Orgulho e Preconceito
3 Artimanhas
Notas iniciais
CAPÍTULO TRÊS – ARTIMANHAS
– Vocês o quê?
O brado de Shun ecoou por toda a boate. Chocado, o Amamiya mais jovem não conseguiu reprimir seu espanto diante do pedido insano de seu irmão.
Há pouco menos de quinze minutos, Shun entrou no escritório do dono da Stonehenge e, numa reunião a portas fechadas com Ikki e Hyoga, foi convidado a elaborar um contrato sobre a aposta mais ridícula que já ouviu nos seus vinte e quatro anos de vida.
– Nós queremos que você faça um contrato, Shun. Nada muito exagerado, só precisamos que a aposta fique devidamente regrada e documentada. – Ikki repetiu seu pedido anterior, sem muita paciência.
Shun se sentou e afrouxou a gravata. Ainda não podia acreditar na insensatez de seu irmão, estava bastante claro que o loiro displicente sentado ao seu lado afetava profundamente a capacidade mental de Ikki.
O jovem Amamiya olhou novamente para Hyoga; entendia o fascínio que a beleza do barman causou em Ikki, mas começava a se perguntar se aquilo não teria ido longe demais.
– Ikki, eu realmente não concordo com isso. Apreciaria se você não me envolvesse no assunto. – fez uma última tentativa, sabendo que seria em vão.
– Shun, você é meu advogado. Eu só estou pedindo que elabore um simples contrato.
– Você não vê que ele vai mentir? – Shun apontou o loiro. – Não importa o que aconteça ou o que você faça, ele jamais admitiria caso se apaixonasse. Eu não entendo por que se sujeitar a isso…
– Hyoga, pode nos dar licença por alguns minutos? – Ikki pediu com delicadeza. Assim que o barman saiu, virou-se para seu irmão. – Shun, sei muito bem que ele pode mentir, mas preciso correr esse risco. Só quero passar algum tempo com ele e essa é a única chance que eu tenho. Se depois de tudo eu não tiver mais a Stonehenge, terá valido muito a pena, por ao menos ter tentado conquistá-lo.
– Deus, eu odeio quando você faz esse olhar. – o irmão caçula bufou, admitindo sua derrota. – Espero que saiba o que está fazendo, Ikki.
– Eu sei.
Hyoga foi chamado de volta à sala e, quando entrou, reparou imediatamente no sorriso vitorioso que seu chefe mantinha e no notebook de Shun sobre a mesa.
– Está bem! Posteriormente, eu vou precisar de alguns documentos de vocês, mas, por hora, basta que listem as regras gerais da aposta. – disse o jovem advogado.
– Sem contatos físicos. – o loiro apressou-se em dizer.
– Podemos ser mais específicos nisso? – Ikki se intrometeu. – Nada de beijos, abraços ou sexo por iniciativa minha, Shun. Entretanto, se Hyoga assim desejar, ele tem a liberdade de tomar tais atitudes ou permitir que eu as tome.
Hyoga engoliu em seco. Aquele homem era, de longe, o ser mais confiante e presunçoso que já vira. Ikki parecia estar tão certo de que o conquistaria que o olhava nos olhos enquanto proferia aquelas palavras, como se soubesse que, mais cedo ou mais tarde, seria o loiro quem o agarraria.
– Certo, o que mais? – Shun terminou de digitar e voltou seu olhar para Hyoga.
– Eu não tenho mais nenhuma exigência. – respondeu o barman.
– Ikki? – o advogado olhou para seu irmão e posicionou os dedos sobre as teclas, certo de que digitaria muito a partir de agora.
– Bom, se eu me sentir ignorado, o contrato está automaticamente cancelado; Eu escolho os locais aonde iremos juntos; Conversaremos por telefone ao menos uma vez por dia e teremos um número mínimo de encontros por semana, digamos…
– Três é um bom número… – Shun completou, recebendo um sorriso de seu irmão mais velho e um olhar reprovador de Hyoga.
– Pensei que seu irmão saberia ser imparcial nessa história. – o loiro cobrou de Ikki.
– Ele está dando uma opinião neutra… Eu também acho três um bom número. – o moreno sorriu. – Bom, realmente não há nada mais que você queira acrescentar? – questionou novamente ao barman.
