Notas iniciais
Oie! Aqui estou com mais um capitulo. Devo dizer que é um dos grandes, eu pensei em dividir em dois ou três e voltar com as outras partes depois, mas eu não sei como vai ser minha semana, então resolvi postar inteiro e vocês mesmas decidem se/como querem dividir a leitura, da forma que ficar melhor pra vocês. Vamos ver o que vem por aí. Boa leitura!

Ela estava sentada no meio da cama, as pernas dobradas e cruzadas perto do corpo, os dedos da mão direita sobre os lábios, um sorriso persistente enfeitando suas bochechas com covinhas...

Era exatamente quatro da manhã, Roxanne sabia muito bem que em breve precisava levantar e iniciar seu dia. Mesmo não tendo dormido nada, ela tinha que se vestir e estar plenamente disposta para o que o trabalho reservasse.

Ainda assim, lá estava ela, acordada, com a mente dopada, apenas imagens em looping do beijo de momentos antes rodando e rodando diante de seus olhos.

No fundo ela sabia que em breve analisaria aquela cena exaustivamente, procurando motivações, encontrando problemáticas, complicações e obstáculos. Conhecia a própria cabeça muito bem, logo todas as suas experiências passadas viriam à tona e ela encontraria um defeito nos motivos por trás daquele beijo...

Quer dizer, como se precisasse de mais empecilhos em tudo aquilo, além das coisas óbvias...

E talvez, por saber tão bem que em breve seu pensamento exaustivamente hiperativo, estragaria tudo aquilo, ela queria apenas manter o momento vivo em sua memória enquanto pudesse.

Como um livro que amamos muito quando jovens, mas depois que amadurecemos podemos finalmente ver os pequenos defeitos e problemáticas, antes ignorados...

A vida de Roxanne era cheia de páginas assim, capítulos inteiros que ela pensou serem um sonho e que depois, quando foram repassados em sua mente, provaram-se pesadelos. E tudo estava na cara, como ela não viu antes?

Então o provável é que ela acabasse vendo aquele beijo por uma percepção mais fria e racional dali há algumas horas. Porque afinal era a Donna, tinha deveres e objetivos que não condiziam com beijos secretos em sacadas no meio da madrugada.

Porém, naquele curto tempo, ela se permitiu reviver essa memória recente com a euforia de uma menina iludida com promessas de felicidade. Seu corpo ainda no frenesi da excitação, seu estômago repleto de borboletas, seu coração batendo de verdade pela primeira vez em anos e sua mente dócil e feliz com a ilusão.

Até que o Sol raiasse lá fora, Roxanne Domenichelli se permitiu ser como Julieta Capuleto, logo depois de flertar com Romeu Montecchio em uma sacada, ignorando que o mundo estava contra eles e que aquela história inteira acabaria em tragédia.

E, a bem da verdade, a tragédia veio mais cedo do que o esperado, não pela mente hiperativa da Donna e sim por um toque de seu celular.

As sobrancelhas femininas se franziram, o nome de Corinne LaRue brilhava na tela, e considerando que França e Itália compartilhavam o mesmo fuso, era bem cedo para uma ligação.

— Corie? Tudo bem? Algo errado? — Roxanne atendeu depressa, a voz já pronta para lidar com qualquer problema.

A realidade a atingiu como um soco, não podia se dar ao luxo de sonhar com ilusões doces. Não podia se distrair com um americano bonito.

— Está tudo bem sim, eu imaginei que você estaria acordada, por isso liguei. — A voz de Corinne veio neutra. — Pode falar?

— Claro. — A Donna respondeu de imediato, não permitindo a si mesma suspirar de alívio. LaRue não faria uma ligação quase cinco da manhã por nada...

— Eu estava pensando em como seu pai fugiu, o quão inesperado foi isso e o quão errado todos nós analisamos ele, achamos que sabíamos qual eram os objetivos e coisas importantes na vida dele... — A francesa comentou e até podia parecer casual, mas havia uma certa tensão em seu tom que não enganava.

— Corie... Eu realmente agradeço sua preocupação, mas deixar meu pai viver o restante da vida dele longe talvez seja o melhor. Se ele não me atrapalha ele não é uma ameaça. — Roxanne imaginou que ainda eram as preocupações da noite anterior. — Além disso, se ele não quiser ser encontrado, ele não vai.

Essa era a verdade maior, Roxanne podia mover céu e terra, gastar recursos financeiros e pessoal qualificado naquela busca e tudo isso ser um grande desperdício. Vicenzo Domenichelli foi o Dom da máfia por décadas, com certeza ele tinha diversos lugares para se esconder por anos se fosse necessário. Era o plano de emergência básico de todo líder, “um lugar para esperar a poeira baixar”, a Donna também tinha algo assim.

Ir atrás do pai era inútil e uma operação que podia arriscar o plano principal. Era isso... às vezes era preciso saber perder e Roxanne tinha que aceitar que perdeu ali...

— Eu sei disso. — Corinne respondeu e sua frase seguinte foi inesperada. — Não é exatamente sobre o seu pai. Ele foi só o gatilho que me levou a pensar sobre as pessoas das quais acreditamos conhecer as motivações...

— Continue. — Roxanne pediu, se sentando melhor, porque sabia que uma conversa importante viria pela frente.

— Barnes. Por que ele está aí com você, Roxie? — A francesa perguntou diretamente.

— Porque eu sugeri assim, afinal ele também tem pendências com a Hydra. O desejo de vingança dele, e provavelmente um pouco do senso de justiça heroico, o fez ficar. — A Donna respondeu neutra, sabia que Corinne tinha ressalvas quanto a James, porém ela jamais ligaria naquele horário por simples ressalvas. Havia algo importante a ser dito.

O coração de Roxanne começou a bater de forma opressora dentro do peito. O beijo de momentos antes começando a causar desconforto real agora.

— Certo, isso é plausível à primeira vista, mas e se for algo diferente? — LaRue prosseguiu com perceptível cautela.

No fundo a Donna queria que a francesa falasse de uma vez, como se arrancasse um curativo rapidamente. Porém sabia que não era assim que Corinne agia, ela apresentaria seus argumentos em uma linha de raciocínio coerente, para que Roxanne chegasse na mesma conclusão sozinha.

A própria italiana havia ensinado isso, mas naquele instante se arrependeu de tê-lo feito...

— Como o quê? — Questionou, tentando se manter calma. — O que poderia haver de vantajoso para ele aqui preso na Sicília, Corinne? Eu pensei nisso também, acredite. Por madrugadas a fio. As motivações dele se alinham com as nossas.

Roxanne tentou se convencer que aquilo era apenas Corinne se preocupando de mais, que não havia nada real e plausível para que desconfiassem. Mas e se estivesse vivendo um capítulo daqueles de novo?

E se estivesse se iludindo com um sonho que em breve se tornaria um pesadelo?

— Ele é um Soldado centenário que sofreu décadas de tortura nas mãos da Hydra e que acabou sendo capturado de novo, ele tem todos os motivos para querer acabar com esses malditos. — A Donna afirmou, e odiava estar tentando convencer tanto Corinne como a si mesma. — Assim como você ou eu.

— E aí está “assim como você ou eu”. Você e eu temos um vínculo de lealdade, Roxanne. Por isso eu fiquei, para muito além do desejo de vingança, porque vingança por vingança eu poderia ter caçado cada um deles em separado e os matado. Eu não precisaria ficar esperando. Esperar é prioridade sua, e eu aceito sua prioridade porque sou leal a você. — LaRue rebateu. — Sendo assim, vingança é uma prioridade convincente, mas por que ficar? Ou melhor, por que ele não foi embora?

— Por que ele seria caçado. — Roxanne argumentou. — Eu mesmo falei sobre isso com ele. Eu dei todos os motivos pelos quais não era bom partir. Eu o convenci a ficar.

Talvez LaRue estivesse mesmo sendo cautelosa à toa, Roxie havia analisado todos os pontos mais de uma vez. Não havia motivos pra desconfiar de James.

— Certo, cheguei nessa conclusão também. Você é bem convincente e persuasiva, convencer um homem a fazer exatamente o que você quer não chega a ser uma surpresa. Mas ainda assim, sempre teve algo que não se encaixava pra mim, uma ponta solta em algum lugar, eu não conseguia ver, mas a sensação não me deixava dormir ou esquecer, e a fuga do seu pai me fez pensar em tudo isso de novo, porque ignoramos um detalhezinho e foi tudo por água a baixo. E se fizemos o mesmo com Barnes, e se focamos tanto nas grandes perguntas que esquecemos as pequenas? Então fiz algumas pesquisas... — Corinne contou, e parecia ter finalmente levado a Donna até o ponto certo da linha de raciocínio. — Ele recebeu um perdão total, sabia? Depois da batalha de Thanos, antes disso ele era um fugitivo junto com Steve Rogers. Steve Rogers esse que foi, mesmo que indiretamente, o motivo do tal perdão. Porque sabemos que o Governo não daria uma coisa dessas para um assassino da Hydra por nada, a lavagem cerebral não faria a menor diferença para o sistema de leis deles, aposto. Esses filhos da puta engravatados adorariam fazer Barnes de exemplo. Sendo assim podemos supor que o perdão foi exclusivamente por causa da memória de Steve Rogers.

— Eu sei sobre o perdão, está na internet. — A Donna respondeu neutra, um pouco confusa com aquela conversa. — Mas ainda não entendi onde você quer chegar...

— “Bucky Barnes e Steve Rogers eram inseparáveis, tanto na escola quanto no campo de batalha”. — A francesa recitou como se estivesse lendo algo, então prosseguiu na entonação normal. — Rogers tirou Bucky Barnes das garras da Hydra nesse século, lutou por ele contra os próprios Vingadores, não assinou o tratado por causa dele, virou um fugitivo do governo por ele. Então Steve Rogers morre em batalha e... dá seu escudo para outro homem.

Roxanne franziu as sobrancelhas ainda mais confusa.

— Isso é relevante? — Ela perguntou, começando a se convencer de que a conversa era inútil. — Barnes estava se recuperando de todo o dano psicológico de décadas na Hydra, e ele podia apenas querer se aposentar, ele tem cem anos. Não acho que seja um problema Steve Rogers ter dado o Escudo para um homem que ele achava mais digno do manto.

— E não é um problema. Esse é exatamente o ponto! — Corinne exclamou como se a verdade estivesse bem ali. Roxanne ainda não via nada. — O melhor amigo de uma vida do Barnes disse, com todas as letras, “Sam Wilson vale a pena, ele é digno, ele é um bom homem. Ele é o cara!” Você realmente acha que o Barnes não ouviu isso?

