Orgulho e Preconceito
10 Dossiê
CAPÍTULO DEZ – DOSSIÊ
O amplo quarto de Ikki Amamiya exalava sexo, vinho e o suave cheiro que se desprendia dos cabelos recentemente lavados de Hyoga. Após uma demorada ducha juntos, os dois homens se embolaram na cama e ali ficaram alternando entre conversas e carícias, totalmente alheios ao restante do universo. No momento, ninguém ali se preocupava com as verdades não ditas que inevitavelmente viriam à tona, tudo se resumia a eles, a grande cama king size forrada com negros lençóis de seda e as risadas despreocupadas que ecoavam pelo cômodo, abafando o áudio baixo de um dos CDs favoritos do dono do apartamento.
– Quantos anos você tinha aqui, chefe? – folheando um antigo álbum de fotografias, Hyoga se divertia com os registros da infância do moreno que, recostado na cabeceira da cama e com as pernas flexionadas, abrigava-o confortavelmente em seu regaço.
– Doze.
– Como conseguia ser tão ranzinza? Você não sorri em uma foto sequer!
– Eu era meio revoltado. – o Amamiya se justificou, aproveitando para beijar o loiro.
– Como é possível? Ok, confesso que eu também era meio complicado, mas isso por ser órfão de pai e mãe; qual era a sua desculpa?
– Excesso de responsabilidade. – Ikki se esticou até a garrafa de vinho sobre o criado mudo e preencheu tanto a sua própria taça quanto a que estava na mão direita de Hyoga. – Eu tive pais ausentes e fui forçado a assumir os cuidados com o Shun. Foi um amadurecimento bem precoce, eu não me sentia uma criança normal; a seriedade acabou se tornando uma espécie de marca registrada.
– Pobrezinho... – o loiro virou a cabeça para trás e beijou o Amamiya. – E onde estão seus pais agora?
– Meu pai morreu num acidente de carro quando eu tinha catorze e minha mãe sofreu um infarto fulminante poucos meses antes de eu completar dezessete anos. – Ikki tomou um grande gole de vinho.
– Puxa... Sinto muito, eu não devia ter perguntado; não queria tocar em um assunto tão complicado.
– Não é complicado, loiro. Foi há alguns anos; eu já tive tempo suficiente para superar. – o Amamiya beijou o ombro de Hyoga. – É claro que foram duas situações devastadoras, que exigiram muito de mim na época, mas eu precisei ser forte pelo Shun e isso acabou me ajudando. O tempo todo, eu só me preocupei em amenizar ao máximo as coisas para ele, tornar o sofrimento mínimo. Graças a isso, não tive tanto tempo para sentir a dor em nenhum dos dois momentos, pois precisei tomar as rédeas das nossas vidas, então... Bem, posso dizer que superei tudo um pouco mais rápido do que o normal.
– Vocês chegaram a ficar sob a guarda de um tutor?
– Não. Minha mãe tinha dificuldades para lidar com o dinheiro que meu pai nos deixou e acabou me emancipando aos quinze anos, para que eu pudesse ajudá-la. Parece até que foi programado, pois somente por isso pude cuidar do Shun sem maiores problemas.
– O Shun tem sorte de te ter como irmão; você é como o super-herói particular dele.
– Não é pra tanto, ele também cuida de mim. Na verdade, ele cuida mais de mim do que eu dele. Somos uma equipe; eu e ele contra o mundo. – o moreno sorriu. – Mas, se você quiser, posso ser o seu super-herói particular. – acrescentou de forma maliciosa.
– Hoje você foi. – Hyoga sorriu e, tombando a cabeça pra trás, depositou um beijo no queixo do moreno. – Contrariando minhas expectativas iniciais, eu estou tendo uma noite ótima e devo isso a você, Sr. Ikki Amamiya. – derreteu-se.
Ikki sorriu ainda mais e o loiro não se conteve ao virar a cabeça e ver o luminoso sorriso.
– Você fica lindo quando sorri, sabia? – Hyoga colocou o álbum de fotos sobre o criado mudo e tomou alguns goles de vinho da taça em sua mão. – Eu gosto quando você sorri. – o barman estremeceu quando o moreno mordiscou sua nuca em resposta. – Hmm... Eu gosto quando você faz isso também. – o mais jovem não conteve o sorriso satisfeito.
– Assim? – o Amamiya mordiscou pouco abaixo da orelha do outro. – E assim? – lambeu o mesmo ponto, avermelhado pela mordida anterior.
– Hmmm... Isso é ainda mais perfeito! – declarou sorrindo.
Ikki continuou a provocação, distribuindo mordiscadas e beijos; recebendo como resposta risadas divertidas entrecortadas por suspiros e demonstrações de apreciação.
– Hey! Assim eu vou acabar encharcado de vinho! – protestou Hyoga.
– Não tem problema, eu te lambo inteiro depois.
O barman gargalhou.
– Você é tão pervertido!
– Ter você assim, tão perto, causa esse efeito em mim. Eu sonhei muito em ter você aqui, Hyoga; ficava nos imaginando neste quarto, nesta cama... Pensava como seria quando você permitisse que eu fizesse parte da sua vida. – apertou ainda mais o jovem barman, escondendo seu rosto no pescoço deste.
O loiro nada disse, mas abandonou sua taça ao lado da de Ikki sobre o criado mudo e se virou completamente, encarando o moreno frente a frente, vasculhando seu olhar denso e constatando a pura sinceridade deles.
Sua mão percorreu o peito largo do Amamiya, pousando delicadamente sobre o disparado coração. Aquela pontada de culpa voltou a faiscar dentro dele e o jovem barman se perguntou, novamente, o que diabos ele estava fazendo, já que a ideia de partir aquele coração soava injusta demais.
– Você não deveria dizer essas coisas, pois eu não sou tão especial, Ikki.
– Pra mim, você é.
– Eu sei, é justamente isso que me assusta. – o loiro apoiou a testa no ombro do outro, evitando olhá-lo nos olhos.
– Hey, a ideia não é te assustar, mas fazer você se apaixonar! – o moreno gargalhou, acariciando as madeixas douradas. – Caramba! Eu realmente não levo jeito pra isso, não é? Está vendo? É por isso que evito falar sobre sentimentos.