Hyoga pensou por um momento.
– Não me ocorre nada agora, senhor.
– Está bem. Eu gostaria de inserir mais uma regra, se me permite. – Ikki voltou a dizer. – Hyoga, eu não quero que você veja seu namorado durante esse mês. Na verdade, não quero que tenha qualquer contato com ele, seja por telefone, fax, email ou o que quer que seja.
– Isso não será um problema.
– Não? – Ikki ergueu uma sobrancelha, surpreso.
– Eu não tenho mais namorado, senhor. Quer dizer, ainda não conversamos propriamente, mas posso garantir que não pretendo vê-lo durante o tempo em que estiver comprometido com nossa aposta.
Sim, a viagem não foi como ele havia planejado. Na realidade, nada saiu como o esperado. Para falar a verdade, foi uma das situações mais humilhantes que já viveu. Em sua imensa lista de enganos com parceiros, pôde acrescentar mais um: jamais fazer uma visita surpresa ao seu namorado, você pode ver o que não quer.
– Ótimo! – Ikki interrompeu seus pensamentos. – Quem sabe agora você conheça o que é um homem de verdade e para de se interessar por tipos estranhos.
– Acho difícil, chefe, já que serei obrigado a sair com você primeiro… – retrucou o loiro.
Por alguns segundos, seus olhos ficaram fixos um no outro. Olhavam-se de forma desafiadora, orgulho e afronta quase palpáveis, de tão inflados.
– Então, nós terminamos? – Shun quebrou o momento, evitando a briga que estava prestes a acontecer. De uma coisa tinha certeza: se esses dois não se matassem durante esse mês, já estaria de bom tamanho.
Depois de acertarem os demais detalhes do contrato, Shun recolheu suas coisas, beijou o rosto de Ikki, apertou a mão de Hyoga e saiu, deixando o seu irmão e o barman sozinhos.
– Então, o que o namoradinho te fez? – provocou Ikki.
– Não é da sua conta, senhor. – retrucou Hyoga. Agora que o contrato já estava encaminhado, não via razão para permanecer ali aguentando as provocações de seu chefe; sendo assim, levantou-se e caminhou para a porta, mas lançou um olhar gélido para o moreno sorridente antes de deixar o escritório.
Quando se viu sozinho, o sorriso de Ikki tornou-se ainda maior.
– O primeiro passo já foi dado, loiro. – comemorou.
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Hyoga praguejou algumas vezes ao chutar o pé da cama, enquanto caminhava até o espelho. Infelizmente, a disposição dos móveis fazia desse evento algo mais frequente do que o loiro gostaria. A quitinete em que vivia era, na verdade, um antigo estúdio de seu tio, um lugar onde Afrodite costumava expressar sua arte, como costumava dizer. Depois que a Stonehenge foi vendida, o homem perdeu o prazer em pintar e passou o lugar para Hyoga, que logo o transformou em seu lar.
Apesar de não ser grande, a quitinete tinha a grande vantagem de possuir um aluguel barato, que o barman sempre fez questão de pagar ao tio, além de ser um lugar bastante charmoso.
O loiro verificou sua aparência no espelho e sorriu satisfeito. Não estava completamente desleixado, mas também não demonstrava um cuidado demasiado que poderia enviar a mensagem errada ao seu chefe. Simplesmente pegou as primeiras peças que encontrou no guarda roupa e, por sorte, a velha camisa azul destacava seus olhos e a calça jeans completava o despojado visual.
Ouviu três buzinadas e soube que Ikki já o esperava. Antes de sair, inspirou profundamente e procurou não pensar no que estava fazendo. Prometeu que não iria julgar a si mesmo, não quando suas atitudes tinham boas intenções. Estava certo de que jamais se apaixonaria por Ikki e, se nesse processo conseguisse devolver a Stonehenge para Afrodite, não via como poderia estar sendo mal.
A limusine estacionada na frente de sua casa foi algo totalmente inesperado. Não demonstrou sua surpresa, entretanto; Nem sorriu, quando Ikki baixou o vidro fumê e se revelou.
– Você é realmente um esnobe, não é? – disse o loiro ao entrar no veículo.
O moreno riu baixo, daquela forma carregada de escárnio que tanto irritava Hyoga.