— Eu ainda não sei onde você quer chegar... — A Donna declarou absolutamente confusa.

— Você nunca demorou tanto pra acompanhar minha linha de raciocínio... Mas tudo bem, eu explico. Barnes recebeu um perdão e voltou para Nova York, pelo que sabemos. Está na internet. Então o governo tomou posse do escudo que pertencia por direito a Sam Wilson, e o deu para um Zé Mané branquelo. Barnes e Wilson são vistos lutando juntos contra supersoldados no mesmo lugar que esse tal maluco branquelo matou um “terrorista” com o escudo. Depois de tudo isso, Wilson assume o manto oficialmente, e resolve conflitos com um grupo extremista de supersoldados em Nova York, e Bucky também estava lá, segundo os rumores. — Corinne foi colocando tudo em uma linha temporal coerente. — Sendo assim, tudo leva a crer que Barnes ajudou o Capitão América verdadeiro a pegar o Escudo de volta...

Roxanne finalmente viu então, e estava tão óbvio que ela se sentiu absolutamente burra.

— James é leal a Sam Wilson. — Declarou em voz alta, interrompendo LaRue.

Aquilo tudo nunca foi sobre as motivações de Barnes para ficar, essa foi apenas a pergunta inicial que levou ao raciocínio completo, o problema estava em um ponto mais sutil...

— Exato! E como ele não seria? Wilson é a escolha do melhor amigo de cem anos de Barnes. — A francesa expôs. — Então, a pergunta realmente relevante e sem resposta aqui é:

— Por que ele não me falou sobre Sam Wilson quando eu perguntei se havia alguém que procuraria por ele? — A Donna verbalizou, revivendo aquela conversa.

Barnes sequer respondeu diretamente, ele fez um gracejo e a envolveu em bobagens. Isso indicava que ele não queria responder.

— E por que ele não retornou para o Estados Unidos imediatamente e contou para o Capitão América que a Hydra está de volta? — Corinne questionou também, seu tom quase vitorioso.

Roxanne começou a rever todas as interações que teve com James, começou a questionar cada piada e cada sorriso. Certo, ele não havia citado Sam Wilson nenhuma vez, a única informação que ela tinha foi dada por Frank, através de mensagem, depois que o Soldado Invernal pousou na Sicília. Barnes e Wilson supostamente não se davam...

Mas isso era verdade? E, se fosse mentira, por que o Capitão América não estava procurando pelo suposto amigo?

Se arrependeu de não ter checado todos os fatos desde o começo. Presumiu que o time de inteligência de Viktor teria feito todas as pesquisas possíveis antes de colocar as mãos no Soldado Invernal. Pelo visto os idiotas eram tão incompetentes quanto o próprio chefe.

— Roxie? — Corinne chamou e a Donna percebeu que tinha ficado calada por tempo demais.

— Se ele é leal a Sam Wilson... As prioridades dele estão comprometidas. Barnes tem uma vulnerabilidade que pode ser facilmente encontrada pela Hydra. Ele se torna um elo fraco. Se ele ficou, ao invés de contar ao Capitão América, é porque ele está protegendo Wilson... — A Donna foi enumerando todas as problemáticas. — E, se tudo isso é verdade, chegamos ao ponto mais importante, ele mentiu pra mim, não diretamente talvez, mas omitiu informações de forma consciente. Isso faz dele alguém em quem não posso confiar.

Ela tentou manter a calma, porém as imagens do beijo de momentos antes ficavam rodando por sua mente em looping, tornando a coisa toda caótica e vertiginosa.

— Olha, eu descobri que Barnes tinha o perdão condicionado a terapias. Talvez eu consiga informações direto nos arquivos, esse tipo de sessão com certeza tem que ser documentada. — Corinne propôs. — É quase certo que deve estar em um servidor online do Governo, mas talvez não um dos mais criptografados, acho que posso burlar e conseguir os arquivos. Se ele vai ficar, precisamos saber com certeza que não está fazendo isso com vínculos externos que o tornam uma peça vulnerável em seu plano.

Roxanne respirou fundo, ler os arquivos de terapia de alguém parecia algo péssimo. Porém não podia deixar suas emoções falarem mais alto. Se Bucky estivesse mentindo sobre sua conexão com Sam Wilson isso ameaçava o plano como um todo. Porque aquele que mente uma vez mente sempre...

— Você está certa, esses arquivos com certeza existem. — Ela assumiu sua voz mais calma e controlada. Tinha que lidar com aquilo de forma profissional. — Mas você está em uma semana de folga, então...

— Não esquenta com isso, já estou entediada. — Corinne interrompeu e parecia muito satisfeita em poder fazer aquilo. — Te ligo quando conseguir.

No fundo a francesa nunca confiou em Barnes, então descobrir algo daquele tipo com certeza era prioridade para ela.

— Vamos manter isso apenas entre nós duas por enquanto, certo, Corie? — A Donna ponderou que o melhor era não alarmar mais ninguém, desfocar os outros assim por causa de uma possibilidade não era necessário.

— Também acho mais prudente, até termos provas. — A francesa concordou.

Roxanne se despediu e logo ficou sozinha com seus pensamentos. Eram quatro e quarenta e cinco, ela tinha quinze minutos para começar o dia, mas não se sentia nenhum pouco pronta. Jogou o celular na cama e se levantou, pensava melhor enquanto andava.

Caminhou até a porta da sacada e olhou através das cortinas, havia uma silhueta de pé na praia, muito perto do mar, vendo o Sol nascer. James Barnes.

Ele provavelmente ficou ali depois de encontrar a aliança dela.

A Donna tentou ponderar de forma fria a situação, havia essa faísca de raiva e despeito nascendo em seu âmago, mas ela não deixou que crescesse. Não podia deixar que seu ego ferido atrapalhasse sua linha de raciocínio.

Porque era isso certo? Barnes a beijou e uma hora depois ela descobriu que ele escondia coisas dela. Pessoas importantes. Alguém de quem ele realmente gostava. E Roxanne havia contado várias verdades a ele, havia deixado que ele se aproximasse demais... Não parecia uma troca justa.

Ainda assim, nada do que Corinne disse era um problema pessoal, era sobre o objetivo final e a organização...

Era assim que a Donna tinha que tratar do assunto.

Ele começou a caminhar de volta para a mansão, enquanto a italiana colocava os fatos em ordem.

Tudo bem, Barnes era leal a Sam Wilson, e provavelmente estava escondendo isso. Ele de certo queria proteger o amigo de toda aquela confusão com a Hydra.

Isso era plausível.

E nem chegaria a ser um problema se ele tivesse dito desde o começo, Roxanne sempre fez questão de manter todas as pessoas importantes para seus aliados seguras também. Era o inteligente, afinal laços eram fraquezas a serem exploradas pelo inimigo.

Ela teria aceitado que Barnes tivesse pessoas para proteger.

Mas ele não contou. Primeiro problema. Estava escondendo fraquezas e isso podia ser a diferença crucial entre vitória e derrota.

Roxanne não quis analisar o resto; o beijo, os flertes, a aproximação. Nada disso pareceu relevante. Além disso, se fosse ponderar cada um desses itens teria que procurar a motivação por trás deles e não era o momento adequado para isso.

Tinha que ser sucinta e, acima de tudo, justa.

James Barnes havia cometido uma transgressão contra o acordo que eles possuíam. Porém a omissão dentro desse contexto não era algo grande o bastante para ser considerada um crime.

Mas era motivo o suficiente para afastá-lo de qualquer posto de confiança. Principalmente porque a lealdade dele estava em outro lugar.

Roxie passou a mão no rosto de forma frustrada, não era tola em pensar que James seria leal a ela um dia. Ele era um herói afinal. Porém pensou que estava diante de um lobo solitário, alguém leal apenas a si mesmo. E talvez tenha sido exatamente isso que viu nele.

Mas aparentemente não era verdade.

Frank e Corinne estavam certos desde o começo, ela projetou coisas demais em Barnes e isso a fez cometer um erro...

Precisava consertar tudo então. Era a Donna afinal.

Certo, tinha que ir afastando Barnes aos poucos do círculo de confiança, sem que ele notasse, é claro. Então assim que tivesse a verdade em mãos agiria de forma definitiva.

Sendo uma transgressão leve, ele simplesmente não faria mais parte do plano e seria realocado para um lugar seguro, longe das garras de Viktor Strovalenko, parecia o justo a se fazer.

Aposentadoria antecipada.

Porque afinal não podia permitir que ele continuasse ali na Sicília depois disso. Se os objetivos não estavam alinhados, e se ele não era de total confiança, então não valia o risco e era melhor que fosse afastado.

Era uma medida justa e adequada, afinal não foi um crime contra a organização, uma omissão desse tipo não o tornava um traidor.

Porque se o crime fosse de traição, então... não haveria aposentadoria antecipada. Haveria apenas o velório.

Roxanne já tinha assassinado uma quantidade considerável de homens na vida, mas o simples pensamento de fazer algo assim com James Barnes lhe causou certo desconforto. Ela respirou fundo, deixando isso de lado.

Uma transgressão não era um crime, sendo assim ela não precisaria se preocupar com justiça sangrenta naquele dia.

Porém, bem lá no fundo, enquanto seguia para um banho, depois de separar sua roupa do dia, já um tanto atrasada, Roxanne Domenichelli torceu para que Corinne LaRue não encontrasse nada comprometedor nos arquivos de terapia ou em nenhum outro lugar. Nenhuma prova da conexão de Barnes e Wilson.

Queria que ele fosse inocente.

Mas sabia que era seu dever como Donna fazer sua própria investigação nesse meio tempo...

E ainda por cima ela teria que lidar com o maldito beijo na sacada. Decidiu que pensaria no avançar das horas se usaria isso como trunfo em sua investigação ou se simplesmente deletaria o acontecimento de sua mente.

Havia apenas uma única certeza, seria um longo dia...

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Barnes voltou para o próprio quarto em cima da hora, se deixou levar pela paisagem e ficou caminhando na praia enquanto a madrugada se esvaía. Precisava esfriar o corpo, que ainda estava excitado demais com o que havia acontecido naquela varanda.

No fundo ele se sentia um completo idiota por ter sido impulsivo daquela forma, mas a verdade é que, assim que seus olhos bateram em Roxanne naquela sacada, assim que ele deu de cara com aquela beleza tão crua e hipnótica, logo depois de se dar conta que tinha sentimentos por ela, a única coisa coerente em que conseguia pensar era: precisava provar o gosto dos lábios dela.

