Opheliac

2 Obscuridade


Notas iniciais
Ai vai mais um CAP. XOXO

“ A luz acha que viaja mais rápido do que tudo, mas está errada. Não importa quão rápido a luz viaje descobre que a escuridão sempre chega antes e está a sua espera” ( Terry Pratchett )

Ophelia me diga que está bem. — Pediu preocupado novamente.

- Estou bem Stevens, estou conformada. — Disse-lhe.

Me perguntei se foi possivel ouvir o quão desconformada eu estava, isso não poderia estar acontecendo com Suze. Ela era uma pessoa tão boa...

- Eu sinto Stevens, sinto muito por ela. – Eu disse. – Mas não se preocupe comigo. Estou bem, estou conformada. — Repeti a frase para que talvez ele se convença.

- Eu sei minha bela, eu sei. – Ele disse.

Eu assenti sorrindo um pouco.

- Mas tenho outra noticia para dar. – Ele disse.

Revirei os olhos, estava cheia de informação por hoje.

- Pode falar. – Eu disse descansando o corpo na cama.

- Você terá um novo enfermeiro. – Ele disse.

- Annia, eu sei, quem mais seri... – Eu disse. — Enfermeiro?

Pisquei processando a informação.

- Sim, enfermeiro.

- Me diga que não é o Christian... – Eu pedi. – Por favor, sei que mereço, mas menos Christian...

Ele é um completo boboca, além de ser um tarado de marca maior...

Ele não é de se jogar fora, mas... Não faz o meu tipo, faz mais o de Annia. Se é que você me entende.

Ele sorriu achando graça da situação. Eu abaixei os olhos para o nada, novamente aborrecida com ele.

- Não é Christian querida. – Ele disse ainda com um sorriso no rosto. – Não, por enquanto será Annia.

- Tudo bem. – Eu disse com um sorriso fraco. Olhei para o relógio que marcava as horas.

Suspirei, eram ainda 12h47min da manhã.

- Querida, agora tenho que resolver alguns problemas... – Ele disse olhando o relógio de pulso e coçando a barba branca. – Ficará bem sozinha?

Eu assenti.

- Estou bem. – Eu disse sorrindo. – Inclusive vou tomar um banho.

Ele assentiu.

- Até mais. – Abriu a porta.

Ele saiu e eu amoleci na cama. Precisava sair de lá o mais rápido possível.

Eu poderia simplesmente sair daquela clinica para doidos. Coisa que eu nunca serei. Mas algo não estava certo, e eu me sentia muito bem e segura aqui.

Eu simplesmente posso prever a morte das pessoas e ver como acontecem. E essa era a causa das minhas freqüentes crises do termo que eu costumo chamar de “Terceira Consciência”.

As imagens sempre aparecem a minha frente como se eu as estivesse vivendo. Assassinatos são bastante freqüentes.

Tudo bem, eu estou vendo uma verdadeira onda de assassinatos. As pessoas não têm uma ligação aparente, mas estão chegando cada vez mais rápido e perto...

De mim.

Eu suspirei me sentando na cama e sentindo pontadas na cabeça. Estou neste inferno continuo á 11 meses.

Exatos 11 meses entrei nesta clinica. Pensei realmente que poderia contar com aquela que chamava de irmã. Não a culpo. Quem não estaria louco para se livrar de uma pessoa como eu?

Realmente me sinto mais acolhida nesta clinica que em qualquer outro lugar. Tenho D.R Stevens como um pai, isso nunca iria negar.

Ele sempre tentou entender os meus problemas, mas infelizmente nunca conseguiu inteiramente. Mas às vezes tenho a impressão de que ele só gosta de mim pelo simples fato de adorar me ver tocar. Aliás, aqui tem um piano com uma sala especialmente para mim, o que é bem mais barato que pagar pelos meus concertos musicais, que eram bem caros para falar a verdade. Mas mesmo assim havia pessoas apreciadoras da boa musica que tinham dinheiro em sobra para poder ver Ophelia Venturie.

Levantei da cama e a dor na cabeça não passou. Encarei a parede azul do quarto os raios de sol passavam pelas cortinas e davam um brilho fosco ao quarto.

Era quase uma replica de meu antigo quarto, tirando que as paredes eram lilases, minha cor favorita. Os grandes guarda-roupas eram imensos, mas para falar a verdade eu costumava fazer visitas semanais aos shoppings de Laguna Beach, Por isso eles estão completamente cheios. No criado mudo havia uma luminária em detalhes ornamentais desligada.

Andei sobre o grande tapete cor de creme que encobria quase todo chão. Dirigi-me a varanda que me prometia sol e paz naquele momento.

O mar.

O mar era tão lindo, tão perfeito e mágico...

Inspirei o cheiro de água salgada.

Minhas vista era a melhor de todo o mundo, isso eu não podia negar. O vento acariciava meu rosto.

A varanda branca possuía cadeiras acolchoadas que “diziam” acomode-se.

Sentei em uma delas apreciando a vista.

Praia de areia dourada e águas azuis...

Eu certamente estou muito feliz pela clinica ter sido construída em cima do maior penhasco da ensolarada Laguna Beach, na Califórnia. Não me admira que Dianna, minha advogada sempre leal, pague fortunas para manter-me aqui.

