Ops! - Sonhos quebrados

13 UNIDADE 2 - AINDA HÁ UMA ESPERANÇA / Lezada


Notas iniciais
Aqui começa a segunda unidade, onde a vida de Camila toma um rumo nada legal. Mas ainda há uma esperança.

Meus tios não disseram nada. Nem Isa. O silêncio deles pesava mais do que qualquer sermão. Tudo na casa parecia me olhar torto. Como se cada parede soubesse o que eu fizera.


Eram duas da tarde. Eu estava cansada de ficar ali. Cansada de mim mesma, talvez.


Vesti o que achei mais rápido — short surrado, regata vermelha — e saí. Sem destino.


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— Mas que droga, Camila! — Inajara gritava no meio da rua, as mãos frenéticas, o rosto vermelho de choro. — Acha que ninguém se preocupa com você? Que merda acha que tá fazendo?


Eu vinha descendo a rua. Dei uma bufada.


— Não enche, Iná — segui o caminho, deixando ela para trás.


Senti a mão dela no meu ombro e revirei os olhos antes de virar.


— Você é uma lezada! — ela quase cuspiu no meu rosto. — Quer ser igual a eles? Por que não dá logo essa bunda para ele? Talvez vocês dois terminem de se destruir juntos!


O choque dela assim… me tremeu. Engoli seco, mas a raiva subiu.


— Talvez eu vá, então — falei baixo, firme.


Ela ficou quieta por meio segundo. Depois, a voz veio meio tremida, meio quebrada:


— Eu te amo, Camila… — e aquilo atravessou meu peito — Eu te amo. Mas quando você estiver no fundo do poço e vier atrás de mim, vou ter o prazer de dizer: eu te avisei.


O peito doeu, mas eu não diminui o passo.


— Não seja ridícula, Inajara — ironizei. — Não vou virar uma viciada.


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Quando percebi, já estava perto do grupo do Marcelo. Era automático. Como se um ímã me puxasse.


Ele estava a poucos passos, rindo com alguns adolescentes. Acenei. Ele sorriu.


— E aí — ele cumprimentou, sem sair do meio da roda. — Essa galera aqui é a Jéssica, o Travis, a Su e a Glória.


— Oi — murmurei, meio acanhada com tantos rostos novos. As mãos afundadas nos bolsos. — Tem um baseado aí?


Marcelo assentiu, tirou um saquinho do bolso e jogou pra mim. Peguei no ar.


Ia dizer que não sabia bolar, mas lembrei do jeito que Niterói enrolava. Tentei. E consegui. Alguém do meu lado acendeu pra mim.


Dei a primeira tragada e senti uma paz estranha entrando no peito, como se tudo silenciasse por um momento.


Minha mãe morta. Meu pai perdido. Eu trocada de cidade. Eu sem chão. Eu sem fé.

Meu corpo inteiro só queria parar de sentir.


Marcelo sentou ao meu lado, discreto.


— Não pensei que tu viria — disse. — Problemas?


— Todos — respondi.


Ele fez que sim, com a cabeça.


— Ia te convidar pra morar comigo — murmurou, meio tímido, meio inseguro. — Se tu quiser.


Por que não?, pensei. Tudo que eu conhecia já tinha desmoronado, de qualquer jeito.


— Eles não iam gostar — respondi. — Mas… posso deixar umas roupas lá. Passo lá de vez em quando.


Ele abriu um sorriso grande demais. Pegou minha mão. Encostou a cabeça no meu ombro.


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Os dias viraram semanas. As semanas viraram meses.

Casa → escola → Teen → casa do Marcelo.

Círculo vicioso. Automático.


Meus tios tentaram conversar.

Chamaram a polícia.

Avisaram vizinhos.

Avisaram meu pai.


Nada adiantou. Eu estava trancada dentro de mim.


Oito meses se passaram.


A maconha virou rotina. Demorou meses para vir a “farinhazinha do fim de semana”. Depois o “só hoje”.

Depois o “não dá nada”.


Vendi meu celular. Depois o notebook. Depois o tablet. Depois meu amado leitor digital. Uma troca atrás da outra.