– Bom, você pode até fazer pouco caso, mas eu sei que a ideia de passear por aí de limusine te faz muito feliz… – retrucou Ikki, ainda rindo.
– Eu não julgo as pessoas pelo transporte que elas usam, chefe.
– E o que te faz pensar que eu faço isso?
Hyoga não respondeu de imediato. A razão de ter tal pensamento a respeito de Ikki era muito óbvia. Mas o Amamiya não pareceu satisfeito com o silêncio e se aproximou, com a sobrancelha arqueada, desafiando-o a responder.
– Você alugou uma limusine pra ir a um show do U2. Tudo bem, isso é obviamente uma tentativa tremendamente falha de me impressionar, coisa que eu poderia até achar bonitinho, mas não acho. Só reforça todas as ressalvas que tenho a seu respeito… – Hyoga se explicou, falando rápido e impacientemente.
– Você é tão arrogante que parece irreal, sabia?
– Eu não sou arrogante!
– Ok, acredite no que quiser… – ao perceber que o motorista observava com atenção a pequena discussão, Ikki apertou o botão que erguia a divisória entre a cabine e a parte traseira da limusine.
Nos próximos dez minutos, aproveitando o silêncio que se instalou, Hyoga se permitiu analisar pela primeira vez o luxuoso veículo. Bancos revestidos de couro branco, TVs de LCD; um pequeno bar com taças, bebidas e petiscos; ótimo sistema de som com caixas espalhadas por todos os lados, que nesse momento reproduziam “The Masterplan”, de um dos seus cd’s favoritos do Oasis. O balde com gelo e uma garrafa de Champagne Cristal também não passou despercebido, assim como a fruteira de vidro cheia de morangos, uvas verdes e pêssegos, as três frutas de que mais gostava. Sentiu-se tentado a provar um morango, mas resistiu.
O loiro estava de olhos fechados, apreciando a música, quando ouviu a voz de Ikki.
– Quer algo para beber? Chegaremos ao estádio em cerca de vinte minutos.
– Não, obrigado.
– Eu insisto. – Ikki não esperou que Hyoga retrucasse e já foi logo abrindo o champagne.
– Eu não quero. Não me sinto a vontade tomando uma bebida que custa mais do que ganho por mês, prefiro beber água. – disse o loiro.
– Pode parar com isso? Você já deixou claro que não gostou do transporte, da minha presença, das bebidas, das frutas, da música… Então você pode, por favor, calar a boca, descer do pedestal e tomar esse maldito champagne?
Hyoga piscou algumas vezes, sem saber o que dizer. Ainda um pouco aturdido pelo estouro de Ikki, aceitou a taça de champagne que o outro oferecia sem dizer nada. Após tomar um gole da bebida e compreender, mesmo que parcialmente, o alto preço cobrado por ela, o loiro cedeu à tentação e provou um dos morangos. A explosão de sabor em sua boca foi maravilhosa, tanto que não conseguiu disfarçar o sorriso satisfeito em seu rosto. Olhou rapidamente para Ikki que, mantendo aquele ar zombeteiro, apenas assentiu com um movimento de cabeça, como quem diz: “Eu disse”.
– A música é boa. – o barman puxou assunto, depois de alguns minutos.
– O quê?
– Você disse que eu reclamei da música e isso não é verdade. A música está ótima. Achei tudo isso exagerado, confesso, mas não significa que não tenha gostado. Mas é bom que você entenda uma coisa, chefe: eu gosto de coisas simples, sabe? Então… Nas próximas vezes…
– Nada de limusine? – o moreno completou a frase olhando tão profundamente nos olhos do outro que Hyoga ficou um tanto sem graça e desviou o olhar, encarando o fundo de sua taça enquanto tomava outro gole do champagne.
– É, nada de limusine. – concordou, ainda sem graça.
– Então… – Ikki, ao saber que não havia desagradado tanto quanto pensava, sentiu-se corajoso o suficiente para ser galanteador. – Você admite que eu não sou tão ruim como pareço… Talvez, se tivéssemos nos conhecido em outras…
– Circunstâncias? – Hyoga o cortou. – Hmm… Eu acho que teríamos os mesmos problemas de relacionamento até mesmo se fôssemos almas gêmeas. – o loiro riu com a própria piada.
