Notas iniciais
Teen Music é o sonho de qualquer mãe de adolescente... Sem drogas, sem alcool, cheio de seguranças... Será?

O cheiro de arroz com salsicha invadia o refeitório da escola, misturado ao barulho das bandejas sendo arrastadas pelas mesas e as conversas atravessando o ambiente em tons altos e risadas forçadas.

Sentei ao lado de Inajara, que já começava a reclamar da comida como se fosse tradição. Isa se aproximou e em poucos minutos uma roda meio desajeitada se formou com algumas pessoas do segundo e terceiro ano.

— A caipira tá enturmando rápido, hein? — zombou Bruna, se apoiando na mesa como se fosse dona do lugar.

— Caipira? — repeti, confusa.

— Você — respondeu com um sorriso falso. — Portão, né? Nunca ouvi falar. Aposto que ainda ordenha vaca de manhã cedo.

Alguns riram. Eu sorri de canto, sem graça.

— Não fala assim, Bruna — Isa rebateu, baixinho, quase inaudível.

Bruna revirou os olhos e olhou para Davis, um garoto gordo e sorridente que parecia levar tudo no deboche.

— O que foi, Davis? Ainda na dúvida se a aposta é tua ou do Will?

— Aposta? — perguntei, tentando não parecer tão afetada.

Davis deu de ombros.

— Coisa boba. Só uma brincadeira entre a galera do fundão — disse, encarando Will, que tinha o cabelo escuro e desgrenhado, o olhar calmo e uma camiseta de banda. — Quem conseguir um beijo da nova primeiro ganha uma pizza.

Will olhou pra mim com um sorriso quase gentil, o que só me deixou mais desconfortável.

— Ah, então ninguém vai ganhar — retruquei, tentando parecer leve, mas minha voz saiu seca. — Se era aposta, azar o de vocês.

Alguns riram, outros silenciaram. Inajara me cutucou com o cotovelo, rindo da cara dos dois.

— Isso, Camila. Fala mesmo.

— Ah, deixa de drama, gente — disse Davis, abrindo um refrigerante. — E aí, vão colar na Teen Music no sábado?

— É aquela baladinha adolescente? — perguntou Inajara. — Nunca fui. Parece massa.

— É o rolê da cidade — disse Bruna, como se fosse óbvio. — Música, luzes, liberdade.

— Liberdade... — murmurou Isa, desviando o olhar.

— Eu... talvez vá — falei, mesmo sem saber exatamente o que acontecia ali. — Pode ser divertido.

Inajara me olhou animada, e Isa ficou visivelmente desconfortável. Tentou mudar de assunto, mas foi interrompida por uma voz que me gelou por dentro.

— Teen Music é o lugar ideal pra "todos" os tipos de pessoas — disse André, surgindo ao lado da mesa com um sorriso debochado.

A mesa se silenciou por um segundo. Ele se apoiou na cadeira vazia ao meu lado, me lançando um olhar rápido, mas marcante.

— Tem de tudo lá — continuou ele. — Música, beijo, bebida, drama, gente "do bem"... e o resto.

— Você vai? — perguntei, tentando soar casual.

— Talvez. Mas não tô com paciência pra teatrinho de gente se fazendo de rebelde. — Ele riu, sem humor. — Era mais a cara da minha irmã, esse tipo de lugar.

Isa abaixou a cabeça, e o silêncio pairou por um momento pesado.

— Ela... ainda vai lá? — perguntei, hesitante.

André demorou a responder. Depois deu um sorriso torto e murmurou:

— Ela tá bem. Em algum lugar.

E saiu antes que eu pudesse perguntar mais.

Olhei pra Isa, que desviou o olhar, e para Inajara, que parecia absorver tudo com atenção silenciosa.

O refeitório, antes barulhento, agora parecia abafado. Pela primeira vez, percebi que havia muito mais por trás dos rostos bonitos e risadas exageradas daquela escola. E que talvez, eu precisasse de mais do que respostas — precisava de coragem pra fazer as perguntas certas.

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A luz da sala vinha apenas da televisão. Um episódio qualquer da série de vampiros que Isa gostava passava em silêncio entre uma fala e outra. Eu nem sabia direito quem era mocinho ou vilão. Os dois pareciam iguais, com aquelas roupas escuras, olhares sedentos e promessas de eternidade. Tão bonitos quanto perigosos. Como muitas coisas por aqui.

— Eles se apaixonam mesmo? — perguntei, apontando com o garfo para a tela, onde o vampiro encostava a testa na da humana.

Isa deu de ombros, com um sorriso discreto.

— É o que dizem. Mas no fim todo mundo sofre. Sempre.

Ficamos em silêncio por um tempo, cada uma com seu prato no colo, sentadas no sofá. Eu mexia no arroz com feijão como se fosse procurar respostas ali.

— Isa... — falei, meio sem coragem. — Aquilo da aposta... no refeitório. Foi verdade?

Ela demorou alguns segundos para responder. Deu pausa na série.

— Foi. Davis inventa essas coisas. Às vezes, ganha mesmo. Outras, só faz os outros perderem tempo.

— E ninguém acha errado? Sei lá... parece tão desrespeitoso. Como se eu fosse... um troféu.

— É. Mas aqui, ninguém liga pra certo e errado. Ligam pra quem é mais esperto, mais rápido, mais divertido.