Comecei a pedir dinheiro na rua.

Dormia na casa do Marcelo quase todo dia.

Aparecia em casa só para pedir — ou roubar.


Ver o meu tio feliz por me ver fazia eu me sentir pior. Então eu forçava mais. Apertava mais. Ele cedia.


Depois vieram os golpes.

Eu dizia que meu tio estava mal de grana.

Que eu estava doente.

Que precisava comprar aparelho médico.


Uma vez falei a verdade:

— É pra droga.


O cara me deu dinheiro admirando “a sinceridade”.


Eu parecia outra pessoa. E ainda estava só "começando".


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– Não vou vender meu anel, Marcelo, me deixa em paz! – os olhos dele estavam quase colados nos meus. Ele me segurava pelos dois braços e me sacudia. Nunca o vira tão violento.

– Mas que droga, Camila! – ele soltou, virou as costas e cuspiu no chão, antes de socar a parede – Já vendeu tudo o que tinha, por que não pode vender essa merda?

As lágrimas teimosas inundavam meu rosto. Estávamos na casa dele, eu sentia ódio dele. O pó tinha nos tirado tudo, do celular a dignidade. Ele era carinhoso comigo, mas quando queria droga, saía fora de si, como se fosse outra pessoa, agressiva e perdida. Eu tinha muito medo dele quando estava assim. Eu nem mesmo sabia onde ele conseguia a droga, mas eu sei que o dinheiro ia como água.

– Você é estúpido – meus olhos o espancavam – Tudo o que eu tinha foi pra sustentar nós dois. Tudo o que faz é trazer a droga — gritei.

Ele pareceu magoado com o que eu disse. Passou uma nuvem escura pelo rosto zangado dele.

- Quer o anel? — eu quem estava com raiva agora.

Tirei o anel e o joguei nele, mas ele se desviou e o anel acertou a parede. Fechei os olhos, e quando os abri, a pedra tinha se partido em quatro.

– Essa merda – eu quase sussurrava, chorando – Era a última coisa que eu tinha do meu pai.

Ele hesitou, comovido. Sabia que meu pai era um ponto fraco meu. Meu calcanhar de Aquiles.

Revirei os olhos e saí sem olhar pra trás.


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Estava escuro, mas não muito.

Não queria ir pra Teen. Acabei indo na direção de casa. Com lágrimas nos olhos, abri a porta, sem saber que dia da semana estava agora.

Pra minha sorte (ou falta dela), devia ser domingo. Tio Luis, Tia Carla e Daiane estavam assistindo uma comédia qualquer na TV grande. Meus tios sentados no sofá, Isa no chão, com a cabeça escorada nas pernas do pai.

Eram uma família tão linda.

– Oi – eles finalmente viraram pra trás, meu tio pausando o vídeo automaticamente. Não estavam surpresos. Penalizados, talvez.

– Camila, querida – a voz terna da minha tia fez o choro disparar de novo, ela me abraçou – Você parece tão mal, por que não fica aqui e tenta parar com tudo isso, ein?

Vi claramente minha prima revirar os olhos.

– Eu quero, tia – choraminguei, desesperada – Quero ficar bem, quero ser normal de novo.

Normal. Tá aí uma palavra que eu odiava.

Meu tio sorriu do sofá e veio me abraçar com entusiasmo exagerado.

– Eu te amo, filha – ele sempre me chamava assim quando estava sendo meloso – Fico tão feliz de saber que está bem.

Sorri com pouca vontade.

– Então vai ser assim? – era Isa gritando, se virando, furiosa, fazendo birra, como a mimada que era – Essa garota fez tudo isso e vai ficar por isso mesmo? Vão pagar psicólogos pra essa louca não terminar de se matar, é isso?

Mordi o lábio, pra não responder grosseiramente e mantive minha cabeça baixa, pra esconder o sorriso irônico. É claro que a senhorita perfeita estava me julgando, ela era a santinha, que fazia sempre o certo. Mala. O choro queria sair pela minha garganta, eu segurei com a pouca força que tinha.

– Eu errei, só quero ficar bem agora – sussurrei.

