Operação Natal
1 Naruto ainda acredita…
Minato e Kushina Uzumaki já haviam tentado de tudo. Absolutamente tudo.
Quando Naruto tinha doze anos, sentaram-no na mesa da cozinha com aquela expressão séria de "precisamos conversar". Kushina segurou as mãos do filho com ternura enquanto Minato explicava, com toda a paciência do mundo, sobre a origem da lenda do Papai Noel, sobre São Nicolau, sobre como os pais ao redor do mundo mantinham viva a magia para seus filhos pequenos.
Naruto os ouviu com atenção, balançou a cabeça e disse:
— Eu sei que o Papai Noel existe. E ninguém vai mudar minha cabeça.
Aos quinze, Kushina tentou uma abordagem mais lógica, explicando sobre fusos horários, a impossibilidade física de visitar todas as casas do mundo em uma única noite.
— Magia não precisa fazer sentido. — Naruto respondeu com um sorriso radiante. — Por isso é magia.
Aos dezessete, até mesmo Minato, o homem mais racional que Kushina conhecia, jogou as mãos para o alto em rendição. Foi quando o casal tomou uma decisão inusitada. Se não conseguiam convencer Naruto, pelo menos garantiriam que a magia continuasse viva para ele.
Passou a ser tradição. Todo Natal, dois presentes apareciam debaixo da árvore. Um embrulhado com papel colorido e uma etiqueta escrita "De: Mamãe e Papai". O outro, sempre em papel vermelho com detalhes dourados, trazia a inconfundível caligrafia caprichada: "De: Papai Noel".
Os anos passaram, e aquilo que deveria ser uma fase infantil transformou-se em parte da identidade de Naruto. Seus amigos riam, alguns com carinho, outros com deboche. Kiba, seu melhor amigo desde a infância, fazia questão de provocá-lo toda vez que o assunto surgia.
— Cara, você tem dezenove anos! — Kiba gargalhava, jogando um braço sobre os ombros de Naruto. — Dezenove! Daqui a pouco você vai estar pagando boletos e ainda deixando biscoitos para o bom velhinho!
Naruto apenas sorria, imperturbável.
— Quando você crescer e amadurecer, Kiba, vai entender que algumas coisas são reais mesmo quando ninguém mais acredita nelas.
E era justamente isso que deixava Kushina sem chão. Não era uma teimosia infantil. Naruto genuinamente, profundamente, acreditava. Seus olhos azuis brilhavam toda vez que dezembro chegava, sua empolgação era contagiante e pura. Ele decorava a casa com uma dedicação que faria qualquer elfo sentir inveja, cantarolava músicas natalinas mesmo em julho, e sempre, sempre, deixava a mesma meia vermelha pendurada na lareira.
Mas este ano seria diferente.
— Tem certeza de que não quer vir com a gente? — Kushina perguntou pela milésima vez, enquanto fechava sua mala. — A Suíça no Natal é linda, dizem que neva todos os dias!
Naruto ajudou o pai a carregar as bagagens até a porta, sacudindo a cabeça.
— Não, mãe. Vocês merecem essa viagem. Vocês nunca tiraram férias de verdade! Além do mais... — seus olhos brilharam com aquela fagulha característica — ...eu vou ficar bem aqui.
Minato trocou um olhar significativo com Kushina. Ambos sabiam. Este seria o Natal em que Naruto finalmente entenderia. Sem pais em casa, sem o presente mágico debaixo da árvore, sem a tradição cuidadosamente mantida por anos. A realidade, às vezes cruel mas necessária, finalmente bateria à porta.
— Se cuida, tá bom? — Kushina abraçou o filho com força, sentindo um aperto no peito. — Qualquer coisa, você nos liga.
— Mãe, é só uns dias! — Naruto riu, mas retribuiu o abraço com igual intensidade.
Quando a porta se fechou e o som do táxi desapareceu na rua, Naruto ficou parado no silêncio da casa por alguns segundos. Então, um sorriso enorme se abriu em seu rosto.
Finalmente. Finalmente estava sozinho no Natal.
Finalmente ia rever o Papai Noel.
~*~
Naruto tinha sete anos quando aconteceu. Era véspera de Natal, e ele havia acordado no meio da noite com sede. Desceu as escadas em silêncio, seus pezinhos descalços não fazendo barulho no chão, e foi quando viu pela janela da sala.
O trenó. As renas. E três figuras, um homem robusto de vermelho e duas crianças rindo, elevando-se no céu estrelado antes de desaparecerem entre as nuvens.
Naruto ficou paralisado, os olhos arregalados, o copo de água completamente esquecido. Seu coração batia tão forte que ele podia ouvi-lo nos ouvidos. Quando finalmente conseguiu se mexer, correu escada acima gritando:
— MÃE! PAI! EU VI! EU VI O PAPAI NOEL!
