Orgulho e Preconceito
4 Deslize
Notas iniciais
CAPÍTULO QUATRO – DESLIZE
Não foi exatamente uma surpresa, quando Hyoga saiu das dependências da faculdade e deu de cara com Ikki. Já esperava que, qualquer dia desses, seu chefe apareceria ali com a intenção de lhe dar uma carona ou, melhor dizendo, com a intenção de impor a própria presença, naquele fim de tarde.
A surpresa, na verdade, ficou novamente por conta do transporte utilizado pelo dono da Stonehenge. A Harley-Davidson em que Ikki estava encostado chamava muito mais atenção do que a limusine do outro dia. Porém, ficou claro que o moreno não estava tentando demonstrar status, já que a VRSC Night Rod Special, com certeza, não era o modelo mais caro da famigerada marca.
No entanto, a beleza da motocicleta preta, unida ao charme do homem recostado nela, atraia o olhar de qualquer um. Ikki usava óculos escuros, uma tradicional jaqueta de couro, jeans e botas. Estava sexy além da conta, Hyoga poderia dizer e, pelo visto, um grupinho de garotas próximas ao loiro concordou, porque elas não paravam de olhar para o Amamiya e soltar risinhos animados.
Por um momento, Hyoga permaneceu onde estava, pois dali podia ver Ikki muito bem, sem ser imediatamente descoberto, já que as garotas do grupinho o encobriam. O loiro observou que o moreno parecia sério, talvez até mesmo apreensivo, enquanto aguardava sua saída da faculdade. Ele pensou se deveria dar meia volta e sair pela outra portaria, mas não teve coragem de deixar seu chefe a ver navios. Haviam feito um acordo e ele seria honrado o bastante para cumpri-lo.
Aproximou-se de Ikki, mantendo os olhos fixos na moto e tentando, com muito custo, ignorar o moreno e fingir que sua presença não era nem um pouco intimidante.
– Bela máquina. – Hyoga disse ao estar perto o bastante, tomando inclusive a liberdade de correr as mãos pela motocicleta.
– Obrigado. Esse aqui é o meu bebê. – o moreno permaneceu sério, talvez porque esperava atrair mais atenção do que sua moto.
– E quantos desses bebês você tem? – Hyoga riu.
– Não faço coleção, loiro. Eu poderia, se quisesse, mas não quero.
– O que você veio fazer aqui? Se certificar de que eu não falte ao trabalho? – Hyoga finalmente olhou para Ikki, mas caprichou no seu olhar indiferente.
– Algo assim… Achei que poderíamos comer alguma coisa, antes de irmos para a boate.
– Hmm… Eu gostaria disso, pois estou faminto! – o loiro sorriu e, pela primeira vez, Ikki também.
Estavam quase colocando o capacete quando duas moças se aproximaram. Hyoga logo reconheceu as alunas do curso de biologia, recentemente eleitas – numa das calouradas promovidas pelo grêmio – como as mais bonitas de toda a faculdade.
– Oi, Hyoga.
– Oi. – apesar de estranhar o fato delas se aproximarem, o russo respondeu educadamente.
Houve alguns segundos de silêncio, em que Hyoga não pôde identificar o que as garotas queriam, mas logo sua dúvida foi sanada. Uma das meninas, aparentando uma coragem súbita, estendeu a mão para Ikki e o cumprimentou.
– Oi, meu nome é Maya.
Ikki não pareceu nem um pouco desconcertado e apertou a mão de Maya, lançando a ela um sorriso plácido.
– Olá, eu sou…
– Nós sabemos! – a amiga de Maya o cortou. – Você é Ikki Amamiya, dono do Grupo Fênix. É um prazer conhecê-lo, Ikki. A propósito, eu me chamo Amy.
– É um prazer conhecê-las. – o moreno disse, olhando de relance para Hyoga.
O que aconteceu em seguida foi completamente surreal, pelo menos para o loiro. Os três engataram um papo aparentemente divertido, cheio de risadas e muitas jogadas de cabelo e piscadelas por parte das garotas. O Amamiya, no entanto, não ficava atrás e jogava charme para elas, mesmo que inconscientemente.
