Operação Roleta Russa
17 Proteção
Notas iniciais
Quando Roxanne Domenichelli abriu os olhos naquela manhã, ela piscou algumas vezes, levou alguns segundos para se situar no espaço tempo e, quando finalmente o fez, esfregando as pálpebras de forma sonolenta, ela se deu conta de tudo que havia acontecido aquela noite...
Ela ergueu a cabeça minimamente, o mais discreta que podia, para então focar no rosto do homem a seu lado, que ainda ressonava em sono pesado. O coração da italiana saiu totalmente do prumo, embora, antagonicamente, um mundo de pensamentos ameaçasse rastejar das partes mais escuras de sua mente para vir à tona. Roxie se conhecia muito bem, ela sabia que encontraria infinitos argumentos plausíveis para problematizar aquilo. Sempre foi uma mulher de lógica, racionalizava tudo a sua volta. Mente acima de coração.
Porém, naquele instante, ainda deitada ali, encaixada no braço direito de Barnes, local onde ela havia dormido a noite toda, Roxanne não quis dar ouvidos a sua própria mente. Ela apreciou seu coração batendo fora do ritmo e apenas sorriu, se permitindo viver aquela fagulha de felicidade.
Porque não se dava ao luxo de muitas coisas e também não tinha muitos momentos realmente felizes para guardar consigo. Então, por três minutos ela simplesmente viveu aquilo. Ouvindo a respiração de James e relembrando a noite e cada beijo que havia trocado com ele.
Já havia se esquecido como era dormir com um homem que ela realmente queria.
Esse pensamento solto fez com que Roxie franzisse as sobrancelhas, porque afinal: ela já havia dormido com um homem que realmente queria?
Porque evidente que já havia transado com alguns homens que escolheu, porque no fundo precisava provar a si mesma que era dona do próprio corpo e que não estava acorrentada a dores passadas, e talvez tenha desejado alguns de seus parceiros em algum nível, mas “dormir”... Roxanne nunca chegou a dormir com homem algum.
Não só porque dormir era algo raro nas noites insones da italiana, mas também porque o ato de atingir a inconsciência e ficar tão vulnerável e desprotegida ao lado de qualquer homem era totalmente impensável para ela. Nunca confiou em ninguém àquele ponto...
Mas ali estava ela, naquela manhã, nos braços de James Barnes, depois de uma ótima noite de sexo e de uma madrugada inteira de sono profundo. Talvez a melhor noite de sono que teve em tempos.
Ela sorriu pra isso, se sentindo bem de verdade e impedindo sua mente de questionar se era prudente ou não confiar tanto assim naquele americano... Afinal questionar não mudaria o fato de que ela já confiava nele.
Esperava apenas não estar errada sobre isso...
Impediu sua mente de seguir por esse caminho sabotador, fechando os olhos de novo, enquanto ouvia os passarinhos cantarem ao longe.
Passarinhos?
Roxanne abriu os olhos em um rompante, sabendo muito bem que hora aquele tipo de canto soava pelas manhãs. Ela comprovou sua teoria quando alcançou o celular grampeado que ficou jogado na mesa de cabeceira de Barnes naquela noite. Sim, estava atrasada.
Xingando mentalmente, ela se levantou devagar para não acordar James, pegando seu vestido do chão e o abotoando rapidamente. Eram quase seis da manhã.
A Donna nunca se atrasava assim.
Automaticamente Roxanne começou a fazer uma lista mental de tudo que podia dar errado com aquela hora de atraso. Já estava na porta, prestes a tocar a maçaneta, quando a voz sonolenta e rouca se espalhou pelo quarto suavemente:
— Então você é dessas que sai de fininho?
Roxie se virou, focando em James, que já estava acordado, encostado na cabeceira, o braço de vibranium atrás da cabeça e um lençol sobre a parte inferior de seu corpo, enquanto seu peitoral e abdômen definidos ficavam totalmente expostos.
Qualquer lista mental da Donna sumiu diante daquela visão...
— Não queria te acordar. — Ela disse simples, os olhos azuis a encararam de forma tão intensa que era quase desconcertante.
Talvez porque Roxanne conseguisse se lembrar exatamente de como seu corpo havia reagido ao toque daquele americano na noite anterior, e de como foi delicioso gemer o nome dele naquela mesma cama quando transaram pela segunda vez.
— Tenho que ir, estou atrasada. — Se forçou a voltar para realidade e ser um pouco mais prática.
— Está? — James franziu as sobrancelhas de forma surpresa e moveu a mão direita para alcançar o mesmo celular. Um sorriso se abriu no rosto masculino assim que os olhos azuis pousaram na tela. — É, você está mesmo.
— Pare... — Roxanne lançou com um menear de cabeça.
— Eu não estou fazendo nada... — Ele se defendeu, com um sorriso ainda mais descontraído.
— Está agindo como se lhe agradasse o meu atraso. — Ela acusou, e por mais que tivesse tentado um tom crítico, ele saiu bem mais divertido do que devia.
— Por mais que eu fosse adorar assumir o crédito por ser a gota de caos no meio da sua rotina super organizada. Acho que não é minha culpa. — James argumentou neutro.
— Não é? — Roxie franziu as sobrancelhas, desconfiada daquela postura.
— Acho que seria presunção minha pensar que sou o motivo do seu atraso. — Ele retrucou em tom inocente, mas então sorriu de canto. — A menos que você esteja confirmando que eu te cansei muito ontem a noite, e que dormir comigo é tão confortável, que você acabou perdendo a hora.
Roxanne fez o melhor para conter seu sorriso, não era o momento de deixar transparecer que adorava aquele jeito descontraído que James tinha de flertar com ela.
— Saímos em vinte minutos, Barnes. — Ela usou seu tom firme, a mão na maçaneta da porta. — Tomaremos café da manhã na vinícola.
— Como quiser, Donna mia. — O americano brincou com as palavras italianas como quem saboreia um doce.
Ele jogou os lençóis para o lado então, descendo da cama com o corpo inteiramente nu. Os olhos negros de Roxanne escorregaram pelos músculos masculinos até focarem na ereção evidente que James exibia. Ela manteve a mão na porta, mas não a abriu de fato, uma parte de sua mente sabia muito bem que ereções matinais eram algo biologicamente natural, ainda assim, esse conhecimento médico não anulou em nada o impacto da visão.
Barnes caminhou na direção dela com a imponência de um predador prestes a dar o bote, as íris gélidas queimando como fogo vivo.
— Vinte minutos dá pra fazer uma porção de coisas, sabia? — Ele soprou, perto o suficiente para tocar o queixo feminino com o dedo de vibranium para que os olhares se encontrassem. — Vem tomar um banho comigo, Italianinha...
Roxanne queria poder dizer que aquela proposta não teve um efeito imediato nela, mas isso seria absolutamente mentira. Seu coração disparou no peito e suas pernas tremeram, a excitação instantânea se acumulando entre suas coxas... Nunca imaginou que homem algum conseguiria ter aquele tipo de poder sobre o corpo dela, mas ali estava James Barnes, provando que muito do que a jovem italiana pensou ser verdade durante toda a vida não era um fato tão imutável assim.
— Achei que nosso acordo incluía as noites apenas. — Ela respondeu enfim, um sorriso mínimo no canto de seus lábios, sua pele arrepiada de um jeito quente, como se implorasse para ser tocada.
— Verdade. — James concordou, porém não se afastou um só passo. — Mas se você quiser ter minhas manhãs, quem poderia te impedir? Você é a Donna. — Ele sorriu, passando o polegar de vibranium sobre os lábios femininos com volúpia. — Além disso, você vai sair daqui para tomar banho de todo jeito, estou errado?
— Não está. — Roxie admitiu, permitindo que Barnes lhe conduzisse em direção ao banheiro...
Em alguns instantes ele estava atrás dela, ambos de pé sobre o piso frio, enquanto a água quente banhava seus corpos, o vestido havia ficado em algum lugar no caminho e a única coisa no corpo de Roxanne eram as mãos grandes de James, deslizando por toda a parte na espuma, enquanto ele beijava o pescoço feminino sem pressa alguma.