– Você não está se saindo mal, eu é que...
– Não minta! Você está tão assustado que sequer consegue me olhar. – Ikki riu enquanto fazia cócegas no mais jovem, que permanecia com o rosto escondido em seu peito. – Desculpe se te pressiono algumas vezes.
Quando Hyoga ergueu a cabeça e encarou seu chefe, sua boca foi tomada num beijo tão delicioso que fez todos os pelos de seu corpo se eriçarem, enviando um calafrio para a base de sua espinha.
– Ikki, você tem sido ótimo e eu não me sinto pressionado. – o loiro suspirou profundamente, aceitando que não deveria mentir nesse ponto. Ele acariciou o rosto do moreno e esboçou um sorriso tímido. – ‘Tá, eu admito que me sinto pressionado, mas não tanto por você. Toda essa situação é muito estranha pra mim e às vezes eu até me pergunto como entrei nessa, embora eu não me arrependa. Você é um cara incrível, chefe, eu fico feliz de ter tido a oportunidade de te conhecer melhor.
– E o quanto você gostou de me conhecer melhor?
– Ok, agora você está me pressionando! – Hyoga riu e foi acompanhado por Ikki.
– Desculpe, não resisti. – o moreno fitou os olhos do outro, enquanto brincava com uma mecha do cabelo dourado.
O Yukida viu novamente aquele sorriso encantador e suspirou pesadamente, ainda tentando descobrir quando foi que se perdeu por aquele homem.
– Se não estou enganado, quem deve me fazer essa pergunta é o Shun. – retrucou desviando momentaneamente o olhar.
– Eu achei que poderia conseguir uma prévia da sua resposta. – Ikki riu novamente, ainda acariciando os cabelos quase secos do mais jovem.
– Você não arrancará nada de mim.
– Nem mesmo favores sexuais?
– Pervertido!
Os dois riram por algum tempo, até que o loiro se recuperou e pensou na melhor forma de responder a pergunta do outro.
– Bom, falando sério agora, eu...
– Shhhh! Não precisa falar nada. Você tem razão, essa pergunta não deve ser feita agora. Eu não quero que você diga o quanto está gostando de mim, pois me contento com os gestos e com o que estamos vivenciando neste instante.
– Mas eu acho que...
– Loiro, eu disse pra você não falar mais nada!
– Está bem. – resignou-se o mais jovem.
– Oh, que gracinha! Ele é obediente.
– Você é tão imbecil, chefe! – gargalhou. – Vem cá, vem... Já que você se contenta com gestos, eu sei um jeito bom de mostrar o quanto gostei de te conhecer melhor.
O barman provavelmente deveria ter se concentrado em desfazer a imagem que o moreno tinha dele, mas não conseguiu. Era bom ser tão especial para alguém, ver-se amado, respeitado e cuidado com um carinho que jamais imaginou despertar em outra pessoa. Em outra situação, uma que não envolvesse boate, aposta e obrigações familiares, ele já estaria totalmente entregue ao Amamiya, encantado e apaixonado, permitindo a si mesmo viver essa paixão. Então, a verdade é que ele ainda não se sentia pronto para abrir mão deste relacionamento maravilhoso que se abria pra ele, cheio de promessas de momentos incríveis, embora soubesse que, cedo ou tarde, teria que optar pelo que fosse melhor para seu tio. Dite era sua família, sua equipe, aquele de quem deveria cuidar; sem contar toda a gratidão que sentia pelo loiro sueco, a quem devia sua própria vida; sabe-se lá o que teria acontecido com uma criança de quatro anos sem ninguém a quem recorrer... Porém, nem mesmo esses pensamentos faziam-no ter força de vontade suficiente para não se deixar levar quando estava junto ao moreno.
Hyoga beijou seu amante, várias e várias vezes, antes de deitá-lo de costas na cama e se sentar sobre seu corpo. Os beijos enlouquecedores continuaram, ora afoitos ora calmos, alternando entre carícias intensas acompanhadas de mãos atrevidas e toques gentis, seguidos de longas cruzadas de olhares e carinhos na face.
– Caramba! Você beija tão gostoso que até me deixa de pernas bambas. – o loiro murmurou contra a boca do moreno, antes de cobri-la novamente com seus lábios.
Ikki sorriu em meio ao beijo, acariciando as coxas e as costas do jovem que atacava sua boca com tanta intensidade. O moreno agarrou as madeixas loiras, envolvendo o corpo de Hyoga com o outro braço e o apertando contra si com certa força, como se assim pudesse mantê-lo ali pra sempre.
Desviando sua atenção da tentadora boca na qual se deliciava, Ikki traçou um caminho de mordiscadas e chupões do maxilar até o ombro do mais jovem, fazendo questão de dedicar um bom tempo ao pescoço, fazendo o loiro ofegar muitas vezes pela atenção especial que seu ponto fraco recebia.
Satisfeito pelas reações que provocava no barman, o moreno apoiou os pés no colchão e tentou virá-los na cama, mas foi impedido pelo loiro.
– Eu vou cuidar bem de você, chefe! – foi essa a justificativa que o Amamiya recebeu quando sua boca foi liberta dos lábios quentes do loiro, que passou a deslizá-los por sua pele; o moreno sentiu beijos serem distribuídos por sua face, gemeu ao receber uma mordida suave no queixo, expôs ainda mais seu pescoço quando chupões foram dados ali e não parou de sorrir conforme os carinhos foram descendo pelo seu corpo.
Ikki tocou as madeixas douradas com carinho e as segurou com uma só mão, mantendo-as fora do rosto de Hyoga e impedindo que continuassem tapando sua visão dos chupões que recebia na barriga. O loiro ergueu o olhar, encarando profundamente seus olhos, e sorriu. O moreno retribuiu o sorriso, sentindo-se estremecer com o olhar desejoso que recebia do outro.
Hyoga continuou a explorar seu corpo, usando mãos, língua e boca, tocando-o com habilidade e o deixando completamente excitado. O Amamiya sentiu sua pele esquentar a cada mordida, aperto, beijo, afago ou lambida; o loiro o estava incendiando, fazendo-o se contorcer de desejo e paixão.
