Ops! - Sonhos quebrados
6 Confusão e caos
Notas iniciais
Camila ajoelhou ao lado da cama, as mãos entrelaçadas. O quarto estava em silêncio, com a luz do abajur acesa. A Bíblia estava aberta sobre o colchão, esquecida na página do Salmo 119.
— Deus… — ela orou baixinho — Eu sei que já fiz muita coisa errada. Eu sei que já fui longe demais. Mas… eu quero tentar. Quero fazer a coisa certa. Não por ninguém. Não porque gosto do André. Nem por culpa. Mas porque… — ela engoliu o choro — Porque eu ainda acredito no que o pai me ensinou. Eu ainda quero isso. Só não tô conseguindo direito.
Ela respirou fundo, se sentou na cama, pegou o celular e digita para Will:
> "Amanhã, depois do intervalo. Podemos conversar?"
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No dia seguinte, no pátio, após o intervalo, Camila sentou num banco de concreto debaixo de uma árvore. Will apareceu logo depois, o boné virado pra trás, a mochila jogada num ombro só. O olhar é de quem não quer papo, mas quer entender.
Camila tenta sorrir.
— Obrigada por vir.
— Fala aí — ele soa seco, magoado.
Ela engoliu em seco, baixando os olhos.
— A gente precisa parar. Eu… quero muito ser sua amiga. Você é alguém importante pra mim. De verdade. E… eu sei que alguém gosta de você. Alguém que talvez você nem imagine, mas que tá magoada com tudo isso.
Ela respira fundo, olhando o garoto que parece triste, mas não quer olhar para ela.
— E sim… tem alguém que eu gosto também. Mas isso não tem a ver com o motivo, Will. Eu só… quero fazer o certo, tá? Só isso.
Silêncio. Ele passa as mãos na calça jeans, respira fundo.
Will passa as mãos fortes nas alças da mochila, nervoso.
— Então é o André, né?
Camila tenta se apressar na resposta.
— Não. Eu tô falando sério. É sobre mim. Sobre fazer o que é certo.
Will solta uma risadinha irônica.
— Engraçado, né? Você não parecia muito preocupada com “fazer o certo” quando me beijo.
— Não fala assim — ela treme as mãos, suando frio — Não foi jogo. Eu… eu tava confusa. Eu ainda tô.
Will levanta-se, magoado.
— Tudo bem, Mila. Você fez sua escolha. Agora deixa eu fazer a minha — ele virou de costas — E não precisa vir com papo de amizade. Eu sou criança, lembra? Não precisa esse tipo de desculpa. Pode só chutar e ir embora, tô legal, vou superar.
Ele vai embora. Camila fica ali, as mãos suando, o rosto quente. Começa a se sentir… culpada. Mas principalmente frustrada por ter tentado e sido mal interpretada.
Eu só queria dizer que foi por Deus, não pelo André. Mas acho que ele não entendeu isso, direito. Ah, mas que droga...
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No final de semana, tinha a festa da Bruna. O aniversário de 15 anos, a festa de debutante. Foi no salão da igreja católica ali perto, um lugar que todo mundo conhecia. Todos foram, a turma toda. Comeram, beberam, dançaram. Foram normais.
Will estava lá, claro. Bruna dava em cima dele a olhos vistos, mas ele não parecia perceber. Não se sabia se era a mágoa ou só ele sendo criança. Nem mesmo ela dançando de costas pra ele, na maior sedução piriguete fez ele entender algo. Camila achou graça, mas teve dó.
Enquanto dançavam, uma das meninas do terceiro ano surgiu com uma cerveja. Ela provou, claro. O gosto era horrível, mas ela seguiu bebendo, sem querer ser a outra infantil da festa.
André a observava de perto, como tivesse a obrigação de proteger de alguma forma. Ela achou fofo, claro. Já não se escondia mais para fazer algo que achava que ele não iria aprovar. Apenas vivia.