A Donna sabia que devia lembrar que estava atrasada, assim como devia pensar em algumas implicações do que estava fazendo naquele exato momento, no entanto isso ficou esquecido em algum lugar de sua mente, enquanto ela apoiava ambas as mãos no azulejo a frente e permitia que James lhe penetrasse por trás, segurando a cintura feminina com os dedos de vibranium para controlar as estocadas, enquanto estimulava o clitóris dela com a outra mão.
Se atrasar valeria a pena...
E de fato valeu, o orgasmo intenso que Roxanne e James compartilharam fez com que a mente da italiana ficasse totalmente limpa durante todo o caminho até a vinícola. Ela não se lembrava da última vez que tinha ido trabalhar tão relaxada.
E nem tão tarde.
A bem da verdade, esse pequeno detalhe não fez tanta diferença assim, ninguém reclamou do atraso, os negócios não caíram em total desgraça apenas porque a Donna resolveu entrar duas horas mais tarde.
Ela e Barnes tiveram tempo de sobra para tomar café da manhã no escritório e, ainda assim, todas as tarefas estavam alinhadas já no início da manhã.
Era um daqueles dias calmos, tanto os negócios lícitos quanto os ilícitos estavam absolutamente sob controle, sendo assim Roxanne aproveitou para revisar sua lista de devedores e instruir que Niccolo fosse visitar algumas pessoas como um aviso, — ainda amigável, — de que atrasar os dividendos da Donna não era inteligente. Enquanto isso, James estava sentado na poltrona de sempre com um livro em mãos, que ele de certo não estava lendo de verdade, isso porque seus olhos azuis estavam fixos na figura feminina, em uma intensidade quente que fazia o escritório parecer muito menor do que era de realmente.
A italiana ergueu suas íris negras e os dois se encararam através do cômodo, um sorriso predatório escondido no canto dos lábios do americano.
Seria mais fácil se ele não fosse tão bonito... e seria menos divertido também.
— Você precisa parar com isso, James... — Roxanne advertiu, mas não desviou o olhar.
— Eu não estou fazendo nada. — O sorriso aberto que ele exibiu não tinha absolutamente nada de inocente.
— Está olhando pra mim desse jeito. — Ela acusou sustentando as íris azuis em intensidade equivalente.
— Que jeito? — A voz de Barnes era um desafio.
Talvez ele tenha imaginado que a Donna desconversaria. Mas ela estava disposta a entrar em jogos perigosos naquele dia.
— Como se quisesse me foder tão forte em cima dessa mesa, que todo mundo trabalhando por perto ouviria. — Respondeu, ainda sustentando os olhos azuis, usando o mesmo tom-desafio que James havia usado.
— E você gostaria que eu fizesse algo assim? — Ele devolveu com a voz rouca e sedutora.
Roxanne chegou a abrir a boca a fim de responder, quando duas batidas rápidas na porta interromperam a conversa.
— Pode entrar. — A italiana ordenou, se arrumando um pouco melhor em sua cadeira, enquanto Barnes fazia o mesmo em sua poltrona.
— Donna, oi... — Georgina deu um passo para dentro do cômodo e seus olhos seguiram automaticamente na direção de James.
Seja lá o que a ruiva tinha vindo dizer, ela esqueceu disso assim que seus olhos pousaram no americano. Roxanne sequer podia culpá-la por isso, sabia muito bem como era se perder naquele homem.
— Algum problema, Georgina? — Perguntou, achando que aquele olhar já havia durado o bastante.
A ruiva gaguejou, desviando o rosto e se aproximando da mesa.
— Só preciso de uma assinatura sua nessas liberações. — Disse por fim, entregando uma prancheta com os documentos para a Donna.
Menos de um minuto depois tudo estava assinado e a mulher deixou o escritório, lançando outro longo olhar na direção de James antes de sair, fechando a porta atrás de si.
— Devia falar com ela. — Roxanne comentou em tom neutro, suas íris escuras focadas na mesa, na intenção de não parecer tão preocupada com aquilo. — Parece que tem algo mal resolvido ali.
— Não tem, eu fui claro com ela, disse que não estou pronto para esse tipo de coisa, que tudo na minha vida ainda é muito recente pra pensar nisso. — Barnes respondeu de forma simples. — Era a coisa mais descente a fazer, afinal eu não podia contar que meu único interesse é na chefe dela, podia?
Roxie segurou o sorriso, afinal sabia que seria o cúmulo da hipocrisia deixar claro que lhe agradava que James não tivesse outros “interesses”. Não tinha o direito de sentir ciúmes dele com quem fosse, sabia bem disso, a aliança pesando em seu anelar era o lembrete constante de que nunca poderia exigir nada do americano. Ela própria estava comprometida com outro homem afinal.
Pensar em Viktor Strovalenko fez com que a Donna tivesse um choque de realidade. Permanecer naquela bolha entorpecente de felicidade era muito agradável de fato, porém haviam coisas práticas, nada agradáveis e um tanto constrangedoras a serem discutidas. Coisas que ela havia simplesmente esquecido na noite anterior, mas que eram importantes.
— Devíamos conversar sobre um assunto delicado. — Declarou enfim, pousando as duas mãos sobre sua escrivaninha, enquanto seus olhos se fixavam em Barnes.
— Algum problema? — Ele deixou o livro de lado imediatamente, uma ruga de preocupação se formando entre suas sobrancelhas.
— Não. — Roxanne respondeu em tom apaziguador. — Mas... você quer mesmo continuar fazendo isso?
— Evidente, achei que já tínhamos concordado com cada detalhe. — James rebateu firme, e o coração da italiana errou uma batida. — Você está reconsiderando?
Ela queria dizer que estava, queria derramar argumentos plausíveis sobre os motivos de não deverem fazer aquilo, mas a verdade é que Roxanne havia assumido muitos riscos na vida, aberto mão de muito também, então talvez assumir aquele risco, embarcar naquela jornada proibida apesar do perigo eminente, valesse a pena.
Além disso, havia algo de muito sedutor no segredo que James estava disposto a compartilhar com ela.
Roxanne queria isso.
Será que poderia se dar ao luxo ao menos daquela vez?
— Não estou. — Confidenciou, focando no assunto principal que queria conversar. — Mas eu acho que devíamos falar sobre proteção.
Barnes franziu minimamente as sobrancelhas, levou um ou dois segundos para que a frase parecesse fazer sentido para ele, porém, assim que aconteceu, o americano abriu e fechou a boca, sem formular nenhuma palavra coerente. Ficou claro que ele também havia esquecido completamente disso na noite anterior ou naquela manhã...
Roxie sequer poderia culpá-lo... eram cúmplices do mesmo delito.
— Claro, você está certa. — Ele falou finalmente, movendo a cabeça de forma afirmativa. — Eu devia ter pensado nisso. Gravidez indesejada e tals...
A Donna pensou em simplesmente concordar com aquela teoria, porém soou desonesto. Ela continuava tendo aquele desejo estranho de não mentir ou omitir coisas dele.
— Na verdade não é sobre uma possível gravidez. — Revelou, usando um tom neutro que diminuísse o impacto por trás da verdade em suas palavras. — Eu não posso ter filhos.
Não se lembrava de ter dito aquilo para ninguém em voz alta...
Óbvio que algumas pessoas próximas sabiam, sobretudo por causa do motivo principal por trás disso, mas a própria Roxanne nunca teve que dizer aquelas palavras tão diretamente.
Na verdade, ela sequer sabia com exatidão porquê estava falando naquele momento, podia apenas não dizer nada, deixar que Barnes tirasse as próprias conclusões sobre o tema “proteção”. Era um assunto pessoal afinal.
Mas Roxanne já mentia tanto, sobre tantas coisas, para tantas pessoas, era exaustivo... E, contra todas as probabilidades, ela confiava em James Barnes. Então era bom contar algumas verdades para variar, por mais tolo que isso parecesse...
Os olhos azuis focaram nela por um longo instante, a italiana conseguiu ler a pergunta no ar, mesmo que nenhuma palavra tenha saídos dos lábio masculinos.
— Antes disso começar eu fiz uma cirurgia pra remover o útero. — Esclareceu, com um dar de ombros.
Barnes franziu as sobrancelhas, o olhar em seu rosto bonito provava que ele tinha um vislumbre das pequenas coisas por trás daquelas palavras. Os motivos e implicações.
O clima ficou repentinamente pesado.
