Levy McGarden acordou cedo, como sempre, e caminhou pesadamente até o banheiro. Enquanto fazia seu xixi pensava na porcaria de dia que iria ter de enfrentar. Mais um dia péssimo na vida da azarada Levy. Mal podia esperar para anoitecer e voltar a dormir.

O uniforme de segunda mão do colégio Fairy Tail já estava surrado e o rosa, que já era claro, de tão desbotado estava com uma cor um tanto esquisita. Parecia salmão, mas podia superar. Ele a aguardava dobrado aos pés da cama como todos os outros dias, uma lembrança constante do inferno. Respirou fundo e tentou acalmar a mente irritada logo pela manhã.

—Talvez hoje não seja tão ruim! Pensamentos positivos! –Disse para si mesma, e com um aceno de cabeça tentou se convencer.

Apanhou a meio calça preta jogada de qualquer jeito no chão e começou a vesti-la pensando se tinha feito todos os deveres de casa que deveriam ser entregues aquele dia. Apanhou a saia cinza pregueada e em seguida passou a camisa branca pelos braços cruzando as abotoaduras. Por cima ia o casaco rosa com a gola arredondada com duas linhas brancas que enfeitavam a borda do tecido. Pegou a fita vermelha larga e fez o laço perfeito de sempre. Penteou os cabelos azuis rapidamente e passou sua fita laranja costumeira pela cabeça e já estava pronta. Apanhou a bolsa e colocou todos os livros que iria precisar e se adiantou para a cozinha.

Jet e Droy ainda dormiam quando começou a preparar o café da manhã. Colocou o avental para não sujar o uniforme e começou a quebrar os ovos para a omelete. Logo a mesa estava pronta e quando se sentou os irmãos apareceram. Assim como ela, usavam uniforme rosa. Jet sempre amarrava o cabelo ruivo num rabo e Droy apenas fazia aquele penteado esquisito com gel. Disseram um breve bom dia e começaram a se servir, sempre com cuidado para deixar os pedaços maiores ou que parecessem mais saborosos para a pequena irmã.

—Estão animados para hoje? –Perguntou Droy quebrando o silencio.

—Para que exatamente eu deveria estar animada?

—As provas acabaram! Você, como sempre, não pegou nenhum exame, as férias estão quase chegando e você pode gastar todo o seu tempo lendo seus amados livros bem quietinha na biblioteca. Não é um dia animador?

Jet e Droy sorriram quando viram o rosto de Levy alvorecer. Esta enfiou mais um pedaço dos grandes de omelete na boca e se levantou pegando seu prato e hashis, levando-os até a pia.

—Se eu chegar mais cedo vou poder escolher um lugar bem confortável, aquele no cantinho, ao lado da janela! –falou quando voltou alguns minutos depois. – Vocês sabem onde me encontrar. Até depois!

Agarrou novamente a bolsa e se dirigiu a porta de entrada. Calçou os sapatos marrons e logo abriu a porta e saiu para a calçada. Trancou-a atrás de si e respirou fundo o ar da manhã. Estava próxima das oito da manhã quando saiu de casa e teria uma caminhada de 25 minutos até o colégio. Cruzou os braços e disparou a andar.

Era sempre um tanto tedioso esse caminho, principalmente quando estava sem os irmãos. Era cedo e apenas os que trabalhavam e os estudantes estavam nas ruas, cada qual correndo para seus destinos. Apesar de chato, era quase como um calmante já que odiava ir a escola. Era um lugar completamente maluco, cheio de adolescentes com os hormônios a flor da pele e poucos eram os que realmente queria estudar de verdade. Levy sabia que estava destinada a coisas grandiosas e esperava que um ambiente com pessoas tão desleixadas não mudasse isso. Claro que não haviam só pessoas ruins, lá via suas amigas e estas eram as únicas com quem Levy aceitava matar um dia de aula para tomar sorvete e assistir comédias coreanas. Também tinha seus irmãos e alguns amigos que com quem crescera junto... O diretor Makarov e a professor Mirajane também eram muito amáveis com ela e eles tornavam o lugar um pouco melhor.

Lá no fundo sabia que gostava da escola. Levy não gostava era dele. Era ele quem a fazia pensar duas vezes antes de se vestir de manhã. Chacoalhou a cabeça dissipando o pensamento e pegou o celular de dentro da bolsa. Se distraiu com ele nos minutos seguintes.

...

Infelizmente alguém já havia roubado seu lugar na biblioteca –não que realmente fosse seu lugar, mas Levy gostava de acreditar que era- então apenas trocou os livros que havia pego e decidiu assistir as aulas daquele dia. O colégio Fairy Tail não era gigante, mas era a escola mais influente e com a melhor colocação do país, Fiore. Contava com dois prédios e alguns pequenos jardins com área de descanso e bancos para os alunos. Estava atravessando a ligação entre um e outro pelo lado de trás quando o avistou. Como sempre estava atormentando um pobre coitado que cruzou o caminho daquele troglodita!

