Notas iniciais
Camila, sua bobona -.-'

Não era uma noite muito movimentada. Apesar de ser uma sexta-feira, chovia muito, e a maioria preferiria trocar a festa pelo Netflix.

Era o primeiro dia, depois da briga, que íamos a Teen. Aparentemente, todos haviam esquecido a cena.

Todos, menos um.

Mal chegamos, seguimos direto para a pista de dança, mexendo o corpo junto com o ritmo eletrônico que tomava conta do ambiente, envolvendo todos ali.

Agora, tudo o que eu queria era aproveitar minha atual condição de solteira para fazer o que quase toda garota da minha idade quer em uma noite como essa: beijar na boca.

Inajara seguia na mesma vibe, mas não tinha a minha pressa. Simplesmente estava ali para curtir, dançar, quem sabe algo poderia rolar...

Foi mais ou menos no meio da noite, que fui surpreendida por um cara, em torno de vinte e cinco anos, o rosto sem barbear há alguns dias, que parou em nossa frente com um sorriso meio maroto, de olho em mim.

Eu sorri, e ele passou a fazer perguntas sobre meu nome e outras considerações formais, que eu respondi, simpática.

Qual a possibilidade de ganhar um beijo? — ele perguntou, educadamente.

Eu sorri. Vi Inajara fazer sinais para mim, por trás dele, mas não entendi o que ela queria dizer. Ele se aproximou meio de leve, me puxou pela cintura e me beijou, eu correspondendo, sem medo.


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P.O.V André


Camila era ingênua.


Logo que cheguei na Teen, me escorei na parede no lugar habitual, torcendo para não ser incomodado. Dançar não tinha graça, quando se está sozinho, e bem, eu realmente não queria ficar por ficar.


Olhava distraído a dança das meninas, quando o vi: Marcelo. Ele estava novamente no ambiente adolescente e conversava com um cara mais velho, talvez uns vinte e cinco anos.


Alguma coisa estranha estava acontecendo. O homem desconhecido entregou a cerveja que tinha nas mãos ao garoto a sua frente, e seguiu em direção a pista de dança, onde iniciou uma conversa tensa, da qual Camila parecia sorrir a tudo.


Aquilo me irritava, me fervia um ódio tão grande. Ela estava flertando com um cara dez anos mais velho? Com certeza, alto estava errado naquilo tudo.


O que ela não sabia, era que aquele cara, aparentemente inofensivo, era um viciado.


Eu amo essa garota, cara, e ela é ingênua demais, talvez por não conhecer tudo pelo que passei até aqui. Por não conhecer o que a Teen passou para chegar até aqui. Mas eu sei que ela não experimentaria nada naquilo outra vez. Ao menos era o que eu achava.


Eu a vi dar um sorriso. Cerrei os punhos com força, as unhas cravadas nas palmas das mãos. Vi que Inajara tentou sinalizar a ela que eu estava olhando, mas ela não se importou. O homem a puxou pela cintura, de um jeito bruto e a beijou. Inajara olhou para mim, e eu baixei a cabeça, decepcionado.


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P.O.V Inajara


Romântico e sensível como era, André baixou a cabeça e saiu a passos largos da Teen. Preocupada, saí atrás dele. Eu o conhecia, e por isso mesmo, conseguia vê-lo como um cara legal, e sabia que ele não iria me magoar.


Ela não precisava ter feito isso na minha frente, Iná. Podia ter feito se quisesse, mas longe de mim.


Senti um aperto no peito. Sabia como ele estava se sentindo, pois já havia passado por isso. Mas não imaginava que um garoto pudesse ser tão sensível. Parecia que eles também tinham os momentos tristes que nós, meninas, temos.


- Eu sei — suspirei — Ela devia ter pensado um pouco antes de fazer isso — eu olhava intensamente para o cordão da calçada, enquanto falava.


A vontade de André, eu podia enxergar nos olhos dele. Ele sentia ódio. Sentia vontade de levantar e soquear aquele homem desconhecido. Ou então falar quem ele realmente era.


- Ele é um viciado, Iná — ele soltou, finalmente — É amigo de Marcelo.


Senti algo ruim dentro do peito. Como se aquilo tivesse algo a ver com a promessa de Marcelo. Eu o conhecia. Sabia que ele era capaz de qualquer coisa.


- Como assim? — indaguei, surpresa — Como sabe disso?


- Quando vocês dançava, eu vi eles conversando — ele desabafou — Entregou a cerveja a Marcelo e foi falar com ela.


Senti uma faca atravessar minha garganta. É claro que eu sabia que Camila tinha um pouco de culpa. Mas estava sendo enganada! Eu queria ir até lá e avisar minha amiga da grota em que estava se metendo. Mas bem, André precisava mais de mim naquela hora.