— A medicina moderna não tinha formas menos permanentes de prevenir uma gravidez? — Ele questionou, o tom preocupado fazendo com que Roxanne se remexesse desconfortável na cadeira. — Quer dizer, mesmo na minha época havia laqueadura, por exemplo.
Ela respirou fundo. Estava bem claro que James entendia muito bem o significado daquela decisão. Roxanne havia aberto mão do próprio futuro, de qualquer possibilidade de ter uma família sua, para lutar pelo irmão.
— Na verdade existiam várias opções não-permanentes. Mas em todas elas havia margem de erro, e mesmo uma porcentagem pequena, ainda é uma chance. E eu já sabia que seria uma jornada difícil, não quis arriscar. — Explicou, ainda usando um tom neutro.
Não estava arrependida. Afinal ela sabia melhor do que qualquer pessoa qual era o sentimento de pânico de estar gerando o feto de um crápula...
Quando soube o que teria que fazer para salvar o irmão, Roxanne não temeu o perigo de ser pega na mentira, a possibilidade de ser torturada ou morta nunca lhe assustou, mas a mínima chance de engravidar de um homem que ela odiava foi algo que lhe apavorou de verdade.
Não podia passar por certas coisas de novo.
Mas essa era uma parte de sua vida que ela não conseguiria contar para James Barnes. Pois contar era reviver, e a Donna não estava disposta a reviver seus piores momentos. Alguns fatos sobre aquela época morreriam com ela, outros poucos estariam guardados para sempre com Francesco.
Roxanne seria eternamente grata a ele por estar lá quando ela mais precisou.
— Então... — Ela respirou fundo, afastando memórias ruins e focando no tema principal. — Não, eu não estou falando de gravidez. Mas proteção não é só pra isso, certo?
— Claro, faremos do jeito que você quiser. — James assentiu de imediato, parecendo entender que não se prolongariam em assuntos pesados e respeitando isso. — Se você se sente mais segura assim, tudo bem por mim.
Roxanne franziu minimamente as sobrancelhas, era interessante que Barnes sempre acabasse com conclusões errôneas quando se tratava das preocupações dela.
— Não é sobre a minha segurança, James. — Declarou calmamente, se colocando de pé. — É sobre a sua.
Deu a volta na escrivaninha, se encostando na parte da frente dela.
— Eu estou limpa, faço exames periódicos para garantir isso, porém... — Ela mexeu na aliança de forma desconfortável. — Você sabe, não posso garantir que vai continuar assim, tem um fator que não controlo nessa equação.
Barnes entendeu o que, ou melhor quem, era esse fator. Os olhos azuis pousando sobre o anel, que mais parecia uma algema naquele momento, provavam isso.
Ele se levantou também.
— Você não precisa se preocupar comigo, Roxanne, eu sou um super soldado, lembra? Qualquer doença ou infecção sequer sobreviveria no meu sistema. — Declarou com um mover de ombros, enquanto dava alguns passos na direção dela. — Mas, é como eu disse, faremos do jeito que você quiser.
Roxanne assentiu devagar, não era para se tornar grande coisa, a conversa não devia ser pesada ou desconfortável. Era só uma camisinha afinal, o tipo de proteção comum entre pessoas que estão envolvidas em um relacionamento sexual. E estava bem claro que, se fosse só isso... se fosse só isso seria fácil e simples, os dois concordariam e não haveria aquele clima pesado no ar. O problema é que não era “só isso”. Afinal não se tratava apenas de uma camisinha, assim como não se tratava de uma simples aliança, esses eram apenas os símbolos claros de que havia algo pior sempre pairando entre eles. Era isso que causava o clima pesado e desconfortável.
A bolha nunca duraria o bastante...
A sombra de Viktor Strovalenko os assombrava, nas grandes coisas e nas pequenas, porque a verdade é que não havia proteção contra ele. Aquele homem não respeitaria nenhum limite que Roxanne quisesse impor, isso incluía um simples pedaço ultrafino de látex.
Azuis e negros se encontraram, os dois tão perto agora que menos de um passo os separava. Era fácil notar que havia algo não dito entalado na garganta de Barnes naquele momento, algo que ele queria falar, mas não podia.
— Sabe... — Roxanne soprou, estendendo sua mão para tocar a dele. — Eu gostaria de saber o que você quer, se isso for possível.
James pareceu realmente surpreso com aquele pedido, ele não desviou o olhar, apertando um pouco os dedos femininos entre os seus.
— Eu quero... — As palavras pareceram entalar na garganta dele. Barnes respirou fundo, como se tivesse mudado de ideia sobre o que diria. — Bom, eu quero mais de você do que ele tem. — Ele tocou o rosto feminino com a ponta dos dedos de vibranium. — Isso faz de mim egoísta?
Roxanne sorriu, no fundo ela achou graça do pedido, porque a verdade é que James já tinha mais dela do que qualquer outro. Porque ela gostava dele. Mas talvez não fosse o momento de ser tão clara e dizer isso em voz alta, por isso preferiu focar no egoísmo da última parte.
— Provavelmente faz, mas na verdade eu acho reconfortante. — Ela declarou como se tivesse algo mais ali.
— Reconfortante? — Barnes repetiu a palavra de forma confusa.
— É. Porque isso me faz pensar que temos algo em comum... — Roxanne esclareceu, arrancando um sorriso compassivo do americano.
— De todas as coisas que podemos ter em comum, essa com certeza não é uma delas. — Ele rebateu, acabando definitivamente com a distância entre eles. — Você é a pessoa menos egoísta que eu conheço, Roxanne Domenichelli.
Ela sorriu também, achando graça daquela declaração.
— Bom, eu discordo. — Retrucou, mordendo os lábios antes de revelar. — Sou egoísta a ponto de saber que nunca vou poder te oferecer o mesmo, e ainda assim não querer dividir você com mais ninguém...
Esperava que James entendesse a indireta por trás daquelas palavras, porque aquilo significava claramente que ele já tinha mais dela do que Strovalenko, afinal a Donna dividiria o próprio noivo com a cidade inteira se isso fosse garantir a ela uma noite tranquila.
Barnes sorriu, as duas mãos no rosto feminino agora.
— Bom, eu não me importo com seu egoísmo, porque é como eu disse, não tenho interesse em mais ninguém, só em você, Italianinha.
O coração de Roxanne pulou algumas batidas, as covinhas em suas bochechas deixando claro o quanto ela apreciava que aquele americano impossível sempre dissesse as coisas certas. Bem lá no fundo, uma vozinha sabotadora sussurrava que ela devia se preparar para o pior, porque nada era tão perfeito, e se era perfeito não duraria o bastante. Mas Roxie se negou a ouvir essa voz, não seria sabotada por si mesma.
Enquanto pudesse manter a bolha, ela faria isso.
— James... — Chamou, pousando ambas as mãos nos ombros dele. — Me beija.
Barnes abriu o melhor dos sorrisos antes de capturar os lábios femininos em um beijo de tirar o fôlego. A mão direita dele se infiltrando entre os fios escuros de Roxanne, seu braço de vibranium ao redor da cintura feminina, a puxando para cima e a colocando sentada sobre a escrivaninha, enquanto se posicionava entre as pernas dela.
Talvez a ideia de foderem ali mesmo não fosse tão ruim assim...
Esse pensamento tinha acabado de cortar a mente de Roxanne quando três batidas firmes na porta causou a separação imediata dos dois.
A Donna tirou um segundo para arrumar as próprias roupas e caminhou em direção a porta, enquanto James voltava a se sentar na poltrona de sempre, como se nada tivesse acontecido. O sorriso cúmplice no rosto dos dois dando lugar a uma expressão mais séria, para que Roxie girasse a maçaneta.
No entanto, um sorriso ainda mais genuíno tomou conta do rosto da italiana assim que ela deu de cara com quem estava do outro lado da porta.
— Corie! — Exclamou, feliz por ver a francesa de volta.
— Sentiu minha falta? — A mulher perguntou, se encostando no batente e dando uma olhada para dentro do escritório.
A atenção dela parou na figura de James e, para surpresa geral, Corinne acenou um cumprimento simples.
— Barnes... Bom te ver. — Disse sem o tom sempre arisco.
Roxanne presumiu que seja lá o que a francesa tivesse visto naqueles arquivos de terapia, certamente havia mudado a forma como ela via o americano. E isso era bom, pelo menos não haveria mais desconfiança interna.
