Ops! - Sonhos quebrados
8 O segundo andar
O som da televisão já vinha da sala quando André segurou minha mão e me puxou suavemente.
— Vem, vamos dar um tempo de quarto. A Bia vai adorar te ver.
Na sala, Deby estava jogada no tapete com uma boneca e dois dos gêmeos estavam discutindo sobre quem venceria uma batalha imaginária: Naruto ou Goku. André entrou no meio, já gritando:
— Goku vence, claro! Acordem pra realidade!
Os meninos o atacaram com almofadas, e o sofá virou trincheira de guerra. A Bia, ao me ver, abriu um sorriso imenso e correu até mim de braços abertos. Eu a peguei no colo com um riso leve.
— Você gosta mesmo da Mila, hein, Bia? — brincou dona Nara, aparecendo na porta com o avental sujo de molho de tomate.
— Gosto! — a pequena gritou, me abraçando o pescoço. — Ela tem cheiro de princesa!
A gargalhada que se espalhou pela sala aqueceu meu peito. Era esse tipo de lar que eu sempre imaginei como ideal: barulhento, confuso, mas cheio de amor.
— Quer jantar com a gente, Mila? — perguntou a mãe de André, simpática.
— Se não for incômodo...
— Nenhum — ela respondeu com um sorriso — E já que você tá aqui, ajuda a colocar a mesa, André!
Ele fez uma careta teatral e foi resmungando para a cozinha. Me juntei a ele, ajudando com os pratos, rindo dos improvisos — os copos não combinavam, o pão estava meio queimado, e Deby reclamava que queria comer deitada no sofá.
Durante o jantar, as conversas foram bobas e gostosas. A escola, o desenho novo que os gêmeos odiaram, o prato preferido de cada um. André às vezes me observava em silêncio, e eu fingia não notar, embora minhas bochechas denunciassem.
Depois, ajudei a mãe dele a juntar os pratos, me sentindo parte da casa por alguns minutos.
— Volta mais vezes, viu, Mila? — ela disse, com um olhar de quem sabia que o filho estava em boas mãos.
Concordei, sem saber bem o que dizer. Eu também queria voltar.
O cheiro de comida caseira ainda estava no ar. Havíamos passado horas juntos, entre conversas leves na sala e um jantar tranquilo com sua família. Gui e Elias disputavam quem contava a piada mais boba, e eu ria, mesmo que por dentro ainda pensasse no que André não me dizia. O “nós” ali era simples: nada de beijos escondidos ou toques demorados — só a presença dele, o jeito calmo de me ouvir, e a certeza silenciosa de que o relacionamento que tínhamos precisava dessa pureza.
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Quando me despedi, ele ficou parado no portão, mãos nos bolsos, observando-me atravessar a rua. Não trocamos mais do que um “boa noite”, mas foi o suficiente para sentir o peso de deixá-lo ali, naquele mundo que era só dele.
A rua estava silenciosa, o céu, um tom escuro de violeta, com estrelas tímidas surgindo no alto.
— Obrigada por hoje — sussurrei — Foi bom… só estar aqui.
— Eu que agradeço — ele respondeu, tocando minha mão com carinho. — Você trouxe um pouco de luz pra esse lugar.
Sorri, sem saber como responder. Apenas encostei meu rosto no ombro dele por um segundo.
Nos despedimos com um beijo leve e respeitoso. Um beijo que dizia “até logo”, não “me tenha”.
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A noite estava quente. Caminhei devagar, tentando manter o cheiro do café que dona Nara preparara ainda preso na memória. Mas, conforme me aproximava de casa, outro tipo de energia me chamava. O celular vibrou: Inajara: 21h15 na esquina. Suspirei. Com ela, eu vivia outra vida. Não melhor nem pior, apenas… diferente. E, naquela hora, não pensei em André, nem na mãe dele, nem no jantar. Pensei apenas na roupa que ia vestir
Caminhei até em casa com passos lentos. A rua parecia mais longa que o normal, como se cada passo me convidasse à reflexão.