- O que a gente vai fazer? — eu perguntei, baixinho, aflita.


A gente não vai fazer nada — cortou ele.


- Como assim? — gritei, as pessoas em volta me olharam — Aquele idiota vai enganar a Camila, e você vai deixar?


Bem, ele sabia que nada adiantaria. Camila tinha gostado do cara e agora nada do que eu dissesse ia fazer ela mudar de ideia. Camila sempre foi teimosa, e ele sabia disso.


- Não vai ajudar falar com ela agora — ele baixou o tom, sentando-se ao meu lado na calçada — Deixa ela mesmo resolver o que vai fazer. Se ela tiver um pingo de juízo, não vai fazer nada que não queira. E se quiser fazer, não vai ser a gente que vai impedir.


André pegou minha mão, carinhosamente, e me abraçou. Uma amizade estava se selando ali.


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P.O.V. Camila


Subia a escada lateral para o segundo andar quando, de repente, meus olhos congelaram na cena.

Inajara e André. Juntos. De mãos dadas.


Um nó se formou no meu peito, e a raiva subiu como um veneno. O coração disparou, mas não de dor — de ódio.

Então é assim? pensei. Basta eu olhar para o lado, e eles já se consolam um no outro?


A cabeça latejava. A música alta se transformou num martelo na minha mente. Eu não via mais nada, só aquela cena queimando meu estômago.

“Quer saber? Eles vão me pagar. Eu vou mostrar quem eu sou de verdade.”


Maurício apareceu ao meu lado com aquele sorriso maroto, estendendo a mão. Sem pensar, aceitei. Subi o restante das escadas sendo puxada por ele, o coração pulsando feito um tambor. Eu não ligava mais. Só queria esquecer a imagem de André e Inajara juntos.


Foi então que o vi.


Marcelo. Encostado na parede, como se já esperasse por mim. Na mão, um cachimbo improvisado, fumaça densa escapando pelas bordas. O olhar dele brilhava em um tom que gelou meu corpo inteiro.


Maurício riu e me empurrou, de repente, fazendo-me cair contra o outro cara, que me segurou firme pela cintura. Reconheci o sorriso debochado de Niterói.

Meu estômago virou.


— Agora você acredita em mim? — Marcelo perguntou, a voz baixa, quase um sussurro, mas que atravessou meus ossos como lâmina.


Arrepios subiram pela minha nuca. Eu quis recuar, mas as mãos de Niterói me seguravam firme. Meus olhos se arregalaram, e por um instante, não havia música, não havia pista de dança, não havia nada. Só eles, e eu presa.


— O que você vai fazer comigo? — minha voz saiu fraca, trêmula, quase um pedido.


Marcelo sorriu. Mas não era um sorriso humano. Era a promessa de que minha vida nunca mais seria a mesma.


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Marcelo riu baixo, aquele riso que fazia meu estômago embrulhar.

— Não preciso fazer nada. — deu de ombros. — Você mesma faz tudo o que eu quero.


Revirei os olhos, tentando afastar a mão dele da minha cintura.

— Deixa de ser ridículo. Não faço ideia do que você tá falando. Me deixa ir embora!


— Ah, não faz? — ele arqueou a sobrancelha, quase divertido. — Você ficou com meu amigo na frente do seu “namoradinho pirralho”. E fez porque quis, não fez?


A frase caiu em mim como um soco. Minha garganta fechou. Não… não era mentira. Não pensei em André na hora, não pensei em nada. Só quis sentir outra coisa.


E, de repente, não podia mais julgar. Se eu fiz, com que direito ele não poderia ter feito também?


Marcelo inclinou a cabeça, como quem sabe que venceu.

— Quer dançar?


Eu precisava distrair minha mente. Precisava apagar aquela dor que ainda latejava em mim. Balancei a cabeça afirmativamente.

Não tem mal nenhum nisso. É só dançar.


Ele me puxou pelo quadril até o meio do salão. A música era tão alta que parecia atravessar meus ossos. Olhei em volta: corpos colados, casais se beijando, outros quase se engolindo no meio da fumaça colorida. Não havia ninguém olhando. Nenhum adulto, nenhuma regra. Só um caos embriagado de álcool, suor, drogas.


Marcelo gritou algo, mas a batida abafava tudo.

— O QUÊ? — perguntei de volta, quase sem voz.


Ele sorriu, se aproximando do meu ouvido.

— O QUE TÁ ACHANDO?


— LEGAL! — gritei, forçando um sorriso.


— QUER AQUILO? — ele ergueu a mão, mostrando discretamente algo fechado entre os dedos.