— Vem, Pierre está com as notas das entregas e Martinna está empolgada pra te contar da viagem. — Corinne acenou para que a Donna lhe seguisse.
Antes de ir, Roxie deu uma última olhada para trás, ganhando uma piscadela cúmplice de Barnes que a fez sorrir automaticamente.
Pois é, talvez gostasse muito dos segredos que eles cultivavam naquela bolha...
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Bucky ficou um longo tempo encarando os livros nas estantes daquele escritório, no entanto ele não via os exemplares de fato. Sua mente estava longe, revivendo a noite passada, a manhã na mansão e a conversa de momentos antes com Roxanne.
Não estava arrependido, muito pelo contrário até, ainda estava bastante seguro de que continuaria a roubar todo o tempo que podia com aquela italianinha impossível. E talvez esse fosse o problema. Porque conforme as horas passavam, principalmente depois da conversa tensa de momentos antes, que revelou mais uma porção de pequenas nuances péssimas do relacionamento de Roxanne com Strovalenko, tudo que Barnes desejava de verdade era dizer:
“Larga esse homem, larga tudo isso. Vamos embora daqui.”
Na verdade, Bucky quase disse essas palavras quando Roxanne perguntou o que ele queria. Porque soava tentador demais imaginar que eles podiam se afastar de tudo e sumir no mundo, longe de máfia, organizações nazistas e Altos Conselhos...
E por isso ele era egoísta.
Mas não podia pedir uma coisa daquelas, não só porque sabia que a Donna nunca aceitaria, mas também porque ele, no fundo, temia que ela não o escolheria. Não em detrimento ao próprio irmão.
A Bucky restava apenas continuar roubando cada segundo que podia...
Não era um bom prognóstico, isso era certo, mas ele tentou não pensar nisso, disse a si mesmo que naquele dia aceitaria apenas que era um homem apaixonado por uma mulher chefiando um império, resolveu não pensar nas implicações morais disso, nos problemas que seus sentimentos causariam a longo prazo.
Pensar de mais não o ajudaria em nada.
Viveria seus segundos roubados até que fosse obrigado a encarar os problemas que estava decidido a ignorar... Alguns diriam que isso era viver em negação, mas Bucky resolveu não pensar nisso também.
Sendo assim, ele se colocou de pé e saiu do escritório, procurando por Roxanne que naquele momento estava na área do estacionamento conversando com Pierre e Corinne.
Ele encostou em um lugar qualquer, observando de longe, a Donna tinha Martinna no colo, e se dividia entre dar atenção para a pequena e conversar com o casal. De alguma forma Bucky conseguiu admirar ainda mais Roxanne por causa de todas as coisas que ela tinha feito para chegar até ali. Todas as coisas das quais ela havia aberto mão em prol de salvar o irmão.
Seria absolutamente injusto pedir que ela abandonasse esse propósito...
Ainda estava com esse pensamento em mente, quando um carro cruzou os portões abertos da vinícola. Logo Jacqueline Pissani descia do veículo, ao lado dela uma jovem com os olhos mais assustados que Bucky já tinha visto. A garota não devia ter muito mais que quatorze ou quinze anos, e atraiu a atenção imediata de Roxanne.
Algo na postura da Donna mudou naquele instante, talvez porque seus olhos negros tenham refletido com perfeição os mesmos sentimentos nas íris assustadas da mais jovem. Quase como se Roxanne soubesse de tudo, antes mesmo que palavras fossem ditas.
Ela e Jack trocaram algumas palavras rápidas, em seguida a Donna focou na garota, disse algo em italiano, que Bucky não pôde ouvir com clareza de onde estava, então apontou a direção do escritório.
Barnes chegou a se aproximar alguns passos, porém os olhos negros pousaram nele e Roxanne moveu a cabeça em negativa, como se pedisse para ele não se aproximar. Ela sumiu de vista com as duas recém chegadas logo em seguida.
Ele ficou parado ali onde estava, tentando adivinhar o que aquele encontro significava, ou que tipo de assunto uma garota tão nova teria com a Donna...
— É de verdade? — A voz infantil fez com que Bucky perdesse a linha de raciocínio, olhou para baixo e encontrou a pequena Martinna LaRue paradinha ali, há uns quatro passos de distância, com seu vestidinho rodado e seus infinitos cachinhos presos com vários laços coloridos.
Ela apontava para a mão de vibranium, seus olhos redondos e curiosos.
— É sim. — Bucky respondeu, movendo os dedos para ilustrar.
Martinna analisou aquilo com muita atenção.
— Legal! — Exclamou animada. — Posso tocar?
Barnes se abaixou para ficar em uma altura equivalente a da pequena, estendendo a mão direita para um cumprimento, e depois fazendo um toquinho que tinha aprendido com um dos sobrinhos de Sam. Martinna claramente estava se divertindo como se tudo fosse uma grande brincadeira. Segurou a mão de vibranium, movendo de um lado para o outro como quem desvenda um mistério.
— Tina, o que eu falei sobre as diferenças das pessoas? — A voz de Pierre fez com que Bucky erguesse a cabeça para ver o francês se aproximar com uma expressão paternal no rosto.
— Elas não são eventos e eu não posso fazer disso um circo e nem ficar fazendo perguntas indiscretas... — A pequena respondeu, como se recitasse algo decorado, sua expressão culpada era mesmo uma graça. Ela se virou para Bucky em seguida, com os olhos em um misto de inocência e persuasão. — Mas eu não fiz nenhuma pergunta indiscreta, não é mesmo, moço?
Bucky acabou rindo enquanto se colocava de pé novamente.
— Não fez mesmo. — Ele afirmou, vendo Pierre pegar a filha no colo.
— Me desculpa por isso, Tina está na fase da curiosidade sem filtro. — O francês declarou em tom amigável.
— Ela não fez nada, sério. — Barnes reforçou, com um gesto displicente.
Pela visão periférica notou que Corinne também se aproximava deles.
— Eu vou levar a enxeridinha pra casa. — Pierre avisou a esposa.
— Melhor. — A francesa concordou, dando um beijo na filha.
Diferente de sempre, Bucky achou que a postura de Corinne estava menos esquiva, embora ela estivesse dizendo para Pierre levar a pequena Martinna embora, aquilo em nada parecia ter a ver com a presença do próprio Barnes.
— Diz tchau, Tina. — Ela até incentivou a filha a acenar para ele.
— Ciao, moço. — A pequena se despediu, e Bucky ainda ganhou um tapinha amigável de Pierre, antes que pai e filha seguissem seu rumo.
Corinne continuou parada ali, não saiu andando como se o odiasse e nem disse nada arisco. Só então Barnes ponderou sobre isso e desconfiou que tinha algo a ver com seus arquivos de terapia. Roxanne não era uma hacker experiente, é claro que ela havia pedido a LaRue que resolvesse aquela questão.
E estava basicamente explícito que algo que a francesa leu naqueles arquivos fez com que ela parasse de desconfiar dele e fosse até mesmo mais amigável.
Isso era bom, menos uma coisa que Bucky teria que se preocupar enquanto continuava ali na Sicília roubando cada segundo que podia...
— Sabe se o Niccolo está nas cobranças hoje? — Corinne perguntou casualmente, embora houvesse algo de preocupação por trás de suas palavras.
— Me parece que sim. — Barnes respondeu, tinha ouvido a Donna falar com Nick naquela manhã sobre aquele assunto.
— Pelo visto seremos eu e você do lado da Roxie contra os problemas de hoje, então. — A francesa declarou com um longo suspirar.
— Problemas? — Ele repetiu preocupado. Corinne parecia muito certa do que dizia.
— O que você acha que aquela garota veio fazer aqui? — A pergunta fez com que os dois se encarassem por um momento. A verdade é que Bucky não fazia ideia. — As pessoas só vêm falar pessoalmente com a Donna quando precisam de algo, ou quando querem justiça por alguma coisa. De um jeito ou de outro, certeza que teremos algum tipo de problema pra resolver hoje. Acredite em mim.
Ele respirou profundamente também. Fazia sentido.
Mesmo assim, preferiu não fazer teorias, porque essas teorias o levariam a questionar sua própria ética e moral. Bucky ainda estava se esforçando para apenas viver o dia e enfrentar o que viesse pela frente.
