Ordem e Caos

1 Parte 1: O senhor das Estrelas


Notas iniciais
Ordem e Caos conta a história de Shen e Zed, como eles se tornaram inimigos etc, e eu tinha postado ela em inglês no Archive of Our Own. Mas o negócio é que eu gosto dos meus textos muito mais em português que em inglês! Então, decidi postar aqui. Por que não, né?

Um grito terrível, e então, silêncio.

Shen estava imóvel no centro do pátio, de frente para a porta. Os aposentos de seu pai eram relativamente espaçosos, já que ele guardava consigo parte dos pergaminhos sagrados que não cabiam na biblioteca apertada. Os "pupilos" de Zed (será que eram apenas alunos, como ele alegava? Para Shen, pareceram mais um exército) o rodeavam aos montes, perto demais. Seu auto-controle estava no ápice, mas não conseguia fazer o coração parar de martelar na garganta. Mandara os ninjas mais jovens para seus respectivos aposentos, esperando mantê-los fora do caminho... E ordenou que fugissem, se algo acontecesse.

Sabia que os seus colegas mais experientes aguardavam nas sombras, esperando por qualquer sinal de perigo. Mas isso o preocupava: os de Zed eram muitos, muitos mais. Se houvesse uma briga, seria um massacre. Mas não. Não haveria uma briga. Havia muita mágoa entre Zed e seu pai, mas confiava em Zed.

Porém, o grito terrivelmente familiar que ecoou do lado de dentro dos aposentos mostrou a Shen que estava acabado. Zed havia cortado seu principal vínculo com a ordem.

O ninja saiu pelas portas da frente, segurando a cabeça de seu pai

Não, a cabeça do mestre, ele era só o meu mestre

pelos cabelos, sem a máscara,

Ele tirou a honra de meu pai, não, meu mestre, antes de mata-lo

o rosto do homem tão calmo e pacífico como o vira da última vez que conversaram. Zed olhou para Shen por um segundo e, com um movimento displicente, jogou a cabeça aos seus pés.

Shen não se moveu. Zed riu baixinho.

— O grande Shen, Mestre das Estrelas! Eu lembro da sua cerimonia, amigo. Seu pai recebendo chicotada atrás de chicotada e você não moveu um músculo. Foi impressionante. Eu pensava "caramba, eu vou ser como esse cara um dia." A gente pensa cada coisa quando se é jovem...

Shen não se moveu. Zed virou-se para seus homens.

— Esses dois homens eram o centro da Ordem, meus caóticos! Eles mantiveram em segredo o poder que vai levar nossa facção à gloria e ao conhecimento eternos. E agora, veja como os temos: um morto, e outro assustado demais para reagir!

Ele fez uma pausa e olhou para o rival mais uma vez.

Shen não se moveu.

Zed inclinou a cabeça, como um lobo levemente interessado em sua presa. O capacete fechado escondia seu rosto, mas Shen podia sentir o sorriso debochado em seus lábios. Seu sangue fervia de dor e ódio, mas ele não podia se mexer. Precisava, acima de tudo, salvar a vida de todos.

Mas Zed não precisava da reação dele para agir.

— Matem esse pobre coitado e qualquer um que entrar no nosso caminho. Eu tenho uma arca para encontrar.

Em uníssono, os ninjas de Zed soltaram uma saudação e imediatamente sumiram nas sombras. Dois saltaram para cima de Shen, que os derrubou com facilidade. Ao mesmo tempo, seus colegas saíam aos montes de seus esconderijos.

Quando se imagina dois lados inimigos chocando-se em batalha, pensa-se em gritos de guerra e passos pesados, grunhidos, guinchos, espadas se chocando… Mas em uma batalha de ninjas, não há nada disso. A batalha é silenciosa. Os passos são suaves. As espadas às vezes se chocam, mas a maioria das execuções é sutil e oculta.

Shen atravessou o campo de batalha, derrubando alguns inimigos e desvencilhando-se de outros. Pensou em gritar por Zed, mas não conseguiu se obrigar a dizer seu nome. Sabia para onde ele ia, e correu atrás lançando sinais para seus colegas no caminho. Ouvia a luta acontecendo à sua volta e deu o máximo de cobertura que pôde aos seus colegas, mas precisava alcançar Zed.

Não sabia muito bem se estava tentando impedi-lo porque era o certo ou por vingança, mas continuou correndo. A arca das sombras ficava num templo bem longe das principais casas da ordem, ao fim de um corredor embaixo da terra. O som da luta foi minguando conforme ele descia as escadas, e quando Shen chegou ao corredor, era como se nada tivesse acontecido, como se fosse só mais um dia comum na ordem...

Não era.

Shen voltou a correr.

Seus passos ecoavam solitariamente nas paredes conforme ele corria, e o brilho das tochas formavam riscos de luz nos cantos de seus olhos.

Ele continuou correndo.


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Ali estava ela.

Desejara aquela pequena e insignificante caixa por muito tempo. Queria poder estender seus conhecimentos aos seus seguidores. Uma facção — não, um exército — de adoradores do poder oculto das sombras. O mundo seria seu.

Ele passou o dedo no tampo da arca, esquecendo-se de tudo por um momento. Queria abrir de novo, mas aquela não era a hora; tinha que tomar a Ordem para si. Só queria se certificar... Ter certeza de que a arca ainda estava sob a posse do velho.

Que tolo...

Talvez estivesse perdido em pensamentos, talvez a calmaria do lugar tivesse baixado sua guarda, mas Zed definitivamente não estava esperando o chute que tomou nas costas.

Afinal de contas, Shen sempre fora uma pessoa incrivelmente silenciosa.

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Shen rapidamente afastou Zed da arca com um chute, mas hesitou antes de voltar sua atenção para o pequeno objeto. Queria proteger o legado da Ordem, mas ali estava o homem que matara seu pai e debochara disso. E ele estava vulnerável. Esse segundo de hesitação foi suficiente para que Zed se recuperasse e voltasse à luta, saltando com agilidade e pronto para matar seu rival.

Shen desviou e sacou suas espadas, aparando em seguida um, dois, três golpes de Zed. Os dois dançaram em frente ao altar por um tempo, cada um tentando desferir um golpe mortal ao outro. O que Shen possuía de força, Zed compensava em agilidade. Mas Zed possuía uma vantagem que Shen nunca superaria: era bem mais jovem, e não cansava tão rápido. Por fim, ele conseguiu prender o rival na parede com duas grandes shurikens. Shen não teve tempo de se soltar: no instante seguinte, tinha uma lâmina afiada embaixo de seu queixo.

— Eu venci. Outra vez.

Os dois ofegavam. A máscara de Shen estava retalhada; a parte que cobria o olho esquerdo havia se rasgado e caído. Ambos tinham cortes por todas as partes do corpo que não estavam protegidas por armadura. A lâmina do braço direito de Zed havia rachado, e emitia um rangido agourento sempre que ele se mexia.

Zed encarou o rival, triunfante, mas não o matou. Não ainda. Pela primeira vez conseguia ver um traço de emoção no rosto de Shen: uma mistura de ódio, dor (física e emocional), pesar e tristeza. Aquilo sim era vitória, mais do que tê-lo encurralado na parede e estar prestes a degolá-lo: havia quebrado sua muralha, seu tão prezado escudo.

O senhor das estrelas era humano, afinal.

Notas finais
Obrigada por ter lido o primeiro capítulo de Ordem e Caos! Críticas são extremamente bem vindas e encorajadas.

Até amanhã!