Ops! - Sonhos quebrados
7 Segredos
Mal sabia do perigo que corria naquela noite.
Inajara me convenceu a irmos a Teen Music, apesar de André ter tido que resolver problemas.
– No caminho — ela dissera — Vou te apresentar uns novos amigos meus e ver no que isso dá.
Concordei, e agora, estávamos na rua da escola, se aproximando de garotos da mesma idade que nós. Talvez alguns fossem mais velhos.
– Mas olha quem resolveu aparecer! — gritou um dos garotos de aspecto forte e cigarro na boca — Inajara!
– Oi, Luis Henrique! — riu Inajara — Já chapado, cara?
– Todos, menos eu — riu um garoto de cabelo bagunçado e aspecto mais velho — Até agora.
Vi o garoto tirar do bolso um papel e um certo pó, que transformou imediatamente em um cigarro.
– Aceita um, Iná? — ofereceu o garoto misterioso.
– Sabe perfeitamente que não fumo maconha, Niterói — respondeu Inajara — Alguém aí tem um cigarro?
Eu observava tudo, tentando ser o mais natural possível, mas surpresa com as amizades e atitudes da minha melhor amiga.
– Eu tenho — um garoto mais novo tirou do bolso uma carteira de cigarro preta, que ofereceu a Inajara.
A garota agradeceu e acendeu o cigarro no cigarro de maconha de Niterói. Ofereceu um para mim que neguei imediatamente.
Faz muito bem — riu o garoto Luis Henrique — Não siga os passos da sua amiga aí, não.
O tapa da palma aberta de Inajara voou para a cabeça de Henrique O garoto caiu de bruços pra frente e riu, erguendo-se.
Lezado — riu Inajara — Mas ele tem razão, Mila, você não deve seguir meu exemplo, não.
Assenti, constrangida.
- Não se preocupe com meus amigos — continuou dizendo minha amiga — Com exceção de Niterói, eles não fazem parte da turma de viciados. Só fumam maconha pra se divertir.
Acenei com a cabeça, mas não concordei. Para mim, droga era droga, não importava se fosse para se divertir ou por vício.
O loirinho tinha um capuz sobre a cabeça. Niterói e Luis Henrique o acompanharam. Percebi que Inajara flertava descaradamente com o garoto de roupa de marca ao seu lado.
Segurei o ar, surpresa, quando ele a agarrou sem cerimônias em um beijo.
Luis Henrique aproximou-se delicadamente de mim, que recuei, ao olhar nos olhos vermelhos do garoto. Ele riu.
- Calma — pediu ele — Meu amigo quer ficar com você.
Ia logo dizer que não, mas a curiosidade sempre foi maior que eu.
- Quem? — perguntei.
Ele apontou para o rosto encapuzado de Niterói.
- Não — falei, rispidamente.
Luis Henrique franziu o cenho e deu de ombros, como se minha resposta tivesse sido uma afronta menor do que eu imaginava. Niterói não demonstrou reação alguma — nem se virou. Só tragou o cigarro devagar, o rosto parcialmente oculto pelo capuz, como uma sombra entre os outros.
Inajara parecia não notar nada. Agora, rindo com o garoto que a beijara, o cabelo bagunçado dela grudando no batom manchado, os olhos semicerrados como se estivesse no meio de um sonho.
Eu não fazia ideia de como tinha parado ali. A rua cheirava a fumaça e perigo, e mesmo assim eu me sentia... viva. Deslocada, mas viva. Como se estivesse atuando numa peça e tivesse esquecido minhas falas — e agora fingia, com uma segurança que não tinha.
Minha bolsa vibrava. Ignorei.
Sabia que era André.
Sabia também que tinha prometido não sair naquela noite.
Sabia de mais coisas do que queria admitir.
Mas continuei ali. Porque fugir dali significava encarar a vida que eu dizia que amava. E, naquele momento, ela parecia tão distante de mim quanto Deus. Tão distante quanto minha própria consciência.
— Mila — chamou Inajara, cambaleando levemente enquanto se afastava do garoto bonito — vem! Vamos lá pra frente do palco. Vai começar o show!
— Eu não devia estar aqui — sussurrei, mais pra mim mesma do que pra ela.
— E quem devia? — ela riu, me puxando pelo braço. — Vai dizer que nunca quis sentir um pouco de adrenalina de verdade?