Enquanto esperavam, encostados juntos em uma das varandas do casarão, ele perguntou como tinha sido a viagem dos LaRue, e Corinne relatou algumas coisas casuais e principalmente peripécias de Martinna. Ela gostava de falar da filha e Barnes apreciava ouvir casualidades infantis para passar o tempo, além disso, aquela era a conversa mais longa que ele já tivera com a francesa.
Parecia um bom progresso.
Embora o próprio Bucky não saberia dizer em prol do que era aquele tal progresso, porque afinal não havia um futuro para ele ali em meio àquelas pessoas. No fundo ele desconfiava que acabaria se enforcando com os laços que estava criando...
Os minutos foram se arrastando devagar, Roxanne ficou com a garota em reunião um bom tempo. E estavam apenas as duas, já que Jacqueline passou por ali procurando por Georgina, antes de sumir com a ruiva em direção ao escritório pouco depois.
Bucky já havia perdido a conta do tempo quando a Donna reapareceu, cortando o estacionamento com o olhar obstinado de quem poderia destruir um país inteiro. Ela parecia tão irritada que tremia.
— Pelo visto é algo ruim... — Corinne constatou em um sussurro, dando alguns passos para falar diretamente com Roxanne. — Para onde vamos?
— Eu preciso que você fique aqui no controle de tudo até eu voltar. Jack e Georgina estão com a garota no meu escritório, não as incomode, eu volto para levá-la para casa. — A Donna ordenou rapidamente, sem parar de caminhar na direção de um dos Sedans.
— Eu não acho que... — A francesa chegou a tentar retrucar, mas foi interrompida.
— Já liguei para Nick e pedi que ele reunisse os Outsiders, eles vão me encontrar no meu destino, eu vou ficar bem. Faça o que eu mandei. — Roxanne não deixou qualquer espaço para objeções.
Corinne deu meia volta, erguendo as mãos em rendição na direção de Barnes, como se dissesse “eu tentei” e soubesse que nunca ganharia aquela discussão.
Bucky por sua vez esperou que a francesa se afastasse e cortou a distância até a Donna em passos rápidos, alcançando o Sedan ao mesmo tempo que ela.
— Não vou precisar de você, James. — Roxanne declarou, sem sequer focar os olhos nele. — Posso cuidar disso sozinha.
— Acredito, mesmo assim eu vou junto. — Barnes retrucou o mais simples que podia.
As íris negras finalmente pousaram nele. Havia algo ali, algo cru e caótico por trás do aparente controle, o ódio emanava da Donna de um jeito tão intenso que até o próprio Bucky deu um passo para trás.
— Eu não quero que você vá junto. Não vai ser bonito para os olhos de um heroí. Fique aqui. Volto logo. — Ela ordenou diretamente de forma firme.
— Não. — Ele devolveu com um mover de ombros casual.
Roxanne franziu as sobrancelhas, sua respiração presa nos pulmões por dois ou três segundos.
— Está questionando uma ordem direta minha? — Ela retrucou, suas palavras tão afiadas quanto adagas.
— Eu não tenho que seguir suas ordens. — Bucky esclareceu calmamente, tentando usar a lógica, porque era evidente que a Donna não estava pensando por essa ótica naquele momento. — Porém fora daqui temos que fingir que sim, afinal, como você mesma disse antes, é imprescindível que aos olhos do público eu ainda seja o Soldado Invernal, não sabemos se Strovalenko tem espiões espalhados pela ilha, não é? — Ele terminou, abrindo a porta do motorista. — Eu vou com você.
Roxanne respirou devagar, os argumentos de Barnes pareceram ter surtido efeito.
— Que seja... — Ela disse apenas, entrando no banco de trás.
Bucky não questionou aquela mudança de lugar, apenas ligou o carro e seguiu o destino que a Donna disse em voz alta para o GPS. O que eles fariam em uma clínica médica no centro?
Enquanto ele dirigia, seguindo as instruções do aparelho, acabou descobrindo que Roxanne estava atrás porque trocava rapidamente de roupa, as peças claras que ela tinha usado pela manhã, dando lugar a um terno inteiramente preto, pouco antes que a italiana pulasse de novo para o banco da frente.
— Vai me contar o que aconteceu? — Barnes questionou, quando os dois já estavam sentados lado a lado.
— Não. — A Donna disse apenas, seus olhos presos do lado de fora, como se ela estivesse remoendo planos e decisões.
— Certo... quer me contar, pelo menos, qual vai ser a ameaça que vamos enfrentar? — Ele ainda tentou conseguir informações.
— Você não precisa se preocupar com isso, James. — Roxanne pousou os olhos nele de forma firme. — Apenas não interfira. Eu falo sério. Não banque o herói.
— Desde que você não se coloque em risco, posso fazer o que você está pedindo. — Ele foi brutalmente honesto, afinal não parecia o momento para meias palavras.
— Eu não preciso que você me proteja. — Ela retrucou e havia um certo tom de ofensa em sua voz.
Bucky não saberia dizer se aquela super independência e autossuficiência eram uma qualidade, ou se eram apenas uma proteção, Roxanne talvez não se sentisse segura confiando em ninguém dessa forma. Aceitar que alguém lhe ajudasse ou protegesse talvez a fizesse se sentir vulnerável e fraca...
— Não, você não precisa de proteção. — Ele concordou com os olhos fixos na estrada, dirigindo o mais rápido que podia, mesmo que a Donna não tivesse pedido. — Mas eu quero te proteger mesmo assim, sou egoísta, lembra?
— Não estou no clima para flertar, James. — Ela advertiu muito séria.
— Não estou flertando, estou dizendo a verdade. — Bucky devolveu com honestidade.
Ficaram calados depois disso, no fundo Barnes sabia que não conseguiria informação nenhuma da Donna, e estava bem claro que ela precisava do silêncio para pensar. Seja lá o que a garota havia revelado na vinícola estava mexendo muito com Roxanne.
Parecia pessoal de alguma forma, nem mesmo a operação no porto, logo quando ele chegou ali na ilha, havia deixado a Donna naquele estado...
Eles enfim chegaram ao destino, uma clínica médica particular, o tipo de estabelecimento bem cuidado e apresentável, o nome do lugar deixava claro que o médico responsável por tudo era o doutor Gehard Hermann.
Logo na frente, já haviam dois carros que, naquele ponto, Barnes já conseguia distinguir como sendo propriedade da máfia. Ele reconheceu Niccolo sentado em um dos capôs, brincando com uma faca, porém nenhum dos outros homens que desceram dos veículos eram conhecidos. No entanto, presumiu que fossem os tais “Outsiders” que Roxanne havia citado para Corinne.
O nome em inglês, e o significado dele — algo como “forasteiros” — fez total sentido. Não eram italianos, a maior parte eram homens não-brancos, de etnias diversas, que com certeza não seriam aceitos na máfia antiga, e muito menos entre os homens de Strovalenko.
Mas Bucky sabia que Roxanne comandava as coisas de outro jeito, se ela tinha um grupo inteiro de mulheres treinadas, com certeza ela também abria a porta para os estrangeiros vindos de toda a parte, e fez deles mais uma divisão de seu exército.
Ficou bem claro então, o papel que cada um dos braços direitos da Donna tinham em tudo aquilo. Francesco comandava a divisão principal, os italianos que comumente já faziam parte da máfia, Corinne liderava as Mamas e Niccolo era o chefe dos Outsiders. Era um ótimo jeito de delegar.
— Trouxe o que eu pedi? — Ela perguntou para Nick, assim que ele se aproximou.
— Está com o Rocco. — O italiano apontou a figura do outro lado da rua, para então focar seus olhos em Bucky e cumprimentá-lo com um aceno de cabeça.
O homem citado veio correndo, era mais baixo do que Roxanne, seu corpo gordo enganava, porque se movia de forma muito ágil. Seu rosto redondo de pele negra retinta possuía uma cicatriz extensa abaixo do olho esquerdo, dando a ele uma imagem ameaçadora.
— Está aqui, Donna. — Rocco disse de prontidão, batendo a mão no terno cinza riscado que usava. — Também já fiz as consultas básicas sobre o alvo.
— Descobriu algo? — Roxanne perguntou, enquanto todos eles seguiam em direção a clínica.
