Opostos Perfeitos
52 Capítulo 51
Notas iniciais
Capítulo 51
Narrado por Enzo
De manhã, Júlia apareceu no hospital e eu aproveitei para ir para casa tomar um banho e pegar algumas roupas para a Rafa, a doutora havia dito que liberaria ela a tarde se tudo estivesse bem. Eu ainda passaria na delegacia saber se tinha alguma notícia da Bianca, colocamos alguns cartazes pelas ruas pedindo informações e oferecendo uma recompensa. Recebemos algumas ligações mas todas trotes, pessoas querendo se dar bem sobre a desgraça dos outros.
Eu precisava encontrar a minha filha, estava sem saber mais o que fazer ou como procurar a Bianca, ela não passou por nenhum dos lugares onde costumava ir e nem esteve com nenhuma das suas antigas amigas, procurei falar até com a tia dela da agência, mas nada.
Já tinha ido para casa e na delegacia e estava voltando para o hospital, Guilherme estava dirigindo. Meu celular tocou e eu atendi, era o número da Júlia.
— Aconteceu alguma coisa? Rafa está bem? — perguntei logo.
— Ela foi atrás da Bianca, Enzo. Bianca ligou para ela, ela tinha recebido uma ligação e depois pediu para eu pegar uma água para ela, fui até a cantina e quando voltei tinha só um bilhete em cima da cama, olhei pela janela e ela estava entrando em um táxi, nós precisamos encontrá-la, Enzo, já tentei ligar mas ela não atende...
Escutei atônito.
— Ela disse onde ia no bilhete? Alguma direção?
— Nada, só disse que ia buscar a Camila, que sabia que era perigoso, mas precisava porque Bianca ameaçou matá-la se ela levasse alguém ou contasse para alguém...
— Mas que merda, será que a Rafa não pensou que é uma armadilha?! Ela devia ter me ligado, poderíamos ter armado alguma coisa com a polícia!
— Enzo, o mais importante agora é encontrar a Rafa e a Camila, e é a filha dela, Enzo, ela não pensou duas vezes.
— Eu sei, eu sei. Mas como vou encontrar a Rafa agora? E se Bianca fizer alguma coisa? Eu não vou me perdoar...
— Você não pode rastrear o telefone dela?
— Sim, eu vou tentar, obrigado Jú.
— Me liga assim que souber onde ela está e eu aviso a polícia.
— Tá, tchau.
Desliguei o telefone e logo procurei um aplicativo em meu celular para rastrear o da Rafa. Demorou uns cinco minutos até conseguir e então a localização apareceu, era no antigo pavilhão de barcos.
Falei para o Gui e ele fez uma volta indo em direção ao local, demoramos mais cinco minutos para chegar até lá. Entramos de carro no local enquanto olhávamos para todos os lados procurando Rafa e Bianca.
—Lá na frente! Ela está armada! — Gui falou.
—Vai para cima dela com o carro!
—A Rafa está na frente!
Tudo estava acontecendo em segundos, vi Bianca erguendo a arma em direção a Camila e vi Rafa correr em direção a Bianca, Bianca desviar a arma da minha filha e disparar o tiro apontando para a Rafa no mesmo instante em que Rafa arrancava Camila dos braços dela e no momento seguinte eu estava descendo do carro e pulando em Bianca.
A arma dela voou longe, Gui desceu do carro e segurou a Bianca enquanto eu me movia para a Rafa. Camila estava aninhada em seus braços, chorando mas em segurança, e então vi o sangue que escorria da Rafa manchando de vermelho o lado esquerdo de sua blusa.
— Amor? Amor? Rafa? Fala comigo, não me deixe, você não pode me deixar! Amor?
— Precisamos chamar uma ambulância, vou ligar para a Júlia.
Gui ligou para a Júlia e a ambulância já estava a caminho, eu havia enviado a localização por mensagem de texto, ouvimos sirenes de polícia também e logo o local estava cheio de carros da polícia.
— Amor? — chamei mais uma vez, ela estava com os olhos fechados, parecia sem sentidos e o sangue deixando a blusa mais e mais manchada. — Amor, você tem que ficar comigo, você não pode me deixar, você prometeu...