O cheiro de cerveja e cigarro estava forte no meio dos adolescentes que dançavam. Camila esqueceu de esconder qualquer coisa. Inclusive proteger Will.
Ela não viu se ele bebeu. Mas Bruna cuidou para que não o fizesse. Ela gostava mesmo dele. Era um sentimento de proteção que ele precisava, claro. Alguém que cuidasse dele. Não era Camila que ele precisava.
André continuava perto. Camila aos poucos, sentia o álcool mudar seus sentidos de uma forma esquisita. Ela ria de besteiras, achava graça contar coisas de sua vida pessoal e seus pensamentos aleatórios. A música alta impedia que ela abrisse o jogo para todos.
Quando percebeu que Camila estava bêbada, André carinhosamente a segurou na cintura, como um irmão mais velho. Levou-a longe do barulho e da bagunça. Ela viu tudo girar e vomitou nos pés dele.
- D-desculpa — ela tentou se limpar, com vergonha.
Ele ria, como se cuidasse de uma criança com a fralda suja. Abraçou ela em seus braços e apertou com força.
- Tá tudo bem, Mila. — ele acariciava os cabelos dela — Que Deus te guie nas suas escolhas.
Camila riu, achando graça do garoto que teimava em falar como um pastor. Ele realmente não parecia desse século. Ela sentara na calçada, a cabeça baixa. Ele sentou do lado dela, ficou ali em silêncio. Ela escorou a cabeça no ombro dele, um pouco chorosa, talvez do excesso de álcool.
- Eu amo... — ela começou, ele riu dela, e balançou a cabeça como se dissesse pra ela ficar quieta.
- Fica de boa, Mila, tô só aqui com você.
Camila ficou olhando pra ele, seu rosto branco, aquele cabelo enrolado e loiro. Ele olhava com um olhar cuidadoso, quase fraternal. Ela não resistiu. O beijou.
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No meio da madrugada, um dos garotos da turma de Will estava caindo de bêbado. Bruna esquecera de cuidar das outras crianças. Eu, André e Isa resolvemos levar o garoto embora. Levamos uma garota da turma dela, que parecia muito bêbada também. A mesma que tinha levado a bebida para Camila. O nome dela era Ivy. Will também resolveu ir junto. Uma garota da turma dele estava com ele, de mãos dadas.
Camila e André seguiam na frente. Ela estava algo depois de um porre, mas estava melhor. Ivy ia fazendo piadas sexuais grotescas, que deixaram André constrangido, mas ele seguia firme, como um irmão mais velho do bando.
Ele largou todos em casa, incluindo Camila. A tia mandou que Isa entrasse ao ouvir as piadinhas grotescas de Ivy. Camila entrou atrás.
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Na sala de aula na segunda, Camila sentou na terceira fileira. Os olhos perdidos no quadro, sem entender nada da equação que a professora escreveu. Inajara sussurra uma dúvida, mas ela nem ouve.
No fundo da sala, Camila escuta risos. A voz de Bruna, inconfundível.
Bruna sussurra para uma colega.
— Essa Camila é uma libertina mesmo. Fica com um, depois larga e finge que é santa. Aí fica bêbada na minha festa e beija o outro. Eu jamais faria isso. Terminar com um pra ficar com outro? Ridícula.
Camila fecha os olhos. Aquilo queima. Não por vergonha… mas por raiva. Por injustiça. Por impotência. A mão aperta a caneta. Ela respira fundo.
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Camila caminha determinada. O coração acelerado. Encontra Davis encostado num pilar, rindo com os amigos. Ao ver ela, ele ergue as sobrancelhas, surpreso.
Camila o olha sem piscar.
— Ei, Davis.
Davis ri.
— E aí, caipira. Tá tudo certo?
Ela se aproximou. Sem pensar, sem hesitar, segura a gola da camiseta dele e o beijou. Um beijo quente. Longo. Com sabor de fúria.
O corredor paralisou. O grupo dele vibrou, riu, gritou. Davis ficou sem reação por um segundo, depois retribuiu.
