Ops! - Sonhos quebrados
5 Dividida entre dois mundos
A tarde passou mais devagar que o normal. Isa tinha ido com a mãe pra resolver coisas no centro, e Camila ficou na escola mais tempo. Foi no refeitório de novo, mas sentou no jardim depois, com fone de ouvido e a cabeça em outro lugar. Foi ali que Will apareceu. Camiseta preta com uma caveira estilizada, mochila caída de qualquer jeito nas costas, o cabelo bagunçado daquele jeito que parecia proposital.
— Fugindo do mundo? — ele perguntou, jogando a mochila no chão e sentando sem pedir permissão.
Camila tirou um fone, surpresa.
— Mais ou menos.
Will não parecia com os outros. Tinha um jeito irritantemente tranquilo, como se nada o atingisse. Mas à medida que foram conversando, Camila percebeu que havia algo quebrado nele. Algo que ela reconhecia.
— Eu sou do nono, sabe? — ele disse, jogando uma pedra longe no mato. — Tenho doze. Mas meu pai acha que tenho trinta. Me cobra como se eu fosse homem já.
— Doze? — Camila arregalou os olhos. — Jura?
Ele riu, um riso amargo.
— Cresci rápido. Quando o pai grita e a mãe chora, você cresce sem querer. A academia me ajuda a esquecer um pouco. O problema é que não dá resultado rápido. Então… bom, você sabe.
Camila entendeu.
— Bomba?
Ele assentiu com um gesto sutil, sem olhar pra ela.
— É ridículo, eu sei. Mas é isso ou quebrar tudo. Eu preciso parecer forte, entende?
Ela não sabia se entendia, mas sabia o que era querer ser outra coisa. Não parecer frágil. Não parecer… descartável.
No meio da conversa, uma menininha de cabelo enrolado e vestido de unicórnio apareceu correndo. Will abriu os braços, e ela se jogou nele.
— Essa é a Bibi. Minha irmã. — Ele beijou o topo da cabeça dela. — Ela acha que eu sou o herói dela.
A menina olhou pra Camila com olhos gigantes e desconfiados.
— Quem é essa?
— Uma amiga — Will respondeu.
— É sua namorada?
— Não, Bibi…
— Porque eu não quero que você tenha namorada — disse a menina, emburrando e se agarrando ainda mais a ele.
Camila riu, meio sem graça.
— Relaxa, Bibi. Eu sou só uma visitante.
Mas no fundo, alguma coisa doía. Talvez fosse o jeito como Will olhava pra irmã, ou o peso nos ombros dele, ou a forma como ela mesma queria ser olhada por alguém. Queria alguém que dissesse “você é especial” sem precisar de um motivo.
Quando a menina foi chamada por alguém da escola, Will ficou em silêncio por um tempo.
— Eu queria ir embora de tudo. Sério. Só… sumir. Ir pra um lugar onde ninguém me cobre nada.
Camila olhou pra ele, os olhos escuros, os traços ainda infantis, mas o olhar carregado demais.
— Eu também.
O silêncio pairou, pesado.
Foi ali, entre o peso do não-dito e a carência que doía nas veias, que Camila fez algo que nunca tinha se imaginado fazendo. Se aproximou. Tocou o rosto dele. E o beijou.
Um beijo rápido, impensado, quase ansioso. Mas um beijo mesmo assim.
Quando afastou o rosto, a realidade voltou como um tapa. Ele ainda estava ali, com os olhos arregalados, surpreso. Um menino de doze anos. Um menino.
Ela se levantou rápido.
— Eu… preciso ir. Eu esqueci que tinha que ajudar a Isa com… com umas coisas.
E saiu andando sem olhar pra trás.
Mas o gosto do beijo ainda estava ali. Junto com a culpa. E uma sensação quase insuportável de estar viva e errada ao mesmo tempo.
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A igreja estava iluminada, o som suave de teclas de piano preenchendo o ambiente enquanto as pessoas se assentavam. Camila estava ao lado de Isa, de vestido novo, cabelo arrumado, bíblia no colo. O louvor tocava.