Olhei, sem entender.

— O quê?


— O COMPRIMIDO. — o sorriso dele era quase um desafio. — AQUELE pra dançar.


Meu peito travou.

— Êxtase? — ri, tentando parecer segura. — Para de falar comigo como se eu fosse criança. Eu sei o que é.


— Desculpe. — ele riu junto. — Esqueci que hoje todo mundo tem informação demais. Então… vai querer?

Meus pensamentos voaram. Lembrei da promessa que fizera. Lembrei de André, da decepção no rosto dele, de Inajara, do meu pai… dos meus tios. A cabeça dizia não, mas a boca queimava por dizer sim.

Apesar disso, a conversa com Isa e meu tio me convenceram que eu precisava estar firme no que acreditava.

— Não posso — falei calmamente.

Marcelo me encarou, surpreso, e em seguida abriu um sorriso preguiçoso. Deu de ombros, sem drama.

— Beleza, princesa. Tá de boa.

Ele não ficou bravo, como eu temia. Voltamos a dançar. Em pouco tempo, me deixei levar pelo ritmo, pelo calor do ambiente. Ríamos, nos aproximamos. Em um momento, ele se perdeu no meio da multidão.

Fiquei parada, sem saber o que fazer, até que uma menina baixinha surgiu, animada.

— Você é nova aqui, né? — perguntou, já rindo antes mesmo da resposta.

Suzi. Assim se apresentou, num discurso longo e acelerado, como se não tivesse fôlego para pausar. Era lésbica, meia judia e, segundo ela, “meio nazista também” — o que me deixou confusa. Roupas de marca, short jeans, cinto preto de couro e camiseta de banda. Nada nela parecia “quebrada” como muitos ali.

— Ganhei um computador gigante da minha mãe. Ela achou que eu ia ficar mais em casa. — Ela gargalhou. — Ela sabe que eu nunca vou trocar aquilo por meia dúzia de pedra.

Eu ri sem entender, concordando apenas para não parecer deslocada. Era tudo estranho, mas, ao lado dela, eu não parecia tão perdida.

De repente, Suzi me puxou pela cintura, o riso colado no meu rosto. E, sem pensar, me beijou.

Por um segundo, pensei em recuar. Mas o ambiente inteiro gritava liberdade. “Posso tudo. Sou livre.” Meus lábios responderam ao dela com intensidade. O coração acelerou. Foi um êxtase repentino, como se fosse certo apenas porque ninguém ali julgaria.

No meio disso, Marcelo reapareceu. Gargalhou alto, debochado:

— Caraca, Camilinha, eu sumo dois minutos e você já arrumou outra? — cutucou, e me entregou um copo gelado. — Toma, caipirinha de morango. Essa é a sua cara.

O gosto doce mascarava o álcool, mas queimava na garganta.

— Aqui você é livre, guria — ele sussurrou no meu ouvido, cúmplice. — Pode fazer o que quiser. Se não quiser também, ninguém te cobra.


Abri um sorriso enorme. Aquilo era tudo o que eu queria sentir: parte de alguma coisa, sem obrigação, sem vigia. Era fácil. Era incrível.


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Quando deu três da manhã, pedi para Marcelo me levar em casa. Ele não hesitou. Caminhamos juntos até a rua, falando de animes, bandas de rock, filmes e super-heróis. O brilho nos olhos dele parecia sincero.


— Tu curte mesmo essas bandas? — perguntou, como quem busca algo em comum. De repente, riu. — Quer namorar comigo?


Não sabia se era sério ou piada. Ri junto, levando como brincadeira.

— Tá bom.


O silêncio que veio depois me fez perceber que não era brincadeira. Ele segurou minha mão, e havia ternura em seu rosto.

— Você é linda, sabia? Seus olhos parecem uma obra de arte.


Corei, sem jeito.

— Para, me deixa sem graça — murmurei.


E só então percebi que, sem querer, tinha dado um passo sem volta.


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Pouco depois das três, meu celular vibrou. Revirei a bolsa até achar. A visão embaralhada. Era André.


— Alô?

— Mila? — a voz arfante dele soava estranhamente preocupada. — Onde você tá?

— Em casa! — gritei, irritada, sem pensar. — O que você quer?


Do outro lado, silêncio. Depois um suspiro pesado.

— Que bom que está bem — a voz dele era firme, quase paterna. — Te cuida.


As palavras dele cortaram como faca, trazendo à tona tudo que eu tentava enterrar. Meu sangue ferveu.

— Desde quando alguém pensa no meu bem? — retruquei, a raiva engolindo o pouco de lucidez que restava. — A vida é minha! Dá um tempo!


E desliguei.


Notas finais
Mais em breve ;)