Ela me puxava pra dentro da multidão, e quanto mais eu me deixava ir, mais esquecia de quem eu era. Ou talvez só me afastasse da versão de mim que me sufocava.
Naquele momento, não existia André, não existia igreja, não existia culpa.
Só as luzes coloridas, a batida da música começando e a fumaça se misturando ao meu medo.
Mas eu não fazia ideia de que tudo mudaria.
De que eu estava brincando com algo muito mais perigoso do que drogas ou beijos aleatórios.
De que deixaria marcas que nem mesmo a fé conseguiria apagar tão cedo?
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Acordei com os olhos semicerrados, enquanto o celular tocava na manhã de agosto. Coloquei as minhas pantufas de estimação — eram de coelhinhos rosa — que estavam em baixo da cama e segurei o celular. Olhei o número. Era da casa de André.
- Oi — falei, bem acordada agora — Amor?
A voz de dona Nara, a mãe de André, soou aflita do outro lado.
- André tá doente, Mila — ela disse — Acho que está deprimido. Não come, nem levanta da cama.
- Mas, por quê? — perguntei. — O que aconteceu?
Ela suspirou.
- A irmã dele outra vez, claro — respondeu aos prantos — Sempre ela.
André não aparecera na escola nos últimos dias. Disse que precisava resolver problemas.
E eu nem mesmo o procurei. Tonta.
- Mila? — chamou dona Nara, do outro lado — Ele quer ver você.
A mão livre foi para a cintura e ergui a sobrancelha.
- Ok.
Fechei o celular com urgência e abri a porta do armário. Coloquei o short xadrez de que mais gostava e a blusa que sempre usava quando estava com pressa. Olhei minha prima dormindo na outra cama, tirei a rasteira preta de baixo da cama e saí.
Ela não vai sentir falta.
**
Cheguei em frente a porta e bati. O suor escorria frio na minha testa, aflita. Apesar da tremedeira, a batida saiu firme e forte, como sempre.
A porta se abriu. Um dos garotos dos cabelos castanhos e olhos verdes me sorriu. Não sei dizer se era Gui ou Elias. Eles era gêmeos. Idênticos.
Oi — falou, me cumprimentando com um abraço característico de Gui — Tá no quarto — falou, antes que eu perguntasse.
André estava sentado na sua mesa particular, os olhos postos em um de seus livros preferidos. Ao seu lado, a pilha de outros livros fazia se sobressair o isolamento dele.
- O que é que está fazendo? — perguntei, e ele deu um pulo de susto, pois antes não percebera minha presença.
Antes que eu pudesse ver a pilha de perto, ele a escondeu em uma gaveta. Eu gruni.
Ele riu, zombando de mim.
- Acho que percebeu que estava lendo — respondeu minha pergunta, finalmente.
Eu dei um sorriso falso, irônico.
- Por que não foi na aula esses dias? — perguntei.
- Problemas de família, eu falei — ele disse, percebi que os olhos dele encheram d'água.
- Sério, André — eu sentei na cama, de frente pra ele, brava — Sua mãe disse que você está deprimido. Sua cama está intacta, e isso é impossível, tratando-se de você. E tem três pratos de comida aí no chão. O que tá tentando fazer, morrer de fome?
Ele negou com a cabeça, seus olhos baixos e tristes. Levou a mão a testa, como a pedir ajuda, em desespero.
- Por que não me conta o que tá acontecendo? — perguntei, carinhosamente agora, como a um amigo — Que é que sua irmã tem?
Seu choro foi compulsivo. Durou mais de vinte minutos, antes que ele explodisse, e passasse a tocar objetos nas paredes.
- André, para! — gritei, furiosa agora — Senta aí, droga!
Ele me olhou. Tinha ódio nos olhos dele, mas não era contra mim. Era um ódio velho.
- Desculpe — ele pediu — Desculpe, desculpe.
Ele chorava como uma criança. Deixei que chorasse.
- Agora fala, por favor — pedi — O que acontece com a sua irmã, meu amor?
Ele respirou fundo e fez que não com a cabeça. Bufei, vencida.
- Tudo bem — falei — Vou ficar aqui cuidando de você, então.
Tirei o celular do bolso e disquei o número de Inajara.
- Iná — falei, sem tirar os olhos do meu namorado — Não vamos hoje, André tá deprimido, vou ficar cuidando dele, durmo com a irmã dele hoje.