Na minha cabeça, tudo ainda girava em torno daquela foto no quarto, daquele silêncio espesso que habitava André por dentro. Mas também da leveza daquele jantar, daquela paz simples de um lar com amor.
Quando entrei em casa, Isa estava trancada no quarto com o fone no ouvido. minha tia, como sempre, lia na varanda. Cumprimentei as duas com um aceno e fui direto ao meu quarto.
O espelho me esperava. Encostei na porta, vendo minha imagem meio despenteada e pensativa.
André me fazia bem. Me dava segurança. Ele era a escolha certa. O tipo de cara com quem eu podia ir a um culto e depois jantar com a família — e não me sentir culpada.
Suspirei fundo. Peguei a toalha e segui para o banho. Era hora de me arrumar.
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Coloquei a música baixa, para não atrapalhar, e puxei do armário minha saia preta favorita e uma blusa mais justa. Passei o batom vermelho sem nem pensar muito. Quando o relógio marcou 21h10, já estava na porta. Inajara apareceu na esquina. Sorri — era hora de viver a outra “Camila”.
A noite começou quando chegamos à Teen, e um dos garotos viciados, de um cabelo cinza e olhos maldosos, anunciou:
— Ei, as meninas estão sozinhas!
Virei o rosto, ignorando-o, e sem querer dei de encontro com o ombro de um velho conhecido. Marcelo. Um dos garotos do grupo que eu e Inajara encontramos no outro dia. Niterói. O garoto viciado.
Olhei nos olhos dele, a tempo de perceber que estavam vermelhos. Cerveja em uma mão, cigarro na outra.
Inajara o cumprimentou, desconfiada, mas me viu dar um sorriso inocente. Ela já sabia quem ele era. Eu, agora, também sabia… mas, curiosamente, isso não me afastou.
Por um instante, a imagem de André sentado no sofá da sala, com o cabelo meio bagunçado, passou pela minha mente. O som do riso dos irmãos dele ainda estava no meu ouvido. Balancei a cabeça, tentando afastar.
— Sempre por aqui? — perguntei, puxando conversa.
— Sempre, mas não muito por aqui — respondeu, apontando para o andar de cima. — Querem dar uma olhada?
A curiosidade, aquela velha conhecida, piscou para mim. Só que junto veio uma pontada de lembrança: "Promete que não vai subir lá." A voz de André estava nítida, mesmo com a música alta.
Senti a mão de Inajara segurar meu braço com força.
— Você sabe bem o que prometeu — sussurrou ela.
A promessa. Meu pai. André. E, ainda assim… eu segui Marcelo até a porta.
O segurança não me barrou. Talvez nem tenha olhado para mim. O cheiro lá em cima era forte, diferente, pesado. Inajara respirava fundo, nervosa, mas eu fingi que não percebia.
Marcelo tirou o pacotinho verde do bolso, enrolou com calma, como se fosse um ritual. Quando me ofereceu, minha mente gritou para recusar. Mas meu corpo… hesitou.
"Isso é maconha, não é droga", ele disse.
E, de repente, a sala da casa de André voltou à minha mente: o quadro com ele e a irmã, o jeito como ele me olhava quando eu ria com Elias e Gui. Tudo isso parecia limpo, seguro, e muito, muito longe.
Meu dedo encostou no cigarro. Eu traguei.
Então vamos fechar a cena com esse impacto emocional e o contraste entre a euforia física e o peso moral.
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Traguei de novo. Marcelo sorriu, satisfeito, como se tivesse conquistado algo.
A fumaça queimou na garganta, mas, segundos depois, uma sensação quente se espalhou pelo meu corpo. Meus ombros relaxaram, minha cabeça ficou leve. Era como se a música estivesse mais lenta, como se as luzes coloridas fossem mais bonitas.
Eu ri. Sem motivo. Apenas ri.
Mas, no mesmo instante, algo dentro de mim começou a gritar. Uma imagem nítida: André, me olhando com aquele sorriso tranquilo, confiando em cada palavra que eu disse. A lembrança do jantar com a família dele, a paz que senti naquela casa… tudo isso me atingiu como um soco no estômago.