Ikki ainda segurava os cabelos do loiro para trás e comprimiu os lábios quando o viu morder a parte interna de suas coxas, apoiar-se na cama e também mordiscar e chupar a virilha, para só então atentar-se à sua ereção. O empresário não conteve o gemido quando viu seu pênis ser abrigado lentamente na boca do mais jovem, que parecia não possuir qualquer pressa.
A essa altura da madrugada, já haviam se amado tantas vezes e em tantas posições que não se importava de permitir a si mesmo se apoiar em seus cotovelos e apreciar sem pressa a maravilhosa felação que lhe era oferecida.
O moreno mordeu o lábio e sorriu, voltando a retirar o cabelo que caía sobre seu baixo ventre. A língua atrevida deslizou por todo o membro, fazendo-o suspirar. A boca novamente cobriu todo o seu falo e, como se não bastasse a deliciosa sensação provocada em seu pênis, a visão daquele loiro o sugando o excitava ainda mais.
– Oh, Deus! Eu tenho que dizer que nunca presenciei vista melhor, loiro! E olha que eu já vi muitas coisas lindas nesse mundo... – elogiou, sentindo que já começava a ficar ofegante. – Nada se compara a você, Hyoga. Você é... – suspirou quando a boca do barman se concentrou apenas na glande, chupando-a de um modo que o fez fechar os olhos por um momento. – Você é único e... – remexeu-se quando foi novamente tragado por inteiro pelos lábios tentadores. – Porra! Eu quero uma dessas todos os dias! – a habilidosa língua fez com que perdesse sua linha de pensamento ao provocar espasmos prazerosos em seu corpo.
O barman lhe sorriu, mas nada disse. Continuou o tocando com destreza e, considerando-se o empenho, muito desejo. Era visível o quanto Hyoga queria lhe dar prazer e só de pensar nisso seu corpo se estremecia por completo, ardendo de tesão por aquele homem que o chupava com carinho, embalando seu escroto com uma das mãos enquanto a outra se apoiava em sua coxa.
– Isso... Hyoga...Que boca... Ahhh... Que delícia... – o moreno estava bem ofegante agora, mal conseguindo expressar o quanto aquilo estava maravilhoso. Ele impulsionou seu quadril para frente por várias vezes, enterrando-se naquela boca que o abrigava de bom grado.
Ikki mordeu o lábio, respirando ruidosamente. A crescente sensação de prazer invadia seu corpo e ele podia senti-la crescer vagarosamente, acumulando-se em seu âmago antes de explodir e tomá-lo por completo.
O moreno ergueu ainda mais o corpo e, soltando o cabelo do mais jovem, acariciou-lhe a face e lhe tocou o queixo de modo suave, acompanhando o subir e descer daquela boca em sua ereção. O loiro, que em momento algum deixou de olhá-lo nos olhos, afastou-se para lhe lançar um sorriso, mas logo depois voltou ao que fazia, prendendo seus cabelos atrás da orelha.
De forma despudorada, Hyoga novamente lambeu todo o membro do Amamiya, antes de abocanhá-lo e aumentar a velocidade com que o falo entrava e saía da boca, causando uma fricção que Ikki julgou ser capaz de enlouquecê-lo.
Ele voltou a segurar as madeixas loiras, tendo ampla visão das maravilhas que o mais jovem fazia em seu baixo ventre, além de poder fitar os límpidos olhos azuis, que não miravam nada além de seu rosto, como se não quisesse perder qualquer detalhe do seu prazer.
O moreno se contorceu, impulsionando-se para frente em seguida, invadindo a boca quente com mais vigor e gemendo continuamente por conta disso. O barman permitia que ele o fizesse, aceitava com satisfação o membro que lhe coçava a garganta e sugava com ainda mais desejo a cada arfar e gemido que deixava a boca do mais velho.
Os espasmos do corpo do empresário aumentaram, indicando a proximidade de seu êxtase. Ikki tentou morder o lábio inferior, porém não foi capaz de se silenciar; o moreno gemia baixo, mas sem cessar, enquanto sentia o prazer dominar cada centímetro do seu corpo.
Ele se impulsionou uma última vez para frente, ao mesmo tempo em que forçava a cabeça do loiro contra sua virilha, invadindo completamente a boca do jovem barman e se derramando ali, despejando sua semente naqueles lábios que tão bem o receberam.
Por fim, incapaz de continuar apoiado sobre seu cotovelo, o moreno desabou na cama, mantendo os olhos fechados enquanto seu sêmen continuava sendo expelido e lambido por Hyoga. A respiração de Ikki ainda era bastante ruidosa, ofegante e totalmente descontrolada; o empresário mal conseguia raciocinar direito, apenas sabia que havia visitado o céu há pouco e que tal lugar se encontrava nos lábios do loiro fogoso que ainda tratava de deixá-lo completamente limpo.
– Hyoga... – sussurrou o nome do homem de seus sonhos.
– Sim? – a voz soou risonha, mas o moreno não abriu os olhos para conferir o sorriso no rosto do jovem.
– Vem aqui... – pediu ainda ofegante, sentindo o loiro sedutor engatinhar sobre seu corpo, até se deitar ao seu lado. Ele finalmente abriu os olhos e se deparou com os azuis cerúleos o encarando com um ar de divertimento.
– ‘Tá tudo bem aí? – brincou o mais jovem, acariciando a face morena.
– Não poderia estar mais perfeito! – Ikki sorriu e tocou o rosto do outro, logo prendendo uma das mãos nos macios cabelos loiros e puxando o mais jovem para um beijo nada suave.
O moreno sentiu seu próprio gosto na língua do barman e suspirou em meio ao beijo, mal acreditando no que havia acabado de sentir. Fora tudo intenso e maravilhoso demais para que pudesse colocar em palavras, prova disso eram os leves espasmos que ainda sentia em seu corpo, reflexos do doce prazer que o dominara há pouco.
– Deite-se de costas, eu quero retribuir... – Ikki pediu, mas Hyoga negou a oferta balançando a cabeça de um lado a outro.
– Isso foi pra você, não quero que retribua. Como disse antes, eu só queria cuidar bem de você... – o loiro arrumou seu teimoso cabelo, prendendo-o novamente atrás da orelha. – Eu amei suas reações, chefe!