– Não acha que deveria nos dar mais crédito?
– Honestamente? Não! Ainda não nos vejo no meio de um jogo de sedução, é apenas uma aposta. Já ouviu aquele ditado que diz “Quando um não quer dois não brigam”? Então, acredito muito nisso, principalmente no nosso caso. Você está tentando me comprar, mas não estou à venda.
– Esse é um conceito muito interessante, Hyoga. Você aceitou a aposta, esperando receber alguma recompensa pelo tempo que passará comigo. Não seria um modo de se vender, de certa forma? – Provocar o loiro era algo natural para Ikki. Quando dava por si, já tinha dito algo que poderia ser mal interpretado e facilmente transformado em estopim para uma nova discussão.
– Você já disse tudo, é uma aposta. Se você tivesse apenas me oferecido a boate em troca de sairmos juntos, eu realmente estaria me vendendo. Agora, uma aposta é diferente. Posso ter sido ganancioso o suficiente para aceitar, mas se o fiz é porque tenho total certeza de que não há possibilidade de sentir algo mais por você.
Ikki sorriu.
– Então, podemos concluir que você resolveu aproveitar uma situação que considerava extremamente vantajosa para si mesmo, certo? Exatamente como eu fiz quando comprei a Stonehenge. – acrescentou o moreno, fazendo com que Hyoga percebesse aonde queria chegar com toda a provocativa conversa.
– Como pode querer comparar nossas atitudes? – o loiro disfarçou sua indignação tomando um grande gole de champagne. Quando você comprou a boate de Afrodite, sabia muito bem o que aquele lugar significava para ele; você sabia, inclusive, que se o lugar não era tão lucrativo como deveria, não era por falta de esforço da parte do meu tio… Ikki, você comprou a Stonehenge por um valor tão insignificante que qualquer um consideraria um absurdo! – Hyoga crispou os lábios e seus olhos demonstravam certa ira, mas seu tom de voz continuava baixo e calmo, mantendo a altivez característica.
– Desde que adquiri a Stonehenge, eu venho trabalhando nela noite após noite, sem descansar. Idealizei cada centímetro daquele lugar e participei de todo o processo, desde a reforma até agora… Tenho feito isso por um ano, Hyoga. Você já parou para pensar no que aquela boate significa para mim? Já pensou que ela pode ser minha “menina dos olhos”, tal qual era para o seu tio? Isso não te colocaria na mesma posição em que eu estive, quando fiz a proposta de compra para Afrodite?
Eram tantos questionamentos que Hyoga se sentiu perdido por um instante. Felizmente, eram perguntas retóricas, já que Ikki não pareceu esperar por uma resposta, ou será que sua confusão fez-se notar em seu rosto? De todo modo, o moreno demonstrou estar satisfeito e não disse mais nada, passando a observar a paisagem pela janela.
Depois de mais alguns minutos em completo silêncio, Ikki voltou a se aproximar do loiro e encheu novamente sua taça.
– Eu deveria acrescentar uma nova cláusula ao contrato, proibindo você de me embebedar… – Hyoga sorriu e permitiu que sua taça fosse reabastecida.
– Por que eu faria algo assim?
– Para me levar para sua cama, que é o que você realmente quer com toda essa história de aposta. – retrucou o loiro, sem qualquer embaraço.
Ikki riu com vontade perante a sinceridade de seu barman.
– Nesse caso, tenho duas coisas a dizer, Hyoga. Em primeiro lugar, devo ressaltar que você está completamente equivocado ao julgar minhas razões para nossa aposta. Agi de forma inconsequente e desesperada, confesso, mas não fiz o que fiz pensando exclusivamente na parte sexual da coisa.
O loiro riu, demonstrando sua descrença.
– E o que mais? Vai dizer que me ama e me propor casamento? – provocou o barman, continuando a rir.