Devia se sentir péssimo por tudo aquilo, mas a verdade era que, por mais que soubesse de todas as implicações daquele beijo, por mais que entendesse que era um conflito gigante com a operação, ele não conseguia se arrepender nem por um segundo.

Teria beijado Roxanne Domenichelli a noite inteirinha se ela tivesse permitido... Na verdade teria feito muito mais coisas com ela.

Bucky passou tanto tempo congelado, seja na criogenia ou em seus próprios traumas, que ele simplesmente havia esquecido do quão prazeroso era ser tocado por alguém, do quanto ele amava o contato pele na pele...

E, sendo bem honesto, ele não se lembrava do quão intenso isso tudo era. Porque o toque de Roxanne parecia conduzir energia elétrica pelo corpo dele, acendendo tudo pelo caminho, de tal forma que ele se lembrou do quão frustrante, e ao mesmo tempo delicioso, era o estar duro de doer.

As sensações foram tão entorpecentes que ele chegou a cogitar que o supersoro tinha aumentado isso também... Era uma teoria plausível.

Pelo menos essas foram as coisas que ele pensou, enquanto via o Sol nascer, com os pés descalços sendo banhados pela água gelada das ondas que beijavam a areia...

E tanta conjectura tola sobre o tesão salpicado de sentimentos que tinha por uma italianinha deliciosamente cruel, quase fez com que ele se atrasasse.

Barnes tomou banho rapidamente, arrumou o cabelo para que ele parecesse despretensiosamente bagunçado, deixou a barba como estava e vestiu um terno escuro, cuidando de deixar a gravata bem torta de propósito.

Fez tudo isso em uns dez minutos e, na hora certa, estava parado no lugar de sempre na frente do quarto de Roxanne. Mas ela não apareceu, Barnes esperou por mais quinze minutos e nada. Ele estranhou, desceu as escadas e encontrou Benedetta na cozinha lidando com o café.

A Donna ainda não havia acordado.

Bucky voltou para a porta do quarto, tentou ouvir qualquer som do outro lado, mas ali no corredor isso era muito difícil. Seguiu para o cômodo ao lado e conseguiu ouvir que Roxanne já estava acordada, o chuveiro ligado. Ela tinha perdido a hora?

Com um sorriso presunçoso em seu rosto, ele parou novamente no corredor, sequer achou ruim esperar quase meia hora para que a porta do quarto de Roxanne se abrisse em fim.

No fundo amava pensar que havia bagunçado a rotina dela.

— Boungiourno, Italianha. — Soprou, fingindo que seu italiano era uma coisa disforme e arranhada típica de iniciante. — Está atrasada. Não me diga que sua noite foi tão agradável que acabou dormindo de mais?

Os olhos abissais focaram nele e pouco a pouco o sorriso foi morrendo nos lábios de Barnes. Era como se estivesse frente a frente com uma mulher totalmente diferente da que havia beijado na noite anterior. Havia uma frieza escura em Roxanne.

Seus olhos, que pareciam sempre um lago ou um céu noturno, naquele instante eram como o fundo do oceano, a escuridão sem fim engolindo tudo, fazendo com que o temor pelo desconhecido rastejasse sob a pele da tola criatura que ousou espiar ali dentro.

— Achou minha aliança? — Ela questionou em uma polidez impessoal.

Bucky, ainda impactado com a mudança evidente, enfiou a mão no bolso da calça. No fundo desejando dizer que não tinha achado aquela porcaria, como se impedir Roxanne de pegar aquela aliança fosse mantê-la longe daquele noivado infernal.

Não era um bom pensamento para se ter, considerando que Barnes estava em uma Operação que pedia a proximidade com o maldito nazista liderando a Hydra.

Ele tirou a joia do bolso, abrindo a mão de vibranium e a estendendo na direção da Donna.

— Obrigada. — Ela disse simples, devolvendo a peça para seu anelar, enquanto evitava os olhos de Bucky.

Roxanne encarou a própria mão e respirou fundo, erguendo a cabeça em seguida como quem veste uma armadura para a guerra, suas íris pousaram diretamente na gravata masculina, mas ela simplesmente ignorou a peça e deixou Bucky para trás, enquanto descia as escadas.

Ela estava de terno escuro naquele dia, como se tivesse se vestido para sentenciar alguém a morte. Ele odiava gostar tanto daqueles terninhos.

Se sentaram a mesa e Barnes foi basicamente isolado de uma curta conversa entre Benedetta e a Donna. Ele começou a se incomodar com isso, e ficou ainda pior quando a Governanta deixou a cozinha por alguns instantes e um silêncio sepulcral se espalhou pelo ambiente.

Sério que ela era dessas?

Bucky achou um grande exagero, mas pensou saber exatamente qual era o problema.

— Então, vamos simplesmente fingir que ontem à noite não aconteceu? — Ele foi brutalmente direto.

Era só um beijo. Um dos bons, verdade. Mas ainda assim, apenas um beijo...

Roxanne respirou fundo, como se estivesse reunindo forças ou paciência, então ergueu seu olhar na direção de Bucky.

— Você tem uma ideia melhor? — Ela questionou, sendo tão direta quanto ele.

— Eu tenho muitas ideias melhores, na verdade. — Barnes não conseguiu resistir e soltou a piadinha de duplo sentido.

— Dio mio! — A Donna lançou exasperada, se levantando da mesa em um rompante. — É impossível conversar sério com você, não é, Americano?

Ele riu, porque honestamente foi engraçado ser chamado de “americano”. E isso só fez com que Roxanne deixasse a cozinha em passos pesados.

— Ela claramente não está de bom-humor hoje, eu tomaria cuidado, Ragazzo. — Benedetta declarou em seu inglês arranhado.

Bucky ponderou isso por um tempo, por que Roxanne estava daquele jeito? Não era de se esperar que depois de um beijo daqueles ela estivesse pelo menos de bom-humor?

Roxanne, inclusive, parecia ótima quando voltou para o quarto, tinha um sorriso lindo no rosto. Ele começou a se questionar se havia interpretado tudo errado, e se estivesse dopado demais pela excitação para enxergar a verdade?

Bom, ele estava com muito tesão, isso era inegável, chegou a cogitar voltar para seu quarto e resolver tudo com as próprias mãos, mas acabou se “acalmando” um pouco enquanto procurava a maldita aliança no meio da areia.

Porém, mesmo assim, isso não fazia sentido, ele beijava bem, sabia disso. A partir dos dezenove anos seus beijos eram até mesmo famosos na vizinhança... Rolavam boatos de que “o menino dos Barnes” era capaz de fazer uma menina pecar com um simples beijo.

O que na verdade era uma reputação bem legal de se ter, embora isso fizesse de Bucky um rapaz nada bem quisto nas missas. Steve ficava um tanto horrorizado às vezes, mas acabava rindo uma hora ou outra.

Porém isso fazia décadas. E se tivesse desaprendido a beijar? E se naquele século fosse considerado um péssimo beijador?

Besteira.

Esse tipo de coisa sempre foi como andar de bicicleta, impossível esquecer.

Ele procurou deixar tudo isso em um canto da mente, e encontrou Roxanne do lado de fora alguns minutos depois, já pronto para partir.

Chegou até mesmo a abrir a porta do carro para ela naquele dia, mas a Donna olhou para ele por dois segundos antes de declarar:

— Eu vou levar meu carro para a vinícola hoje e você leva o sedan, por favor.

— Sério isso? — Ele perguntou em um misto de surpresa e indignação.

Ela não só estava indo trabalhar com o carrão de luxo, depois de dizer que não fazia isso, como estava excluindo Barnes totalmente.

— Seríssimo. — Roxanne respondeu, dando meia volta e seguindo para pegar seu veiculo na garagem.

Barnes chegou a pensar que ela não teria coragem de fazer uma coisa dessas, porém menos de um minuto depois o carro de luxo estava saindo da mansão e o deixando para trás.

Será que havia como um beijo ser tão ruim a ponto de causar ódio em uma mulher?

Ele sentou atrás do volante, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro sem qualquer resposta coerente. E, considerando o motor de um sedan, é claro que quando Bucky finalmente chegou na vinícola Roxanne já estava lá.

Parou o carro no lugar de sempre e viu que ela ainda se encontrava no estacionamento, parada em frente ao carrão de luxo, conversando com uma mulher que Barnes nunca tinha visto antes.

Era o tipo descolada, roupas largas com correntes em lugares estratégicos, cabelo curto e moderno mesclando verde e preto, tatuagens por toda a parte. Bucky não precisava estar tão perto para saber que era o tipo de mulher bonita que atraía a atenção de todos ao redor, inclusive de outras mulheres.

Roxanne ria audivelmente, enquanto a desconhecida falava em um italiano rápido e gesticulava com animação, passando as mãos no cabelo vez ou outra, jogando um charme desnecessário para a Donna.

Ele resolveu se aproximar, mesmo porque sua audição apurada até captava a conversa dali, mas a moça falava em um italiano tão rápido e tão cheio de gírias que ele mal conseguia compreender.

Tinha acabado de dar dois passos quando uma figura de cabelos loiro-acobreados cortou seu caminho.

— Senhor Barnes! — Georgina pareceu extremamente animada em vê-lo.

A voz dela atraiu um olhar rápido de Roxanne, mas isso não durou tempo o bastante.

— Oi. — Bucky disse simples, vendo a ruiva abrir um sorriso enorme.

— Estava pensando em você ontem a noite... — Ela disse casual demais.

Outro olhar rápido de Roxanne, mas esse Barnes quase perdeu porque tinha as sobrancelhas franzidas em surpresa. Não era o tipo de coisa que as pessoas diziam com frequência. Pensar em alguém durante a noite tinha duplo sentido evidente.

— Estava? — Ele perguntou em um misto de surpresa e confusão.

— É, ontem eu fiz meu famoso risotto ai funghi porcini, e fiquei pensando que seria uma comida típica interessante pra um americano provar. — Georgina comentou em uma animação que a fazia falar as palavras muito depressa. Bucky não conseguiu prestar atenção porque tinha acabado de focar na mão da desconhecida pousada sobre o braço de Roxanne casualmente. — Mas percebi que não tenho seu número de telefone ainda.

O olhar escuro se moveu na direção de Georgina. Barnes piscou algumas vezes tentando sair daquele feitiço. Achou desnecessário dizer que não tinha um aparelho celular.

— Pois é, que pena, eu tenho certeza que adoraria provar qualquer coisa que você cozinhasse. — Foi educado e chegou até a abrir um sorriso, que não era lá muito honesto no momento, porque Roxanne e a desconhecida estavam passando bem ali na frente, caminhando lado a lado em direção ao escritório da Donna.