Ikki deixou os braços atrás da cabeça, olhou para o teto e permitiu-se rir, sem nenhum motivo aparente. Seu corpo estava tão relaxado que a brancura do gesso que encarava lhe pareceu extremamente hipnótica. Esforçando-se para não pegar no sono, o moreno virou a cabeça para o jovem ao seu lado e mais uma vez foi tragado pelo azul intenso daqueles olhos, fazendo uma prece silenciosa para que pudesse tê-lo sempre ali.
– Incrível, loiro! Isso foi maravilhoso, eu... Eu não consigo nem dizer o quanto isso foi... – suspirou pesadamente. – Uau! Acho que está muito difícil formar frases coerentes agora. – riu e se calou por um momento, apenas se deixando levar pela letargia de seu corpo.
– Foi melhor que o do Bill? – Depois de algum tempo no mais absoluto silêncio, o loiro não resistiu e perguntou ao outro, mal conseguindo esconder o quanto a cena presenciada nos fundos da Stonehenge lhe incomodava.
– Bill? Não entendo... – Ikki mais uma vez se virou para o mais jovem, completamente atento à conversa.
– Eu vi vocês dois nos fundos da boate, lembra? Ele estava prestes a...
– Ele nunca chegou sequer a começar, Hyoga. Eu não permiti. Você nos pegou exatamente no intervalo em que ele se abaixou, tentou abrir minha calça e eu o impedi. Se você tivesse nos observado por mais cinco segundos, saberia que não houve nada. Então, não, eu não sei se você foi melhor que o Bill, mas posso garantir que foi melhor do que todos os outros com quem já estive! – o moreno percorreu os lábios do outro com os dedos, numa carícia delicada.
– Mas o Bill voltou a tentar alguma coisa depois daquilo? – Hyoga tentou disfarçar o ciúme contido em sua frase exagerando na casualidade de seu tom, mas não conseguiu esconder totalmente o desconforto que sentia.
– Ele flerta comigo, às vezes, mas é sempre em tom de brincadeira e eu já não dou liberdade como antes. – aproximou-se, sua boca colando na orelha do outro. – Não tem nada a ver, você não precisa ficar enciumado. – acrescentou num sussurro.
– Eu não estou.
– Claro que não! Por que estaria, não é mesmo?
– Exatamente. – o barman concordou com um sorriso charmoso, selando novamente os lábios do outro com os seus.
Horas mais tarde, no meio da madrugada, eles ainda estavam acordados, alertas e conversando animadamente, partilhando experiências e rindo muito de um ou outro caso mais engraçado que surgia. Naquele instante, enquanto os dois dividiam uma pizza no balcão da cozinha, Ikki não se lembrava do dossiê, tampouco Hyoga se preocupava com sua decisão. Eles continuavam conversando e se tocando com a naturalidade e a paixão de um casal de namorados cujo romance não estivesse regido por um contrato.
Em dado momento, a conversa enveredou para relacionamentos e, após ouvir atentamente sobre os fracassos que Ikki viveu no amor, o loiro passou a citar alguns dos seus próprios, sem ter a menor ideia de que o moreno em sua frente já conhecia cada um deles.
– Eu sempre tive um dedo podre, sabe? – Hyoga riu enquanto o moreno brincava com uma mecha de seu cabelo. – Conheci uma quantidade incrível de idiotas. Pra você ter uma ideia, a minha primeira transa foi com um cara que apostou com os amigos que tiraria minha virgindade.
– Que filho da puta!
– Concordo! – o barman riu ainda mais, sem deixar de pensar na facilidade com que aquela história, sempre evitada por ele, saiu de sua boca. – O Dite quis me matar, naquela época.
– Sério? – o moreno ergueu uma sobrancelha, desconhecendo essa parte da história. – Por quê?
– Ah, ele estava na fase rígida. – Ikki o olhou com confusão e Hyoga, assumindo um ar divertido, explicou: – Dite era um pai de fases, ele ficava tentando achar a melhor forma de me criar e acabava variando muito seu jeito de ser. Nessa época, ele se preocupou muito com meus estudos e se tornou rígido demais, do tipo “Nada de ficar na rua após as onze”, “Não namore até terminar o ensino médio” e “Sexo só aos dezoito”. – o mais jovem imitou a voz afetada de seu tio, fazendo o moreno gargalhar. – Ele me avisou sobre o Gabe Carlson e eu não o ouvi, achei que era implicância e estava encantado demais pra perceber o quanto o cara era escroto. Enfim, depois da minha mancada, Dite me apoiou e tudo o mais, mas não me livrei do castigo: seis meses sem autorização pra sair. Era de casa pra escola e da escola pra casa. Passei as férias de verão comendo macarrão instantâneo, assistindo à roda da fortuna na TV e lendo todos os livros que encontrava pela frente.
– Caramba! Seis meses de castigo por ter caído na lábia de um idiota?! – Ikki riu e, puxando Hyoga pela mão, fez com que o loiro se erguesse e parasse diante dele, que logo o abraçou. – Fico pensando na duração do castigo se ele pudesse te punir agora. – mordiscou a orelha do mais jovem, enquanto suas mãos deslizavam pelas costas nuas até chegarem à bunda coberta pela cueca.
– Transar com o terrível Ikki Amamiya? Isso é infração gravíssima, eu não poderia sair de casa por anos! – o loiro se agarrou mais ao corpo do outro, quando as grandes mãos do moreno apertaram sua bunda e a língua deslizou por todo o seu pescoço.
O mais jovem não resistiu e buscou aquela boca com paixão, entrelaçando os dedos nos fios negros enquanto sentia a deliciosa língua na sua, bailando em sua boca num ritmo tremendamente excitante.
– Valeria à pena? – Ikki abandonou sua boca para distribuir beijos pelo seu pescoço.
– Totalmente! – riu, sentindo todo o seu corpo estremecer com as carícias que recebia nos lugares certos.
– Hey! Você me atribui ao seu dedo podre? – Ikki parou de acariciá-lo de repente, mas manteve as mãos paradas sobre seu corpo.
Hyoga sorriu, pensando por um momento na questão.
– Não. – suspirou. – Eu não escolhi você, muito pelo contrário, fui escolhido.
– Laçado, você quer dizer!
– É, algo assim! – o barman gargalhou. – Mas eu não me importo mais com isso, não interessa como eu vim parar aqui, certo?