– Em segundo lugar – Ikki prosseguiu, ignorando a zombaria. – Quero que saiba que serei paciente. Em algum momento, nós dois faremos coisas deliciosas e impublicáveis, não apenas em minha cama, como em todos os lugares imagináveis. – o moreno fez uma pausa estratégica, aproveitando para comer algumas uvas, enquanto olhava de modo sensual para o loiro. – Mas isso só vai acontecer quando você me desejar tão ardentemente quanto eu a você. Não me importo muito com quanto tempo isso demorará, sei que a espera valerá muito a pena... E você estará completamente sóbrio, consciente de seus atos e pedindo por muito mais…
Antes que Hyoga pudesse processar o que tinha acabado de ouvir e formular uma resposta à altura, o carro parou. O barman olhou para fora e viu o imponente estádio, com milhares de pessoas realmente empolgadas o adentrando.
Enquanto Ikki dava algumas orientações ao motorista e abria a porta para sair, Hyoga pensou no quanto estava ferrado. Não é que seu chefe fosse um cara tremendamente apaixonante, pois não era. Mas controlar seu desejo por um homem tão sensual como aquele não seria uma tarefa simples. Pelo visto, a aposta não seria tão fácil de ganhar como ele julgava inicialmente.
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O show foi maravilhoso, como já esperavam que fosse. Talvez, para Ikki, o evento tenha sido ainda mais proveitoso, já que no calor do momento e tomado por uma alegria genuína, o barman se soltou bastante, tendo lançado até mesmo alguns sorrisos na direção de seu chefe.
Felizmente, a sorte de Ikki finalmente pareceu mudar naquela noite. Os ingressos providenciados por Jabu davam acesso à área bem de frente para o palco, o que fez os olhos de Hyoga brilharem e um empolgado agradecimento ser direcionado ao dono da Stonehenge logo que chegaram. É claro que o moreno se aproveitou como podia da situação e, vez ou outra, fazia algum comentário com a boca bem colada ao ouvido do barman, já que o mesmo mostrava-se desarmado e o som alto dava a desculpa perfeita.
Para o Amamiya, o ponto mais alto da noite surgiu num desses momentos em que o loiro estava absorto demais com o show para rechaçar suas investidas. Após sair para providenciar água, o moreno encontrou Hyoga de pé e com os braços erguidos, reagindo a algo dito por Bono Vox. Sem pensar duas vezes, Ikki aproximou-se por trás e tocou casualmente a cintura do loiro, enquanto balançava a garrafinha d’água diante dos olhos dele. Talvez fosse a adrenalina do momento, a alegria por estar ali ou até mesmo a tensão sexual existente entre eles falando mais alto, mas o fato é que Hyoga não reagiu; pelo menos não de imediato.
Desse modo, foi permitido ao moreno sentir o calor que provinha do corpo do barman, sem que fosse repreendido. Ikki não ousou encostar-se de fato nas costas do loiro, mas estava próximo o suficiente para que o cheiro bom dos cabelos dourados lhe invadisse as narinas. Quando Hyoga finalmente pegou a garrafinha d’água, pareceu se dar conta da proximidade e retirou a mão que acariciava suavemente sua cintura. Ikki soube que o momento estava se acabando e resolveu prolongá-lo um pouco mais, confessando bem próximo ao ouvido do loiro:
– Eu nunca tinha andado numa limusine na vida. Achei que seria maravilhoso ter essa primeira experiência com você e estava completamente certo, loiro. Obrigado.
Hyoga se afastou e se virou, buscando seus olhos. Parecia analisar a veracidade da afirmação dita tão intimamente, como uma verdadeira confissão. Depois de satisfeito com a sinceridade que viu em Ikki, o loiro se afastou um pouco mais, quebrando o momento por completo.
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O chofer estacionou atrás de uma fileira de carros, duas casas antes da quitinete de Hyoga, que precisou de quase dois minutos para perceber que estava próximo de sua casa. O papo animado durante o trajeto de volta, tendo como assunto principal as considerações de cada um sobre o show, foi o grande causador de tamanha distração por parte do loiro.
Um pouco embaraçado e visivelmente empolgado com a noite que tivera, Hyoga despediu-se do motorista e desceu do carro, com Ikki em seu encalço.
– Você não precisa me acompanhar até a porta, chefe.
– Sei que não preciso, mas eu quero.
– Você é aquele tipo de cara que sempre teve o que quis, não é? – Hyoga comentou, enquanto caminhavam devagar.