— Bom, você podia aparecer lá em casa hoje, tenho certeza que posso fazer algo que você vai amar. — Georgina comentou, e talvez Bucky tivesse visto os olhos dela brilharem em expectativa, se não estivesse tão focado em uma certa italianinha de cabelos negros quase sumindo de sua vista.

— Ah... Quem é aquela? — Perguntou, apontando a desconhecida com um gesto da cabeça e sequer notando que mudou de assunto bruscamente.

— É a Jacqueline, Jack pra todo mundo aqui. Ela é uma Mama também, e é irmã do Niccolo. — Georgina comentou solícita. — Mas ela não trabalha aqui na vinícola, tem uma oficina. Geralmente cuida de todos os carros da organização.

Bucky assentiu devagar, assimilando todas aquelas informações. Será que Roxanne e Jacqueline eram próximas?

— Relaxa ela é de confiança, e geralmente fica horas com a Donna. — Georgina comentou, interpretando o silêncio e o olhar focado de Barnes da sua própria forma. — Quer dar uma volta pelas videiras?

Ele só foi puxado de volta para a conversa quando o toque feminino em seu braço direito lhe causou um leve susto. Piscou algumas vezes, tentando processar o que estava acontecendo ali, enquanto sua mente estava focada em outro lugar.

— Eu tenho que ir. — Disse simplesmente. — Com licença. Nos falamos depois, certo?

Sequer viu o assentir animado de Georgina antes de caminhar, ou melhor, basicamente correr, em direção a seu destino.

Porém aquele sentimento tolo de ciúme e urgência e seu peito se provou absolutamente ridículo, porque assim que ele se aproximou do escritório da Donna, Jacqueline já estava de saída.

Ela sorriu amigável, o cumprimentando com um gesto casual de cabeça e então seguindo seu caminho, parando para falar com todas as mulheres que encontrou, enquanto Bucky continuava parado do lado de fora do escritório.

O que pensou que ia acontecer ali afinal? E desde quando era tão impulsivo?

Deixou esses pensamentos tolos de lado e finalmente entrou no escritório, com a postura casual de todos os dias.

— Então... — Caminhou devagar pelo cômodo, fazendo com que sua presença fosse notada. — Algum assunto importante? — Apontou a direção que Jacqueline havia seguido.

Não era invasivo demais, eles tinham uma parceria de ocasião, compartilhar informações era perfeitamente normal.

— Rotina. — Roxanne respondeu, sem de fato olhar para ele. — Gosto de mandar meu carro para revisão periodicamente.

Bucky entendeu porquê o carro de luxo estava ali então, e o motivo de terem vindo em dois veículos separados. Talvez ela nem estivesse tão brava assim, era só impressão.

Ou talvez ele tenha pensado nisso cedo demais...

— Nada importante vai acontecer hoje, James. — Roxanne declarou, antes que ele pudesse se sentar. — Não tem necessidade de ficar enfurnado aqui no escritório o dia todo. Pode ir se entreter pela vinícola se quiser.

Ele franziu as sobrancelhas, desde quando a italianinha era tão fria? Tinham voltado para a época em que ela pensava estar lidando com o Soldado Invernal por acaso?

— Talvez eu vá mesmo. — Barnes retrucou como se fosse nada.

— 'Tá bom. — A Donna sequer ergueu o olhar.

Bucky não sabia se ficava ofendido ou irritado, tentou dizer a si mesmo que era melhor assim, porque quanto menos contato e envolvimento, mas fácil seria cumprir sua missão. Um beijo não mudava isso.

Com o maxilar tensionado, se esforçando para não se importar tanto com a frieza da rainha da máfia, ele virou em direção a porta.

— James, espera. — A voz feminina fez com que ele voltasse imediatamente. Talvez até mais rápido do que o era considerado digno.

Seu olhar encontrou o de Roxanne, Bucky gostaria de dizer que odiava ser sabotado por seus impulsos quando se tratava daquela italianinha, mas isso seria uma grande mentira.

Ela se levantou e o coração dele saiu do ritmo de forma instantânea. Barnes avançou dois passos enquanto Roxanne cortava o espaço até ele, ambos parando ao lado de uma das estantes do lugar, cerca de três ou quatro passos entre eles.

Queria não ficar preso tão facilmente no feitiço daqueles olhos de obsidiana, mas Bucky estava rendido desde o momento em que a Donna chamou o nome dele.

Ela se curvou, fazendo o movimento para se abaixar e aquele segundo fez tudo ao redor parar. Puta merda! Roxanne basicamente se ajoelhou aos pés de Barnes e ele parou de respirar, seu corpo inteiro arrepiando, montando um cenário mental absurdamente depravado de tudo aquilo, enquanto seu coração pulava batidas.

Se tivesse qualquer possibilidade de um supersoldado infartar, Bucky sabia que o momento era exatamente aquele.

No entanto, ao invés de seguir o roteiro mental das fantasias dele, Roxanne puxou a portinha da estante e voltou a se levantar com uma caixa pequena em mãos.

— Esqueci que não te dei um desses. — Ela estendeu o objeto na direção de Barnes, já totalmente de pé. — Acho que é importante ter um, nunca se sabe.

Ele piscou algumas vezes, para que sua mente voltasse da letargia e observou a imagem de um aparelho celular de última geração no topo da caixa.

Espera... Um aparelho de comunicação era um grande voto de confiança.

— Você tem um estoque de telefones celulares guardados aqui? — Barnes lançou, agindo como se sua surpresa evidente se devesse a esse fato simples. A bem da verdade estava surpreso por isso também.

— Um estoque não. Tenho um, às vezes dois. — Ela respondeu, voltando para sua cadeira atrás da grande escrivaninha de mogno. — Essas coisas quebram tão fácil hoje em dia, gosto de ter reservas.

Barnes piscou algumas vezes, tentando não se chocar com o fato de que a Donna estava falando de aparelhos celulares de ultima geração, como alguém normal falaria de escovas de dente de cinco dólares.

Gente rica ela muito excêntrica mesmo.

— Por que agora? — Ele questionou, agindo como se fosse apenas uma pergunta simples.

Roxanne apoiou as mãos sobre a escrivaninha, sua postura imponente de Donna tirando o foco de Barnes por um segundo.

— Você não é meu prisioneiro, James. Sabe disso, certo? — Ela declarou com uma voz macia, porém firme. — Se precisar de uma noite de folga, desde que não seja nada público que arrisque seu disfarce e desde que você não minta para mim, eu não me importo. Você pode ter conexões emocionais com outras pessoas, eu só gosto de saber desse tipo de coisa, porque conexões são vulnerabilidades a serem exploradas.

Bucky piscou algumas vezes, ignorando o arrepio desconfortável que a advertência da Donna causou e tentando processar todas aquelas informações e encaixá-las em uma linha lógica.

Ele já estava mentindo para ela.

Mas não podia ser isso, afinal o telefone, a coisa de conexão e vulnerabilidades, nada disso se encaixava com ele estar trabalhando para o Alto Conselho.

— Espera. Tudo isso por causa do que a Georgina disse? — Ele presumiu, era a opção que melhor se encaixava. Só podia ser isso.

Roxanne moveu a cabeça devagar e, se Barnes não soubesse que estavam falando da ruiva, ele teria acreditado que a Donna só havia se lembrado da existência da outra mulher naquele exato instante.

— Georgina é uma boa moça, e de confiança. — As palavras saíram por entre os lábios femininos quase automáticas, e os olhos de Roxanne pousaram nos papeis sobre a escrivaninha. — Imagino que deva ser entediante para um homem como você ficar aqui esperando oportunidades em uma missão que pode durar muito tempo. Se quiser, então vá e se divirta, não tenho nada contra isso.

Barnes odiou a forma despreocupada e fria como tudo aquilo foi dito.

— É isso que você quer que eu faça? — Ele perguntou de forma direta e dura e isso atraiu as íris escuras de volta.

Roxanne ficou em silêncio por quase três segundos inteiros, como se estivesse ponderando uma infinidade de coisas extremamente importantes ao mesmo tempo.

— Eu quero que você seja honesto comigo, James, só isso. — Ela disse por fim.

Bucky não pensou que seria confrontado sobre os motivos por trás daquele beijo, não daquele jeito tão direto, não tão rápido. Por que aquilo só podia ser sobre o beijo, certo?

Isso explicaria o comportamento de Roxanne desde cedo, ela certamente estava tentando entender o que aconteceu.

O problema é que Barnes não tinha respostas para isso, porque ele também não sabia.

— Olha, eu... — Ele passou os dedos de vibranium pelos cabelos nervosamente, enquanto buscava o que dizer.

Roxanne respirou fundo, quase como se ela esperasse as próximas palavras mais do que tudo e, ao mesmo tempo, estivesse aliviada por Bucky estar disposto a falar.

— Honestamente eu só queria te beijar, então beijei. Você é linda e eu me deixei levar. Não tem nenhum outro grande motivo. — Bucky disse as palavras rápido demais, se sentiu idiota por elas, mas sabia que seria ainda mais estranho se tivesse dito toda a verdade. — Sabe como é, certo? Fazer uma coisa apenas por querer.

Aquilo era o mais próximo que podia chegar da verdade. Porque afinal falar sobre os sentimentos recém descobertos por Roxanne estava fora de cogitação, ainda estava em conflito sobre isso. E além desse ponto haviam apenas mentiras, missões secretas, disfarces e todo o resto...

A única coisa que Roxanne queria dele, Barnes nunca poderia dar por completo. Honestidade.

Ela franziu as sobrancelhas, quase como se estivesse surpresa que o assunto “beijo” tivesse surgido, sendo que foi ela própria quem o puxou. Ele assistiu enquanto uma sequência indecifrável de emoções cruzava o rosto da Donna.

— Isso claramente foi um erro... — Ela passou a mão pelo rosto e seu tom tinha muito de frustração.

Bucky teve a nítida impressão que ambos estavam falando de assuntos diferentes.

Ela respirou fundo, havia um certo quê de irritação ali. Sua postura mudou um pouco, parecia ter decidido abandonar o assunto porque não valia a pena discuti-lo.

— Não, Barnes, eu não sei como é fazer uma coisa só por querer. — Retrucou, e apesar da percepção que ele teve, o assunto prosseguiu o mesmo.

— Você é a rainha disso aqui, pode fazer o que quiser. — Bucky rebateu no tom de quem diz a maior verdade de todas, quase uma acusação.