Após quase dez minutos daquilo, Hyoga se cansou de ser ignorado e devolveu o capacete ao seu chefe, com um pouco mais de brutalidade do que realmente necessitava. Pelo menos, Ikki não pôde ignorar a batida do objeto em sua barriga, que lhe arrancou um gemido mais de surpresa do que de dor e, finalmente, o moreno parou de olhar para as moças e encarou Hyoga.
– Tchau. – o loiro disse, ajeitando a alça de sua mochila carteiro e caminhando para longe dos três.
– Hyoga! – Ikki tocou levemente o braço de uma das moças, num silencioso pedido de desculpa e saiu correndo atrás do loiro. – Hyoga, espera! E o nosso lanche?
– Você parece muito entretido com a conversa e eu realmente estou com muita fome. Vou comer alguma coisa, depois te encontro aqui ou vou direto para a boate, se você preferir. – ele continuou andando, sem se importar com o moreno em seu encalço.
– Suas amigas já se foram, eu posso muito bem te levar para comer. Afinal de contas, não foi para isso que eu vim aqui?
Hyoga olhou para trás e avistou as garotas se juntarem ao grupinho de meninas, dizendo algo que fez as risadas aumentarem. Provavelmente estavam se gabando pelo papo com Ikki e maldizendo o loiro por ter interrompido a ótima interação.
– Vamos? Pensei que você estivesse faminto! – Ikki insistiu.
Vencido, Hyoga voltou para a moto, junto com o moreno.
Quando subiu na motocicleta, o loiro não soube muito bem o que fazer. Constatou rapidamente que não havia onde se segurar e, acanhado, tentou se equilibrar sem se apoiar em Ikki. Porém, bastou uma arrancada violenta para que o loiro envolvesse o moreno com seus braços, sem pensar duas vezes.
Mesmo com a viseira do capacete abaixada, os risos de Ikki puderam ser ouvidos e Hyoga, então, teve a certeza de que aquilo foi proposital. Não apenas a arrancada, mas também o meio de transporte escolhido e a falta de uma alça para que ele se segurasse.
Se o plano de Ikki era fazer com que Hyoga o tocasse, deu muito certo. No início, até que o loiro mudou suas mãos de posição, segurando apenas na cintura de seu chefe. Entretanto, pouco mais de quinze minutos depois, o barman já estava confortável o suficiente para voltar a abraçar Ikki, sem muito acanhamento ou irritação pela armadilha.
O loiro pensava a todo o momento que não havia nada demais naquilo; era apenas uma carona, afinal de contas. Não importava se suas mãos, devido à trepidação da motocicleta, vagavam involuntariamente pela barriga de Ikki. Está bem, não havia tanta trepidação assim, mas qual o problema? Não havia nada de errado em aproveitar de sua posição e explorar o corpo de seu chefe; Hyoga só estava tentando verificar a veracidade dos boatos de que o corpo do Amamiya era escultural e, mesmo com a camiseta impedindo, ele pôde sentir cada gomo da barriga do outro e constatar que os rumores eram verdadeiros.
Ainda havia muito tempo até que o expediente de Hyoga na boate começasse. Como o loiro estudava no turno vespertino e só batia ponto na Stonehenge às nove e meia da noite, eles teriam cerca de quatro horas para ir onde quer que Ikki planejasse.
Após mais alguns minutos, Ikki estacionou na frente de uma cantina; uma espécie de restaurante bastante simples, construído próximo à praia e cuja comida cheirava muitíssimo bem.
– A lagosta daqui é divina. Você gosta? – o moreno perguntou ao descer da moto e retirar o capacete.
– Vai me achar muito provinciano se eu disser que nunca comi? – o loiro jogou a cabeça para trás, ajeitando os cabelos após retirar o capacete.
– De maneira nenhuma.
Ikki tentou responder, mas suas palavras foram apenas balbuciadas, já que suas cordas vocais perderam a força ao ver o que Hyoga estava fazendo. Com a cabeça para trás, os fios dourados sendo penteados com as mãos macias que agora a pouco tocavam o peito do Amamiya e o pescoço alvo bastante exposto, o loiro era o que poderia ser chamado de caminho para a perdição.
Ikki, absolutamente encantado, não escondeu o quanto estava embasbacado com a sensualidade e beleza daquele loiro. Hyoga conseguia prender seu olhar com pequenos gestos, deixá-lo completamente aceso sem qualquer esforço e, para um homem que já havia conquistado muitos e muitas, isso era realmente uma proeza e tanto.