Camila se afasta, com a respiração descompassada. O olhar de desafio. Davis sorri, confuso.
— Uau. Que foi isso?
Camila sorri torto.
— Liberdade.
E sai andando. Sem olhar pra trás.
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Camila se trancou na cabine. Encostou na porta. O corpo escorregava devagar até o chão.
— O que eu tô fazendo? Quem eu tô me tornando?
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— Só me diz o que aconteceu com a irmã dele — implorei, vestindo uma blusa amarela simples e jeans, enquanto encarava Isadora — Ela era sua amiga. Você deve saber.
— Pergunte isso a ele, Camila — respondeu ela, seca, sem mover um músculo no rosto.
— Ela estuda na sua sala?
— Estudou. No ano passado. — Repetiu, com o mesmo tom firme. Estendeu uma toalha na janela do quarto e me deu as costas. — É só isso que vou dizer.
Fiquei ali, sozinha, sentindo aquela resposta pesada, como se tivesse algo entre minhas mãos que eu ainda não conseguia decifrar.
— Estudou... — murmurei — Então deve estar no terceiro ano. Ou no segundo, se tiver repetido.
— Quem? — perguntou uma voz atrás de mim, e quase pulei de susto.
Era André.
— Se tá falando do Percy Jackson, ele deve estar no segundo — brincou — Mas não repetiu o ano.
Soltei uma risada. O sorriso dele, leve e provocador, iluminou meu rosto.
— Podemos ir? — perguntou, estendendo a mão, num gesto antigo, quase de filme antigo.
Assenti, mas recusei a mão oferecida.
— É injusto — falei, séria.
— Também acho — ele respondeu, entrando na brincadeira — O salário mínimo devia aumentar uns cem por cento.
Ri, balançando a cabeça.
— Tô falando de você. Sabe tudo de mim, e eu não sei quase nada sobre você.
Ele endireitou a postura, ajeitou uma gravata imaginária e disse com um ar teatral:
— O que você quer saber?
— Quantos anos você tem? Irmãos?
— Tenho quinze. E cinco irmãos. Dois meninos e três meninas. Os meninos são gêmeos — ele sorriu — Tipo sua mãe.
Suspirei. Aquela comparação doía. Quis mudar de assunto.
— E as idades?
— Bia tem dois anos. Deby, sete. Elias e Gui — os gêmeos — doze. E a Fernanda…
Ele parou. O silêncio ficou pesado.
— A Fernanda...? — insisti, quase num sussurro.
— Prefiro não falar dela, tá?
Assenti. Curiosa, mas não invasiva.
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Eu aceitara sair com ele, claro. Ele insistiu. Eu queria. Mesmo confusa, mesmo com a minha cabeça dançando.
Logo depois, já no parque, as luzes brilhavam alto demais. Do alto da roda-gigante, via as pessoas lá embaixo parecendo formigas encaixotadas. Ao meu lado, André ria, segurando firme no banco, os cabelos bagunçados pelo vento.
Minhas mãos suavam. Mas o medo sumiu quando ele falou meu nome:
— Rola um beijo nas alturas, Camila?
Sorri, nervosa. Assenti com um gesto tímido. Levei a mão ao cabelo dele, e o beijei.
Depois, já no chão, sentados sob uma árvore, o momento ainda estava vivo. Ele, escorado numa cerca baixa de madeira. Eu, com a cabeça no colo dele. As crianças corriam ao redor, e a alegria parecia quase real demais.
— No que tá pensando? — ele perguntou, acariciando meu rosto.
— No nosso beijo — confessei, sorrindo.
Ele riu. Aquele sorriso dele me fazia sentir segura. Quase como se tudo tivesse algum sentido.
— Eu não ia detestar namorar você — disse, num tom brincalhão.
Beijei seus lábios de novo, leve, e acenei com a cabeça.
— Se isso foi um pedido de namoro… eu aceito.
E foi assim que meu namoro tão sonhado começou.
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