Roxanne soltou uma risada seca e curta, sem humor algum, como se estivesse dizendo que ele era um garoto ingênuo que nada sabe.

— Tem razão, eu sou a rainha disso aqui, significa que tenho deveres e obrigações. Fazer coisas pelo simples querer é um luxo fora do meu alcance. — Ela revelou com um dar de ombros simples e um tom desprovido de emoções.

— Se você é a mulher mais poderosa da Sicília e ainda assim não pode fazer algo apenas por querer, então você é apenas uma prisioneira em uma gaiola dourada. Qual a vantagem de ser a rainha da máfia então? — Bucky questionou com honestidade.

— Você não entenderia... — Roxanne deixou no ar, o esboço de um sorriso triste demais se formando em seus lábios fartos.

Ela respirou fundo, como se tivesse acabado de tomar uma decisão, e falou antes mesmo que ele tivesse chance de abrir a boca.

— Olha só, Barnes. Esqueça aquele beijo, como você bem disse, não significou nada, foi apenas coisa de momento. — A Donna decretou simples.

— Eu não disse que não significou nada. — Ele rebateu. Também não havia deixado claro que significou, ainda assim, era diferente.

— Não posso jogar esse jogo com você, Barnes. — A italiana respondeu, dando um suspiro cansado e voltando a se concentrar em seus malditos papeis.

Aquilo tirou Bucky do sério, seu sobrenome sendo repetido diversas vezes, o “James” sumindo repentinamente, o modo como Roxanne estava colocando distância entre eles...

— Por que você tem uma missão e um noivo. — Ele jogou os motivos da lista dela como se fossem coisas tolas. Não sabia exatamente de onde estava vindo aquela revolta, mas seu sangue fervia naquele momento.

— Tenho. — Roxanne sequer ergueu o olhar.

— Ah, para. — Barnes rebateu sarcástico. — Não fica agindo como se isso fosse te impedir de cumprir seus objetivos. Eu quero destruir a Hydra tanto quanto você. Além disso, colocar um chifre na testa daquele babaca nazista é basicamente reparação histórica.

Roxanne riu, o som se espalhando na sala e trazendo calma instantânea para Bucky. No entanto, no momento seguinte ela segurou o sorriso, se remexendo desconfortável como se estivesse odiando a si mesma por rir.

Na verdade, quando os olhos escuros encontraram Barnes ele teve quase certeza que também estava sendo odiado por arrancar aquela risada dela.

A Donna levou três segundos, mas tornou a se levantar, dando a volta na escrivaninha, e se encostando na frente dele, quase sentada sobre o mogno escuro.

— Talvez você tenha razão. — Ela disse, os olhos intensamente focados em Bucky, — Mas é isso que você quer? Ser meu amante?

A palavra dita com tanta ênfase fez um gosto amargo tomar conta do paladar de Barnes. Ferrar com Strovalenko soava bem; se deixar levar pelos beijos de uma italianinha impossível era como ouvir uma boa música... Mas assumir o posto de amante. Aquela merda fazia o ego de Barnes se contorcer em agonia.

E podia parecer hipocrisia, talvez até fosse mesmo, porém ele não conseguia evitar...

Mas o que estava pensando afinal? Que Roxanne abriria mão de um noivado diretamente conectado ao resgate do irmão dela por causa de uns beijos?

Estava evidente que se aquilo se estendesse ele seria “o outro”.

Um eterno segundo lugar.

Era isso que queria?

O silêncio sepulcral foi toda a resposta necessária.

— Foi o que eu pensei... — Roxanne declarou presunçosa.

Ficou claro que ela tinha feito de propósito, havia esfregado a verdade nua e crua na cara de Bucky porque sabia que ele recuaria.

No fim ela estava certa, o melhor era esquecerem aquele beijo. A própria missão de Barnes ali pedia isso. Ele só estava se recusando a ver o óbvio.

— Você é um homem de princípios, Barnes. E eu sou uma mulher muito complicada, com problemas ainda mais complicados que me deixam sem tempo para distrações. — Ela tinha voltado para seu lugar atrás da mesa. — Não somos compatíveis.

— Então você está me empurrando para a Georgina? Essa é a sua solução? — Ele moveu a embalagem ainda fechada com o celular para ilustrar sua frase.

Se sentiu como um brinquedo obsoleto jogado na caixa de doações.

— Não. Eu estou apenas sendo honesta. — Roxanne rebateu calmamente. — Estou dizendo que a porta está aberta pra você ir onde quiser, inclusive para onde estão puxando você. — Seus olhos escuros focaram nos azuis. — É só não mentir para mim.

Aquela advertência de novo. Barnes devia se sentir culpado porque afinal tinha uma longa lista de mentiras nas costas, mas ele havia acabado de levar um murro no ego e ainda estava um tanto irritado com isso.

— Então você pode mentir para mim, mas eu não posso mentir pra você? — Acusou sarcástico. — Não parece justo.

— A vida não é justa, Barnes. — A Donna rebateu dura, embora estivesse perfeitamente calma, como se nada no mundo pudesse afetá-la. — Você tem cem anos, já devia saber disso.

Bucky chegou a abrir a boca para responder, mas acabou desistindo. Aquela discussão não os levaria a lugar algum, ele tinha que parar de se deixar levar por seus sentimentos e focar em sua missão. Era isso que estava fazendo ali afinal.

Ele apenas meneou a cabeça em decepção e saiu. Deixando Roxanne sozinha no escritório e procurando algo para ocupar seu dia.

Foda-se aquele beijo e foda-se aquela italianinha impossível...

Barnes estava decidido a não falar mais nada com ela, passou o restante do dia caçando o que fazer na vinícola. Georgina apareceu e pediu ajuda com algumas coisas que haviam chegado para o Ferragosto, isso ocupou a manhã toda. Quando pararam para o almoço a ruiva ainda insistiu para configurar o celular novo dele e é claro que colocou o próprio telefone na agenda, salvando o da Donna logo depois.

Bucky até gostaria de ter prestado mais atenção na conversa, mas a verdade é que seus olhos procuravam cabelos negros e um terninho escuro por toda parte, e sua mente se dividia entre relembrar cada detalhe da madrugada anterior e condená-lo por estar agindo de forma idiota dentro da Operação Roleta Russa.

Criar atrito com Roxanne não era inteligente.

A bem da verdade, ali pelo fim da tarde, depois de carregar coisas de um lado para o outro com Georgina em sua cola o tempo todo, Barnes não lembrava mais o motivo de tanta irritação.

A Donna sempre foi honesta sobre não estar disponível, repreendeu os flertes dele em mais de uma ocasião inclusive. Foi o próprio Bucky quem insistiu naquilo e pulou uma sacada no meio da madrugada porque não conseguia resistir a ela.

Podia até se sentir como um brinquedo em uma caixa de doação, mas a verdade é que Roxanne Domenichelli nunca brincou com ele.

Então, dada as burradas impulsivas que o próprio Barnes tinha feito, esquecer aquele beijo era mesmo a melhor solução para a missão como um todo.

Com isso resolvido em sua mente, ele se deu conta que ficar longe da Donna não parecia inteligente. A intenção de tudo aquilo não era justamente ficar por perto para descobrir o máximo de coisas possíveis?

Dado os argumentos, Bucky acabou se despedindo de Georgina e voltando para o escritório. Pela missão, apenas por isso.

Roxanne estava ocupada em seus negócios, falando com Niccolo por telefone e Barnes simplesmente se jogou na poltrona de sempre, porque era o seu comportamento de basicamente todo dia.

A conversa era sobre o encerramento das buscas por Vicenzo e a retomada da rotina. Nick geralmente era o responsável por cobranças e outras coisas pertinentes da máfia, era sobre isso que ele e a Donna falavam.

Quando a ligação acabou, Roxanne pousou seus olhos em Barnes, que estava ali em sua própria poltrona com um livro em mãos como se nada tivesse acontecido mais cedo. Ela nada disse, dando a ele um sorriso mínimo que podia muito bem ser apenas educação.

Assim o Sol foi sumindo no horizonte e as horas passando lentamente.

Volta e meia Barnes tirava seus olhos do livro porque tinha essa impressão de que estava sendo observado, mas quando erguia a cabeça encontrava apenas Roxanne concentrada em seus assuntos. Devia ser impressão.

— Outro dia você me disse que não tem ninguém nos Estados Unidos. — A voz feminina preencheu o silêncio de repente, no tom casual de quem apenas está jogando conversa fora.

— Eu não tenho. — Barnes encolheu os ombros, ainda com os olhos focados em seu livro.

— E quanto ao Capitão América? — Roxanne questionou simples.

Ele ergueu a cabeça e encontrou as íris escuras, vendo apenas uma curiosidade legítima ali. Riu disso, revirando os olhos já sabendo o que viria a seguir.

— Steve está morto. — Respondeu, sentindo as palavras amargarem. — A história da Lua é mentira.

Algumas pessoas haviam cismado com essa teoria, e honestamente Bucky sequer sabia de onde tinha surgido esse absurdo. Era como se todo mundo estivesse esperando Steve Rogers aparecer novamente.

Mas ele não iria, Bucky sabia disso melhor do que ninguém.

— Eu estava falando do novo Capitão América. Sam Wilson. — Roxanne corrigiu, ainda usando o tom casual.

Bucky voltou seus olhos para o livro, sabia que estava entrando em terreno perigoso, ainda não tinha certeza da intenção daquela conversa, mas focou na história que havia montado antes de começar a Operação. Não podia contar a verdade para a Donna, afinal isso revelaria que ele mentiu desde o começo e nunca foi o Soldado Invernal.

— Eu e o Samuel não nos damos bem. — Não tardou a respondeu, dizendo aquelas palavras com um mover desinteressado dos ombros.

Aquela afirmação foi verdadeira um dia, então não era difícil fazer com que parecesse honesta.

— Está me dizendo que não é sequer colega do homem que o seu melhor amigo escolheu para ser o portador do legado de Capitão América? — O tom de Roxanne tinha um quê de diversão e incredulidade.

— É exatamente o que eu estou te dizendo. — Barnes não titubeou. — Wilson é um bom homem, mas começamos com o pé esquerdo, eu quase o matei uma vez e o meu envolvimento o colocou na Balsa em outra ocasião, além de mantê-lo longe da família por muito tempo. — Outro encolher de ombros, aquela era a verdade afinal. — Steve e ele eram amigos, mas eu não sou tão amigável com as pessoas assim se quer saber.

A Donna assentiu, como se aceitasse as palavras, sua postura despreocupada, as mãos apoiadas nos braços da cadeira giratória, fazendo com que o objeto rodasse de um lado para o outro em meia lua.