— Nada fora do comum, Hermann é da Áustria, veio para a ilha há mais de quinze anos, seu pai o ajudou a montar a clínica e ele está aqui desde então, nenhuma queixa foi feita contra ele. Nenhum negócio mal resolvido envolvendo assuntos do seu pai. — Rocco foi informando, enquanto ajeitava melhor seu chapéu clássico.
Nada daquela conversa fornecia qualquer resposta para Bucky sobre o motivo de estarem ali. Ele olhou o nome de Hermann na placa e descobriu que o médico era ginecologista, nada mais que isso. Procurou Roxanne com os olhos, mas ela claramente não estava focada em nada a não ser em seu propósito. Encarou Niccolo então, porém ele dava ordens com gestos aos outros homens.
Eles entraram na clínica, a Donna na frente, Barnes do lado esquerdo, Nick do direito e Rocco alguns passos atrás. Mais três homens pararam na porta. Todas as pessoas na recepção focaram neles, enquanto o silêncio sepulcral tomava conta do ambiente.
— Doutor Hermann? — Roxanne perguntou diretamente para uma das recepcionistas.
— Sa-sala seis-s... — A mulher gaguejou enquanto apontava. Era evidente que todo mundo ali sabia quem era Roxanne Domenichelli.
Ela focou seus olhos negros em Nick por um milésimo de segundos, movendo a cabeça minimamente em uma ordem muda que Bucky odiou não entender.
— Tire todos do prédio imediatamente. — Niccolo ordenou para seus homens.
O pânico evidente tomou conta do rosto dos presentes, porém nem a Donna nem seus três acompanhantes ficaram ali para ver isso. Todos eles seguiram em direção a sala indicada.
Rocco assumiu a dianteira e puxou a maçaneta, abrindo a porta de uma vez só, a única arma visível era a pequena faca com a qual Nick brincava, isso fazia Barnes ponderar que não era uma missão de risco. O que tornava o comportamento de Roxanne ainda mais estranho...
— Mas o que é isso?! — O médico atrás da mesa gritou, quando teve sua porta escancarada. — Estamos em um consultório médico! Cadê o respeito?
Era um homem comum, branco e sem atrativos, um tanto calvo e evidentemente já passando dos cinquenta. Não havia um só detalhe que se destacasse nele, haviam milhares iguais em todos os lugares do mundo... Aquele cara não parecia uma ameaça.
Porém o pavor que tomou conta dos olhos dele rapidamente, quando Roxanne entrou na sala, era um tanto suspeito. Quem não deve não teme, certo? No entanto esse olhar durou menos de um segundo.
— Vá pra casa, querida. — A Donna disse para a mulher sentada na cadeira do lado de cá da mesa, enquanto Barnes assumia um lugar perto da porta, e Niccolo parava dois passos atrás de sua chefe.
A moça se levantou de imediato, se dirigindo para a saída. Rocco tirou o chapéu e se curvou respeitosamente para que ela passasse, fechando a porta em seguida e se posicionando do outro lado de Roxanne, assim que ela se sentou na cadeira destinada a pacientes.
— Donna... Nunca pensei que receberia uma visita sua. — O médico abriu um sorriso que pareceu verdadeiro, mas algo trêmulo em seu tom atiçava a desconfiança de Barnes. — Tem alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?
Roxanne parecia uma geada mortal naquele momento.
— Vim falar sobre uma paciente. — Ela declarou em sua postura mais distinta, seu tom parecia uma ameaça clara. — Giulia Berluscone...
O pavor cortou as íris do Doutor Hermann rapidamente outra vez. Bucky estreitou os olhos, uma teoria repugnante se formando em sua mente.
— Ah sim, um amor de garota, está tratando comigo há alguns meses. — O médico respondeu, seu tom casual e despreocupado, se não fosse os pequenos fragmentos de olhar captados, não haveria um só motivo para desconfiar do homem. — Ela está bem? Devo me preocupar? Se houver algo que eu possa fazer para ajudar, eu...
— Ela me contou a verdade do seu “tratamento”. — A Donna cortou, a irritação clara escorrendo de suas palavras, a forma como a postura dela estava extremamente dura e impassível dizia a Bucky que ela estava se contendo ao máximo.
— Me desculpe, eu devia saber do que se trata? — Doutor Hermann questionou, com um franzir confuso de sobrancelhas.
Por um instante Barnes duvidou de seu próprio julgamento, será que tinha visto errado os fragmentos de olhar? Talvez o médico não fosse culpado de nada...
Ou ele era apenas um mentiroso muito bom...
O tipo de habilidade que requeria prática e repetição.
— Não minta para mim... — Roxanne acusou em uma ameaça velada. — Ou melhor minta, eu vou gostar de deixar as coisas mais dolorosas pra você.
— Eu realmente não sei do que você está falando. — Doutor Herman respondeu com um mover de ombros.
— Eu vou deixar mais claro então... — A Donna se colocou de pé, apoiando as duas mãos sobre a mesa e encarando o homem de cima. — Você aliciou uma menina de quatorze anos.
Bucky sentiu o estômago revirar, ele havia desconfiado de algo assim no curso daqueles últimos minutos, mas desconfiar e ouvir com todas as letras eram experiências bem diferentes...
— Eu? — Doutor Herman rebateu ultrajado. — Que absurdo. Não sou nada mais do que um profissional exemplar dessa comunidade há anos, estou acima de qualquer suspeita.
Barnes fechou o punho de vibranium, contendo a raiva que se espalhou por seu corpo. Aquele maldito contava mentiras sem sequer piscar.
— Então está dizendo que a Giulia mentiu sobre tudo? — A voz de Roxanne estava perfeitamente controlada na superfície, porém para Bucky era perceptível o ódio e o asco borbulhando por trás de cada sílaba.
— Sabe como são as meninas dessa idade, entendem as coisas errado... — Hermann teve a audácia de dizer, a postura da Donna se tornou algo que Barnes nunca tinha visto, era como se o ódio emanasse dela de forma elétrica. Aquele homem morreria com certeza, mas ele sofreria muito antes disso. — Asseguro que é só um mal entendido. Sou completamente inocente. Pode procurar provas onde você quiser, Donna.
Roxanne ergueu a cabeça, sua mão direita colocando uma mecha de seu cabelo escuro atrás da orelha, para então parar no ar, com a palma para cima, como se pedisse algo a Rocco. O homem tirou um martelo de seu casaco e entregou para a Donna, se movendo em conjunto com Nick em seguida, para que os dois se posicionassem atrás do maldito médico.
— Espera, o que vocês estão fazendo? Me soltem! — O idiota gritou, enquanto era segurado e tinha uma de suas mãos forçada contra o tampo da mesa.
A Donna exibia a postura fria de uma verdadeira líder da máfia, porém seus olhos queimavam de um ódio profundo digno de uma justiceira implacável.
— Eu prefiro acreditar na palavra da vítima, além disso, não preciso de provas, eu vou conseguir uma confissão. — Ela declarou, antes de descer o martelo diretamente no dorso da mão do médico.
O grito sepulcral cortou o ar, enquanto o baque seco do metal contra aquela parte do corpo humano fez com que Barnes prendesse a respiração, seu maxilar tensionado e sua postura firme. Aquele maldito merecia, não haviam dúvidas, porém não era uma cena fácil de assistir.
— Me diga a verdade, você estava se aproveitando dela, não estava? — Roxanne questionou em um tom calmo, como se nada daquilo lhe afetasse de verdade.
— Não! Eu sou inocente, eu juro. — Hermann meio gritava e meio chorava.
A Donna usou o martelo outra vez, o som dos ossos sendo esmagados se misturando com o grito de dor do maldito atrás da mesa.
— Você estava se aproveitando da inocência e vulnerabilidade de uma garota de quatorze anos que entrou na sua sala procurando ajuda, não estava? — A voz feminina estava mais alta e dura, havia algo de visceral ali, um ódio tão genuíno que era como se Roxanne fosse a própria vítima sedenta não por justiça, e sim por vingança. — Você mentiu que estava apaixonado por ela, disse que ela era diferente das outras e muito madura para a idade, não foi? E então se aproveitou disso pra tocar nela de forma inapropriada. Diga a verdade!
— Sua vadia maluca, eu não fiz nada! — Hermann gritou em agonia. — Foi tudo culpa daquela garotinha boba, ela que se ofereceu pra mim, ela gostou! Com quatorze anos elas são precoces, e já sabem o que fazem, não sabia disso?