Era impossível não notar o olhar luxurioso que o moreno direcionava ao seu funcionário e é claro que o loiro percebeu imediatamente o que estava causando em seu chefe; um tanto quanto acanhado, já que não media seus gestos com o intuito de seduzir Ikki, Hyoga simplesmente parou de arrumar seus cabelos e seguiu para dentro do restaurante, com o moreno logo atrás de si.
Os dois pediram lagostas e o loiro precisou concordar que o sabor delas era algo divino, como o Amamiya havia dito. Depois de algum tempo de conversas amenas e de descobrir que aquele restaurante pertencia a uma cooperativa de pescadores muito ajudada por Ikki, Hyoga lembrou-se do acontecido na porta da faculdade:
– Aquelas garotas estavam te cantando descaradamente. – ele comentou.
– Verdade. – o moreno abriu mais um de seus sorrisos encantadores.
– E você estava retribuindo muito bem…
– Sério?! Acho que não… Eu conversei com elas, mas não fiz nada que pudesse ser considerado… – Ikki começou a se explicar, mas Hyoga o cortou.
– Você jogou charme para elas.
– Não foi intencional. – o moreno admitiu, ainda sorrindo.
– É, eu sei. Não pareceu intencional. Você não aparentava querer enfeitiçá-las, mas acabou enfeitiçando, de qualquer forma. Você sempre seduz as pessoas com essa facilidade?
– Às vezes.
– Isso é mais uma prova de que você pode ter quem bem entender. Para você, não deve ser difícil conseguir uma companhia interessante.
– É, pode até ser. O único problema é que eu só quero você.
– Acho melhor nós irmos, Ikki. Eu ainda tenho que verificar o estoque do bar antes de abrirmos… – o barman desconversou.
– Você ficou com ciúmes? – o moreno novamente não conteve o sorriso.
– Foi apenas um comentário, Ikki. Achei interessante o que aconteceu e estava me perguntando se isso acontece com frequência na sua vida. Por favor, podemos ir embora?
– Como quiser. – Ikki assentiu alegremente, não se contendo de tanta satisfação.
No trajeto até a boate, Hyoga continuou sua exploração pelo peito do moreno. Agora já não tinha uma desculpa plausível para dar a si mesmo, então admitiu que essa proximidade com Ikki era muito gostosa, mas sabia bem que era apenas uma coisa de pele, nada mais. O Amamiya era um homem muito atraente, pelo menos isso ele não poderia negar.
Quando estavam próximos à boate, Hyoga pediu:
– Você pode me deixar um quarteirão antes? – gritou, já que sua voz estava sendo abafada pelo capacete.
– Está com medo de ser visto na minha garupa? – Ikki gritou de volta, rindo.
– Não quero que as pessoas tenham uma impressão errada a nosso respeito. Não quero ser mais um funcionário a ser questionado se você é realmente tão bom de cama quanto os outros dizem. – retrucou o loiro, sem saber ao certo o porquê da alfinetada gratuita.
Atendendo ao pedido do loiro, Ikki parou a moto um quarteirão antes de chegarem a Stonehenge.
– Obrigado. – Hyoga desceu da motocicleta e entregou o capacete ao moreno.
– Sem problema. A gente se vê lá dentro?
O barman assentiu com a cabeça e, antes de partir, Ikki acrescentou:
– Eu nunca tive nada além de um relacionamento profissional com meus funcionários. Você é o primeiro que assedio e, se tudo der certo, será o único naquela boate que poderá dizer qual é o gosto da minha boca e como eu sou na cama. O resto, loiro, é puro boato e conversa de quem não tem o que fazer.
Um pouco descrente com a declaração do moreno – afinal, o episódio com Bill ainda não tinha saído de sua mente – Hyoga viu seu chefe seguir para a boate.
Na Stonehenge, o trabalho seguia normalmente. Hyoga era o barman mais requisitado e o mais cantado também, graças à matéria escrita por Esmeralda. O assédio sobre o loiro, que já era grande, aumentou consideravelmente após a publicação da revista. Ikki, por sua vez, também passou a fazer visitas muito mais constantes ao bar, retaliando cada investida que algum de seus clientes fizesse no barman loiro.