Eu estava sentado sobre meus calcanhares, segurando Camila com Rafa ainda abraçada nela, o cobertorzinho já começava a ficar vermelho onde o sangue escorria de Rafa.
Os barulhos ao meu redor eram como se não existissem, naquele momento só passava pela minha cabeça Rafa ali deitada com um tiro no peito. Dois enfermeiros chegaram até onde eu estava e me afastaram da Rafa, Camila em meus braços chorando. Eu em pé vendo enquanto um enfermeiro abria parte da blusa dela para ver onde exatamente havia sido o ferimento, sem ter consciência do que se passava realmente. Eu a estava perdendo.
— Rafa! — falei tentando me aproximar enquanto os paramédicos a moviam para uma maca.
— Senhor, se afaste, por favor, precisamos levá-la para o hospital. — ele disse me afastando quando tentei tocá-la.
Mais um paramédico veio até ali e verificou se Camila tinha algum ferimento, o sangue era da mãe, mas ele precisava levá-la ao hospital também porque era uma recém-nascida... Ele falou tudo em poucos segundos e de repente Camila não estava mais em meus braços e ele corria para a ambulância junto com os dois que levavam Rafa.
Eu estava tão assustado que não conseguia sair do lugar, fecharam as portas da ambulância e ela arrancou, só naquele momento me dei conta que deveria correr e entrar na ambulância também, mas já era tarde. Então escutei a risada da Bianca, tinha esquecido ela completamente, se Gui não estivesse ali ela teria fugido ou atirado em mim e em Camila ainda. Dois policiais haviam algemado Bianca, ela estava passando perto de mim e rindo.
— Ela vai morrer. — Bianca disse rindo enquanto passava por mim. — Ela vai morrer. — Cantarolou. — Ela vai morrer!
Bianca não parecia estar em si, os olhos vidrados eu não sabia se em meu rosto ou em algum lugar no horizonte.
De súbito senti uma raiva tão grande que avancei para cima dela mas um dos policiais me segurou impedindo que eu a agredisse. Gui veio até mim e fez com que eu me controlasse.
— Vamos, Enzo, vou te levar para o hospital.
Entrei no carro ainda com vontade de ter uma arma e descarregá-la em Bianca, mas não poderia fazer aquilo. E o que eu realmente precisava e queria era ir para o hospital. Chegamos logo e eu corri para pedir informações, a doutora que fez o parto de Rafa veio até mim e disse que Rafa estava na UTI e que eu não poderia vê-la agora e que ela estava cuidando de Camila.
— Você pode vir ficar com a Camila se quiser, vai precisar esperar informações do médico que está na UTI com a Rafaella. Enzo, tudo vai dar certo. — Ela falou tentando me acalmar.
— Eu vou perdê-la. Eu a perdi... — falei mais para mim mesmo do que para a doutora, lágrimas surgiram em meus olhos. — Eu a perdi!
— Vamos, Enzo, a Camila precisa de você. — Gui disse colocando a mão no meu ombro.
Acompanhamos a doutora e quando chegamos no quarto, Júlia estava segurando minha filha, Fer e Leandro estavam ali também.
— Enzo... — Fer veio me abraçar.
— Eu a perdi... Eu... — falei com meu coração partido. — A Rafa... morreu... Ela me deixou...
Júlia estava olhando para mim e lágrimas escorriam por seu rosto, Fer também estava assim, eu sentia que ela havia me deixado.
— A Rafa... — Jú falou começando a chorar mais.
— Se acalmem, Enzo está em estado de choque, como eu disse a Rafaella está em cirurgia e ela vai ficar bem, eu não posso dar mais informações porque não estive na sala, atendi a Camila. Vocês tem que se acalmar, está bem? E Enzo, a Rafaella não morreu, vai dar tudo certo. — ela falou me levando até uma cadeira e me fazendo sentar.
— Eu... eu preciso ver ela, ela precisa de mim... — falei tentando me levantar.