Roxanne tremia, apertava o martelo com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Barnes, no entanto, tinha as sobrancelhas franzidas, algo mais naquela confissão lhe chamou a atenção.
— “Elas”? — A Donna repetiu, provando que aquele detalhe também havia capturado a atenção dela. — Você já fez isso antes, não é?
Houve esse segundo em que o único som na sala era o choramingar incessante do maldito abusador de menores, Roxanne havia prendido a respiração, Nick e Rocco tinham atenção total nela, esperando por uma ordem.
Por um instante pensou que a Donna daria uma martelada na cabeça daquele homem horrendo e acabaria com tudo. talvez o próprio Bucky tenha desejado isso, como se os instintos de Soldado Invernal clamassem por sujar as mãos de sangue...
No entanto, Roxanne entregou o martelo para Rocco e deu a volta na mesa, agarrando Hermann pela parte de trás do jaleco e o arrastando pelo cômodo em direção a porta. Incerto dizer como a Italiana teve força para essa ação, talvez fosse a adrenalina ou o ódio visceral queimando nos olhos dela e servindo como combustível, o fato é que a Donna arrastou o homem para fora, enquanto ele se debatia e implorava.
— Misericórdia, por favor! A carne é fraca, eu... eu não tive culpa... elas me tentaram, eu juro!
Por um instante azuis e negros se encontraram, havia algo não dito ali, como um pedido mudo para que Bucky compreendesse. Mas como ele não compreenderia? Se deu conta que não era apenas a situação em si, não eram os crimes daquele homem nojento que não merecia uma só gota de empatia, o olhar de Roxanne queria dar a Barnes uma explicação, porque ele não deveria ter entendido a conversa, afinal toda ela foi travada em italiano.
Barnes apenas continuou caminhando então, vendo as pequenas implicações de suas mentiras. Era como se nunca fosse ter o luxo de ser ele mesmo ao lado de Roxanne...
A recepção já estava vazia, a Donna passou pelo lugar ainda arrastando o doutorzinho, agindo como se ele fosse apenas um grande saco de lixo podre — o que de fato ele era.
Ela atravessou a porta principal da clínica então, do lado de fora o restante dos Outsiders esperava, enquanto uma pequena multidão se formava, olhos curiosos assistindo a cena como se fosse algum julgamento ao ar livre da época medieval.
A Donna fez um sinal e tanto Rocco quanto outro dos homens levantaram Hermann do chão. Ao mesmo tempo, quatro Outsiders entraram na clínica novamente, carregando galões de combustível.
O maldito médico foi erguido contra a parede e um pinador pneumático foi dado nas mãos de Roxanne. Ela começou a pregar o homem contra a estrutura de entrada da clínica, os gritos dele fazendo com que cada vez mais pessoas se amontoassem ali na frente. Ao fundo, alguns policiais também olhavam, claramente parados sem qualquer intenção de intervir.
— Gehard Hermann cometeu crimes contra o povo da Sicília. — A Donna declarou em alto e bom som, devolvendo o pinador para um dos Outsiders e se dirigindo ao povo. — Ele vem fazendo isso por anos, escondendo sua podridão por trás de mentiras convenientes, abusando da inocência de nossas crianças e adolescentes. Felizmente, alguém teve coragem o suficiente para falar e através dessa denúncia eu obtive uma confissão. Hermann é culpado, não existem dúvidas. Ele não é digno de pena, empatia ou misericórdia, ele usufruiu da hospitalidade de nossa ilha e feriu nossas crianças de formas perversas. Sendo assim, ele deve ser punido a altura.
Enquanto ela falava, Nick e Rocco esvaziavam outro galão de gasolina na frente da clínica, incluindo as paredes também.
— Vocês são o meu povo, é meu dever prover proteção e zelar por vocês. Eu falhei em ver essa ameaça com antecedência. — Roxanne estendeu a mão direita e recebeu uma caixa de fósforos que um dos Outsiders tirou do bolso. — Mas agora eu lhes dou justiça e vingança!
Ela acendeu o palito e o jogou para trás sem sequer olhar, ou dar ouvidos aos apelos e lamentos de Hermann que logo foram substituídos por gritos de puro pânico quando o fogo começou a tomar conta de tudo.
— Essa é a minha cidade! —A Donna declarou firme, sua voz acima do barulho, sua postura digna de uma líder, enquanto as chamas consumiam tudo com ferocidade. — Se alguém ousar tocar em uma das minhas crianças, menina ou menino, não importa, eu vou descobrir. E eu asseguro, os culpados, os cúmplices, os coniventes e os facilitadores também morrerão gritando!
Era uma demonstração de poder, claramente. E embora fosse uma imagem violenta e caótica havia uma ordem e uma hierarquia clara ali. Roxanne era a rainha, ali na Sicília ela estava acima do governo ou das autoridades, e a julgar pela reação do povo... eles apoiavam isso.
As pessoas gritavam “giustizia”, em coro, comemorando aquela execução como se fosse uma grande vitória. Justiça. Barnes não pensou em moral e ética naquele momento, a verdade é que aquela situação toda também havia feito com que cada fibra de seu corpo queimasse de ódio. Ele provavelmente não teria pregado o doutorzinho de merda na parede e colocado fogo em toda a clínica, verdade. Mas não podia culpar Roxanne por ter feito isso, não quando ele próprio também teve vontade de matar aquele aliciador de menores.
A Justiça veio, errada ou certa, ela veio...
Focou seus olhos azuis em Roxanne, parada ali com a postura digna da rainha que ela era, sendo a líder que aquele povo precisava. Barnes entendeu que nunca a afastaria daquele lugar, seria até injusto fazê-lo.
Porém também havia algo mais nela, uma máscara neutra que escondia suas emoções e deixava suas íris opacas, como se tivesse perdida muito longe dali. De repente algo cortou a mente de Bucky: Valentina havia citado um incêndio no passado da Donna. O coração dele se contorceu de forma desconfortável, seu estômago ficou ainda mais embrulhado... Será que?
O modo como Roxanne havia agido desde que soube, como se fosse pessoal. O modo como ela falou com aquele homem... como se doesse nela, como se ela soubesse...
Não podia ser. Podia?
Essa pergunta assombrou Bucky por todo o caminho de volta para vinícola. O silêncio absoluto pairando no carro. Roxanne havia acabado com o maldito aliciador, porém aquilo não pareceu uma vitória, não tinha gosto de vitória... Barnes estava enjoado com suas próprias teorias e era pior ainda ver que a italiana também não parecia bem, ela tremia como se estivesse prestes a desabar em um choro profundo, mas estivesse se segurando para não fazê-lo.
Eram sinais de mais para ignorar...
Pensar em uma Roxanne de quatorze anos, presa em um colégio interno totalmente longe de casa, sozinha depois de perder a mãe e o irmão, abandonada pelo próprio pai... Ela era a presa perfeita para um aliciador.
Por isso ela não confiava em ninguém para protegê-la.
Barnes se sentia fisicamente doente, porque doía dentro dele. Era irracional. Fazia anos, ele não tinha nada a ver com isso, ele sequer conhecia Roxanne na época. Ainda assim doía. Ele sabia que nunca poderia perguntar, e que era tarde demais para fazer algo a respeito.
Devia lhe assustar que ela havia colocado fogo no colégio inteiro, afinal muitas pessoas tinham morrido. Mas isso não teve peso nenhum para Bucky naquele instante.
Isso sim assustava. Não era mais uma batalha moral, porque ele já havia pendido para um dos lados.
Tentou dizer a si mesmo que estava errado, que estava criando teorias malucas. Mesmo quando Roxanne, ao invés de ir para a mansão direto, fez questão de levar Giulia para casa e falar com a mãe da jovem, oferecendo todo o suporte possível, Barnes quis se convencer que não era por ser um assunto pessoal. A Donna era uma boa pessoa, só isso.
Ainda assim, eles terminaram aquela noite dentro do Sedan absolutamente calados, porque no fundo Bucky sentia a verdade, e embora nunca fosse ter certeza, negar não mudaria nada...
Algo terrível havia acontecido com Roxanne dentro daquele colégio interno.