Gajeel Redfox foi o pior aluno que já cruzou aqueles portões, tinha certeza. Era um cara grandalhão de cabelos compridos e piercings (que Levy sabia serem proibidos, estava no regulamento do colégio). Por algum motivo o diretor sempre pegava em seu pé, mas nunca tomou uma medida drástica contra Gajeel. Era irritante toda essa impunidade.

Este estava encostado na parede ao lado da porta por onde passaria e curvava-se sobe a pobre pessoa que estava sendo extorquida. Conseguia ouvi-lo xingando e pedindo o dinheiro do almoço de forma grosseira, como se o outro garoto fosse obrigado a sustentar esse mal habito de roubar que Gajeel tinha.

—Você está pedindo para apanhar, não acha? – falou, a voz rouca fez Levy tremer.

—Gajeel, eu não tenho mais dinheiro! Você pegou tudo ontem, meus pais não me deram mais! – o outro menino quase chorava dava pra perceber na tremedeira da voz.

—Você quer que eu acredite que você, filho de quem você é, não tem 1 misero iene? Você tá me achando com cara de idiota?

—Eu não sou seu caixa de banco! –o garoto gritou.

Levy parou de andar e sentiu um frio correr na espinha. Nunca tinha visto ninguém responde-lo daquela forma. Viu quando Gajeel se aprumou e levantou o punho fechado se preparando para socar o garoto. Ele iria bate-lo!

Mal pode perceber quando abriu a bolsa e pegou o bento. Enfiou-o entre os dois garotos e engoliu em seco. Gajeel virou o rosto para ao olha-la desacreditado.

—Vo-Você não precisa bater em alguém por causa de comida! Se está com tanta fome assim eu te ofereço meu almoço!

Gajeel abaixou o braço e virou completamente para ela. Ele eram bem maior, parecia um gigante perto de Levy que tinha seus 1,50 M. Viu quando o menino correu para dentro da escola escapando e deixando a bomba para explodir com ela.

—Hoje os perdedores se juntaram para me contrariar, baixinha?

Levy começou a tremer, tinha certeza que ia levar um soco do ogro a sua frente. Para a sua surpresa este apenas tomou o bento de sua mão e foi embora tão rápido que mal pode acompanhar.

—Fui ajudar um idiota e acabei sem almoço. Que esperto, Levy!

Hoje o dia seria longo. Voltou para dentro da escola e se dirigiu a aula que teria naquela tarde. Língua Estrangeira nunca fora a matéria preferida de Levy, principalmente por que era inglês e ela já era fluente em inglês. Aprendera sozinha quando mais nova, sempre fora autodidata. O professor Laxus não ajudava muito, estava sempre ranzinza e irritadiço. Não fazia sentido como a professora Mirajane namorava com ele, já que esta era doce e gentil. Talvez aquela coisa de “os opostos se atraem” realmente seja verdade.

—Eu quero que vocês traduzam esta frase: “the reputation of a thousand years can be determined by the behavior of a single hour”. Vocês têm 3 minutos.

Levy pegou o lápis e logo traduziu a frase. Era apenas um proverbio japonês escrito em inglês.

—Parem agora. Então, quem vai dizer a tradução correta para todos? –Perguntou Laxus sem descruzar os braços. Seus olhos corriam por cada aluno procurando aquele que escolheria. A garotinha de cabelo azul? Seria muito fácil, ela era boa com o inglês. A loira? Esta também acertaria... Então...

—Redfox, quero que você traduza.

Levy se surpreendeu. Desde quando Gajeel Redfox fazia essa aula com ela? Virou-se para olha-lo como todos os outros alunos. Ele não parecia nem um pouquinho feliz. A carranca deixava bem visível que possivelmente sua vontade era matar o professor, e, na humilde opinião de Levy, parecia que não fazia ideia do que estavam falando. Estava inclinado e equilibrava o corpo nas pernas de trás da cadeira. Estava de braços cruzados e olhos fechados. A sala continuava em silencio apenas observando. Seu peito subiu e desceu uma vez antes de finalmente olhar para o professor.

—Eu não quero. –respondeu quase tão frio quanto o outro.

—Não me importa se você quer. Eu não estou contando com a sua vontade.

Natsu Dragneel deu uma risadinha baixa deixando Gajeel ainda mais bravo. Olhou o quadro e leu rapidamente as palavras montando a tradução na cabeça. Só podia ser piada.

—“A reputação de mil anos pode ser determinada pelo comportamento de uma única hora.”

