Ops! - Sonhos quebrados

11 Conversas chatas e choro incontrolável


Notas iniciais
P.O.V de toda a turma do Ops! oow *__*

O sino já tinha tocado para o intervalo, mas eu não fui para a sala com os outros. Preferi me esconder num canto menos movimentado do corredor, perto das escadas. Alguns alunos passavam apressados, mas ninguém parecia notar minha presença. Respirei fundo, tentando sentir o ar “normal” da escola, como se nada tivesse acontecido nos últimos dias.

Sentei-me num degrau e abri meu caderno, fingindo anotar algo, mas a cabeça estava longe. Era impossível ignorar a sensação de que algo continuava errado entre mim e André.

E, como se meu pensamento chamasse por ele, André apareceu. Parou alguns metros à minha frente, encostado no corrimão, com as mãos nos bolsos. Não parecia zangado, mas a distância entre nós falava mais do que qualquer palavra.

- Posso me sentar? — ele perguntou, voz baixa, controlada.

Assenti com um aceno. Ele sentou-se no degrau ao lado do meu, mas manteve uma distância respeitosa.

- Eu... — começou, hesitante — Queria pedir desculpas por tudo. Por desaparecer, por não ter falado nada. Pela falta de controle no outro dia.

Ele desviou o olhar por um instante, respirou fundo, e finalmente olhou para mim.

- Eu sei — eu disse, firme. — Tá tudo bem. Mas não espere que as coisas voltem a ser como eram. Nem pra mim, nem pra você.

Um nó se formou na minha garganta. Eu queria abraçá-lo, gritar que entendia, mas nada parecia caber naquele momento.

- Tem algo que você precisa saber sobre Fernanda — ele continuou, como se escolhendo cada palavra com cuidado — Não é que ninguém se importa com ela, mas... a família simplesmente evita falar dela. É como se ela tivesse desaparecido da casa. Até o quarto dela está trancado a maior parte do tempo.

Meu coração acelerou. Eu não sabia se podia perguntar mais, mas ele parecia disposto a compartilhar o que podia.

- Eu sei que você... — ele pausou — que você quer entender. Mas não posso te dizer tudo. Não ainda.

Fiquei em silêncio, absorvendo a informação. Um misto de alívio e frustração me tomou: finalmente algo real, mas ainda longe de respostas completas.

- Eu entendo — falei, devagar. — Obrigada por me contar, pelo menos um pouco.

Ele apenas assentiu. Por um instante, ficamos ali, lado a lado, em silêncio. Não havia romance, nem gestos exagerados — apenas a reconstrução de uma amizade frágil, que talvez pudesse resistir às tempestades que ainda estavam por vir.


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Quando o sinal bateu de novo, levantei-me devagar. Tentei me misturar aos colegas no corredor, fingindo estar concentrada nos cadernos, no celular, em qualquer coisa que não fosse o que acabara de ouvir.


Alguns alunos lançaram olhares curiosos, outros simplesmente passaram apressados. Respirei fundo e caminhei até a sala, tentando manter a postura de quem tudo estava normal. Sentar na minha carteira foi como mergulhar de volta na rotina, mas a mente continuava agitada.


Durante a aula de matemática, olhei de relance para André, que mantinha o olhar focado na professora, sem demonstrar qualquer reação à minha presença. Meu coração doeu, mas eu respirei fundo, lembrando-me do que ele dissera: perdão sem romance. Amizade. Apenas isso.


Na hora do intervalo, algumas amigas me chamaram para conversar, mas eu aceitei apenas parcialmente. Sentei-me no banco do pátio, observando o movimento, sorrindo quando necessário, mas mantendo certa distância. A sensação de “vida normal” ainda era estranha, quase ensaiada.


Então André apareceu de novo. Desta vez, caminhou até o banco onde eu estava, mantendo a distância certa. Não disse nada por alguns segundos, apenas sentou-se ao lado, olhando para frente.


- Eu queria que você soubesse — começou, com a voz baixa — que não estou bravo com você por curiosidade ou impulsos. O que me preocupa é segurança. E... sobre Fernanda, só pra você não se iludir, não tem volta pra ela agora.


Eu balancei a cabeça, sem conseguir falar muito. Só absorvia. A informação ainda queimava, mas havia conforto no fato de que ele confiava em mim o suficiente para compartilhar um pouco da verdade.


- Eu entendo — murmurei. — Prometo tentar não me meter em problemas.


Ele assentiu, incrédulo, e ficamos ali por alguns minutos em silêncio, lado a lado, como se o tempo tivesse desacelerado. Ninguém mais parecia importar; éramos apenas dois adolescentes tentando equilibrar confiança, perdão e amizade.


Quando ele se levantou para voltar à aula, olhei para o corredor cheio de alunos. Senti um misto de liberdade e responsabilidade: podia tentar ser “normal” novamente, mas agora com a consciência de que algumas coisas não voltariam a ser como antes.


E talvez, por enquanto, fosse suficiente.