Hyoga estava até se divertindo com as formas nada amigáveis que Ikki encontrava para afugentar seus admiradores. Com a delicadeza de um cachorro da raça Pit Bull, o Amamiya não fazia a menor questão de ser educado com os mais atrevidos para cima do loiro. Com aqueles que se julgavam bons o suficiente para chegar tocando, então, o moreno era enfático: “Não é permitido assediar os funcionários da casa”, repetia, embora ficasse bastante claro que sua afirmação era válida apenas para Hyoga.
O loiro ainda estava rindo do último desavisado a ser enxotado do bar e escoltado pelo próprio Ikki até o outro canto da boate, quando pôde ouvir, em meio ao som alto, uma voz pra lá de conhecida.
– Uma cerveja, por favor.
Ainda com um resquício de esperança de que estivesse enganado, o loiro olhou para cima e constatou que realmente se tratava de Henry, seu ex-namorado. Tratando de ignorar a presença insolente que tanto o ofendia, o barman atendeu ao pedido de uma moça ao lado, fazendo questão de manter seus olhos fixos na coqueteleira.
– Não vai me atender?
Henry insistiu, aumentando um pouco mais a voz; porém, não recebeu nada mais do que o silêncio do loiro.
– Pensei que você fosse mais maduro do que isto, Hyoga. – ele provocou, certo de que assim obteria alguma atenção. Ledo engano. Hyoga era controlado o suficiente para não cair na provocação de qualquer um. Podia-se contar nos dedos de uma só mão a quantidade de pessoas capazes de fazer ferver seu sangue gelado; Ikki definitivamente estava entre elas, mas isso não vem ao caso.
– Vai bancar a garotinha mimada e me ignorar? – continuou Henry, já começando a se irritar.
Desesperado e ofendido, o homem apelou para a única opção que lhe restava, ou seja, tentar atingir o coração de Hyoga.
– Eu te amo. – ele disse, tentando ser bastante convincente.
Sendo verdadeira ou não, a afirmação foi capaz de provocar ao menos uma reação naquele loiro frio. Entretanto, não foi exatamente a reação esperada, já que Hyoga pôs-se a gargalhar, como se tivesse acabado de ouvir uma piada extremamente engraçada.
– Você ouviu bem o que eu disse? – esbravejou Henry.
– Sim, eu ouvi. E acho que nunca escutei nada mais hilário! – retrucou Hyoga, preparando um novo drink para outro cliente.
– Precisamos conversar, Oga.
– Não me chame assim e, por favor, vá embora. Eu não posso falar com você.
– Não pode, por quê? – questionou o homem de cabelos castanhos, corpo esguio e feições de modelo.
– É difícil explicar. – a voz imponente de Ikki pôde ser ouvida, à medida que o moreno se posicionava detrás de Henry. – Mas não acho que você vá entender, então… Dê o fora!
– O meu assunto é com o Hyoga. – retrucou Henry.
– Ele não quer e não vai conversar com você. – Ikki se impôs.
– Ah é? E quem é você para se intrometer nisso?
– Sou o dono deste lugar, chefe do Hyoga e…
– Ikki! – o loiro repreendeu o Amamiya antes que ele completasse sua frase. – Eu sei me defender sozinho. Por favor, deixe-me…
Ikki pensou rápido. Não deixaria o loiro entregue às mãos e boa lábia do tal Henry; após investigar um pouco a vida do rapaz, soube que o ex-namorado era um homem bastante bom com as palavras, bom o suficiente para conquistar o barman sem muito esforço. Agora que eles estavam às turras, não deixaria brecha alguma para que voltassem às boas.
– Hyoga, preciso que faça um relatório sobre nosso estoque de bebidas. – pediu o moreno.
– Ikki, senhor, nós estamos bem supridos lá dentro.
– Que bom. Entretanto, faça-me um relatório e eu mesmo tirarei minhas próprias conclusões a respeito disso.
Com um olhar raivoso para o moreno, mas um tanto satisfeito por ter se livrado da presença de Henry, Hyoga foi para o depósito fazer a tarefa mais chata daquela boate.
