto enrubescido de Hyoga, tomou posse da boca atrevida com beijos despudorados, carregados de desespero e paixão.
Quem poderia julgá-lo ou, até mesmo, condená-lo? Ikki Amamiya era um homem apaixonado e, tal qual os apaixonados, não conseguiria impor a razão sobre todas as outras coisas quando via seu amado assim, totalmente entregue aos seus carinhos. Mais uma vez, estar nos braços do barman tornou-se mais urgente do que revelar seu vergonhoso erro. E foi assim, dominado pela paixão, que o moreno novamente possuiu o corpo de Hyoga, adiando outra vez a conversa que, em algum momento, se tornaria inadiável.
Continua...
Notas finais
Agradecimentos especiais a: Chakal_Maldito, Guinevere Beau Pre, Kassiminha, Kaay, Moro-chan, guima, Alexia-Black, Sarah, Belle Princesse, Mermaid Love, giikoma, klotus, Lucy Black e Nanda. Vocês são meu maior incentivo! Obrigada, gente!
Beijos a todos! Até a próxima!
Mamba
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