– Certíssimo!
Seus lábios se uniram novamente num beijo lento e demorado, acompanhado de toques suaves, carregados de muito carinho. Quando os dois se afastaram, Hyoga encarou o moreno por um longo tempo, sem dizer absolutamente nada.
– O que foi? – Ikki tocou seu rosto, deslizando os dedos pela tez alva e aveludada do jovem.
– Nada. – sorriu. – Por um momento, eu me recordei de umas besteiras que ouvi hoje.
– Que tipo de besteiras?
O loiro ficou bastante sem jeito, pois havia acabado de recordar as palavras ditas por seu tio e sabia que não havia momento mais inapropriado para se lembrar delas. Tentou ignorar, mas acabou se perguntando o porquê de Ikki, um cara que se revelava cada vez mais apaixonante, ter uma imagem tão diferente no mundo dos negócios.
“– Ele não é quem você pensa. Ikki Amamiya usa os outros a seu bel prazer, faz o que bem entende e gosta de controlar a vida alheia como se fosse um Deus. Nunca se perguntou como ele sabe o que dizer e como agir durante todo o tempo? Acha mesmo que o irmão dele é um assessor tão bom assim? Pergunte a ele como sabia de todos os meus planos para salvar a minha boate. Pergunte ao Amamiya como ele sabia tudo de mim, antes mesmo de me conhecer. Se ele for honesto com você, saberá que toda a impressionante figura de Ikki Amamiya não passa de um truque barato!”
– Bom, eu escutei várias vezes, não apenas de Afrodite, algumas coisas a seu respeito. Acreditei em muitas delas e admito que eu cheguei a difundir uma ou outra por aí, mas nunca parei pra pensar como foi que você adquiriu a imagem de empresário implacável, sabe? E agora, olhando pra você, eu me recordei de algumas coisas que ouvi e pensei no quanto tudo é injusto.
O sorriso de Ikki morreu naquele instante e um calafrio perpassou seu corpo. Ele sentiu que a hora de dizer a verdade estava bastante próxima e, por mais que quisesse prosseguir com a noite maravilhosa, não poderia ser desonesto com o loiro a quem acariciava agora. Dependendo do rumo que a conversa tomasse, o moreno sabia que teria de contar ao outro o que vinha escondendo.
– Hyoga, o Grupo Fênix teve uma ascensão muito grande nos últimos anos e isso nos trouxe alguns desafetos. – explicou, fazendo com que o barman se sentasse novamente no banco ao lado do dele.
– Que tipo de desafetos?
– Pessoas inconformadas com a venda de seus negócios. Afrodite não foi o único que me vendeu sua empresa por não possuir qualquer alternativa. É como eu te disse certa vez: eu me tornei um tubarão pra que o Grupo Fênix pudesse se sobressair e chegar onde está hoje.
– Então, o truque que dizem que você possui é apenas o fato de aprender a jogar o jogo deles? Olha, o Dite nunca foi um bom empresário, em parte esse foi o grande problema da boate. Administração nunca foi exatamente o seu forte. Mas isso não dá a ele, nem a qualquer outra pessoa o direito de te chamar de fraude simplesmente porque é bom no que faz.
– Eu tenho tino para negócios. – Ikki tomou um das mãos do loiro entre as suas. – Modéstia à parte, consigo idealizar maravilhas onde ninguém vê nada além de uma empresa falida e, mais do que isso, eu construo maravilhas a partir de empresas assim. Eu sou bom no que faço, Hyoga, e essa parte não é truque, é apenas talento. Um talento que nem todos possuem.
– Eu entendo.
– Foi o que houve com a Stonehenge. Eu visitei aquela boate uma vez e vi que estava tudo errado; ao mesmo tempo, tive tantas ideias para ela que não pude evitar, eu quis transformá-la na melhor boate desta cidade. Eu sei que a comprei por um preço baixo, mas justo. Se for analisar a situação em que ela se encontrava, devendo impostos, fornecedores, funcionários, mal falada e sem dinheiro em caixa pra qualquer melhoria, eu paguei até mais do que ela realmente valia. Aquela boate estava em ruínas, loiro. Você sabe disso. E olha só o que eu fiz dela...
– Você fez um ótimo trabalho na Stonehenge. – Hyoga concordou olhando profundamente nos olhos do Amamiya. – Eu preciso admitir que o Dite jamais conseguiria fazer o que você fez, mesmo se tivesse a mesma quantia para investir na boate.
– Eu sei que ele amava aquele lugar, mas eu também amo. Ele se dedicou muito ali, mas eu também me dediquei. Sei que é difícil de acreditar, mas Stonehenge também é importante pra mim.
– Eu costumava pensar que você só visava o dinheiro e que pra isso não se importava em destruir sonhos. Mas a verdade é que você só estava seguindo os seus próprios sonhos, não é?
– É exatamente isso. Talvez eu não tenha agido da melhor forma, talvez houvesse uma opção em que eu não tivesse que decretar o fim do sonho do Afrodite, mas é assim que as coisas funcionam hoje, entende? É isso que significa se tornar um tubarão.
Hyoga sentiu um aperto no peito. Culpa e arrependimento o atingiram como um raio, fazendo com que se lembrasse do quanto ele mesmo foi injusto com o Amamiya, por várias vezes. Finalmente ele percebeu que Dite não era mais merecedor da boate do que Ikki. Ambos se sentiam da mesma forma a respeito daquele lugar e não cabia a ele decidir quem deveria ser dono da boate, simplesmente porque Afrodite já tivera o seu tempo e Ikki a adquiriu justamente.
– Ikki, você me perdoa? – levantou-se, voltando a abraçar o moreno.
– O quê?
– Eu fui injusto contigo por tanto tempo... – não esperou por uma resposta e beijou a boca de Ikki, aliviado por poder fazer isso sem se sentir culpado. Naquele momento, sua escolha havia mudado por completo e ele só não gritava aos quatro ventos o quanto estava apaixonado pelo moreno porque antes precisava contar ao seu tio que escolheria Ikki ao invés da boate.
O moreno quase não foi capaz de resistir à carícia, mas ainda havia muita coisa a ser dita; ele não podia mais ignorar a verdade. Sinceridade era um ponto de extrema importância num relacionamento e, se ele queria fazer aquilo dar certo, teria que ser honesto.