Não me admira que uma clínica para loucos, construída em cima de um penhasco cercado de arbustos e pinheiros magníficos, também não tivesse um preço magnífico...

Para o dono é claro.

Sorri.

A grande ladeira ao longe foi construída para que os carros pudessem subir e descer até a clínica.

A clínica Gestalt levou esse nome pelo movimento da Gestalt que surgiu como protesto contra o estruturalismo na psicologia.

Esta clínica é a mais procurada da America em relação aos métodos de “cura” usados aqui.

Levantei das cadeiras e fitei o mar azul que encantava os olhos.

Passavam-se borrões em minha mente. Eram escuras e difusas.

Fechei os olhos com força para que parassem. Sei que de nada adianta, pois logo elas viriam...

As imagens.

A morte de um inocente.

Corri para dentro do quarto que agora parecia escuro. Não, não era o quarto, o sol continuava a pino, mas minha visão estava em outro lugar, não enxergava o que os outros enxergavam.

Minha consciência estava partindo, partindo para o plano etérico.

Um grito esganiçado saiu de minha garganta ao ver a cena a minha frente.

Poças de sangue se disseminavam pelo caminho do beco escuro. A frente um corpo encolhido de dor.

Desta vez a vitima era um homem.

Ele ainda estava vivo, gemia no chão encharcado de seu próprio sangue. Ele tossia com dificuldade e arfava. Desesperado levantou a mão direita e retirou um pedaço de vidro do próprio braço.

Eu gritei novamente, dessa vez o grito saiu bem nítido.

Duas formas escuras praticamente rastejavam-se até ele.

Outro grito, mas dessa vez vindo de mim e dele, do homem que se contorcia enquanto outras pessoas o espancavam com pedaços de madeira e um taco de baseball.

“Parem!” Uma voz rouca e que me parecia doente disse.

Um tremor percorreu minha espinha.

Mais um grito dessa vez vindo de mim. Eu me contorci no chão frio vendo o homem com um terno se aproximar do outros com uma arma em mãos.

“Fale! Onde ela está!” O homem de terno gritou para o homem espancado que tinha metade do rosto desfigurado e inchado.

“Não...” Ele disse com um sorriso de canto de boca.

“Rapaz, acho que não entendeu, o que está em jogo é sua vida!” O homem gritou levantando a arma na altura da cabeça do que fora espancado.

Eu gemi no chão e agarrava na perna da cama como se fosse me afogar.

Senti mãos quentes em meus ombros e dei mais outro grito. Elas tentavam segurar meus pulsos.

- Ophelia! – Disseram a mim. – Pare!

Eu dei mais outro grito antes de ver o gatilho da arma ser puxado e o sangue jorrar da cabeça do homem que parou de se contorcer e arfava em seu último suspiro que saiu sufocado.

A luz entrava em meu campo de visão e uma voz lá no fundo me dizia que tudo iria ficar bem...

... Por enquanto.

Ainda sentia mãos grandes e quentes segurando meus pulsos com uma força desnecessária.

Queria poder falar para me largarem, que estavam me machucando.

Mas eu estava exausta e qualquer coisa é menos torturante que as visões.

Eu arfei sentindo as lágrimas saírem sem minha permissão.

O corpo quente que me apertava contra-si soltou o aperto de aço de meus pulsos bem devagar. Agarrei-me ao fino pano de sua roupa choramingando. Ralei os olhos pelo jaleco branco, sorri e disse:

- Morfina, por favor, enfermeiro. – Eu disse com voz falha e com minha vista escurecendo novamente. Coloquei a cabeça para trás.

Mesmo que quisesse, não desmaiaria naquele momento. Respirei fundo me preparando para o que viria a seguir.

Mais outro grito vindo de mim. As mãos novamente me apertaram, trazendo uma sensação estranha de reconforto. Reconforto que quase nunca sinto.

Era nojento ver.

Segurei a ânsia de vomitar.

As pessoas que se rastejavam, agora estavam em cima do homem lambendo suas feridas com avidez. Mas mesmo morto e seu sangue não circulando mais, ele parecia jorrar a cada lambida.

O homem já não estava vivo. Não tenho certeza do que aconteceu, por que a luz dificultava minha visão. Mas o som era inconfundível. O mesmo som que ouvi na minha última visão.

Partiram-no ao meio.

O som de pele sendo rasgada era único. Com medo do que poderia ver me foquei no homem parado que tinha uma expressão neutra e os olhos fechados, e isso era o que mais me consumia por dentro. Ele soltou uma lufada de ar e um sorriso apareceu em sua face.

Ele riu com uma satisfação repugnante e fechou os olhos novamente.

A risada ecoou antes que eu visse a última coisa que vi.

Ele abriu os olhos e tudo estava envolto de fogo. Muito fogo. Ouvi chiados e gritos agudos próximos.

Senti novamente a agulha entrando em minha pele e adormeci.

Graças a Deus não sonho.

Isso mesmo, não sonho.

Pelo menos esse pequeno presente de meu subconsciente tão torturado...

Notas finais
Views amores.