Suspirei, sentindo aquele peso no peito.

— Me senti suja, Isa. Eu fiquei sem saber o que falar. Deveria ter dito que isso é pecado, que não me importo com beijo, com aposta, com essa competição boba... Mas eu não disse nada.

Isa olhou pra mim com uma expressão suave, quase triste.

— Você tem vergonha?

— Não de Deus... mas das pessoas. Medo de parecer careta, julgadora... ou pior, hipócrita. Tipo... dizer que sou cristã e depois ser vista andando com um cara como André.

Ela hesitou.

— Ele te interessa?

— Não sei. Ele é bonito, sim. Inteligente. Mas tem um peso ali... como se ele carregasse alguma dor e escondesse com sarcasmo. Quando ele falou da irmã dele, você ficou estranha. Vocês eram amigas?

Isa demorou.

— A gente era. Muito próximas. Ela era forte, sabe? De um jeito difícil de engolir. Inteligente, engraçada... e furiosa. Especialmente com Deus.

— O que aconteceu?

— Ela foi se afastando. Primeiro da igreja, depois da mãe, e por fim de mim. Começou a sair, sumir... até que um dia não voltou mais.

— E ninguém sabe onde ela tá?

— André diz que ela tá "bem, em algum lugar". Mas ele também parou de procurar. Ou finge que parou.

Ficamos em silêncio. A série ainda pausada. A sala parecia grande demais pro silêncio que nos envolvia.

— Isa... você acha que ir na Teen Music seria... errar?

— Acho que depende. Se for pra tentar ser igual a todo mundo, talvez. Mas se for pra estar com as pessoas e continuar sendo quem você é, talvez não.

— Não sei se consigo. Eu não sou como vocês. Nunca fui.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, compreensivo.

— Nem eu sou mais como antes. Mas... você ainda pode ser. Não precisa se perder pra caber aqui. Se perder dói mais do que parecer estranha.

Dei um suspiro longo, o peito apertado. Fiquei olhando os personagens congelados na tela. Bonitos, misteriosos, perigosos.

Talvez fosse isso que me assustava mais: não o mundo lá fora, mas o que dentro de mim queria ser parte dele.

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Eu joguei a mochila na cama com força. A porta bateu atrás de mim com um estrondo que me fez sentir viva, de alguma forma. Isa ficou na sala, provavelmente tentando me dar espaço. Ótimo. Eu precisava de espaço. Espaço e silêncio.

Abri a janela só pra sentir o vento bater, mas não adiantou. O calor estava por dentro. No peito. Na garganta. Nas bochechas que ardiam.

Aposta.

Aposta.

Eles estavam apostando quem “pegava” a caipira primeiro. Me pegava. Como se eu fosse fruta de árvore qualquer, caindo madura pro primeiro idiota que sorrisse bonito. Davis, Will, até o André. Até ele.

Senti a bile subir. Fiquei de pé no meio do quarto, sem saber se gritava, chorava ou quebrava alguma coisa. Caminhei de um lado pro outro, mãos fechadas, respiração quente.

— Que nojo... — murmurei pra ninguém.

E o pior? Eu ri. Eu ri, entrei na brincadeira, fiquei ali sorrindo como se fosse engraçado. Como se não doesse. Como se fosse normal ser tratada como um prêmio.

Me olhei no espelho. O cabelo meio bagunçado, a blusa com a estampa florida que eu gostava. Uma menina de interior tentando parecer descolada. Que piada.

— Imbecil.

Sussurrei aquilo pra mim mesma com tanto desprezo que doeu.

Por que eu não falei? Por que não levantei e fui embora? Por que não gritei, joguei o copo de suco na cara de alguém? Por que eu fiquei ali? Porque eu quis agradar? Porque fiquei com medo de parecer chata?

Fiquei encarando o espelho. Meus olhos estavam marejados, mas não queria chorar. Não ainda. Queria entender por que aquilo me feriu tão fundo. Não era só a brincadeira idiota. Era o fato de que uma parte de mim se sentiu tentada a aceitar. Uma parte de mim gostou de ser notada. Desejada. Como se isso fosse poder. Como se isso me fizesse importante.

Fechei os olhos.

— Isso não é quem eu sou...

Mas era. Um pouco era. E isso me enojava.

Quase odiei o André naquele momento. Com seu jeito sarcástico, com os olhos que pareciam ver tudo e nada ao mesmo tempo. Ele que me defendeu, riu, e talvez tivesse apostado junto. Ele, que tinha uma irmã sumida e um passado que Isa evitava contar. Ele, que me confundia.

Sentei na cama, abraçando os joelhos. Uma parte de mim queria sumir. A outra queria aparecer mais do que nunca — mas do jeito certo, seja lá o que isso significasse.

A raiva ainda pulsava, como se fosse uma faca de ponta virada pra dentro. Eu não queria falar com Deus. Não hoje. Não agora. Era como se eu precisasse primeiro me revoltar um pouco, quebrar o encanto do mundo bonito e ver as rachaduras bem de perto.

Eles não vão me pegar, pensei, com os olhos fixos na sombra do ventilador no teto.

Ninguém vai ganhar essa aposta. Porque eu não estou em jogo.

Notas finais
No próximo capítulo, um pouco mais sobre o mistério de André ;)