— Ainda assim, você lutou ao lado dele contra supersoldados...

Bucky não sabia para onde aquela conversa estava caminhando, mas estava claro que Roxanne estava focando demais nisso e tinha feito pesquisas. Talvez estivesse tentando preencher as lacunas, ou podia ser outra daquelas conversas totalmente a ver com Damian, que Barnes só entenderia depois. De um jeito ou de outro ele soube que não podia cair em contradição. A Donna ficaria muito desconfiada caso acontecesse.

— Eu lutei ao lado de Wilson para fazer valer o último desejo do Steve. Eu só queria tirar o escudo de John Walker e dá-lo para seu verdadeiro dono, os supersoldados vieram no meio do rolo. Além disso Zemo escapou da prisão nessa época e tudo acabou conectado. — Explicou, usando a verdade para a maioria dos fatos. — Tivemos que ir atrás do Barão em Madripoor, foi assim que o idiota ativou o Soldado Invernal por um tempo, foi bem pouco, acho que ele só queria provar que a história sobre Wakanda ter desfeito minha programação era falsa.

Ali as mentiras começavam a se amontoar, precisava criar uma linha cronológica coerente para Roxanne, uma que culminasse em Zemo usando o Soldado Invernal afim de escapar da Balsa, para então “vendê-lo” ao Strovalenko.

E já que ninguém sabia que foi o próprio Barnes quem ajudou o Barão a fugir da primeira vez, aquele era outro detalhe da história que não poderia ser refutado.

Bucky sabia que se qualquer um pesquisasse mais a fundo, descobriria que em seu perdão oficial constava que as Dora Milaje e a Princesa Shuri haviam desfeito a programação do Soldado Invernal. E, sem programação ativa, a mentira contada para Strovalenko caía por terra, sendo assim, esse era um ponto que ele precisava explicar bem.

Essa oportunidade surgiu quando Roxanne focou os olhos na figura masculina com as sobrancelhas franzidas...

— Achei que dizer ao governo que eu continuava instável e que poderia ser controlado por algumas palavras não me ajudaria a ganhar um perdão, então menti. — Ele contou, movendo as mãos em um gesto banal. — O governo faz isso o tempo todo mesmo, chumbo trocado não doí.

Sabia que essa frase agradaria Roxanne e de fato ela esboçou um sorriso.

Bucky se sentiu hipócrita, porque acreditava que o Governo era mentiroso, porém estava trabalhando para esse tipo de gente mesmo assim. Quer dizer, tecnicamente o Alto Conselho não era regido pelo governo, mas com certeza tinha um bando de político por trás de tudo.

E Roxanne os veria como o Governo com certeza.

Uma organização liderada por engravatados e por uma Condessa, dedicada a fazer com que leis valessem. Com certeza a rainha da máfia os veria como inimigos.

Barnes decidiu não pensar nisso naquele momento e apenas seguiu contando:

— Depois que capturamos Zemo, o Walker matou um garoto, arrancamos o escudo dele na base da porrada e eu ainda vi Sam Wilson duas vezes. Uma porque fui incumbido de levar até ele um traje feito por Wakanda, e eu não podia negar, afinal esse país me abrigou sem cobrar nada por dois anos. E a última vez foi em Nova York, quando os Apátridas atacaram, eram supersoldados feitos com base no soro que criou Steve, eu não podia deixar que se safassem, por isso fui até lá.

— Porque você é um herói que não resiste fazer a coisa certa... — Roxanne comentou, e o olhar dos dois se encontrou.

— Se quiser ver assim. — Bucky não viu motivos para impedir esse raciocínio. Talvez isso até cobrisse os pequenos buracos naquela mentira.

Sabia que tinha que justificar qualquer interação entre ele e Sam, por isso citou Nova York e mesmo sua visita a cidade dos Wilson. Se alguém cavasse por informações, ele já havia contado uma história que explicaria tudo.

Porque, sim, naquele instante ele já havia começado a cogitar que as perguntas eram propositais, não sabia o motivo, mas focou apenas em contar os fatos da forma mais verídica que podia.

— Depois disso, eu e Wilson nunca mais nos vimos. E esse sempre foi o plano, depois que terminássemos a missão cada um iria para o seu lado. Ele não gosta de mim, eu não fazia questão nenhuma de manter essa amizade. — Focou em Roxanne por alguns segundos, lembrando do que ela mesma havia dito uma vez. — Ele me lembra o Steve, e o Steve se foi.

“Uma boa mentira compromete você.”

Mostrar um pouco de vulnerabilidade e colocar um empecilho emocional em uma aproximação com Sam, pareceu algo que daria para a história toda mais veracidade. Barnes odiava pensar assim, mas... estava confiante em suas mentiras.

— Parece simples quando você fala. — A Donna comentou, analisando as expressões masculinas.

— Não é. Garanto. — Ele disse aquilo com o máximo de honestidade que podia fingir.

Parou por um segundo, ponderando se valia a pena fazer a pergunta que queria. E decidiu que a melhor forma de lidar com aquela situação era ser direto e agir como se tivesse nada a esconder.

— Por que esse interrogatório agora? — Questionou então, mantendo seu olhar gélido em Roxanne de forma neutra.

— Se isso fosse mesmo um interrogatório você estaria preso lá embaixo só de cueca nesse instante. — Ela respondeu, também sem tirar os olhos dele.

Bucky não soube dizer se foi de propósito, ou se a Donna apenas disse as palavras e só depois reparou o quanto elas soaram... eróticas. Ele perdeu a linha de raciocínio por um instante, sua mente saindo do foco para lhe mostrar imagens detalhadas e tentadoras que sexualizavam aquela cena muito mais que o apropriado.

Será que era para parecer uma ameaça? Porque honestamente soou como uma proposta.

Roxanne focou em sua escrivaninha, juntando os papeis e guardando as coisas como se estivesse dando o dia por encerrado. Ela agiria mesmo como se não tivesse dito nada com um duplo sentido evidente?

— Estamos lutando contra a Hydra, a ajuda do Capitão América seria interessante. — Ela comentou, respondendo a pergunta de antes em tom casual. — Além disso, fiquei curiosa pra saber por que você não tem amigos.

— Porque tenho cem anos e todos eles já estão mortos. — Bucky fechou seu livro. — Quanto ao novo Capitão, não acho que ele apoiaria o que você faz aqui...

Aquilo era verdade, Sam talvez não lidasse tão bem com ter que trabalhar ao lado da líder de um império criminoso. Ou quem sabe, se conhecesse Roxanne um pouco melhor, ele até mudasse de ideia... No fundo era difícil saber, principalmente depois da Karli. Mas de toda forma não era algo que Barnes estava disposto a descobrir, quanto mais longe Wilson ficasse dos assuntos, e do foco, da Hydra melhor.

Arriscar a vida dele era a última coisa que Bucky desejava. O mundo precisava do Capitão América afinal.

— Você também não apoia e aqui estamos... — Roxanne respondeu simples, enquanto guardava alguns documentos na gaveta.

— Eu nunca disse isso. — As palavras de Barnes fizeram com que a Donna parasse e focasse os olhos escuros nele. — Entendo suas prioridades, Roxanne. Além disso, não sou um grande fã do Governo e das leis deles...

Aquela última parte não era exatamente verdade, Bucky entendia que as leis eram necessárias para manter a ordem. Mesmo que o sistema inteiro precisasse de mudanças urgentes, todos os erros do Tratado de Sokovia provavam isso. Mas sair quebrando várias leis apenas por não concordar com algumas delas, parecia o jeito errado de lidar com as coisas.

Tinha que existir alguma ordem, para que não restasse apenas caos.

— Coisa estranha pra um Sargento dizer. — Roxanne ponderou neutra.

Barnes sabia que era perigoso deixar que a Donna pensasse que ele simpatizava com o Governo. Porém, na verdade, ele não simpatizava tanto assim, sempre tinha um politico idiota no poder fazendo merda, mesmo a Hydra já havia se infiltrado naquele meio com facilidade.

Contudo, não simpatizar com o Governo e ser totalmente contra ele como um anarquista eram duas coisas bem diferentes...

— Eu fui convocado para a guerra, não fui voluntário. Lutei pelo meu país porque fui obrigado, e isso me custou noventa anos de tortura. — Usou parte da verdade como escudo. — Além disso, já quebrei a lei, então não posso julgar você por fazer o mesmo.

Roxanne analisou o rosto masculino com as sobrancelhas franzidas, havia esse pequeno sorriso no canto de seus lábios, mas não era uma expressão de aprovação nem nada assim, era mais como incredulidade.

— Você quebrou de verdade a lei quando estava sendo totalmente controlado por uma organização nazista, a única transgressão cometida enquanto você mesmo foi fugir do Tratado de Sokovia, não é a mesma coisa. — Ela respondeu em um tom levemente critico, quase como se acusasse Barnes de comparar quebrar um copo com roubar um banco.

Na verdade, ele também havia ajudado um criminoso internacional a escapar da prisão de segurança máxima. Tudo bem, que o capturou novamente depois, e ninguém sabia de nada disso.

— Pode até ser, mas metade das coisas que muita gente faz hoje em dia eram consideradas crimes na minha época, sabia? — Ele moveu os ombros, se colocando de pé em seguida, porque a Donna também tinha acabado de fazer o mesmo. — Quando se viveu mais de cem anos algumas coisas são colocadas em perspectiva. As leis não são eternas ou absoluta são um sistema em desenvolvimento e evolução.

Isso era verdade, ele realmente acreditava que cedo ou tarde as coisas melhorariam, era um processo longo, mas ele podia ver a evolução em cem anos.

— Ou seja, você está vivendo sob a ilusão de que minhas ações serão descriminalizadas um dia, assim você se sente melhor sobre estar envolvido. — Roxanne rebateu um tanto irritada ou decepcionada, difícil saber com certeza.

— Não foi o que eu disse. — Barnes respondeu.

Estavam perto agora, porque ambos tinham começado a caminhar em direção a porta. A Donna parou no meio do cômodo, os braços cruzados na frente do corpo.