Camila fechou os olhos, ergueu as mãos. Não pensava em Will. Não pensava no beijo. Não pensava na culpa. Só sentia a atmosfera ao redor e a presença de André no banco da frente, a poucas cadeiras de distância. Ele estava de camisa branca, braços cruzados, olhos fechados.
Ele é tudo o que eu sonhei. O oposto de tudo que me confunde. O tipo de cara que não precisa de ninguém — que protege, que lidera, que sabe o que faz. Eu só queria alguém assim pra cuidar de mim. Só isso, Deus. Só isso.
Ela ora em silêncio.
— Deus… eu tô tão confusa. Mas quando eu olho pra ele, parece que tudo fica certo. Parece que tem um lugar pra mim. Eu só queria isso. Um lugar. Um cuidado. Um abraço que dissesse “fica tranquila, eu tô aqui”. Será que é errado? Eu sei que só o Senhor pode preencher, mas... às vezes, eu queria que fosse alguém.
O louvor parou. O pastor subiu. Falou sobre dependência de Deus. Sobre a ilusão de que precisamos de alguém para nos validar. E então soltou a frase que rasgou Camila por dentro:
— Você não precisa de ninguém além de Deus.
Camila paralisou. Os olhos se encheram de lágrimas. Ela sentiu a culpa, uma presença, um lembrete. Algo real. Algo santo. Algo que a chama de volta.
Ela fecha os olhos e repete, como se pudesse convencer a si mesma:
— Só o Senhor. Só o Senhor.
Mas a frase durou até o amém final.
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Camila e Isa estavam saindo, quando André se aproximou. Isa disfarça e vai na frente, deixando os dois sozinhos por alguns instantes.
— Você se emociona fácil, né?
— Às vezes. — ela disse, muito sem jeito — Quando eu acho que Deus tá falando comigo...
— Ele fala mesmo. Mas às vezes a gente escuta só o que quer.
Ele diz com leve ironia, mas com ternura.
Camila riu de nervoso. André não tirou os olhos dela.
— Sabia que... você tem um jeito diferente. Sabe aquelas pessoas que não precisam fazer nada pra chamar atenção?
— Nunca pensei isso de mim.
— Então agora você pode começar a pensar — ele disse, encostando na grade.
Um silêncio confortável. Camila sorri. Se sente especial. Protegida. Bonita. Como se ele a visse do jeito certo.
É assim que deveria ser. Sem culpa. Sem confusão. Só leveza. Talvez... talvez isso aqui seja real.
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Camila estava na frente do espelho. Batom leve, cabelo solto. Inajara ajeita a alça do top com brilho que pegou emprestado. A playlist com batidas pop toca baixinho ao fundo.
— Você vai mesmo negar que o coração dispara quando alguém fala do André? — perguntou Inajara, com um sorriso de canto.
— E se dispara? — Camila riu, desviando o olhar — Não muda nada.
— Muda sim. Você começa a agir estranho. Como agora.
Ela apontou o blush marcado demais na bochecha de Camila, que se apressa em suavizar com os dedos.
Camila pegou a bolsa e fingiu naturalidade. Mas seu estômago revirava.
Will vai estar lá. E Bruna… também. Mas eu não tô indo por causa deles. É só curiosidade. Nada mais.
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As luzes do pub vibravam em tons azulados. Uma fila se forma aos poucos. Camila e Inajara olhavam em volta, meio deslocadas, meio fascinadas. A música de dentro pulsava no peito.
— Você tem certeza disso? — Inajara perguntou, lendo o letreiro.
Camila respirou fundo.
— Não. Mas se a gente não for, vai ficar imaginando pra sempre.
Um homem de uns trinta e poucos, olhar fixo e sorriso estranho, se aproximou.
— Vocês são novas por aqui? — ele arrastava a voz — Estão sozinhas?
Camila se enrijece. Inajara puxa a bolsa mais pra perto do corpo. Mas antes que precisem responder, uma voz conhecida surge às costas delas.
— Elas estão comigo — é a voz de André.