Ninguém acreditou.
— Foi um sonho, querido — Kushina disse, acariciando seus cabelos loiros.
— Ou talvez um avião — Minato sugeriu.
Nem mesmo Kiba, seu melhor amigo que morava na casa ao lado, levou a sério.
— Você provavelmente tava sonhando acordado, Naruto. Minha mãe diz que você tem muita imaginação.
Mas Naruto sabia o que tinha visto. E aquela imagem, o trenó deslizando pelo céu, o som distante de guizos, as risadas das crianças, ficou gravada em sua memória como a coisa mais mágica que já experimentara.
Desde então, todo Natal, Naruto tentava ficar acordado. Queria ver de novo. Queria provar para todo mundo. Mas principalmente, uma parte secreta e infantil dele queria estar naquele trenó, queria sentir o vento frio no rosto enquanto voava sobre a cidade iluminada.
Seus pais, porém, nunca deixavam. Sempre tinha alguma coisa. Um filme de Natal que "precisavam" assistir juntos e que misteriosamente fazia Naruto bocejar, chocolate quente com "camomila para relaxar", histórias antes de dormir que se estendiam até seus olhos fecharem inevitavelmente.
Claro que Naruto não sabia que tudo era calculado. Que Minato e Kushina precisavam que ele dormisse para colocar o presente embaixo da árvore. Que cada tradição cuidadosamente mantida era, na verdade, uma encenação amorosa.
Mas agora, aos dezenove anos, sozinho pela primeira vez na véspera de Natal, Naruto tinha um plano.
Um plano meticuloso e infalível.
~*~
Naruto passou o dia 24 de dezembro em preparativos febris.
Primeiro, a meia. A mesma meia vermelha de sempre, com seu nome bordado em letras brancas pela avó que já não estava mais entre eles, foi pendurada com cuidado especial na janela da sala, bem ao lado da árvore de Natal que ele mesmo havia decorado com exagero.
Depois, os biscoitos. Naruto não era exatamente um mestre-cuca, mas biscoitos amanteigados eram simples o suficiente. Enquanto assavam, o cheiro de baunilha e manteiga invadiu a casa, e Naruto sentiu uma onda de orgulho.
Quando finalmente ficaram prontos, dourados, estrelados, lindos, ele os arrumou em um potinho decorado com renas e colocou na mesinha de centro. Ao lado, um bilhetinho escrito com sua melhor caligrafia:
"Oi, Papai Noel. Me leva para passear de trenó?"
Releu três vezes, mordendo o lábio. Não ficou muito infantil? Muito desesperado? Balançou a cabeça. Não. Era honesto. Era ele. Se o Papai Noel era real, e era, ele sabia que era, então apreciaria a sinceridade.
O próximo item da lista: chocolate quente. Naruto preparou a maior quantidade que conseguiu, usando a receita especial de Kushina que incluía canela e baunilha. Despejou tudo na maior garrafa térmica que encontrou em casa, aquela que seu pai usava quando ia pescar. Precisava se manter acordado. Não podia perder a oportunidade de novo.
Às sete da noite, tomou um banho demorado, cantando músicas natalinas no chuveiro. Vestiu seu pijama favorito, aquele verde com estampa de renas, bengalas doces e flocos de neve, tão cafona que Kiba ameaçava queimá-lo toda vez que via, e penteou o cabelo rebelde para trás, ainda úmido.
Às oito, estava posicionado.
Naruto se acomodou no sofá da sala, com visão perfeita tanto da árvore quanto da janela. A garrafa térmica de chocolate quente estava ao seu lado, uma caneca já cheia fumegando em suas mãos. A casa estava silenciosa, apenas o tique-taque do relógio na parede e o zumbido distante da geladeira na cozinha.
Lá fora, flocos de neve começavam a cair, cobrindo a rua com um manto branco que brilhava sob a luz dos postes. A vizinhança estava iluminada com decorações natalinas.
Era perfeito. Era mágico.
Naruto deu um gole no chocolate quente, sentindo o líquido quente e adocicado descer pela garganta. Seus olhos azuis estavam fixos na janela, no céu escuro salpicado de estrelas que apareciam entre as nuvens.
— Finalmente — murmurou para si mesmo, um sorriso enorme no rosto, o coração batendo acelerado de pura expectativa — vou rever o Papai Noel.
E lá ficou Naruto Uzumaki, dezenove anos, pijama de rena, chocolate quente nas mãos e fé inabalável no coração, esperando pelo milagre que tinha certeza absoluta que viria.
A noite de Natal mal havia começado.
~*~
No Polo Norte, dentro das instalações da Noel Foundation, a operação Natal acontecia a todo vapor.