– Hyoga... – Ikki murmurou em meio ao beijo, afastando o loiro de si.
– Ouvi dizer que estão faltando duas pessoas na sua cama. – o barman riu, ignorando o afastamento e voltando a buscar a boca do outro.
– Hyoga... Você é tão maravilhoso e eu quero muito, muito mesmo voltar para a cama e te amar de novo, mas nossa conversa ainda não acabou, amor. Tem algo que eu não posso mais omitir de você.
Isso foi o bastante para que o loiro parasse de se esfregar no corpo de Ikki e o olhasse com atenção. Inspirando profundamente algumas vezes, o moreno tomou coragem e, segurando Hyoga pela mão, levou-o até o sofá, onde se sentaram lado a lado.
– O que está acontecendo? – o barman se mostrou um tanto assustado.
– Depois que eu comecei o Grupo Fênix, a primeira empresa que eu tentei adquirir não deu certo por minha falta de experiência. Eu bobeei e um investidor tomou a frente do negócio e o comprou antes de mim. Na segunda vez, o dono da empresa que me interessava conseguiu, por outros meios, manter-se sem precisar vender nada pra mim. Foi então que eu vi que, se queria realmente ter sucesso em uma compra, eu precisava saber com o que estava lidando.
– Do que você está falando, Ikki?
– Na terceira tentativa de compra, eu contratei um detetive particular, que me detalhou todas as estratégias e opções do dono da empresa para evitar a falência. Com essas informações, eu consegui bolar uma proposta mais vantajosa que todas as outras opções que ele possuía e acabei efetuando a compra. A ideia de usar o detetive havia dado certo e eu...
– Você voltou a usar os serviços dele...
– Sim, eu passei a contar com os serviços dele sempre que me via diante de uma situação mais complicada de fechar negócio. Hoje eu já não conto tanto com ele, tenho experiência suficiente para saber o que fazer sem esse artifício, mas devo admitir que, em alguns momentos, ainda uso esse truque.
Hyoga permaneceu em silêncio por algum tempo, até perguntar:
– Você usou esse truque com o meu tio, Ikki?
O moreno suspirou, abaixou a cabeça e admitiu:
– Sim. O detetive me informou que o seu tio pretendia fazer empréstimos em alguns bancos da cidade e...
– Você impediu que ele os fizesse?
– Claro que não! – Ikki segurou a mão de Hyoga. – Esses empréstimos foram recusados porque o seu tio não tinha qualquer garantia, além da boate. Naquela época Afrodite já devia muito, loiro, banco algum lhe daria crédito. Sabendo disso, eu fiz os outros interessados na Stonehenge pensarem que ele tinha conseguido um empréstimo; desse modo, a única proposta que seu tio recebeu foi a minha. Eu fiz questão de pagar a ele muito mais do que aquela boate valia, mas ele nunca acreditou que eu não tive nada a ver com a recusa dos empréstimos.
– Então... É esse o seu truque? É por isso que alguns dizem que seu talento é fraude?
– Sim.
– E o Dite teria que vender a boate de qualquer jeito, a única coisa que você fez foi impedir que ele pudesse vender para outro?
– Sim.
Hyoga ponderou um pouco, pensando no que lhe foi dito e em tudo o que ouviu desde que Dite se viu obrigado a vender Stonehenge. Surpreendeu-se, porém, quando viu que já não se importava verdadeiramente com tudo aquilo. Para ele, as ações do moreno não se diferiam das atitudes de tantos outros empresários que já conhecera.
– Eu preciso admitir que não é um truque bonito, Ikki. – o loiro esboçou um pequeno sorriso e manteve sua mão segurando a do moreno. – Mas é parte de se tornar um tubarão, certo? – acariciou o rosto do Amamiya e, logo depois, o beijou demoradamente. – Está tudo bem, eu não me importo com isso. – completou sorridente depois de se separarem.
– Não diga isso ainda. – o semblante de Ikki estava duro, pois a nova revelação não seria fácil. – Eu preciso te mostrar uma coisa. – o moreno se levantou, foi até a mesinha onde costumava trabalhar quando estava em casa e, pesaroso e hesitante, retirou a pasta cinza de uma gaveta. Ao se sentar novamente ao lado de Hyoga, ele não entregou o dossiê de imediato; precisava, ao menos, tentar se explicar antes. – Quando eu te conheci, eu me encantei por você. Mas você não gostava de mim, erguia diversas barreiras para que eu não me aproximasse e eu não via como mudar isso. – o moreno engoliu em seco, antes de continuar. – Mesmo assim, o que eu sentia foi crescendo e eu me vi apaixonado; porém, você ainda mal me olhava. E a vontade de te conhecer melhor só fazia aumentar, eu queria saber quem você era, o que queria, o que pensava... Eu quis muito saber o que fazer pra conseguir me aproximar de você.
Hyoga não entendia a voz embargada do moreno, tampouco compreendia a postura envergonhada que ele havia assumido neste momento.
– Sinto muito por isso, chefe! – sorriu e acariciou o rosto do mais velho, tentando fazê-lo relaxar.
– Eu me desesperei, loiro. Eu quis tanto saber sobre você, que por um momento não me importei com a forma com que faria isso.
– O que quer dizer?
Ikki não respondeu, apenas entregou a pasta ao jovem, acrescentando:
– Sinto muito. Eu não pensei no quão absurdo e vergonhoso isto seria... Não até que tive este documento em minhas mãos.
Hyoga soltou a mão do outro e abriu a pasta, sentindo-se um tanto quanto confuso. À medida que ia passando as páginas e lendo o que continha no documento, seu coração se apertava mais. Seus olhos se encheram de lágrimas e suas mãos ficaram trêmulas quando ele se deu conta de que sua vida, sua história, seus desejos e hábitos estavam todos ali, escancarados. O loiro se sentiu completamente exposto, traído e, mais do que qualquer outra coisa, decepcionado. No fim das contas, ele realmente não passava de um jogo para Ikki.