– Está enganado novamente, loiro. Nada na minha vida veio de forma fácil; acho que é por isso que costumo dar mais valor aos desafios, pois são mais emocionantes e críveis. – Ikki falava calmamente, caminhando com as duas mãos nos bolsos. – Tudo o que conquistei foi fruto do meu esforço, Hyoga. Eu quis, batalhei e obtive. Não sou o tipo mimado que você pensa; pelo contrário, sempre fui esforçado, persistente e trabalhador.
– Ok, talvez eu realmente esteja equivocado em minha análise. – Hyoga parou de caminhar e vasculhou os bolsos a procura de seu molho de chaves. – É só que… Por que sempre assumir uma postura ofensiva, como se o mundo todo estivesse contra você e ainda assim não tivesse a menor chance? Por muitas vezes, você humilha seus concorrentes com isso, sabia?
– Como você acha que eu alcancei o sucesso profissional? O mercado hoje está cheio de tubarões; eu e o Grupo Fênix não sobreviveríamos um mês se eu não me tornasse um deles. Quando eu entro num jogo, é pra ganhar sim. Não sinto vergonha em admitir isso.
– Tudo é um jogo pra você? – Hyoga cruzou os braços e lançou um olhar intimidante para o moreno.
– Nem tudo, depende do contexto…
– Eu sou um jogo pra você?
Ikki sorriu ante a pergunta, mas não a respondeu prontamente. Ao invés, aproximou-se um pouco mais do loiro e retirou uma mecha dourada de seus olhos, prendendo-a atrás da orelha.
– Se eu disser que não, você ainda não acreditará em mim; Se eu disser que sim, você provavelmente vai me olhar com aquele ar superior de quem se considera sempre certo… Façamos algo melhor, loiro. Eu não respondo sua pergunta, você não admite o quanto se divertiu esta noite e ambos dormiremos satisfeitos. O que acha?
Hyoga permaneceu estático por alguns segundos, repetindo em sua mente que Ikki estava usando consigo o mesmo ardil que utilizava em seus negócios. O loiro, então, concentrou-se em pagar na mesma moeda e tratou de afastar seu chefe de si, atendo-se à aposta e às regras que a regiam.
– Nós temos um contrato que diz que…
– Que eu não posso te tocar. – Ikki completou a frase de Hyoga, ainda mais sorridente do que antes. – Muito bem, eu vou controlar melhor meus impulsos nas próximas vezes.
– Eu apreciaria isso. – o loiro reafirmou sua postura. – Inclusive, se você não se aproximasse tanto, eu realmente creria em sua boa fé. – completou sem se preocupar em disfarçar o quanto se incomodava com Ikki invadindo seu espaço pessoal.
– Bom, o contrato só diz que eu não posso te tocar e eu não estou te tocando agora, estou? – o Amamiya estava tão próximo que bastou um sussurro rouco para que ele fosse ouvido, seus olhos se perdiam nos orbes azuis de Hyoga e seus narizes estavam a um palmo um do outro.
– Como era de se esperar, você vai usar cada brecha possível do nosso contrato, não é? – o loiro deu um passo para trás, mas Ikki prontamente o acompanhou.
– Não pode culpar um homem por lutar com as únicas armas que possui.
– Deus! Você é tão…
– Inebriante? Envolvente? Interessante?
– Irritante! – retrucou Hyoga, colocando, sem pensar, a mão direita sobre o peito de Ikki e empurrando-o para longe de si.
Esperto, o moreno não fez força contrária ao movimento do loiro. Ao invés disso, Ikki se afastou subitamente do outro, provocando um desequilíbrio em Hyoga que, sem ter no que se apoiar, não pôde evitar o breve contato de seus lábios.
O selinho rápido foi o suficiente para deixar Ikki em êxtase e Hyoga completamente corado, num misto de fúria e vergonha.
– Bom, é melhor eu ir… – Ikki se afastou e começou a caminhar de volta para o carro. – Boa noite, loiro! Espero que também tenha bons sonhos, já que eu vou sonhar com lábios tão macios e deliciosos quanto um pêssego fresco…
E então o moreno se foi, deixando para trás um Hyoga completamente atordoado e furioso.
Continua...
Notas finais
Peço desculpas por deixá-los na mão, espero que não tenham me abandonado depois desse sumiço... Agradeço de coração cada um dos comentários que recebi, as palavras de incentivo e tudo o mais...
Beijão pra todos vocês!
Mamba
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