Ele ergueu os olhos pra mim e fez que não. Pediu o telefone e eu entreguei a ele.
- Camila vai com você — ele falou, para a minha melhor amiga — Vocês duas têm que se distrair, precisam disso.
Enruguei a testa, confusa.
Mas... — tentei falar.
Ele fez que não e tocou o dedo indicador nos lábios, pedindo silêncio.
- Tá bom — falou ao telefone — Sem problemas, então. Pega ela aqui às oito. Beijo, divirtam-se.
E desligou o telefone. Eu toquei nele a almofada em forma de bola de futebol. Ele deu de ombros.
- Não é justo — emburrei — Por que a gente tem que se distrair e você fica aqui, trancado no quarto?
- Porque sim — ele disse.
- Idiota — revirei os olhos.
- Seu idiota — ele piscou, então beijou meu rosto, carinhoso — Vá se divertir, amor, por mim.
Concordei, relutante. Olhei o relógio. Eram nove horas.
- Tenho tempo ainda — sorri.
Ele fez que sim.
- Mila — pediu — Promete curtir sem sair de perto de Inajara?
Eu gargalhei.
Claro.
---
O sol entrava pela janela lateral quando me sentei no chão do quarto de André, com as pernas cruzadas e um travesseiro apoiado no colo. Ele estava deitado de bruços na cama, com os pés balançando no ar, como uma criança.
Falávamos de tudo e de nada. Sobre como o Inter ia mal no brasileiro, como eu odiava matemática e como ele achava que a nova professora de biologia falava como se todo mundo fosse bicho.
O tempo passou rápido — quase doze horas, e nada mais tinha acontecido além de conversa, risadas e longos silêncios confortáveis. E pra mim, aquilo era mais que suficiente.
Em alguns momentos, ele segurava minha mão, brincando com meus dedos, ou colocava a cabeça no meu colo e fechava os olhos. Mas nunca passou disso. Nunca quis passar disso. O olhar dele sobre mim era puro e respeitoso, como se dissesse: "eu gosto de você, não do que posso tirar de você".
Quando a mãe dele trouxe café com pão de queijo, André foi até a cozinha ajudar, me deixando sozinha no quarto. Foi então que meus olhos passearam pelas prateleiras, até encontrarem um porta-retrato.
Era uma foto. Uma foto antiga.
Nela, André parecia com uns onze anos, vestia uma camiseta do grêmio e estava ao lado de uma menina um pouco mais velha. Os dois sorriam, felizes, encostados numa parede de tijolos pintados de amarelo.
Ela tinha os mesmos olhos dele. E aquele sorriso aberto, lindo. Segurava uma boneca de pano nas mãos.
Puxei a moldura com cuidado. O vidro estava levemente trincado no canto. Era uma imagem bonita… mas empoeirada. Como se ninguém tocasse nela há muito tempo.
Olhei em volta. Havia outras fotos — dele com os gêmeos, com a Deby no aniversário, até uma com a Bia ainda recém-nascida. Mas nenhuma com a irmã. Nenhuma atual, pelo menos.
O armário estava trancado com um cadeado pequeno. E na escrivaninha, havia um caderno preto, fechado com uma fita. Não mexi. Não era meu lugar.
Mas o silêncio da ausência estava em todo canto. Como se algo tivesse congelado ali dentro, junto com as memórias.
— Essa era a Fernanda — disse André, surgindo na porta com a bandeja nas mãos. Ele percebeu que eu olhava a foto e não pareceu bravo.
— Vocês pareciam bem unidos — comentei, devolvendo a moldura ao lugar, com cuidado.
Ele assentiu, sentando-se na cama de novo, a expressão entre saudade e cautela.
— Éramos. Ela era minha melhor amiga… antes de tudo.
— Tudo o quê? — perguntei, baixinho.
Mas ele apenas balançou a cabeça.
— É difícil falar sobre isso, Mila.
— Tudo bem — respondi. E me sentei ao lado dele, sem forçar.
Ficamos quietos por alguns segundos. Ele me olhou com gratidão.
— Obrigado por não insistir.
— Obrigada por confiar em mim o suficiente pra mostrar isso — sorri.
Ele me puxou devagar pela mão e beijou minha testa.
— É por isso que eu gosto tanto de você.
E foi só isso. Um carinho tranquilo, como uma brisa. Sem pressa. Sem pressões.
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