O barman leu detalhes sobre a morte de seus pais, viu inclusive fotos do acidente aéreo, coisa a que nunca tivera acesso antes. Havia ali todo o seu histórico escolar, fotos e detalhes de todos os seus antigos namorados, informações sobre os amigos com quem mantinha contato e até mesmo aqueles que já não via mais... Sua rotina diária também estava ali, assim como detalhes dos lugares que costumava frequentar e o que costumava fazer em cada um deles. Promoções em que ele se inscreveu, interesses que demonstrava ter, gostos musicais, alimentícios, o que costumava haver em seu lixo... Tudo. Havia tudo ali. Desde o saldo de sua conta bancária até detalhamento dos arquivos pessoais de seu computador.
Hyoga ficou em choque. Ele continuava passando aquelas páginas, sem acreditar no que estava vendo. Fora tudo uma mentira, um truque barato, como Afrodite havia dito. Ikki ainda o observava, mostrando-se bastante envergonhado e apreensivo, mas neste momento o loiro não se importava com nada disso; sua vida estava exposta naqueles papéis, inúmeras imagens suas pregadas naquelas folhas, junto a informações que, em sua maioria, ele não dava a ninguém. A mando de Ikki, alguém havia revirado o seu lixo e ele não podia acreditar que há poucos minutos estava pedindo perdão por pensar mal de seu chefe por tanto tempo.
– Diz alguma coisa. – o moreno pediu.
Sem atender ao pedido, Hyoga se levantou e seguiu para o quarto do Amamiya, onde começou a recolher suas peças de roupa espalhadas. Ikki o seguiu até o cômodo, esperando que o loiro dissesse algo.
O barman se vestiu, ainda em silêncio, confirmou se não estava deixando nada para trás e voltou à sala, ainda com o moreno em seu encalço. Quando ele recolheu o dossiê e fez menção de sair do apartamento, ouviu novamente a voz de Ikki.
– Você vai sair sem dizer uma palavra? Fique! Esbraveje, xingue ou o que for, mas fique e vamos conversar.
Aquelas palavras pareceram inflamar a raiva sentida pelo loiro, que até então a mantinha contida.
– Babaca! – bufou. – Você não passa de um babaca, Ikki Amamiya! – aproximou-se do outro, seu rosto carrancudo não escondendo nada da enorme decepção que sentia. – Foi bom enganar o trouxa aqui? Aproveitou bem o corpo do loirinho ingênuo?
– Não se trata disso, Hyoga! Eu nunca usei este dossiê pra enganar você, tudo o que eu queria era me sentir mais próximo, saber mais de você, mas não usei as informações que estavam aí para...
– Não se dê ao trabalho de se explicar, senhor Amamiya! Não precisa mais fingir, agora que você já me comeu de tudo quanto é jeito, pode sair do personagem que criou pra me atrair!
– Não é nenhum personagem, loiro! Este sou eu!
– Você brincou comigo, Ikki! – embora profundamente magoado e enraivecido, Hyoga mantinha seu tom de voz baixo.
– Não foi a minha intenção.
– Tudo o que você disse foi mentira, não é? Todo aquele papo de que me observava a quase um ano, que só queria uma chance pra mostrar o que poderíamos ser juntos, o quanto eu era especial pra você... Tudo mentira!
– Tudo o que eu disse foi sincero, Hyoga. – Ikki se aproximou do jovem e tocou seu ombro. – Eu sou apaixonado por você. Se olhar este dossiê com atenção, verá que as observações que eu fiz a seu respeito não estavam aí.
– Você vai mesmo me dizer que nunca usou as informações que estão aqui? – o jovem se desvencilhou do toque do outro e ergueu o dossiê, exibindo-o como a prova de um crime. – Daqui a pouco vai querer me convencer de que nem sequer leu isto aqui.
– Eu não minto pra você. – o moreno suspirou e passou a mão por seus cabelos, desarrumando-os. – Eu li esse documento muitas vezes e usei, sim, duas informações. Mas não as que você pensa, tampouco com a finalidade que você acredita.
Hyoga cruzou os braços e o encarou.
– Quando te convidei para o show do U2, eu o fiz porque sabia que você curtia a banda e tinha se inscrito em várias promoções para ganhar ingressos. Não, eu não queria te levar para a cama, eu queria te conhecer, estar perto de você e conversar... Eu queria um encontro. Queria que você me desse uma chance de mostrar que eu não era o que você pensava.
– Qual foi a outra informação? – O loiro ignorou solenemente as palavras do Amamiya.
– Sua dificuldade em prosseguir com a faculdade.
O barman bufou.
– Você fez com que me dessem uma bolsa de estudos integral pra que eu continuasse estudando? – perguntou com descrença.
– Não. Eu criei um programa de bolsas de estudo por você.
Por um momento, Hyoga ficou sem fala. Ele abriu a boca para dizer algo, mas não conseguiu pensar em absolutamente nada. Estava confuso e chateado demais para se comover propriamente com aquilo, mas uma parte dele não parava de querer acreditar que Ikki realmente não tinha tanta culpa como ele julgava agora.
– Isso não muda o fato de que a minha vida está exposta nesta porcaria! – ergueu novamente o dossiê, apegando-se àquilo para eliminar qualquer vestígio de piedade pelo outro.
– Eu sinto muito.
– Reviraram o meu lixo, Ikki! Até mesmo os pornôs que eu costumo assistir estão listados aqui; você realmente acha que um “sinto muito” vai mudar alguma coisa?
– Eu sei que...
– Isso é pessoal, Ikki! Pessoal demais! Você não tinha o direito, ninguém tem esse direito. Tem coisas aqui que, mesmo se namorássemos por anos, eu jamais te diria. Eu me sinto humilhado! Você sabe tudo sobre mim. Todas as coisas que eu te falei, você... Você já sabia! E ainda quer que eu acredite que você não usou isso apenas para me levar pra tua cama? Eu fui um jogo pra você, apenas um brinquedo novo na vitrine!
– Eu sei que foi um erro, loiro, eu realmente sinto muito. Se eu pudesse voltar no tempo, eu jamais...
– Bom, agora já é tarde demais e ainda não inventaram uma máquina do tempo, então... Esquece! – Hyoga caminhou para a saída do apartamento. – Sabe o que mais me chateia? – parou e encarou novamente os olhos índigos. – Eu realmente acreditei em você. Hoje, mais do que em qualquer outro dia. Acho que o verdadeiro babaca aqui sou eu, não é?