Todos olharam de volta para Laxus esperando-o dizer se estava certo. Este parecia levemente surpreso, porém satisfeito.

—Não vou te dar um prêmio por isso. Continuando-

Levy virou-se mais uma vez para olhar Gajeel e se surpreendeu ao perceber que este também a encarava. Sentiu as bochechas esquentarem e virou a cabeça mais rápido que um trovão. Sempre se sentia muito envergonhada quando qualquer um a pegava olhando.

A aula correu como sempre e agradeceu internamente quando esta chegou ao fim. Já havia guardado as coisas e estava prontinha para sair dali e ir até a biblioteca ler um pouco. Não esperou nem para conversar com os amigos, apenas se misturou com os outros que estavam saindo e foi embora.

A estrutura do colégio era bem bonita, a decoração era feita em rosa –como o uniforme dos alunos- e branco. As grandes janelas deixavam muita luz entrar, dizem que a primeira diretora e fundadora da Fairy Tail acreditava realmente em fadas e por isso fez esses espaços tão iluminados por luz e jardins suntuosos com muitas flores. A escola deveria trair fadas.

Mas até então as únicas fadas do colégio eram os próprios alunos que carregavam esse apelido. Levy gostava, achava fofo e nunca se incomodou. Afinal, desde sempre quis estudar na escola mais bem-conceituada do país. Desceu as escadas que davam para a interligação dos prédios e logo estava passando pelo jardim dos fundos. O céu estava cinzento, possivelmente choveria aquela tarde. Ouviu o celular vibrando dentro da bolsa e abriu-a ao mesmo tempo que percebeu passos por trás. Alcançou o telefone e olhou para ver quem era. Gajeel.

Lavy arregalou os olhos o vendo se aproximar. Era uma ligação de Lucy. Virou-se e deu de andar.

—Alô, Lu-chan?

Seu pé enroscou no outro e logo estava no chão. O celular escorregara de sua mão e foi parar longe. A bolsa aberta derrubou algumas coisas e o pior de tudo: acabara sujando o uniforme na terra.

Foi se levantando aos poucos até ficar de quatro, vendo a tela do celular trincado e a ligação ainda em andamento.

—Nossa, como você conseguiu tropeçar nos próprios pés?! –Gajeel gargalhava.

Levy olhou-o irritada e se levantou. A saia que já não estava em seus melhores dias estava rasgada na barra, além de encardida. A meia rasgada em uma perna e a outra um desfiado comprido que sumia embaixo da saia. Esfregou as mãos limpando-as e logo começou a ficar vermelha, só não sabia se era de raiva ou de vergonha.

—Idiota! –Cochichou para si mesma. Pegou o celular do chão e ouviu Lucy chamando-a desesperadamente. Colocou na orelha e disse um rápido “estou bem” e desligou.

Pegou a bolsa e começou a recolher as coisas que haviam caído. Gajeel continuou apenas olhando, não mexeu nenhum músculo para ajuda-la. Estava se divertindo com a baixinha.

—Po-por que você tá olhando? Não tem algum boboca para você ir chatear? –Disse antes de pensar direito sobre o para quem estava falando.

—O único idiota que eu gostava de chatear você fez o favor de encorajar. Sabia que ele saiu dizendo que conseguiu me afrontar?

—Bom, então eu não sei qual de vocês dois é o mais idiota.

Os dois fizeram silencio e apenas ficaram se encarando. Foi ao mesmo tempo que a professora Mirajane chegou.

—Gajeel! O que você fez com a Levy?!

Mirajane correu até a garota e ajudou-a a juntar o resto do material. Olhou-a dos pés a cabeça e ficou extremamente irritada.

—Agora você está mexendo com as meninas também? O diretor Makarov vai ficar sabendo disso!

—Como é? Eu não relei nela, não! –Disse na defensiva.

—É o que você sempre dIz! Você está bem, Levy? –Perguntou a albina.

—Eu estou, e nã-

—Vamos agora para a sala do diretor. Você pode ir embora, querida. –disse Mirajane tirando o celular da pequena bolsa que carregava e logo digitando um número aleatório.

—Eu não vou ver aquele velho! Eu não fiz nada!

—Mira, é que... –tentou dizer mais uma vez, mas foi interrompida.

—Não diga nada, Levy! Não precisa se preocupar, vamos ter uma conversa bem longa com este garoto.

Levy pensou em dizer logo que não fora culpa de Gajeel, mas lembrou que, na verdade, merecia mesmo uma advertência porque, a final de contas, ele atormentava outros alunos.

—OK, Mira. Estou indo para a casa.

Gajeel arregalou os olhos indignado e Levy deu um sorrisinho glorioso. Virou-se e começou a andar em direção ao prédio e ouviu quando Gajee disse “só pode ser brincadeira”.