— Nem sempre é o que você diz, às vezes é o que está por trás das palavras. — Ela retrucou com o queixo erguido. — Eu faço o que acho certo pelo meu povo. Acredita mesmo que as mudanças feitas na lei são o bastante? Foram cem anos, Barnes, e a população continua sofrendo. A diferença social ainda impera; o preconceito mata muito mais do que assassinos de aluguel; as mulheres ainda são preteridas em todos os âmbitos e parecem sempre em risco de perder a autonomia sobre os próprios corpos. A verdade é que o sistema como um todo não protege os que mais precisam, as leis são tão falhas que podem ser curvadas pelo dinheiro, enquanto aqueles que não tem esse privilegio continuam à margem. Cem anos, mas se você colocar na ponta do lápis as mudanças são irrisórias. Grandes conquistas, verdade, mas a maior parte das pessoas não vive cem anos, elas não podem esperar, elas precisam de mudanças agora. Então é, eu cometo crimes, e não me importo com isso. — Cada palavra era ainda mais dura que a anterior. — Importa menos ainda se você apoia isso ou não.

Bucky ponderou aquelas palavras, procurando uma forma de refutar, o problema é que o raciocino de Roxanne não estava de todo errado. Afinal muito tinha sido feito, mas ainda faltava muito mais pela frente, e embora ele confiasse que a sociedade chegaria lá um dia, a verdade nua e crua é que a maioria das pessoas não viveria o suficiente para ver.

Se fosse brutalmente honesto, nem ele próprio teria visto... Se não tivesse sido capturado pela Hydra, teria morrido sem saber que um dia dois homens ou duas mulheres poderiam se casar legalmente, e terem todos os seus direitos enquanto cônjuges garantidos por lei.

Ele chegou a abrir a boca para terminar aquela conversa de forma pacífica, mas o toque do celular de Roxanne os interrompeu.

— É o Frank. — Ela avisou olhando a tela. — Tenho que atender.

Voltou para sua cadeira giratória lançando um olhar a Barnes como se esperasse que ele saísse, porém desde que os dois haviam feito um acordo ele participava de todas as reuniões. E se Frank estava ligando era sobre Strovalenko, então Bucky não iria a lugar algum.

Além disso, não fazia o menor sentido Roxanne afastá-lo dos assuntos da missão, certo?

Ela finalmente atendeu, enquanto ele se aproximava um pouco mais da escrivaninha.

— Está podendo falar? — Foi a primeira coisa que Francesco Greco questionou, ele sempre ligava por vídeo e daquela vez não foi diferente.

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— Sim, Barnes está aqui comigo. — Ela respondeu neutra.

Frank o cumprimentou educadamente e Bucky fez o mesmo.

— O que foi? — Roxanne questionou, como se tivesse visto algo nos olhos do homem no vídeo que a deixou imediatamente ansiosa.

— Está começando, Donna. — Frank declarou no tom que dava toda a importância da informação. — Um deles veio até o Strovalenko hoje.

— O Representante? — Ela perguntou apressada.

— Não. Mas é um dos grandes. Kurt Werner. — A resposta veio em seguida.

Bucky franziu as sobrancelhas minimamente, ele conhecia aquele nome... Um arrepio de profundo desconforto cortou seu corpo. Seu coração disparando como se o perigo estivesse bem diante de seus olhos.

Werner era um dos grandes dentro da Hydra, ele estava para a Alemanha assim como Alexander Pierce estava para os Estados Unidos. Mas não era apenas isso, Pierce usava o Soldado Invernal em missões, mas Werner tinha um fascínio doentio pelo projeto, como se houvesse algo mágico em tirar de alguém toda e qualquer gota de livre arbítrio.

Constantemente Kurt Werner entrava em conflito com Alexander por isso, porque ele queria levar o Soldado Invernal a extremos apenas para testar os limites do controle.

Pierce era o freio de Werner, mas considerando o comportamento de Strovalenko, os dois seriam como pólvora e fogo juntos.

Por um instante curto a mente de Barnes acabou por lhe sabotar, ele apenas esqueceu que não era mais o Soldado Invernal, que agora não precisava seguir ordens cegamente e era capaz de se defender. O impacto do nome foi tanto que ele paralisou, como se estivesse na criogenia de novo, o pavor completo perfurando seus pulmões como estalactites de gelo e lhe impedindo de respirar.

— James? Tudo bem? — A voz de Roxanne puxou Bucky do fundo de sua mente, mas foi o toque suave dos dedos dela sobre o dorso da mão direita dele, que trouxe a verdade nítida e clara.

Estava seguro. Não estava mais nas garras da Hydra agora. A percepção de que estava na Sicília o fez respirar com mais calma.

— Eu o conheço. Era um dos nomes envolvidos com o projeto Soldado Invernal. — Soprou, sem sequer chegar a cogitar se manter essa informação apenas para si mesmo seria ou não benéfico para a Operação Roleta Russa. — Ele deve ter pelo menos setenta anos agora.

Pousou os olhos gélidos na mão de Roxanne, ainda sobre a dele, e ela se afastou quase imediatamente.

— É mais ou menos essa idade que a cara de maracujá de gaveta dele aparenta. — Francesco declarou neutro e assim que os olhos da Donna pousaram na tela ele pareceu prever o que ela pediria. — Vou fazer o que posso para descobrir se ele gerencia alguma base e onde ela está localizada.

A italiana assentiu, seu queixo apoiando em sua mão direita enquanto ela parecia pensar em um milhão de coisas ao mesmo tempo.

— É um bom sinal, Donna. Strovalenko está avançando e ganhando respeito. — O homem do outro lado da linha disse em tom acolhedor. — Era o que você queria, lembra? Quanto mais cedo ele se tornar o principal líder, mais cedo vamos conseguir ter acesso a todos os que ainda estão escondidos.

Ela respirou fundo e assentiu.

— Eu sei. — Soou convicta. — Mais alguma coisa que eu deva saber?

— Sim, Werner tem contatos nos Estados Unidos, ele está propondo uma operação a um lugar chamado “Departamento de Controle de Danos” para captar recursos. — Frank informou e Bucky sentiu uma pontada de preocupação lhe bater. — Ele diz que existem tecnologias inovadoras lá, que foram apreendidas e guardadas em cofres. Não sei exatamente o que é, porque ele disse apenas a Strovalenko, mas aparentemente Werner está focado nisso desde que foi apreendido, ele tem feito uma réplica visual.

— Ele quer invadir furtivamente o DCD e fazer uma troca? — Roxanne presumiu rapidamente.

Era o tipo de operação inteligente, porque não atrairia a atenção de um roubo, ninguém saberia que a tecnologia foi furtada até que fosse tarde demais. Era a Hydra em sua melhor forma, escondida nas sombras como sempre.

— Exato. — Frank confirmou a teoria da Donna.

— Esse tipo de operação pede pessoal qualificado, ou pode atrair atenção indesejada... — Bucky opinou, ainda pensativo.

— Então Kurt não tem pessoal, por isso ele procurou o Viktor. — Roxanne completou.

— E deve ser algo muito importante pra ele cogitar jurar lealdade a um novo líder, ainda mais um tão novo. — Barnes emendou, porque o Werner que ele conheceu nunca faria nada assim a menos que fosse extremamente proveitoso. — Ele está atrás de algo bem importante pelo jeito.

Talvez devesse guardar aquele tipo de informação para si mesmo, porém não pensou nisso naquele momento. Era mais importante descobrir o objetivo de Werner, depois pensava em como isso se encaixava na Operação Roleta Russa.

— Sabe algo mais sobre a tecnologia, qualquer detalhe que possa nos ajudar a identificar o que é? — A Donna questionou, e a julgar por seu nível de preocupação era evidente que ela entendia a importância daquilo.

— Não sei muito, como eu disse, a maior parte das informações foi dada apenas para o Strovalenko. Werner chegou a citar o número do cofre apenas, estou enviando por mensagem. — O italiano respondeu e rapidamente Roxanne puxou um notebook.

Com o número do cofre em mãos ela começou a procurar por informações.

— O número do cofre pode ser usado como identificação, assim as pessoas podem recorrer quando julgam a apreensão indevida. — Ela começou a contar e Barnes deu a volta na mesa para se posicionar atrás da cadeira e ver melhor. — Porém a segurança eletrônica do DCD é insana, não tenho conhecimento o bastante pra invadir um servidor assim, ainda estou estudando essas coisas com a Corinne. Se eu forçar a invasão posso acionar alarmes.

— Isso levantaria suspeitas indesejadas. — Frank ponderou.

— Sim... — A Donna assentiu, abrindo várias abas ao mesmo tempo enquanto fazia pesquisa. — Vários outros cofres chegam a ter arquivos públicos, mas esse em questão não.

— Mais uma prova que é algo grande. — Bucky se curvou sobre o encosto da cadeira, Roxanne virando o rosto na direção dele por causa da aproximação repentina.

Os dois trocaram um olhar rápido, que fez tudo esquentar no corpo de Barnes, para então esfriar repentinamente quando a italiana voltou a focar no notebook.

— Parece que estamos em um beco sem saídas. Posso tentar conseguir mais informações e ligar depois. — Frank comentou com um suspiro pouco conformado, suas sobrancelhas levemente franzidas para a cena que ele tinha acabado de presenciar. — Ou talvez devêssemos ligar para a Corinne.

— Um lugar assim tem que ter uma lista de acessos... — A Donna soprou, como se estivesse pensando em voz alta. — Qualquer pessoa que tentasse passar pela portaria para falar sobre esse cofre seria identificada. E geralmente os dados da portaria são mais fáceis de acessar. Mesmo sem ter as habilidades de uma hacker eu consigo. Talvez isso seja uma pista que leve a algum lugar.

Dito e feito, depois de uma infinidade de minutos uma lista de visitantes estava na tela, e passado a busca rápida o numero do cofre estava vinculado a uma única tentativa de entrada que foi negada, um homem que tentou acessar os cofres não tinha permissão para isso por não ser o herdeiro legal das coisas apreendidas. O nome e foto dele constava no arquivo.

Harold Joseph Hogan.

Roxanne estava prestes a jogar isso no google, mas Bucky pousou a mão de vibranium sobre a dela.

— Eu sei quem ele é... — Declarou e, embora o nome não tenha lhe dito nada, a foto foi perfeitamente reconhecível. Ele já tinha visto aquele homem antes. Em um velório.

Alguém o havia chamado de “Happy” na ocasião.

— Aquele cofre tem tecnologia Stark. — Revelou tenso.

Roxanne pousou os olhos nele, as sobrancelhas franzindo minimamente, antes que ela liberasse a mão e jogasse o nome no Google mesmo assim. Happy Hogan era segurança particular dos Stark.

— Espera aí. Tony Stark pode estar morto, mas as Indústrias dele ainda tem poder suficiente pra revogar uma decisão do DCD. — Francesco ponderou incrédulo.

— Talvez eles não queiram fazer isso, a filha dele é pequena demais para lutar pelo legado do pai e a esposa pode não querer mais mexer com isso, ou simplesmente achar que está tudo mais seguro com o DCD. — Barnes ponderou, tentando espantar a tensão imediata que essa descoberta havia causado.