– Dê o fora da minha boate! – Ikki disse a Henry, assim que Hyoga virou as costas. O moreno não gritou; fez, na verdade, o contrário; o Amamiya proferiu calma e pausadamente cada palavra, tomando o cuidado de soar altamente ameaçador ao outro.
– Você não pode me expulsar assim. Eu posso até processá-lo, sabia? Não fiz nada de errado! – defendeu-se Henry.
– A boate é minha, expulso quem eu bem entendo. Se quiser me processar por isso, fique à vontade! Agora, por favor, saia.
Não foi preciso muito mais para que o homem saísse, embora demonstrasse uma profunda irritação não apenas pela atitude de Ikki, mas também pela indiferença de Hyoga.
oOo
A batida na porta de seu escritório chamou a atenção de Ikki, até então completamente perdido em pensamentos. A boate havia fechado há quinze minutos, mas ele sabia muito bem quem estava à sua porta.
– Entre, Hyoga.
O loiro entrou, jogou algumas folhas rascunhadas sobre a mesa e se sentou no sofá de couro negro.
– Se quiser um relatório bonitinho, vai ter que me deixar usar o seu computador. – declarou o barman, apesar de seu olhar frio parecer gritar: “Nem ouse me pedir que arrume isto!”.
– Não há necessidade, obrigado.
Aliviado, Hyoga se levantou.
– Então eu já vou indo, chefe. Até mais...
– Espere! Eu vou te dar uma carona.
– Não precisa, Ikki. Eu vou…
– Ele está te esperando lá fora, não é? – o moreno não escondeu a decepção que sentia.
– Ele quem?
– Henry Connely.
– Como sabe o nome dele? – o loiro o olhou com desconfiança.
Ikki ficou um pouco desconfortável, mas pensou rapidamente numa desculpa:
– Ele me disse depois que você saiu. Você não me respondeu.
– Eu não sei se ele está lá fora, Ikki. Nem me interesso, está bem? Não se preocupe, honrarei nosso contrato.
– Então você não conversará com ele apenas por causa do nosso contrato? – exigiu saber o moreno.
– Não, Ikki. Tenho meus motivos, também. Por que tudo isso? – a insegurança que aquele homem estava demonstrando não combinava nem um pouco com sua figura imponente.
– Eu sei que você gosta dele. Mas o que eu realmente gostaria de saber é o quanto você gosta dele. Você o ama, Hyoga?
– Isso já não é importante…
– Está enganado, pois isso tem toda a importância do mundo! – Ikki insistiu.
Hyoga relutou por um momento, apenas encarando o moreno ansioso por uma resposta sua.
– Ele me traía. Naquela viagem, em que cheguei de surpresa, eu o peguei transando com um casal; o cara com quem ele divide apartamento e a namorada...
– Eu entendo. – Não era exatamente a resposta que Ikki esperava, pois havia muita mágoa nas palavras do loiro e, geralmente, mágoas assim apenas escondiam outros sentimentos; como o amor, por exemplo.
– Comigo, só se erra uma vez. E se tem uma coisa que prezo numa relação é a fidelidade, Ikki. Eu não divido o que é meu.
– Eu vou me lembrar disso.
Ikki tentou soar otimista, mas não conseguiu totalmente. Não sabia ao certo se deveria entender aquilo como uma dica dada pelo loiro, ou se era novamente a mágoa falando através dele, tentando convencer ao próprio Hyoga de que não deveria perdoar o ex-namorado.
Isso murchou completamente o moreno. Estava tão satisfeito pelo passeio de moto e pelas atitudes de Hyoga em sua garupa. Não, a exploração do loiro não passou nem um pouco despercebida. Ikki curtiu cada segundo, cada toque das mãos macias do outro. Por um momento, havia pensado até mesmo em erguer sua camisa e sentir o contato daquelas mãos contra sua pele, mas achou que isso assustaria Hyoga em demasia e acabou afastando esse pensamento de sua mente.
Agora, depois de um fim de tarde tão maravilhoso, Ikki se deparava com a informação de que Hyoga poderia, sim, sentir algo forte pelo tal Henry. Desolado, o Amamiya nem teve forças para insistir na carona; acabou permitindo que o loiro saísse de seu escritório e fosse sozinho para casa ou, quem sabe, com uma companhia nada agradável.
oOo
Hyoga se arrependeu de ter recusado a carona no instante em que saiu da boate. Henry realmente o estava esperando do lado de fora, encostado num carro azul marinho.