O barman abriu a porta e saiu. Ikki, desesperado, seguiu atrás dele sem se importar com o fato de estar usando apenas uma cueca.
– Aonde vai? – perguntou assim que alcançou o loiro, enquanto este esperava o elevador.
– Para casa.
– Eu te levo. – segurou o braço do loiro, tentando fazê-lo voltar ao seu apartamento.
– Não quero.
– São três da manhã, Hyoga! Eu não vou deixar que saia por aí sozinho!
– Você não se importou de deixar um completo estranho me seguir para todo lado! – provocou o jovem, sem sequer olhar para o homem seminu ao seu lado.
– Por favor, deixe-me ao menos te levar para casa. Você não precisa me olhar, falar comigo ou nada assim, eu só quero te levar em segurança para casa.
Hyoga olhou para Ikki e as lágrimas em seus olhos cortaram o coração do moreno. Saber que ele era a razão da mágoa que viu ali só o entristecia ainda mais.
– Ok. – o loiro concordou baixinho, voltando a encarar a porta do elevador.
Rapidamente, Ikki voltou ao seu apartamento e vestiu suas roupas de qualquer jeito, com medo de que o barman aproveitasse sua ausência para desaparecer na escuridão da madrugada. Quando retornou ao hall, sentiu-se aliviado por ver Hyoga ali, segurando a porta do elevador.
– Hyoga... – o nome saiu num sussurro, quando ele se juntou ao outro.
O loiro sequer o olhou, apenas apertou o botão que indicava o térreo e, enquanto desciam, esbravejou:
– Eu só aceitei sua carona porque você garantiu que não haveria conversa. Então, por favor, não fale comigo, senhor Amamiya!
A rispidez daquelas palavras desarmou Ikki por completo. Por mais que quisesse consertar a situação, não havia nada que ele pudesse dizer ou fazer agora, além de dar um tempo para Hyoga. O que se passava pela cabeça do loiro era uma incógnita, como sempre, mas era óbvio que depois de um baque como aquele o jovem precisaria de algum tempo para se recuperar.
Com uma feição assustadoramente carrancuda, Hyoga manteve o dossiê agarrado ao seu peito e protegido por seus braços cruzados, quando entrou no Chevrolet Camaro de Ikki. Foi a primeira vez que o loiro entrou no deslumbrante carro, mas a raiva que sentia o impediu de observar com mais atenção o belo veículo. Os trinta minutos do trajeto até a casa do barman passaram pesarosamente devagar, num silêncio cortante em que o som do motor do Camaro parecia quase ensurdecedor, em meio à quietude da madrugada. O Amamiya continuou cumprindo o combinado e não ousou dizer qualquer coisa, embora sua mente fervilhasse tentando descobrir a melhor forma de se desculpar.
Quando estacionou em frente à casa de Hyoga, Ikki não teve tempo de dizer o que quer que fosse, pois o loiro saiu de seu carro tal qual um foguete, batendo a porta do veículo com violência e sequer olhando para trás.
O moreno permaneceu ali por vários minutos, sem saber exatamente o que fazer. Sua vontade era gritar, correr atrás do barman e forçá-lo a ouvi-lo, mas nada disso traria qualquer resultado. Ele viu Hyoga retirar a chave do bolso e entrar em casa e, depois disso, ainda ficou encarando a porta vermelha por algum tempo, como se a qualquer momento ela pudesse ser aberta e um loiro muito mais calmo e compreensivo passasse por ela, totalmente disposto a aceitar suas explicações e, mais do que isso, a perdoá-lo.
Em sua mente, imagens tórridas de seus momentos com Hyoga dividiam espaço com as palavras duras e decepcionadas que ouviu, tragando-o numa confusão de paixão, dor e arrependimento. A sensação de perder o loiro depois de tê-lo em seus braços era muito pior do que o amor platônico que sentia antes. Ele havia conhecido o paraíso e, por um erro idiota, era arremessado ao inferno sem qualquer hesitação.
– AHHHHHHHHH!!!! – gritou, extravazando sua raiva ao socar o painel do carro. – Você é um idiota, Ikki Amamiya! – cansado e com as mãos doloridas, o moreno recostou a cabeça no volante, desejando ardentemente que o tempo voltasse e ele pudesse impedir a si mesmo de encomendar o maldito dossiê, aquele documento inútil que lhe causava tanto sofrimento agora.
Ikki esfregou seus olhos, sentindo suas retinas arderem com as lágrimas que se acumulavam ali e que ele insistia em segurar. Queria chorar de raiva, de tristeza, de revolta pela sua incapacidade de manter o loiro junto a si. Estava tudo tão perfeito; muito mais incrível do que ele podia sequer sonhar e, agora, ele voltava à estaca zero. Não, a situação era ainda pior, pois ele já não era alguém que Hyoga ignorava por pura implicância; agora o sobrinho de Afrodite realmente o odiava e possuía uma razão totalmente plausível para isso.
Respirando profundamente algumas vezes, Ikki conseguiu se acalmar o suficiente para dar a partida no carro, embora a desesperadora sensação de perda ainda queimasse em seu peito, transformando até mesmo o natural ato de respirar em uma dolorosa agonia.
Com uma última olhada para o estúdio onde Hyoga vivia, o Amamiya pisou no acelerador e saiu dali, completamente ignorante ao fato de que recostado no outro lado da porta vermelha havia um loiro arrasado, lamentando a dolorosa perda de algo que acreditava nunca ter existido e se sentindo tão magoado que, ao contrário dele, não fazia qualquer esforço para impedir as lágrimas de banharem seu rosto.
Continua...
Notas finais
Primeiramente, devo pedir desculpas pela demora, né? Minha vida anda beeeeemmmm atribulada (estágio,trabalho e faculdade têm tomado todo o meu tempo) e mal tenho conseguido escrever... Mas como eu sou brasileira e não desisto nunca, cedo ou tarde consigo atualizar as fics.
Quero deixar aqui um beijo carinhoso para todos vocês e agradecer especialmente a Belle princesse, Sarah, Angelique, Kassiminha, Alexia-Black, guima, Chakal_Maldito e Lucy black. Obrigada pelo incentivo de vocês!
Beijo a todos!
Mamba
Postado: 26/07/2012
Fale com o autor