— Não, Enzo, você não pode vê-la agora, por favor! Não me obrigue a sedá-lo.
Sentado na cadeira, as lágrimas escorriam sem eu me dar conta.
Todos ficaram em silêncio por algum tempo, a doutora estava com a Camila fazendo alguns exames, vendo se tudo estava bem.
Depois a doutora se retirou e o quarto ficou em silêncio, Camila estava dormindo agora, em algum lugar pessoas estavam almoçando felizes com suas famílias, crianças correndo para lavar as mãos ou comendo a sobremesa, um beijo antes de ir para o trabalho, o jantar combinado para a noite. Algumas pessoas talvez até estivessem se amando. E eu, pela primeira vez, estava rezando.
Meu pai veio ao hospital também, estava agora sentado perto do berço de Camila, ajudando Júlia a cuidá-la. Ele conversou um pouco comigo mas eu procurei ficar em silêncio e por fim ele entendeu, sabia o que eu estava sentido, me deu apoio e permitiu que eu ficasse em meu silêncio dolorido.
Algum tempo mais tarde, que para mim pareceram dias, a doutora voltou ao quarto. Fiquei em pé.
— Como ela está?
— Eu não sei informar, Enzo, vim ver a Camila. — ela falou como se pedisse desculpas, a maternidade estava cheia.
Ela verificou que Camila ainda dormia, pediu para a Júlia avisar caso ela acordasse ou se qualquer coisa em sua fisionomia parecesse estranha. Camila tinha nascido saudável, mas como todo bebê recém-nascido, precisava de certos cuidados e ser roubada do hospital não era um deles.
Eu estava novamente sentado na cadeira com as mãos no rosto, minha vontade era ir até a UTI e obrigar que me deixassem vê-la, mas eu sabia que os médicos fariam o possível para salvá-la e também não queria atrapalhar e provocar algum problema. Queria que a salvassem, queria estar ao lado dela, pedir que ficasse, que não me deixasse, que ficasse por mim e pela nossa menininha.
A doutora parou e se abaixou em minha frente.
— Vou tentar conseguir notícias, está bem? — ela sorriu fraco.
— Obrigado. — agradeci.
Ela saiu e novamente dias pareceram passar até que retornasse. Então ela voltou.
— Enzo, o médico saiu da sala de cirurgia agora, está vindo até aqui.
Ela disse e eu levantei, passei por ela na porta e fui ao encontro do médico que vinha pelo corredor.
— Como ela está?
— O ferimento foi grave, a queima-roupa, ela perdeu muito sangue...
Minha garganta ficou apertada e a respiração entrecortada.
— Ela...
— Ela vai ficar bem. — ele falou fazendo com que uma tonelada parecesse sair de mim. — Vai precisar de muitos cuidados e sentirá as dores por algumas semanas, mas vai ficar bem. — Ele sorriu.
— Obrigado... — falei sem saber como agradecer. — Eu posso vê-la?
— Ela está em observação ainda, preciso que se estabilize um pouco mais.
— André... — A doutora chamou o médico. Ele foi até ela, conversaram alguma coisa e então ele virou para mim.
— Acho que posso levá-lo até lá, mas serão só dois minutos, tudo bem? — ele sorriu.
A doutora trouxe Camila e sorriu, eu agradeci, Rafa mesmo inconsciente talvez sentisse a nossa presença.
Fui até a UTI e entrei onde ela estava ligada a vários aparelhos. Me aproximei e o médico e a doutora me deixaram ficar a sós com ela.
— Amor... — falei colocando minha mão em cima da dela. — Nossa menininha está bem, ela está aqui no meu colo dormindo agora. — falei e senti meus olhos umedecerem. Fiz uma pausa. — Não me deixe, está bem? — Pedi. — Não vá embora. Camila e eu precisamos de você. — sorri fraco.
Me abaixei um pouco e ergui a mão da Rafa fazendo com que ela tocasse Camila.
— Eu te amo. — Falei e dei um beijo em seus lábios. — Volte para nós logo.
O médico abriu a porta e disse que eu precisava deixá-la descansar agora e que Camila também devia ficar sobre cuidados.
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