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O sinal bateu e eu guardei os cadernos com cuidado, tentando me misturar à multidão. Quando olhei para fora, vi o carro do tio estacionando na frente da escola. Ele desceu com o mesmo jeito sério de sempre, mas com aquele olhar que misturava preocupação e carinho.


- Vamos, meninas — chamou, abrindo a porta do carro — Está na hora de irmos pra casa.


Isa e eu entramos, e ele deu a partida. O carro deslizou pela rua movimentada, e o silêncio tomou conta por alguns segundos. Depois, ele começou:


- Camila... — começou devagar — sei que você está crescendo, querendo descobrir coisas novas. Mas quero que saiba uma coisa: há limites que precisam ser respeitados. Ficar perto de gente que só quer te arrastar pra problemas não é legal. Entende?


Revirei os olhos, típica reação de adolescente, mas não disse nada. Ele continuou:


- Meninos? — franziu o cenho — Nada contra, mas é importante manter a cabeça no lugar. Nada de se envolver em situações que não fazem bem, mesmo que pareça divertido na hora. A vida dá sinais, e sei que você é esperta pra perceber.


- Tá bom, tio — murmurei, ainda olhando pela janela, vendo as árvores passarem.


- Sei que pode parecer chato — ele suspirou — mas é meu dever. E eu gosto de vocês demais pra deixar de falar. Cuidar de vocês é a minha prioridade, entende?


Assenti, sem coragem de abrir a boca. O resto do caminho foi silencioso. Mas, ao chegar em casa, enquanto caminhava para o quarto, fiquei pensando em cada palavra dele. Cada aviso, cada cuidado, cada gesto.


Mesmo sem admitir, sabia que ele estava certo. Mas, como sempre, essa consciência vinha com um peso que adolescente nenhum gosta: a responsabilidade de fazer escolhas certas, mesmo quando o coração quer experimentar tudo.


Sentei na cama, observando a luz do fim de tarde entrar pela janela, e deixei que aquela sensação de cuidado paterno se misturasse com meus pensamentos sobre André, Marcelo, e tudo o que ainda estava por vir.


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Isa entrou logo depois de mim, fingindo não me ver ali, absorta nos meus pensamentos internos. Eu ignorei a presença dela também.

Ela sentou na cama dela, de frente pra mim.

- Sei que esse jeito dos adultos falarem, como se soubessem tudo sobre a vida é um saco — ela riu — Mas você sabe que ele tá querendo falar algo importante, não sabe?

Assenti. Meu peito apertou. Algo dentro de mim doeu. Meus ombros começaram a tremer como se fossem cair. Todas as lágrimas de todos aqueles dias saíram de dentro de mim. O choro saiu alto, como criança.

- Me desculpe — pedi, a voz meio alta, em tom de choro — Que desastre — ri.

Ela sorriu de volta, me confortando.

- Você precisa saber, maninha — o jeito dela falar me fez abrir um sorriso — As vezes, meninos podem ser ótimos amigos, nos entender melhor que as meninas, até melhor que a gente mesmo. Mas as vezes, eles são cruéis. E não digo isso pra te manter longe, não. É que menino não pensa com o coração como a gente. Eles pensam de... Outra forma.

Eu assenti, tentando entender o que ela queria dizer. Ainda não tinha conseguido parar o surto de choro.

- E sobre o nosso coração... — ela fez uma pausa, olhou para os dedos, entrelaçando eles no colo, como se brincasse — Bom, você conhece a bíblia e tudo. O coração é enganoso. Nem sempre as nossas escolhas são boas, principalmente essas, tomadas no impulso. Nós humanos, somos enganados pelo coração. Nós adolescentes, somos enganados pelo impulso de coisas novas. E nós meninas, bem, somos enganadas por nossos ouvidos.

Fiz cara de ponto de interrogação. Meu coração, talvez ouvindo falar tanto dele, bateu mais forte.

- Se manter pura não é nossa prioridade quando pensamos com o coração — ela explicou — Porque só queremos ser felizes, e não obedecer. Mas tudo o que aprendemos, sabe, não é só para nos manter presas, é sobre segurança também.

Aquela palavra de novo? Franzi a testa, ainda mais confusa.

- E como nos manter seguras e seguir o coração? — tentei entender.

- Esse é o ponto, maninha — ela riu — Se quisermos manter a segurança, devemos ficar longe dos chamados do coração — ela apontou o próprio peito, dando uma picadinha.

- E seguidos os chamados do quê, então? — Eu perguntei, agora curiosa sobre o que ela queria dizer.

- Disso aqui — ela apontou a bíblia de capa rosa com flores em cima do travesseiro dela. — Siga os chamados que estão aqui, e fica bem segura. Mesmo que pareça que não.

Eu fiz que sim, mas por dentro revirei os olhos. Não era simples assim. Porque eles não entendiam que ser adolescente era difícil?

Ela levantou e me deixou pensar sozinha. Terminei minha crise abraçada no travesseiro. De novo, esqueci de orar.

E não abri minha Bíblia.