— Pode ser, o Controle de Danos tem mesmo feito avanços consideráveis em segurança. Eles mantiveram o Abominável preso por um bom tempo. — O italiano acabou concordando.

— Se Viktor conseguir tecnologia Stark isso pode torná-lo invencível. Pode tornar qualquer um deles invencível. — Roxanne focou direto no ponto principal, ignorando os pormenores e parecendo sequer cogitar duvidar das palavras de Bucky.

Era tecnologia Stark, claro que era, só isso faria Werner sair do buraco, Barnes sabia muito bem, e foi impossível continuar espantando a tensão, ela tomou conta de tudo como uma bomba explodindo.

Não podia deixar o legado de Tony Stark cair nas mãos da Hydra, era o mínimo que devia a ele depois de tudo.

Tony era o único nome que não foi colocado no caderno de reparações, porque nunca poderia ser reparado, mas agora havia uma oportunidade. Manter a tecnologia Stark longe das mãos de Werner e Strovalenko era uma questão de honra...

Roxanne estava pensativa, o queixo apoiado nas mãos, os olhos na tela do notebook, havia esse quê de desconforto claro em sua postura. Ela ergueu a cabeça, prestes a dizer algo, porém Frank foi mais rápido, como se já soubesse o que seria.

— Não temos como sabotar isso sem levantar suspeitas, Donna. — Ele aconselhou firme. — Impedir essa empreitada de Strovalenko vai fazer com que ele desconfie de vazamentos internos.

— Mas não impedir vai dar a ele poder incalculável. — Bucky rebateu, tentando conter sua revolta. Eles tinham que fazer alguma coisa.

Roxanne respirou fundo, seus olhos alternando entre Barnes e a figura de Francesco do outro lado da tela.

— Bom, esse poder é exatamente o que vai fazer o Viktor ascender a liderança mais rápido. Teremos que lidar com as consequências disso depois. — Ela decretou firme e Bucky não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.

Só podia ser brincadeira!

— Certo, ligo se tiver mais notícias. — Francesco acatou imediatamente.

— Obrigada, Frank, e cuidado. — A Donna pediu com a preocupação de sempre.

— Ah... provavelmente vamos fazer isso na próxima semana. Então não estaremos aí no Ferragosto. — O italiano avisou e naquele instante Bucky sequer conseguiu apreciar essa notícia.

— Sinto muito por você, Frank. — Roxanne disse com pesar.

— Tudo bem, ano que vem comemoraremos todos juntos. E com sorte você já vai ser viúva até lá. — Ele deu um sorriso através da tela.

— E meu irmão vai estar em casa. — Ela soou otimista e logo a ligação foi encerada.

Bucky tremia de raiva, seus olhos intensamente gélidos focados em Roxanne.

— Stark era um gênio, ele pode ter criado qualquer coisa e isso vai acabar nas mãos dos seus inimigos. — Ele acusou, tentando conter seu tom. — Você está cometendo um erro.

Ela girou a cadeira na direção dele. Seus olhares se encontrando, Barnes muito mais alto por estar de pé.

— Não. Eu priorizei. — A Donna respondeu de forma simples e clara. — A Hydra ainda não sabe que eu sou o inimigo, mas impedir essa missão poderia colocar Frank e todos os meus homens que estão lá em perigo. Ariscaria o disfarce deles, e nesse caso todo o meu plano desmoronaria. Eu teria que enfrentar meus inimigos mais cedo e possivelmente nunca encontraria meu irmão. Então eu fiz uma escolha, sobreviver hoje para lutar amanhã. Além disso são apenas coisas. E pessoas vem antes de coisas. Sempre.

Bucky respirou profundamente, seu maxilar trincado e seu olhar seguindo para longe da Donna.

— Não são “apenas” coisas, é tecnologia Stark.

Roxanne analisou o rosto masculino sem pressa, havia uma calmaria ainda mais irritante nela. Como se nada do que ele pudesse pensar em falar fosse capaz de mudar uma única virgula do que já estava decidido.

— Odeio dizer isso, Barnes, mas a única coisa que tornava a tecnologia Stark tão especial era o homem por trás dela. — A Donna argumentou, apoiando as mãos nos braços da cadeira giratória. — Tony Stark era o gênio, ele sabia como tirar o melhor de cada criação, e ele está morto agora. Portanto a tecnologia que ficou para trás é como os artefatos alienígenas espalhados pelo mundo, ou como as joias cósmicas que ficaram nas mãos da Hydra por muito tempo. É apenas uma arma, apenas uma coisa, e eu vou me preparar para lidar com isso, porque eu escolhi a opção que me dá tempo pra fazê-lo.

Nenhuma dessas palavras acalmava Bucky, na verdade ele ficava cada vez mais incrédulo. Roxanne não podia estar falando sério, ela não via o potencial catastrófico daquilo tudo?

— Entendo que seja um conflito emocional, você lutou ao lado de Tony Stark no campo de batalha e o viu morrer, não vou fingir que sei como é isso, porque nunca enfrentei um alienígena roxo e seu exército. — Ela prosseguiu, e o tom quase divertido não amenizou em nada a postura dura de Bucky. — Mas eu não posso tomar essa decisão baseada no seu emocional. Eu sou a Donna, não uma heroína. O risco de impedir Viktor é muito alto, e o benefício de deixá-lo vencer dessa vez pode me ajudar a alcançar meus objetivos.

Barnes apertou o maxilar enquanto meneava a cabeça em um misto de decepção e irritação.

— Eu pensei que você fosse diferente.

— Eu nunca disse isso. — Roxanne rebateu, aparentemente nada afetada com aquelas palavras.

Os dois continuaram se encarando, parados na mesma posição, o clima ao redor deles tão tenso que o ar parecia pesado.

— Quer me dizer mais alguma coisa, Barnes? — A Donna questionou e por um segundo aquilo soou como um desafio.

Bucky podia ter dito, podia ter listado diversos motivos pelos quais aquela decisão estava errada, porém ele sabia que não adiantaria. A Donna já havia decidido como agir, e ela era uma maldita italianinha teimosa que não mudaria de ideia.

Mas tudo bem, porque Barnes não precisava dela para impedir que a tecnologia Stark caísse em mãos erradas.

— Te espero no carro. — Foi o que ele escolheu dizer, caminhando para porta em seguida, mas parando no batente, quando notou que para colocar seu plano em prática precisaria de algum tempo livre — Na verdade... pensei muito essa tarde e eu acho que você estava certa. Eu vou gostar de umas noites de folga pra sair com a Georgina.

Roxanne virou a cadeira naquela direção, seus olhos escuros encontraram os azuis, mas era quase impossível decifrar as emoções contidas naquele lago abissal. Ela pareceu irritada talvez.

— Certo. — Sua voz, no entanto, não possuía qualquer traço dessa emoção — Pode tirar todas as noites de folga, se quiser, menos aquelas em que o Viktor estiver aqui, por motivos óbvios.

— Parece justo. — Bucky assentiu, não sabendo como se sentir por ela ter cedido tão facilmente.

Não era como se quisesse ver a rainha da máfia lutar para ganhar a atenção dele... Não. Claro que não. Mas poxa, ela nem piscou...

— Aqui... — Roxanne abriu a gaveta e digitou rapidamente a senha em um pequeno cofre que Barnes já sabia que estava escondido no fundo falso. Em seguida haviam três modestos maços de Euros sobre a mesa.

— O que é isso? — Barnes franziu as sobrancelhas, surpreso com aquela atitude.

— Você não é meu prisioneiro, nem meu escravo. Então é justo que eu pague pelos seus trabalhos, não é? — Roxanne respondeu sem qualquer comoção.

— E desde quando eu trabalho pra você? — Ele jogou de volta, sem saber se devia se ofender com aquele gesto.

O que aquilo significava, que ele era um mafioso? Que era como qualquer outro ao redor de Roxanne?

— Estou pagando pelo seu tempo. — Ela tratou aquilo com a naturalidade de quem paga o entregador de pizza. — O tempo que você dirige pra mim, o tempo que você faz coisas aqui na vinícola, o tempo em que você tem que esperar pra podermos agir contra o Viktor. Ou será que meu dinheiro é sujo demais pra você aceitar?

Barnes ponderou isso por um instante, e se deu conta que a forma mais segura de executar seu plano era ter algum dinheiro disponível. E já que não pôde trazer nada com ele dos Estados Unidos...

— É, faz sentido eu receber pelo meu tempo dirigindo pra você. — Disse apenas, voltando alguns passos e pegando os Euros. — Talvez eu compre flores pra Georgina, é de bom tom quando a gente vai em um encontro.

Roxanne piscou devagar, seus olhos pousando no notebook logo em seguida.

— Suponho que seja. — Ela respondeu sem grande interesse. — Pode preparar o carro, vou só responder um e-mail.

Ele não disse mais nada, apenas seguiu para porta, não podia se afetar mais com a frieza de Roxanne Domenichelli, era hora de focar na Operação Roleta Russa.

— Barnes? — Ela chamou quando ele estava na porta, mas dessa vez Bucky não se virou ansioso, apenas olhou sobre o ombro. — Peônias. — Ele franziu as sobrancelhas sem entender. — São as flores preferidas da Georgina.

Bucky assentiu, rindo sem humor algum daquela ironia. A mesma italianinha impossível, que tinha feito o corpo dele pegar fogo com um simples beijo na noite anterior, estava dando conselhos sobre as flores certas para comprar para outra mulher.

Bucky gostaria de dizer que a percepção de sentir Roxanne Domenichelli escorrendo por entre seus dedos como areia seca não o afetou em nada, mas isso seria mentira...

Aquela merda incomodou de verdade.

Porém não havia tempo para isso, ele precisava afastar a tecnologia Stark das garras da Hydra.

Era bom que o Alto Conselho fosse útil...

Notas finais
É treta, atrás de treta! Tava demorando pra alguém começar a procurar as pontas soltas na história do Bucky, por "sorte" a Corinne achou a ponta solta errada, ainda assim, ele tá correndo risco de ser descoberto. Será que o Bucky vai conseguir despistar essas suspeitas todas, mesmo sem saber exatamente quais são essas suspeitas? Nem só de romance a gente vive, infelizmente... Uma hora ou outra as convicções e prioridades do Bucky e da Roxie entrariam em conflito, não tem como eles concordarem em tudo sendo um herói e a rainha da máfia. Vamos ver onde isso vai dar... Sexta eu tô de volta. Beijos e até!