Luzes piscavam em painéis gigantescos que mapeavam o mundo inteiro, pequenos pontos verdes indicando entregas confirmadas, amarelos sinalizando preparativos em andamento, e ocasionais vermelhos que faziam o coração de qualquer operador apertar. O som de maquinário, vozes coordenando logística e o tilintar constante de sinos de trenós sendo preparados criavam uma sinfonia de eficiência organizada.
A família Uchiha, há gerações, trabalhava arduamente para garantir um feliz Natal para todas as crianças e para todos aqueles que ainda acreditavam na magia natalina e no símbolo do Papai Noel. Era um legado passado de pai para filho, uma responsabilidade sagrada que cada Uchiha carregava com orgulho e dedicação inabaláveis.
Sasuke Uchiha sabia que seu destino estava entrelaçado com o Natal. Crescera ouvindo as histórias de seu pai Fugaku sobre operações miraculosas, entregas impossíveis realizadas no último segundo, crianças cujos sorrisos eram preservados graças ao trabalho meticuloso da Noel Foundation. Treinara anos para este momento.
E agora, finalmente adulto, estava trabalhando em sua primeira operação Natal como comandante regional.
Todo ano, a operação era planejada com precisão cirúrgica. Fabricação de brinquedos iniciada meses antes, cada peça testada para garantir qualidade e segurança. Embalagem dos presentes feita com papel especial que nunca rasgava e laços que se mantinham perfeitos mesmo após longas viagens. Levantamento detalhado de todos que receberiam presentes, suas listas de desejos, comportamento durante o ano, endereços atualizados. Estudo de rotas de entrega para otimizar cada segundo precioso da noite de Natal. Manutenção rigorosa dos trenós, verificação da saúde das renas, treinamento de pilotos.
Era uma operação de escala impossível que, de alguma forma, funcionava perfeitamente a cada ano.
Sasuke havia sido designado para comandar a região do Canadá, uma escolha estratégica para um operador de primeira viagem. População relativamente pequena, dispersa por vastas áreas, mas nada comparado à densidade caótica de lugares como Tóquio ou Nova York. Era, teoricamente, uma região tranquila para começar.
Até agora, tudo corria conforme o planejado. Cada presente embalado, cada rota calculada, cada trenó abastecido. Os painéis à sua frente mostravam uma sequência reconfortante de luzes verdes. Sasuke permitiu-se um breve momento de satisfação. Sua primeira operação seria impecável. Seu pai ficaria orgulhoso.
Foi quando Sakura entrou correndo.
Sakura Haruno era sua assistente principal, uma jovem de cabelos rosados e olhos verdes que conhecia os protocolos da Noel Foundation melhor que ninguém. Tinha uma eficiência assustadora e uma capacidade de manter a calma em situações de crise que Sasuke admirava profundamente. Mas agora, enquanto ela atravessava a sala de controle com passos apressados, seu rosto mostrava algo que Sasuke raramente via, preocupação genuína.
— Sasuke! — ela chamou, segurando um tablet contra o peito. — Temos um alerta vermelho!
O mundo de Sasuke parou.
Alerta vermelho. Na sua primeira operação. Claro. Claro que isso teria que acontecer.
— Alerta vermelho? — ele repetiu, mantendo a voz controlada mesmo sentindo o estômago dar um nó. — No Canadá? Sakura, verifique de novo. Deve ser algum erro no sistema.
— Não é erro — ela parou na frente dele, colocando o tablet sobre a mesa e deslizando os dados na tela. — É legítimo. Código Delta-Epsilon. Perda iminente de crença.
Sasuke inclinou-se sobre o tablet, os olhos escuros percorrendo rapidamente as informações. Código Delta-Epsilon era sério, indicava que alguém estava prestes a deixar de acreditar no Natal, que a magia estava em risco crítico de se extinguir no coração de uma pessoa. Eram os casos mais delicados, que exigiam intervenção imediata.
E estava acontecendo na sua região. Na sua primeira operação.
— Qual a situação? — perguntou, forçando-se a manter o profissionalismo que treinara anos para desenvolver.
Sakura respirou fundo.
— Um rapaz chamado Naruto Uzumaki. Dezenove anos. Localização: Garden Fields, pequena cidade no interior, próximo a fronteira com os Estados Unidos. Os indicadores mostram que ele está em ponto crítico de descrença.
— Dezenove anos? — Sasuke franziu a testa, pegando o tablet para examinar mais de perto. — E ainda acredita?
— Exatamente — Sakura assentiu, tocando a tela para abrir o arquivo completo. — É por isso que é alerta vermelho. Pessoas como ele são extremamente raras, Sasuke. A Noel Foundation tem políticas específicas para preservar ao máximo a magia do Natal no coração de crentes como Naruto Uzumaki.
Sasuke abriu a ficha completa.