Quando finalmente chegaram na mansão, ela deu a noite de folga para Benedetta e sequer quis jantar antes de ir para o próprio quarto.
No fundo Bucky sabia que dar espaço podia ser o melhor, o fato de Roxanne sequer ter olhado pra ele quando subiu deixava claro que ela queria ficar sozinha. No entanto ele sabia que o conceito de “querer” e “dever” nem sempre se alinhavam. Por mais que a Donna quisesse, não era um bom momento para que ela afundasse na solidão.
Por isso, cerca de meia hora depois, Barnes estava sentado na grande cama de casal da suíte da italiana, logo depois de invadir o quarto. O chuveiro dela ainda estava ligado, mas ele não se importou em esperar, já havia tomado seu banho e vestia moletom e camiseta simples.
Logo a porta do banheiro se abriu e Roxanne surgiu enrolada em um roupão, junto com uma nuvem de vapor e aquele perfume característico dela.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntou de imediato, em um tom genuinamente surpreso, assim que notou Bucky sentado na ponta de sua cama.
Ele focou nos olhos dela, estavam vermelhos como se tivesse chorado recentemente. Soube que tinha feito a coisa certa quando invadiu aquele quarto.
— ‘Tá de noite, lembra? — Moveu os ombros com displicência.
Roxanne franziu as sobrancelhas, um mundo de coisas indecifráveis passando em seus olhos negros antes que algo desconfortável abatesse sua postura. Bucky notou que ela havia tirado a conclusão errada.
Ele se colocou de pé então, cortando o espaço entre eles.
— Foi um dia difícil e cansativo. Eu te fiz um queijo-quente. — Declarou, apontando a bandeja que havia deixado sobre a penteadeira. — Vista algo confortável, e vamos ver um filme enquanto comemos.
Roxanne pareceu completamente confusa, ao mesmo tempo em que havia algo de muito vulnerável em seu olhar.
— Só isso? — Questionou em um misto de desconfiança e alívio.
— Só isso. — Ele afirmou com honestidade.
Não era de sexo que ela precisava naquela noite.
— Não era esse o acordo... — Ainda havia um quê de desconfiança na voz da italiana.
Barnes sorriu compassivo, arrumando alguns fios do cabelo feminino apenas para poder acariciar o rosto delicado. Era triste que Roxanne pensasse que a única coisa que os unia era física...
— O acordo dizia que você seria minha quando anoitecesse, e eu gosto de tomar conta do que é meu. Ainda estamos dentro dos termos, portanto, afinal é de noite e que vou cuidar de você. Simples assim. — Ele explicou em um tom calmo. — Vai, vista algo confortável e quente, está ventando frio essa noite.
Roxanne abriu e fechou a boca como se não encontrasse as palavras certas, Bucky não sabia dizer se alguém já havia cuidado dela, mas a julgar pela forma como a italiana absorveu aquelas palavras, talvez aquele tipo tão simples e básico de relação fosse algo novo para ela.
E isso era incrivelmente triste e injusto...
A italiana seguiu para seu closet sem nada dizer, voltando pouco depois, vestindo exatamente o que Barnes havia sugerido, algo confortável e quente, um pijama feito de algodão em tons claros.
Bucky sorriu, estendendo a mão direita e conduzindo Roxanne até a cama para entregar a ela a bandeja com os lanches que havia feito.
— Não sabia que cozinhava... — Ela disse, enquanto analisava a bandeja.
— Fazer um queijo quente não é cozinhar, mas eu me viro. — Ele deu de ombros, sentando-se do outro lado e procurando o controle da televisão na mesa de cabeceira.
A grande tela de plasma ficava em um painel na parede, porém antes de ligar o aparelho Barnes focou seus olhos na figura feminina.
— Você está bem? — Perguntou em tom acolhedor.
Roxanne respirou fundo, segurando o lanche na mão sem dar a primeira mordida e meneando a cabeça, antes de dizer vagamente:
— Não sei...
— Quer falar sobre isso? — Ele ofereceu e as íris negras encontraram as azuis.
A italiana pareceu ponderar isso por alguns segundos, mas por fim respirou fundo outra vez.
— Não.
— Tudo bem. — Bucky concordou sem tentar pressionar, apertando o botão para finalmente ligar a televisão. — O que você quer assistir?
A Donna deixou o sanduiche de lado e estendeu a mão pedindo o controle. Com alguns cliques “Atlantis – O Reino Perdido” começou a ser reproduzido.
— É um desenho? — Barnes achou a escolha curiosa.
— Uma animação. — Roxanne corrigiu, como se houvesse uma diferença real. — Eu assistia sempre com a minha mãe quando ela estava grávida do Damian.
Bucky assentiu, entendendo que havia uma conexão emocional com aquele “desenho”. Era a história de um pesquisador que acreditava ser capaz de encontrar o reino perdido de Atlantis, um continente inteiro desaparecido no mar, ele saiu em expedição com uma equipe um tanto suspeita, mas carismática, e acabou chegando a seu objetivo.
Já nos primeiros minutos era óbvio que Milo — o pesquisador — se apaixonaria por Kida — a princesa do reino perdido...
— Olha, sobre hoje... — Roxanne declarou de repente, eles tinham acabado seus lanches e Bucky havia pausado o filme para colocar a bandeja de lado. — Você tem que saber que aquele médico.... ele...
— Eu entendi o que estava acontecendo. — Respondeu antes que ela pudesse terminar, ganhando um olhar confuso. Ele não podia entender, afinal supostamente não era fluente em italiano. — Algumas coisas não precisam de palavras.
Roxanne assentiu, satisfeita com a explicação. Não era uma mentira completa, afinal Barnes sabia que mesmo que não houvesse compreendido uma só palavra ele ainda seria capaz de decifrar o que aquele médico maldito tinha feito...
— Obrigada por não interferir. — Ela agradeceu, quando ele voltou a se sentar na cama.
— Eu disse que só faria isso se você se colocasse em risco. — Bucky respondeu, tocando o rosto feminino com carinho. — E você tinha tudo absolutamente sobre controle.
Roxanne esboçou um sorriso mínimo, talvez o primeiro desde aquela tarde, ainda assim, havia um vinco entre as sobrancelhas dela.
— Mas você não faria as coisas do jeito que eu fiz, não é? — A pergunta tinha um tom interessado.
Talvez naquele ponto Bucky já conhecesse aquela italianinha bem o bastante para dizer que ela estava preocupada com a reação dele.
— Eu não sou o rei da máfia, sou? — Ele moveu os ombros em displicência, puxando Roxanne para se aconchegar em seus braços. — Você fez o que achou certo. Não vou advogar em favor de um homem como aquele, ele recebeu o que plantou.
Pela primeira vez Barnes não estava em conflito moral, ele disse o que acreditava.
A italiana manteve a cabeça erguida por alguns instantes, como se tivesse algo mais a dizer, porém mudou de ideia e apenas se arrumou melhor nos braços de Bucky, antes de voltar a dar o play no filme.
Os dedos de vibranium deslizavam pelos fios negros despretensiosamente, talvez durante aquela noite eles pudessem fingir que todo o resto não existia, os problemas, as questões morais, os planos de destronar um déspota e resgatar inocentes, qualquer passado traumático... Tudo isso ficaria lá fora. No curso daquelas horas eles seriam apenas duas pessoas que estavam desenvolvendo sentimentos um pelo outro e criando um vínculo.
Barnes se deu ao luxo de ser apenas um cara confortando e cuidando de uma garota que ele gostava...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Difícil dizer até quando toda essa negação bastaria, mas talvez esse fosse o ponto sobre roubar o tempo, não haviam garantias.
Enquanto isso, o pesquisador Milo realmente se apaixonou pela princesa Kida, e acabou envolvido em um grande conflito quando descobriu que seus companheiros de expedição tinham objetivos escusos ali em Atlantis.
Barnes nunca pensou que com cento e tantos anos ele se identificaria com um desenho supostamente infantil, mas como não se identificar com Milo, quando de repente os dois se encontravam diante de conflitos morais equivalentes?
A garota estrangeira ou seu compromisso com a equipe?
A diferença é que Milo teve um final feliz ao lado de Kida, e Bucky sabia que não teria a mesma sorte... Todo o tempo que ele tinha para doses homeopáticas de felicidade era roubado.
Uma ou outra teria que pagar por suas transgressões...
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