– Posso te acompanhar até em casa?
– Droga! Qual o problema de vocês? Sei me cuidar muito bem, não preciso de escolta até minha casa. – esbravejou Hyoga, cansado de ser tratado como se fosse uma delicada dama.
– E quem disse que quero te escoltar? Sabe, estou perdido por aqui e essa cidade é tão grande que me dá medo. Posso andar ao seu lado? Você me parece tão forte, seguro, protetor e...
– Pare com isso, Henry! – o loiro evitou olhar para o homem que ria ao seu lado. – Eu não quero falar com você.
– Isso não é verdade. Lá dentro, você não poderia falar comigo, o que é diferente de não querer. Agora que aquele ogro não está mais aqui, deixa de besteira, vai. Aja como o cara sensato e civilizado que é e fale comigo, precisamos conversar…
– Não preciso das suas desculpas, nenhuma delas será convincente.
– Eu não vim inventar desculpas, Hyoga. Você viu o que viu, não há como negar. Eu estava chupando um cara enquanto metia na namorada dele; como eu poderia justificar algo assim?
– Que bom que você sabe disso. Agora dá o fora!
– Posso te deixar em casa? Está frio aqui fora, você está cansado…
– Não.
– Hyoga, eu amo você. Cometi meus erros, disse a mim mesmo que você não faria falta, mas você faz. É você que eu quero! Por favor, deixe-me provar isso. Tem tanta coisa que eu quero te falar, tantas… Vem, eu vou te levar para casa. Uma carona inocente não vai te arrancar um pedaço, não é?
Hyoga poderia culpar o frio, o cansaço, o tempo que ganharia ao não ter que esperar o ônibus… Mas a verdade é que sentia a necessidade de terminar decentemente aquela relação. Queria olhar nos olhos de Henry e dizer tudo o que estava entalado em sua garganta, esbravejar e expor toda a decepção que sentiu ao presenciar a traição que sofreu. Então, ele seguiu com o ex-namorado e, pela primeira vez, desonrou o contrato que tinha com Ikki.
Hyoga, mesmo cansado, permitiu que Henry entrasse em sua casa para que conversassem. Falaram durante pouco mais de uma hora, expuseram seus sentimentos, o loiro perdoou a infidelidade do outro, mas deixou bem claro que não o queria de volta. Por muito pouco ele não teve uma recaída, principalmente quando Henry, ardiloso, abraçou-o e beijou seu pescoço com a mente cheia de segundas intenções. O barman resistiu bravamente, manteve-se firme em sua decisão e acompanhou o ex-namorado até a porta.
– Hyoga, por favor, vamos tentar de novo… Nós temos uma sintonia tão legal, não acho certo que joguemos fora…
– Henry, eu já te expliquei, comigo…
– Só se erra uma vez. Eu entendi isso da pior maneira. – lamentou. – Cuide-se, tá? – os dois se abraçaram. – Se você se arrepender dessa decisão, promete que me procura?
– Prometo. – assentiu o loiro com um sorriso.
Antes de ir, Henry tocou carinhosamente o rosto do loiro e deu um beijo rápido nos lábios dele. Era apenas um selinho, uma despedida daquele a quem realmente amava. Ele sentiu que Hyoga estava tão relaxado ou cansado que poderia facilmente começar a ceder; estava prestes a abrir a boca e tentar aprofundar o beijo, quando ouviu o arrancar violento de uma motocicleta.
Ikki foi embora tão rápido que, se Hyoga não conhecesse sua moto e suas vestimentas, não imaginaria que o motoqueiro se tratava de seu chefe. O loiro não pôde ver o rosto do Amamiya, mas nem precisava disso para saber que Ikki estava enfurecido e, claro, o contrato cancelado. Talvez fosse até melhor assim, mas o barman não conseguiu evitar que uma pontada de culpa e tristeza surgisse em seu peito. Seria um lamento por perder de vez a Stonehenge? Talvez…
Notas finais
Alexia-Black, LaraAmamiya, Belle_princesse, klotus, lucy_black e Kassiminha, obrigada pelo carinho. Vocês são demais!
Beijos a todos que acompanham!
Mamba Negra
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