Nome: Naruto Uzumaki
Idade: 19 anos
Status de Crença: Inabalável
Histórico: Acredita em Papai Noel desde a infância. Aos 7 anos, reportou avistamento de trenó (confirmado — Operação Natal 2013, Setor Leste). Mantém crença ativa apesar de pressão social e ridicularização de pares. Pais (Minato e Kushina Uzumaki) mantiveram tradição de presentes duplos para preservar magia.
E então, anexada ao arquivo, uma foto.
Sasuke fitou a imagem por um momento mais longo do que o necessário. O rapaz era loiro, cabelos bagunçados como se nunca tivessem visto um pente, olhos azuis brilhantes cheios de vida. Mas o que realmente chamava atenção era o sorriso, amplo, genuíno, quase infantil em sua pureza. Mesmo através de uma simples fotografia, era possível sentir a energia contagiante que emanava dele.
“Fofo”, Sasuke pensou antes de poder se controlar. Balançou a cabeça, afastando o pensamento inadequado. Agora não era hora para distrações.
— Explique a situação crítica — ordenou, voltando sua atenção para Sakura.
— Os pais de Naruto viajaram para a Suíça — ela explicou, ampliando uma linha do tempo na tela. — Vão passar o Natal e Ano Novo fora. Pela primeira vez na vida, Naruto está sozinho na véspera de Natal.
Sasuke percebeu imediatamente o problema.
— Sem os pais, não haverá o presente tradicional do Papai Noel.
— Exatamente — Sakura concordou, sua expressão sombria. — Nossos algoritmos indicam 87% de probabilidade de que a ausência do presente quebre definitivamente a crença de Naruto. Todos esses anos de magia preservada... desapareceriam em uma única noite.
Sasuke voltou a olhar para a foto de Naruto. Aquele sorriso. Aquela crença pura e inabalável aos dezenove anos, algo tão raro que provavelmente existiam menos de uma centena de casos similares no mundo inteiro. A Foundation tinha protocolos específicos para situações assim. Crentes como Naruto Uzumaki eram tesouros que precisavam ser protegidos.
E estava nas mãos de Sasuke fazer isso acontecer.
Ele não queria perturbar seu pai. Fugaku estava coordenando operações em três continentes simultaneamente. Itachi, seu irmão mais velho e operador veterano, estava liderando a complexa entrega em toda a Ásia. Todos confiavam que Sasuke conseguiria lidar com o Canadá sem intervenções.
Mas talvez... talvez fosse exatamente por isso que este alerta havia aparecido. Um teste. Uma chance de provar que estava à altura do legado Uchiha.
— Sakura — ele disse, sua voz firme e decidida — vá até o depósito. Precisamos de um presente apropriado para Naruto Uzumaki. Verifique o histórico de desejos dele, encontre algo especial. Algo que reforce a magia.
— Já estou providenciando — Sakura digitou rapidamente no tablet. — Mas Sasuke, você sabe que a entrega no Canadá está programada para começar em três horas. Se formos adicionar uma parada não programada...
— Eu sei — Sasuke a interrompeu, seus olhos ainda fixos na foto de Naruto. Naquele sorriso que precisava ser preservado. — Vou ajustar a rota pessoalmente. E Sakura?
— Sim?
Sasuke finalmente ergueu o olhar, sua expressão determinada.
— Eu farei a entrega pessoalmente.
Sakura piscou, surpresa.
— Você? Sasuke, comandantes regionais geralmente não fazem entregas diretas, especialmente não em casos de alerta vermelho. São situações delicadas, talvez devêssemos chamar um operador mais experiente...
— Não — a voz de Sasuke não deixava espaço para argumentos. — É minha região, minha responsabilidade. Além disso... — ele olhou novamente para o arquivo, para aquele rapaz de dezenove anos que ainda acreditava em magia quando o mundo inteiro dizia para não acreditar — ...pessoas como ele merecem o melhor que podemos oferecer. E eu vou garantir que Naruto Uzumaki tenha o Natal mais mágico que já experimentou.
Um sorriso pequeno, quase imperceptível, surgiu nos lábios de Sakura.
— Entendido. Vou preparar tudo. Ah, e Sasuke? — ela pausou na porta, olhando para trás — Boa sorte. Você vai precisar.
Quando ficou sozinho na sala de controle, Sasuke voltou sua atenção para os monitores, já calculando mentalmente os ajustes necessários na rota. Mas seus olhos continuavam voltando para aquela foto.
Naruto Uzumaki.
Um rapaz que o mundo tentou convencer a parar de acreditar, mas que manteve sua fé inabalável.
E Sasuke Uchiha faria questão absoluta de garantir que essa fé fosse recompensada.
A noite seria longa. Mas no final, quando tudo estivesse feito, aquele sorriso na foto continuaria brilhando.
Sasuke não aceitaria nada menos que isso.
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