E, pela primeira vez naquela noite, percebi que não importava o quanto eu tentasse esconder: André perceberia. Ele sempre percebia.
Respirei fundo, como se pudesse apagar o cheiro, como se pudesse enganar até a mim mesma.
Mas no fundo eu já sabia. Não havia como desfazer.
E a música continuava tocando.
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Essa cena já está muito forte emocionalmente, mas dá para intensificar ainda mais o peso do momento e a sensação de ferida profunda que Camila sente, principalmente na última fala do tio.
Também dá para suavizar um pouco a transição entre a tensão e as falas para que o impacto final seja mais devastador.
Veja como poderia ficar adaptado:
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Eu abri a porta de manhã, ainda com uma energia estranha correndo pelo corpo e uma leve tontura embaralhando minha visão.
Minha tia, meu tio e Inajara estavam sentados no sofá, como se estivessem me esperando.
Revirei os olhos, largando a bolsa com um baque seco sobre a estante, ao lado da porta.
— Eu sabia que você ia vir fazer fofoca, Inajara — murmurei com ironia — O que foi que disse a eles?
Inajara abaixou o olhar.
— Ninguém fez fofoca, Camila — tia Carla respondeu, com um tom calmo demais para a situação — Inajara falou a verdade. Ela é sua amiga e se preocupa com você.
Revirei os olhos outra vez, querendo encerrar o assunto ali mesmo. Mas, quando dei um passo em direção ao meu quarto, senti o braço firme do meu tio me segurar.
— Camila — a voz de tio Luís estava carregada de raiva — você fez uma promessa ao seu pai… e hoje quebrou.
Sem me dar chance de responder, ele me empurrou para o sofá menor.
— O que vai dizer a ele?
Cruzei os braços, o coração batendo como um tambor. Eu sabia que tinha errado, mas não ia dar o gostinho de me verem admitir.
— Ele não precisa saber — falei baixo, mas com firmeza.
Meu tio ia retrucar, mas tia Carla o interrompeu com um gesto.
— Ele não vai saber — disse, ainda num tom quase maternal — mas você nos deve uma explicação. Somos responsáveis por você agora.
Continuei calada. Inajara se inclinou para frente, os olhos marejados.
— Eu só falei que você usou droga, Mila… — fungou — o resto é você quem decide contar.
Olhei para ela, evitando encarar meu tio, que me observava com a mesma dureza que meu pai teria. As lágrimas começaram a escorrer, silenciosas.
— Eu experimentei maconha. Só estava curiosa… e, além disso, não é droga de verdade, é natural. Foi só pra me divertir. Eu não vou fazer de novo, prometo.
Os três me olharam como se eu tivesse dito a pior coisa possível.
— Chega das suas promessas, Camila — meu tio falou sem olhar para mim — sua curiosidade vai acabar destruindo a sua vida.
Meu estômago se revirou. Destruir a minha vida? Eles estavam exagerando.
— Sei que não vai repetir isso — tia Carla disse, repreendendo o marido com o olhar — mas devia ligar para o seu namorado. Ele está furioso.
Me levantei num pulo, sentindo o sangue ferver.
— Ele não precisava saber!
— Precisava, sim — respondeu Carla, firme — Seu pai não vai saber, porque é capaz de morrer do coração. Mas André… ele já sabe. Contamos quando ele perguntou por você.
Um calor sufocante subiu pelo meu corpo.
— Eu… odeio vocês!
Meu tio se ergueu, o braço levantando no ar, e por um segundo eu tive certeza que ele ia me bater. Desviei o rosto, mas ele parou, olhando para baixo com um vazio estranho no olhar.
E então, como se cuspisse veneno:
— Não quero uma drogada vagabunda dentro da minha casa.
As palavras atravessaram minha pele, meus ossos, e se cravaram no fundo do peito. Eu senti como se nunca mais fosse conseguir respirar direito.
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