O homem deu meia-volta. André sorriu com aquele jeito que mistura ironia e charme. Estava de camiseta preta, cabelo desarrumado de propósito.
— E aí... — André pergunta a Camila — resolveu vir dançar com o priminho bombado?
Camila cora.
— Ele não é meu priminho.
— Mas é bombado, né? — ele ri — Demais pra idade. Você devia tomar cuidado.
Ele estende a mão.
— Dança comigo antes dele chegar.
Camila hesitou, depois aceitou. André a puxou com leveza e os dois giravam devagar sob o som abafado que escapa da porta entreaberta. Por um instante, Camila esqueceu tudo. Estava ali. Com ele. Rindo. Leve.
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O cheiro de bebida e fumaça perfumava o ar. Will estava lá, encostado na parede, camisa regata e cabelo bagunçado. Ele sorri ao vê-la. Um sorriso que mistura alívio e algo indefinido.
Will aproximou-se.
— Achei que não vinha.
— Eu quase não vim — Camila diz, tentando evitar a dúvida nos olhos.
Ele estendeu a mão. Ela olhou para trás, onde André conversava com outros. Bruna, mais afastada, cruzou os braços e observou os dois. Camila sente a pontada da culpa, mas estica a mão mesmo assim. A música subiu. Eles dançavam.
Isso aqui é outra vida. Um outro eu. Um que não sente culpa. Um que só... sente.
Mas a culpa veio. Veio com o olhar de Bruna. Com a lembrança do toque leve de André. Com o gosto do batom que já secou. Ela fechou os olhos, tentando não pensar. Só dançar. Só esquecer. Por um instante.
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Camila chegou à escola com a mochila nos ombros. Olhos inchados de quem dormiu pouco. Isa a esperava no portão, animada para falar do culto.
— E aí, dormiu bem? — ela sorri — mas franze a testa.
— Você parece cansada. Tá tudo bem?
— É… dormi tarde. — ela forçou um sorriso.Devia ter evitado café.
Elas começaram a andar juntas.
— Ontem a ministração foi... sei lá, como se fosse direto pra mim — diz Isa, e olha para Camila — E pra você? Aquela frase: “você não precisa de ninguém além de Deus”. Foi forte, né?
Camila engoliu seco. Lembrava do momento, da lágrima no canto do olho, da sensação de estar no centro do universo... e depois, o calor do toque de Will, as mãos na cintura dela.
— Foi. Bem forte.
— Você sumiu depois do culto — comentou Isa, desconfiada, mas sem querer ser invasiva — André ficou por lá um tempo… achei que vocês estavam conversando.
Camila sente o nome dele bater diferente. Como se fosse outro mundo. Um mundo onde ela ainda era "ela".
— A gente só trocou umas palavras. Nada demais.
O celular vibra. Ela olha. É uma mensagem de Will.
> “Bom dia. Ainda tô lembrando de ontem. Me avisa se quiser conversar. Quero te ver.”Ela bloqueou a tela rapidamente, como se aquilo queimasse a pele.
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Camila sentou na carteira, tentando se concentrar no livro de matemática. Não conseguiu. O cheiro do Teen Music ainda parecia preso na roupa. Sentia a cabeça quente.
Não foi nada. Só um beijo. Só uma dança. Só uma parte de mim. Aquela parte não é real. Essa aqui sou eu. A Camila certa. A Camila de verdade. A Camila que ora, que acredita, que sonha com o André.
Mas logo depois, outra notificação.
> “Se você estiver fingindo que ontem não aconteceu, tudo bem. Eu finjo também. Só não me some.”Ela bloqueia o celular. Inspira. Expira. A culpa já não é mais pontada — agora é um nó.
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Camila estava no quarto, Isa batucou na porta, chamando para ver um vídeo engraçado. Ela respondeu que estava cansada.
Duas vidas. Duas versões de mim. Nenhuma inteira. Nenhuma livre.
Ela segurou o celular nas mãos. Abriu o perfil de André no Instagram. Depois o de Will. Fecha tudo.
— Eu só queria ser uma pessoa só — sussurra.
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