– Ah, cala a boca – ela saiu, trotando, e a porta do quarto bateu com força.

Levantei os ombros. Tia Carla pareceu hesitar nos olhos. Meu tio também não estava confiante.

Mas eles escolheram acreditar em mim.


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Meu tio garantiu que se eu quisesse, podia melhorar sozinha. Me mantive em casa por quase sete dias, em meio a muitos mimos e cuidados dos meus tios.

No outro domingo, os três saíram, acho que pra um piquenique ou algo nesse estilo. Fiquei deitada por horas na cama, observando qualquer movimento diferente na janela.

Estava entediada, o fone no ouvido tocava algo lento, e eu tinha medo de escutar qualquer coisa agitada, pois me fazia ferver de vontade de cheirar.

De uma hora pra outra, cochilei. Acordei cerca de uma hora depois, com batidas insistentes na janela. Era Marcelo, com algo diferente no olhar. Mas já estava assim, desde que saí de perto, era como se não fosse mais o mesmo. Dava medo.

– Que foi? – ele riu – a filha pródiga a casa torna, foi?

Olhei pra ele, a expressão de ódio no rosto.

– Só quero ser um orgulho pra eles – falei.

Ele gargalhou.

– Deitada em cima de uma cama? – ironizou.

Ignorei. Ele foi embora, finalmente.


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Cochilei de novo. Acordei quando estava quase escurecendo. Na rua, vi um vulto passar correndo. A curiosidade “camiliniana” falou mais alto.

A porta estava trancada, conforme combinado com tio Luis. Espiei a rua pela janela, a calmaria era geral. Vi um carro parado na frente da única casa de dois andares da rua. Estranho, aquela era a casa do pastor da igreja dos meus tios.

O carro era um BMW preto lindíssimo.

Espera. BMW?

Aquilo devia ser interessante.

Vindo daquela direção, Glória saía do carro importado com as mesmas roupas de sempre. Ela também estava diferente. Estranho.

Deitei outra vez, deixando que um rock pesado dessa vez me levasse a curiosidade embora.

A música entrou nos meus ouvidos, mandando adrenalina demais pro meu cérebro.

Senti o suor frio nas minhas costas, minha cabeça agitada, o coração batendo mais forte do que eu conseguia aguentar. A necessidade do vício me gritando nos poros. Tentei dizer a mim mesma que precisava ser o orgulho da minha família, que não podia pensar só em mim.

Ergui-me de súbito, sem pensar muito. Abri a porta do armário de Daiane, revirei os muitos porta-joias e encontrei o que precisava. Uma nota de cinquenta.

Minha prima estava trabalhando há uns dois meses, em um consultório de um psicólogo. A ideia da garota perfeita nessa área parecia absurdo. Mas bem, nada mais justo que o equilíbrio. A perfeição e a degradação unidos em uma só família.

Peguei o dinheiro e pulei a janela.


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Passaram alguns dias até que tivesse coragem de aparecer de novo. O dia que cheguei era noite, Isa estava no pátio, sentada com um livro nas mãos. Seu rosto escureceu como um emoji quando me viu.

- Você é louca de aparecer aqui? — ela gritou, a raiva deixando-a vermelha e com a veia da testa saltada como se ela fosse infartar — Tem coragem de aparecer aqui depois do que fez?

Eu tremi. Sabia que não ia ser fácil quando a visse de novo. Quis chorar. Mas a vontade de cheirar estava maior.

- Só vim buscar minhas coisas — sussurrei.

Não era mentira. Queria tudo o que tinha sobrado para vender.

Não deu tempo de perceber o que aconteceria. Ela pulou em mim como um macaco prego. Se avançou no meu rosto como louca. As unhas ficaram marcadas no meu rosto.

- Não quero você na MINHA casa — ela gritou, de dentes cerrados feito um cão raivoso.

- O que tá acontecendo aqui? — a voz era desconhecida. Virei para ver um homem de vinte e tantos anos, meio careca, mais branco que eu.

- Essa minha prima drogada — ela cuspiu no chão.

Eu estremeci e saí correndo, sem pensar. Não sabia o que tava acontecendo e não pretendia ver.